Souvernirs de Paris(12/2/11)

Última semana de Paris. Quatro meses e meio de vida na Cidade Luz e a sensação de que deveria ter feito mais coisas. Não fui ao Louvre, não vi a exposição do Monet, não vi as outras boas exposições que estavam em cartaz na cidade, não fui conhecer a Euro-Disney como me recomendara um amigo, nem mesmo passeei muito pela cidade.
 

Cheguei no dia primeiro de Outubro. Me instalei em pequeno apartamento em uma maison universitária e aqui nestes 27 metros quadrados passei a maior parte do meu tempo. Lendo o jornal do Rio, falando com Mario Bag pelo Skype, trocando figurinhas com amigos no Facebook, preparando as aulas que ia dar na universidade, escrevendo meus artigos para o Diário, tentando terminar trabalhos acadêmicos intermináveis e, principalmente, lendo os livros do Simenon, exclusivamente os do Inspetor Maigret.
 

Sempre que pensava em uma longa temporada no exterior tinha medo da solidão dos finais de semana. Perguntava aos amigos que tinham vindo sozinhos: o que você fazia nos seus finais de semana? É. Porque durante a semana, bem ou mal a pessoa tem uma certa rotina a cumprir, mas os finais de semana... os finais de semana são terríveis para quem está solitário no estrangeiro. Jantar e almoçar sozinha no restaurante, fazer longos passeios sozinha pela cidade, ver as coisas que estão anunciadas na Pariscope sozinha... Tudo isto é meio melancólico, mesmo em Paris.
 

Felizmente, fui compensada pela maravilhosa experiência de dar aulas para um pequeno grupo de alunos franceses e latino-americanos da cátedra Simon Bolívar que ocupei como professora visitante, na Université Sorbonne Nouvelle - Paris 3, junto ao Institut des Hautes Etudes de l´Amérique Latine (IHEAL). Eles tinham (com a exceção de um único e excelente aluno de 46 anos) entre 22 e 24 anos, no máximo.
 

Meninos e meninas aplicados, educados e amáveis, com uma relação muito respeitosa com a professora brasileira que falava tão mal o francês. Gente boa e inteligente que se interessa pelo Brasil e que um dia vai produzir estudos importantes para aprofundar o conhecimento da realidade de nosso País na Europa.
 

A maior parte desses alunos é orientado pelo professor Olivier Compagnon, historiador e cientista político francês que vem dedicando seus estudos ao Brasil e promovendo o estreitamento dos laços do IHEAL com a comunidade acadêmica brasileira.
 

Nesta mesma direção vai o trabalho de três jovens historiadoras francesas: Anaïs Fléchet, Juliette Dumont e Silvia Capanema. É graças aos esforços delas que se constituiu aqui em Paris a Association pour la Recherche sur le Brésil en Europe (Arbre) que vêm promovendo uma série de palestras em espaço especialíssimo: o templo da Igreja Positivista.
 

Esse pequeno auditório onde a Arbre vem realizando suas reuniões e conferencias é uma versão em ponto menor da Igreja Positivista do Brasil, situada na rua Benjamin Constant, no Rio de Janeiro. A última dessas conferências a que assisti foi a de Jacques Leenhardt, professor da École, amigo querido, que discorreu com alto e raro brilho sobre Gilberto Freyre.
 

Passei o Natal na casa de Claudia Poncioni e Jean-Yves Mérian. Casal de intelectuais, cujo apartamento junta o calor típico da nossa acolhida à máxima sofisticação francesa em jantar que nos deixou, a mim, ao Chico e à Raquel, muito impressionados. Claudia, que acaba de defender sua tese de livre docência sobre o engenheiro francês Louis Vauthier, se integrou ao projeto coordenado por Márcia Abreu, da Unicamp e Jean-Yves Mollier, da Universidade de Versailles Saint-Quentin sobre a circulação de livros, homens e ideias entre o Brasil e a Europa do século XIX. Projeto grandioso que promete dar bons frutos e do qual tenho a honra de também fazer parte. A chegada de Márcia aqui em Paris e a companhia constante de nosso amigo querido, Luiz Carlos Villalta, tornou a minha vida bem mais animada.
 

Para coroar tudo isto, já no finalzinho da temporada, chegaram Clélia e Valmir. Só assim fui ao museu d´Orsay e pude me quedar deslumbrada diante dos quadros de Degas, Van Gogh e de Cézanne. Andarilhos que viveram em Paris tantos anos e conhecem bem a cidade, eles lograram me tirar de casa e me obrigam a fazer longos percursos a pé, eu que estava viciada em andar debaixo da terra indo a todos os lugares de metrô. Onde, aliás, invariavelmente me perdia a ponto de Luzia Simons - reencontro maravilhoso que tive aqui ainda em dezembro - ter me recomendado a leitura de "Zazi no metrô".
 

Enfim, é sempre deste jeito: quando a gente está se acostumando, quando começa a ficar bom, acaba. Sentirei saudades.

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