Natalinas (24/12/11)

A crônica de Natal de que mais gosto é uma do Rubem Braga sobre essas mensagens de fim de ano que nos mandam carteiros, porteiros e entregadores de jornal. O então cronista da revista Manchete acabara de receber um cartão de Natal com o desenho de um sininho badalando no verso do qual se lia: "Aqui está nosso cartão/ Em prova de amizade/ Desejando-lhe Boas Festas/ Saúde e Felicidade.// Entra ano e sai ano/Trabalhando sem cessar./São os fieis Lixeiros/ Que vêm vos cumprimentar.//Mais um ano de trabalho/ Aqui estão quem vos prestou/ Apesar de bem cansados/As vossas ordens estou.//Os vossos Lixeiros/Artur, Emílio e Agenor".

Rubem adorou o poema e recompensou os poetas com uma nota de 50 cruzeiros. Mas ficou preocupado com a perspectiva da visita de outros poetas: o da tinturaria, o da padaria, o carteiro, etc. A caixa estava fraca e o bar vazio, diz Rubem: "só com um restinho de ´Vovó Extra´ que um amigo me trouxe de Fortaleza? Ah, aqui outrora retumbaram uísques...".

Daí que ocorreu ao cronista convidar seus colegas Henrique Pongetti e Fernando Sabino para fazer uns cartões com versos destinados aos leitores. Saiu um plágio descarado do cartão dos lixeiros que dizia assim: "Entra ano e sai ano/ Escrevendo sem cessar/ São os vossos fieis Cronistas/ Que vem vos cumprimentar./Feliz Natal e Ano Novo!//Se o uísque estiver sobrando/ Lembrai-vos destes Cronistas/Que de sede estão penando/Henrique, Rubem e Fernando".

Apesar dos protestos de Rubem, argumentando que não era justo que o padeiro ganhasse festas e "o cronista, afinal de contas um padeiro espiritual" não pudesse nem pedir, o poema foi rejeitado pelos colegas, em nome dos bons princípios, da boa ética - e, completa Rubem, "desconfio, um pouco também de seus maus fígados". O cronista encerra essa deliciosa crônica natalina dizendo: "Desisto da ideia - embora, naturalmente, eu seja incapaz de fazer uma desfeita se alguém, apesar disso, insistir em mandar uísque para a casa de um cronista pobre sim, mas soberbo, nunca!".

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O Natal de 2010 passei em Paris, junto com meu filho e a namorada, na casa de Claudia Poncioni, brasileira gentil e amável, casada com Jean-Yves Mérien, ambos intelectuais, autores de obras importante. Ela, professora da Sorbonne, defendeu em 2010 sua tese de livre docência sobre o Engenheiro Vauthier, sobre qual lançou o livro "Pontes e Ideias - Louis-Léger Vauthier, um engenheiro fourierista no Brasil". Vauthier é aquele mesmo cujo diário intimo foi publicado por Gilberto Freire. Mérien é considerado um dos maiores especialistas na obra de Aluísio Azevedo, autor de alentada biografia do escritor maranhense, estudo ao qual dedicou muito anos. Ele também foi adido cultural de seu país na Argentina e no Brasil e, com suas vastas barbas, é a cara do Monet, do qual, aliás, trouxe para o Brasil uma mega-exposição, em 1997.

Jantar de família, para o qual a brasileira solidária que conhecera poucos meses antes em Lisboa não teve dúvida em chamar a compatriota solitária sem saber que eu tinha mais dois comigo. Logo também incluídos na lista de presentes. Claudia tem três filhos homens, sendo que os dois mais velhos, gêmeos, são do primeiro casamento. Um deles tão bem sucedido no mundo dos negócios internacionais que, de tanto correr o mundo, tinha até um cartão daqueles que o George Clooney sonhava ganhar naquele filme do qual não lembro agora o nome. Jantar chiqueréssimo, com aquela combinação tão francesa de simplicidade e sofisticação... Durante a conversa, meu filho, filiado ao PSOL e liderança do movimento estudantil em sua universidade, travou acirrado debate com o bem sucedido filho da minha amiga. Depois procurei aconselhá-lo: "tudo bem, meu filho, de fato ele é o inimigo, temos que destruí-lo, mas não precisa ser na noite de Natal, diante dos pais dele e depois de termos tomado todo o seu champanhe".

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Neste Natal, ganhei o melhor dos presentes que foi assistir, na concha acústica da UFC, à formatura do meu filho, Francisco Bento, em Física. Fui invadida por uma sensação de plena felicidade quando cantava o Hino Nacional a plenos pulmões, no meio daquela multidão de pais e filhos emocionados e felizes. Ali dava para ver como tinha gente de todas as classes sociais. Dava para ver como é democrática a universidade pública no Brasil e sempre o foi. Eu que estudei na UFRJ e tive tantos colegas da Baixada Fluminense entre os contemporâneos sei que como é falso o discurso dos que defendem a privatização do ensino superior sob o argumento de que a universidade pública só forma meninos ricos. Se o ensino de primeiro e segundo grau fosse tão bom e gratuito como nossas universidades federais e estaduais teríamos muito mais meninos pobres se formando. Felizmente os economistas descobriram, depois de anos de políticas equivocadas em que este item era sacrificado em favor de um PIB mais elevado, que a educação é a principal criadora de riqueza de um povo. Nas condições atuais, em que é tão difícil a um menino pobre chegar a uma boa universidade, os tantos pais sertanejos que vi ali, orgulhosos e emocionados se fazendo fotografar junto com os filhos, merecem parabéns reforçados.

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Também foi bom ver ali amigos do meu tempo de juventude com seus filhos também diplomados naquela noite. Estevão e Isabelle, professores das Ciências Sociais, pais de uma linda menina chamada Raquel, formada em Biologia, e a Vevé, Tereza Veronica, cujo filho, dela e do Valmik, ambos físicos e também professores da UFC, formava-se também em Biologia e é namorado da mesma bela Raquel aqui já mencionada. Nestes últimos tempos, essas surpresas da vida promovendo associações entre passado e presente têm me comovido. Será que é por causa do Natal?

Organização (17/12/11)

Eu queria tanto ser uma pessoa organizada. Olho em minha volta e só vejo o caos.

Duas poltronas com um monte de livros empilhados que mal se equilibram, junto com papéis, tudo misturado e desarrumado. Na mesa, a mesma coisa. Pelo chão, revistas e livros junto com sapatos, sandálias, bolsas e também sacolas onde estão reunidos os papéis que já estiveram espalhados sobre a mesa e, em arrumação anterior, foram postos ali para um dia serem separados. Só que esse dia, apesar de já terem se passado meses, ainda não chegou e outras sacolas cheias de papéis foram se somando à primeira. O dia chegará pois sempre chega a hora em que o maior desorganizado sente que não vai poder dar mais nenhum passo, nem achará mais nada se não organizar tudo.

Como eu tenho inveja dos organizados.

Inveja e admiração pois gosto de ver tudo arrumadinho, cada coisa no seu lugar: a mesa limpa; os livros nas estantes; os papéis separados; as canetas, lapiseiras e a tesoura em um copinho.

Tem gente assim. Acaba de trabalhar e a mesa está impecável. Morei com uma amiga no tempo da faculdade em um apartamento pequeno no qual dividíamos o armário. Devia ter fotografado. Do lado dela, tudo estava bem direitinho, organizado em caixinhas, com as roupas distribuídas de acordo com uma ordem previamente definida em seus cabides, os sapatos nas prateleiras. E o meu lado, não dá nem para descrever.

E olha que tenho a maior raiva de gente desorganizada. Implico mesmo. Na verdade, há uma espécie de escala de desorganização. Eu creio que estou em um nível elevado, mas já vi gente muito pior. Já vi gente um pouco melhor do que eu (devia não nomear mas não resisto, é a minha irmã, a Clélia) mas não muito, implicar com a minha desorganização. Eu tenho meu limite e quando o caos se instala como hoje, aqui em volta da minha mesa, paro tudo e vou organizar.

Assim é também com a pia da cozinha. Não deixo comidas nos pratos e panelas ou qualquer coisa assim que possa atrair bichos. Faço até um pré lavagem para quando for lavar mesmo ficar mais fácil. Mas vou acumulando e empilhando até não ter mais espaço. É aí que eu lavo tudo. O que é uma besteira pois seria muito mais fácil usar, lavar e guardar.

Assim como também com os livros, os papéis, as coisas em geral. Pois quando acumula é que dá essa sensação de que virou uma tarefa hercúlea. Isto deve vir de um dos trabalhos de Hércules, conforme aprendi com Monteiro Lobato, que teve, entre seus doze trabalhos, o de limpar as cocheiras de um determinado rei. Deviam estar imundas para a tarefa precisar de um Hércules.

Minha fantasia mesmo é aquela do filme "Fantasia" em que o Mickey, encarregado de limpar uma cozinha, por um efeito mágico vê as coisas se limparem e organizarem por elas mesmas, sem que ele possa fazer esforço. Que maravilha seria com um simples piscar de olhos, como o da Feiticeira, ver os livros se erguerem sozinhos daquelas duas poltronas e cada um por si mesmo se direcionar e se encaixar em seu lugar na estante.

Eu já comprei um livro intitulado "Como se organizar". Foi motivo de hilariedade aqui em casa pois o Mario Bag conta para todo o mundo que este logo se perdeu em meio ao caos dos livros e nunca mais foi encontrado. Não é bem assim. O problema é que o livro, tal como toda dieta milagrosa, dizia tudo que a gente já sabe.

Pois o desorganizado não é desorganizado por não saber ser organizado. Como qualquer pessoa que está acima do peso e já tentou várias dietas, ele sabe exatamente o que deveria fazer para manter tudo em ordem. O problema é que não consegue. Ele é desorganizado por um impulso da natureza, por um tipo de compulsão, talvez por ansiedade ou obsessão, pelo fato de que quando está fazendo uma coisa não queira perder tempo ou pensar em outra qualquer.

Por isso que, na mesma casa, educados pelo mesmo sistema, irmãos podem ser absolutamente diferentes nessa matéria. Minha irmã Socorro, a Dadal, por exemplo, era toda arrumadinha no tempo do colégio. Sempre com o seu uniforme bem passado, a blusa de um branco imaculado, o cabelo bem penteado. É só ver as fotos dela quando estava no Normal do Colégio das Dorotéias.

Bom, o jeito é terminar essa crônica e meter a mão na massa. Esses dias de grande faxina, como naqueles desenhos do Norman Rockwell são um espetáculo à parte. Uma das características do meu padrão é a de manter uma certa ordem no caos. Essa consiste em guardar tudo mais ou menos de acordo com uma classificação. Assim, nas sacolas onde estão todos os papéis que saíram da mesa estão contas, textos, cartas, recortes de jornal, etc. Sairão daqui para pastas destinadas a cada um desses. Éééé... eu sou desorganizada mas consegui um dia fazer isto e, desde então, no dia da grande faxina, ponho essas coisas nos seus lugares e dou uma melhorada considerável no ambiente.

O problema é que no dia seguinte, ou mesmo, no mesmo dia começa tudo de novo. Os papéis voltam a se acumular, os livros saem da estante para serem consultados e não voltam mais, o sapato tirado para poder trabalhar mais confortavelmente jaz esquecido debaixo da mesa junto com umas revistas que não sei porque foram parar ali. Isto tudo agravado pelos equipamentos e fios associados ao computador, mais telefone, impressora, luminária e ventilador.

Meu consolo é saber que o Barão do Rio Branco, maior nome da história diplomática brasileira, quando morreu deixou em seu escritório uma sucessão de mesas atulhadas de papel. Consta que ele usava uma mesa e quando esta ficava tão caótica como a minha, pedia outra. Juntava mais coisas sobre aquela, pedia outra e assim por diante. Eu, pelo menos, só uso uma mesa. É que aqui não tenho espaço para botar outras.
 

