Na quinta-feira fui ao São João Batista dizer adeus a um amigo muito especial: Eduardo de Brito e Cunha. Estavam lá seus filhos, netos e muitos amigos. A mesma gente que encontrei quando estive com ele pela última vez na sua festa de 90 anos em Petrópolis. Elegante, alegre, muito firme, ele recebia os convidados na porta, saudando todo o mundo pelo nome, pois tinha excelente memória. Era uma festa de família com direito a apresentação de fotografias da vida do aniversariante e fiquei muito feliz em ser convidada e ainda por cima aparecer em uma das imagens.
Antes de ter me tornado amiga do Eduardo eu era amiga de seu filho, Oscar Henrique, que conheci no Museu da República, em 1983, onde ambos trabalhávamos. Quando publiquei meu primeiro livro, "Histórias de Presidentes", em 1989, precisei da autorização dos filhos para usar imagens de J. Carlos. Foi aí que Oscar me apresentou a seu pai, Eduardo, que não só me deu a autorização como ficou feliz em ver a capa do livro, concebida por Adriana Moreno, com aquela maravilhosa caricatura do Getúlio na frente do Palácio do Catete. Sei do quanto gostava dessa capa porque uma cópia dela ficava lá na parede de sua casa em Petrópolis.
Em 1994, fui indicada por Paulo Herckenhoff para escrever artigo sobre J. Carlos para "The Journal of Decorative and Propaganda Arts", da Wolfson Foundation cujo número do ano seguinte, homenagearia o Brasil. Para a pesquisa, Eduardo me aconselhou procurar seu irmão, Luiz Carlos que morava aqui pertinho de mim, na rua J. Carlos, no Jardim Botânico. Luiz Carlos se desdobrou para me dar o máximo de informações possíveis e, graças a ele pude conhecer material biográfico sobre o artista que, até então, nunca tinha sido divulgado.
Inclusive os detalhes da história que me fora contada também pelo Nássara do convite que Walt Disney fizera ao J. Carlos para ir trabalhar nos EUA. O convite não foi aceito mas, com a entrada do Brasil na Guerra, J. Carlos mandou a Disney o desenho de um papagaio vestido de pracinha e abraçado ao Pato Donald, em uniforme de mariner. O esboço desse desenho que ficava emoldurado na parede de Luiz Carlos é igualzinho ao futuro personagem de quadrinhos o Zé Carioca. E pude contar essa história no meu artigo.
Creio que foi Eduardo que me mostrou o álbum de fotografias lindamente organizado por J. Carlos em que se mostra a construção da casa deles no Jardim Botânico. Ali, o capricho do artista gráfico genial se destaca nas legendas e na distribuição das fotos. Mas a epígrafe do álbum é que diz muito de quem foi o J. Carlos pai de família. É assim: "sob a ponta fina de um lápis, ergueu-se essa casa". Pois foi exclusivamente com seu trabalho de artista, exercido de forma contínua e responsável, ao longo de quase cinquenta anos que J. Carlos criou seus quatro filhos: Luiz Carlos, Eduardo, Lourdes e Lúcia. Deles apenas a caçula, minha querida amiga Lúcia, continua viva. Aliás, em ótima forma. A gente frequenta a mesma academia de ginástica.
Depois da morte de Luiz Carlos, Eduardo concentrou a maior parte do acervo do pai e à conservação dele dedicou a vida e quase todo o espaço útil de sua casa em Petrópolis. Visitei-o lá algumas vezes. Todas as vezes fui recebida com um carinho e uma amizade que sempre me comoveram.
