Um longo caminho (6/7/14)

Um poeta moderno fez uma versão da “Oração aos moços” de Rui Barbosa, em que ele fez seguir a sentença  que se tornou clássica “de tanto ver triunfar as nulidade”  por vários pontinhos e completou “criei alguma esperança”. De fato, quando a gente olha um universo vasto de celebridades construídas a partir de obras medíocres ou mesmo de obra nenhuma, graças a uma série de fatores que levam ao sucesso, pensa que deve ser fácil. Que se fulano que não é tão bom quanto eu está lá no alto da escada, o lógico é que eu não só o alcance mas que até o ultrapasse. Mas, não é. O sucesso se faz da soma de muitas variáveis que podem ou não incluir talento mas também uma boa dose de sorte e de senso de oportunidade. Mas o sucesso é também algo fugaz que pode abandonar seu portador a qualquer momento. Basta pensar nas celebridades de capa de revista de verões passados e que hoje quando alguém lembra delas mal conseguem figurar em sessões do tipo “por onde anda”.

A busca do sucesso é em si uma tarefa inglória e muitos filmes bons já resultaram das estratégias que aquele que quer ser famoso adota para chegar lá. Acho que o mais marcante para mim é o filme em que a aparente vilã Bette Davis contracena com a suposta inocente mocinha Anne Baxter. No Brasil passou como título de “A malvada” e é sensacional a surpresa que a gente tem ao longo da fita ao constatar a inversão dos papeis. A cena final da mocinha/vilã recebendo o Oscar por sua atuação como atriz e agradecendo emocionada à outra é uma das melhores da história do cinema. Mas esse artigo não é sobre esse tipo de dedicação e investimento que se vale de golpes baixos para obter o que almeja. Nem para outras atitudes mais imediatas e radicais de quem, para aparecer na mídia, faz qualquer negócio, até escândalo. Tudo para alcançar aquela sensação agradável de chegar a algum lugar e ser logo reconhecido pelo porteiro, pelo garçom, pelas pessoas em volta e de ser saudado, homenageado, bajulado.

Se este desejo é mais evidente entre os que fazem parte do show business, não é muito diferente para os que buscam o sucesso através do reconhecimento de uma obra literária ou científica. Chegar lá, achar a cura de uma doença incurável ou a formula matemática que levará ao Nobel; desenvolver a tese que mudará os rumos de uma área do conhecimento; escrever o livro premiado, etc. Enfim, todas essas fantasias que habitam a mente na juventude de qualquer pessoa em qualquer carreira. São fantasias legitimas e representam estímulo para continuar.

Acontece que, ao contrário do que pode fazer alguém famoso ainda na infância, como no cinema ou na TV, nessas outras áreas, o sucesso costuma ser o coroamento de uma longa vida de trabalho. O fato é que se quem é bom já nasce feito, o investimento nas qualidades inatas ao longo da vida é que garante a realização do valor inicial. Quantas pessoas brilhantes não conhecemos no colégio e na faculdade e que hoje, depois dos cinqüenta, constatamos que nada realizaram daquelas promessas que pareciam anunciar no seu alvorecer? Eram talentos e vocações que não se concretizaram por falta de investimento. Ao mesmo tempo, pessoas menos brilhantes, colegas apagados que não se destacavam em anda além do tanto que se dedicavam aos estudos, fizeram excelentes carreiras. A meu ver a verdade ainda está naquele lugar-comum que diz que uma carreira faz-se mesmo com 10% de inspiração e 90 %. É o trabalho que garante a construção do “self” em todas as suas potenciais dimensões.

Por isso, eu que antes via com um certo ar crítico a mudança que vem ocorrendo modelo da formação acadêmica no Brasil, a partir dos anos 1990, tendo a rever essa posição. Antes da nova política, as teses de mestrado e doutorado se arrastavam por anos pois seu autor estava construindo uma obra definitiva que deveria  marcar época. A tese de doutorado então, devia ser o ponto culminante de uma carreira, de modo que seu autor devia mesmo dedicar décadas à sua produção. Esse tempo elástico, no entanto, em que o doutorando ficava entregue a si mesmo, sem data final para concluir o trabalho, mostrou-se contraproducente. Muita gente boa passou anos no exterior e voltou de lá sem a tese e sem nenhuma perspectiva de concluí-la.

