A intriga (26/11/11)

O que guardei mais fortemente da leitura da "Cartuxa de Parma", de Stendhal, foi uma frase mais ou menos assim: "O homem que se aproxima da Corte faz depender seu futuro das intrigas de uma criada de quarto". Essa sábia assertiva define bem o ambiente de Corte e corresponde a outra que diz que "não há inimigo pequeno". Uma criada de quarto bem posicionada, se hábil e intrigante, pode definir o destino de muito poderoso. Mas a frase de Stendhal demonstra bem mesmo é o poder da intriga. Pois se ela tem tanta força é porque monarcas, mesmo quando justos e sensatos podem se deixar enredar em uma intriga bem urdida.

Eu nunca dei muita bola para possíveis maledicências contra mim. Minha teoria é que não há como se defender desse tipo de coisa. A intriga é traiçoeira e independe da vítima para seguir seu curso. Depois de plantado o boato ele vai envenenando contra você as pessoas que a ele derem ouvidos. Não adianta se tornar um paranoico absoluto sempre em busca de descobrir o que andam falando pelas suas costas. Você nunca vai saber mesmo e sofrerá em vão. Suas tentativas de informar a pessoa que ouviu e acreditou no que disseram de você podem ser até mal interpretadas. Afinal, se você não deve nada, porque está dando tantas explicações?

Um vizinho meu que foi síndico do meu prédio queixou-se para mim de que sua antecessora andara espalhando pela vizinhança informações falsas sobre ele, que punham em dúvida a sua honestidade. Ele recorreu a uma alegoria para definir a situação. Uma moça muito honesta estava para se casar. Um pretendente preterido, inconformado com a situação resolveu inviabilizar aquele projeto criando dúvidas sobre a honradez da donzela. Deixou uma escada sob a varanda de seu quarto e, de madrugada, fingiu estar descendo por ela como se ali tivesse passado a noite. A notícia correu pela pequena cidade chegou ao conhecimento do noivo que, indignado, rompeu o noivado. A moça ficou falada e, mergulhando na mais negra melancolia, adoeceu mortalmente. O difamador, sentido-se culpado, foi a ela pedir perdão, comprometendo-se a esclarecer tudo. Ela lhe pediu que lhe desse um vaso com água que estava sobre a mesa e derramou a água no chão. Ordenou-lhe que a recolhesse e a colocasse de volta no vaso. Naturalmente que com a ajuda de um pano muito pouco da água foi recuperada. A donzela explicou: "O que você fez com a minha honra foi o mesmo que aconteceu com a água do vaso. Depois que ela se espalha, mesmo que se consiga recuperar alguma coisa, nunca mais se reunirá tudo".

Gostei da história, disse ao meu amigo que concordava com ele mas que achava também que não adiantava se deixar morrer de desgosto como a pobre donzela difamada. Sendo coisa contra a qual não há defesa, o único recurso que resta às vitimas da intriga é dar a tempo ao tempo e esperar que as pessoas descubram por si mesmas que estavam erradas em seu juízo.

Na verdade, a intriga precisa de um terreno previamente preparado para florescer. Não adianta cultivá-la entre pessoas que são tão próximas que rapidamente podem esclarecer tudo uma com a outra. É preciso que haja no espírito do que dará ouvidos à intriga uma certa predisposição negativa contra a pessoa que é objeto da mesma. Amigos que, por alguma circunstância, se afastaram mesmo sem terem rompidos; irmãos que têm mágoas antigas que estavam adormecidas; chefes que, por algum motivo, antipatizam com um subordinado contra o qual não tem nada de concreto; vizinhos que mal se olham e que se limitam a uma saudação fria no elevador. O intrigante apalpa o terreno e lança sua primeira semente de forma desinteressada. Se encontra espaço para ampliar sua semeadura, se vê receptividade, vai em frente, avançando com cuidado.