A sua casinha acolhedora, em meio ao verde, tinha as paredes das duas salas decoradas com originais de J. Carlos. As estantes repletas de coleções das revistas em que trabalhou, especialmente "A Careta". No gabinete, espaço contíguo à sala, ficavam as pastas com os recortes e as mapotecas repletas de originais. Nas paredes cartazes e imagens impressas de eventos que homenageavam J. Carlos. Tudo isto tinha um só zelador, um só conservador, era Eduardo de Brito e Cunha. Sozinho ele cuidava para que o tempo e a umidade não estragassem a obra do pai. Sozinho ele se encarregava de receber os convidados e mostrar o acervo, de dar sugestões sobre onde encontrar alguma coisa que pudesse não constar do mesmo (o que era raro).
E fazia tudo isto com gosto, e fazia tudo isto com prazer, e fazia tudo isto com verdadeira devoção filial. Zelar pela memória e conservar a obra do pai foi a grande missão de sua vida. Generoso e criterioso. Sempre que uma obra de qualidade pudesse servir para divulgar e tornar mais conhecida e valorizada a arte de J. Carlos, tinha pronta autorização dele para usar alguma imagem. No entanto, foi firme na cobrança dos direitos dos herdeiros quanto alguém tratava de obter lucro às custas da mesma. Assim não hesitou em acionar empresas que agiram de má-fé neste sentido.
Estava atento a tudo que dizia a J. Carlos. Era ao Eduardo que se procurava para esclarecer sobre a autenticidade de algum desenho apresentado para venda em leilões ou em galerias. Me orgulho de ter sido consultada algumas vezes por ele a respeito dessas questões. Era bom receber seu telefonema sempre amável, sempre brincalhão, com aquele jeito de falar que, não sei porque, parecia de mineiro. Da última vez que me ligou foi logo depois do aniversário de 90 anos para cobrar o autógrafo no livro que eu lhe dera de presente e esquecera de assinar. Quando abracei seu filho mais velho, José Carlos, tal como ele funcionário de carreira do Banco do Brasil, fiz questão de felicitá-lo pela graça de ter tido um pai como Eduardo bondoso, honesto e afetuoso. Pai e filho dedicado, cuja falta será sentida aqui e lá no céu, onde agora certamente está ao lado de J. Carlos, tendo deixado para trás um acervo cuja conservação dava sentido à sua vida. Tomara que o grande sonho do Eduardo, o da criação de um Museu em torno de J. Carlos venha a se concretizar. Quem sabe na sua linda casinha de Petrópolis, de forma a que a memória de pai e filho se conserve associada para sempre?
Orgulho Sobralense (13/10/12)
Só na quinta-feira conheci a Biblioteca Municipal de Sobral: Lustosa da Costa.
Chegamos na cidade no final do dia, eu, Fred, Elza e Valmir, marido da Clélia que tinha ido nos buscar no Pinto Martins para seguirmos viagem no carro dele. A estrada, especialmente no começo, tem trechos muito áridos, quase desérticos, mas passamos por alguns lugarejos agradáveis e, quanto mais perto estávamos de chegar a Sobral tínhamos o prazer de constatar que a vegetação ia se tornava mais verde, pontuadas por alguns olhos d´água que, ainda mesmo modestos, tornavam menos inóspita a paisagem.
A entrada da cidade então foi pra mim grata surpresa. Vim poucas vezes a Sobral e, da última, há uns dez anos, questões de trabalho me fizeram apressar o retorno para decepção do Lustosa que insistia em me levar para ver os lugares e as pessoas. De modo que fiquei surpresa com a avenida larga, nova e bem cuidada pela qual se entra em Sobral. Também gostei de ver o colorido das casinhas bem pintadas que a margeiam. O que dá menos prazer hoje em dia quando se visita algumas cidades do interior é ser recebido na entrada por um amontoado de lojas de material de construção mal distribuídas e mal ajambradas. Em Sobral não é assim. Até a placa de uma loja chamada "Sinhá Sabóia", personagem de família tradicional do lugar, dá um certo charme à essa entrada. E é muito bom chegar ao centro histórico e ver logo o pequeno e singelo arco do triunfo. Adoro dizer que na cidade em que nasci tem arco do triunfo. De resto, Sobral toda tá muito bonitinha.