O novo sistema incluiu também uma cobrança maior sobre o aluno desde seu ingresso na universidade. Hoje, o estudante de graduação está envolvido em projetos de pesquisa; é obrigado a apresentar trabalho em seminários e congressos; a completar a formação pela presença em cursos e eventos extra-universidade. Com isto, desde cedo, ele obtém a consciência da importância de investir na carreira. A entrada na universidade é hoje, de fato, uma entrada no mundo do trabalho, uma entrada no sistema. No bom sentido. A união da atividade de ensino com a de pesquisa se tornou um fato no Brasil e, não se pode negar que o resultado foi positivo. Apesar das queixas contra o excesso de trabalho que resultou da mudança, o professor universitário de hoje é muito mais dedicado e produtivo do que os de antigamente. Suas carreiras ganharam um sentido maior a partir do esforço investido na pesquisa ao lado dos alunos.

E isto nos leva ao começo desse artigo. Neste sistema não triunfam as nulidades. O que vence mesmo é o esforço continuado e a consciência de que, quem está no começo da escada, tem muitos degraus pela frente. O negócio é olhar lá para o alto sem perder de vista o degrau em que se está pisando. Talento ajuda mas o que vai mesmo definir o sucesso é a dedicação ao trabalho no dia a dia. Como o sucesso é relativo, fugaz e incontrolável, o jeito é ir trabalhando mesmo. Quem sabe, um dia desses, você não dá sorte e se torna o gênio que confirmou que há mesmo vida em outros planetas?

Verdades verdadeiras (30/8/14)

Quando a fisioterapeuta lhe perguntou pela quinta vez por que não abria os olhos durante os exercícios, mamãe lhe respondeu irritada: "para não ver cara feia". Respostas assim e um beliscão de vez em quando é o que recebem as moças que fazem parte do verdadeiro exército que todos os dias atende mamãe depois que ela quebrou o fêmur, há cerca de um ano. Fisioterapeuta, massagista, fonoaudióloga, cuidadoras, além do pessoal que já a atendia antes, passaram a fazer parte da sua vida e a obrigar ou a ajudar a fazer coisas que durante toda a vida fez sozinha. Independente e altiva, mesmo durante os anos em que precisou de andador para se locomover pela casa, ela certamente se ressente da dependência que nunca teve de ninguém, nem do marido, nem dos filhos.

Mas a verdade é que os comentários irônicos sempre fizeram parte do seu estilo. Kiko, filho mais velho do Lustosa e que está sempre ao lado dela é o alvo privilegiado de suas ironias. Uma vez quando nos preparávamos todos para subir a serra de Guaramiranga onde íamos passar o final do ano, ele comentou que também ia ficar fora. Ia na casa da mãe, depois na casa da avó e depois visitar um tio, tudo em Fortaleza. Mamãe comentou com um muxoxo de pouco caso: grandes viagens. O mesmo disse quando constatou a modéstia de presentes ganhos por alguém diante dela: grandes presentes. A um filho que, hospedado na casa dela há alguns meses, anunciou a próxima partida, jogando um verde para verde para ver se era convidado a permanecer: "acho que já demorei demais", ela disse apenas: "você é que está dizendo". Diante de um casal muito acima do peso que dançava diante dela em uma festa de família, fazendo graça para animá-la comentou: "estou aqui pensando qual deve ser o tamanho da cama de vocês".

Não que tenha maus modos. Ao contrário. É um senhora muito distinta, discreta e elegante, que sempre se apresenta bem, fala muito baixo e é muito simpática. Vendo-a agora mais fragilizada, lembrei de meu pai que não admitia que lhe chamassem de "velhinho". Velhinho, não, - dizia ele - velho. Mamãe é uma velha senhora, cuja boa estrutura física, os ossos longos e pesados lhe dão, mesmo numa situação de fraqueza, um ar imponente. Basta botar uma roupa bonita, pentear o cabelo, maquiar um pouco e a temos com a melhor das aparências.