Quem dá ouvidos à intriga nem percebe porque foi que tomou tal aversão àquela pessoa pela qual era indiferente, ou pela qual apenas não tinha muita simpatia. Agora tem provas de que sua intuição estava certa e diz para si mesmo: bem que eu desconfiava. O intrigante venceu. Pode se dedicar à colheita do que pretendia com sua trama. Às vezes não pretende nada além de aprofundar o fosso entre irmãos; entre amigos; entre o chefe e um colega de equipe. Às vezes quer apenas inviabilizar qualquer chance de reconhecimento dos méritos de sua vitima. Às vezes é apenas maldade mesmo.

Conheci uma vez uma mulher que era uma verdadeira craque na intriga. Uma feiticeira tão competente que sempre que eu conversava com ela ficava convencida sobre tal ou qual coisa que ela dissera de alguém. Ela inseria a informação negativa durante uma conversa de forma bem casual, como se fosse algo sabido por todos e que apenas eu ignorava. E eu boqueabria-me feito uma pateta dizendo: "É mermo?!?". Como era muito amável, muito delicada, sem jamais elevar a voz nem entrar em confronto com ninguém, a coisa funcionava maravilhosamente. Só depois da conversa quando pensava bem sobre o que ela dissera é que eu me dava conta que nunca tinha ouvido aquilo de nenhuma outra pessoa e que era bem provável que fosse uma deslavada mentira ou mesmo uma versão deturpada da verdade.

Prefiro sempre me afastar e evitar contato com gente assim pois se você não for também um intrigante se presta facilmente a ser inocente útil nas mãos deles. Eu então que falo tudo o que penso ainda posso contribuir para subsidiar intrigas em que eu mesma seja o tema. Passei a por em dúvida tudo que me contavam de negativo sobre alguém. Adoto o sistema do repórter investigativo: "o que, quando, como, onde e porque" acrescidos do: Você viu? Quem te contou?

Enfim, a mesma atitude desconfiada com que leio hoje os jornais.

Informações podem ser e quase sempre são interessadas. Então desconfie delas. Principalmente se forem negativas. Podem ser apenas obra de intrigantes.

Nossas canções (19/11/11)

Ouvi dizer que Chico Buarque negocia com sua plateia a inclusão das músicas novas, pois ninguém as quer ouvir. Todo o mundo pede "Apesar de você", "Chama o ladrão" ou até alguma mais antiga como "Olé, olá". A plateia do Chico que é composta, em sua maior parte, de gente da minha geração quer ouvir mesmo são aquelas canções que estão ligadas à sua memória afetiva. E a memória afetiva da gente tem seu melhor repertório nos anos 1960 e 1970.

Meu saudoso amigo, Luis Carlos Saroldi me entrevistou uma vez para seu programa da Rádio MEC: "As dez mais da sua vida". Antes da entrevista eles lhe pedem que lhes mande a lista das músicas para que sejam tocadas durante o programa. Não lembro de tudo agora mas sei que a primeira de todas que lembrei foi daquela música gaiata, com a letra toda em proparoxítonas que começava assim: "Amei Angélica, mulher anêmica/de cores pálidas/ de gestos tímidos..." Eu disse na entrevista que esta música era a cara do ambiente bem-humorado da casa dos meus pais onde esse disco da dupla Jararaca e Ratinho, que reunia outras canções divertidas fazia muito sucesso. Não me lembro se incluí também o "Presidente bossa nova", de Juca Chaves que, pelos mesmos motivos, foi outro hit da minha infância.

Tenho certeza que entraram duas músicas do Gil, ambas do primeiro disco dele que foi também o primeiro disco que comprei na vida. Tenho até hoje com o meu nome escrito na letra dos meus treze anos pois é de 1968. Melhor: tinha. Na verdade guardava todos os meus velhos LPs vida até que meu filho, hoje com 21 anos, os adotou e os ouve numa vitrola que lhe deu o Antonio Gomes. A primeira das duas músicas do disco do Gil que incluí foi: "Beira-mar", com letra do Caetano que começa assim: "Na terra em que o mar não bate/não bate o meu coração/o mar onde o céu flutua,/ onde morre o sol e a lua/ e acaba o caminho do chão". O resto vai por aí e é a mais bela poesia.