Estávamos atrasados e corremos para chegar a tempo de assistir à cerimônia que marcava a despedida final de Lustosa da cidade que ele tanto amava. Tive um certo impacto ao avistar, debruçado sobre o Rio Acaraú, o prédio amplo, moderno e imponente, projeto do arquiteto Antonio Carlos Campelo. A biblioteca harmoniza-se maravilhosamente com seu entorno, especialmente com a belíssima ponte nova que se avista ao longe e que dá certo ar cosmopolita a Sobral.
Não estava preparada para a delicada singeleza de tudo que se passou. Toda a cerimônia, organizada pelo nosso querido amigo, o escritor e acadêmico José Luis Lira em parceria com Ana Linhares, diretora da biblioteca, foi feita diante dessa bela paisagem. Tinha tanta gente na homenagem ao Lustosa. A maior parte era aquela mesma gente boa de Sobral que eu só conhecia de nome, de ouvir falar nos artigos e livros do Lustosa. Vieram de Brasília, sua mulher Verônica, seus filhos Raquel, Sara, Carlos, junto com sua linda Paula, Tomás, filho de Raquel e a sobrinha e afilhada Joanna. Estávamos também muitos dos irmãos, Lúcia, Paulo, Socorro, Pacelli, Clélia, eu e Fred. Os cunhados Valmir e Benevides, as cunhadas, Rosa e Elza. As sobrinhas Sellene, Mirian, Marina e Mariana. O sobrinho Gabriel. Seus amigos queridos que foram de Fortaleza a Sobral: Paulo Elpídio, Zuleide e Marinha, Lauro Vinhas e Marildes, e o Juarez Leitão. Este último, companheiro inseparável do Lustosa nos últimos anos, solidário, leal e, principalmente, de divertidíssima prosa.
Quando chegamos, a banda tocava um dobrado e o presidente da Academia Sobralense de Letras, José Luis Lira deu início à cerimônia. Com elegância e distinção fez as saudações de praxe e pronunciou tocante discurso. Seguido pela fala eloquente e apaixonada de Juarez Leitão e do texto do Carlos Eduardo, falando em nome dos filhos, que levou todo o mundo às lágrimas. Em seguida Sara e Carlos se dirigiram à lancha que os levou ao meio do Acaraú para jogar ali, tal como era o desejo dele, as cinzas do Lustosa. Parte delas ficará depositada na biblioteca para ser colocada, mais tarde, na base do busto do jornalista a ser esculpido. Sua biblioteca particular vai, segundo me anunciaram seus filhos, enriquecer o acervo da Biblioteca Lustosa da Costa. E não poderia ser de outro jeito.
Paulo, meu irmão, me disse que o rio Acaraú de sua infância era seco e que fora perenizado por obra e graça dos esforços das competentes administrações que vêm contribuindo para devolver a Sobral seu protagonismo. Inclusive seu atual prefeito, José Clodoveu de Arruda Neto, que o povo chama carinhosamente de Veveu. Conversando com ele ao final da cerimônia, elogiei a beleza da cidade, o fato de ver tudo muito bonitinho e bem cuidado. Ele expôs seu principio. O principio da vidraça quebrada. Ou seja, se numa casa, uma vidraça quebra e você deixa ficar assim mesmo, daqui a pouco, outra janela de outro lado também se deteriora, a tinta da parede descasca, o muro tomba, enfim... o imóvel se degrada. Com as cidades é a mesma coisa. Portanto o negócio é não deixar nem a primeira vidraça ficar quebrada. É zelar para manter tudo direitinho, sem lixo, sem sujeira, com as ruas bem calçadas e sinalizadas. E é isto, ao meu ver que é o que faz a diferença entre o bom e o mau prefeito.
