Afrânio Coutinho: literatura como missão (29/9/12)

Para Afrânio Coutinho, baiano que chegou ao Rio de Janeiro em 1947, com 36 anos de idade, bem vale o lema: literatura como missão. Afrânio Coutinho, que nasceu em 1911, formou-se em medicina em 1931, mas nunca exerceu a profissão pois, desde cedo, sua paixão foi a literatura. Começando como professor de Literatura e História no curso secundário, foi convidado, em 1941, a fazer parte do corpo docente da Faculdade de Filosofia da Bahia.

No ano seguinte, caiu-lhe no colo o emprego dos sonhos: o cargo de redator-secretário da revista "Seleções", em Nova York. Este posto que ocupou durante cinco anos, os cursos que frequentou na Universidade de Columbia e em outras universidades norte-americanas, aperfeiçoando-se em crítica, história literária e Barroco, mudaram o rumo de sua trajetória.

Se a vocação para a crítica literária já estava nele, a maneira de a fazer, a essência da arte ou da ciência da crítica, ele aprenderia lá na América. Sua atividade posterior no Brasil foi definitivamente marcada pela influência da moderna crítica americana e, para fazer dela a ferramenta de trabalho por excelência dos estudiosos da matéria, empreendeu uma verdadeira cruzada através da imprensa. De volta ao Brasil, inaugurou, em 1948, no Suplemento Literário do Diário de Notícias, a seção "Correntes Cruzadas", debatendo problemas de crítica e teoria literária. Manteve constante colaboração na imprensa e em revistas literárias, do país e do estrangeiro e dirigiu, entre 1951 e 1960, a revista "Coletânea".

Polêmico, agressivo, direto, sem papas na língua, cioso de seu lugar e de seu papel na história da crítica literária, Afrânio defendia uma atitude mais séria por parte dos que faziam e promoviam a literatura no Brasil. Protestando contra as "igrejinhas" que, através da proteção aos do grupo, faziam com que muito falsos valores emergissem enquanto talentos verdadeiros permaneciam desconhecidos, ele dizia que sua missão era promover "a renovação da crítica literária, que, no Brasil, estava dominada pelo impressionismo, velho e sovado, e, pior ainda, transformado ou degenerado em simples jornalismo, ou achismo, do gostei ou não gostei, praticado à larga pelos donos de rodapés de crítica literária".

Amava a polêmica e nela estava em seu elemento, se sentia perfeitamente à vontade: "Minha paixão é o assalto à praça", dizia. Quando assumiu a cadeira de número 33 da Academia Brasileira de Letras, disse em seu discurso de posse: "ao me escolherdes para a vossa ilustre companhia, escolhestes a própria controvérsia". E continuou, lembrando que nunca foram amenas as suas relações com os grupos literários, desconfiados dele, um solitário que: "se recusava a submeter-se ao ritual de admissão nas confrarias e igrejinhas e reagia contra o predomínio, habitual entre nós, da vida literária sobre a literatura". Apesar dessa aparente vocação de demolidor, Afrânio Coutinho foi um semeador, sua obra vastíssima foi construída ao lado de uma trajetória de professor dedicado, em função da qual sacrificou empregos que teriam lhe proporcionado melhor rendimento.

Porque, de sua missão em prol da literatura brasileira fazia parte a educação, desde seu primeiro ofício em um colégio na Bahia. Depois do período nos EUA, passou pelo Colégio Pedro II, no Rio e outros tantos cursos e universidades. Até concluir sua trajetória na Universidade Federal do Rio de Janeiro, formou gerações e gerações de especialistas qualificados. Mesmo depois da aposentadoria, prosseguiu no ofício de professor através das atividades da Oficina Literária Afrânio Coutinho onde, tendo por base sua vasta biblioteca particular, promovia estudos na área da literatura, ministrava cursos, proferia conferências e recebia escritores nacionais e estrangeiros.

Sua obra variada se inicia com a publicação, em 1940, de Filosofia de Machado de Assis, depois revista em função dos novos conceitos. Coordenou, a partir de 1950, a elaboração e publicação da monumental A literatura no Brasil. Foi naquele ano que publicou também a tese que defendeu para o concurso do colégio Pedro II, Aspectos da literatura barroca, que seria depois complementada pela Bibliografia para o estudo do barroco. Da longa sucessão de livros que publicou, se destacam as edições críticas da obra de grandes autores brasileiros e a elaboração, junto com J. Galante de Sousa e Eduardo Coutinho, da "Enciclopédia de Literatura Brasileira", publicada em 1990.

Dois trabalhos de Afrânio Coutinho merecem destaque: a organização dos textos e o belo prefácio à polêmica Alencar/Nabuco e o pequeno "Euclides, Capistrano e Araripe". Neste último, especialmente a parte em que fala de Capistrano de Abreu e do contexto de sua formação: o Ceará do século XIX. Ali, Afrânio Coutinho se superou na recuperação do universo de referências que conformaram o perfil do intelectual especialíssimo que foi Capistrano, apresentando um panorama rico e original da situação cultura do Ceará naquele período. Ao mesmo tempo, é notável a maneira como demonstra o papel fundamental de uma educação básica de qualidade na trajetória de toda uma geração de escritores.

Creio que este é um aspecto da história cultural do Ceará que merecia ser mais investigado. Quando se analisa o perfil dos fundadores da Padaria Espiritual que eram, em sua maioria rapazes do comércio, colocam-se algumas questões: onde eles adquiriram aquela cultura? Como tiveram alcance aos livros que citam, alguns deles em línguas estrangeiras? Onde fizeram sua formação? Imagino que tanto o Liceu do Ceará, quanto os seminários de padres, quanto as escolas primárias são os lugares onde se deve procurar as repostas.

O interessante seria descobrir como foi que esse ensino de qualidade se difundiu no nordeste do século XIX e, mais importante, em que momento ele deixou de existir.

"Quem seus inimigos poupa... (22/9/12)

Nas mãos lhes morre” – é esse o complemento do adágio popular que achei em um dos jornais da Independência. Refrões, adágios, provérbios ou aforismos, são os nomes que, com ligeiras variações de sentido, designam aquela expressão sucinta, quase sempre doutrinal ou sentenciosa, cuja legitimidade se baseia na antiguidade e na aprovação pelo senso comum. Formula sintética e direta, o que dá titulo a este artigo, como alguns de seus congêneres, é repleto de significados e fornece uma lição digna de Maquiavel que analisaremos no final.

Don José Maria Sbarbi, presbítero premiado pela Biblioteca Nacional de Espanha, em 1871, por sua monografia sobre “Los refranes, adagios e proverbios castellanos”, acreditava que estudar os provérbios era adquirir ciência de modo “más llevadero, consumando el difícil maridaje de lo útil com lo agradable”. Segundo Monsenhor Sbarbi, Aristóteles já os definia como “preciosas relíquias da venerável antiguidade preservadas pela memória dos homens”.

Atribui-se a Horácio aquele que se usa até hoje: “quando vires as barbas do teu vizinho arder, deita as tuas de molho”. E a Sêneca, um de que muita gostava o Visconde de Cairu: “Quem bate primeiro, bate duas vezes”. Os que mais apareciam nos jornais brasileiros de 1822 eram mesmo os de origem obscura: “palavras loucas, orelhas moucas”; “quem não tem padrinho morre mouro”; “na barba do tolo aprende o barbeiro novo”; “cada louco com sua teima”, etc.

Analisando a cultura do século XVI, na Europa do Norte, Natalie Zemon Davis mostra que, apesar da distância que havia entre a linguagem clerical e/ou literária e a fala do homem do campo, elas tinham algo em comum: ambas compartilhavam o uso do provérbio. Isso se deveria, entre outras coisas, ao fato de que o nível de alfabetização entre os leigos na Europa do Norte se conservara baixo até o século XV.

Para os padres, os provérbios comuns eram uma maneira de invocar um universo de discurso familiar e de ajudar as pessoas a lembrarem a mensagem do sermão. Os advogados, por sua vez, se encantavam com a estrutura harmoniosa e a brevidade, acreditando que, por sua densidade, os provérbios ajudavam a persuadir.