A outra era uma com letra do Torquato Neto que dizia "Toda rua tem seu curso,/ tem seu leito de água clara/ por onde passa a lembrança/ lembrando historias de um tempo/ que não se acaba". Era me lembrava muito o livro do Viriato Correia, "Cazuza" e, de fato, Torquato fala da sua rua como situada na margem piauiense do rio Parnaíba "que separava minha rua das outras do Maranhão", que era a terra do Viriato e onde o Cazuza do seu livro passou a infância.

Depois vinha uma música do Milton Nascimento artista que eu conheci e aprendi a gostar por causa de meus amigos de Belém do Pará, Mena e Zé Pinheiro. É aquela que diz: "Que notícias me dão dos amigos/ Que notícias me dão de você/ Sei que nada será como está, amanhã ou depois de amanhã, resistindo na boca da noite um gosto de sol"... Música que ficou na minha lembrança sempre associada à partida desses amigos tão especiais de volta para Manaus, para onde o pai deles, diretor da Shell tinha sido transferido. Amizades de adolescência com aquela intensidade que esse tipo de amizade tem.

Depois vinha o pessoal do Ceará e do seu repertório duas foram, para mim, inesquecíveis. Uma mais óbvia: "Doroty Lamour", a mais marcante e cantada das canções daquele tempo. Acho engraçado porque a gente cantava e falava mesmo "Doróte", pois no tempo em que foi composta não havia esse cuidado tão exagerado que existe hoje com a pronúncia exata das palavras da língua inglesa. Quando falei da música a um amigo carioca muito cioso nessa matéria, ele exclamou: mas o nome é "Dóroti". Foi só aí que caiu a ficha. E como ficamos nós que amamos cantar mesmo é "Doróte" Lamour desde a nossa adolescência? Por mim continuamos e fazemos como os portugueses que aportuguesam os nomes de todos até do João Lenon.

A outra canção cearense era "Além do cansaço". Eu adoro essa canção, especialmente a letra amargurada que o Brandão fez para a ela: "Quando não houver mais música no ar/ nem houver sorrisos em volta./ Quando nada na tarde morta além do cansaço da vida falar./ Quando o cigarro irritar a garganta,/ A bebida os lábios queimar,/ E a presença de alguém que ainda canta/ Não consiga no peito cantar,/ Quando a rua, a casa e a porta/ Não mais falem de ir ou chegar,/ Quando não mais houver poesia/ Na simples canção de uma mesa de bar./ É preciso entender que perdida/ pela vida uma estrada caminha/ e que uma cidade sozinha/ não comporta a procura da vida./ É preciso entender que a vida/ quer um jeito de resistir/ é preciso entender que agora/ a aurora não pode esperar por vir." A música é amargurada mas, ao contrário do que se podia esperar, trás uma mensagem de esperança no final. Quer dizer, fora da nossa cidade pode haver uma alternativa. Mensagem que talvez tenha me ajudado na difícil decisão de partir de Fortaleza para o Rio de Janeiro.

Creio que incluí ainda "Paisagem Inútil", do Caetano e "Retrato em branco e preto" do Chico e do Tom, que acho a música mais bonita sobre relacionamentos difíceis. Na verdade, quando viu minha lista, o Saroldi, perguntou: mas não tem nada dos anos 1980 para cá? Foi aí que me dei conta que não. Eu não vibrei muito com o rock ingênuo da Blitz, do Kid Abelha, nem mesmo com a obra de Rita Lee pós-Mutantes. Para mim era coisa para animar festinha, nada marcante nem empolgante. Hoje então, não consigo ouvir mais nada de novo. Ou melhor, consigo ouvir e até aprendi a gostar de alguns velhos sucessos do rock-and-roll, aqueles que todo o mundo, menos eu, ouvia quando tinha vinte anos. Mas nesta matéria não tenho autonomia de voo e sigo a orientação do meu alterego pop, Mario Bag, conhecedor profundo da história do rock.

Cabelos brancos (12/11/11)

Fez muito sucesso em almoço de que participei há alguns anos a história que Jerônimo Moscardo contou a Evaldo Cabral de Mello, na mesma mesa em que eu estava. Disse ele que meu irmão, Lustosa da Costa, ao reencontrar uma antiga namorada, outrora beldade estonteante de cuja beleza não restara nenhum vestígio, teria lhe dito, com espontaneidade: "Mas, Maria Helena, como é que eu pude ter sido tão apaixonado por você?".

