Outras histórias de morte (26/1/13)

Toda hora, em meio a uma conversa, quando a gente lembra de alguém do qual nunca mais ouviu falar surge a questão: fulano morreu? Morreu sim, morreu não e fica a duvida no ar. Por conta disto duas amigas a quem quero bem, Barbara Harrington e Mathilda Kovac pensaram em criar um serviço de utilidade pública o "Disque-morreu". Assim, na mesma hora em que a duvida se manifestasse você ligaria para lá e resolveria. Creio, no entanto, que o serviço das minhas amigas, hoje, com o Google matando todas essas charadas a um clique não encontraria patrocinadores. De qualquer maneira, para quem já foi famoso - e gostava disto - a possibilidade de que alguém tenha duvida se você ainda está vivo é já uma forma de estar morto.

***

Quando Américo Jacobina Lacombe fez 70 anos recebeu telefonema de seu velho amigo Antonio Carlos Vilaça. Com aquela voz inconfundível que quem teve a sorte de receber seus telefonemas lembra - voz arrastada, com meneios e doçuras angelicais como a do monge que ele de fato era -, Vilaça parabenizou Lacombe pelo aniversário. Naquele tempo o Vilaça era quem escrevia a coluna do obituário do "Jornal do Brasil" e, a prática era que, quando qualquer pessoa importante fizesse 70 anos se escrevesse logo o obituário. Vai que o dito-cujo empacota de repente, ninguém tem nada na gaveta e é preciso escrever na carreira? Aproveitando o ensejo do telefonema Vilaça informou ao Lacombe que já estava escrevendo seu obituário e se ele tinha alguma sugestão, se gostaria de melhorar ou acentuar algum aspecto.

***

Página antológica da "Clara dos Anjos" é a em que Lima Barreto descreve um enterro no cemitério de Inhaúma, subúrbio do Rio. Aproveitando para alfinetar o governo, ele diz que este nem a morte facilita aos pobres e o melhor exemplo disto era a dificuldade de acesso aos cemitérios. Os caminhos ?para chegar ao cemitério de Inhaúma eram péssimos, intrincados e cheio de voltas inúteis. Os enterros dos pobres eram feitos a pé, com o cortejo percorrendo um longo caminho poeirento até chegar ao campo-santo. Segundo Lima Barreto, os acompanhantes desses cortejos seguiam muito tristes e, em cada botequim que passavam, "quebravam o corpo" com uma boa dose de cachaça. Teve um enterro assim, em que o corpo acabou não chegando a seu destino.

"Beberam tanto, que o esqueceram no caminho. Cada qual que saía da venda, olhava o caixão e dizia: Eles que estão lá dentro, que o carreguem. Chegaram ao cemitério e deram por falta do defunto. "Mas não era você que o vinha carregando?" - perguntava um. "Era você" - respondia o outro; e, assim, cada um empurrava a culpa para o outro. Estavam cansadíssimos e semi-embriagados. Resolveram alugar uma carroça e ir buscar o camarada falecido, que já tinha duas velas piedosas a arder-lhe à cabeceira. E o pobre homem, que devia receber dos amigos aquela tocante homenagem, dos camaradas levarem-no a pé ao cemitério, só a recebeu a meio, pois, o resto do caminho para a última morada, ele a fez graças aos esforços de dois burros, que estavam habituados a puxar carga bem diferente e muito menos respeitável."

***

Foi numa manhã ensolarada de domingo que enterraram o Bola, rei-momo do carnaval carioca por vários anos. Abriram-se duas covas rasas pois o caixão não coube no jazigo da família. Durante o velório que foi no Sambódromo, o pessoal do Circo Garcia, palhaços, vedetes, trapezistas, circulava com desenvoltura em torno do caixão. A viúva, muito distinta e bela usava uma malha transparente que revelava as formas que ajudaram a alegrar a vida do Bola. Uma senhora discretamente circulava recolhendo dinheiro dos circunstantes. Era a bilheteira do circo que aproveitava o movimento para atrair ali o respeitável público.