Mas, segundo Davis, com o advento do Racionalismo e do Iluminismo, os provérbios foram postos de lado: passaram a ser vistos como produto de falsas associações. Não sendo passíveis de provas adequadas, não se recomendavam nem por sua concisão nem por sua familiaridade, tampouco por sua longa existência.

Talvez seu uso não tenha sido tão deixado de lado assim. Em meu livro “Insultos impressos” (Cia. das Letras, 2000) demonstro como eram frequentemente usados pelos jornalistas que fizeram a Independência do Brasil.

Muito me impressionou o uso que todos os que escreviam nos jornais daquele tempo – de Hipólito da Costa, passando por Gonçalves Ledo e o Visconde de Cairu, até chegar aos jornalistas mais populares, como João Soares Lisboa e Luís Augusto May – faziam deles. E, vindo mais perto, nos surpreendemos ao verificar que Rui
Barbosa parece ter sido senão um estudioso pelo menos um colecionador de obras que tratavam do assunto.

De sua admirável biblioteca constam 15 títulos relacionados a aforismos, provérbios ou refrões. Um deles, de Gustave Le Bon.

Acreditava Don José Sbarbi que o império dos provérbios era universal e tão antigo como o mundo e que sua duração alcançaria até o fim das gerações. Decerto esse império não é tão poderoso hoje quanto em seu tempo. Mas um dicionário de provérbios lançado há poucos anos pela Lacerda Editores, ao estabelecer as diversas formas que um mesmo provérbio pode assumir em vários idiomas, surpreende ao nos revelar a universalidade de alguns que considerávamos tipicamente brasileiros.

O que escolhi para dar titulo a esse artigo, “quem seus inimigos poupa nas mãos lhes morre”, me veio à mente a propósito exatamente da política. Neste terreno, mais do que em outros, a lição curta e direta daquele provérbio deve ser sempre lembrada. Especialmente pelos bons, aqueles que veem a política e a humanidade com olhos diversos dos de Maquiavel. Seu sentido é de que se você tem o poder e a oportunidade de neutralizar forças que estão empenhadas em lhe destruir e não o faz, não tenha dúvida, quando a situação se inverter, você será destruído.

Os bem intencionados e os abnegados que só veem na política uma forma de fazer o bem, de ajudar aos que mais precisam, esquecem essa lição fundamental: para os que já são ricos e poderosos e estão se lixando para o destino dos outros, o dinheiro e o poder nunca são demais. Há no mundo um contingente considerável de pessoas para as quais o sofrimento, a miséria e a degradação do próximo são perfeitamente indiferentes. Aí vale outro refrão: não tome os outros por si.

Proteja o seu legado, neutralize os inimigos de seu projeto, faça o que estiver ao seu alcance para impedi-los de destruir o que foi conquistado. Quem conhece a história das lutas sociais sabe que foi um processo longo, sofrido e difícil cujo resultado precisa ser guardado dia e noite contra os que estão empenhados em vê-lo naufragar. “O preço da liberdade é a eterna vigilância”, já foi um slogan do liberalismo de direita mas que vale para qualquer situação.

Na verdade não só o da liberdade mas também o preço da igualdade, dos direitos, da distribuição mais justa das riquezas, da manutenção de um estado de bem-estar social. O que vemos hoje acontecer nos países desenvolvidos é exatamente o resultado da falta de vigilância dos que estavam acostumados a ter tudo e não se deram conta do valor do que lhes estava sendo tirado. As novas gerações não tinham ideia do quanto aquelas conquistas tinham custado aos seus pais e avós. Leva-se muito tempo para erguer uma nação mais justa e igualitária. Reduzi-la rapidamente à situação anterior é só questão de recursos e de oportunidade.

No centenário da Independência (15/9/12)

Em pequeno e admirável livro, " A Nação faz 100 anos" hoje disponível na internet, a historiadora Marly Motta analisou o ambiente e o caráter das festas que marcaram o centenário da Independência do Brasil, em 1922. Segundo Marly, uma espécie de "vigilância comemorativa" já teria tomado conta da sociedade brasileira alguns anos antes da data. Como sói acontecer em momentos como este, a Nação, através de suas elites, passou por um processo de auto-análise, revendo o passado, criticando o presente, antecipando o que deveria ser o futuro. Como disse, em tom bem humorado a revista "Careta": "os grandes momentos da vida sugerem grandes idéias; o gigante vai fazer cem anos de vida independente. É possível que nessa ocasião lhe acuda a idéia (...) de tomar um bom lombrigueiro".

O passado marcado pela colonização portuguesa favorecia a produção de diagnósticos negativos. De acordo com eles não tínhamos progredido, não éramos iguais aos Estados Unidos por conta dos portugueses. Portugueses estes que continuavam visíveis na paisagem da Capital Federal, dominando o comércio, os transportes e o aluguel das habitações pobres. Portugueses execrados desde o começo da República, quando os florianistas os tinham escolhido como alvo preferencial de sua revolta. Sentimento que a aproximação do Centenário da Independência contribuía para fazer renascer. Era preciso apagar a mancha do colonizador para afirmar a brasilidade.

E este também foi um dos argumentos usados pelos que defendiam o arrasamento do Morro do Castelo, primeiro núcleo urbano do Rio de janeiro. Alegaram que aquela herança colonial era um estafermo a encobrir a beleza natural do Rio, que era foco de mazelas e doenças e que impedia a circulação do ar na cidade. Desde o tempo da colônia o morro do Castelo viera perdendo prestigio para outros espaços da cidade, acabando por se converter em um bairro pobre e abandonado. As cabrinhas que se via pastando na sua encosta, segundo o "Revista da Semana", faziam contraste com a vizinhança elegante, onde sobressaiam os edifícios modernos e imponentes do Teatro Municipal, da Biblioteca Nacional e do STF.

Poucas foram as vozes que se levantaram em defesa do velho morro. Delas a mais revoltada era a de Lima Barreto que acusava o governo de deixar de lado obras de utilidade social para "pensar só nesses arremedos parisienses, nessas fachadas e ilusões cenográficas". Numa cidade onde havia falta de moradia para o povo, dizia Lima Barreto, o governo pretendia destruir, por causa de uma festa, a área habitada por milhares de pessoas, em sua maioria pobres, sem lhes oferecer nada em troca. Lima Barreto denunciava, já naquele tempo, o deslumbramento da elite expresso na tola indagação que estava nas entrelinhas de todas as matérias jornalistas sobre os festejos: o que vão pensar de nós os estrangeiros? De fato, para o brasileiro parecer civilizado diante do visitante europeu era preciso, como disse a revista "Careta": "saber envergar uma casaca, fumar charuto sem se engasgar (...) e rir de boca fechada para não cuspir na cara do vizinho".

O morro foi abaixo para dar lugar aos magníficos pavilhões que compuseram a Grande Exposição Internacional comemorativa do centenário da Independência. Do elenco de grandes obras erguidas então, restaram os prédios que abrigam hoje a ABL, o MIS/RJ, o Serviço de Saúde dos Portos e parte do MHN. Outra obra que se fez por conta da festa foi a construção do Hotel Gloria. O Hotel Gloria, onde se hospedaram os visitantes mais ilustres foi, aliás, o "point" para onde acorriam os jornalistas em busca das celebridas. Foi no seu hall que Viriato Correia entrevistou a nora do Conde D´Eu que, junto com dois dos netos da princesa Isabel, acompanharam o avô na travessia do Atlântico.

Com o fim do banimento da família imperial decretado no final de 1920, os despojos de d. Pedro II e de d. Teresa Cristina foram trazidos para o Rio de Janeiro. Chegaram no começo de 1921, acompanhados pelo conde D´Eu. Viriato Correa acompanhou o velho Conde em suas andanças pelo Rio e registrou, em entrevista publicada no Correio da Manhã, a emoção de seu reencontro com antigos soldados da Guerra do Paraguai que tinham lutado sob suas ordens. Entusiasmado pela acolhida calorosa que recebeu, o Conde d´Eu aceitou o convite para voltar em 1922 para os festejos pelo centenário da Independência. A morte o colheu durante a travessia do Atlântico.