Se foi isto mesmo, coitada da Maria Helena.

A gente, na verdade, nunca tem muita certeza do quanto mudou e, certamente, a mudança no olhar dos antigos admiradores tem seu significado. 

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Eu mesma tive um que, desde os meus dezoito anos, sempre que me encontrava demonstrava absoluto deslumbramento. Uma vez, já bem depois de passados os meus quarenta, ouvia-lhe a mesma cantinela que, se algum dia, já me encabulara era, agora, divertidíssima. Sendo hoje uma senhora respeitável, autora de livros, meu admirador achou por bem perguntar-me se me incomodava tanta admiração. Eu lhe respondi que agora o que me chatearia seria se ele parasse. Seria o sinal de que meus encantos se teriam definitivamente fanado. 

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Porque, se para as mulheres jovens despertar o interesse masculino é quase uma contingência natural, o interesse por uma mulher madura é como uma cortesia. Não me lembro onde li a história de um sujeito que, encontrando uma velha amiga no avião, propõe-lhe que quando chegassem na cidade, estranha aos dois, tivessem um encontro caliente no hotel em que ficariam. Diante da negativa indignada dela, ele arrematou: "Bom, eu já cumpri minha obrigação." A obrigação, o bom-tom, mandava que, para lisonjear a amiga, demonstrasse o quanto seus encantos exerciam efeito estimulante, digamos assim. Pois do contrário, a mulher, acostumada a ser cantada por todos poderia imaginar que já chegara ao estado da ex-namorada do Lustosa. 

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E não são só os admiradores. Uma vez uma professora da UFC, duas gerações à nossa frente, perguntou a mim e à Clélia, onde andavam aquelas duas meninas magrinhas da família Lustosa que ela um dia conhecera. Preferimos não decepcioná-la dizendo que éramos nós mesmas, as outrora magrinhas meninas lustosa. 

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A avô paterna de meu filho, D. Edi, sempre que fazia uma foto 3X4, olhava desapontada e dizia: "Nossa como estou horrível nesse 3X4. Mas vou guardar porque sei que daqui a dez anos vou achar que estava até muito bem." 

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Li em uma coluna social, creio eu, a história de uma socialite que acompanhava um operário que tinha ido consertar alguma coisa na casa dela até a porta. Passando pela sala ele viu uma foto grande de uma jovem e deslumbrante mulher em traje de banho, perguntou quem era. Diante da resposta de que era ela mesma, ele comentou solidário: "Pois é madame, o tempo esculhamba com a gente." 

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Tenho olhado para as tantas mulheres que hoje optam, mesmo sendo ainda jovens, por deixar os cabelos brancos. Eu penso em fazer o mesmo mas, hesito. Será que ficarei velhíssima ou vai depender do corte? Porque, na verdade os cabelos pintados também ficam meio artificiais e, muitas vezes acentuam o contraste entre o rosto e o cabelo totalmente negro, ou totalmente acaju. E esse contraste também choca. Uma colega minha que adotou os cabelos brancos muito antes da moda atual, recuou, pois, moça ainda, na casa dos quarenta, no banco, lhe indicavam a fila dos idosos, ou lhe ofereciam o lugar no metrô. 

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A verdade é que nessa mudança de tempo, em que a gente aos cinquenta se veste e se comporta igual aos de trinta, o cabelo branco é até uma atitude ousada. É remar um pouco contra a maré que determina que todo o mundo tem que ser jovem. Lembro de um filme com Henry Fonda e Katharine Hepburn, creio que foi "O Lago Dourado", em que os dois formam um casal de velhos. Ela bem alto astral e ele um mau humorado crônico. Em determinada cena do filme ela lhe conta que conhecera o casal que morava no sítio ao lado do deles e que eram muito simpáticos. Ele indagou sobre a idade dos dois. E ela respondeu: "Ah, não sei, acho que são de meia-idade, assim como nós." Ao que ele arrematou: "De meia idade? Meia idade quer dizer que a pessoa está na metade da vida. Você já viu alguém viver 150 anos?".

