Cartas de mãe (24/11/12)

Jayme Zettel encontrou com Mario Bag na Lagoa indo pra o remo no Botafogo. Conversa vai, conversa vem, Bag explicou a ele que estava adorando o remo, ao contrário do Chico que tinha que ser praticamente forçado a ir nos últimos anos da adolescência. Bag explicou que eu usava todo o tipo de artifícios para convencê-lo a ir, desde a chantagem, passando pela ameaça e chegando até ao suborno. Daí que o Zettel, com aquele seu olhar maroto, comentou baixinho: deve ser terrível ser filho da Isabel. Não pude deixar de rir do comentário e, agora, procurando inspiração para essa crônica, achei nos meus arquivos cartas que escrevi para o meu filho no começo de sua adolescência. Peço desculpas a ele por divulgá-las mas ela em nada o comprometem, só denunciam a mãe superprotetora e um tanto sufocante que ele tem. Mas não sei se hoje se tivesse um filho adolescente, escreveria outra coisa. Seguem abaixo alguns trechos para sua análise:

Querido filho, mesmo você achando que não estou qualificada a dar palpites sobre sua performance junto ao sexo feminino, atrevo-me a dar-lhe alguns conselhos.

1. O princípio de tudo é a autoconfiança, a autoestima, ter uma imagem positiva de si. No seu caso isto é facilitado porque você é realmente um cara alto, bonito, inteligente, boa praça e que tem uma conversa culta e variada. E não sou apenas eu, sua mãe, quem o diz. Essas coisas em si, fazem um homem atraente? Sim, mas precisam ser reforçadas pela confiança nelas. Confie e acredite que você é bacana, que não há motivo algum para ser rejeitado. Se aproxime das pessoas com segurança, sem hesitação. Um bom sorriso de chegada desarma até os mais antipáticos.

As mulheres, mesmo as mais bonitas (ou especialmente essas) são também muito inseguras. Elas também precisam saber que as pessoas gostam delas e as acham bonitas. Elas também têm o maior medo de serem rejeitadas e temendo o serem, adotam uma atitude antipática e distante. Quando aquela garota que não te dava bola aparece com um sujeito sem qualquer encanto você fica se indagando: o que ele tem que eu não tenho? A resposta é: confiança e capacidade de insistir e de seduzir. Por isso seja o primeiro a abordar a garota mais bonita. Dizendo exatamente isto: tudo bem? Sabia que você é a garota mais bonita desse lugar? Se ela fizer gênero, insista um pouquinho, faça ela sorrir dizendo que você faria qualquer loucura por ela. Amor e humor têm tudo a ver.

2. A melhor maneira de se aproximar de uma mulher é olhando para ela e sorrindo. Não tenha medo de olhar. O olhar já ganha a pessoa e evidencia seu interesse. Aprenda a falar com os olhos, a expressar desejo, afeto, interesse só com o olhar. Não tenha medo de olhar. Olhar é mais fácil do que falar. Os olhos, como se diz, são as janelas da alma. E isto vale tanto para expressar o que está dentro da gente quanto para apreender o que vem de fora.

Se a pessoa corresponde ao seu olhar, sorria. Flertar é o primeiro passo para a aproximação. Se a pessoa corresponder ao seu sorriso, não hesite, aproxime-se. E o primeiro papo pode ser mesmo banal: e aí, tudo bem? Mora por aqui? Vem sempre aqui? Diga coisas simpáticas: como ela está linda, como aquela roupa lhe cai bem, como tem os dentes e os cabelos lindos, como a voz dela é sexy... etc. Não tenha medo de revelar seu encantamento. O papo é também uma oportunidade para mostrar como você é um cara que sabe se colocar e, principalmente, como é sensível, capaz de demonstrar real interesse pelo outro. Se tiver oportunidade pegue na mão. O contato físico das mãos pode ser muito sedutor Mesmo se a garota que você está interessado não corresponder de imediato ao seu interesse, insista, mas dose sua presença, não pegue no pé, que é chato. Mande umas mensagens, faça uns cartões, ataque com frases inteligentes em pedacinhos de papel deixados na carteira de escola dela. Se, depois disto tudo você for mesmo rejeitado, deixe pra lá. Tudo bem, nem todo o mundo acha graça nas mesmas pessoas. A rejeição faz parte do jogo. A gente é rejeitado aqui, rejeita outra pessoa ali.