Se a imagem de d. Pedro II e de seu reinado foi valorizada naquele contexto sendo louvado por Assis Chateaubriand, como "ultimo governo honesto que teve o Brasil" , o mesmo louvor não foi dedicado a seu pai. Segundo a imprensa do tempo d. Pedro I "não passou de um mero oportunista que refreou o quanto pode as arrancadas independentistas." Ao invés de dar destaque ao "estróina" que, apesar de "suas decisões repentinas, vacilações de caráter, incultura de espírito e falta de austeridade em seus costumes privados" proclamou a Independência, as celebrações, especialmente as realizadas em São Paulo, preferiram valorizar o papel de José Bonifácio.

Era parte do esforço paulista para garantir para São Paulo um lugar central nas comemorações. Um monumento aos Andrada foi erguido em Santos e, segundo Marly Motta, as próprias manifestações artísticas da Semana de Arte Moderna em sua critica à cultura da "Belle Epoque" traziam embutidas uma censura ao Rio de Janeiro. Através de Mario de Andrade, São Paulo reivindicava para si papel central na renovação da cultura brasileira apontando a decadência do Rio de Janeiro. Assim, como demonstra o livro de Marly Motta, os festejos pelo Centenário da Independência marcaram também a irrupção de São Paulo no cenário cultural brasileiro de maneira avassaladora e definitiva.

Quero chorar, não tenho lágrimas… (8/8/12)

Esse é o primeiro verso de uma marchinha de carnaval que segue dizendo: "que me rolem na face para me socorrer,/ se eu chorasse talvez desabafasse/ o que eu sinto no peito eu não posso dizer/, só porque não sei chorar/ eu vivo triste a sofrer". O sujeito queria chorar mas era em ritmo bem sacudido pois essa marchinha era daquelas buliçosas. Mas dizia uma coisa verdadeira sobre o poder das lágrimas. Não é que só quem não sabe chorar que sofre mas, a verdade é que quem chora experimenta certo alívio.

Só mesmo nas marchinhas de carnaval era que um "homem de moral" podia se dar ao luxo de chorar. Pelo que me recordo nos sambas-canção tem muita angustia, muita magoa mas poucas lágrimas. Em "Vingança" do Lupicínio Rodrigues, um dos prazeres do vingativo é saber que encontraram o/a autor/a de suas desditas "bebendo e chorando" na mesa de um bar.

Na minha infância, esse negócio de chorar era coisa de gente fraca porque homem que é homem não chora e mulher valente também não chora não. No tempo do colégio das Dorotéias, eu só mangava das meninas que tinham morrido de chorar em "Romeu e Julieta", do Zefirelli e em "Love Story". Este último eu nem assisti porque Garota Cultural que se prezasse não se prestava a ver filme meloso. Também passei longe de "Dio come ti amo". Eu tinha total desprezo por esse gênero lacrimoso filme que tanto sucesso fazia entre as minhas colegas. Imagina, eu, chorar? Meu negócio era Bergman. Filme-cabeça.

E, no entanto, devo ter chorado bem em uns e outros filmes de que não me lembro agora. Mesmo não sendo livro muito conceituado no tempo, "Meu pé de laranja-lima", do qual não lembro uma linha sequer, me fez derramar lágrimas de esguicho, como dizia Nelson Rodrigues. Também dei vazão às lágrimas em algumas despedidas. Assim mesmo era choro escondido, disfarçado, envergonhado. Só fui mesmo me libertar desse preconceito contra o choro na medida em que as coisas da vida passaram a me levar naturalmente às lágrimas.

Em Paris fiquei surpresa de ver, mais de uma vez, mulheres chorando na rua. Não eram mulheres do povo, ou pedintes como a gente vê muito por lá. Estas não desciam a essa humilhação de implorar entre lágrimas pela sua caridade. Mendigo parisiense tem uma alta concepção cenográfica. Sentava-se em alguma esquina, sempre acompanhado por um ou dois cachorros pequenos e em atitude sofrida, porém digna, mão estendida, tendo ao lado um cartaz em papelão com seu apelo, às vezes um simples: "J´ai faim". No inverno é batata: funciona que é uma beleza.

As mulheres parisienses que vi chorar nem eram frágeis, nem eram pobres e não pareciam ter passado por nenhuma desgraça. Pareciam pessoas que tinham se despedido de alguém querido e que estavam partindo, pois vi-as na rua, no metrô ou no trem com uma pequena mala de viagem. O que me surpreendeu foi que elas deixassem as lágrimas correr livremente pelo rosto sem qualquer vergonha ou constrangimento. Eram mulheres altivas, muito claras e elegantes e não pareciam estar buscando a piedade nem o conforto das pessoas em volta. Ao contrário, certamente, como a maior parte das parisienses, avessas a qualquer tipo de familiaridade, teriam reagido com aspereza à tentativa de confortá-las.

Eu fiquei pensando no sentido daquelas lágrimas assumidas. Lágrimas que não estavam associadas a nenhuma outra atitude dramática, a nenhum queixume ou fungado, enfim, a nenhuma outra demonstração de sofrimento. Será que essas mulheres choravam assim porque entre tantos direitos conquistados os franceses teriam o da liberdade de chorar em público sem que ninguém tenha nada a ver com isto? Não sei. Mas achei bacana.

Eu choro pouco. Em geral quando algo terrível me acontece eu tendo a reagir analisando tudo, organizando, racionalizando, vendo todos os lados do problema para melhor enfrentá-lo. Mesmo quando tive medo de ter uma doença grave, eu fiquei obcecada pelo assunto, em pânico, mas não chorei. Hoje vejo que isto não é vantagem nenhuma pois quando algo me toca a ponto de me fazer chorar, esse choro me alivia e me dá uma sensação de conforto e relaxamento. Chorar é bom para quem chora e acho que, dependendo da causa, é uma homenagem ao objeto de nossas lágrimas. Chorar nos dá uma sensação de vida pois é uma manifestação do corpo, uma reação fisiológica. Significa que nossos olhos responderam ao sinal que lhe mandou o coração e a mente, lavando-se e, com isto, aliviando um pouco a nossa dor.

Grande aquisição da família foi José Benevides, marido da Lúcia, um chorão confesso e desavergonhado. Detrás daquela estampa de magnata americano bate um legítimo coração sertanejo. Sertanejo de Mombaça, terra do povo que mata e chora pelo morto. Benevides não mata ninguém mas se emociona fácil e as lágrimas lhe brotam grossas e generosas. Diante de histórias de superação, em batizados, casamentos e enterros, mesmo que não seja de gente próxima, o Benevides chora. É coisa de família, segundo ele me contou. O pai dele era um chorão, a irmã, Iramiza é outra e sua linda filha, Sellene, é herdeira dessa tradição familiar. Neste momento em que vivem uma história de perda tão dramática, recomendo ao Benevides e aos de sua família que têm a graça das lágrimas que as deixem correr livres, fartas e generosas. Chorem com liberdade, pois assim desafogam o coração e, com suas lágrimas, prestam a homenagem mais sincera à memória de seu ente querido.

E termino essa crônica do Dia da Pátria, o samba do grande Paulo Vanzolini, amigo do Pessoal do Ceará:

"Chorei, não procurei esconder,/ todos viram, fingiram/ pena de mim não precisava/ ali onde eu chorei/ qualquer um chorava/dar a volta por cima que eu dei, quero ver quem dava".