Entre os que foram dar adeus ao rei, candidatos a sucessor, competiam em volume em torno do caixão. Bandeiras das mais diversas escolas de samba enfeitavam a cena e o som do bumbo fazia o ritmo. Animados pelo som de eu vou tomar um porre de felicidade baixaram às covas rasas os 278 quilos do rei do carnaval. Uma jornalista que cobria a cena ouviu alguém que passava em frente ao Sambódromo perguntar o que estava acontecendo, informado que era o velório do Bola o sujeito caiu na gargalhada.

***

Outro dia matamos saudades de Martine Kunz em visita a d. Dolores. Naturalmente que não faltaram na conversa histórias do nosso saudoso Claudio Pereira. Lembramos então de como ele, depois de um certo tempo, passara a comemorar seus aniversários. É que, desde 1972, quando um acidente de carro o deixara paralítico, os médicos tinham dado ao Pereira apenas mais seis anos de vida. A partir de então ele passou a fazer nos aniversário contagem negativa, cada ano era mais um ano perdido ou um ano ganhado? Contrariando as previsões dos médicos, Pereira viveu mais 36 anos depois daquela fatalidade que mudou sua vida mas não seu espírito irreverente.

A última vez em que estive com ele, aliás, foi em janeiro de 2010. Entre um longo tratamento e o processo final que o mataria em maio daquele ano, ele encontrou saúde e disposição para voltar à velha vida boemia. Eu que o visitara no hospital e na casa dele em condições bem complicadas não pude deixar de dizer: "Pereira, você não tem sete vidas não, você tem é nove". Perguntei se, enquanto estava internado, soubera da morte daquele que fora, desde o começo de sua vida uma espécie de "outro", daquele rival terrível e com o qual, no entanto, tinha tanto em comum: Augusto Pontes. Ele me disse que, apesar das recomendações para não lhe darem a notícia, uma amiga desavisada lhe telefonara contando. Não me disse como a recebeu. Creio que reagiu como reagia a tudo, continuava no jogo e esperando a sua vez. Mas talvez desconfiasse que a nona vida estava se esgotando pois aproveitou nosso último encontro para garantir que eu de fato escreveria sua biografia como prometera.

Erros e erratas (19/1/13)

Eu implico com erratas. Depois que livros e artigos meus são publicados, quando constato erros, prefiro não incluí-los. Parto de um raciocínio absolutamente matemático. A maior parte das pessoas que lerão aquele livro ou artigo não é composta de especialistas. Dentre os especialistas que leriam, nem todos conhecem o problema específico presente naquele erro (que pode ser de conteúdo, ortográfico ou mesmo gramatical). Dentre estes também, nem todos lerão o texto com uma lupa em busca de erros e pode ser que passem por eles sem notar (é pelo que rezo todos os dias). Já os que vão ler com lupa por razões de pouca simpatia ou rivalidade acharão erros até nos maiores acertos da obra. Melhor não alertá-los para os que podem lhes escapar. Aliás, basta incluir errata para o pessoal da oposição ir logo dizendo: "Viu? O livro dela está cheio de erros". Enfim, não sou eu quem vai dar munição a eles. Prefiro ficar com a elegância e a pose de Machado na errata da segunda edição de "Memórias Póstumas de Braz Cubas": "Alguns erros escaparam, que a inteligência do leitor suprirá".

Pablo Neruda disse certa vez que erratas são como cáries na linha impressa: "doem em profundidade quando os versos tomam o ar frio da publicação". Pois, a seu ver, o romance passa mais facilmente por cima dos erros de composição e linotipia porque tem uma geografia mais montanhosa. Já a poesia seria muito mais sensível a esses obstáculos: "a poesia ressente-se amiúde do ruído das colherinhas de café, dos passos da gente que entra e sai, da risada inoportuna". No mesmo texto ele conta o caso de um poeta cubano que teve poema publicado em uma revista junto com uma errata. "Donde debía decir ´Yo siento un fuego atroz que me devora´ el impresor cambió radicalmente las preferencias eróticas del poeta al reproducir ´Yo siento un fuego atrás que me devora´. Aí não teve jeito, tiveram que jogar toda a edição ao mar.