3. Ter umas amigas para conversar é um bom caminho para entender a alma feminina. É muito bacana ter amigas mulheres que confiem em você e que sabem que você é capaz de ouvi-las. O problema desse tipo de relação é que, depois que se estabelece, a gente vira irmãozinho e, a partir daí, é muito difícil mudar o status da relação. Se você está interessado numa garota, deixe isto claro. É melhor levar um fora do que ficar irmãozinho da pessoa que a gente quer. Se ela de todo o modo insistir em fazer confidências, abra o jogo: diga que não está a fim de ouvir aquele papo e que se ela quiser falar sobre vocês dois, você topa. Pode acontecer de você ter uma amiga e seu interesse se modificar. Aí o importante é você, primeiro, ter isto claro na sua cabeça para, em seguida, deixar isto claro para ela. É uma forma de não sofrer e de verificar se você tem alguma chance. Se não tiver, dê um tempinho na amizade até curar.

4. Todos nós, homens e mulheres, somos atraídos pelas pessoas mais complicadas, difíceis e misteriosas. Mas pessoas complicadas tendem a causar sofrimento aos que lhe são próximos. Ou por não saberem o que querem; ou por terem uma necessidade imensa de seduzir as pessoas em geral para se afirmar, pois, sendo inseguras, querem provar a si mesmas que são capazes de se fazerem amar. A literatura e o cinema estão cheios de personagens assim. Ao longo da vida a gente vai encontrar e se envolver com elas. A vontade de mudar ou de ajudar alguém em situação de risco está, muitas vezes, na origem desse tipo de ligação. Mas ninguém muda ninguém. Cada pessoa é dona de seu próprio destino. Pessoas que têm problemas com drogas, com bebida, com jogo, ou as criadoras de caso, que se sentem perseguidas ou vítimas do mundo, são um fardo para quem lhes quer bem.

O primeiro ano do resto de nossas vidas (17/11/12)