Depois fomos todos jantar em restaurante aprazível, bem em frente a igreja de Nossa Senhora do Rosário, recém restaurada. No caminho fui conversando com o Campelo, velho e querido amigo, atual Secretário de Cultura de Sobral. Ele e sua mulher, Alja, ambos tendo vivido sempre em Fortaleza, estão perfeitamente integrados à vida da cidade. Gostam do lugar, gostam da brisa do entardecer, gostam dos tesouros arquitetônicos prodigiosamente conservados mas, principalmente, gostam das pessoas. Gostam dessa simplicidade que nossa Fortaleza perdeu.
Sobral conservou seus valores materiais e imateriais, e a eles agregou de forma equilibrada a modernização urbana necessária. Gosto de pensar que o Lustosa tem parte nisto. Gosto de pensar que essa obsessão dele por Sobral, expressa em seus tantos livros, sua vontade de desvendar a história desse lugar em que viveu infância e adolescência, com seu elenco de personagens e questões que o fascinaram para o resto da vida, ajudaram Sobral a se redescobrir e a conservar elevada a sua já tradicionalmente elevada autoestima.
Chegamos na cidade no final do dia, eu, Fred, Elza e Valmir, marido da Clélia que tinha ido nos buscar no Pinto Martins para seguirmos viagem no carro dele. A estrada, especialmente no começo, tem trechos muito áridos, quase desérticos, mas passamos por alguns lugarejos agradáveis e, quanto mais perto estávamos de chegar a Sobral tínhamos o prazer de constatar que a vegetação ia se tornava mais verde, pontuadas por alguns olhos d´água que, ainda mesmo modestos, tornavam menos inóspita a paisagem.
A entrada da cidade então foi pra mim grata surpresa. Vim poucas vezes a Sobral e, da última, há uns dez anos, questões de trabalho me fizeram apressar o retorno para decepção do Lustosa que insistia em me levar para ver os lugares e as pessoas. De modo que fiquei surpresa com a avenida larga, nova e bem cuidada pela qual se entra em Sobral. Também gostei de ver o colorido das casinhas bem pintadas que a margeiam. O que dá menos prazer hoje em dia quando se visita algumas cidades do interior é ser recebido na entrada por um amontoado de lojas de material de construção mal distribuídas e mal ajambradas. Em Sobral não é assim. Até a placa de uma loja chamada "Sinhá Sabóia", personagem de família tradicional do lugar, dá um certo charme à essa entrada. E é muito bom chegar ao centro histórico e ver logo o pequeno e singelo arco do triunfo. Adoro dizer que na cidade em que nasci tem arco do triunfo. De resto, Sobral toda tá muito bonitinha.
Estávamos atrasados e corremos para chegar a tempo de assistir à cerimônia que marcava a despedida final de Lustosa da cidade que ele tanto amava. Tive um certo impacto ao avistar, debruçado sobre o Rio Acaraú, o prédio amplo, moderno e imponente, projeto do arquiteto Antonio Carlos Campelo. A biblioteca harmoniza-se maravilhosamente com seu entorno, especialmente com a belíssima ponte nova que se avista ao longe e que dá certo ar cosmopolita a Sobral.
Não estava preparada para a delicada singeleza de tudo que se passou. Toda a cerimônia, organizada pelo nosso querido amigo, o escritor e acadêmico José Luis Lira em parceria com Ana Linhares, diretora da biblioteca, foi feita diante dessa bela paisagem. Tinha tanta gente na homenagem ao Lustosa. A maior parte era aquela mesma gente boa de Sobral que eu só conhecia de nome, de ouvir falar nos artigos e livros do Lustosa. Vieram de Brasília, sua mulher Verônica, seus filhos Raquel, Sara, Carlos, junto com sua linda Paula, Tomás, filho de Raquel e a sobrinha e afilhada Joanna. Estávamos também muitos dos irmãos, Lúcia, Paulo, Socorro, Pacelli, Clélia, eu e Fred. Os cunhados Valmir e Benevides, as cunhadas, Rosa e Elza. As sobrinhas Sellene, Mirian, Marina e Mariana. O sobrinho Gabriel. Seus amigos queridos que foram de Fortaleza a Sobral: Paulo Elpídio, Zuleide e Marinha, Lauro Vinhas e Marildes, e o Juarez Leitão. Este último, companheiro inseparável do Lustosa nos últimos anos, solidário, leal e, principalmente, de divertidíssima prosa.