A solidão, o elevador e o arranha-céu (3/12/11)

Lá em casa tinha um disco do Silvio Caldas. É engraçado dizer isto hoje quando, mesmo os CDs contendo centenas de músicas tornaram-se obsoletos porque no seu iPod você pode reunir todas as músicas que ouviu ao longo da vida e ainda sobra espaço. Mas na minha infância e adolescência um disco era algo importante e a gente tinha bem poucos para a família inteira, aliás.

No meu iPod reuni todas as músicas que eu quero ouvir até morrer. Parece exagero mas como são mais de setecentas e mesmo nas mais longas viagens que fiz de carro, daqui do Rio de Janeiro até Caxambu não deu para ouvir tudo, acho que serão essas mesmas as que vão me acompanhar daqui em diante. Eu as reuni quando estava escrevendo um trabalho de fôlego. Nas horas em que batia aquele tédio saía em busca de tal ou qual canção que ouvira não sei aonde na voz de não sei quem. E com a facilidade de achar na internet tantas versões ainda pude me dar ao luxo de escolher os arranjos que mais me agradavam aos ouvidos.

Então tem todos os gêneros. Quer dizer todos os gêneros que produziram alguma coisa que gostei de ouvir. Muita MPB, é claro, mas também, algumas clássicas americanas, alguns rocks antigos, algumas canções românticas. Uma série com nome de mulheres. Uma seleção de músicas de combate, liderada pela Marselhesa na voz de Mireille Mathieu; alguns tangos; alguns boleros; algumas guarânias; alguns sambas; alguns sambas-canção; um ou outro chorinho; fados e canções tradicionais italianas; umas canções sertanejas; uns frevos; algumas canções de musicais americanos; alguns clássicos, inclusive óperas; algumas poucas músicas instrumentais. Enfim, com raras exceções, consegui todas as músicas que queria ter e sempre que tenho que gastar longas horas viajando ou caminhando, essas velhas amigas me fazem companhia.

Dia destes por obra de uma tecla que no iPod se chama "aleatório", cheguei em música cantada pelo Silvio Caldas. O mesmo do disco do começo desse artigo. Não me lembro o título do disco mas lembro de várias canções. A começar pela "Minha palhoça", muito bonitinha, (ai, se você quisesse morar na minha palhoça); tinha "a tua vida é um segredo" que terminava dizendo: "são nossas vidas/ romances sempre iguais/três atos de mentira,/ cai o pano e nada mais". Como o pessoal era desiludido naquele tempo, heim?

Mas tinha também "Até amanhã", que é bem alegre; como também era alegre uma muito divertida que dizia "Foi uma pedra que rolou na ribanceira da desilusão e resultou, e resultou na causa mortis do meu pobre coração". Simples e boa era a que dizia; "Na aldeia, oi,/ na aldeia/ quero ver o seu vestido arrastando-se na areia". Acho que tinha também "Saudades dela": "vai saudade a casa daquela ingrata que deixou você prá mim" mas creio que não tinha duas músicas emblemáticas que ficaram sempre na minha memória associadas a Silvio Caldas. A primeira é "Violões em Funeral", aquela música em homenagem ao Noel Rosa, depois de sua morte. Digam o que disserem, mas eu continuo achando-a muito bonita: "Vila Isabel veste luto/pelas esquinas escuto/violões em funeral".

A outra música faz parte de uma brincadeira do Claudio Pereira quando me fez eleger Garota Cultural, em 1977. Ele incluiu numa das tantas matérias falsas que fez uma que dizia que quando cheguei ao Bar do Anísio fui recebida por um coro de admiradores que cantava a música de Silvio Caldas: "Nos braços de Isabel eu sou mais homem/Nos braços de Isabel eu sou um Deus". É de lasca, não é mesmo?

Dentre as músicas que tenho no meu iPod incluí algumas daquele disco. Não todas para não ficar chato e nem todas no vozeirão dele pois algumas releituras deram vida nova a muitas canções daquele tempo. A que ouvi naquele dia, por acaso, foi "Arranha céu", de Orestes Barbosa e do próprio Silvio Caldas. Como é da parte do final da coleção, quase nunca consigo ouvi-la. Aí, pude saboreá-la com o mesmo prazer que a gente tem quando, inesperadamente, ouve uma música de que gosta. A música começa assim: "Cansei de esperar por ela/ toda noite na janela/ vendo a cidade a luzir./ Nesses delírios nervosos/ dos anúncios luminosos/ que são a vida a mentir".

"Os anúncios luminosos que são a vida a mentir" é tudo de bom. Condizem com o espírito angustiado do sujeito que espera por uma mulher, sabendo que a anunciada vinda dela pode ter sido uma promessa tão falsa como a dos anúncios. Desconfia que ela não vem, mas espera assim mesmo, porque no estado em que está, só lhe resta esse fiapo de esperança. Os anúncios, são também chamados de "reclames" para rimar com "e disse ao peito não ames/ se teu amor não te quer". Mas a parte central desse drama romântico urbano e moderno está no verso: "E cada vez que subia/ o elevador não trazia/ essa mulher, maldição./ E quando lento gemia/ o elevador que descia,/ subia o meu coração".

Essa gangorra de sentimentos, durante a sofrida espera pela pessoa amada, com o ouvido ligado nos menores ruídos, fica ainda mais interessante por estar associada a um cenário moderníssimo. A música é de 1937 e, tanto os elevadores, quanto os arranha-céus ainda não eram tão comuns. A solidão deveria parecer mais acachapante dentro de um apartamento, no alto de uma daquelas torres cujas vidraças refletiam a profusão de luzes da grande cidade. Tem um momento de revolta em que o sujeito fala para si mesmo, tentando convencer-se a desistir, a renunciar, a esquecer: "descansa, fecha a vidraça/ esquece aquela desgraça/ esquece aquela mulher". Mas não adianta. A paixão é mais forte, domina o inconsciente como se revela no último verso:

"Deitei-me então sobre o peito

Vieste em sonho ao meu leito

E eu acordei, que aflição

Pensando que te abraçava

Alucinado apertava

Eu mesmo meu coração".

A intriga (26/11/11)

O que guardei mais fortemente da leitura da "Cartuxa de Parma", de Stendhal, foi uma frase mais ou menos assim: "O homem que se aproxima da Corte faz depender seu futuro das intrigas de uma criada de quarto". Essa sábia assertiva define bem o ambiente de Corte e corresponde a outra que diz que "não há inimigo pequeno". Uma criada de quarto bem posicionada, se hábil e intrigante, pode definir o destino de muito poderoso. Mas a frase de Stendhal demonstra bem mesmo é o poder da intriga. Pois se ela tem tanta força é porque monarcas, mesmo quando justos e sensatos podem se deixar enredar em uma intriga bem urdida.

Eu nunca dei muita bola para possíveis maledicências contra mim. Minha teoria é que não há como se defender desse tipo de coisa. A intriga é traiçoeira e independe da vítima para seguir seu curso. Depois de plantado o boato ele vai envenenando contra você as pessoas que a ele derem ouvidos. Não adianta se tornar um paranoico absoluto sempre em busca de descobrir o que andam falando pelas suas costas. Você nunca vai saber mesmo e sofrerá em vão. Suas tentativas de informar a pessoa que ouviu e acreditou no que disseram de você podem ser até mal interpretadas. Afinal, se você não deve nada, porque está dando tantas explicações?

Um vizinho meu que foi síndico do meu prédio queixou-se para mim de que sua antecessora andara espalhando pela vizinhança informações falsas sobre ele, que punham em dúvida a sua honestidade. Ele recorreu a uma alegoria para definir a situação. Uma moça muito honesta estava para se casar. Um pretendente preterido, inconformado com a situação resolveu inviabilizar aquele projeto criando dúvidas sobre a honradez da donzela. Deixou uma escada sob a varanda de seu quarto e, de madrugada, fingiu estar descendo por ela como se ali tivesse passado a noite. A notícia correu pela pequena cidade chegou ao conhecimento do noivo que, indignado, rompeu o noivado. A moça ficou falada e, mergulhando na mais negra melancolia, adoeceu mortalmente. O difamador, sentido-se culpado, foi a ela pedir perdão, comprometendo-se a esclarecer tudo. Ela lhe pediu que lhe desse um vaso com água que estava sobre a mesa e derramou a água no chão. Ordenou-lhe que a recolhesse e a colocasse de volta no vaso. Naturalmente que com a ajuda de um pano muito pouco da água foi recuperada. A donzela explicou: "O que você fez com a minha honra foi o mesmo que aconteceu com a água do vaso. Depois que ela se espalha, mesmo que se consiga recuperar alguma coisa, nunca mais se reunirá tudo".

Gostei da história, disse ao meu amigo que concordava com ele mas que achava também que não adiantava se deixar morrer de desgosto como a pobre donzela difamada. Sendo coisa contra a qual não há defesa, o único recurso que resta às vitimas da intriga é dar a tempo ao tempo e esperar que as pessoas descubram por si mesmas que estavam erradas em seu juízo.

Na verdade, a intriga precisa de um terreno previamente preparado para florescer. Não adianta cultivá-la entre pessoas que são tão próximas que rapidamente podem esclarecer tudo uma com a outra. É preciso que haja no espírito do que dará ouvidos à intriga uma certa predisposição negativa contra a pessoa que é objeto da mesma. Amigos que, por alguma circunstância, se afastaram mesmo sem terem rompidos; irmãos que têm mágoas antigas que estavam adormecidas; chefes que, por algum motivo, antipatizam com um subordinado contra o qual não tem nada de concreto; vizinhos que mal se olham e que se limitam a uma saudação fria no elevador. O intrigante apalpa o terreno e lança sua primeira semente de forma desinteressada. Se encontra espaço para ampliar sua semeadura, se vê receptividade, vai em frente, avançando com cuidado.

Quem dá ouvidos à intriga nem percebe porque foi que tomou tal aversão àquela pessoa pela qual era indiferente, ou pela qual apenas não tinha muita simpatia. Agora tem provas de que sua intuição estava certa e diz para si mesmo: bem que eu desconfiava. O intrigante venceu. Pode se dedicar à colheita do que pretendia com sua trama. Às vezes não pretende nada além de aprofundar o fosso entre irmãos; entre amigos; entre o chefe e um colega de equipe. Às vezes quer apenas inviabilizar qualquer chance de reconhecimento dos méritos de sua vitima. Às vezes é apenas maldade mesmo.

Conheci uma vez uma mulher que era uma verdadeira craque na intriga. Uma feiticeira tão competente que sempre que eu conversava com ela ficava convencida sobre tal ou qual coisa que ela dissera de alguém. Ela inseria a informação negativa durante uma conversa de forma bem casual, como se fosse algo sabido por todos e que apenas eu ignorava. E eu boqueabria-me feito uma pateta dizendo: "É mermo?!?". Como era muito amável, muito delicada, sem jamais elevar a voz nem entrar em confronto com ninguém, a coisa funcionava maravilhosamente. Só depois da conversa quando pensava bem sobre o que ela dissera é que eu me dava conta que nunca tinha ouvido aquilo de nenhuma outra pessoa e que era bem provável que fosse uma deslavada mentira ou mesmo uma versão deturpada da verdade.

Prefiro sempre me afastar e evitar contato com gente assim pois se você não for também um intrigante se presta facilmente a ser inocente útil nas mãos deles. Eu então que falo tudo o que penso ainda posso contribuir para subsidiar intrigas em que eu mesma seja o tema. Passei a por em dúvida tudo que me contavam de negativo sobre alguém. Adoto o sistema do repórter investigativo: "o que, quando, como, onde e porque" acrescidos do: Você viu? Quem te contou?

