Quando partimos no verdor dos anos,/ Da vida pela estrada florescente,/ As esperanças vão conosco à frente,/ E vão ficando atrás os desenganos./Rindo e cantando, célebres, ufanos,/Vamos marchando descuidosamente;/Eis que chega a velhice, de repente,/Desfazendo ilusões, matando enganos./ Então, nós enxergamos claramente/Como a existência é rápida e falaz,/E vemos que sucede, exatamente,/O contrário dos tempos de rapaz:/os desenganos vão conosco à frente,/E as esperanças vão ficando atrás!
Não sei porque, desde a primeira vez que li esses versos do Padre Antonio Tomaz me encantei por eles. Foi no quinto ano do primário, eu acho, pois a poesia está entre as da "Nova Seleta", livro adotado no Colégio das Dorotéias para o curso de português. A ideia da velhice como algo implacável, lugar do desengano e da desesperança era algo fascinante, próximo da ficção, momento da vida ao qual se ansiava chegar logo para conhecer o que era essa coisa tão diversa da suposta tediosa infância. Melhor dizendo do que hoje chamam de pré-adolescência.
Naquela fase da minha vida, eu me achava velhíssima. Não sei se é porque usava óculos. Tenho uma foto junto com o Fred, que é apenas ano e meio mais novo que eu, em que ele parece um menininho e eu a tia dele. E, no entanto, eu devia ter uns 13 anos. Para agravar o meu envelhecimento precoce, a Clélia, que é dois anos mais velha que eu, sempre pareceu muito mais nova. Um amigo aqui do Rio, vendo uma foto de nós duas juntas - éramos muito parecidas - perguntou: aqui é você e você mais nova? Como a gente, na juventude sofre por besteiras que parecem inacreditáveis quando amadurecemos, eu sofria muito por achar que parecia muito mais velha do que os namorados que tive na adolescência.
Lembro que ainda na faculdade eu pensava no que estaria fazendo quando chegasse o ano 2000. Seria então uma velha de quase cinquenta anos. Talvez já tivesse até morrido. No entanto, cheguei aqui, não só eu mas muitos outros daqueles que estudaram nas páginas da "Nova Seleta" e, felizmente, a poesia do padre Antonio Tomaz ainda parece algo relacionado com uma experiência que ainda não vivi.
É verdade que a velhice passou a ser algo bem relativo em um tempo em que Jane Fonda é uma mulher de mais de 70 anos e continua batendo um bolão; em que Suzana Vieira aparece nas capas das revistas com uma pele de um viço de fazer inveja a muita garotinha e um sorriso capaz de cativar ainda rapazes de vinte anos; em que Tina Turner continua a ser o par de pernas mais bonitos do show business. É verdade também que nesses casos há um esforço no sentido de parecer mais jovem: dietas, exercícios e umas tantas plásticas, além de outros avanços da medicina estética ajudam a manter e até a melhorar muito a forma original.
Na contramão desse desejo de ser "forever young", muitas mulheres tem abdicado da tintura e optado por deixar os cabelos naturalmente brancos. Algumas ficam realmente maravilhosas com as mechas grisalhas ou mesmo com a cabeleira totalmente alva, adotando um corte estiloso como aquele da Meryl Streep em o "Diabo veste Prada". Questão de atitude, de estilo e de composição, pois quando se trata de uma mulher charmosa, elegante, de rosto harmonioso, o cabelo branco ou grisalho pode fazer composição das mais atraentes. No entanto, nem para todo o mundo é assim. E, sem dúvida, a meu ver, para qualquer uma, envelhece.
Duas colegas minhas adotaram o cabelo sem tintura muito antes da moda. Uma delas, da minha idade, tem um jeito mais largadão, meio riponga, a outra, um estilo mais convencional. Em ambas, quando mais jovens, os cabelos brancos envelheciam mas, a juventude da fisionomia, quando vista de perto, estabelecia um certo equilíbrio. Foi com a passagem dos cinquenta que o cabelo branco passou a fazer parte de um conjunto que dava a impressão de muito mais idade do que a real. Foi quando, passaram a lhe dar lugar na fila dos idosos, ou a oferecer o lugar no ônibus que elas começaram a se preocupar e adotaram um leve tom alourado para disfarçar os cabelos brancos.