Quando chegamos, a banda tocava um dobrado e o presidente da Academia Sobralense de Letras, José Luis Lira deu início à cerimônia. Com elegância e distinção fez as saudações de praxe e pronunciou tocante discurso. Seguido pela fala eloquente e apaixonada de Juarez Leitão e do texto do Carlos Eduardo, falando em nome dos filhos, que levou todo o mundo às lágrimas. Em seguida Sara e Carlos se dirigiram à lancha que os levou ao meio do Acaraú para jogar ali, tal como era o desejo dele, as cinzas do Lustosa. Parte delas ficará depositada na biblioteca para ser colocada, mais tarde, na base do busto do jornalista a ser esculpido. Sua biblioteca particular vai, segundo me anunciaram seus filhos, enriquecer o acervo da Biblioteca Lustosa da Costa. E não poderia ser de outro jeito.
Paulo, meu irmão, me disse que o rio Acaraú de sua infância era seco e que fora perenizado por obra e graça dos esforços das competentes administrações que vêm contribuindo para devolver a Sobral seu protagonismo. Inclusive seu atual prefeito, José Clodoveu de Arruda Neto, que o povo chama carinhosamente de Veveu. Conversando com ele ao final da cerimônia, elogiei a beleza da cidade, o fato de ver tudo muito bonitinho e bem cuidado. Ele expôs seu principio. O principio da vidraça quebrada. Ou seja, se numa casa, uma vidraça quebra e você deixa ficar assim mesmo, daqui a pouco, outra janela de outro lado também se deteriora, a tinta da parede descasca, o muro tomba, enfim... o imóvel se degrada. Com as cidades é a mesma coisa. Portanto o negócio é não deixar nem a primeira vidraça ficar quebrada. É zelar para manter tudo direitinho, sem lixo, sem sujeira, com as ruas bem calçadas e sinalizadas. E é isto, ao meu ver que é o que faz a diferença entre o bom e o mau prefeito.
Depois fomos todos jantar em restaurante aprazível, bem em frente a igreja de Nossa Senhora do Rosário, recém restaurada. No caminho fui conversando com o Campelo, velho e querido amigo, atual Secretário de Cultura de Sobral. Ele e sua mulher, Alja, ambos tendo vivido sempre em Fortaleza, estão perfeitamente integrados à vida da cidade. Gostam do lugar, gostam da brisa do entardecer, gostam dos tesouros arquitetônicos prodigiosamente conservados mas, principalmente, gostam das pessoas. Gostam dessa simplicidade que nossa Fortaleza perdeu.
Sobral conservou seus valores materiais e imateriais, e a eles agregou de forma equilibrada a modernização urbana necessária. Gosto de pensar que o Lustosa tem parte nisto. Gosto de pensar que essa obsessão dele por Sobral, expressa em seus tantos livros, sua vontade de desvendar a história desse lugar em que viveu infância e adolescência, com seu elenco de personagens e questões que o fascinaram para o resto da vida, ajudaram Sobral a se redescobrir e a conservar elevada a sua já tradicionalmente elevada autoestima.