Enfim, a mesma atitude desconfiada com que leio hoje os jornais.

Informações podem ser e quase sempre são interessadas. Então desconfie delas. Principalmente se forem negativas. Podem ser apenas obra de intrigantes.

Nossas canções (19/11/11)

Ouvi dizer que Chico Buarque negocia com sua plateia a inclusão das músicas novas, pois ninguém as quer ouvir. Todo o mundo pede "Apesar de você", "Chama o ladrão" ou até alguma mais antiga como "Olé, olá". A plateia do Chico que é composta, em sua maior parte, de gente da minha geração quer ouvir mesmo são aquelas canções que estão ligadas à sua memória afetiva. E a memória afetiva da gente tem seu melhor repertório nos anos 1960 e 1970.

Meu saudoso amigo, Luis Carlos Saroldi me entrevistou uma vez para seu programa da Rádio MEC: "As dez mais da sua vida". Antes da entrevista eles lhe pedem que lhes mande a lista das músicas para que sejam tocadas durante o programa. Não lembro de tudo agora mas sei que a primeira de todas que lembrei foi daquela música gaiata, com a letra toda em proparoxítonas que começava assim: "Amei Angélica, mulher anêmica/de cores pálidas/ de gestos tímidos..." Eu disse na entrevista que esta música era a cara do ambiente bem-humorado da casa dos meus pais onde esse disco da dupla Jararaca e Ratinho, que reunia outras canções divertidas fazia muito sucesso. Não me lembro se incluí também o "Presidente bossa nova", de Juca Chaves que, pelos mesmos motivos, foi outro hit da minha infância.

Tenho certeza que entraram duas músicas do Gil, ambas do primeiro disco dele que foi também o primeiro disco que comprei na vida. Tenho até hoje com o meu nome escrito na letra dos meus treze anos pois é de 1968. Melhor: tinha. Na verdade guardava todos os meus velhos LPs vida até que meu filho, hoje com 21 anos, os adotou e os ouve numa vitrola que lhe deu o Antonio Gomes. A primeira das duas músicas do disco do Gil que incluí foi: "Beira-mar", com letra do Caetano que começa assim: "Na terra em que o mar não bate/não bate o meu coração/o mar onde o céu flutua,/ onde morre o sol e a lua/ e acaba o caminho do chão". O resto vai por aí e é a mais bela poesia.

A outra era uma com letra do Torquato Neto que dizia "Toda rua tem seu curso,/ tem seu leito de água clara/ por onde passa a lembrança/ lembrando historias de um tempo/ que não se acaba". Era me lembrava muito o livro do Viriato Correia, "Cazuza" e, de fato, Torquato fala da sua rua como situada na margem piauiense do rio Parnaíba "que separava minha rua das outras do Maranhão", que era a terra do Viriato e onde o Cazuza do seu livro passou a infância.

Depois vinha uma música do Milton Nascimento artista que eu conheci e aprendi a gostar por causa de meus amigos de Belém do Pará, Mena e Zé Pinheiro. É aquela que diz: "Que notícias me dão dos amigos/ Que notícias me dão de você/ Sei que nada será como está, amanhã ou depois de amanhã, resistindo na boca da noite um gosto de sol"... Música que ficou na minha lembrança sempre associada à partida desses amigos tão especiais de volta para Manaus, para onde o pai deles, diretor da Shell tinha sido transferido. Amizades de adolescência com aquela intensidade que esse tipo de amizade tem.

Depois vinha o pessoal do Ceará e do seu repertório duas foram, para mim, inesquecíveis. Uma mais óbvia: "Doroty Lamour", a mais marcante e cantada das canções daquele tempo. Acho engraçado porque a gente cantava e falava mesmo "Doróte", pois no tempo em que foi composta não havia esse cuidado tão exagerado que existe hoje com a pronúncia exata das palavras da língua inglesa. Quando falei da música a um amigo carioca muito cioso nessa matéria, ele exclamou: mas o nome é "Dóroti". Foi só aí que caiu a ficha. E como ficamos nós que amamos cantar mesmo é "Doróte" Lamour desde a nossa adolescência? Por mim continuamos e fazemos como os portugueses que aportuguesam os nomes de todos até do João Lenon.

A outra canção cearense era "Além do cansaço". Eu adoro essa canção, especialmente a letra amargurada que o Brandão fez para a ela: "Quando não houver mais música no ar/ nem houver sorrisos em volta./ Quando nada na tarde morta além do cansaço da vida falar./ Quando o cigarro irritar a garganta,/ A bebida os lábios queimar,/ E a presença de alguém que ainda canta/ Não consiga no peito cantar,/ Quando a rua, a casa e a porta/ Não mais falem de ir ou chegar,/ Quando não mais houver poesia/ Na simples canção de uma mesa de bar./ É preciso entender que perdida/ pela vida uma estrada caminha/ e que uma cidade sozinha/ não comporta a procura da vida./ É preciso entender que a vida/ quer um jeito de resistir/ é preciso entender que agora/ a aurora não pode esperar por vir." A música é amargurada mas, ao contrário do que se podia esperar, trás uma mensagem de esperança no final. Quer dizer, fora da nossa cidade pode haver uma alternativa. Mensagem que talvez tenha me ajudado na difícil decisão de partir de Fortaleza para o Rio de Janeiro.

Creio que incluí ainda "Paisagem Inútil", do Caetano e "Retrato em branco e preto" do Chico e do Tom, que acho a música mais bonita sobre relacionamentos difíceis. Na verdade, quando viu minha lista, o Saroldi, perguntou: mas não tem nada dos anos 1980 para cá? Foi aí que me dei conta que não. Eu não vibrei muito com o rock ingênuo da Blitz, do Kid Abelha, nem mesmo com a obra de Rita Lee pós-Mutantes. Para mim era coisa para animar festinha, nada marcante nem empolgante. Hoje então, não consigo ouvir mais nada de novo. Ou melhor, consigo ouvir e até aprendi a gostar de alguns velhos sucessos do rock-and-roll, aqueles que todo o mundo, menos eu, ouvia quando tinha vinte anos. Mas nesta matéria não tenho autonomia de voo e sigo a orientação do meu alterego pop, Mario Bag, conhecedor profundo da história do rock.

Cabelos brancos (12/11/11)

Fez muito sucesso em almoço de que participei há alguns anos a história que Jerônimo Moscardo contou a Evaldo Cabral de Mello, na mesma mesa em que eu estava. Disse ele que meu irmão, Lustosa da Costa, ao reencontrar uma antiga namorada, outrora beldade estonteante de cuja beleza não restara nenhum vestígio, teria lhe dito, com espontaneidade: "Mas, Maria Helena, como é que eu pude ter sido tão apaixonado por você?".

Se foi isto mesmo, coitada da Maria Helena.

A gente, na verdade, nunca tem muita certeza do quanto mudou e, certamente, a mudança no olhar dos antigos admiradores tem seu significado. 

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Eu mesma tive um que, desde os meus dezoito anos, sempre que me encontrava demonstrava absoluto deslumbramento. Uma vez, já bem depois de passados os meus quarenta, ouvia-lhe a mesma cantinela que, se algum dia, já me encabulara era, agora, divertidíssima. Sendo hoje uma senhora respeitável, autora de livros, meu admirador achou por bem perguntar-me se me incomodava tanta admiração. Eu lhe respondi que agora o que me chatearia seria se ele parasse. Seria o sinal de que meus encantos se teriam definitivamente fanado. 

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Porque, se para as mulheres jovens despertar o interesse masculino é quase uma contingência natural, o interesse por uma mulher madura é como uma cortesia. Não me lembro onde li a história de um sujeito que, encontrando uma velha amiga no avião, propõe-lhe que quando chegassem na cidade, estranha aos dois, tivessem um encontro caliente no hotel em que ficariam. Diante da negativa indignada dela, ele arrematou: "Bom, eu já cumpri minha obrigação." A obrigação, o bom-tom, mandava que, para lisonjear a amiga, demonstrasse o quanto seus encantos exerciam efeito estimulante, digamos assim. Pois do contrário, a mulher, acostumada a ser cantada por todos poderia imaginar que já chegara ao estado da ex-namorada do Lustosa. 

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E não são só os admiradores. Uma vez uma professora da UFC, duas gerações à nossa frente, perguntou a mim e à Clélia, onde andavam aquelas duas meninas magrinhas da família Lustosa que ela um dia conhecera. Preferimos não decepcioná-la dizendo que éramos nós mesmas, as outrora magrinhas meninas lustosa. 

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A avô paterna de meu filho, D. Edi, sempre que fazia uma foto 3X4, olhava desapontada e dizia: "Nossa como estou horrível nesse 3X4. Mas vou guardar porque sei que daqui a dez anos vou achar que estava até muito bem." 

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Li em uma coluna social, creio eu, a história de uma socialite que acompanhava um operário que tinha ido consertar alguma coisa na casa dela até a porta. Passando pela sala ele viu uma foto grande de uma jovem e deslumbrante mulher em traje de banho, perguntou quem era. Diante da resposta de que era ela mesma, ele comentou solidário: "Pois é madame, o tempo esculhamba com a gente." 

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Tenho olhado para as tantas mulheres que hoje optam, mesmo sendo ainda jovens, por deixar os cabelos brancos. Eu penso em fazer o mesmo mas, hesito. Será que ficarei velhíssima ou vai depender do corte? Porque, na verdade os cabelos pintados também ficam meio artificiais e, muitas vezes acentuam o contraste entre o rosto e o cabelo totalmente negro, ou totalmente acaju. E esse contraste também choca. Uma colega minha que adotou os cabelos brancos muito antes da moda atual, recuou, pois, moça ainda, na casa dos quarenta, no banco, lhe indicavam a fila dos idosos, ou lhe ofereciam o lugar no metrô. 

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A verdade é que nessa mudança de tempo, em que a gente aos cinquenta se veste e se comporta igual aos de trinta, o cabelo branco é até uma atitude ousada. É remar um pouco contra a maré que determina que todo o mundo tem que ser jovem. Lembro de um filme com Henry Fonda e Katharine Hepburn, creio que foi "O Lago Dourado", em que os dois formam um casal de velhos. Ela bem alto astral e ele um mau humorado crônico. Em determinada cena do filme ela lhe conta que conhecera o casal que morava no sítio ao lado do deles e que eram muito simpáticos. Ele indagou sobre a idade dos dois. E ela respondeu: "Ah, não sei, acho que são de meia-idade, assim como nós." Ao que ele arrematou: "De meia idade? Meia idade quer dizer que a pessoa está na metade da vida. Você já viu alguém viver 150 anos?".

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Foi o próprio Roberto da Matta quem me contou que estava uma vez com Celeste na fila dos idosos de um banco em Niterói. Celeste muito simpática conversava com uma vizinha de fila e esta reclamava da tamanho da fila e da demora alegando que o marido era muito chato e ia reclamar se ela atrasasse para almoço. Observando a cara fechada do Da Matta, ela comentou com Celeste: "Aliás, esse seu tem cara de ser também muito reclamão. "Da Matta, entrou na conversa apenas para dizer: "Não minha, senhora. Lá em casa em não reclamo de nada. Celeste organiza a casa como quer e eu acho tudo muito bom. Mas só tem uma coisa: quando eu quero sexo, eu exijo sexo."

Enfim, envelhecer bem envolve uma boa dose de humor, energia e gosto pela vida. Os cabelos brancos ou a ausência deles são apenas um detalhe.