Para os homens, no entanto, o problema é outro. Homem grisalho, em geral, sempre foi considerado charmoso. De cabeleira totalmente branca nem tanto. Agora, homem de cabelo pintado, se não for algo muito, mas muito bem feito, não tem como, todo mundo nota. Talvez porque nas mulheres um certo artifício é normal, neles fica algo de esquisito. Como nas fotos de alguns políticos que a gente vê nos jornais em que o cabelo pintado - acaju ou negro como a asa da graúna - é a primeira coisa que chama a atenção. Creio que os políticos pintam o cabelo para parecerem aos eleitores mais jovens do que realmente são. E a tintura associada a uma trajetória de desonestidade faz um composição interessante pois sugere que as promessas do sujeito são tão falsas quanto a cor de seus cabelos.
De modo que para os homens também, envelhecer não é fácil. Mario Bag um dia destes levou um tombo feio na rua, a ponto das pessoas que estavam em volta se preocuparem. Disse-me ele que o que mais lhe chateou não foi ter caído foi ouvir uma mocinha dizendo: "ajudem o senhor, ajudem o senhor!". Pois é aos olhos da juventude que a passagem do tempo fica mais evidente.
E aos olhos da infância então, somos quase pré-históricos. E isto ele pode constatar quando foi convidado para falar de um de seus livros para as crianças do Colégio de Aplicação da Lagoa, aqui no Rio. Depois de sua apresentação, começaram as perguntas. Várias crianças levantaram a mão. Mas as perguntas eram apenas uma: "você conhece o Ziraldo?". Só um garoto, com o livro do Bag na mão, fez um comentário diferente: "Eu li aqui no seu livro que você nasceu em 1956. Puxa, cara, como tu é velho! Eu pensei até que tu já tinha morrido". Mario Bag teve vontade de responder: "é porque tu ainda não viu o Ziraldo".
Lysia Bernardes me ensinou o caminho (23/7/11)
O começo de minha vida como funcionária do Ministério da Cultura, entre o final de 1983 e o começo de 1984, foi de duro aprendizado. Passar do ambiente descontraído, alegre e amistoso da universidade - onde eu fora aluna da graduação e depois da pós, dedicando minha vida quase que exclusivamente aos estudos - para o cotidiano tedioso de uma repartição pública foi penoso. Estar ali por sua própria conta e risco, sem sua turma, digamos assim, cumprindo jornada diária de oito horas, assinando ponto e tendo que conviver com pessoas que nada tinham a ver com você era uma meia morte. O convívio com algumas almas menores que povoam as repartições, sempre dispostas a lançar armadilhas que te levem a se indispor com os outros foi uma experiência para a qual eu não estava preparada e que me desconcertou. Desenvolvi a maior mania de perseguição. Fiquei quase paranoica.
Hoje atribuo o que senti naquele ambiente à minha falta de experiência, ao fato de ser recém-chegada em um lugar em que era duas vezes forasteira: tanto por não ter nascido no Rio, quanto porque lá já estavam funcionários que ali trabalhavam há alguns anos. A chegada de outros colegas historiadores representou um grande alívio, mas o mundo do trabalho é o mundo do trabalho, e, mesmo entre estes, não se está livre da competição. Um colega ambicioso (de pobres ambições) que chegara logo depois de mim, tentou, a todo custo me indispor com o chefe e quase conseguiu. Felizmente, eu já tinha adquirido algumas estratégias de defesa. No entanto, foi em meio a esse choque com a realidade da natureza humana que fui alvo da ação mais generosa e desinteressada de toda a minha carreira.
Eu me dispusera a organizar um seminário chamado "Bairros do Rio: em busca de uma identidade" mas, sem nunca ter organizado algo no gênero, não sabia por onde começar. Não sei por quais caminhos entrei em contato com a professora Lysia Bernardes, um dos maiores nomes da geografia no Brasil de então e ela se dispôs a me dar algumas dicas. Ela foi me encontrar no Museu, sentou-se a meu lado na minha mesa e começou a arrolar os nomes dos melhores pesquisadores, nas mais diversas áreas, que estudavam o Rio de Janeiro. Foi a primeira vez que ouvi falar no então jovem geógrafo Maurício Abreu, e nos arquitetos Carlos Nelson Ferreira dos Santos e Sergio Lordello (os três, aliás, precocemente desaparecidos), além de outros nomes que, juntos, formavam um elenco de gente da maior competência. O que fez daquele primeiro seminário um grande sucesso, merecendo ampla cobertura da imprensa.