Lustosa da Costa, meu irmão (6/10/12)
No dia em que o Lustosa morreu, minha amiga de adolescência, Juraci Bessa Maia, hoje professora da UFC, lembrou que foi por influência dele que nós duas escolhemos fazer o curso de Ciências Sociais. Eu não me lembrava disto. Lembrava sim do seu entusiasmo pela Sociologia, do fato de que, quando entrei na universidade, em 1977, ele me deu logo um livro de sua biblioteca "A redução sociológica", de Guerreiro Ramos, e a nova edição do "Raízes do Brasil", de Sergio Buarque de Holanda. Eu me esquecera desse dado tão importante. De que meu primeiro contato não só com as Ciências Sociais mas também com a grande literatura francesa, graças ao acesso fácil aos livros de sua maravilhosa biblioteca, me foram proporcionado por meu irmão. Graças também aos tantos outros livros que comprava para nós, e aos artigos de jornal que gostaria que lêssemos, anotadas com nosso nome em sua letra tão característica.
Porque a influência do Lustosa sobre minha vida é feita de coisas assim essenciais. Acredito que, como, na bela e banalizada sentença do "Pequeno Príncipe": o essencial é invisível ao olhos, só se vê bem com o coração. E só agora com o coração ferido pela perda do meu irmão e amigo posso ver coisas essenciais. Posso lembrar de que, na minha infância, com um talento razoável para o desenho, fui levada por ele a estudar pintura no centro de artes de Heloísa Juaçaba, onde tive o privilégio de ter aulas com o pintor e cineasta J. Siqueira. Posso lembrar também que, antes disto mesmo, convenceu papai a nos comprar um piano e nos pagar aulas pois era de bom tom que mocinhas bem educadas tivessem uma educação musical. O investimento não prosperou porque eu e Clélia éramos totalmente desprovidas de dotes musicais.
Certamente foi ele ainda que convenceu nossos pais a me deixar entrar nas Bandeirantes, movimento que então era o que havia de mais moderno e que integrava meninas de várias classe sociais. Lembro do meu deslumbramento ao participar de atividade na casa de Edson Queiroz, com seus lindos jardins, pois uma das filhas dele, Lenise, era minha colega das fadinhas. Na adolescência, ainda preocupado em fazer de nós, meninas chucras da Piedade, encabuladas, matutésimas, tão desenvoltas e elegantes como as mocinhas da Aldeota, nos matriculou em curso que a Socila estava oferecendo no Ideal Club.
Era assim, o irmão mais velho, o amigo de seus irmãos, o tio e o pai empolgado pelo sucesso dos filhos e dos sobrinhos. Mas, principalmente, o filho que esteve sempre ao lado do pai e da mãe. O filho que honrou a memória do pai, fazendo das histórias que este lhe contou elemento base de sua obra sobre Sobral. Pois foram personalidades complementares: o Lustosa e seu Costa. Tão diferentes entre si e tão próximos, tão amigos. Respeitando-se e amando-se, pai e filho. O pai amável, todo doçura, todo sedução, todo habilidade para as coisas práticas e para as costuras da vida em família e na sociedade local. O filho mais sério, mais zangado, estabanado como a mãe, capaz de guardar mágoas profundas, mas também homem do mundo e da sociedade, construtor de amizades sólidas e duradouras. Amizades da vida inteira: Dorian Sampaio, Lúcio Alcântara, Paulo Elpídio, Helio Barros, Lúcio Brasileiro, Antenor Barros Leal, Claudio Castelo. Essa gente andou lá em casa desde que eu era pequena, eram os amigos-irmãos, como ele chamava. Essa gente esteve na rua Nossa Senhora da Piedade, 126, para a festa de 15 anos de Maria Clélia. Festa hippie, cujo convite foi desenhado pelo então já famoso Mino. Coisa que só o enorme prestígio do Lustosa poderia angariar para a família.