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Foi o próprio Roberto da Matta quem me contou que estava uma vez com Celeste na fila dos idosos de um banco em Niterói. Celeste muito simpática conversava com uma vizinha de fila e esta reclamava da tamanho da fila e da demora alegando que o marido era muito chato e ia reclamar se ela atrasasse para almoço. Observando a cara fechada do Da Matta, ela comentou com Celeste: "Aliás, esse seu tem cara de ser também muito reclamão. "Da Matta, entrou na conversa apenas para dizer: "Não minha, senhora. Lá em casa em não reclamo de nada. Celeste organiza a casa como quer e eu acho tudo muito bom. Mas só tem uma coisa: quando eu quero sexo, eu exijo sexo."

Enfim, envelhecer bem envolve uma boa dose de humor, energia e gosto pela vida. Os cabelos brancos ou a ausência deles são apenas um detalhe.

J. Carlos e a caricatura na Primeira República (5/11/11)

Uma mudança se verificou na atitude geral das elites pensantes cariocas no alvorecer da Primeira República. A República mudou o feitio da Capital Federal, sumiu da cena pública o velho monarca e sua corte, o pouco estimado Conde D´Eu, a nobreza mais ligada a D. Pedro II. Enfim, sumiram os personagens principais da cena política, com seus hábitos, os rituais da monarquia e o prestígio que esta gozava junto às cortes da Europa.

Vivia-se uma síndrome parecida com a que sucedeu à Independência, só que em momento diferente de sentimento nacional. Na Independência estavam os ânimos nacionalistas exaltados, queriam os brasileiros a independência em todos os sentidos, muitos jornais proclamavam a superioridade do caboclo, do mulato sobre os portugueses e europeus em geral. A literatura romântica exaltava o índio, redimia o escravo, proclamava a grandeza do continente americano.

A República veio no tempo do primado da ciência e do racionalismo com suas teorias definitivas sobre a inferioridade dos trópicos e das raças mestiças. Mesmo os homens mais cultos, mais sábios, curvavam-se humilhados ao diagnóstico definitivo: estávamos condenados ao atraso e a República só vinha agravar este estado de coisas. Para a Europa, contava muito termos aqui governando um remanescente das mais antigas casas da nobreza de lá. Era Habsguro e Bragança e o longo reinado de Pedro II, com sua imagem de amigo das letras, das ciências e das artes que nos distinguiam das tantas republiquetas latino americanas em que os ditadores se sucediam em frequentes golpes militares.

O primeiro grande esforço republicano foi, cessada a fase das escaramuças militares no período Deodoro/Floriano, o de recuperar a credibilidade do país e com ela o crédito junto à economia internacional. No esforço de identificação do Brasil com a velha Europa aliaram-se políticos, empresários e intelectuais. Neste cenário, a caricatura brasileira, tal como a literatura e a poesia viveu um período de calmaria. Ao invés do estilo agressivo com que se fustigaram o ministros e ao próprio Imperador trocavam os caricaturistas amabilidades com os presidentes. O humor roçava o ingênuo nas imagens de Prudente de Moraes, Campos Sales e Rodrigues Alves. Este último, aliás receberia de Kalixto e Raul Pederneiras, em edição de O Malho de 1904, na data de seu aniversário, uma homenagem francamente carinhosa.

A caricatura não cessou, pelo contrário, ela incrementou-se nas mais variadas publicações, viu nascer uma miríade de novos caricaturistas, impulsionados pela novidade do traço e da técnica de Julião Machado. Mas tornou-se arte amável, conciliadora, conivente com o projeto nacional de legitimação da nova República. Foi apenas no governo Hermes da Fonseca (1910/1914) que ela adotou uma atitude mais agressiva. O período, aliás, foi o mais fértil em fornecer personagens e temáticas para a caricatura, dentre os quais merecem destaque Rui Barbosa e seu rival o gaúcho Pinheiro Machado no Senado. Os dois, junto com Hermes e o Barão do Rio Branco foram os que mais forneceram assunto para a caricatura na Primeira República. Mesmo assim, quando se compara essas tantas caricaturas do período verifica-se que não atingem o grau de agressividade das que se fizeram nos últimos anos da monarquia e das que se farão do final da década de 20 em diante, quando aqui chega o uruguaio Andrés Guevara, cujo traço agudo atingirá de cheio o governo autoritário de Artur Bernardes (1922/1826).