Não me lembro se agradeci devidamente à Profa. Lysia Bernardes pelo que tinha feito. Poucos anos depois, em 1991, ela e o marido, o também geógrafo Nilo Bernardes, morreriam em um acidente de carro. Na verdade, só o tempo é que me fez perceber o quanto seu gesto foi generoso e desprendido. Ela era uma intelectual nacionalmente conhecida; fora até o Catete encontrar uma jovem e inexperiente pesquisadora que ela nunca tinha visto antes e fornecera-lhe a lista de todos os seus contatos, com as informações valiosas sobre de que maneira cada um deles poderia contribuir. Informações tão valiosas que, muitos anos depois, ainda me são úteis.
Essa história me veio à lembrança por conta de ter sido questionada por indicar pessoas para coisas que acho que são indicadas mesmo que elas não correspondam na mesma medida, ou seja, me indicando também. Entre os nomes que costumo sugerir para publicações, seminários, etc. há mesmo um colega, pessoa competente e agradabilíssima, que não prejudica nem fala mal de ninguém mas que não compartilha informação nem de nome de mecânico de automóvel. É de uma sovinice total em conceder qualquer dado a um colega: um texto interessante que seja relacionado ao assunto com que o outro está trabalhando; a localização de arquivos que ele sabe onde está e que sabe serem fundamentais para a pesquisa do outro; o nome de um autor bom para aquela abordagem; de uma instituição que possa receber um assistente de pesquisa do colega, etc. etc. Essa avareza informativa é tão radical - talvez já seja até uma mania - que chega a ser paralisante e contribui para seu isolamento pois, ele nunca organiza seminários para não prestigiar colegas e também para não revelar seus contatos.
Eu não. Eu indico, sugiro, insisto nos nomes que acho bons. Gosto de compartilhar esse tipo de informação. Porque? Não que eu seja uma criatura desprendida e que não guarde mágoas de pessoas que não foram muito legais. Aliás, essas, confesso, prefiro não indicar. Mas, porque acho que isto faz parte da economia das trocas simbólicas, para usar uma expressão que aprendi quando queria ser antropóloga. Melhor dizendo, isso faz parte da economia das relações pessoais. E esse tipo de partilha de conhecimentos tem retorno. Nem todo o mundo é como meu colega, avaro de informações. Se nem todos são generosos como Lysia Bernardes, muitos gostam de fazer esse intercâmbio que é muito bom para a renovação da cena intelectual.
Quando indico nomes penso também na qualidade do produto que pode resultar dessa minha indicação. Pois tem tanta coisa medíocre tida como boa circulando por aí, tanto falso talento ou talento de superfície sendo incensado que o que eu puder fazer para que pessoas e trabalhos bons tenham maior visibilidade e chance de reconhecimento, farei. É a minha modesta e desinteressada contribuição para a melhoria da qualidade da vida intelectual no mundo em que vivemos.
Hoje atribuo o que senti naquele ambiente à minha falta de experiência, ao fato de ser recém-chegada em um lugar em que era duas vezes forasteira: tanto por não ter nascido no Rio, quanto porque lá já estavam funcionários que ali trabalhavam há alguns anos. A chegada de outros colegas historiadores representou um grande alívio, mas o mundo do trabalho é o mundo do trabalho, e, mesmo entre estes, não se está livre da competição. Um colega ambicioso (de pobres ambições) que chegara logo depois de mim, tentou, a todo custo me indispor com o chefe e quase conseguiu. Felizmente, eu já tinha adquirido algumas estratégias de defesa. No entanto, foi em meio a esse choque com a realidade da natureza humana que fui alvo da ação mais generosa e desinteressada de toda a minha carreira.
