Chico e Millôr (31/3/12)

Deve haver algum sentido na partida quase simultânea de Millôr Fernandes e Chico Anysio. Algo talvez relacionado ao senso de humor da "indesejada das gentes" que, de alguma forma, quis rir por último.

Foram ambos, certamente os maiores em sua arte, pois o humor literário e a comédia são formas bem diferentes de expressão.


Não sei se era Chico quem criava a maior parte de seus textos. Mas, certamente, era na interpretação deles, em sua galeria imensa de personagens que seu talento de ator versátil, aliado à sua capacidade inata de fazer rir, se realizava plenamente.


Às vezes, o texto nem era tão bom, mas a gente saboreava o prazer de ver um ator fenomenal fazendo um tipo tão natural que até parecia com algum velho conhecido da vizinhança. Assim a gente se acostumou a ver toda semana, na telinha: o pai de santo baiano, amigo dos famosos; o Bozó, funcionário da Globo; o Alberto Roberto, ator canastrão; Bento Carneiro, o vampiro brasileiro; o Coronel Limoeiro e o político corrupto Justo Veríssimo; o Haroldo, a bicha de língua presa que resolveu ser hétero e é que sempre convidada a voltar para o antigo reduto por outra, a Paulete; o Silva, nordestino que exclamava, com sotaque bem carregado: "Têrcero Mundo me dana!".


No entanto, não se deve esquecer que há muito Chico Anysio não tinha um programa seu. E não se pode culpar a Rede Globo por isto. Na verdade, seu programa, graças ao prestígio de Chico junto a Roberto Marinho, até se prolongou para muito além do tempo em que fazia sucesso. Me parece que esse é um pouco o destino dos comediantes. Chega um tempo que o público não consegue achar mais graça neles. Ou porque o público já não é mais o mesmo, ou porque cansou de repetir os bordões, ou porque o próprio artista se tornou sentimental.


Com Chico Anysio aconteceu um pouco de tudo isto. Lembro que na última fase de seu programa ele encerrava com um tipo de profeta falando frases que nada tinham de humorístico. Eram mensagens morais que precisavam ser decifradas e que, a meu ver tiravam a graça do que tinha sido visto antes.


Nada disto diminui Chico Anysio e, agora que ele se foi, a gente fica com uma pena danada de que não tenham lhe dado mais valor nos últimos anos de sua vida. Alguém com o enorme talento e a versatilidade de Chico Anysio poderia facilmente ter migrado do programa de humor para as telenovelas. Excelente ator dramático que só recentemente veio a participar de uma delas, merecia ter sido lembrado antes. Acredito que a televisão brasileira teria ganho registros tão memoráveis quanto os que deixou um Paulo Gracindo, por exemplo.


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Encontrei Millôr duas vezes. Uma para pegar originais dele que eu queria incluir em uma exposição sobre os presidentes da República que eu organizava no BNDES e a outra para devolver os desenhos.


Conhecendo a sua verrina manifesta nas charges diárias do JB em que demolia durante semanas seus alvos preferidos, temia encontrar alguém de temperamento difícil. Mas, ao contrário, o Millôr que conheci era amabilíssimo. Conversamos longamente sobre os mais variados assuntos. E, aproveitando a boa disposição em que ele estava perguntei sobre alguns de seus velhos amigos. Sobre um deles, me disse: "Fulano é assim como aquele irmão mais novo que você tem. Você deixa a carteira de dinheiro na mesa dando sopa, ele vai e leva. Você tem uma filha mocinha, menor de idade, ele vai e transa..". Era um descrição que casava bem com a imagem do dito fulano. E não havia ninguém melhor para fazê-la do que Millôr que o conhecia há tantos anos.


Ele foi, certamente, a maior inteligência do humor brasileiro de todos os tempos. Suas pequenas construções frasísticas resumiam da forma mais sintética possível uma concepção filosófica sobre a natureza humana. Mas esta concepção não era cética como a expressa, por exemplo, no humor machadiano. Era tão pessimista como a de Jonathan Swift.


Aliás, Millôr tinha com Swift também a semelhança no humor ferino e demolidor, que não perdoava seu alvo, vasculhando e denunciando seus defeitos, suas fraquezas, suas vilanias. Ser escolhido como tema de suas charges era se ver massacrado com tanta persistência que, tal como acontece muitas vezes, em situações assim, sua vítima podia até vir a obter a simpatia do público leitor. Millôr era engraçado até quando era perverso. Ou, aliás, era engraçado e se conservou assim até o final até porque continuou perverso em seu humor.