J. Carlos e a caricatura na Primeira República (5/11/11)

Uma mudança se verificou na atitude geral das elites pensantes cariocas no alvorecer da Primeira República. A República mudou o feitio da Capital Federal, sumiu da cena pública o velho monarca e sua corte, o pouco estimado Conde D´Eu, a nobreza mais ligada a D. Pedro II. Enfim, sumiram os personagens principais da cena política, com seus hábitos, os rituais da monarquia e o prestígio que esta gozava junto às cortes da Europa.

Vivia-se uma síndrome parecida com a que sucedeu à Independência, só que em momento diferente de sentimento nacional. Na Independência estavam os ânimos nacionalistas exaltados, queriam os brasileiros a independência em todos os sentidos, muitos jornais proclamavam a superioridade do caboclo, do mulato sobre os portugueses e europeus em geral. A literatura romântica exaltava o índio, redimia o escravo, proclamava a grandeza do continente americano.

A República veio no tempo do primado da ciência e do racionalismo com suas teorias definitivas sobre a inferioridade dos trópicos e das raças mestiças. Mesmo os homens mais cultos, mais sábios, curvavam-se humilhados ao diagnóstico definitivo: estávamos condenados ao atraso e a República só vinha agravar este estado de coisas. Para a Europa, contava muito termos aqui governando um remanescente das mais antigas casas da nobreza de lá. Era Habsguro e Bragança e o longo reinado de Pedro II, com sua imagem de amigo das letras, das ciências e das artes que nos distinguiam das tantas republiquetas latino americanas em que os ditadores se sucediam em frequentes golpes militares.

O primeiro grande esforço republicano foi, cessada a fase das escaramuças militares no período Deodoro/Floriano, o de recuperar a credibilidade do país e com ela o crédito junto à economia internacional. No esforço de identificação do Brasil com a velha Europa aliaram-se políticos, empresários e intelectuais. Neste cenário, a caricatura brasileira, tal como a literatura e a poesia viveu um período de calmaria. Ao invés do estilo agressivo com que se fustigaram o ministros e ao próprio Imperador trocavam os caricaturistas amabilidades com os presidentes. O humor roçava o ingênuo nas imagens de Prudente de Moraes, Campos Sales e Rodrigues Alves. Este último, aliás receberia de Kalixto e Raul Pederneiras, em edição de O Malho de 1904, na data de seu aniversário, uma homenagem francamente carinhosa.

A caricatura não cessou, pelo contrário, ela incrementou-se nas mais variadas publicações, viu nascer uma miríade de novos caricaturistas, impulsionados pela novidade do traço e da técnica de Julião Machado. Mas tornou-se arte amável, conciliadora, conivente com o projeto nacional de legitimação da nova República. Foi apenas no governo Hermes da Fonseca (1910/1914) que ela adotou uma atitude mais agressiva. O período, aliás, foi o mais fértil em fornecer personagens e temáticas para a caricatura, dentre os quais merecem destaque Rui Barbosa e seu rival o gaúcho Pinheiro Machado no Senado. Os dois, junto com Hermes e o Barão do Rio Branco foram os que mais forneceram assunto para a caricatura na Primeira República. Mesmo assim, quando se compara essas tantas caricaturas do período verifica-se que não atingem o grau de agressividade das que se fizeram nos últimos anos da monarquia e das que se farão do final da década de 20 em diante, quando aqui chega o uruguaio Andrés Guevara, cujo traço agudo atingirá de cheio o governo autoritário de Artur Bernardes (1922/1826).

O tom da caricatura brasileira, durante quase toda a primeira metade do século XX será dado, sobretudo, pelo que se tornou o maior caricaturista brasileiro de todos os tempos: José Carlos de Brito e Cunha, ou J. Carlos. A caricatura de J. Carlos será sempre marcada pelo seu estilo elegante, de humor menos agressivo, que jamais conhece o ataque pessoal, a ofensa, ou mesmo a crítica de caráter político mais acerbo. Com uma enorme capacidade de trabalho e uma disciplina que fugia aos padrões do tempo, sem falar é claro no seu talento superior, J. Carlos ocupará o primeiro lugar na cena deixando a longa distância mesmo os mais talentosos artistas, tais como Kalixto e Raul Pederneiras. Sua enorme versatilidade permitirá que se ocupe tanto da caricatura política como da de costumes, como do desenho de propaganda.

A caricatura tem um papel notável na imprensa deste período. No Rio eram inúmeras as revistas que se sustentavam basicamente na caricatura, no texto humorístico e na coluna mundana. J.Carlos estreou, em 23 de agosto de 1902, na revista O Tagarela. Logo depois surgiram O Malho (1902), Fon-fon! (1907) e Careta (1908), revistas que tiveram vida longuíssima para os padrões da imprensa nativa: todas duraram mais de 50 anos. Em todas elas J. Carlos teve atuação destacada. Desenhou também para a revista infantil O Tico-tico para a O Cruzeiro. De 1935 até 1950, ano de sua morte, foi o editor artístico da Careta.

Em 1906, seu estilo já é inconfundível. Vale-se de recursos inéditos, amplia as possibilidades da caricatura impressa. Já é o grande caricaturista que elabora a figura tirando o máximo de proveito dos detalhes marcantes, sem prejuízo da arte e do bom acabamento. Os originais que deixou, cerca de 1000, são limpos, coloridos, bem acabados, como se o seu destino não fosse só o da impressão.

J. Carlos praticamente morreu na redação da Careta. Ali, no dia 29 de setembro de 1950, o artista tombou fulminado sobre a sua mesa de trabalho, vítima de um edema cerebral. Morreu, três dias depois, em 2 de outubro, aos 66 anos de idade.

Lembrai-vos de 64 (29/10/11)

A cena do linchamento de Kadafi não me sai da cabeça.

Foi algo tão chocante, tão brutal que, acredito, mesmo quem detestasse o Kadafi teria sentido pena da forma como ele foi massacrado. As imagens de seu martírio, com o rosto todo ensanguentado, as roupas rasgadas, sendo arrastado por uma multidão de jovens armados que o insultavam, humilhavam, lhe batiam, puxavam-lhe os cabelos e que finalmente o cercaram e o liquidaram bem diante dos nossos olhos são as cenas mais chocantes que se viram na televisão nos últimos anos. Penso naquelas pessoas que o conheceram de perto, que estiveram com ele em cerimônias oficiais, trocaram sorrisos e cumprimentos e que mesmo conviveram com eles por vários dias. Será que essas pessoas não sentiram um pouco pelo sofrimento dele naquele momento tão dramático? Será que nenhuma delas vai falar nada? Que sente muito, que não deveria ser assim, que lamenta pelo sofrimento dele e de sua família? Será que nem o Papa, em nome dos sentimentos normais que todo cristão deve manifestar diante do sofrimento de qualquer ser humano, vai dar uma declaração condenando esse massacre?

Certamente haverá quem diga que ele fez por merecer, que era um ditador cruel e sanguinário, que terá provocado a morte de outros tantos inimigos em condições ainda piores. Pois é. E daí? Por conta de disto temos que ser iguais? Temos que nos brutalizar também e assistir calados e até com um sorriso de aprovação a cena de um ser humano sendo linchado? É esse o tipo de justiça que queremos para o nosso mundo? Será que esses jovens armados e embrutecidos que espancaram Kadafi serão bons democratas? Será que uma ordem democrática pode ser constituída assim a partir do linchamento do chefe de Estado deposto? E consta que o filho dele também foi eliminado de forma covarde. E que seus aliados foram executados em um hotel e que o comboio em que ele fugia com outras tantas pessoas foi antes bombardeado.

Sua execução teria sido assim planejada e patrocinada pela OTAN, pela liga que reúne os países mais ricos e supostamente mais avançados do planeta. E se assim for, estamos todos a mercê desses senhores e de suas armas. Pois se seu aliado de ontem pode se converter em inimigo de hoje e se foi a própria OTAN quem conduziu a guerra, bombardeando o país pelo alto e armando os supostos rebeldes, logo, logo pode chegar a nossa vez. Nas cenas de combate de rua, víamos jovens descalços, alguns adolescentes, com armas poderosas que certamente não tinham antes. Essa gente foi armada e será difícil de desarmar.

Ao lado da Líbia está a Síria, possível próximo alvo da OTAN. Depois, deve chegar a vez do Irã e assim, pouco a pouco, todo o Oriente Médio terá sua ordem política e social alterada por força das nações ricas do planeta. Um novo colonialismo que estimula o fanatismo religioso contra a ordem moderna ocidental. O mais estranho é que essa receita já deu em Osama Bin Laden e no Paquistão, antigo aliado dos EUA, com sua bomba atômica.

É preciso desconfiar das notícias que nos chegam desses lugares remotos dando conta da violência dos regimes. A imprensa foi um forte aliado de Bush no processo que levou à invasão e destruição do Iraque. Agora não parece ser diferente. É só comparar o espaço que notícias sobre qualquer violência em países inimigos dos EUA ganham nas páginas dos jornais e o quase silêncio, a nota de pé de página quando se sabe o que passam as mulheres na Arábia Saudita. As mulheres, aliás, que serão as primeiras vítimas do fundamentalismo religioso que parece ser a orientação a ser dada na Líbia pelo governo que está se instaurando lá.

"Quando vires as barbas do teu vizinho arder, põe as tuas de molho", diz o dito popular. Em recente artigo no seu blog, o sempre lúcido Mauro Santayana lembra que "em nome da contenção da expansão do Brasil sobre o Atlântico Sul, por causa do pré-sal, ou da ´defesa´ da natureza na Amazônia, pode se montar uma coalizão, entre países europeus e os Estados Unidos, para agir ao arrepio da ONU, de um dia para o outro, com a mesma facilidade com que se montou a agressão contra o Iraque".

É preciso estar atento e forte.

Em outros tempos também, depois do Oriente - Vietnã e Coreia - chegou a nossa vez. Os inimigos de fora se aliaram aos inimigos de dentro e perpetraram o golpe que levou o Brasil a um atraso de mais de 30 anos em seu processo de desenvolvimento. Hoje ouvimos as mesmas vozes e vemos até os mesmos símbolos - as vassourinhas - que marcaram a onda conservadora que antecedeu ao golpe militar de 1964. Em nome da "democracia", contra o perigo do comunismo, alegando que estávamos mergulhados em um "mar de lama" essas forças, estimuladas por uma imprensa poderosa, pediram e apoiaram o golpe militar de 1964. O golpe, baseado nesses temas pueris, foi na verdade voltado justamente contra o projeto desenvolvimentista que vinham sendo desenhado pela forças progressistas nos anos 1950. O golpe de 1964 foi contra a reforma agrária, o aumento do salário mínimo, a redistribuição da riqueza, o poder desmedido das multinacionais e dos grandes bancos.

Não há, a princípio, no cenário próximo sinais de união das forças conservadoras no sentido de deter os avanços que os últimos anos garantiram para o povo brasileiro. No entanto, essas forças continuam aí, abrigadas sob novas bandeiras, valendo-se da imprensa para promover campanhas de desmoralização, iludindo os ingênuos da classe média com promessas de uma ordem política irreal. Ordem esta, que, no fundo, ao meter a classe política toda no mesmo balaio da desonestidade, descrê da democracia e aponta mesmo é para saídas elitistas e autoritárias, bem diversas das escolhas do voto popular.