Eu me dispusera a organizar um seminário chamado "Bairros do Rio: em busca de uma identidade" mas, sem nunca ter organizado algo no gênero, não sabia por onde começar. Não sei por quais caminhos entrei em contato com a professora Lysia Bernardes, um dos maiores nomes da geografia no Brasil de então e ela se dispôs a me dar algumas dicas. Ela foi me encontrar no Museu, sentou-se a meu lado na minha mesa e começou a arrolar os nomes dos melhores pesquisadores, nas mais diversas áreas, que estudavam o Rio de Janeiro. Foi a primeira vez que ouvi falar no então jovem geógrafo Maurício Abreu, e nos arquitetos Carlos Nelson Ferreira dos Santos e Sergio Lordello (os três, aliás, precocemente desaparecidos), além de outros nomes que, juntos, formavam um elenco de gente da maior competência. O que fez daquele primeiro seminário um grande sucesso, merecendo ampla cobertura da imprensa.
Não me lembro se agradeci devidamente à Profa. Lysia Bernardes pelo que tinha feito. Poucos anos depois, em 1991, ela e o marido, o também geógrafo Nilo Bernardes, morreriam em um acidente de carro. Na verdade, só o tempo é que me fez perceber o quanto seu gesto foi generoso e desprendido. Ela era uma intelectual nacionalmente conhecida; fora até o Catete encontrar uma jovem e inexperiente pesquisadora que ela nunca tinha visto antes e fornecera-lhe a lista de todos os seus contatos, com as informações valiosas sobre de que maneira cada um deles poderia contribuir. Informações tão valiosas que, muitos anos depois, ainda me são úteis.
Essa história me veio à lembrança por conta de ter sido questionada por indicar pessoas para coisas que acho que são indicadas mesmo que elas não correspondam na mesma medida, ou seja, me indicando também. Entre os nomes que costumo sugerir para publicações, seminários, etc. há mesmo um colega, pessoa competente e agradabilíssima, que não prejudica nem fala mal de ninguém mas que não compartilha informação nem de nome de mecânico de automóvel. É de uma sovinice total em conceder qualquer dado a um colega: um texto interessante que seja relacionado ao assunto com que o outro está trabalhando; a localização de arquivos que ele sabe onde está e que sabe serem fundamentais para a pesquisa do outro; o nome de um autor bom para aquela abordagem; de uma instituição que possa receber um assistente de pesquisa do colega, etc. etc. Essa avareza informativa é tão radical - talvez já seja até uma mania - que chega a ser paralisante e contribui para seu isolamento pois, ele nunca organiza seminários para não prestigiar colegas e também para não revelar seus contatos.
Eu não. Eu indico, sugiro, insisto nos nomes que acho bons. Gosto de compartilhar esse tipo de informação. Porque? Não que eu seja uma criatura desprendida e que não guarde mágoas de pessoas que não foram muito legais. Aliás, essas, confesso, prefiro não indicar. Mas, porque acho que isto faz parte da economia das trocas simbólicas, para usar uma expressão que aprendi quando queria ser antropóloga. Melhor dizendo, isso faz parte da economia das relações pessoais. E esse tipo de partilha de conhecimentos tem retorno. Nem todo o mundo é como meu colega, avaro de informações. Se nem todos são generosos como Lysia Bernardes, muitos gostam de fazer esse intercâmbio que é muito bom para a renovação da cena intelectual.
Quando indico nomes penso também na qualidade do produto que pode resultar dessa minha indicação. Pois tem tanta coisa medíocre tida como boa circulando por aí, tanto falso talento ou talento de superfície sendo incensado que o que eu puder fazer para que pessoas e trabalhos bons tenham maior visibilidade e chance de reconhecimento, farei. É a minha modesta e desinteressada contribuição para a melhoria da qualidade da vida intelectual no mundo em que vivemos.
A escolha de Lelé (16/7/11)
Nestes últimos dias, não sei porque, tenho pensado no Lelé, um dos primeiros amigos que fiz aqui no Rio de Janeiro. Aloysio de Oliveira Martins Filho, o Lelé, foi-me apresentado pelo Victor que, por sua vez, era amigo da Gracinha, dentista alternativa que, já nos anos 1970, fizera a opção pela vida no interior indo se estabelecer em Pacoti. Quando eu já vivia no Rio, Gracinha veio me visitar e nos reunimos novamente. Foi nesta ocasião que o Victor me apresentou ao seu amigo Lelé.