No entanto foi o artista inspirado também de tiradas de humor delicadas como na "Poesia matemática" e na crítica inteligente que fez à substituição dos hábitos de leitura de livros impressos sobre o papel pela leitura dos mesmos nas telas dos computadores. Em texto que continua atual (tão atual que chegou a ser plagiado em vídeo em espanhol hoje popular na internet), intitulado "Um novo e revolucionário conceito de tecnologia de informação" ele descreve o que chama de "Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas", cuja sigla é: L.I.V.R.O."


Mas, geniais mesmo foram suas máximas, das quais seleciono alguns para fechar essa coluna em que me despeço de dois dos meus ídolos da adolescência e da juventude: Chico Anysio e Millôr Fernandes.


Como são admiráveis as pessoas que não conhecemos muito bem./ Ser pobre não é crime mas ajuda muito a chegar lá./ Já que não conseguimos aumentar a grita dos descontentes, precisamos pelo menos diminuir o sorriso dos satisfeitos./ O crime não compensa. Mas de que é que vivem os juízes do Supremo Tribunal?/ Antigamente os animais falavam. Hoje escrevem./ Todo dia leio os avisos fúnebres dos jornais; às vezes a gente tem surpresas agradabilíssimas./ Feliz é o que você vai perceber que era algum tempo depois.

Marion Aubrée na UFC (24/3/12)

Merece parabéns o Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará pela contratação temporária dessa grande antropóloga francesa que é Marion Aubrée. As práticas religiosas do Ceará, especialmente o espiritismo e o pentecostalismo, temas tão importantes, também ganham a possibilidade de serem observadas por alguém que, há muitos anos, vem se dedicando ao seu estudo.
 

O livro escrito por Marion Aubrée em parceria com François Laplantine, "A mesa, o livro e os espíritos: Gênese, evolução e atualidade do movimento social espírita entre França e Brasil" (Edufal), publicado na França em 1990, foi lançado no Brasil em 2009. Em resenha dessa obra publicada na Revista Brasileira de História das Religiões, da ANPUH, em 2010, o professor de História da Universidade Estadual do Ceará Marcos José Diniz da Silva ressalta seu valor e sua atualidade. Qualidades que se deveriam às "suas características metodológicas, pela amplitude de questões que aborda, pelo caráter comparativo que estabelece". Ele cita Renato Ortiz que descreveu o livro como "uma construção analítica envolvendo diferentes níveis: histórico, sociológico e antropológico".

As tantas viagens que fez ao Brasil para realizar as pesquisas que deram origem àquele livro despertaram o interesse de Marion Aubrée também para a crescente importância do pentecostalismo entre nós. Deste então, este tem sido o tema mais frequente de suas muitas publicações.

A expansão dos chamados cultos evangélicos entre as classes menos favorecidas no Brasil é um fenômeno de massas irreversível. O povo aderiu gostosamente às igrejas evangélicas. A oratória evangélica, o êxtase coletivo, as cenas dramáticas propiciadas pelas confissões públicas durante os cultos, tudo isto ajuda a conquistar, a manter e a ampliar cada vez mais o rebanho dos evangélicos. Mas, igualmente importante é, ao meu ver, a figura do pastor que, no bairro, passou a representar a autoridade espiritual da qual os pobres sentiam falta. Em estreita ligação com sua pequena comunidade, valendo-se de passagens da Bíblia para encontrar as palavras de conforto e orientação aos fieis, o pastor evangélico se converte numa autoridade não só religiosa mas também intelectual e moral - mesmo que muitos sejam quase tão incultos quanto seus seguidores.