O tom da caricatura brasileira, durante quase toda a primeira metade do século XX será dado, sobretudo, pelo que se tornou o maior caricaturista brasileiro de todos os tempos: José Carlos de Brito e Cunha, ou J. Carlos. A caricatura de J. Carlos será sempre marcada pelo seu estilo elegante, de humor menos agressivo, que jamais conhece o ataque pessoal, a ofensa, ou mesmo a crítica de caráter político mais acerbo. Com uma enorme capacidade de trabalho e uma disciplina que fugia aos padrões do tempo, sem falar é claro no seu talento superior, J. Carlos ocupará o primeiro lugar na cena deixando a longa distância mesmo os mais talentosos artistas, tais como Kalixto e Raul Pederneiras. Sua enorme versatilidade permitirá que se ocupe tanto da caricatura política como da de costumes, como do desenho de propaganda.

A caricatura tem um papel notável na imprensa deste período. No Rio eram inúmeras as revistas que se sustentavam basicamente na caricatura, no texto humorístico e na coluna mundana. J.Carlos estreou, em 23 de agosto de 1902, na revista O Tagarela. Logo depois surgiram O Malho (1902), Fon-fon! (1907) e Careta (1908), revistas que tiveram vida longuíssima para os padrões da imprensa nativa: todas duraram mais de 50 anos. Em todas elas J. Carlos teve atuação destacada. Desenhou também para a revista infantil O Tico-tico para a O Cruzeiro. De 1935 até 1950, ano de sua morte, foi o editor artístico da Careta.

Em 1906, seu estilo já é inconfundível. Vale-se de recursos inéditos, amplia as possibilidades da caricatura impressa. Já é o grande caricaturista que elabora a figura tirando o máximo de proveito dos detalhes marcantes, sem prejuízo da arte e do bom acabamento. Os originais que deixou, cerca de 1000, são limpos, coloridos, bem acabados, como se o seu destino não fosse só o da impressão.

J. Carlos praticamente morreu na redação da Careta. Ali, no dia 29 de setembro de 1950, o artista tombou fulminado sobre a sua mesa de trabalho, vítima de um edema cerebral. Morreu, três dias depois, em 2 de outubro, aos 66 anos de idade.

Lembrai-vos de 64 (29/10/11)

A cena do linchamento de Kadafi não me sai da cabeça.

Foi algo tão chocante, tão brutal que, acredito, mesmo quem detestasse o Kadafi teria sentido pena da forma como ele foi massacrado. As imagens de seu martírio, com o rosto todo ensanguentado, as roupas rasgadas, sendo arrastado por uma multidão de jovens armados que o insultavam, humilhavam, lhe batiam, puxavam-lhe os cabelos e que finalmente o cercaram e o liquidaram bem diante dos nossos olhos são as cenas mais chocantes que se viram na televisão nos últimos anos. Penso naquelas pessoas que o conheceram de perto, que estiveram com ele em cerimônias oficiais, trocaram sorrisos e cumprimentos e que mesmo conviveram com eles por vários dias. Será que essas pessoas não sentiram um pouco pelo sofrimento dele naquele momento tão dramático? Será que nenhuma delas vai falar nada? Que sente muito, que não deveria ser assim, que lamenta pelo sofrimento dele e de sua família? Será que nem o Papa, em nome dos sentimentos normais que todo cristão deve manifestar diante do sofrimento de qualquer ser humano, vai dar uma declaração condenando esse massacre?

Certamente haverá quem diga que ele fez por merecer, que era um ditador cruel e sanguinário, que terá provocado a morte de outros tantos inimigos em condições ainda piores. Pois é. E daí? Por conta de disto temos que ser iguais? Temos que nos brutalizar também e assistir calados e até com um sorriso de aprovação a cena de um ser humano sendo linchado? É esse o tipo de justiça que queremos para o nosso mundo? Será que esses jovens armados e embrutecidos que espancaram Kadafi serão bons democratas? Será que uma ordem democrática pode ser constituída assim a partir do linchamento do chefe de Estado deposto? E consta que o filho dele também foi eliminado de forma covarde. E que seus aliados foram executados em um hotel e que o comboio em que ele fugia com outras tantas pessoas foi antes bombardeado.