Achados e perdidos (1/9/12)

Perdi meu notebook. Foi em São Paulo. Eu cheguei cedo no aeroporto, peguei avião uma hora antes, desembarquei direitinho em Congonhas, peguei o taxi da cooperativa de Táxi Comum, cheguei em tempo hábil na Escola de Comunicação da USP, paguei o taxi, disse que não precisava de recibo, saltei, entrei no prédio, subi ao segundo andar, constatei que o encontro só começava às duas da tarde e ainda era uma hora, perguntei onde podia almoçar e foi só aí que me dei conta que estava sem a pequena mochila em que tinha guardado o notebook separadamente, para não correr o risco de perdê-lo caso perdesse a valise com as roupas.

Depois, durante os três dias do colóquio, aproveitei os intervalos entre as sessões de trabalho, para ligar para o aeroporto perguntando se o notebook tinha aparecido. Em vão. São 500 táxis e eles passam o tempo levando e trazendo gente. A bolsa estava no banco de trás, era preta e pode ter sido encontrada até por um dos tantos passageiros que pegaram aquele carro naquele dia. Nem adiantava fazer uma promessa "pra São Longuim: se eu achar dou três pulim" pois, como me disse Mario Bag, diante de tantas dificuldades, nem que eu fosse campeã olímpica de salto triplo, São Longuim conseguiria achar meu precioso notebook.

Perder coisas dá uma certa sensação de culpa. A gente fica se acusando e se sentindo completamente idiota. Como fui tão estúpida a ponto de me esquecer de pegar a bolsa que estava do meu lado e que continha a única coisa de valor que eu estava levando? Porque não botei dentro da malinha de mão e fiquei com uma bagagem só para me lembrar? Se eu tivesse pego o recibo do táxi teria encontrado, se eu tivesse viajado na hora que era para viajar talvez não tivesse esquecido da bolsa, se, se, se...

Quantas coisas já perdi pelas estradas da vida... De algumas delas me lembro até hoje. Uma pulseira de ouro, a única que tive na vida, que me foi dada por minha mãezinha, coisa fina, coisa rara, perdida durante alguma noitada no Estoril; uma caixinha de óculos prateada que comprei em um brechó de Berlim; um livro raríssimo, o "Contos do Vigário", de Mendes Fradique, publicado em 1923, também perdido em um táxi e que nunca mais consegui encontrar; uma fotografia única de meu pai muito jovem, quando era caixeiro das Casas Pernambucanas, junto com dois colegas. Eu a tinha guardado para tentar fazer a partir dela uma pintura como as que gostava de fazer antigamente e, em 1994, durante a mudança para o apartamento em que moro hoje, perdi. Ainda tenho esperanças. Quem sabe ela não está lá misturada entre tantas outras naquela feira de antiguidades da Praça XV? Ou, quem sabe se eu puser aqui um anúncio do tipo daqueles que se usava pôr nos jornais nos séculos passado e retrasado? "Quem tiver alguma foto de Francisco Ferreira da Costa, nascido em 1909, filho de Vitalina e Francisco do Bento, que entre os anos 1920 e 1930 foi caixeiro das Casas Pernambucanas, anuncie-se por esta folha." Quem sabe um colega dele da Fênix Caixeiral não tenha guardado fotos e seus herdeiros não queiram me dar? Não compensaria a perda daquela mas já me daria muita satisfação.

Mas os perdedores de coisas em táxis, aviões, ônibus e outros que tais podem achar consolo na história que Plínio Doyle me contou sobre seu rival, José Mindlin, tal como ele um obsessivo colecionador de livros raros. O maior sonho do Mindlin era possuir a primeira edição de "O Guarani", de José de Alencar. Em 1960 quando soube que o livro estava sendo leiloado em Londres encarregou um amigo inglês de dar lances até conseguir arrematar o objeto do desejo. Para desgosto do Mindlin, que era um homem rico, o inglês achou que 60 libras por uma brochura de livro com nome de índio brasileiro era demais e desistiu quando o preço alcançou essa cifra. Anos depois, o Mindlin soube que o livro estava sendo novamente leiloado em Paris e voou para lá. Dessa vez arrematou o bicho por US$ 4 mil dólares.

Algo assim tão intensamente desejado a gente imagina que seja imperdível, não é mesmo? Ou melhor, que depois de conseguir, a gente faz qualquer coisa para não perder, mete o bicho em uma pasta daquelas com fechadura de segredo e algema a pasta no braço para só se separar dela quando chegar diante de um cofre. Pois bem, não é que o Mindlin perdeu o livro no avião que o trazia de volta ao Brasil? Perdeu e só o recuperou porque a companhia aérea conseguiu achá-lo em Buenos Aires para onde o voo seguiu depois. De modo que, os perdedores de coisas não estão em tão má companhia assim.

Faltou dizer que, apesar desse desgosto, o colóquio, organizado por Marisa Midori, Márcia Abreu e Jean-Yves Mollier - parte de um dos tantos encontros relacionados com o projeto internacional "A circulação transatlântica dos impressos", coordenado por Márcia e Mollier - foi um sucesso. O Ceará esteve representado por esta que vos escreve, bem como por Andréa Borges Leão, da UFC e por Leonardo Mendes, cujo trabalho sobre a Padaria Espiritual despertou o mais vivo interesse.

Hoje, 1º de setembro, às 19 horas, depois desse agosto sombrio que já vai tarde, familiares, amigos e todas as pessoas que queriam bem a Felipe Melo, se reúnem no aterro da Praia de Iracema para uma última homenagem a esse menino iluminado que só deixou atrás de si lembranças felizes e, por isso mesmo, uma imensa saudade.

Luxo da aldeia (25/8/12)

Fazia muito tempo que não via Ednardo. Não sei mesmo se, quando cheguei no Rio de Janeiro, em 1977, nos vimos muito. Na verdade, naquele tempo, Ednardo já era famoso, creio que também como, ao contrário da maioria, já fosse casado, não era muito habitué da turma do Ceará que andava pelo Baixo Leblon e que tinha em Fausto Nilo sua figura central. Certamente, como toda a turma frequentava a praia no Posto Nove, em Ipanema, nos encontramos por lá. Também não estive na grande farra que foi o Massafeira, em Santa Teresa, a não ser uma vez, junto com Sérgio Pinheiro, e me demorei pouco, pois, apesar dos tantos amigos músicos que tinha, eu não era do meio - aquele encontro foi sobretudo deles - e quem não era se sentia um pouco intrusa se metendo lá. De modo que a imagem de Ednardo, para mim, era a do artista talentoso, bonito, elegante e discreto, um pouco triste, e que fazia um tremendo sucesso tendo mesmo emplacado algumas de suas músicas nas trilhas de novelas da Globo. 

Mas Ednardo era também o artista cearense preferido de meus colegas da faculdade de Ciências Sociais da UFRJ, que adoravam a sonoridade de sua música e a grande beleza que havia nos versos de suas composições. Era o que tinha o maior numero de canções conhecidas, daquelas que a gente sabe cantar por inteiro. Por isso tem um gostinho especial para os que, no final dos anos 1970 andavam pelos vinte anos e amavam as musicas do Ednardo, ver agora o entusiasmo que ela desperta na juventude de hoje em dia. Basta dizer que o bloco mais querido da rapaziada de Fortaleza chama-se Luxo da Aldeia, por causa da letra de "Terral", que começa dizendo "eu venho das dunas brancas" para terminar com a formidável sequencia: "eu tenho a mão que aperreia/eu tenho o sol e areia/eu sou da América/sou da América/ Shouth América/eu sou a nata do lixo/ eu sou do luxo da aldeia/ eu sou do Ceará".

Voltei a encontrar Ednardo esta semana, depois de muitos anos sem vê-lo. Foi durante o belíssimo show de Mona Gadelha no "Seis e Meia", da Sala Funarte, no centro do Rio. O show em si, último trabalho dessa cantora tão especial, tão inteligente e culta, é uma viagem pela memória musical afetiva dos que viveram aquele momento em que o Ceará entrou no mapa da MPB através do seu Pessoal. Se o ápice da apresentação de Mona é com "Retrato Marrom", do Fausto Nilo e do Rodger Rogério, o show se anima ainda mais com a entrada do Ednardo, em um pot-pourri de algumas de suas canções que incluem, entre outras, "Terral" e "Longarinas".