Ontem, conversando com mamãe, perguntei-lhe se Iazinha já tinha morrido. Iazinha era uma prima dela que morava em algum lugar para os lados da Lauro Maia, creio eu e que a gente visitava de tempos em tempos. Tenho vaga lembrança da casa e do resto de sua família mas lembro bem de sua cara larga, meio quadrada, tão paraibana e tão característica das mulheres da família de mamãe. Eu não tinha como saber se Iazinha morrera, desconfiava que sim e perguntei até para puxar assunto. Mamãe respondeu que não e ficou indignada com a possibilidade da prima, a que era mais chegada, ter morrido sem que lhe tivessem contado. Mais tarde, chegou a Dadal e ficou confirmado que de fato a Iazinha já tinha morrido há muito tempo. Mamãe é que tinha esquecido.
Mas mesmo com esses lapsos de memória - afinal são 98 anos - a cabeça de mamãe continua excelente. Ela é capaz de lembrar telefones, datas, de fazer humor às custas dos outros e de achar graças nas nossas piadas.  Ultimamente tem ajudado o Kiko a dar aulas de português ao Gabriel. Clélia me contou que dá exemplos para diferenciar “expiar” de “espiar”: “Gabriel expiou suas dívidas”. Kiko, aliás, é agora sua melhor e mais constante companhia. O filho mais velho do Lustosa, do qual a Clélia é tutora desde que ele era bem mocinho, encontrou nos cuidados com a avó algo importante para fazer.
Afetuoso, o contrário do resto da família, sempre querendo contato, Kiko insiste em perguntar se é o mais querido e ouve, depois da terceira vez, o “deixe de besteira, menino” tão característico de dona Dolores que já disse em entrevista de sua aversão ao excesso de afagos físicos. Se não declara seu amor por este neto especial, dona Dolores, no entanto, diante do desejo dele de viajar a Europa, o que ele não pode fazer sem companhia, declarou que se tivesse 95 anos, iria. Kiko é o alvo preferencial de suas broncas e piadas. Ontem mesmo ela o criticou por ter respondido a alguém que lhe perguntara o que fazia que não fazia nada. Mamãe insistiu para que ele repetisse que da próxima vez dirá: dou assistência à minha avó.
Se a cabeça lhe prega peças, ela consegue dar a volta por cima rapidamente. Assim é que disse outro dia que o Parsifal, seu filho tão problemático, morto há alguns anos, estivera aqui em casa. Quando lembramos que o Parsifal já tinha morrido ela parou, refletiu um pouco e completou: esteve em sonhos, eu o vi entrando aqui na sala bem de mansinho.  Não se deixou apanhar. E está sempre atenta para essas armadilhas que a cabeça lhe prega. Talvez por isso esteja tão bem, tão lúcida e ainda tão necessária em nossas vidas.
Por tudo isto fiquei surpresa com a reação dela diante da possibilidade que lhe sonegassem informação tão importante quanto a da morte de Iazinha. Por isso também não achei justo que se pensasse, em um primeiro momento, em não lhe contar da morte do filho mais velho e, nos últimos 18 anos, o mais próximo, por passar boa parte do tempo em sua companhia. Na verdade, nos meses que o Lustosa ficou sem vir, por causa do tratamento, ela foi sendo informada, com cuidado, é claro, da gravidade do caso. Informada porque, de sua cadeira, em posição central na sala, ela acompanha tudo à sua volta. Assim os telefonemas, as conversas sussurradas, o ar de preocupação e de tristeza do povo não lhe passaram despercebidos e ela insistiu em saber o que estava acontecendo.
Recebeu a notícia da morte do filho com um ar de perplexidade. Sem lágrimas. Falando com o Paulo ao telefone, em meio a outros assuntos disse que, de novo, só a morte do Lustosa. Quando voltamos de Sobral, depois da linda cerimônia de lançamento de suas cinzas no rio Acarau, a encontramos a postos em sua cadeira. Ao abraçá-la, ela me perguntou como tinha sido, se tinha muita gente, como correra a homenagem. No entanto, esse terrível acontecimento, talvez por lhe parecer tão impossível, foi logo esquecido. De modo que, há poucos dias ela perguntou à Clélia se o Lustosa tinha sido despedido do “Diário do Nordeste”, pois sua coluna não estava mais saindo. Depois de lembrada, mostrou surpresa por ter sido tudo tão rápido e perguntou como vai ficar a situação da Verônica. Mas, em poucos minutos, indagou se o Lustosa ia escrever em outro jornal.
Ontem, me perguntou porque o Lustosa não tem mais vindo e quando ele virá. Eu lhe disse apenas que ia demorar. Olhei para ela e entendi que entendera. Achei melhor não insistir nessa informação que ela prefere não “realizar” (no sentido que a expressão tem em inglês). Na verdade, não quer lembrar. Mas também não quer esquecer do filho. Quer ficar nesse limbo que lhe possibilita ainda esperar pela volta dele. Pois com uma consciência tão aguda de tudo, com uma capacidade de participar de qualquer conversar, de falar com segurança ao telefone (conversas prejudicadas apenas por sua má audição), seu esquecimento é seletivo.
De resto, este ano de 2012 que vai chegando ao fim de forma tão melancólica foi um ano de grandes perdas para a família. Perdas inéditas por terem sido marcadas por uma nota trágica. Perdas que implicam numa inflexão na vida que levamos até agora. Pois, como na música do Milton Nascimento, a partir delas, sabemos que nada será como antes. Felipe Mello, filho de Evelucia e Célio, neto de Lucia e Benevides, foi embora em meio a um drama de repercussão internacional que se estendeu por semanas e em que se misturaram esperança e angústia. Lustosa partiu pouco depois, quase imediatamente após o diagnóstico da doença. Sem essas duas criaturas tão amadas, tão importantes nas nossas vidas, ficamos mais pobres, mais vazios. Só nos resta o consolo de imaginar que, a essa hora, lá no céu, Felipe com sua graça, seu charme e sua inteligência faz rir ao tio-avô que tanto apreciava descobrir tais qualidades entre os membros de sua vasta família.