Pois foi ele que fez do sobrenome Lustosa da Costa uma marca e uma legenda que todos nós que viemos depois procuramos espelhar e valorizar. Sermos irmãos do grande jornalista, conhecido de todo o mundo no Ceará, não só por sua presença na imprensa, mas por fazer dessa presença espaço de boa literatura nos fez importantes, nos fez altaneiros. Ele nos pertencia e nós a ele. Sua crônica diária, quase sempre intimista, quase sempre falava da família. Era até motivo de piada. Mas é que o Lustosa era a sua família. Ele vibrava com nossas conquistas mais até do que nós mesmos. E tudo que fazíamos era para ele sempre como a confirmação de que aqueles irmãozinhos menores, lá do Beco da Piedade, valiam alguma coisa.
Na hora em que a gente perde alguém tão importante na vida, a culpa do que não fizemos é o complemento amargo das boas lembranças. Se minhas dívidas com meu irmão são imensas, a culpa de não tê-lo dito e demonstrado enquanto ele estava aqui, pertinho, entre nós, disponível e doido para estar perto, é enorme. Ele queria sempre me levar para estar com seus amigos. Amigos que eu não conhecia bem e que eram da geração dele. Blasé, eu preferia estar com aquela turma boemia do Pereira, nos bares da vida, contando histórias da minha própria mocidade. Eu não fui tantas vezes em que ele me convidou. E me custava tão pouco ter ido.
Quando a gente tem na vida alguém assim, que sempre esteve entre nós, que sempre pairou sobre nós, com o qual divergimos e com cujas manias implicamos, a gente não dá valor. A gente acha que vai ter muito tempo para atender ao que ele nos pede. Que da próxima a gente vai... etc. etc. Só que agora sabemos que não vai ter próxima, que na próxima vez que formos a Fortaleza ficar uns dias com mamãe não vamos ter a presença dele por lá. Companhia mais constante da mãe nonagenária, Lustosa era cada vez mais caseiro, cada vez mais família e cada vez mais feliz de poder participar daqueles animados e barulhentos almoços de domingo da casa de D. Dolores.
Depois de nos despedirmos dele, em Brasília, fomos eu, Roberto e Fred, junto com um grupo grande de sobrinhos e sobrinhas, almoçar. Barulhentos, cheios de histórias, os primos reencontravam primos que não se viam há muito tempo, apesar de viverem na mesa cidade. Não pude deixar de agradecer ao Lustosa me proporcionar mais esse encontro feliz. Não pude também deixar de lamentar que ele, que gostava tanto de ver a família toda reunida, não estivesse ali para rir conosco como fizemos tantas vezes.
Porque a influência do Lustosa sobre minha vida é feita de coisas assim essenciais. Acredito que, como, na bela e banalizada sentença do "Pequeno Príncipe": o essencial é invisível ao olhos, só se vê bem com o coração. E só agora com o coração ferido pela perda do meu irmão e amigo posso ver coisas essenciais. Posso lembrar de que, na minha infância, com um talento razoável para o desenho, fui levada por ele a estudar pintura no centro de artes de Heloísa Juaçaba, onde tive o privilégio de ter aulas com o pintor e cineasta J. Siqueira. Posso lembrar também que, antes disto mesmo, convenceu papai a nos comprar um piano e nos pagar aulas pois era de bom tom que mocinhas bem educadas tivessem uma educação musical. O investimento não prosperou porque eu e Clélia éramos totalmente desprovidas de dotes musicais.
Certamente foi ele ainda que convenceu nossos pais a me deixar entrar nas Bandeirantes, movimento que então era o que havia de mais moderno e que integrava meninas de várias classe sociais. Lembro do meu deslumbramento ao participar de atividade na casa de Edson Queiroz, com seus lindos jardins, pois uma das filhas dele, Lenise, era minha colega das fadinhas. Na adolescência, ainda preocupado em fazer de nós, meninas chucras da Piedade, encabuladas, matutésimas, tão desenvoltas e elegantes como as mocinhas da Aldeota, nos matriculou em curso que a Socila estava oferecendo no Ideal Club.