O Lelé era um negro bonito, bem feito e elegante, sempre muito bem vestido, em estilo até um tanto formal para a idade e extremamente simpático e bem falante. Talvez um tantinho pernóstico e isto me parece hoje que era um tipo de atitude afirmativa do negro culto de classe média - forma de não ser confundido com um qualquer? - em uma sociedade em que os negros raramente chegam à classe média. Pois o Lelé morava no Leme em bom apartamento com uma tia, avó e primos e não lembro bem porque razão, sem pai nem mãe. Por uma empatia natural ou talvez por semelhanças de temperamento, ficamos logo amigos e ele me apelidou de baronesa de Sobral e era assim que sempre me chamava.
Apesar de muito jovem, o Lelé estava profissionalmente muito adiantado. Naquele tempo, ele já sabia o que queria e já trabalhava em dois lugares diferentes, além de cursar duas faculdades, História e Arquivologia. Não sei como, mas ele se dividia com muita competência entre tantas atividades e descobrira um verdadeiro tesouro para o futuro historiador e arquivista que viria a ser: o acervo da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro. Este era um dos dois lugares em que trabalhava e ao qual acabaria por se dedicar exclusivamente.
Falava com entusiasmo dos documentos coloniais da escravidão que vinha encontrando. Falava com entusiasmo até das dificuldades do trabalho, da desordem do acervo, da precariedade das instalações onde estavam guardados aqueles tesouros, dos métodos arquivísticos que estava adotando para organizar tudo.
Naquele tempo, quem quisesse saber qualquer coisa sobre aqueles documentos ou ter acesso a eles bastava procurar o Lelé. Creio que foi assim que ele ficou amigo do meu tio, Oscar de Figueiredo Lustosa, frade dominicano que era uma das autoridades em história da Igreja no Brasil. De vez em quando, Tio Oscar que mora em São Paulo, me perguntava pelo Lelé ou me dava notícias dele.
Quando, em 1984, começaram a montar a equipe do Centro de Pesquisas do Museu da República, onde eu trabalhava, me perguntaram se conhecia alguém que fosse arquivista mas também historiador, uma especialização então bastante rara. Não tive dúvidas, indiquei o Lelé e ele foi lá, conversou e, de fato encantou o pessoal mas não quis o lugar. Estava muito envolvido com o trabalho na Curia e, se não me engano, descobrira novos documentos em outras antigas freguesias da Baixada. Era uma escolha bem desvantajosa do ponto de vista material, pois o salário no Museu era baixo, no entanto, o emprego era seguro e havia a chance de vir a se tornar efetivo. Sua situação na Curia era precária, ele não tinha garantia nenhuma e não sei nem se lhe assinavam a carteira. Naquele tempo, a gente não era tão ligado nessas coisas, pois no começo da vida, os ideais se sobrepõem à pressão da vida prática, mesmo quando você não tem família rica para lhe dar suporte.
Perdi o Lelé de vista e só tinha vagas notícias dele através de meu tio. Anos depois, já na casa de Rui Barbosa, ele me visitou. Era em pleno pesadelo da classe média que foi o governo Fernando Henrique Cardoso, com o sucateamento do serviço público, os salários baixíssimos e congelados, gente correndo para se aposentar e nenhuma perspectiva de que aquelas vagas fossem preenchidas. O desânimo era geral. E a situação não era melhor lá fora. Ao contrário. Lelé estava em busca de trabalho. Qualquer trabalho. Tinha família para sustentar e o que a Curia lhe pagava não dava nem para o começo. Creio que foi aí que ele me contou dos problemas de saúde que tivera por conta do trabalho no arquivo. Algum micróbio tinha se instalado nas vias respiratórias e lhe trouxera os problemas de saúde mais graves e variados. Eu lamentei e me entristeci com sua história mas não tinha então nada a lhe oferecer, nem mesmo conhecia ninguém que pudesse ajudá-lo.
Reencontrei-o outra vez na Casa Rui, anos depois, tinha ido procurar algum documento a pedido de um pesquisador estrangeiro. Aí já tinha sofrido um AVC, tentava manter o bom humor, ser o mesmo Lelé de antigamente mas falava de forma confusa, repetindo as frases. Tempos depois, recebi dele uma carta, dizendo que sofrera um novo ataque e que estava afásico. Morava no Estácio e a carta trazia seu endereço. Eu respondi, enviando-lhe junto um livro meu. Não tive resposta, nem soube mais notícias. Nunca mais voltei a encontrá-lo. Há uns seis anos, li no jornal que o Arquivo da Cúria estava passando por grande renovação. A matéria dava a entender que a nova equipe encontrara tudo em péssimo estado, com os documentos mal organizados e mal conservados. Não pude conter um sentimento de revolta. Imaginei o que a leitura dessa matéria não deveria causar ao Lelé se a tivesse visto. Até escrevi umas linhas para o jornal lembrando dele e de seu trabalho precursor. Mas minha carta não saiu.