Sertão (22/10/11)

Te entrega corisco!/Eu não me entrego não./Eu não sou passarinho prá viver lá na prisão, Só me entrego na morte de parabélum na mão (Sergio Ricardo)

Acho que foi graças ao Beto, (Luís Roberto Vieira Costa) meu colega no cursinho do Farias Brito, que ouvi pela primeira vez esta canção. O tio dele, Valmik, tinha o LP com a trilha sonora de "Deus e o diabo na terra do sol" e a gente tanto ouviu que aprendeu todas. Inteligente, bem informado, com um extraordinário senso de humor, o Beto conhecia as canções de "Deus e o diabo" como também, creio eu, o roteiro do filme. Pois foi dele a ideia de encenarmos no sertão do Ceará uma peça baseada no mesmo roteiro. A apresentação seria em Madalena, distrito de Quixeramobim e sua terra natal. Os atores éramos eu, meu irmão, Fred e creio que a Clélia e a Vevé, Tereza Verônica, irmã do Beto, também participavam. Não me lembro de uma só palavra do tal roteiro por isso desconfio que não houve ensaio. Fizemos sim umas fotos, caracterizados de cangaceiros. Fred, então muito magro, vestido com um hábito de franciscano, fazia o papel de Antonio Conselheiro.

Houve uma apresentação, é certo. Mas tenho certeza que o povo de Madalena não conseguiu ouvir nem ver nada e também tenho a impressão de que nossa única incursão nas artes cênicas foi um retumbante fracasso. O elenco, canhestro, ficou completamente mudo e paralisado diante da plateia, bastante reduzida, que não tinha a menor ideia do que se tratava no palco. Dessa viagem só restaram umas poucos fotos e muitas boas lembranças em que se misturam as canções de Sergio Ricardo e as imagens do interior do Ceará.

Em Madalena tomei contato com aquela paisagem árida do sertão cearense. Terra de barro vermelho, sem nada em volta e que, na sombra das poucas árvores se experimenta um frescor incomparável. Era tudo muito seco no entorno da vilinha de poucas casas, umas de frente para as outras e umas poucas mais afastadas, esparsas. Numa delas viviam os pais do Beto. Ali tomei o melhor café, coado com canela e adoçado com rapadura, feito pela mãe dele. E em alguma casa vizinha comi doce feito de sangue de porco. Uma iguaria especialíssima, tão forte e tão gordurosa que hoje seria impossível de encarar.

Conheci ali um sujeito muito engraçado chamado Nemésio, o fotógrafo da cidade. Lembro até hoje da anedota que me contou. Disse que estava uma vez em Fortaleza, na praça José de Alencar, parou junto a um ambulante, comprou um pedaço de bolo e começou a comer ali mesmo. Apareceu então um conterrâneo que o criticou: "Mas, Nemésio, você comendo bolo no meio da rua, aqui, em plena Praça José de Alencar­­?". Ao que ele respondeu: "Havia bem de comprar um casa em Fortaleza só para comer bolo dentro dela..."

Foi a minha primeira viagem ao sertão da minha terra e de lá para cá não me lembro de nenhuma outra. O sertão que eu conheço é mais o das narrativas literárias do que o da experiência vivida. O sertão de "Morte e vida Severina" que vi na adolescência duzentas vezes em uma montagem no antigo teatro da EMCETUR, com o Bartolomeu no papel principal e creio que com um elenco que tinha também Olga Paiva. O sertão de Canudos e do Juazeiro que conheci apenas por causa de um trabalho de curso feito no primeiro ano da faculdade, na UFC, em torno de parte de "Os sertões", de Euclides da Cunha e, principalmente, do livro de Rui Facó, "Cangaceiros e Fanáticos".


Agora que tenho me interessado pelo tema me voltaram à lembrança todas essas fontes de inspiração e as imagens daquela viagem única e inesquecível. Viagem e experiência que me proporcionaram também o primeiro contato com o cangaço, assunto este que, como para todo o mundo de minha geração, foi conhecido assim dessa forma romantizada, poetizada pelas canções do disco de Sergio Ricardo. À estrofe que serve de epígrafe a este artigo seguia-se outra que dizia: "O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão. Está contada a minha história verdade-imaginação eu espero que o senhor tenha tomado uma lição que assim mal dividido este mundo anda errado que a terra é do homem não é de Deus\nem do diabo".

"Mais fortes são os poderes do povo!", era a frase exclamada no final da canção. E daquela mélange de elementos com que Glauber constituiu sua narrativa tão confusa, faziam parte tanto o misticismo popular, inspirado em Antonio Conselheiro quanto o cangaço, onde o herói guerreiro era Corisco. O misticismo levava ao conformismo e à inação. O mundo andava mal dividido e cabia a sertanejos como Corisco consertá-lo pela violência.

Só agora, fiquei sabendo um pouco mais sobre Corisco. Para se ter uma ideia de quem ele era basta que se diga que o então governador da Bahia, Juraci Magalhães conseguiu finalmente obter recursos para dar combate ao cangaço quando circulou no sudeste a historia da morte do delegado da vila de Santa Rosa, interior da Bahia, Herculano Borges. No dia 22 de setembro de 1931, Corisco capturou o delegado, pendurou-o pelos pés numa vara e com ele ainda vivo, retirou sua pele do corpo. Depois cortou-lhe as mãos, os pés e as orelhas, esquartejou-o e enfiou as várias partes do seu corpo em estacas.

Não sei que crimes terá cometido o delegado Herculano Borges, mas um sujeito como Corisco que conseguiu perpetrar ação tão bárbara, tão cruel e tão desprovida de humanidade contra outro, não merecia ter figurado como herói da minha juventude. Nada tira a beleza e o encanto da música de Sergio Ricardo, do qual continuo a ser fã. Não só nesse seu primeiro disco que conheci como na trilha sonora do seu lindo filme "Juliana do Amor Perdido". Essas coisas fazem parte da minha bagagem afetiva. Bagagem que, no entanto, na hora de contar a história como de fato aconteceu é preciso deixar de lado.

Heróis e bandidos (15/10/11)

Publiquei há pouco um livro sobre Lampião. Obra que me foi encomendada para uma coleção organizada por Lilia Schawrcz e Lúcia Garcia. A ideia da coleção é convidar escritores, jornalistas e historiadores para traçarem perfis de personagens da história do Brasil, contextualizando-os e propondo no final, alguma atividades a serem desenvolvidas em sala de aula pelo professor. Enfim, um livro paradidático que seja também agradável e útil para qualquer leitor que se interesse pelo assunto.

Há muito tempo eu tinha pensado em escrever um livro para crianças sobre Lampião partindo da história que mamãe me contou sobre a invasão de Cajazeiras na Paraíba. A história era muito boa, pois entre sustos e tiros, os cajazeirenses protegeram seus bens e suas famílias dos bandidos e enxotaram-nos da cidade. Mamãe sempre me dissera que, na verdade, o ataque fora levado a cabo por Sabino, cabra de lampião.

Quando me convidaram para escrever esse livro voltado para um público mais amplo, pensei em incluir a história que mamãe me contou. Ela tinha me dito que a invasão de cajazeiras tinha sido em 1928. Eu procurei e não achei nada sobre o assunto e, mais, vi que na data da suposta invasão, Sabino já tinha morrido.

Achei muita coisa sobre a invasão de Sousa, também na Paraíba e sobre o papel que Sabino desempenhara na mesma. Fiquei achando que mamãe se enganara, que com sua idade avançada talvez estivesse confundindo as histórias. Ou ainda, que o medo que toda a gente da Paraíba tinha dos cangaceiros era tão grande que a história que acontecera em Sousa passara a ser lembrada com tendo acontecido na própria cidade.

Mas foi aí que encontrei o livro do meu saudoso confrade de Sabadoyle, Ivan Bechara: "Carcará". Quando conheci o ex-governador da Paraíba e escritor Ivan Bechara na casa de Plínio Doyle, ele me disse que lembrava bem de mamãe e me deu um de seus livros. Não era "Carcará" e não me lembro se conversamos sobre aquele episódio nos poucos encontros que tivemos ali.

O romance dele relata minuciosamente a invasão, naturalmente incluindo elementos ficcionais. Está tudo lá e mamãe errara só na data: ela trocou o dia, 28, pelo ano, 26. De modo que mamãe tinha 12 anos e lembrava detalhadamente das sensações de pavor que tomou conta de Cajazeiras quando se soube que o bando tinha entrado na cidade. Sua irmã mais velha, Sinhá, tinha ido à igreja com os gêmeos recém-nascidos e ela ficara em casa junto com vovó Chaguinha, de resguardo, os irmãos mais novos e o pai, vovô Piano. Este queria a qualquer custo sair, mas foi convencido a ficar em casa por minha avó. O resto da história, com a corajosa e inteligente reação do povo de Cajazeiras ao ataque está muito bem contada no livro de Bechara.

Mas o que quero falar aqui é o que sempre soube e o que as pessoas da geração de minha mãe sabiam: os cangaceiros eram violentos, cruéis e impiedosos. E isto eu disse em meu livro sobre eles e sobre Lampião em particular. Não disse nada de novo. Em seu excelente livro sobre Lampião, publicado nos anos 1980, Billy Jane Chandler já havia refutado a tese de Hobsbawn sobre o banditismo social no que dizia respeito ao cangaço. Depois do livro de Chandler, inúmeros trabalhos foram publicados e, por mais entusiasta que se seja das teses sobre a necessidade da violência para mudar o mundo, essa extensa bibliografia já deveria ter consolidado a certeza de que não era de jeito nenhum o objetivo de Lampião mudar o mundo no sentido de melhorar a vida do pobre.

Lampião jamais roubou dos ricos para dar aos pobres, a muitos dos quais roubou, torturou e matou com requintes de crueldade. Sua motivação sempre foi pessoal e ele, desde a juventude, junto com os irmãos, se metera em várias brigas na vizinhança, fazendo seus primeiros inimigos entre essas pessoas às quais continuaria a perseguir pela vida afora.

De onde vem a crença de que esse bandido inteligente, astucioso e bom estrategista mas também violento e cruel era uma espécie de Robin Hood? Algumas pessoas que leram meu livro pareceram muito surpreendidas com essa constatação.

Estou convencida que esse mito foi construído no âmbito de uma certa cultura de esquerda que predominou no Brasil entre os anos 1950 e 1970. O fascínio por Lampião surgiu ainda durante o seu longo reinado. A imprensa sensacionalista, tal como ainda hoje faz com alguns bandidos, também contribuiu para fixar a imagem de Lampião, repercutindo seus crimes, batalhas e fugas mais impressionantes. Ela, junto com a literatura de cordel, ajudou a criar e a difundir toda a mítica que cercaria a imagem do cangaceiro rico, poderoso e invencível com o qual, certamente muitos moços pobres sonharam em se equiparar, vendo no cangaço uma chance de vitória sobre o triste destino que lhes estava reservado.

Mas foi só com a emergência da luta pela reforma agrária no final dos anos 1950, as famosas Ligas Camponesas, que o cangaço foi escolhido como símbolo maior da luta do povo sertanejo contra a opressão e a miséria. O herói redentor tinha que vir do meio do povo e, se a violência era o caminho legítimo para o sucesso da luta de classes, o cangaceiro tinha os elementos estéticos mais adequados para preencher a imagem daquele herói. A classe média urbana de esquerda com seu desconhecimento da realidade sertaneja sendo preenchido por imagens românticas da literatura, se traduziria em obras que buscaram sua lírica em elementos da paisagem da caatinga e em uma representação do sertanejo que era herdeira direta da descrição feita por Euclides da Cunha.

Se o sertanejo era antes de tudo um forte, concluía aquela gente bem intencionada, só podia ser com o objetivo de lutar pelos direitos de seu povo que ele se fazia cangaceiro. Quem ler com atenção a história de Virgulino Ferreira da Silva vai constatar que, infelizmente, não era bem assim.