Em sua deliciosa biografia, Uma vida (Ed. Casa da Palavra), Plínio Doyle inclui uma série de erratas que colecionou junto com os milhares de livros de literatura brasileira que compunham a sua maravilhosa biblioteca. A mais interessante delas é a incluída no livro "Flor de Sangue", de Valentim Magalhães, publicado pela Laemmert, em 1897. Na página 385 o editor incluiu a seguinte errata: "À página 285, 4ª linha, em vez de estourar os miolos, leia-se cortar o pescoço". Plínio conta que tal errata foi excesso de zelo do revisor. Na trama, um médico, por conta de uma desilusão amorosa, cortara a carótida com o próprio bisturi. Na página 274, a cena é descrita com as cores mais vivas: "Um jorro de sangue, em repuxo impetuoso e alto, esguichou, cobriu o espelho, salpicou tudo em volta do lavatório". Algumas páginas depois, alguém comentou a respeito: "em vez de deixá-la e simplesmente estourar os miolos...". Era só uma sugestão dada a posteriori possivelmente por conta do espetáculo da cena do crime, pois como se viu, o sujeito tinha mesmo se matado cortando a garganta.

Lá em casa, mamãe encapava todos os livros e cadernos escolares com papel madeira e firmava na capa, com sua linda letra o título da obra. Alguns desses livros eram dicionários de uso frequente por parte de toda a família. Uma vez, com o dicionário todo encapadinho no maior capricho, ela escreveu com sua melhor grafia: "Dicionário de Inglês". Depois, para sua decepção, constatou que o dito cujo era, na verdade, um dicionário de francês. Não teve dúvida, para não estragar todo o trabalho, mamãe mandou uma virgula depois do "Inglês" e escreveu: "digo, de Francês".

No tempo em que as emissões de dramas televisivos eram feitas ao vivo foi apresentada a história de Joana d´Arc. Era a cena mais dramática da trama: o momento em que a heroína é capturada e vai ser executada. No entusiasmo da encenação, o ator que fazia o líder dos soldados, esquecido de qual devia ser a sua fala, conclamou seus seguidores: "vamos enforcá-la!". Ao que seu lugar-tenente sugeriu, com delicadeza: "não seria melhor queimá-la?".

Algumas coisas da vida, de fato precisam de errata. Ou, pelo menos, de legenda. Lembro de um daqueles filmes da Tânia Quaresma sobre o Nordeste em que na entrevista com uma sertaneja em sua casinha de taipa, o cachorro começou a latir. Ela ordenou então, seguidas vezes: "Cala a boca, Resúvio! Quieto, Resúvio!". Depois o entrevistador obteve o esclarecimento: o nome do cachorro era por causa do vulcão, o Vesúvio. Não funcionou a homenagem que amigo roqueiro de Mario Bag quis fazer ao grupo Crosby, Stills, Nash & Young. Na impossibilidade de dar todos esses nomes ao seu cachorro, ele optou pelo primeiro: Crosby. Mas a empregada dele sempre que falava do bicho dizia: "ô seu fulano, o Cróvis não quis comer nada hoje". Em um ônibus na zona norte do Rio, a turma da escola pública zoava um colega anunciando: "Imagine que a professora pediu para ele escrever na prova o nome de um animal da Amazônia e ele cravou lá: morangotango".

Não tem a ver com errata mas tem a ver com o conhecimento de línguas estrangeiras. Mario Bag em Paris, sem falar uma palavra de francês se virava como podia fazendo suas compras no supermercado. Precisando comprar um rolo de papel metálico para cozinha e não conseguindo achar tentou explicar em inglês para um vendedor coreano que chamou outro colega mais ilustrado, que por sua vez chamou outro. Logo formou-se um grupo com todos em volta dele tentando compreender a explicação. E o Bag se esforçava: "I need a kind of metal-paper to pack my sandwich". Finalmente, um mais esclarecido matou a charada e voltou lá de dentro com a mercadoria desejada. Aproveitou para ensinar um pouquinho de francês ao Bag. "Say with me, the name is" - e abrindo bem a boca como a gente faz quando fala com gringo achando que isto melhora alguma coisa - completou: "a - lu - mi - ni - um".