Essas pequenas frases cortantes, são lançadas assim, baixinho mesmo e aos poucos, com um tom rude mas nunca grosseiro. Sem chamegos com os filhos mesmo quando eram pequenos, estava unicamente preocupada em ver-lhes os cadernos, acompanhar os estudos, acordar todos para que estivessem na escola na hora certa. Tinha um sentido perfeito de economia doméstica. Quando eu era criança detestava que na nossa casa o sabonete e a pasta de dentes fossem os mais baratos daquele que se vendiam no mercado em pacotões promocionais. Detestava ter que levar na merenda da escola sempre o mesmo pão com goiabada. Achava minha mãe muito sovina, pois controlava tudo que era consumido na cozinha e não gostava que a gente levasse ninguém para comer lá em casa sem avisar. Só mais tarde, quando tive minha própria casa, com meu único filho para manter me dei conta da mágica que ela e papai faziam para dar alimentação, roupa e escola para treze filhos.

Lembro de uma vez que ela me falou a propósito de uma guloseima especial: coma com parcimônia. Aproveitei que era a primeira vez que ouvia aquela palavra, para provocá-la dizendo que ia comer e depois olharia no dicionário para saber o que era parcimônia. Ela achou graça. Quando reclamou que gastei dinheiro comprando um disco, um LP para a Clélia (era a "Matança do Porco") no tempo em que LPs existiam e custavam caro, eu disse, brincando: "ô, mamãe, mas bichinha queria tanto esse disco". Ela riu, porque sempre teve um extraordinário senso de humor e acho que foi esse senso de humor sempre nos manteve próximas, apesar de sermos de temperamento tão diferente. Eu sabia que ela me achava engraçada e usava um pouco de charme para ganhá-la nessas e em outras situações. Afinal, ser a caçula das filhas garante sempre alguns privilégios, não é mesmo, Lúcia, Socorro e Clélia?

Sempre que ia de férias a Fortaleza achava meus pais mais envelhecidos do que no ano anterior. Agora, com mamãe, na verdade me surpreendo de que ela continue tão bem, tão lúcida e tão forte em sua personalidade, apesar dos cem anos completados em junho. Da última vez em que fiquei com ela um tempo mais longo, as duas ali, em suas cadeiras de balanço, cochilando, lado a lado em frente a TV, senti um certo aperto no coração ao me despedir. Ela tinha ido deitar depois do almoço mas não estava dormindo. Ia só dar um beijo e dizer que voltaria logo mas ela puxou assunto.

Que privilégio conversar com ela ali, tão senhora de si mesma, emoldurada pela cabeceira da mesma cama na qual, desde que me entendo por gente, ela sempre dormiu. Móvel que faz parte de um conjunto de cama, guarda-roupa, dois criados mudos e uma penteadeira, estilo art-déco, de madeira clara e desenhos geométricos, estranhamente modernos, muito diferentes do resto da mobília, onde predominavam uns sofás e cadeiras escuros e cheios de desenhos elaborados ou a mesa e as cadeiras muito rústicas da sala de jantar.

Mamãe estava tão animada e conversadora que até me convidou para sentar na beirada da cama. Mas avisou logo: "eu não vou chorar". Ora, eu não esperava que ela chorasse, pois conto nos dedos as vezes em que a vi chorar. Achei a maior graça e provoquei: "Como não vai chorar? Eu acho que já está chorando sim, de saudades da filha caçula". E ela desafiadora: "Está vendo alguma lágrima aqui na cara?" Não, eu não estava. Eu é que precisei disfarçar os olhos rasos d'água de, a essa altura da minha vida e da dela, poder brincar assim, arengar assim, como a gente dizia antigamente, com mamãe.

Creio que em uma outra vida ela foi a minha melhor amiga no colégio.