Conversando com Marion Aubrée, em Paris, no Centro de Pesquisas sobre o Brasil Contemporâneo (CRBC / EHESS), onde ela trabalha desde 1985, contei-lhe da devoção que lá em casa tínhamos ao Espírito Santo. Na tradição familiar sempre que tínhamos alguma prova importante, mamãe acendia uma velha no altar para que o Espírito Santo iluminasse a nossa mente. Ela me explicou, pois eu não sabia, que a imagem do Espírito Santo é a única admitida em igrejas pentecostais. Lendo seu artigo sobre "A visão da mulher no imaginário pentencostal", (Revista Antropolítica, nº 9, 2º semestre de 2000), fiquei surpreendida com a semelhança da visão que católicos e pentecostais têm do Espírito Santo. Diz Marion Aubrée:

"De fato, em razão da iconoclastia que acaba de ser mencionada, não há qualquer representação antropomórfica de Deus Pai nem de Jesus nos templos pentecostais. Apenas nos lugares de culto mais importantes pode-se encontrar um ícone do Espírito Santo - cuja importância é primordial na corrente pentecostal -, representado simbolicamente por uma pomba com as asas abertas, geralmente sobre a parede do coro, atrás do altar. (..) Vêem-se também, em raras ocasiões, algumas labaredas de fogo em torno da pomba. Elas representam a inspiração do Espírito Santo, que desceu sobre os apóstolos no dia de Pentecostes, quando, segundo a Bíblia, eles falaram em um idioma que todas as pessoas presentes compreenderam, qualquer que fosse sua língua natal. (... ) Este dom é por eles considerado como o primeiro e mais comum de todos os dons do Espírito Santo, a partir da exegese de uma Carta de Paulo aos Coríntios (I.12 8-10) abordando os carismas outorgados aos humanos através do Espírito Santo".

As multidões que se reúnem nas grandes cidades por ocasião dos grandes eventos religiosos promovidos pela Igreja Universal ou pela Assembleia de Deus e outras tantas que vem aparecendo, não são desprezíveis. A força dos dirigentes dessas igrejas se transformou em força política capaz de deter no Congresso decisões sobre temas importantes como o direito das mulheres ao aborto e as pesquisas com células tronco. Também as questões relativas aos direitos dos homossexuais têm encontrado por parte da bancada evangélica forte oposição à qual não é insensível o governo. Afinal, por mais progressista que se seja, em um democracia, precisa-se dos votos dos eleitores. E, se uma parte significativa deles vota orientada por seus valores morais e religiosos, é preciso respeitar o peso que isto tem na sociedade brasileira.

Conheci certa vez um empresário que preferia contratar operário evangélicos. Eram mais ordeiros, disciplinados, não bebiam, tinham famílias estáveis e, todos os dias, durante o intervalo das refeições, liam trechos da Bíblia. Se os pastores acusados de enriquecimento às custas do dízimo pago por essa gente podem não ser tão respeitáveis quanto tentam parecer, os conselhos que dão, certamente, contribuem para ordenar e dar sentido à vida de muitos brasileiros. Se parte de seus ensinamentos estimulam o preconceito e o atraso, no entanto, cabe a nós que temos outros valores combater essas forças no terreno da política, respeitando a opção religiosa de nossos compatriotas, sem cair também no preconceito.

Daí ser importante ter alguém como Marion Aubrée no Ceará. Alguém que, com o olhar mais generoso da Antropologia, mas nem por isso menos isento, consegue lidar com esse tema sem qualquer dos tantos preconceitos com que nós, da classe média brasileira, tantas vezes, o vemos.

É tudo verdade (17/3/12)

Tive na faculdade um colega, um pouco mais novo que eu, que, segundo nos contava, já tinha sido casado, divorciara-se e tinha um filho pequeno. Inteligentíssimo, engraçado, de uma cultura assombrosa, com talento para a caricatura, tanto no desenho quanto nas imitações que fazia, nosso amigo contava histórias divertidíssimas de sua relação com a ex-mulher que, segundo ele, o detestava. Em compensação, ele e o atual marido dela, um sujeito do Maranhão, creio que funcionário do Banco do Brasil, se davam super bem. Sempre que meu colega ia pegar o filho na casa da ex-mulher e lá estava o atual, este o convidava para tomar uma cerveja. Ele aceitava e os dois ficavam um tempão lá, conversando, às gargalhadas, para desgosto da megera.

Mas a coisa que o meu colega mais gostava, sendo ele o único entre nós que já era pai, era de trocar impressões sobre métodos educativos com outra colega que tinha uma filhinha da mesma idade do filho dele. Creio que na escola do garoto o método adotado era o Montessori que acho, meu amigo não gostava. Lembro que uma vez, essa colega tomou um susto, porque se distraíra e achou que a filha tinha se debruçado sobre o balcão da varanda. Meu colega lhe disse, com o ar de ter vivido muitas experiências assim: quantas vezes nossos filhos vivem situações de perigo que a gente nem desconfia.

