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Quando Américo Jacobina Lacombe fez 70 anos recebeu telefonema de seu velho amigo Antonio Carlos Vilaça. Com aquela voz inconfundível que quem teve a sorte de receber seus telefonemas lembra - voz arrastada, com meneios e doçuras angelicais como a do monge que ele de fato era -, Vilaça parabenizou Lacombe pelo aniversário. Naquele tempo o Vilaça era quem escrevia a coluna do obituário do "Jornal do Brasil" e, a prática era que, quando qualquer pessoa importante fizesse 70 anos se escrevesse logo o obituário. Vai que o dito-cujo empacota de repente, ninguém tem nada na gaveta e é preciso escrever na carreira? Aproveitando o ensejo do telefonema Vilaça informou ao Lacombe que já estava escrevendo seu obituário e se ele tinha alguma sugestão, se gostaria de melhorar ou acentuar algum aspecto.
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Página antológica da "Clara dos Anjos" é a em que Lima Barreto descreve um enterro no cemitério de Inhaúma, subúrbio do Rio. Aproveitando para alfinetar o governo, ele diz que este nem a morte facilita aos pobres e o melhor exemplo disto era a dificuldade de acesso aos cemitérios. Os caminhos ?para chegar ao cemitério de Inhaúma eram péssimos, intrincados e cheio de voltas inúteis. Os enterros dos pobres eram feitos a pé, com o cortejo percorrendo um longo caminho poeirento até chegar ao campo-santo. Segundo Lima Barreto, os acompanhantes desses cortejos seguiam muito tristes e, em cada botequim que passavam, "quebravam o corpo" com uma boa dose de cachaça. Teve um enterro assim, em que o corpo acabou não chegando a seu destino.
"Beberam tanto, que o esqueceram no caminho. Cada qual que saía da venda, olhava o caixão e dizia: Eles que estão lá dentro, que o carreguem. Chegaram ao cemitério e deram por falta do defunto. "Mas não era você que o vinha carregando?" - perguntava um. "Era você" - respondia o outro; e, assim, cada um empurrava a culpa para o outro. Estavam cansadíssimos e semi-embriagados. Resolveram alugar uma carroça e ir buscar o camarada falecido, que já tinha duas velas piedosas a arder-lhe à cabeceira. E o pobre homem, que devia receber dos amigos aquela tocante homenagem, dos camaradas levarem-no a pé ao cemitério, só a recebeu a meio, pois, o resto do caminho para a última morada, ele a fez graças aos esforços de dois burros, que estavam habituados a puxar carga bem diferente e muito menos respeitável."
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Foi numa manhã ensolarada de domingo que enterraram o Bola, rei-momo do carnaval carioca por vários anos. Abriram-se duas covas rasas pois o caixão não coube no jazigo da família. Durante o velório que foi no Sambódromo, o pessoal do Circo Garcia, palhaços, vedetes, trapezistas, circulava com desenvoltura em torno do caixão. A viúva, muito distinta e bela usava uma malha transparente que revelava as formas que ajudaram a alegrar a vida do Bola. Uma senhora discretamente circulava recolhendo dinheiro dos circunstantes. Era a bilheteira do circo que aproveitava o movimento para atrair ali o respeitável público.
Entre os que foram dar adeus ao rei, candidatos a sucessor, competiam em volume em torno do caixão. Bandeiras das mais diversas escolas de samba enfeitavam a cena e o som do bumbo fazia o ritmo. Animados pelo som de eu vou tomar um porre de felicidade baixaram às covas rasas os 278 quilos do rei do carnaval. Uma jornalista que cobria a cena ouviu alguém que passava em frente ao Sambódromo perguntar o que estava acontecendo, informado que era o velório do Bola o sujeito caiu na gargalhada.
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Outro dia matamos saudades de Martine Kunz em visita a d. Dolores. Naturalmente que não faltaram na conversa histórias do nosso saudoso Claudio Pereira. Lembramos então de como ele, depois de um certo tempo, passara a comemorar seus aniversários. É que, desde 1972, quando um acidente de carro o deixara paralítico, os médicos tinham dado ao Pereira apenas mais seis anos de vida. A partir de então ele passou a fazer nos aniversário contagem negativa, cada ano era mais um ano perdido ou um ano ganhado? Contrariando as previsões dos médicos, Pereira viveu mais 36 anos depois daquela fatalidade que mudou sua vida mas não seu espírito irreverente.
A última vez em que estive com ele, aliás, foi em janeiro de 2010. Entre um longo tratamento e o processo final que o mataria em maio daquele ano, ele encontrou saúde e disposição para voltar à velha vida boemia. Eu que o visitara no hospital e na casa dele em condições bem complicadas não pude deixar de dizer: "Pereira, você não tem sete vidas não, você tem é nove". Perguntei se, enquanto estava internado, soubera da morte daquele que fora, desde o começo de sua vida uma espécie de "outro", daquele rival terrível e com o qual, no entanto, tinha tanto em comum: Augusto Pontes. Ele me disse que, apesar das recomendações para não lhe darem a notícia, uma amiga desavisada lhe telefonara contando. Não me disse como a recebeu. Creio que reagiu como reagia a tudo, continuava no jogo e esperando a sua vez. Mas talvez desconfiasse que a nona vida estava se esgotando pois aproveitou nosso último encontro para garantir que eu de fato escreveria sua biografia como prometera.