Afirmação da Democracia (29/12/12)

Li, anos atrás, “O recurso do método”, fascinante livro de Alejo Carpentier, cujo protagonista é o ex-ditador de um país latino-americano fictício. Cito aqui de memória a passagem que me ocorreu tomar como ponto de partida para este artigo.


O ditador, como todos os ricos e poderosos da América Latina dos anos 1950/1960, era habitué dos melhores hotéis, restaurantes e livrarias de Paris. Conhecido e festejado por artistas, intelectuais e elegantes, o ditador se sentia em casa na Cidade-Luz. Eis que, senão quando, um movimento popular revolucionário, depois de muitas derrotas marcadas pela mais dura repressão, incluindo torturas, estupros e assassinatos, conseguiu empolgar o povo e derrubar a ditadura.

Voltando a Paris, desta vez como exilado, o ex-ditador amargaria a decepção de ser tratado com frieza pelos mesmos frequentadores de uma das livrarias em que costumava ser tão bem recebido. Pior tratamento lhe reservariam alguns elegantes que sequer deram mostras de conhecê-lo quando experimentou saudá-los da mesa em que estava em seu restaurante favorito.

O que provocara a diferença no tratamento não fora a perda do poder. Fora antes a divulgação de fotografias, entre outras, em que soldados do seu exército apareciam jogando futebol com as cabeças de presos políticos decapitados. Essas e outras imagens de caráter igualmente chocante, além de relatos da imprensa finalmente liberada, contribuíram para que fossem esquecidos seus charme e cultura e só ficasse a imagem do ditador sanguinário.
       
Creio que foi só depois de sua primeira viagem à Europa, em 1872, que D. Pedro II tomou coragem para enfrentar o problema da escravidão no Brasil. O imperador que se orgulhava da própria cultura e de seu amor às Artes e à Ciência, deve ter sentido o peso negativo que se associava à sua amável pessoa por ser o monarca de um dos dois últimos país das Américas onde ainda havia escravidão. De que adiantava ser um homem dentro dos padrões do que havia de mais ilustrado e progressista no mundo de então, se ele reinava em sobre um país em que homens, mulheres e crianças eram vendidos como mercadoria, submetidos ao trabalho forçado e a castigos físicos violentos?

Outro dia li que Rosa e Silva, governador de Pernambuco que reinara por lá do final do Império até a última década da Republica Velha passava a maior parte de seu tempo entre o Rio de Janeiro e Paris. Às vezes ia a Recife e nem desembarcava, no porto mesmo, a bordo do navio reunia seu secretariado e zarpava. E isto no tempo em que o sertão, castigado pela seca e pela violência do cangaço, era um dos piores lugares do mundo para viver.  Como os parisienses cultos que tivessem por acaso conhecimento do livro de Euclides da Cunha, Os Sertões, deviam ver esse governador de uma região tão pobre que vivia esbanjando dinheiro em Paris? Não deveriam associar sua imagem sofisticada, seus bons vinhos e charutos ao povo que ele deixara para trás e em benefício do qual deveria estar governando? 

Certamente todo o luxo desses brasileiros sofisticados devia ser motivo de chacota. Mesmo recentemente, o contraste que havia entre os brasileiros que viajavam ao exterior e a realidade do país provocava comparações. Pois os muito ricos dos países muito pobres – talvez para se distinguir do povo de seus países - têm como principal característica a ostentação da riqueza, do luxo e a tentativa de obter privilégios que os europeus, por tradição, evitam reclamar.

A gente sai do Brasil mas o Brasil não sai da gente. Para o bem ou para o mal, a nossa imagem está definitivamente associada ao país em que nascemos e ao seu povo. Se a imagem desse país é positiva, como felizmente é a imagem do Brasil hoje, somos acolhidos com simpatia e até mesmo com uma pontinha de inveja.  E isto tanto para brasileiros ricos como para brasileiros pobres pois, fora daqui, somos todos apenas brasileiros.

Não é preciso ser historiador para verificar que os que fizeram pelo Brasil, os que trabalharam pelo progresso de seu povo, os que apostaram no desenvolvimento do país, de suas indústrias e de suas cidades, passaram à Historia como grandes brasileiros. Neste momento em que todos são chamados a dar sua contribuição para que o Brasil continue avançando por igual, para que mais e mais brasileiros tenham a oportunidade de desenvolver seus talentos, para que a Democracia continue se fortalecendo a cada processo eleitoral, para que o povo continue a eleger seus representantes e governantes, pois só aos eleitos pelo voto direto cabe representar e governar o povo do Brasil, meus votos são para que os membros da elite brasileira fujam da tentação do golpe.

Golpes salvacionistas são aqueles que retiram o poder dos eleitos pelo voto para dar a outros, indicados por poderosos grupos econômicos que, sob o pretexto da moralização e da maior competência estão mesmo é defendendo seus interesses contra os interesses do povo. Essas intervenções no processo democrático podem empolgar uma classe média iludida pela propaganda negativa, como aconteceu em 64, mas acabam mesmo é em ditadura. E ditaduras a gente sabe como começam, mas não pode prever jamais como terminam. Exemplar foi o destino do Correio da Manhã, entusiasta de primeira hora do golpe de 64 e de sua proprietária, Niomar Moniz Sodré Bittencourt, presa pelo mesmo regime ao qual dera seu apoio e para o qual perdeu até mesmo seu jornal. 

Os empresários que emprestaram seu apoio à ditadura militar hoje são tão execrados fora do Brasil quanto o ditador do livro de Carpentier. Eles são identificados como patrocinadores do martírio de Frei Tito. Foi a revelação no exterior das bárbaras torturas a que foi submetido aquele sacerdote cearense que fez com que o repúdio ao regime militar ganhasse amplitude internacional. Para espantar maus presságios que andaram rondando o Brasil nos últimos meses termino lançando como mensagem de final de ano o mesmo repto do passado: Democracia sempre! Ditadura nunca mais!

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