Memórias pitorescas e sentimentais: O Patuá (10/11/12)

O Patuá começou a ser escrito nas escadarias que ligavam o segundo ao terceiro andar do IFCS. O projeto gráfico e quase todos os desenhos eram do Cesar da Mata mas o cérebro por trás daquela perigosa organização criminosa era mesmo o Julio Cesar Adiala. O Pátua tinha sua origem na Frente Alienada do IFCS criada pelo Julio e pelo Dico (Jurandyr Leite). A FA-IFCS era anarquista e costumava anotar na margem dos cartazes pregados nas paredes do corredor. Lembro bem de um que trazia o verso de João Cabral: um galo sozinho não tece uma manhã, abaixo do qual Julio escreveu: Mas dá um bom ensopadinho.
O Patuá trazia como subtítulo: o jornal da Coobagana (braço armado da coosativa), entidade que se auto-intitulava como a maior frente desarticuladora do pensamento formal e metafísico do IFCS. O lema da Coobagana se inspirava na célebre frase do Che: hay que travar-se pero, sin perder la bagana jamás. Sua tiragem era uma ironia com a Hora do Povo: rumo aos 100.000. O jornal oferecia um brinde do mês (coisas como uma bagana, uma seda, um pilão) sempre associado a um slogan do tipo: mais erva ou paramos o Brasil, voar é com os ácidos e outros que tais.
O personagem que dava nome ao jornal, Basílio Patuá, era produto de uma criação coletiva, mas o redator de sua biografia era o Macarrão. O primeiro editorial lembrava uma das bandeiras de Basílio: ópio para o povo e anunciava que sua obra seria divulgada através do Instituto histórico e cultural pela preservação da memória de Basílio Patuá. Para combater a influência perniciosa do Patuá, Luís Carlos Prestes publicaria carta (naturalmente forjada pelos redatores), em que Basílio é apresentado como um agente do imperialismo que vivia a desvirtuar a juventude mundial:
Camaradas patuístas de norte a sul, de leste a oeste, quem aqui vos fala é Luís Carlos Prestes. Quero nesta missiva manifestar minha indignação com o lançamento deste periódico difamador, que se lança contra instituições democráticas arduamente conquistadas pelo proletariado. (...) O grande Stálin, em 1932, denunciava no Comintern a contribuição negativa de Basílio Patuá para o avanço da consciência socialista. Conclamo todos os comunistas a cerrarem fileiras contra esse ser viciado combatendo desde já o jornal Patuá. Saudações Proletárias. L. C. Prestes.    
Boa parte da publicação se dedicava a ironizar os colegas da própria equipe. Dentre estes, o alvo preferido era o Washington que se propunha a publicar artigos sérios, invariavelmente atacados (tanto o autor quanto o texto) nos números seguintes. No número dois, foi publicada uma prova de sociologia forjada pelo Julio e atribuída ao Macarrão, onde se liam pérolas como: P: Porque Marx afirma que a consciência não determina o ser social? R: Marx afirma que a consciência não determina o ser social porque ele acredita que a consciência não determina o ser social. Das colunas sociais, a melhor foi a que dava conta do casamento de dois colegas nossos, radicais militantes do Oito: o Tonho e a Lenaura. O jornal explicava: não eles não vão casar um com o outro, amados leitores. Nem eles mesmos agüentariam. O casamento seria realizado na igreja de São Judas Iscariotes, em Duque de Caxias:
Após a cerimônia, os dois casais oferecerão animada festa na redação do jornal “Hora do Povo”, com direito a coquetéis molotov e empadas de gasolina. Haverá também baile animado pela orquestra do maestro Luís Carlos e seus Cavaleiros da Esperança. Lembrete: os casamentos, em caso de revolução, serão adiados para depois da reconstrução nacional.
Uma das vítimas do humor patuísta foi o Aldemísio Cordeiro, o Aldo, um colega mais velho que vendia caramelos e apostava numa política avessa à agressividade do movimento estudantil mas que também nada tinha a ver com o humor cínico e corrosivo daquela turma. Pacifista, Aldemelo Caramísio (como o apelidou o pessoal do Patuá), resolveu lançar um jornal: O Espaço. Segundo os redatores do Patuá, o jornal deveria se chamar Espaço Sideral, “vista a tamanha façanha de materialização do nada”.
“Morte ao deficiente físico” seria o lema de nosso colega Antônio, “o popular Padeiro que, em sua transloucada batalha vencera o primeiro round dando uma rasteira na muleta” de um dos nossos professores. Noticiando o aniversário de Cléber, um dos colaboradores, o jornal dizia que naquela data ele completaria “mais um ano estéril e inútil em sua inútil e estéril vida”. Mas, de todas as maldades do Patuá nenhuma foi mais cruel do que a referência a um nosso colega da História que, no ano anterior surtara e vagava pelos corredores da escola completamente fora de si. A causa fora o concurso O esquerdinha do ano do qual fora vencedor e, quando soube da notícia, diz o Patuá: enlouqueceu de alegria.  Aliás, o concurso O esquerdinha do ano, tinha como objetivo premiar o revolucionário mais revolucionário. O texto de apresentação dizia:
“O que mais caracteriza o ano de 1979 no Brasil não é o fato de ele não ser um ano bissexto, mas sim de ser o ano do despertar político da sociedade civil brasileira. (...) Fora do Brasil, o mundo via a liberdade brilhar em raios fúlgidos no horizonte. A Nicarágua conquistava sua liberdade, Reza-Pahlev era expulso do Irã, morria Talcott Parsons.”
Dentro desde clima é que tinha sido criado o concurso. No regulamento havia uma cláusula que dizia: “Proibida a participação de comunistas de mais de oitenta anos.” À qual se acrescentava um único parágrafo: Prestes a completar oitenta pode. Referência naturalmente ao velho Prestes que acabara de voltar do exílio e ia fazer 80 anos. Lembro bem de sua visita ao IFCS: moreno, sequinho, de pequena estatura, vestido com camisa azul clara e calça azul marinho de tecido barato (indústria soviética). Quando Juarez o viu, perguntou: “Aquele é o Prestes?” Pensei que fosse o motorneiro do bonde de Santa Tereza.