A triste vida de um homem engraçado (12/1/13)

Ao terminar de ler a biografia do Barão de Itararé publicada pelo jornalista Claudio Figueiredo, "Entre sem bater" (Casa da Palavra), a conclusão a que se chega é que a sua não foi exatamente uma vida feliz. Ao contrário, parece até que ele nasceu marcado pelo signo da fatalidade. Fazendo um balanço geral dos seus infortúnios podemos relacionar: o suicídio da mãe; o AVC que o deixou hemiplégico ainda na juventude; as mortes da segunda, da terceira mulher, da filha de 19 anos e o suicídio da última companheira. Isto sem falar no fato de ter tido um pai ignorante por escolha e autoritário por natureza; de ter protagonizado um drama sentimental escandaloso que se arrastou por sete anos; de ter amargado prisões, perseguições e dificuldades econômicas e de ter terminado a vida como um velho pobre e solitário. Apesar dessa carga dramática que tirariam o humor de qualquer um, Apparício Torelly foi o brasileiro mais estimado de seu tempo justamente pela imensa capacidade que tinha de fazer os outros rirem.

A morte precoce da mãe, fez com que passasse os primeiros anos da vida no Uruguai, voltando ao Rio Grande do Sul para ser educado em um colégio de padres. O ateu Apparício Torelly, seria eternamente reconhecido aos jesuítas pela excelente educação que lhe deram. A partir de 1912, foi o enfant terrible da recém-criada Faculdade de Medicina de Porto Alegre, curso que não concluiu. Apporely marcou sua passagem pela vida universitária por uma irreverência e uma militância que resultou em vários, divertidos e, talvez, um tanto quanto inventados episódios auto-biográficos. No inicio da carreira jornalística, entre 1919 e 1924, trabalhou em diversas cidades do interior do Rio Grande do Sul. Em uma delas, São Gabriel, acabou casando-se, em 1921, com a filha de uma liderança política local. O casamento lhe deu três filhos, Ary, Arly e Ady mas se desfez em 1924, quando Apporelly partiu para o Rio de Janeiro.

Em 1925, fez sua estreia no jornal O Globo, passando no ano seguinte para o recém-criado jornal de Mario Rodrigues, A Manha, onde estabeleceu duradoura parceria com o caricaturista paraguaio Andrés Guevara, que fixaria a imagem plástica definitiva do Barão de Itararé. Ainda em 1926, fundou seu próprio jornal: A Manha. O sucesso de Apporelly já era imenso, quando seus velhos companheiros de vida estudantil em Porto Alegre, Flores da Cunha, Oswaldo Aranha e Benjamin Vargas o encontraram no Rio de Janeiro, depois da Revolução de 1930.

Foi em dezembro daquele ano que "o nosso querido diretor", como era chamado nos editoriais de A Manha, foi elevado por decreto do novo governo, a Barão de Itararé. Ao longo dos anos seguintes, criatura e criador se confundiriam em um único personagem aos olhos dos leitores. Para Cláudio Figueiredo, a essência do talento humorístico de Apporelly estava em sua imensa habilidade para "brincar com as palavras, desmembrando-as, estabelecendo as relações mais inesperadas entre as partes ou, ao contrário, jogando com duplo sentido e fundindo palavras diferentes".

No entanto, naquela mesma década de 1930, a participação em jornais orientados pelo PCB, revelariam uma faceta menos divertida de Apporelly, onde prevaleceria o tom sectário com que atacava não só aos integralistas mas também a gente como Villa Lobos, Anísio Teixeira e Bertha Lutz. Com a repressão à chamada Intentona Comunista de 1935, o cerco se fechou sobre o PCB e Apporelly foi preso, ficando mais de um ano detido. Todo o contexto de pensamentos e ações que marcaram os confrontos entre esquerda e direita naquele período é estabelecido por Cláudio Figueiredo revelando que a atuação clandestina de Apporelly foi muito mais efetiva do que até então se pensava.

