Eu, por exemplo, cresci em família enorme onde sempre houve não só uma empregada mas também uma engomadeira, e aquelas pessoas que se incorporavam à família sem ser empregadas e sem ser filhas como a Chaga, a Lili e a Maria. Dizem que essa é a pior condição. O sujeito nem tem salário, nem é filho. Não sei não. As três entraram na família meninas ainda, órfãs, muito antes que eu tivesse nascido. As duas mais velhas casaram quando eu era muito pequena e a Maria, que se ocupou de nós três, os mais novos, nunca foi mesmo uma empregada. Era uma irmã de criação e seu Costa se empenhou para dar-lhe estudos e, quando ela quis, para fazer seu casamento com o Antonio, o motorista. É que ela queria casar com ele mas ele hesitava.
Maria gostava da gente, eu e Clélia, mas amava sobretudo ao Fred, o caçula. Magrinha, pequenina, clarinha e de voz delicada, Maria Farias era muito valente. Tinha aquela determinação dos que quando botam uma idéia na cabeça vão até o fim. Na adolescência, teve uma paixão por Orlando Silva, o cantor das multidões. Guardava retratos autografados e as cartas apaixonadas que lhe escrevera sob o travesseiro mas aí apareceu o Antonio e Orlando Silva foi esquecido.
Até hoje, Maria e Antonio, Chaga e Lili continuam a fazer parte das nossas vidas. Todos os anos, na véspera do Natal, as duas mais velhas, que tiveram vida mais modesta por conta dos casamentos (não ouviram os conselhos de seu Costa que não aprovara os noivos), vinham receber as festas. Depois, com as doenças e dificuldades da vida, era a mamãe que ia visitá-las, de tempos em tempos, para saber como iam e para levar-lhes alguma ajuda. Maria e Antonio seguiram à risca os conselhos de seu Costa, compraram casa boa na Aldeota, perto do Colégio Militar, depois trocada por apartamento confortável no mesmo bairro. Quando Antonio fez 70 anos, Lustosa fez questão de publicar um livro com depoimento de todos nós que o conhecemos desde a nossa infância. Ele, depois que se aposentou da COELCE, voltou a ser o motorista e homem da absoluta confiança de mamãe.
Não é que toda a gente que trabalhou lá em casa tenha estabelecido essa mesma relação de familiaridade. Quem chegou mais perto disto foi a Raimunda. Talvez porque sua filha, a Sonia, era pequena quando ela veio trabalhar conosco e, por causa disto, mamãe se ocupava com os seus deveres de casa. E Sonia nunca trabalhou para nós. Ao contrário, o investimento foi em dar-lhe boa educação e fazer com que ela conquistasse um espaço melhor na sociedade. E de fato assim foi, pois quando surgiu uma vaga de estagiário em uma secretaria do Estado, Clélia conseguiu um lugar para ela que ali fez carreira e, creio, até já se aposentou.
Papai tinha essa intuição de identificar em um menino pobre aquelas qualidades de caráter que indicavam que ali estava alguém que poderia, com um empurrãozinho, melhorar de vida. Talvez porque ele mesmo tenha sido um menino assim, ajudando a mãe desde cedo, quando o pai ficava doente. O estímulo que recebera de pessoas boas na infância e na adolescência fora fundamental para que ele, com a ajuda é claro, de suas enormes qualidades pessoais, conquistasse seu lugar no mundo. E como o Antonio, descobriu muita gente a quem dado o primeiro empurrãozinho, viu com alegria ter vida melhor.
Trabalhando fora e vivendo sozinha com meu filho no Rio, sempre precisei ter empregada em casa. Tive-as dos mais variados tipo. A todas sempre tratei bem, seguindo rigorosamente o que a lei mandava em termos de direitos trabalhistas. Nunca estabeleci com elas esse tipo de relação afetiva como as que vi meus pais dedicarem às pessoas que o serviram. Mantive sempre a distância que qualquer relação entre patrão e empregado – seja na fábrica, no escritório ou em casa - deve ter, para que se paute pelo respeito mútuo e pelo cumprimento estrito das obrigações de parte a parte. Nada que não me impeça de lhes trazer presentes, quando volto de viagem ou nas datas especiais e aniversário de seus filhos. Hoje tenho apenas diarista. Meu marido não gosta que tenhamos alguém em tempo permanente em casa e é mais do que suficiente.
Não acho que a nova lei vá mudar muita coisa na vida nessas relações. Acordos e acomodações se farão, especialmente entre aquelas patroas e empregadas que estão juntas há muitos anos. Na Europa, vi jovens universitárias trabalhando como diarista para pagar os estudos. E isto em nada as diminuía nem para quem as contratava, nem diante delas mesmas. Era uma relação de trabalho como outra qualquer. Pode ser que no Brasil do futuro, arranjos assim sejam perfeitamente factíveis.