A lição da Montanha (8/10/11)

Em "A Montanha Mágica", Thomas Mann conta a história de Hans Castorp, jovem herdeiro de uma tradicional família de comerciantes de Hamburgo. Mann relata sua infância, a história de suas perdas e de como, a partir delas, a morte passara a ter um significado todo especial para ele. Castorp era fascinado pela história de sua família, mas não via sentido em seguir a mesma profissão que seus avós; respeitava o trabalho, mas não tinha paixão nem interesse por ele. Esse desanimo diante da vida prática provocou o pequeno mal-estar que o levou ao Sanatório de Berghof, em Davos, nos Alpes Suíços.

O sanatório, uma instituição médica típica daqueles tempos em que a tuberculose ainda fazia vítimas fatais, é lugar de isolamento, onde os doentes devem se deixar estar em repouso, como se em férias permanentes estivessem. A grande diferença entre a vida no sanatório e a vida na planície era a forma como se usava o tempo. A economia do tempo no sanatório estava diretamente associado a dois fatores: a proximidade da morte, vivenciada como fenômeno natural, inevitável, liberando, com isto, os vivos dos compromisso morais que normalmente regulavam sua ação no mundo e a rotina do próprio tratamento, onde o repouso obrigatório, a espera do nada acontecer nos dias que escorriam iguais viciava e corrompia os organismos acostumados à disciplina do trabalho.

Aos poucos, a alegre irresponsabilidade com que a morte é encarada no sanatório, a sensualidade que permeava as relações ali, envolvem Castorp. A doença se lhe revela como a grande liberadora dos instintos. Alheio aos apelos de um mundo que perdera, ou que mesmo, nunca tivera encanto e significado para si, ele experimentava códigos novos, atitudes diversas e até mesmo contrárias a tudo o que se permitiria lá embaixo. Na planície, vivera sob a pressão da honra, mas no sanatório concluía que, apesar da honra oferecer consideráveis vantagens, a vergonha não as tinha menores, e que as vantagens desta última eram quase ilimitadas.

O italiano Lodovico Settembrini se empenhará em arrancar Castorp da vida ociosa que levava no sanatório para devolvê-lo ao mundo do trabalho, ao que chama de valores universais da humanidade. Settembrini, exalta a razão e o iluminismo e apela para os brios germânicos de Castorp, realçando o caráter enérgico e fleumático do povo alemão. Para Castorp, no entanto, fleumático e enérgico soavam como frio, duro e cruel. A morte era um elemento de sua natureza pois aprendera cedo a viver com ela. A vida parecia-lhe mais digna quando diante dela nos conduzíamos como que diante da morte: com respeitoso silêncio e contenção. É este argumento que agita em defesa de sua inércia e de seu desencanto do mundo.

O discurso de Settembrini é um chamado à vida contra a morte: a morte é fenômeno racional, fisiologicamente necessário e simpático, perder um tempo excessivo com a sua contemplação é roubar à vida o que lhe cabe. Para Settembrini, a morte só faz sentido como parte, complemento, berço da vida e não contra a vida. Caberia ao espírito soberano, com sua vontade livre que é quem determina o mundo moral, conservá-la em seu lugar.

Um pensamento mais organizado que o de Hans Castorp se erguerá contra o ideário de Settembrini. É o do judeu jesuíta Leo Naphta. Naphta defenderá a morte contra a vida, a doença contra a saúde, a tirania contra a liberdade, a religião contra a ciência, o terror contra o progresso. A seu ver a ciência não ensinara aos homens o caminho da felicidade, ela não respondera às questões essenciais da existência, todas as fórmulas iluministas teriam fracassado. Naphta ataca aqueles que querem curar o homem, obrigá-lo a "voltar à natureza".

Se no mundo das ideias, Castorp hesitava entre esses dois titãs, no plano dos sentimentos quem alterava os seus sentido era a russa Clávdia Chuchat. Na paixão/fixação de Castorp pôr Clávdia repete-se uma dicotomia que persegue grandes personagens da galeria de Mann: o apolíneo e o dionisíaco que se debatiam na natureza do escritor alemão filho de mãe brasileira. Clávdia é o outro, o estrangeiro, o que fascina e assusta, o que seduz e causa repulsa. É, ao mesmo tempo, o lado obscuro da alma do artista, algo que ameaça a estrutura aparentemente sólida dos valores germânicos que, na verdade, estaria suspensa sobre uma base bastante frágil.

É nessa paixão viciosa, irracional e inexplicável pelo outro, é no amor, com suas ambiguidades, com suas angústias, com seu lado de redenção e de danação que Castorp achará a saída. Castorp descobre que o respeito à morte e ao passado, que dominava sua a alma, não deveria se confundir com o repúdio à vida e ao presente, não poderia orientar o futuro sem se confundir com impiedade. O terror, tal como preconizado por Naphta, é o avesso do amor, da bondade. O amor seria a única força viva capaz de enfrentar a morte, derrotar o terror. Só ele, e não a razão, seria mais forte do que a morte; só ele, e não a razão, inspiraria pensamentos bondosos.

Mann começou a escrever "A montanha mágica" antes da Primeira Guerra Mundial e concluiu-o depois. Não é possível afirmar que o livro expresse ou antecipe até mesmo a situação da Alemanha, mas certamente ele reflete uma crise na aplicação do ideário liberal que orientava a vida europeia até então. No entanto, se o autor apresenta uma imagem caricatural destes, através do italiano Setembrini, não faz retrato mais favorável da opção conservadora e anti-liberal de Naphta. O neo-idealismo de Mann se traduz na opção de Castorp pelo amor. O apelo aos valores de humanidade encontrava seu lugar num mundo em frangalhos em que, nem a razão nem a tradição davam as respostas. A resposta para Castorp só viria em meio á barbárie da guerra: era preciso entrar em contato com o horror que o entrechoque das duas opções provocara para concluir que nenhuma delas, sozinhas, seria capaz de iluminar o caminho da humanidade.

Amigos quase familiares (1/10/11)

  Esta semana me ligou Maria Helena, neta de Pedro Ernesto Batista. Nos conhecemos desde o começo dos anos 1990 quando eu pensava em fazer minha tese de doutorado sobre o prefeito do Rio. Era em Ciência Política e eu ficara empolgada com a leitura do excelente livro de Michel Conniff. Cheguei mesmo a escrever um "paper" para um das cadeiras que cursava no antigo IUPERJ sobre a relação de Pedro Ernesto com Getúlio Vargas. Pedro Ernesto foi o cara que primeiro adotou as modernas técnicas de propaganda política e foi, no Brasil também um precursor do chamado populismo. Conceito e palavra de essência negativa com que implico pois acho que Pedro Ernesto e outros tantos tidos como populistas foram muito mais do que isto.

Maria Helena quer publicar um livro com imagens lindas Pedro Ernesto que fazem parte do álbum de família. Quer também que eu escreva algo, talvez até uma biografia, pois quando renunciei a tê-lo como tema de tese o fiz convencida de que, em termos de história política o livro do Conniff já tinha resolvido tudo e que o bom mesmo seria contar sua história. Mas, o problema é que hoje, meu Pedro é outro. Antecedendo a Pedro Ernesto, mais de cem anos: Pedro I e seu tempo a que tenho dedicado os meus estudos.

(...)

Também na semana passada falei por telefone com Eduardo de Brito e Cunha, queridíssimo amigo que este ano completou 90 anos de pura alegria e vitalidade. Nos conhecemos através do filho dele, Oscar Henrique, meu colega dos tempos de Museu da República e por causa do pai dele, o grande caricaturista J. Carlos. Eu também quis escrever um livro sobre J. Carlos pois, no primeiro livro que publiquei, "Histórias de Presidentes", a maior parte das caricaturas é deste artista genial. Projeto que também acabei abandonando pois quando me preparava para adotá-lo como tema, descobri a imprensa da Independência e nela mergulhei e nela estou até hoje mergulhada. No entanto, publiquei sobre J. Carlos meu primeiro artigo em revista estrangeira (1985) e, creio que nele elenquei os temas mais importantes a serem trabalhados em sua obra. Assim mesmo, como a história da caricatura é algo que faz parte da minha trajetória acadêmica e sobre ela sempre sou convidada a falar, J. Carlos segue comigo.

Mas o que segue também é a amizade de Eduardo de Brito e Cunha que, desde aqueles anos 1980, quando pedi autorização para usar os desenhos de seu pai em meu livro, se tornou meu amigo. De vez em quando ele me liga para me consultar, vejam só, sobre pessoas que lhe pedem autorização para usar desenhos de J. Carlos. Aí conversamos longamente pois pouco vou a Petrópolis onde ele vive numa linda casinha, cujas paredes são cobertas de desenhos originais do grande artista. A casa de Eduardo é um verdadeiro templo dedicado à memória de J. Carlos e sua vida, desde que se aposentou do Banco do Brasil, não tem tido outro objetivo senão o de conservar o precioso acervo e atender aos que precisam consultá-lo.

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Já não vou mais falar com Aparecida Saramago, bela, elegante e delicada filha de José Madeira de Freitas, o Mendes Fradique. Aparecida morreu há poucos anos vítima de um câncer contra o qual lutou bravamente. Era ainda jovem para os padrões atuais, creio que tinha uns 70 anos. Conservava a beleza na pele muito alva, nos olhos muito claros, no nariz muito afilado e no porte delgado, altivo e bem proporcionado.

Nos conhecemos quando, depois de descobrir a "História do Brasil pelo método confuso" de Mendes Fradique, na biblioteca do Museu da República, eu ficara tão obcecada por ele que correra todos os sebos do Rio de Janeiro atrás de outras obras do autor. Em um deles, creio que no do seu Santana, na Marechal Floriano, o próprio me contou que o conhecera e onde ele morava, informando também que sua viúva ainda vivia. Fui bater lá na Tijuca, na casinha da rua Carlos de Laet, onde conheci, d. Maria Tereza, a velhinha mais bonitinha que já vi e sua filha, Aparecida. A acolhida foi carinhosa e elas ficaram muito contentes de saber do meu interesse por Madeira de Freitas, cuja vida alegre tinha terminado de maneira tão triste.

Demorei anos para escrever minha dissertação de mestrado e, neste meio tempo, morreu dona Maria Tereza, mas a amizade com Aparecida ficou. O livro foi publicado em 1992 e, no ano seguinte eu ainda consegui realizar uma enorme exposição sobre Mendes Fradique no BNDES. Aparecida ficou muito grata pois era o resgate da memória do pai que se achava esquecida. Ela dizia que eu era a filha mais nova de Mendes Fradique e fez questão de doar o pouco que restava de seus papéis ao Arquivo Museu de Literatura da Casa de Rui Barbosa.

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Também nunca mais vou falar com D. Iracema, a viúva do Nássara. Ela viveu uns poucos anos depois da morte dele e nossa amizade fora construída nas visitas que fiz ao Nássara em seu pequeno apartamento na rua Belisário Távora em Laranjeiras. D. Iracema era uma velhinha pequena, muito doce e muito gentil. Ao contrário do Nássara, cuja surdez tornava um tanto irritadiço, era de uma paciência infinita, talvez até para contrabalançar. Quando, depois da morte de Nássara, publiquei sua biografia, escrevi um capítulo sobre D. Iracema.

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Esses amigos feitos a partir da comunhão de afetos por um personagem - do meu lado afeto intelectual, do lado deles afeto familiar - acabaram se tornando de certa forma, meus parentes. Estamos juntos em todos os eventos que dizem respeito ao nosso morto querido; zelamos pela sua memória; nos injuriamos contra os que a desrespeitam e compartilhamos informações sobre qualquer documento novo que desconhecíamos e que é revelado por alguém de fora da "família". São ligações preciosas e tocantes que dizem muito sobre as infinitas formas que a amizade pode assumir.