Era assim, o irmão mais velho, o amigo de seus irmãos, o tio e o pai empolgado pelo sucesso dos filhos e dos sobrinhos. Mas, principalmente, o filho que esteve sempre ao lado do pai e da mãe. O filho que honrou a memória do pai, fazendo das histórias que este lhe contou elemento base de sua obra sobre Sobral. Pois foram personalidades complementares: o Lustosa e seu Costa. Tão diferentes entre si e tão próximos, tão amigos. Respeitando-se e amando-se, pai e filho. O pai amável, todo doçura, todo sedução, todo habilidade para as coisas práticas e para as costuras da vida em família e na sociedade local. O filho mais sério, mais zangado, estabanado como a mãe, capaz de guardar mágoas profundas, mas também homem do mundo e da sociedade, construtor de amizades sólidas e duradouras. Amizades da vida inteira: Dorian Sampaio, Lúcio Alcântara, Paulo Elpídio, Helio Barros, Lúcio Brasileiro, Antenor Barros Leal, Claudio Castelo. Essa gente andou lá em casa desde que eu era pequena, eram os amigos-irmãos, como ele chamava. Essa gente esteve na rua Nossa Senhora da Piedade, 126, para a festa de 15 anos de Maria Clélia. Festa hippie, cujo convite foi desenhado pelo então já famoso Mino. Coisa que só o enorme prestígio do Lustosa poderia angariar para a família.
Pois foi ele que fez do sobrenome Lustosa da Costa uma marca e uma legenda que todos nós que viemos depois procuramos espelhar e valorizar. Sermos irmãos do grande jornalista, conhecido de todo o mundo no Ceará, não só por sua presença na imprensa, mas por fazer dessa presença espaço de boa literatura nos fez importantes, nos fez altaneiros. Ele nos pertencia e nós a ele. Sua crônica diária, quase sempre intimista, quase sempre falava da família. Era até motivo de piada. Mas é que o Lustosa era a sua família. Ele vibrava com nossas conquistas mais até do que nós mesmos. E tudo que fazíamos era para ele sempre como a confirmação de que aqueles irmãozinhos menores, lá do Beco da Piedade, valiam alguma coisa.
Na hora em que a gente perde alguém tão importante na vida, a culpa do que não fizemos é o complemento amargo das boas lembranças. Se minhas dívidas com meu irmão são imensas, a culpa de não tê-lo dito e demonstrado enquanto ele estava aqui, pertinho, entre nós, disponível e doido para estar perto, é enorme. Ele queria sempre me levar para estar com seus amigos. Amigos que eu não conhecia bem e que eram da geração dele. Blasé, eu preferia estar com aquela turma boemia do Pereira, nos bares da vida, contando histórias da minha própria mocidade. Eu não fui tantas vezes em que ele me convidou. E me custava tão pouco ter ido.
Quando a gente tem na vida alguém assim, que sempre esteve entre nós, que sempre pairou sobre nós, com o qual divergimos e com cujas manias implicamos, a gente não dá valor. A gente acha que vai ter muito tempo para atender ao que ele nos pede. Que da próxima a gente vai... etc. etc. Só que agora sabemos que não vai ter próxima, que na próxima vez que formos a Fortaleza ficar uns dias com mamãe não vamos ter a presença dele por lá. Companhia mais constante da mãe nonagenária, Lustosa era cada vez mais caseiro, cada vez mais família e cada vez mais feliz de poder participar daqueles animados e barulhentos almoços de domingo da casa de D. Dolores.
Depois de nos despedirmos dele, em Brasília, fomos eu, Roberto e Fred, junto com um grupo grande de sobrinhos e sobrinhas, almoçar. Barulhentos, cheios de histórias, os primos reencontravam primos que não se viam há muito tempo, apesar de viverem na mesa cidade. Não pude deixar de agradecer ao Lustosa me proporcionar mais esse encontro feliz. Não pude também deixar de lamentar que ele, que gostava tanto de ver a família toda reunida, não estivesse ali para rir conosco como fizemos tantas vezes.
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