Sua trajetória, daí em diante, estaria estreitamente associada à militância na esquerda e, em 1947 ele foi eleito vereador pelo PCB, tendo o mandato cassado com a proibição do partido no ano seguinte. Em 1949, por insistência e empenho de Guevara a dupla lançou o primeiro Almanhaque como prévia para o reaparecimento de A Manha. Mas o jornal circularia apenas e de forma esporádica até o final dos anos 1950, período que Apporelly passou quase todo em São Paulo. Sua última década de vida no Rio de Janeiro foi marcada pela mesma obsessão com a Ciência que o atormentava desde a juventude. A isto se aliaram estudos esotéricos. Para os velhos amigos, ouvir-lhe as longas exposições sobre o horóscopo biônico ou o quadrado mágico era algo desconcertante. Poucos de seus vizinhos, em Laranjeiras, identificavam naquele velhinho alvo, magro, irritadiço e excêntrico, de barbas brancas, a figura risonha e dionisíaca do Barão de Itararé.

Um aspecto notável nessa biografia é a revelação da amargura de Apporelly com a sina de ter de fazer do talento para ser engraçado um meio de vida.

Na descrição que dele faz em "Memórias do cárcere", Graciliano Ramos já intuía o sofrimento que aquilo lhe custava: "Meu pobre amigo Apporelly, a sofrer, amável e risonho, lançando trocadilhos em atitude profissional. Doía-me a paciência triste dele, aparentemente alegre".

Mas para não terminar essa crônica sobre um dos maiores humoristas da história do Brasil sem honrar o talento que lhe deu fama, escolhi a passagem do livro de Figueiredo, que mais me agradou. Seus 25 anos de carreira jornalística foram comemorados com um banquete na Associação Brasileira de Imprensa - ABI, no dia 9 de junho de 1944. Ao agradecer aquela homenagem que lhe prestavam jornalistas, escritores e artistas, Aporelly começou dizendo que aqueles tantos discursos e demonstrações de carinho o tinham emocionado de tal maneira que ele ficara com a voz embargada. Fez então uma pausa, encarou a plateia onde estavam, entre outros, Portinari, Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos, Samuel Weiner, Ruben Braga, Roquete Pinto, Vinicius de Moraes, Álvaro Moreyra e perguntou: tem algum desembargador aí?

Afirmação da Democracia (29/12/12)

Li, anos atrás, “O recurso do método”, fascinante livro de Alejo Carpentier, cujo protagonista é o ex-ditador de um país latino-americano fictício. Cito aqui de memória a passagem que me ocorreu tomar como ponto de partida para este artigo.


O ditador, como todos os ricos e poderosos da América Latina dos anos 1950/1960, era habitué dos melhores hotéis, restaurantes e livrarias de Paris. Conhecido e festejado por artistas, intelectuais e elegantes, o ditador se sentia em casa na Cidade-Luz. Eis que, senão quando, um movimento popular revolucionário, depois de muitas derrotas marcadas pela mais dura repressão, incluindo torturas, estupros e assassinatos, conseguiu empolgar o povo e derrubar a ditadura.

Voltando a Paris, desta vez como exilado, o ex-ditador amargaria a decepção de ser tratado com frieza pelos mesmos frequentadores de uma das livrarias em que costumava ser tão bem recebido. Pior tratamento lhe reservariam alguns elegantes que sequer deram mostras de conhecê-lo quando experimentou saudá-los da mesa em que estava em seu restaurante favorito.

O que provocara a diferença no tratamento não fora a perda do poder. Fora antes a divulgação de fotografias, entre outras, em que soldados do seu exército apareciam jogando futebol com as cabeças de presos políticos decapitados. Essas e outras imagens de caráter igualmente chocante, além de relatos da imprensa finalmente liberada, contribuíram para que fossem esquecidos seus charme e cultura e só ficasse a imagem do ditador sanguinário.
       