A gente nem sempre lembra de quem é uma música da qual gosta muito e costuma cantarolar. Assim é "Longarinas" que diz: "Faz muito tempo/ Que eu não vejo/O verde daquele mar quebrar/Nas longarinas da ponte velha/Que ainda não caiu". Essa canção também tem construções preciosas do tipo: "Uma a uma, as coisas vão sumindo/ Uma a uma, se desmilinguindo". Mais adiante a imagem da Fortaleza moderna chocando-se com o bucolismo das noites de luar: "E a lua viu desconfiada/A noiva do Sol com mais/Um supermercado".

Também foi bom ouvir de novo na voz do autor, "Ingazeiras": "Nasci pela Ingazeiras/ Criado no oco do mundo...". O show era curtinho e contemplava músicas de outros autores de modo que ficaram de fora as mais conhecidas como "Pavão Misterioso", "Berro" ("do boi só se perde o berro...") e "Cavalo Ferro". Houve na plateia quem lembrasse também daquela música que fala de Barbara de Alencar e seu aprisionamento na Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção, berço da cidade e que está situada ali do lado do Passeio Público que dá nome a essa canção.

Eu fiquei com pena que não cantassem uma canção que, por acaso relembrei há pouco tempo: "Beira-mar". Alguém postou no Facebook uma imagem da Praia de Iracema e incluiu o verso: "Na Beira-Mar, entre luzes que lhe escondem/ Só sorrisos me respondem/Que eu me perco de você...". Aí me dei conta da beleza melancólica dessa primeira estrofe. Na verdade, creio eu, a imagem está muito mais associada àquela Beira-Mar do bar do Anísio, da agitação boemia que havia naquele trecho do que com a paisagem praieira. Era naquela beira-mar que se desenrolavam alguns dramas sentimentais, encontros e desencontros como o que sugere a música. Bonita toda a vida é também "Ausência", até pelo movimento que letra e música fazem juntas ao enunciar: "Tu lembras, a rua estreita estrada tão antiga,/ e eu mostrava a ti uma cantiga/ Uma cantiga antiga do lugar". Lugar que volta no final da canção, de poucos e bons versos que termina dizendo: "Sorrias e a tua voz estranha estrada antiga, perdeu-se ao longe na partida/E não ficou ninguém no seu lugar..."

Foi bom ver a figura bonita de Ednardo, magro e delicado em sua bata branca, como um monge oriental, com seus longos cabelos grisalhos e sua boina. Foi bom ver a emoção dele e o carinho paternal que demonstrou por Mona Gadelha e por Fernando Moura, músico e arranjador do show, confessando que os conhecera ambos com 17 anos e que tinha responsabilidade direta pela carreira dos dois que estimulara desde o começo. Bom também porque, quem foi público no tempo em que aquelas musicas todas, aquele verdadeiro patrimônio cultural, foram gestadas, quem partilhou da emoção de ver em Fortaleza os shows do Pessoal do Ceará, se sente orgulhoso também de ter feito parte daquele momento tão especial de nossa história.

Enfim, "recordar é viver" e cantar é a melhor forma de recordar e reviver momentos felizes. Essa alegria foi ampliada pelo gosto de ir - como a gente costumava fazer no tempo do Baixo Leblon - dividir com os artistas, depois do show, mesa em bar da Lapa, regada a muitos chopes e embalada por velhas e divertidas histórias.

Perdas e danos (18/8/12)

Quando se procura na memória canções que expressem uma dor emocional indescritível tudo que emerge é música de dor-de-cotovelo. E, no meu repertório afetivo a maior parte é de músicas do Chico Buarque. Afinal tem coisa que diga mais da sensação do sofrimento da perda do que a frase: "é inútil dormir que a dor não passa"? Na verdade essa frase não fazer parte do repertório buarqueano das canções dor-de-cotovelo e sim do jogo de paradoxos que compõe a ótima letra de "Bom conselho".

Das músicas do Chico a que melhor apresenta a dor da perda é "Pedaço mim". Nesta bela criação poética cada verso descreve um tipo de sofrimento causado pela separação, através de imagens de enorme força expressiva. A frase que abre cada uma das quatro estrofes, depois de "Oh, pedaço de mim", relaciona o sentimento de perda da pessoa amada com a perda de uma parte do próprio corpo. No primeiro verso é: "metade exilada de mim". No segundo: "metade arrancada de mim"; no terceiro: "metade amputada de mim". O último: "metade adorada de mim", dimensiona a importância daquela metade perdida e o vazio que sua desaparição deixou em seu lugar. Essa relação trágica entre a perda da pessoa que se ama com a perda de parte do próprio corpo é tremenda. Tenho um amigo que perdeu de forma repentina a mulher que amava e com a qual estava casado há muitos anos que descreveu sua sensação como a de quem tivesse tido o braço amputado.

Voltando à música do Chico. Cada um dos versos intermediários, que seguem o refrão "ó pedaço de mim", pintam a perda com uma imagem diferente. O primeiro diz: "a saudade dói como um barco/ Que aos poucos descreve um arco/E evita atracar no cais". O barco que a gente avista ao longe, se aproximando do porto, enchendo nosso coração de expectativas boas, antecipando o prazer do próximo encontro e que, ao invés de rumar na nossa direção, faz a curva e vai se afastando. É a imagem viva da frustração de algo que era liquido e certo - a chegada da pessoa amada - e que não se realizando, vai, a medida em que o barco se afasta, enchendo o coração de agonia e tristeza.

O verso mais forte e mais difícil é que o descreve a saudade como "o revés de um parto". O verso se completa com essa imagem da dor absoluta: "A saudade é arrumar o quarto/ Do filho que já morreu." E não há nada que possa se comparar a isto em termo de perda. Não há esperança nenhuma nessa saudade. Não há nada mais sofrido do que a perda de um filho e a dor que se experimenta no contato com as pequenas lembranças, seus objetos, suas roupas, seus livros e brinquedos é indescritível. A alma mergulhada nas trevas, na mais negra melancolia.

O penúltimo verso remete àquela sensação descrita pelos que tiveram membros amputados e que, ainda assim sentem dor naquele local: "Que a saudade dói latejada/É assim como uma fisgada/ No membro que já perdi". E o último associa claramente a saudade à morte: "a saudade é o pior castigo/E eu não quero levar comigo/ A mortalha do amor/ Adeus."

Perder alguém que se ama, alguém a quem tínhamos tanto ainda a dizer, é algo que consome a alma na angústia da culpa e da incerteza. É algo que mina os sentidos e mesmo a fé na vida e na justiça divina. Que sentido tem a vida se alguém que ainda tinha tanto para viver, desaparece? Para que seguir vivendo se não teremos mais a companhia da pessoa amada, sua presença, os tantos projetos que traçamos juntos?

Existe um livro que se chama: "Quando coisas ruins acontecem com pessoas boas" . Ele foi escrito por um rabino, Harold S. Kusher que perdeu um filho pequeno por causa de uma doença. Seu objetivo é "ajudar outras pessoas que acaso algum dia se encontrassem em situação semelhante". Neste sentido o autor produz uma reflexão sobre como sua relação com Deus e sua noção do poder divino foi alterada depois de sua perda. Ele compreendeu que menos do que evitar catástrofes, doenças e outras fatalidades, o que Deus proporciona aos em que nele acreditam é o conforto, a força para seguir em frente.

Resenha escrita por de Rubens Garavello Machado, disponível na internet, resume a estrutura do livro e sua mensagem principal. Ela seria uma revisão da crença na onipotência de Deus e a compreensão de que coisas ruins acontecem independentemente da vontade divina. Mesmo os que buscam em algo que fizeram no passado, pecados ou omissões para os quais sua desgraça seria a punição merecida cometem injustiça pois atribuem a Deus uma qualidade de juiz implacável sempre disposto a castigar o pecador.