Memórias pitorescas e sentimentais: o IFCS (3/11/12)

Foi em 1978 que entrei no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. O IFCS funciona no edifício da antiga Escola Politécnica, cujo nome gravado na pedra ainda se lê no frontispício do majestoso prédio que dá vista para a estátua de José Bonifácio, no Largo de S. Francisco. Com suas escadarias de granito, suas portas altas, o belo assoalho da entrada, o prédio impressiona à primeira vista. O portal se abre para o pátio interno, onde funcionavam os antigos laboratórios da Politécnica que, no tempo que cheguei, estavam abandonados, prestando-se a usos bem menos nobres.  Apesar do aspecto histórico do prédio, havia e há ainda um péssimo odor em virtude dos tantos mendigos que ocupam as calçadas de seu entorno.
O que me surpreendeu quando lá fui pela primeira vez, foi a agitação do movimento estudantil. No painel principal do terceiro andar, havia um enorme cartaz com fotos relembrando os dez anos da morte do estudante Edson Luís. Morri de medo. Era no final do tenebroso reinado de Eremildo Viana e a chamada Abertura estava apenas começando. Mas, logo tivemos o privilégio de participar da festa que foi a volta dos professores cassados. Deles, o mais famoso era Darcy Ribeiro que aparece no cento da foto que registrou esse belo momento da minha vida universitária. 
Vida que, aliás, no IFCS, acontecia nos corredores pois as salas de aula viviam quase às moscas. Havia uma ebulição constante, permeada por acalorados debates entre as muitas tendências do Movimento Estudantil. Eu, que não era muito familiarizada com as idas e vindas da esquerda internacional ou mesmo nacional, não conseguia entender a que se devia tanta disputa. Para falar a verdade, minha alienação era tanta que, quando entrei na escola, padecia de dois medos antagônicos: o de que os comunistas pensassem que eu era da polícia ou que a polícia pensasse que eu era comunista.
Havia os do partidão, aos quais os mais avançados chamavam de reformistas. Concentravam-se mais no curso de História. A tendência com que eu mais simpatizava era o MEP, Movimento de Emancipação do Proletário (que nome, heim?), um dos tantos movimentos de esquerda que estiveram na origem do PT do Rio. Simpatizava porque achava as pessoas mais sensatas, mais equilibradas, não que eu soubesse a fundo o que distinguia o MEP dos demais. Havia outras tendências menores ou que vimos nascer, como a Libelu (Liberdade e Luta), tão pequena que só tinha duas representantes, duas irmãs do Amazonas que foram logo apelidadas de Libe e Lu. A Convergência Socialista apareceu depois, puxando gente insatisfeita com o MEP. Tudo isso era agitado pelas lideranças, pessoas com um pensamento organizado, que tinham opinião definida e definitiva sobre aqueles assuntos. Gente que se esgoelava nas assembléias, que travava verdadeiros duelos verbais entre si e que, nos corredores, trocava olhares irônicos, piadas, provocações.
Também havia a chamada massa atrasada. Aqueles que apenas percebiam o que estava rolando e que acabavam sendo manipulados por um ou por outro lado. Um desses colegas era o Alan, ou Alien, como o apelidou o Julio Adiala, por causa do filme “Alien: o 8º passageiro” e porque o Alan era mesmo muito alienado. Lembro claramente dele na aula do prof. Hausseman, magro, branco, bonito e completamente tolo. Menino pobre da Lapa que, quando entrou no IFCS, trazia um daqueles cadernos com o retrato da Sônia Braga na capa e tinha a ingenuidade de ser fã do John Travolta. Não desse Travolta que está hoje na moda, mas daquele dos Embalos de sábado à noite que era execrado pelo presunçoso pessoal do IFCS. Alan imitava direitinho os passos de dança do seu ídolo e não tinha pejo de fazê-lo para os colegas sempre que solicitado. Simpático e bem falante, encantado com as meninas tão modernas e liberadas que encontrava ali, se comportava de maneira inadequada e logo virou o “pele” da escola.
Alan pode ser considerado assim como uma espécie de vítima do movimento estudantil. Pois, influenciado por esse, logo mudou de ídolo e de visual: no lugar do cabelo cheio de brilhantina do Travolta, adotou a cabeleira revolta, adornada pela boina revolucionária do Che, deixou de lado o sapato de bico fino e as calças com vinco por botinas e roupas negras. Mas, rejeitado pelas lideranças, Alan fez seus próprios planos para a Revolução. Tinha até um mapa sobre onde seriam colocadas as bombas, no Galeão, na Rodoviária e não me lembro mais aonde. Para ele a revolução era assim como aquelas guerras dos Meninos da Rua Paulo, algo para se fazer nas férias. Ele quis até organizar um grupo para ir lutar na Nicarágua depois do final do período letivo. Ainda na Faculdade, o Alan desapareceu. Nunca mais soubemos dele. Corriam boatos de que teria sido preso. Mas nada que se comprovasse. O mais provável é que tenha pirado de vez, como aconteceu a outros tantos daquele tempo.
Do movimento estudantil, os mais furiosos eram os nossos amigos do Oito. O MR8 comandava o diretório quando cheguei lá e ali ficou até quase o final do meu curso, em 1981. Curiosamente nossos melhores amigos, aqueles com quem confraternizávamos, de quem ficamos amigos da vida inteira eram do Oito. Fazíamos piada com eles, riamos do seu exagerado entusiasmo, de sua fúria, do empenho que dedicavam à causa, indo de manhã cedinho vender A Hora do Povo na Central do Brasil, mas os adorávamos e estávamos sempre juntos deles. Na verdade nossos amigos do Oito (alguns são meus grandes amigos até hoje), faziam contraste com aquela imagem intransigente de sua organização pelo espírito mais alternativo, mais Santa Teresa que tinham. Nenhum deles chegava ao exagero de vestir luto no dia oito de outubro (dia da morte de Che Guevara), como a Lenaura, por exemplo.