Lembrança de Plínio Doyle (24/9/11)

  Tive uma vez um amigo importante que nunca se esquecia do dia do meu aniversário. Creio que foi, durante alguns anos, o primeiro telefonema que eu recebi nas manhãs do dia 23 de setembro, antes mesmo do de minha mãe. Chamava-se Plínio Doyle e hoje, passados quase onze anos de sua morte, quero relembrar sua figura simpática, inteligente e gentil.

Conheci Plínio Doyle na casa de Rui Barbosa por volta de 1985, quando eu ainda estava trabalhando em meu livro "Histórias de presidentes", que começara a escrever no Museu da República e terminaria na Casa. Plínio conhecia histórias e conhecia pessoas que tinham vivido as histórias. Ele também conhecia os livros onde eu poderia encontrar as coisas mais interessantes. Mas, eu não teria acesso a nada disto se o Plínio não fosse quem era: simples, acessível, bem humorado, sempre disposto a fazer novos amigos, independente da idade dos mesmos. Aos 79 anos, vítima de um AVC que o tinha deixado hemiplégico, ele estava todos os dias na casa Rui, no seu AMLB (Arquivo Museu de Literatura), que criara e ao qual dedicava boa parte do seu tempo. Logo eu era sua amiga e convidada para as reuniões do famoso Sabadoyle. O nome dessa reunião semanal, sempre aos sábados e na casa do Plínio fora inventado por um dos seus frequentadores: Raul Bopp. Nelas, se recuperava uma tradição antiga: a dos salões literários.

Advogado de grande prestígio no Rio, Plínio foi um obsessivo colecionador de livros e revistas raros. Sua coleção, hoje pertencente ao acervo da Casa de Rui Barbosa, cobre quase toda história literária do Brasil. Sempre ligado ao meio intelectual carioca, tendo sido colega na faculdade de Américo Jacobina Lacombe, Helio Viana, Octavio de Faria, Santiago Dantas, Antônio Galloti, Plínio aproximou-se de muitos outros escritores e poetas, depois de se tornar advogado do editor José Olympio. Assim, os encontros na livraria José Olympio, que ficava então no centro do Rio, passaram a ter um desdobramento nos finais de semana, em Ipanema, onde Plínio morava.

O Sabadoyle teve origem nas visitas que o poeta Carlos Drummond de Andrade fazia aos sábados a Plínio Doyle para consultar a vasta biblioteca do Plínio. Américo Jacobina Lacombe também aparecia por lá para rever o velho amigo e esses encontros, certamente muito agradáveis, foram se tornando um hábito. Aos poucos, agregaram-se outros amigos à sombra daquelas estantes acolhedoras: Raul Bopp, Pedro Nava, Joaquim Inojosa, Afonso Arinos, Alphonsus Guimaraens Filho, Prudente de Moraes Neto, Wilson Martins, Mario da Silva Brito, Silvio Meira, Ivan Bechara, Clara Ramos e muitos outros. As reuniões, propriamente, começaram em dezembro de 1964 na casa de Plínio, que ficava na rua Barão de Jaguaripe, número 62, em Ipanema. Depois ele adquiriu um apartamento no segundo andar do número 74, transferindo para lá a biblioteca de 20 mil volumes e as reuniões do Sabadoyle.

Como bem descreve outro frequentador, Homero Senna, ("Sabadoyle: historias de uma confraria literária", reeditado em 2000 pela Casa da Palavra), o grande charme daqueles encontros era o de ser um espaço da pura, simples, fantasista, descompromissada conversa. Para Wilson Martins, que sempre que vinha ao Rio batia ponto por lá, o encanto especial da reunião estava na absoluta espontaneidade e na ausência completa de pedantismo. Os que comparecem para brilhar mal podem esconder a decepção debaixo de um silêncio emburrado. De fato, o Sabadoyle não é um salão de preciosos pontificando sobre as próprias excelências; não é, tampouco, um viveiro de gênios autodesignados, repletos da própria suficiência.

As memórias dessa confraria literária puderam ser melhor recuperadas por Homero Senna graças à instituição do livro de atas. A primeira ata, feita em versos, foi do poeta Alphonsus de Guimaraes Filho e inaugurou o livro em onze de novembro de 1972. Logo instituiu-se a prática: depois do café com biscoitos, Plínio pedia silêncio e o autor previamente escolhido por ele fazia a leitura da ata. Eu creio que redigi umas duas ou três atas. A última delas em homenagem a Américo Jacobina Lacombe, que morreu em 1993 deixando tristes os amigos do Sabadoyle e os funcionários da Casa de Rui Barbosa, da qual era o presidente desde 1936.

Creio que, aos poucos, o desaparecimento de amigos queridos como Pedro Nava, Drummond e, finalmente, Lacombe, foram tirando o ânimo do Plínio para as reuniões. No entanto, quando morreu, em novembro de 2000, aos 96 anos, era perfeitamente lúcido e sua conversa continuava divertida e ilustrada. Visitei-o uma última vez naquele ano em sua casa e ele me contou histórias ótimas sobre Rosário Fusco que conhecera bem e sobre o qual eu não sabia nada. Por isso quando a gente perde um amigo assim, não perde só o amigo mas um verdadeiro tesouro de histórias e referências importantes acumulados e selecionadas pela sua privilegiada memória e pela aguda percepção que ele tinha do que foi interessante na vida que viveu, nas pessoas que conheceu e nos livros que leu.

Recorto do livro de Homero Senna, trechos de poema de Alphonsus de Guimaraens Filho, registrado em ata do dia 1º de outubro de 1975 por ocasião do aniversário do Plínio, para saudá-lo, hoje, onde quer que ele esteja (e espero que esteja junto com todos esses amigos acima citados) nas vésperas dos seus 105 anos de vida.

"Plínio, o Moço,

Plínio, o ameno,
Sorri com mansuetude contemplando
Livros que o contemplam.

(...)

De sua parte os livros lhe reservam

Sua ternura seca,
Sigilosa, mas plena de uma luz que alvoroça,
De um sossego tão bom de se viver.

(...)

Memórias diluídas

Como os dias que vão numa vertigem,
Cuidemos só de repetir a Plínio,
O Moço, Plínio, o Ameno,
Que, como os livros, todos
Lhe queremos um bem
Tão forte e vigoroso
Como - meu Deus, escapuliu-me!
Como a dose de anos que viveu".

Dores de amores (17/9/11)

Eu fico com essa dor / Ou essa dor tem que morrer/A dor que nos ensina/ E a vontade de não ter/Sofrer de mais que tudo/ Nós precisamos aprender/ Eu grito e me solto/ Eu preciso aprender/ Curo esse rasgo ou ignoro qualquer ser/ Sigo enganado ou enganando meu viver/ Pois quando estou amando é parecido com sofrer/ Eu morro de amores/ Eu preciso aprender.... - Luiz Melodia

Não fique triste, fique com tudo.

Dizem que este foi o conselho que Ivana Trump deu a mulheres que foram trocadas pelo marido por outra mais jovem ou não. O marido, no seu caso, era um biliardário e a vingança de Ivana consistia em tirar o máximo do que pudesse para ferir o traidor onde mais lhe doeria: na conta bancária. No entanto, o conselho também serve para quem não se separou de marido rico se pensarmos em um "tudo" metafórico.


Separar é sempre difícil. Para quem tomou a decisão, menos. Apesar da dúvida permanente sobre se era isto mesmo que deveria fazer, quem decidiu sair de uma relação está mais preparado para enfrentar o que vem depois. Afinal, antes de dizer que queria terminar, pensou, refletiu, apalpou-se bem. O outro, não. Sentia que não havia mais aquele entusiasmo inicial mas também não imaginava que as coisas chegassem a esse ponto. Ou talvez até imaginasse. Talvez até soubesse que era inevitável. Apenas como não era este o seu desejo, ficava, tentando ao máximo evitar situações de conflito para adiar o desfecho fatal.

Mas este dia chegou e você se viu sozinha, sem programa para o final de semana, sem aqueles telefonemas de final de noite, sem a companhia permanente dos últimos tempos: um enorme vazio a ser preenchido. Os primeiros dias são os mais difíceis e a tendência de procurar a causa em você mesma é grande. É porque sou feia; é porque sou gorda; é porque sou malfeita; é porque falo alto; é porque sou sem graça... Mesmo que nada disto seja verdade. Aí, na sequencia, a autoestima vai pro brejo. De um lado o "ninguém vai gostar de mim" e de outro o "nunca mais vou conquistar alguém tão especial".

Às vezes, você mesma nem achava isto tudo quando estavam juntos. Até achava ele meio tolo, meio chato e, naquelas fases em que ele era totalmente obcecado por você, precisava até mandá-lo passear de vez em quando para ter um tempinho só para você. Bem: agora que você tem todo o tempo do mundo só para você, que saudades. A tendência é buscar consolo para a dor e mergulhar em um frenesi de festas, encontros, namoricos rápidos. Mas isto não resolve e esses namoricos rápidos tendem a deixar a gente até mais infeliz. O ideal é mesmo viver um pouco o luto da separação e organizar a cabeça.

É preciso seguir em frente e a melhor forma de fazê-lo é solidarizar-se consigo mesma. Buscar em você e nas suas qualidades, no seu projeto de vida o conforto e a força para seguir em frente. Resgatar a boa imagem que os outros têm de você e, de todas as maneiras, evitar reencontros com o ex cuja imagem idealizada tem que ser desconstruída. Não é preciso transformá-lo em um vilão mas é preciso se convencer que ele não está com essa bola toda. Melhor ainda é preciso trabalhar para nem precisar disto pois vai estar pensando em outra coisa. Como na música do Lulu Santos: "Ainda vai levar um tempo/ Pra fechar / O que feriu por dentro/ Natural que seja assim/ Tanto pra você/ Quanto pra mim.../Ainda leva uma cara/Pra gente poder dar risada/ Assim caminha a humanidade/Com passos de formiga/ E sem vontade.../ Não vou dizer que foi ruim/ Também não foi tão bom assim/ Não imagine que te quero mal/ Apenas não te quero mais...".

Separações são boas para fazermos um balanço do que a gente realmente quer e do que a gente realmente é. Principalmente no começo da vida, quando não temos muita clareza de nada. Demora muito para a gente descobrir que jamais vai formar um todo com outra pessoa. Que ambos vão ser sempre individualidades em constante transformação e sujeitas aos apelos que o mundo lá fora oferece. Mesmo que se ame muito e se tenha a sensação de que se achou a cara metade, a possibilidade do fim paira sempre sobre qualquer relacionamento. Por uma ironia do destino, só depois da maturidade, com a vida definida, carreira estruturada e estabilidade econômica é que a gente está mesmo preparado para viver - não digo um grande amor, pois este é fruto justamente das angústias e expectativas da juventude - mas um bom e equilibrado relacionamento.

Que graça tem isto? Com vinte anos, graça nenhuma. Com vinte antes todas as sensações são intensas e definitivas e a pessoa é até capaz de morrer de amor. Sem mesmo pensar que o amor é apenas um somatório de questões a serem destrinchadas por um bom psicanalista. Questões que têm, às vezes, muito mais a ver com o nosso medo do futuro ou com o lugar que ocupamos no mundo. Então, a pessoa a que estamos ligadas representa um pouco a solução para as nossas inseguranças em quesitos que não têm a ver exatamente com o amor. E aí, a separação pode ser mesmo uma forma de nos fazer ver e de nos fortalecer. Nos convencer de que, apesar da tristeza, temos que seguir em frente. Ou melhor que, seguindo o conselho de Ivana Trump, fiquemos com tudo: tudo o que somos e com todas as nossas infinitas possibilidades. E para fechar com uma outra canção boa para essas horas, fique com Gilberto Gil e seu amor esotérico:

"Não adianta nem me abandonar/ Porque mistério sempre há de pintar por aí/ Pessoas até muito mais vão lhe amar /Até muito mais difíceis que eu prá você/Que eu, que dois, que dez, que dez milhões, todos iguais/ Até que nem tanto esotérico assim/Se eu sou algo incompreensível, meu Deus é mais/ Mistério sempre há de pintar por aí/ Não adianta nem me abandonar (não adianta não)/ Nem ficar tão apaixonada, que nada/ Que não sabe nadar/Que morre afogada por mim".