Na visão do rabino, não seriam os atos de Deus que causariam dor e sofrimento ao homem, e sim as leis da natureza que não abrem exceções para os bons. "A dor é o preço que pagamos por estarmos vivos". Indaga, finalmente, o autor: "Será que conseguimos aceitar o fato de que esta vida é imperfeita?".

Nestes dias que venho acompanhando de perto o drama de uma família jovem e feliz que foi atingida por uma fatalidade, tenho tomado contato também com manifestações profundas de fé e de religiosidade. Lendo a resenha de Rubens Garavello reconheci na passagem em que ele fala sobre o papel da oração algo que espelha o que vejo acontecer entre os que se uniram por conta dessa tragédia. Com suas palavras encerro este artigo:

"O que a oração pode fazer e faz, é nos colocar em contato com as outras pessoas, pessoas que partilham dos mesmos interesses e valores que nós. A oração faz com que não nos sintamos sós. A oração também é uma grande oportunidade de nós colocar em contato com Deus. Devemos rezar não por milagres mas por coragem, por fortaleza para suportar o insuportável".

À espera de um milagre (11/8/12)

Um véu de profunda tristeza baixou sobre nossa família. Meu sobrinho-neto, o Felipe Melo, filho de Célio e de Evelúcia, neto de Lúcia e Benevides, gente nossa, gente de dentro de casa, gente que vi crescer, desapareceu nas águas geladas da Nova Zelândia. Único bisneto que aniversaria no mesmo dia de mamãe, sua bisavó, 11 de junho, o Felipe sempre me pareceu um garoto muito interessante. Seu porte altivo, sua pele pálida, com um olhar que as pálpebras semi-serradas e os longos cílios tornam aveludado, o rosto emoldurado por cabelos encaracolados lhe dão, a meu ver, um ar que mistura um pouco de príncipe e um pouco de anjo.

Acompanhei seu crescimento de longe, nas periódicas festas familiares e sempre me intrigou sua atitude um tanto reservada e sua fisionomia serena, sem muitos sorrisos. Só depois, nesses tempos de redes sociais em que se tornou possível a uma tia-avó ser amiga de um sobrinho-neto quarenta anos mais novo, é que descobri o cara engraçado que ele é. Também foi graças ao YouTube que descobri que ele herdara da família paterna o talento para a música. Vi um vídeo dele acompanhando ao violão a avó, mãe do Célio que cantava. E era tão delicada a maneira divertida com que ele fazia a avó cantar, era tão discreto e elegante o seu carinho de neto que me comoveu. Nesses dias de espera angustiosa, outros tantos vídeos dele cantando acompanhado de seu violão têm sido postados. O mais bonito é o em que ele aparece ao lado de uma linda garota cantando "Home", quando se preparava para voltar para casa depois da temporada feliz na Nova Zelândia.

Pois o Felipe se divertiu à pampa na Nova Zelândia, o Felipe foi felicíssimo lá e as imagens dele no Facebook mostram como essa viagem o tornara ainda mais interessante do que ele era antes de partir. Deixou de ser menino e ficou um rapaz forte, alegre, todo sorrisos e todo beijos e abraços para as belas amiguinhas que fez no intercambio. Quanta coisa ele aprendeu por lá, quantos amigos fez, quantas alegrias sentiu.

Aliás, o Felipe foi sempre feliz. É filho de pais jovens, inteligentes e bons que criaram suas três crianças com sabedoria, amor e dedicação. Sua linda mãe, tão gentil, tão amável e generosa cultivou os filhos com os cuidados que um jardineiro cultiva a mais linda roseira: regando, adubando, podando aqui e ali, sem maltratar, pois, psicóloga que é sabe que são árvores delicadas as crianças. Nunca a vimos gritar ou repreender seus filhos em público e, no entanto, sempre que os víamos, estavam melhores, bem educados, bem sucedidos nos estudos, tranqüilos e felizes. O clima de carinho, amizade e compreensão que liga pais e filhos nessa pequena e feliz família é algo que nunca vi de forma tão harmonicamente equilibrada.

Harmonia que se completa pela ligação estreita que existe entre o Célio e o Benevides e entre a Evelúcia e a Lúcia. Sogro e genro se dão perfeitamente bem, se tratam com camaradagem e bom humor. Mãe e filha são parceiras de todos os momentos, amigas que promovem juntas uma série de atividades sociais, culturais e religiosas. Uma dupla tão perfeitamente sintonizada que até faz aniversário no mesmo dia. Por isso os filhos da Evelucia cresceram tão agarrados aos avós, tão próximos deles que chamam a Lúcia de "mamainha". Lembro da enorme aflição do Zé Benevides uma vez em que, durante um passeio no sitio que ele tem na Caponga, o Felipe, pequeno ainda, caiu do cavalo.

Neste momento de expectativa e de incerteza, seus pais corajosos e unidos, cercados por uma multidão de amigos e familiares, se seguram pela força da fé e da oração. Os que têm fé nunca perdem a esperança. Confiam, oram e aguardam. Os pais e avós de Felipe são católicos praticantes e entregaram o destino dele nas mãos de Deus. Querem muito que ele volte. Querem muito tê-lo outra vez a seu lado. Por isso confiam e esperam. E quem está perto deles confia e espera junto.

Eu também espero, sonhando com historias extraordinárias. Imagino-o sendo recolhido em uma praia selvagem por nativos de um povo que ainda não foi descoberto. Imagino que o curandeiro o levou para sua cabana, o envolveu em grossas cobertas de pele de cabra e deu-lhe a beber uma mistura de ervas milagrosas em quente infusão para aquecê-lo por dentro. Imagino que ele esteja lá ainda inconsciente, com febre e delirando. Que quando acordar não se lembrará logo quem é, nem de onde veio. Imagino que a filha do pajé, uma linda nativa que dele cuidou dia e noite, por ele se apaixonará. Que ao acordar e vê-la ao seu lado ele também se apaixonará por ela. Que ele se tornará o chefe desse povo e quando finalmente o encontrarem é que ele se lembrará de tudo e voltará para casa.

Além dessa pequena fantasia literária que se inspira em tantas histórias de desaparecidos que reapareceram milagrosamente, eu acho que seria muito injusto que alguém que tem tantas qualidades não pudesse realizá-las plenamente. Que não pudesse desenvolver em sua plenitude essas e outras virtudes que ainda estavam por desabrochar. Por isso espero que forças milagrosas se unam para confortar pais, avós, irmãos, tios, primos e amigos desse menino querido que a mãe - repararam que só as mães chamam os filhos pelos dois prenomes? - chama de João Felipe.

Sobral do meu tempo (4/8/12)

Essa investigação é de interesse geral, para que se possa projetar que modelo de sociedade, que classes políticas, que comportamentos sociais, que cultura, enfim, se instalou na região, tendo Sobral como força centralizadora - Lustosa da Costa, maio de 1973. Nasci em Sobral, mas só morei lá até os três meses de idade. Naquele ano de 1955 morreu meu avô, que morava na Messejana, e meu pai se transferiu de Sobral para Fortaleza com toda a filharada para dar mais apoio à mãe viúva. No entanto, a lembrança de Sobral esteve sempre presente pois meu pai parece ter sido muito feliz durante o tempo que morou lá. Foram 13 anos durante os quais muitos filhos nasceram, um morreu e o mais velho completou sua formação.

Não é por acaso que, apesar de quase todos termos Sobral como lugar de nascimento, foi justamente o Lustosa, que ali chegou em 1942, com quatro anos de idade, quem construiu sua história de vida tendo Sobral como ponto de referência. Referência que ele recupera em seus escritos desde 1968. Pelo menos é o que se depreende da leitura de "Sobral de meu tempo", seu primeiro livro, publicado há 30 anos, e que está para ser aparecer em nova edição. Reunião de artigos publicados de forma esparsa ao longo de 14 anos, "Sobral do meu tempo" é a primeira expressão de uma obra literária que teria, quase sempre, aquela cidade como fonte de inspiração.