35 anos de RJ: memórias pitorescas e sentimentais (27/10/12)

Só agora me dei conta que vivo no Rio de Janeiro há mais de 35 anos pois cheguei do Ceará em 1977, numa daquelas levas de cearenses que por aqui desembarcaram. O primeiro bairro em que morei foi o Leblon que ainda não era o baixo famoso das novelas do Manoel Carlos. No tempo da porta aberta, quem me deu abrigo foi a artista gráfica Vera Duarte, em sua linda e charmosa casa à Rita Ludolf, um apartamento no andar térreo de um prédio antigo que já não existe mais. Vera, carioquíssima, era amiga de Fausto Nilo e promovia grandes almoços que se estendiam pela noite a dentro, naquela desordem que nos era tão familiar, a nós que deixáramos para trás a boa vida boêmia do bares da Praia de Iracema, em Fortaleza.

A moda da boêmia carioca do tempo era o Baixo Leblon e nos dividíamos entre o Diagonal, a Pizzaria Guanabara, o Luna Bar, e mais tarde, bem mais tarde, o Real Astória. Havia alguns que se arriscavam a freqüentar o Degrau, mas esse não era para o nosso bico pois era muito caro. Apesar da constante presença em seus bares, Leblon, Jardim Botânico e Gávea faziam parte de um país distante, pois a maioria de nós morava mesmo era em Botafogo, no Flamengo ou em Copacabana.

Eu, por exemplo, logo fui morar ali na esquina da Marquês de Abrantes com a Praia de Botafogo, no último andar do Edifício Audax, um prédio modesto mas decente, tipo de quarto-e-sala amplo e arejado, bem diverso dos apartamentos que se fazem hoje. Nele tinham morado a Maíra e a Maura, mulher do Bené. Diante de sua confortável varanda se oferecia por inteiro a vista deslumbrante do Pão de Açúcar. Dali vi passar lá em baixo, no Aterro, os cortejos fúnebres de Jardel Filho e de Clara Nunes. No térreo ficava um restaurante italiano, o Giotto (que fazia o melhor petit four da cidade), mas eu e meus amigos de IFCS preferíamos o vizinho La Mole, ali no novo prédio da antiga embaixada da Argentina, por causa do couvert farto e barato. Preferência que, naturalmente, despertava o ódio dos garçons.