Ele era filho único e depois da separação voltara a morava com os pais. Com isto, seu filho passava muito tempo com os avós, aos quais seria muito afeiçoado. Lembro que meu amigo achava até que o pai dele gostava mais do neto do que dele. Talvez porque fosse o tipo do sujeito muito inteligente, divertido, mas pouco dado a valentias. Ou ainda porque fizesse a mais engraçada imitação da Dalva de Oliveira que eu já ouvi. Cantava, tremendo o beiço: "Bahiiia, Bahiiiiiiiiiia, Bahiiia, Bahiiiiiiia".

Depois de umas tantas namoradas, meu amigo finalmente conheceu uma moça de São Paulo com quem resolveu se casar. O casamento seria no Rio, onde o casal passaria a viver. A moça veio finalmente conhecer os sogros. No dia em que os visitou, estranhou não ver nenhuma foto do garoto que era querido pelos avós, em canto nenhum da casa. Ia mesmo perguntar aos futuros sogros, mas o noivo a deteve fazendo-lhe um sinal.

Depois, não sei como ele lhe disse, mas ela ouviu, perplexa, que tudo aquilo que ele nos contara, durante os quatro anos da faculdade e mais uns outros tantos: filho, ex-mulher, atual marido da ex-mulher, métodos de ensino da escola do filho, enfim, toda uma vida da qual seus amigos mais chegados tinham partilhado as alegrias e as desventuras, tudo era invenção.

Quando eu soube fiquei bem desconcertada. Não pela mentira em si, mas pela sua absoluta falta de propósito. Para que servia tudo aquilo? Para o sujeito se valorizar? Mas que valorização isto lhe dava? O fato de ser pai tão jovem? Minha colega era mãe jovem também e isto não fazia nenhuma diferença a não ser quando a filhinha dela estava presente e a gente se encantava com as graças dela.

A capacidade de mentir com naturalidade é um mecanismo que me deixa sempre intrigada. Dizem que Heitor Villa-Lobos era um mitômano, capaz de criar em torno de si lendas sobre viagens reais ou imaginárias que se associaram definitivamente à sua biografia. Outro que inventava coisas até impossíveis de lhe terem acontecido era o jornalista João Saldanha. Dizia ter assistido a todas as Copas do Mundo, coberto a guerra da Coeéia, o desembarque das tropas aliadas na Normandia, durante a 2ª Guerra Mundial, ou a Grande Marcha de Mao Tse-Tung. Acontecimentos que, ou não teria idade ou a possibilidade de ter presenciado, porque sendo figura pública, todo o mundo sabia que, naquela data, ele estava no Brasil.

Há poucos anos vi um filme sobre um jovem jornalista americano que tivera ascensão meteórica graças a uma sucessão de artigos sensacionais. Seus artigos, no entanto, eram todos produtos de sua prodigiosa imaginação. Nas reuniões de pauta, a equipe se deslumbrava com sua narrativa na qual fontes, lugares e datas era citados com precisão. Até mesmo durante o processo que culminou com seu desmascaramento, ele sustentou sua mentira até o fim, mostrando inclusive as anotações minuciosas da sua caderneta com as informações que embasaram os 27 artigos totalmente forjados que publicara na revista.

Mentir para se valorizar, dizer que é rico, importante, fez isto ou aquilo de notável é uma coisa. A mentira do meu colega era apenas uma fantasia tipo amigo invisível, não servia para nada a não ser para dar um pouco mais de graça à sua vida de filho único de pais austeros. Talvez possa ser comparada às narrativas que vejo alguns filhos fazerem sobre os feitos dos pais e que sabemos são completamente fictícios. É que o pai, na falta de melhor, construíra para os filhos uma biografia feita de feitos ou de sofrimentos que nunca viveu realmente. Para o filho, é importante acreditar e conservar essa lenda. Ela serve para suportar os defeitos do pai, quando o pai foi ausente ou o maltratou e também para adoçar as memórias mais amargas da infância. Alguns desses narradores de ficções auto-biográficas se empolgam tanto com sua construção que passam até a crer nela, contando-a mesmo na frente de pessoas que sabem que aquilo não aconteceu.