Eu penso - e lamento - que se o Lelé tivesse sido um pouquinho mais pragmático naquele tempo, com o talento, a inteligência e a vontade de trabalho que tinha, além da enorme simpatia, seu destino poderia ter sido tão diferente.
O Lelé era um negro bonito, bem feito e elegante, sempre muito bem vestido, em estilo até um tanto formal para a idade e extremamente simpático e bem falante. Talvez um tantinho pernóstico e isto me parece hoje que era um tipo de atitude afirmativa do negro culto de classe média - forma de não ser confundido com um qualquer? - em uma sociedade em que os negros raramente chegam à classe média. Pois o Lelé morava no Leme em bom apartamento com uma tia, avó e primos e não lembro bem porque razão, sem pai nem mãe. Por uma empatia natural ou talvez por semelhanças de temperamento, ficamos logo amigos e ele me apelidou de baronesa de Sobral e era assim que sempre me chamava.
Apesar de muito jovem, o Lelé estava profissionalmente muito adiantado. Naquele tempo, ele já sabia o que queria e já trabalhava em dois lugares diferentes, além de cursar duas faculdades, História e Arquivologia. Não sei como, mas ele se dividia com muita competência entre tantas atividades e descobrira um verdadeiro tesouro para o futuro historiador e arquivista que viria a ser: o acervo da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro. Este era um dos dois lugares em que trabalhava e ao qual acabaria por se dedicar exclusivamente.
Falava com entusiasmo dos documentos coloniais da escravidão que vinha encontrando. Falava com entusiasmo até das dificuldades do trabalho, da desordem do acervo, da precariedade das instalações onde estavam guardados aqueles tesouros, dos métodos arquivísticos que estava adotando para organizar tudo.
Naquele tempo, quem quisesse saber qualquer coisa sobre aqueles documentos ou ter acesso a eles bastava procurar o Lelé. Creio que foi assim que ele ficou amigo do meu tio, Oscar de Figueiredo Lustosa, frade dominicano que era uma das autoridades em história da Igreja no Brasil. De vez em quando, Tio Oscar que mora em São Paulo, me perguntava pelo Lelé ou me dava notícias dele.
Quando, em 1984, começaram a montar a equipe do Centro de Pesquisas do Museu da República, onde eu trabalhava, me perguntaram se conhecia alguém que fosse arquivista mas também historiador, uma especialização então bastante rara. Não tive dúvidas, indiquei o Lelé e ele foi lá, conversou e, de fato encantou o pessoal mas não quis o lugar. Estava muito envolvido com o trabalho na Curia e, se não me engano, descobrira novos documentos em outras antigas freguesias da Baixada. Era uma escolha bem desvantajosa do ponto de vista material, pois o salário no Museu era baixo, no entanto, o emprego era seguro e havia a chance de vir a se tornar efetivo. Sua situação na Curia era precária, ele não tinha garantia nenhuma e não sei nem se lhe assinavam a carteira. Naquele tempo, a gente não era tão ligado nessas coisas, pois no começo da vida, os ideais se sobrepõem à pressão da vida prática, mesmo quando você não tem família rica para lhe dar suporte.
Perdi o Lelé de vista e só tinha vagas notícias dele através de meu tio. Anos depois, já na casa de Rui Barbosa, ele me visitou. Era em pleno pesadelo da classe média que foi o governo Fernando Henrique Cardoso, com o sucateamento do serviço público, os salários baixíssimos e congelados, gente correndo para se aposentar e nenhuma perspectiva de que aquelas vagas fossem preenchidas. O desânimo era geral. E a situação não era melhor lá fora. Ao contrário. Lelé estava em busca de trabalho. Qualquer trabalho. Tinha família para sustentar e o que a Curia lhe pagava não dava nem para o começo. Creio que foi aí que ele me contou dos problemas de saúde que tivera por conta do trabalho no arquivo. Algum micróbio tinha se instalado nas vias respiratórias e lhe trouxera os problemas de saúde mais graves e variados. Eu lamentei e me entristeci com sua história mas não tinha então nada a lhe oferecer, nem mesmo conhecia ninguém que pudesse ajudá-lo.