Para quem mora naquela esquina, o bairro é mais Flamengo que Botafogo. E os serviços que se usam ficam nas ruas Marquês de Abrantes e Senador Vergueiro. Bem no começo da Marquês de Abrantes fica o Lamas, na época que cheguei a grande e tradicional opção de bar e restaurante. Mas para a minha turma do IFICS o lazer mesmo se fazia no Largo do Machado. Lá tinha um ou duas adegas (de onde vem este hábito de adega no calor do Rio?), onde a gente, curiosamente, ia para tomar chopp com bolinho de bacalhau. Outra característica eram os muitos restaurantes árabes, todos numa mesma galeria, a dos cinemas. Nela também a gente encontrava aquele comércio simples, de alfaiates e pequenas boutiques de marcas desconhecidas. A seqüência Botafogo, Flamengo, Catete, faz assim uma espécie de dégradé da cidade do mais novo para o mais antigo que a gente encontra mesmo é na Lapa e no Centro. Pois a cidade moderna, a cidade que a gente queria ver, vinha antecedida pela fama e pelo glamour de Copacabana e Ipanema.

A impressão mais assustadora de grande cidade que tive foi a de Copacabana. A Copacabana que eu conhecia das páginas da revista O Cruzeiro era chique, era o Copacabana Palace, as calçadas com seus desenhos maravilhosos, as misses com aqueles maiôs que tinham uma espécie de barrinha na parte de baixo, tipo Maria Yeda Vargas, nossa miss universo.  E Copacabana nos idos da década de 1970 já não era nada daquilo. Era o paredão de prédios quase indistintos da Av. Nossa Senhora de Copacabana, detrás do qual escorria o quotidiano pobre dos quitinetes, habitação da gente simples que se amontoava em beliches para pegar no batente cedo nas lojas do bairro, ou das garotas de programa.

Copacabana apavorava o imigrante com a multidão compacta que fervilhava em suas calçadas, com a miséria dos pedintes contrastando com a riqueza das vitrines. Era uma São Paulo transportada para detrás da Avenida Atlântica. Pois Copacabana cabe direitinho no verso de Sampa: quem teve outro sonho feliz de cidade/ aprende depressa a chamar de realidade/ porque és o avesso do avesso do avesso do avesso. Odiei Copacabana, mas, em compensação amei e espero amar sempre Ipanema, com seus prédios baixos e o eterno Posto 9. Difícil falar do Posto 9 porque ele não muda, ainda andam por ali as mesmas pessoas, sofreram a ação do tempo, mas continuam lá, firmes, misturando-se duas ou três gerações.

Mas se a gente gostava de Ipanema por toda a mítica que se criou ou por seu encanto real, paixão mesmo para toda a vida, era Santa Teresa. Lá, onde tanta gente boa morava ou acabava indo morar em apartamentos antigos e amplos de aluguel barato, divididos pôr dois, três, quatro ou até mesmo cinco colegas, rapazes e moças. E Santa Teresa tinha e continua a ter aquele charme boêmio despojado que lhe conferem o velho casario, o clima mais fresco e seus habitantes. Mantiveram-se ali, a velha arquitetura, a mata virgem, o bonde, o jeito de vizinhança  que se conhece. Daí o encanto peculiar desse bairro, atraindo para os seus cantos escondidos a vida mais boêmia, mais alternativa, mais sentimental.

Bairro da gente que gosta da natureza, dos doidões, dos artistas, dos poetas e dos lunáticos. Dos que fazem pão em casa. Dos que não comem carne. Dos que só comem arroz integral. Dos que tomam pó de guaraná ralado na língua do pirarucu. Dos que usam incenso. Dos que botam Tarô. Dos que iam e voltavam de Mauá. Dos seguidores do Rajnish. Dos que bebem no Sobrenatural, no Curvelo, no Arnaldo, no Largo das Neves. Dos que bebem em geral. Dos que acham aventura andar de pé no estribo do bonde. Dos adeptos das formas menos ortodoxas de amar. Das belas moças desgrenhadas, em vestidões amplos (da Índia ou de Bali), cheirando a patchouli. Cama de tatame, pela vida a fora... Bairro bicho-grilo. Deus o conserve assim, bem como tanta coisa boa que ainda no encanta nessa Cidade que continua a ser maravilhosa.