Em "Lembranças da revolução de 1848", Tocqueville define de forma magistral esse espírito ao descrever o Ministro da Instrução de Luís Bonaparte. Este, segundo Tocqueville, conseguia misturar momentaneamente em sua própria crença o verdadeiro e o falso antes de servir a mistura ao espírito dos outros _ único segredo capaz de dar as vantagens da sinceridade à mentira (...).

De fato, para quem mente assim, aos poucos, fica parecendo mesmo que foi tudo verdade.

Para Gabriel Lustosa (10/3/12)

Em 12 de Fevereiro de 2008, Lustosa da Costa, postou mensagem, na página que a família mantém no Yahoo, contando que o ministro Ubiratan Aguiar tinha lhe telefonado especialmente para lhe contar sobre o papo que mantivera com nosso sobrinho, Gabriel, no avião que os levava de Fortaleza para Brasília. Quando o ministro falou que era amigo do Lustosa, Gabriel, então com 12 anos, lhe perguntou: “O senhor já leu a biografia dele?”. Ubiratan confirmou, dizendo-lhe que até já tinha escrito sobre o tio dele. Conta Lustosa que Gabriel ainda quis saber se Ubiratan Aguiar conhecia também seu tio, o ex-ministro e deputado, Paulo Lustosa; se sabia quantos anos tinha a sua avó; se já visitara Sobral, etc e etc. O ex-presidente do TCU confessou ao Lustosa que ficara encantado com o garoto, com o genuíno orgulho que demonstrava pela família paterna e concluiu: “Papo de adulto”.

O fato é que o Gabriel, caçula dos netos homens de D. Dolores, conserva, aos dezesseis anos as mesmas inteligência, delicadeza e vivacidade que tanto encantaram o ministro e, como meu filho, Chico Bento, também escolheu Fortaleza para ser feliz. É um rapaz lindo, simpático e gentil que qualquer pessoa adoraria ter como filho.

Desde pequeno revelou-se um negociante e tanto. Por isso é que, talvez, seu tio, José Benevides Martins, tem tanta simpatia por ele. É que o Benevides é o único homem de negócios numa família de beletristas. Bem sucedido empresário da área de medicamentos que acaba de ser homenageado pelo Conselho de Farmácia do Ceará, Benevides trouxe para a família um talento que, segundo seu Costa, ninguém lá em casa tinha: vender, comprar e negociar. Por isso tem tanta identidade com esse menino que, quando criança, gostava de projetar empreendimentos, fábricas, as grandes empresas que um dia criaria.

A adolescência é, a meu ver, a quadra mais difícil da vida. É quando temos os sonhos mais grandiosos, quando definimos nosso caráter, quando descobrimos a sexualidade, o amor, quando as amizades são mais intensas. É nessa fase da vida que a presença paterna é mais importante. Pelo exemplo, pela amizade, pelo carinho, o pai mostra ao filho que caminho seguir. Que valores morais e espirituais devem orientar a vida de um homem. Mesmo que essa relação seja marcada pelo conflito, pela rebeldia tão própria da adolescência, a relação com o pai é vital para que sintamos o chão firme debaixo dos nossos pés. A confiança de que, mesmo que erremos, teremos a mão forte e amiga do nosso pai para nos amparar.

Creio que o pai-sonho-de-consumo de todo o mundo deve ser assim que nem meu irmão médico, o Dr. Carlos Efrem, pai de nove filhos e que não faz e nem nunca fez diferença nenhuma entre eles. Amando, ouvindo, aconselhando e protegendo a todos igualmente, ele chega a ser um chato quando se trata dos filhos. Com um pai assim, mesmo a adolescência mais difícil se passa em uma zona de conforto.

Meu pai foi um pai notável, mas também justo. Ele não tinha esse espírito tão marcado pelo absoluto sentimento de paternidade que tem o Carlos. Neste, a paternidade chega a impedir de ver um defeito sequer nos filhos. Papai, não. Papai via nossos defeitos e fazia, sim, suas escolhas. Eram escolhas justas. Entre quem o amava e respeitava e quem havia com arrogância e desprezo, ele ficava mesmo com os primeiros. Eu também, no lugar dele, faria o mesmo. Não tenho essa enorme capacidade de perdoar que marcam naturezas como a de mamãe, Clélia e Carlos.