A descoberta de Sobral como um lugar de memória, rico de possibilidades, parece ter se imposto aos poucos na vida do autor. Testemunha ocular de algumas das histórias que narra, tendo convivido com muitos dos personagens que descreve em seus livros, Lustosa precisou se afastar de Sobral para perceber a riqueza do universo simbólico em que tinha passado a infância e a adolescência. Foi preciso viver em Fortaleza, no Rio de Janeiro e em Brasília para perceber a peculiaridade desse lugar, objeto de vasto anedotário cuja tônica é a enorme presunção de suas elites.

O elenco é encabeçado pelo bispo-conde, D. José Tupinambá da Frota, "herdeiro de grande fortuna, construtor de escolas, fundador de museus, aristocrata e ultra-montano que se gabara, até a véspera de sua morte, de não haver um só protestante em sua Diocese". Deve-se, em grande parte, aos esforços de D. José a conservação de Sobral como um lugar que, apesar de ter perdido sua proeminência econômica, continuava a ter grande prestígio e força política.

Quanto mais o autor remexe o baú da memória mais saltam dele histórias e personagens originais, densos, ricos e divertidos: o duelo em praça pública de Chico Monte com o tenente Castelo Branco; o massacre do jornalista Deolindo Barreto em plena câmera dos vereadores; a eterna rivalidade entre D. José e o aristocrático desembargador José Sabóia; a inacreditável trajetória do padre playboy José Palhano, que cortava as ruas de Sobral pilotando sua lambreta. Tudo isto temperado pela mistura de política com religião, em um momento em que a Igreja Católica intensificava uma militância que tivera início nos anos 1920 e que ia ganhar novo ingrediente com a Guerra Fria. A palavra "comunista" como um anátema definitivo a condenar o adversário ao fogo dos infernos e à desafeição do eleitorado foi francamente usada por D. José contra seus adversários políticos.

Como em toda obra autobiográfica, as páginas de "Sobral de meu tempo" revelam também o menino que, "cabeçudo como um anão de Velásquez", ao amanhecer, montava em um velho e entediado cavalo e rumava para a escola. O mesmo menino ao qual o pai deu uma caderneta onde registrou um "termo de abertura" em que dizia: "Este livro, que contém 50 folhas devidamente numeradas, servirá para o assentamento diário de todas as ocorrências da vida, ainda incipiente, do meu primogênito Francisco José Lustosa da Costa, para o qual invoco, no dia de hoje, a proteção do grande taumaturgo São Francisco de Assis. Sobral, 04 de outubro de 1947. Francisco Ferreira da Costa".

Menino que daria seguimento à vocação de repórter evidenciada aos nove anos, quando registrava nessa mesma caderneta os principais episódios da vida da cidade, iniciando-se ainda adolescente na imprensa de Sobral. Rapazinho que teve a pretensão de escrever para um grande jornal em Fortaleza perguntando quanto lhe pagariam pelos seus escritos. Moço que, ainda em Sobral, teve despertada uma vocação sociológica, infelizmente não realizada, a partir da leitura de "Os Sertões", de Euclides da Cunha, e de "Casa grande e senzala", de Gilberto Freire.

Neste livro recheado de imagens, anotações, recortes de jornal, a narrativa flui de forma agradável, embalada pelo belo estilo do autor. À descrição da paisagem, dos ambientes e do contexto, somam-se a riqueza dos personagens e de suas histórias compondo a sinfonia desta, a um só tempo, aristocrática e rústica metrópole sertaneja.

Aqui também encontramos o sociólogo e o historiador que os tantos afazeres não permitiram se completar. Ele se revela no inconformismo com que o autor questiona a história que se esconde por trás das singularidades da sua cidade. Porque Sobral era assim? Seria porque a riqueza de suas elites se originara na pecuária? Desde quando se estabeleceu que um lado da praça era dos ricos e outro dos pobres? Qual o lugar do negro naquela sociedade? Se não dá respostas às questões que apresenta, o jornalista as oferece como provocação ao pesquisador, sugerindo caminhos, abrindo veredas em artigos onde vai buscar notícias históricas sobre as origens de Sobral. Livro semeador que abriu a trilha para outras obras de Lustosa da Costa que se lhe seguiram, "Sobral do meu tempo" também contribuiu para renovar entre os sobralenses de hoje em dia o orgulho de sua história e de seu rico patrimônio cultural.

Pequenas ambições (28/7/12)

Temos um amigo a que apelidamos de "Casebre". Eu não que não sou boa de botar apelido nos outros. Mário Bag, que é um verdadeiro craque nessa matéria, chama assim a um companheiro de profissão que tem mania de se desvalorizar. Conversando com ele sobre questões de trabalho, listou seu nome ao lado de outros colegas de talento, ao que o "casebre" redarguiu: eu não, vocês é que são verdadeiros Mike Tysons do desenho, eu só apenas um rabiscador. O assunto mudou para casa de campo.

Mário Bag que tinha então um pequeno sítio em Paty do Alferes, ouvindo o amigo falar que tinha passado o final de semana na serra, perguntou se ele também tinha casa por lá. Ao que o outro respondeu: casa? Quem tem casa na serra é você, rapaz, o que eu tenho é um casebre. Bom, diante disto, o Bag preferiu não perguntar se o sujeito tinha viajado com a mulher com medo do outro dizer: mulher? Mulher quem tem é você, aquilo que eu tenho lá em casa é uma capivara.

Enfim, o "Casebre", como o chamamos, apesar dessa exagerada modéstia é muito cioso de seus direitos e cheio de restrições aos colegas mais bem sucedidos. Sua atitude humilde esconde um profundo ressentimento expresso na maneira em que se refere à "casa com piscina" onde um fulano morava e que só podia ser fruto de muita roubalheira quando o tal fulano ocupou um cargo público. Engraçado essa expressão "casa com piscina" usada ainda hoje para dizer que alguém é rico quando a gente sabe que isto pode ser tanto uma mansão na barra da Tijuca, quanto uma modesta casa de subúrbio, com piscina de plástico no quintal.

O fato é que o sujeito que se refere a si mesmo como "um nada" está é esperando ouvir do outro lado a negação dessa afirmativa. E, mesmo que não esteja, exercita um pouco o seu lado Tartufo. Pois, como li em algum lugar, creio que em Thomas Mann, a modéstia é uma forma de hipocrisia.

Mas há outra modalidade de atitude diante da vida que não se traduz necessariamente em palavras mas que é a realização desse ideal. O sujeito que se contenta com pouco, o sujeito que acha que assim está bom, de qualquer jeito serve, tanto faz. Não se importa de morar em um lugar feio, encardido e sem encantos. Tanto faz. Não se importa de se vestir sem qualquer distinção. Pois tanto faz. Nem liga de andar com pessoas que possam lhe acrescentar algo mais ou lhe deixar com algo menos. Who cares?

O trabalho? Tanto faz, desde que não lhe encham o saco. Tanto faz ser um cientista bem sucedido quanto um obscuro vendedor atrás do balcão de uma farmácia em cidade do interior. Tem inteligência e talento, podia fazer uma bela carreira mas, prá que? Tanto faz.

O pouco lhe basta. Um teto, um prato de comida, um chinelo e um violão é o que é preciso para ser feliz. De fato, aos vinte anos, a gente é feliz até com menos que isto. Devia bastar e devia ser suficiente. Mas não é. Pois na verdade quem estabelece como marco o pouco acaba com menos ainda.

Não é fácil conquistar seu espaço no mundo do trabalho, fazer uma carreira, comprar uma casa, adquirir um padrão de conforto razoável. Quem já nasceu com essas coisas pensa que é. Relaxa e acha muito estressante a preocupação dos pais com bens materiais. Coisa de gente menor, sem grandeza. Não sabe que aquele padrão de vida que os pais lhe proporcionavam foi o resultado de uma vida de trabalho que começou na juventude deles. Poderiam ter relaxado e se deixado ficar no mesmo lugar em que começaram. Teriam chegado ali, na maturidade, com os filhos crescidos, sem condições de lhes dar uma educação de qualidade que lhes possibilitasse manter pelo menos o padrão em que foram criados.