Creio que foi só depois de sua primeira viagem à Europa, em 1872, que D. Pedro II tomou coragem para enfrentar o problema da escravidão no Brasil. O imperador que se orgulhava da própria cultura e de seu amor às Artes e à Ciência, deve ter sentido o peso negativo que se associava à sua amável pessoa por ser o monarca de um dos dois últimos país das Américas onde ainda havia escravidão. De que adiantava ser um homem dentro dos padrões do que havia de mais ilustrado e progressista no mundo de então, se ele reinava em sobre um país em que homens, mulheres e crianças eram vendidos como mercadoria, submetidos ao trabalho forçado e a castigos físicos violentos?

Outro dia li que Rosa e Silva, governador de Pernambuco que reinara por lá do final do Império até a última década da Republica Velha passava a maior parte de seu tempo entre o Rio de Janeiro e Paris. Às vezes ia a Recife e nem desembarcava, no porto mesmo, a bordo do navio reunia seu secretariado e zarpava. E isto no tempo em que o sertão, castigado pela seca e pela violência do cangaço, era um dos piores lugares do mundo para viver.  Como os parisienses cultos que tivessem por acaso conhecimento do livro de Euclides da Cunha, Os Sertões, deviam ver esse governador de uma região tão pobre que vivia esbanjando dinheiro em Paris? Não deveriam associar sua imagem sofisticada, seus bons vinhos e charutos ao povo que ele deixara para trás e em benefício do qual deveria estar governando? 

Certamente todo o luxo desses brasileiros sofisticados devia ser motivo de chacota. Mesmo recentemente, o contraste que havia entre os brasileiros que viajavam ao exterior e a realidade do país provocava comparações. Pois os muito ricos dos países muito pobres – talvez para se distinguir do povo de seus países - têm como principal característica a ostentação da riqueza, do luxo e a tentativa de obter privilégios que os europeus, por tradição, evitam reclamar.

A gente sai do Brasil mas o Brasil não sai da gente. Para o bem ou para o mal, a nossa imagem está definitivamente associada ao país em que nascemos e ao seu povo. Se a imagem desse país é positiva, como felizmente é a imagem do Brasil hoje, somos acolhidos com simpatia e até mesmo com uma pontinha de inveja.  E isto tanto para brasileiros ricos como para brasileiros pobres pois, fora daqui, somos todos apenas brasileiros.

Não é preciso ser historiador para verificar que os que fizeram pelo Brasil, os que trabalharam pelo progresso de seu povo, os que apostaram no desenvolvimento do país, de suas indústrias e de suas cidades, passaram à Historia como grandes brasileiros. Neste momento em que todos são chamados a dar sua contribuição para que o Brasil continue avançando por igual, para que mais e mais brasileiros tenham a oportunidade de desenvolver seus talentos, para que a Democracia continue se fortalecendo a cada processo eleitoral, para que o povo continue a eleger seus representantes e governantes, pois só aos eleitos pelo voto direto cabe representar e governar o povo do Brasil, meus votos são para que os membros da elite brasileira fujam da tentação do golpe.

Golpes salvacionistas são aqueles que retiram o poder dos eleitos pelo voto para dar a outros, indicados por poderosos grupos econômicos que, sob o pretexto da moralização e da maior competência estão mesmo é defendendo seus interesses contra os interesses do povo. Essas intervenções no processo democrático podem empolgar uma classe média iludida pela propaganda negativa, como aconteceu em 64, mas acabam mesmo é em ditadura. E ditaduras a gente sabe como começam, mas não pode prever jamais como terminam. Exemplar foi o destino do Correio da Manhã, entusiasta de primeira hora do golpe de 64 e de sua proprietária, Niomar Moniz Sodré Bittencourt, presa pelo mesmo regime ao qual dera seu apoio e para o qual perdeu até mesmo seu jornal. 

Os empresários que emprestaram seu apoio à ditadura militar hoje são tão execrados fora do Brasil quanto o ditador do livro de Carpentier. Eles são identificados como patrocinadores do martírio de Frei Tito. Foi a revelação no exterior das bárbaras torturas a que foi submetido aquele sacerdote cearense que fez com que o repúdio ao regime militar ganhasse amplitude internacional. Para espantar maus presságios que andaram rondando o Brasil nos últimos meses termino lançando como mensagem de final de ano o mesmo repto do passado: Democracia sempre! Ditadura nunca mais!