Hoje quando penso na adolescente arrogante e presunçosa que fui, lembro como esse período foi marcado pelo conflito com meu pai, do qual me afastei por tantos anos. E lamento tudo o que perdi por conta dessa atitude. Pois hoje meu pai é a figura masculina que mais admiro na integridade de seu caráter; nas tantas lições de vida orientadas por seu bom senso extraordinário que nos deu; na sua personalidade viva e inteligente de rapaz de origem modesta que teve que driblar muitos obstáculos para viver e manter sua enorme família com dignidade; também por seu irresistível charme pessoal e pelas histórias exemplares que sabia contar.

Gabriel vai chegando aos 17 anos, sem nenhuma arrogância ou presunção; cheio apenas de sonhos e esperanças, cercado pelo carinho da família da qual ele tanto se orgulha de fazer parte. Diz um ditado que a gente tem que ter cuidado com o que sonha porque esse sonho pode se tornar realidade. É fato. Às vezes, a gente deseja tanto uma coisa e quando consegue: que tédio. Ou, a coisa não era nada daquilo com que a gente sonhou. Mas esse não é o tipo de pensamento para se ter na passagem da adolescência para a juventude. Nessa fase é preciso sonhar e ter forças para lutar pelo que se sonha. Mesmo que depois a gente constante que não era bem aquilo que a gente queria. Ou que aquilo que a gente queria não ‘tava com essa bola toda. O pior é desistir antes, é dar tudo por perdido, é não ir à luta do que se quer.

No começo da vida, os sonhos nos conduzem, nos empurram pra frente, nos dão um rumo a seguir. Por isso concluo essa crônica em que saúdo o sonho de Gabriel de, tal como o meu Chico, viver nessa cidade tão bonita, luminosa e acolhedora com uma linda canção de Chico Buarque e Ruy Guerra, que conheci na voz da Maria Betânia:
“Sonhar mais um sonho impossível/ Lutar quando é fácil ceder/ Vencer o inimigo invencível/ Negar quando a regra é vender/ Sofrer a tortura implacável/ Romper a incabível prisão/ Voar num limite provável/ Tocar o inacessível chão/ É minha lei, é minha questão/ Virar este mundo, cravar este chão/ Não me importa saber/ Se é terrível demais/ Quantas guerras terei que vencer/ Por um pouco de paz/ E amanhã se este chão que eu beijei/ For meu leito e perdão/ Vou saber que valeu/ Delirar e morrer de paixão/ E assim, seja lá como for/ Vai ter fim a infinita aflição/ E o mundo vai ver uma flor/ Brotar do impossível chão”.

No aniversário de Alberto Dines (3/2/12)

Não pude participar dos festejos pelo aniversário de 80 anos de Alberto Dines, completados no último dia 19 de fevereiro. Fora do Brasil, recebo ecos das comemorações a partir de mensagens de amigos do Observatório da Imprensa, do antigo Jornal do Brasil, de amigos que se interessam pela obra de Stephan Zweig, de outros que pesquisam a Inquisição, do pessoal da TV Brasil que trabalha com ele, enfim, das tantas dimensões em que esse notável brasileiro tem se distinguido.

Nenhuma delas me agradou tanto quanto o artigo de Mauro Santayana publicado no site do Jornal do Brasil. O artigo do Santayana era a homenagem de um antigo companheiro de imprensa, da mesma idade do Dines, que registrava as qualidades desse que, dos 80 anos vividos, há pouco mais de dez é também meu amigo.

Santayana relembra os veículos em que trabalharam juntos: a revista Manchete, o Jornal do Brasil e a Folha de S. Paulo; e outros tantos em que Dines também atuou, como as revistas Cena Muda e Fatos e Fotos, o Última Hora, o Diário da Noite e a sucursal da Editora Abril em Lisboa. Destaca, e hoje isto já é história, como, na direção da redação do Jornal do Brasil, Dines demonstrou coragem e inteligência em vários episódios em que conseguiu driblar a censura do regime militar.

Hoje, é no Observatório da Imprensa, esse espaço único e privilegiado de análise do jornalismo contemporâneo, que Alberto Dines exerce seu jornalismo crítico. Ali ele produz um programa, de caráter também jornalístico, pois, mesmo seu profundo amor pela história não o afasta da vocação intrínseca de jornalista. O Observatório, como qualquer jornal, é obrigado por seu editor a alterar sua pauta, diante de acontecimentos extraordinários para analisar o comportamento que a imprensa adotou diante do fato.