Reencontrei-o outra vez na Casa Rui, anos depois, tinha ido procurar algum documento a pedido de um pesquisador estrangeiro. Aí já tinha sofrido um AVC, tentava manter o bom humor, ser o mesmo Lelé de antigamente mas falava de forma confusa, repetindo as frases. Tempos depois, recebi dele uma carta, dizendo que sofrera um novo ataque e que estava afásico. Morava no Estácio e a carta trazia seu endereço. Eu respondi, enviando-lhe junto um livro meu. Não tive resposta, nem soube mais notícias. Nunca mais voltei a encontrá-lo. Há uns seis anos, li no jornal que o Arquivo da Cúria estava passando por grande renovação. A matéria dava a entender que a nova equipe encontrara tudo em péssimo estado, com os documentos mal organizados e mal conservados. Não pude conter um sentimento de revolta. Imaginei o que a leitura dessa matéria não deveria causar ao Lelé se a tivesse visto. Até escrevi umas linhas para o jornal lembrando dele e de seu trabalho precursor. Mas minha carta não saiu.
Eu penso - e lamento - que se o Lelé tivesse sido um pouquinho mais pragmático naquele tempo, com o talento, a inteligência e a vontade de trabalho que tinha, além da enorme simpatia, seu destino poderia ter sido tão diferente.
Questão de atitude (9/7/11)
Antigamente eu tinha horror a brigar. Não suportava gente encrenqueira.
Aquela mulher que arma confusão na fila do banco porque alguém passou na frente ou que reclama do atendimento no guichê; a que discute no trânsito; a que vai tomar satisfação quando outra dá em cima do marido; a que grita em reunião de trabalho com os colegas ou com os filhos pequenos na rua.
Enfim, a famosa barraqueira.
Nunca fui barraqueira nem me tornei uma na maturidade mesmo tendo reconsiderado muito a minha visão do conflito. Ao longo de uma vida de mais de 30 anos no mundo do trabalho a gente aprende umas coisinhas, não é mesmo? Coisa simples do tipo protestar quando um colega lhe pisa nos calos; rebater críticas indevidas; questionar o chefe quando abusa de seu poder; não se deixar humilhar ou ser tratado de maneira injusta; saber ser firme e objetivo na resposta sem jamais ser injurioso para não perder a razão.
Claro que o medo de perder um emprego é um fato. E a possibilidade de seu chefe tornar sua vida um inferno é real. Mas, mesmo diante dessas circunstâncias, não se deve deixar ninguém ultrapassar o limite dos seus direitos garantidos pelas leis do país. Afinal existe uma legislação trabalhista que rege as relações entre patrão e empregado na iniciativa privada e funcionário e chefe no serviço público. Adicionou-se agora mesmo o princípio do "assédio moral" para definir e caracterizar aquelas situação subjetivas em que a perseguição ao funcionário se dá, menos pelo grito do que através de atribuições que não lhe concernem ou que são humilhantes. O melhor a fazer, no caso do funcionário público que está se sentindo vítima de assédio moral, é pedir que tudo que lhe seja solicitado o seja por escrito.
Outra coisa que se aprende também é que boa parte da atitude que as pessoas adotam para com você tem a ver com a sua postura (física mesmo), o jeito como você chega e o tom que você dá às suas solicitações. No ambiente frio das repartições e guichês de atendimento ao público alguma firmeza vai ter sempre maior eficácia do que a doçura. Inseguros, tímidos, balbuciantes, gaguejantes são o alvo preferencial dos que gostam de destratar os mais fracos. E o mundo do trabalho está cheio deles. Por isso uma certa auto-confiança real ou encenada ajuda muito. Não que seja o caso de adotar uma atitude agressiva. Mas de ter firmeza e de, caso sinta da parte do seu interlocutor a tentativa de lhe inferiorizar, falar alto e grosso. Em alguns casos, vai ser mesmo preciso que você que dê uns gritos. Quando, por exemplo, você liga para a sua operadora de telefone e já vai no terceiro ou quarto atendente que lhe pede para repetir todos os mesmos dados que você já disse aos que o atenderam antes aí só mesmo dando uns bons gritos. É claro que eles estão se valendo de sua boa educação para lhe enrolar e só vão resolver mesmo o problema depois que você fizer uma meia dúzia de ameaças endereçadas ao gerente da área do pobre infeliz que está do outro lado da linha.