O melhor dos narradores (10/9/11)

Como é bom conversar com Fausto Nilo.
 

Creio que se trata do melhor narrador que já ouvi. Daqueles que quando conta uma história prende sua atenção do começo ao fim. Lembro bem que, quando o encontrei pela primeira vez no Rio de Janeiro, em 1977, ele me impressionou pela habilidade que tinha de tornar agradável qualquer papo, incluindo temas inusitados e apresentando-os de uma forma ao mesmo tempo culta e divertida.

Fausto tem a economia precisa da boa conversa. Esta consiste em falar e deixar falar, comentando a fala do outro mas sempre acrescentando uma observação inteligente, bem humorada ou crítica, sem monopolizar a palavra. Estratégia eficaz pois a audiência, reconhecendo a superioridade do primeiro orador se impacienta esperando que ele volte ao domínio da cena. É o homem dos salões por excelência pois é nos encontros de gente escolhida que ele encontra o público que melhor aprecia sua cultura eclética e a maneira original com que elabora seus assuntos. Não se trata de um modesto, felizmente, pois penso da modéstia o que pensava Thomas Mann: é uma forma de hipocrisia. E o Fausto não é modesto, sabe do próprio valor - creio que soube desde muito cedo - e, por isso mesmo não precisa ficar alardeando seus feitos. Mas, quando é o caso, conta naturalmente episódios em que se distinguiu ou realça as qualidades de que mais se orgulha.

Sua fantástica memória também faz com que ele tenha um vasto acervo de histórias sobre a vida cultural de Fortaleza entre os anos 1950 e 1970, tempo e lugar em que fez sua formação. Ouvi-las é como passear ao lado do narrador por uma Fortaleza onde a vida se fazia essencialmente no Centro, no entorno da Praça do Ferreira. É participar de toda a ebulição cultural que marcou o movimento estudantil cearense entre o golpe militar de 1964 e o AI-5. É como sentar à mesa do bar do Anísio e tomar cuba-libre até o amanhecer, ouvindo as canções do Rodger Rogério e os impropérios do Brandão.

Por tudo isso Fausto predomina em qualquer conversa sem esforço, mesclando erudição, na medida certa (sem pedantismo), com anedotas e canções. Canções raras de um repertório nacional esquecido - pois é conhecer da MPB no que ela tem de mais recôndito - cuja beleza ele nos revela com sua boa voz sertaneja. Eu não sabia mas Fausto me contou que ele e Cláudio Pereira disputavam para ver quem conhecia mais músicas. Não qualquer música mas aquelas músicas antigas que ninguém no mundo jamais ouviu falar. De fato, eu ficava impressionada quando o Pereira saudava minha irmã com uma canção cujo tema era uma mulher com seu raríssimo nome: "Clélia, minha querida Clélia". Não sei se foi com o Pereira ou foi com o Fausto que ouvi "Nós era sete", cuja letra descobri depois ser de Antonio Maria. Sei que os dois gostavam da música e eu tentei, sem sucesso, achá-la na internet para incluí-la entre aquelas cerca de 700 canções que compõem a minha memorabilia musical afetiva e que se encerra sem incluir quase nada de novo nos anos 1980.

Na casa de Vera Duarte, no Rio, no final dos anos 70, ouvi Fausto cantar uma música da qual nunca me esqueci, que não ouvi mais em lugar nenhum e só agora achei no Google e que diz assim "Daquela peleja voltou um cacique/ Depois um caíque sozinho voltou/ Ao ver o caíque vazio vagando/ A virgem chorando tristonha falou/ Guerreiro vencido não temas a morte/ O amor é mais forte que o tronco do ipê!/ E foi altaneira guardar suas mágoas/ No fundo das águas do rio Tietê." Era kitsch mas era bonito às pampas e hoje penso como o gosto por esse tipo de canções sentimentais, cheias de gestos heroicos ou sofrimentos de amor me veio de ouvi-las cantadas por gente como o Fausto, como meu irmão Roberto Aurélio ou pelo ídolo maior da minha geração, Caetano Veloso, que ousara até ver (e fazer-nos ver) beleza em "Coração Materno", de Vicente Celestino.

Entre a adolescência em que seu parceiro constante foi Cláudio Pereira e o resto da vida em que seu grande amigo foi Augusto Pontes, Fausto definiu seus caminhos. Nunca foi como os dois um catalisador: alguém que tem sempre em torno de si seguidores, admiradores ou críticos. Cláudio e Augusto, esses dois grandes bruxos rivais que dominaram a vida cultural cearense das quatro últimas décadas do século XX, eram, cada um à sua maneira, gregários, espetaculosos, polêmicos mas totalmente vinculados a seus público e cenário. Diferente deles, Fausto, mais velho que o primeiro e mais novo que o segundo, foi sempre um indivíduo às voltas com seus próprios projetos, suas composições e sua família. Não formou uma corte de seguidores tem apenas amigos, parceiros, colegas e construiu com Silvia Parente um lar bastante acolhedor, ilha de tranquilidade alheia à trepidação da vida boemia, da qual só se escuta o eco distante.

Falo aqui de um amigo que conheci há mais de trinta anos e que, depois disto, fez em Fortaleza toda uma carreira como arquiteto - sua primeira e definitiva vocação profissional - enquanto eu fazia a minha de escritora e historiadora no Rio de Janeiro. Assim, quando de raro em raro, nos vemos, é para relembrar o passado e pouco falar do presente. Relembrar as melhores frases de Augusto Pontes; os episódios da temporada no Rio em que ele e Silvinha viviam cercados de músicos cariocas e cearenses; saber e dar notícias de gente daqui e de lá que não vemos há muito tempo. Mas confesso que me faz um bem danado quando amigos cariocas voltam de uma visita à minha cidade, falando com entusiasmo do Centro Cultural Dragão do Mar, obra de Fausto Nilo, poeta da arquitetura e da MPB, melhor contador de histórias que já conheci.

"Rempli de soi-même" (3/9/11)

Uma das coisas que mais desconcertam a gente nesta altura da vida é ver como pessoas que eram tidas como brilhantes no tempo da escola não cumpriram o que o destino lhes parecia ter reservado.

Como é que fulano, conhecedor dos clássicos, que discutia de igual para igual com o professor na sala de aula, não se tornou ele mesmo um mestre? Por que sicrano, cujas ironias e tiradas inteligentes nos impressionavam tanto, não concluiu aquela tese que prometia revolucionar o que até então se tinha escrito sobre o assunto? Por que beltrana, tão ensimesmada no tempo da escola, tão apegada aos livros, tão superior, não fez uma bela carreira e continua hoje gramando em pequenos empregos, vendo o tempo passar e os jovens ocuparem os lugares que lhe pareciam reservados?

Creio que há uma palavra para resumir bem a causa desses projetos frustrados de celebridade: presunção. A presunção de que a você está destinado um papel especial, de que sabe mais que os outros ou de que é capaz (e tem a obrigação) de fazer algo que seja realmente notável pode arruinar a carreira até dos mais talentosos. A presunção faz com que o sujeito crie expectativas elevadas sobre si mesmo, se imponha objetivos difíceis e até inalcançáveis e passe a crer que só aquilo o fará realmente digno de tudo o que esperam dele. Aí tudo o mais fica menor. Tudo o mais que faz parte da vida, do dia a dia de uma carreira, é pouco perto da grande missão à qual o sábio deve dedicar a vida.

E esse cotidiano dos pequenos trabalhos, das tarefas normais de uma carreira, são coisas a que o presunçoso tem muita dificuldade de se submeter. Aquilo não é para ele. Ele já nasceu pronto para um grande destino e não precisa passar pelas fases intermediárias para chegar ao topo. É o garoto que sonha em ser presidente da República mas não quer nem saber de se candidatar a líder de sua classe na escola. É o jovem ambicioso que se imagina diretor de uma grande empresa mas que não admite começar como estagiário. É a jovem doutora desempregada que não aceita começar em emprego que não lhe pague salário de acordo com o que acredita ser o que merece ganhar e que por isso fica fora do mercado.

E assim, o tempo vai passando e a grande obra ou a bela carreira a que estavam destinados não acontece. Pessoas que começaram muito depois deles, talentos medianos ou talentos genuínos que precisaram do trabalho para se revelar, seguiram suas vidas e fizeram mesmo surpreendentes trajetórias. Mas o presunçoso ficou travado porque nada do que empreendia estava à altura do que ele esperava dele mesmo. É um processo neurótico que faz com que o sujeito considere sempre o que fez aquém do que a sua suposta genialidade prometia e acabe por não fazer nada. Apesar disto, ou talvez por causa disto mesmo, ele tem sempre um comentariozinho irônico e depreciativo sobre a qualidade do trabalho de algum colega, sobre os dotes intelectuais de outro, sobre a visão de mundo de um terceiro. É como aquele tipo de crítico de arte que não cria nada mas que é implacável em seus comentários sobre a obra dos artistas.

Há, no entanto, que dividir os presunçosos em duas categorias. Existem aqueles a que realmente sobram talento, inteligência, brilho pessoal e que, por conta desse superávit primário, digamos assim, não investem na carreira, pois estão acostumados a ter tudo de mão beijada. A estes a vida pode pegar de surpresa mais adiante, diante da mesa do antigo colega que tanto ridicularizaram no tempo da faculdade, agora importante diretor de instituição de ponta na área em que ambos se formaram, a pedir um emprego.

Para esses, no entanto, sempre pode haver redenção, pois não há limites para a surpresa quando se trata de inteligência e talento. Como ouvi dizer uma vez no Ceará: talento é como açude arrombando, tapa um buraco aqui e outro se abre acolá. Ou seja, mesmo tendo sabotado suas enormes possibilidades, quem tem talento mesmo, pode até tardiamente superar a presunção e realizar uma grande obra. Pois fora a presunção que criara obstáculos entre ele e o seu destino. Presunção que se confunde com insegurança, pois mesmo o mais talentoso não tem ideia real de qual o tamanho de sua competência. Presunção que é também uma forma de imaturidade, de ingenuidade, de vontade de ver o mundo a seus pés.

Mas há o segundo grupo, o dos que pensam que têm inteligência e talento. Os dos meninos mimados, filhos de pais talentosos e que foram criados na convicção de que também o eram. O das moças que "se acham" e que estão só a espera de serem descobertas e que, por causa, disto não vão se meter em ofícios menores. É neste grupo que se concentram os mais amargurados, os mais frustrados, os mais indignados com o que a sorte lhes reservou, os que mais se revoltam ao verem colegas do passado ocupando lugares que acreditavam lhe estar destinados.

Diante dessas trajetórias não se pode deixar de pensar como a vida é tão menos grandiosa do que na juventude imaginávamos. De como uma carreira é feita das pequenas conquistas do cotidiano. De que é fazendo um pouco aqui e ali que se vai afinando a mão para um ofício e sendo reconhecido como alguém que faz aquilo bem e com responsabilidade. E que mesmo quem está em um bom momento na carreira não pode ficar "rempli de soi-même", como dizem os franceses. Ao contrário, é preciso continuar achando que ainda falta alguma coisa. Este é o impulso necessário para seguir em frente, porque tem sempre algo que a gente não sabe e pode aprender.