Uma carreira bem sucedida depende de muito investimento e de investimento feito a longo prazo. São os estudos na faculdade garantindo o ingresso no mestrado; é a dedicação sistemática a um projeto sério permitindo seguir pelo doutorado e, finalmente, depois da defesa da tese, a entrada na carreira. São etapas que se precisa vencer e que, pouco a pouco, vão garantindo a melhora no padrão de vida. Vale para quem faz carreira acadêmica e vale também para quem ingressa no serviço público ou em uma empresa.

A ambição é qualidade no mundo do trabalho. Não a ambição cega e criminosa, mas o desejo de realizar suas melhores qualidades, a vontade de brilhar, de se destacar, de fazer bonito. Não é defeito nem pecado, ao contrário, é algo que estimula quem está em volta, que desperta nos colegas e nos chefes o desejo de se elevar ao mesmo padrão que seu esforço e sua competência acabaram por estabelecer em seu ambiente de trabalho.

A vontade de ter uma bela e confortável casa, de ver seus filhos educados nas melhores escolas; o desejo de viajar, de ir ao teatro, a um bom restaurante, ter belas roupas e um bom carro não estão inscritos no índex dos pecados mortais. Ao contrário, esses desejos servem de impulso para estudar mais, para trabalhar melhor, para seguir em frente. São desejos assim que movem o mundo.

Evidentemente que ter apenas esses desejos não dá grandeza a ninguém. A grandeza vem de associá-los a um trabalho digno, feito com gosto e com vontade. A realização decorre de seguir uma profissão que nos realize tanto profissionalmente quanto espiritualmente. Ao longo da carreira, vamos descobrindo os caminhos e os atalhos que nos levam a este fim. Com bom senso, sem imaginar que, necessariamente, vai-se ser um Einstein, mas apenas que estamos fazendo o que sabemos, com interesse e dedicação. Sem nunca perder de vista a realidade material, o retorno que terá para garantir uma vida digna e confortável para você mesmo e para sua família. Pois isto também é uma forma de realização. Talvez a mais bonita.

Vivendo e curtindo com pouco (21/7/12)

Uma coisa que aprendi quando fui morar no Rio foi a fazer o orçamento detalhado das minhas despesas. É que o dinheiro era curto e para que durasse até o final do mês era preciso saber exatamente em que estava gastando. Não adiantava simplesmente estabelecer que ia gastar tanto com transporte, tanto com alimentação, tanto com aluguel e tanto com lazer.

Era preciso ser minuciosa. Fazer quase um diário das despesas. Por exemplo: no dia X peguei cinco ônibus a tantos cruzeiros (isto foi no século passado quando a moeda brasileira era o cruzeiro, imagine!); tomo meio litro de leite por dia, logo tenho que comprar quatro litros por semana; hoje vou sair e reservo alguma coisa para tomar um chope (só um)....

Vantagem de quem mora em uma cidade de praia é que o lazer é gratuito. Fora a passagem de ônibus, o resto é grátis: o mar, a areia, o sol e os tantos amigos, conhecidos e desconhecidos, que se encontra por lá, garantem a diversão do final de semana com pouco dinheiro. E você ainda pode levar seus sanduíches e seu suco de casa.

Outra coisa que a gente aprende quando tem que viver com o dinheiro contado e controlando os próprios gastos é a ser menos desprendido com as coisas materiais do que éramos quando vivíamos às custas de nossos pais. Aquele colega que chega na tua casa e vai direto na geladeira come teu pão, tua manteiga, tua mortadela e ainda bebe teu refrigerante se torna o tipo da visita indesejável. Eu que achava minha mãe tão mesquinha quando eu chegava com várias amigas para lanchar e ela reclamava, me tornei uma verdadeira guardiã da minha geladeira contra esses invasores.

Por isso achei muito engraçado relendo "La peau de chagrin", de Balzac, ver o protagonista explicar a um amigo como fazia para viver com o modestíssimo legado que recebera do pai. Determinado a escrever uma grande obra de pensamento (Balzac cria toda uma trama em torno da tal obra mas não diz do que ela trataria) Raphael de Valentin escolhe um lugar modesto para viver e se organiza.

Animado com a perspectiva de se dedicar exclusivamente à sua obra, de viver durante três anos mergulhado no mundo dos livros e ideias, ele imaginava que, como as crisálidas, sairia daquele casulo em que ia se meter diretamente para um renascimento brilhante e glorioso.

Assim, ao reduzir a vida às suas necessidades básicas, nosso herói, apresenta ao amigo seu orçamento. O que gastava diariamente com pão, leite e carne; querosene da lâmpada para a noite; carvão para o aquecimento no inverno; o que pagava para lavar a roupa; além do preço diário do aluguel de seu modesto quarto de pensão.

Suas roupas e sapatos eram compradas e usados com o máximo de economia para durarem o maior tempo possível. Ele não comprava água mas ia todas as manhãs, junto com as lavadeiras e donas de casa, se abastecer na fonte Saint Michel. Ele ainda tinha que guardar alguma coisa para as despesas imprevistas e torcer para não ficar doente pois teria mesmo que recorrer aos hospitais de caridade.

Tudo ia muito bem para o nosso amigo até ele encontrar o diabo tentador na figura de Rastignac. Diante da descrição do sistema e do projeto de vida de Raphael, este último riu e começou a narrar o que seria o destino de nosso herói: a morte em um hospital de caridade, desconhecido de tudo e de todos; um funeral melancólico e o sepultamente na vala comum destinada aos pobres. Você trabalha? Rastagnac perguntou a Raphael, para concluir em seguida: você nunca vai ser nada na vida. Veja o meu exemplo: je suis propre à tout et bon à rien (eu sou próprio para tudo e bom para nada). "Preguiçoso como uma lagosta, eu, no entanto, sei me impor, me espalho e ocupo meu lugar. Eu me gabo e eles acreditam. Eu me endivido e eles pagam."

Que Raphael acabaria por se convencer do que lhe dissera Rastignac, o leitor já sabia, pois algumas páginas antes ele já revelara com amargura a consciência de que o sucesso e a glória não eram para os homens superiores que gastavam a juventude estudando. Pois, pelo contrário, "deve ser leve a bagagem daquele que persegue a fortuna". Enquanto o sábio se fecha em seu gabinete com seus livros, os intrigantes, ricos de palavras e desprovidos de ideias, vão e vêm, surpreendendo os tolos e conquistando a confiança dos medíocres. Os sábios estudam, os outros agem; aqueles são modestos, os outros são audaciosos; o homem de gênio cala seu orgulho; os intrigantes arvoram o seu.

É verdade e vale tanto para o tempo de Balzac quanto para o nosso. Mas, e daí? O próprio herói também nos fala do quando o estudo faz bem. O estudo, diz ele, é tão maternalmente bom que fica parecendo um crime pedir a ele outras recompensas além das puras alegrias com que ele nos alimenta. E isto também é verdade quando pensamos no quanto, ainda hoje, os verdadeiros intelectuais, aqueles que estão em suas universidades e centros de pesquisas realizando trabalhos que não vão lhes dar a glória nem os ganhos de um best-seller, têm dificuldade de lidar com fama e dinheiro.

Não são maus, nem um nem outra. Nem são pecados que devem ser punidos com a demolição da obra dos que, por um motivo ou por outro, apesar de suas reais qualidades, caíram no gosto do grande público. Nem tanto ao mar nem tanto à terra: nem a academia pode execrar os que aliam um pensamento verdadeiramente original com objetividade, clareza e estilo, nem os que acreditam em listas de mais vendidos, podem desconhecer o valor de obras que se destinam a um público diminuto mas cujo impacto sobre aquele ramo do conhecimento só se fará sentir no médio e o no longo prazo.

De qualquer maneira nosso assunto começou com a economia que deve orientar a vida material no começo da idade adulta e caiu em outro terreno que diz respeito também à uma certa economia: à economia da vontade de sucesso e dos meios para obtê-lo. Aí, acho que o velho Balzac, mais uma vez, acertou na pinta.