Santayana destaca algumas qualidades de Alberto Dines que, entre muitas outras, o fazem-me admirá-lo e respeitá-lo: independência de julgamento e o profundo respeito às ideias alheias. Dines, a seu ver, pertence "ao clube dos que só são intolerantes com a intolerância", dos que "acham natural que outros pensem de forma diferente". E tem ainda a generosidade de "reconhecer o talento e a capacidade de trabalho dos colegas, ajudá-los na carreira, sem qualquer preocupação a não ser com o desempenho da equipe".

Dou aqui o meu testemunho que comprova o de Santayana, da experiência de cooperação que venho tendo com Alberto Dines. Ela teve início depois do lançamento de meu livro "Insultos impressos: a guerra dos jornalistas na Independência". Lançado pela Cia. das Letras, em 2000, meu livro tem em Dines um leitor entusiasmado. E isto já bastaria para fazer toda a sua glória. Foi a partir desse livro que começaram os convites para participar do programa Observatório da Imprensa, na hoje TV Brasil.

E assim conheci Alberto Dines, cuja presença elegante, simpática e charmosa cativa ao primeiro contato. É um homem dos salões, das reuniões amáveis, da boa conversa. No trabalho, está cercado por uma equipe de gente à qual ele trata com carinho, respeito e amizade. Sempre curioso, interessado, disposto a aprender com quem quer que seja e da geração que seja, Dines é capaz de se surpreender e de demonstrar, sem qualquer máscara, sua admiração e reconhecimento pelo trabalho dos outros.

Também sou testemunha desse respeito pelas opiniões diversas das suas, pois, mesmo nunca tendo discutido política um com o outro - a política que ocupa nossos debates é a do começo do século XIX -, sabemos, intuímos que pensamos diferente e isto nunca foi motivo de qualquer rusga ou estranhamento entre nós. Ao contrário, até faz com que vejamos essa diferença com aquele carinho que a gente tem com relação à excentricidade de um filho, irmão ou amigo, acompanhados de um balançar de cabeça e de um sorriso terno.

Hoje, me orgulho de ter em meu Currículo Lattes, como uma das realizações mais importantes de minha carreira, o fato de ter editado, junto com Alberto Dines, toda a coleção do "Correio Brasiliense", de Hipólito da Costa. Quando ele me convidou eu não quis aceitar. Achei, sinceramente que ele não conseguiria. Quem é que ia querer publicar uma coleção de 29 volumes volumosos de um jornal do começo do século XIX? Em conseguindo a editora - a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo -, como faríamos para tratar todo esse material e escrever notas, enfim, dar um tratamento que justificasse o empreendimento?

Ele conseguiu. Me convenceu e, durante dois anos, trabalhamos em equipe, com a ajuda de Patrícia de Sousa Lima, no fichamento dos volumes e na produção de notas de abertura para quase todos eles. Mas isto não foi tudo, Dines também se dispôs a produzir dois volumes extras. Um reunindo textos de autores que contemplassem vários aspectos relacionados ao jornal e ao seu editor e outro reunindo informações sobre obras e documentos disponíveis para os que se dedicassem ao estudo da vida e da obra de Hipólito da Costa. Concebemos juntos esse projeto e reunimos um elenco de grandes especialistas que produziram análises do "Correio Brasiliense", da trajetória de Hipólito da Costa e do contexto em que viveu. Editados junto com a coleção, esses dois volumes, hoje são, junto com a mesma, obra que vejo, com orgulho, sempre citada nos trabalhos de colegas que se debruçam sobre esse objeto.

Não posso deixar de registrar sua indignação com o silêncio da imprensa e da academia quando, durante as comemorações dos 200 da imprensa brasileira, pouca gente falou sobre Hipólito da Costa. Brinquei com ele durante um programa do Observatório, pois sua reação era tão apaixonada, como se Hipólito fosse um velho companheiro de lutas que estivesse sendo privado das honras que seu esforço mereceria. Fiquei querendo ainda mais bem a Alberto Dines por vê-lo, a essa altura da vida, ser capaz de um sentimento de indignação tão genuíno, vivo e vibrante.