Sua execução teria sido assim planejada e patrocinada pela OTAN, pela liga que reúne os países mais ricos e supostamente mais avançados do planeta. E se assim for, estamos todos a mercê desses senhores e de suas armas. Pois se seu aliado de ontem pode se converter em inimigo de hoje e se foi a própria OTAN quem conduziu a guerra, bombardeando o país pelo alto e armando os supostos rebeldes, logo, logo pode chegar a nossa vez. Nas cenas de combate de rua, víamos jovens descalços, alguns adolescentes, com armas poderosas que certamente não tinham antes. Essa gente foi armada e será difícil de desarmar.

Ao lado da Líbia está a Síria, possível próximo alvo da OTAN. Depois, deve chegar a vez do Irã e assim, pouco a pouco, todo o Oriente Médio terá sua ordem política e social alterada por força das nações ricas do planeta. Um novo colonialismo que estimula o fanatismo religioso contra a ordem moderna ocidental. O mais estranho é que essa receita já deu em Osama Bin Laden e no Paquistão, antigo aliado dos EUA, com sua bomba atômica.

É preciso desconfiar das notícias que nos chegam desses lugares remotos dando conta da violência dos regimes. A imprensa foi um forte aliado de Bush no processo que levou à invasão e destruição do Iraque. Agora não parece ser diferente. É só comparar o espaço que notícias sobre qualquer violência em países inimigos dos EUA ganham nas páginas dos jornais e o quase silêncio, a nota de pé de página quando se sabe o que passam as mulheres na Arábia Saudita. As mulheres, aliás, que serão as primeiras vítimas do fundamentalismo religioso que parece ser a orientação a ser dada na Líbia pelo governo que está se instaurando lá.

"Quando vires as barbas do teu vizinho arder, põe as tuas de molho", diz o dito popular. Em recente artigo no seu blog, o sempre lúcido Mauro Santayana lembra que "em nome da contenção da expansão do Brasil sobre o Atlântico Sul, por causa do pré-sal, ou da ´defesa´ da natureza na Amazônia, pode se montar uma coalizão, entre países europeus e os Estados Unidos, para agir ao arrepio da ONU, de um dia para o outro, com a mesma facilidade com que se montou a agressão contra o Iraque".

É preciso estar atento e forte.

Em outros tempos também, depois do Oriente - Vietnã e Coreia - chegou a nossa vez. Os inimigos de fora se aliaram aos inimigos de dentro e perpetraram o golpe que levou o Brasil a um atraso de mais de 30 anos em seu processo de desenvolvimento. Hoje ouvimos as mesmas vozes e vemos até os mesmos símbolos - as vassourinhas - que marcaram a onda conservadora que antecedeu ao golpe militar de 1964. Em nome da "democracia", contra o perigo do comunismo, alegando que estávamos mergulhados em um "mar de lama" essas forças, estimuladas por uma imprensa poderosa, pediram e apoiaram o golpe militar de 1964. O golpe, baseado nesses temas pueris, foi na verdade voltado justamente contra o projeto desenvolvimentista que vinham sendo desenhado pela forças progressistas nos anos 1950. O golpe de 1964 foi contra a reforma agrária, o aumento do salário mínimo, a redistribuição da riqueza, o poder desmedido das multinacionais e dos grandes bancos.

Não há, a princípio, no cenário próximo sinais de união das forças conservadoras no sentido de deter os avanços que os últimos anos garantiram para o povo brasileiro. No entanto, essas forças continuam aí, abrigadas sob novas bandeiras, valendo-se da imprensa para promover campanhas de desmoralização, iludindo os ingênuos da classe média com promessas de uma ordem política irreal. Ordem esta, que, no fundo, ao meter a classe política toda no mesmo balaio da desonestidade, descrê da democracia e aponta mesmo é para saídas elitistas e autoritárias, bem diversas das escolhas do voto popular.