E isto não tem nada a ver com o "você sabe com quem está falando?" Na verdade, é a reposta que se deve dar a quem vem com essa do "você sabe com quem está falando?", tentativa de intimidação baseada em uma suposta hierarquia social que não deve ter valor algum numa sociedade democrática. Independente da questão de classe o que importa é a questão do respeito que lhe é devido seja qual for a sua situação social. Você está ali, como cidadão ou como consumidor e tem o direito de ser bem atendido.
Infelizmente, em um país em que os pobres são sempre desconsiderados, quando você está vestido de maneira mais singela, digamos assim, tipo saí do jeito que estava em casa e fui na padaria da esquina, pode ser que alguém se ache no direito de te tratar como trata os subalternos. Afinal, moreninha (sim, existe preconceito racial no Brasil) e vestida desde jeito, deve trabalhar em alguma casa de família por aqui. Em geral - talvez pela falta de polidez nos modos ou por não terem aprendido o que é um comportamento politicamente correto - é a gente mais simples que com maior frequência adota esse tipo de atitude. Evidentemente que alguns sinais exteriores de uma cultura de elite, no jeito de falar logo restabelecem o status quo. Mas, naturalmente também, ninguém vai se prestar a falar difícil só para se impor à caixa do supermercado.
E isto não é privilégio nosso. Lembro de uma amiga que viveu na França por um tempo e que dizia que os franceses, mais precisamente os de Paris, eram de uma antipatia atroz. Tratavam mal quem quer que fosse e eram os reis de dar esporro principalmente se viam que você vinha do Terceiro Mundo. Ela descobriu que o segredo para lidar com eles era falar mais alto, pelo menos dois tons acima.
Mundo hobbesiano? Distante do reino das fadas e dos gnomos em que alguns acreditam viver? Pode ser mas são as armas que a gente adquire na luta cotidiana e que a experiência vai afiando a ponto de passarem a fazer parte de sua maneira de estar no mundo. Não significa que haja nesse tipo de enfrentamento qualquer forma de paixão. Ao contrário, são os ajustes da vida prática, do espaço do trabalho, onde sempre haverá conflito, mas sempre haverá espaço para a negociação.
A linguagem do mundo longe do lar é bem próxima da linguagem da selva. Mas, depois de estabelecidos os campos, depois que se sai desse Estado de Natureza inicial, depois de definidas as regras do jogo, aí começa o convívio civilizado, os dados estão na mesa e nem você avança no meu terreno nem eu avanço no seu. Pois isto tem um preço. Que pode ser alto. Creio que podemos chamar a isto de Contrato Social.
Aquela mulher que arma confusão na fila do banco porque alguém passou na frente ou que reclama do atendimento no guichê; a que discute no trânsito; a que vai tomar satisfação quando outra dá em cima do marido; a que grita em reunião de trabalho com os colegas ou com os filhos pequenos na rua.
Enfim, a famosa barraqueira.
Nunca fui barraqueira nem me tornei uma na maturidade mesmo tendo reconsiderado muito a minha visão do conflito. Ao longo de uma vida de mais de 30 anos no mundo do trabalho a gente aprende umas coisinhas, não é mesmo? Coisa simples do tipo protestar quando um colega lhe pisa nos calos; rebater críticas indevidas; questionar o chefe quando abusa de seu poder; não se deixar humilhar ou ser tratado de maneira injusta; saber ser firme e objetivo na resposta sem jamais ser injurioso para não perder a razão.
Claro que o medo de perder um emprego é um fato. E a possibilidade de seu chefe tornar sua vida um inferno é real. Mas, mesmo diante dessas circunstâncias, não se deve deixar ninguém ultrapassar o limite dos seus direitos garantidos pelas leis do país. Afinal existe uma legislação trabalhista que rege as relações entre patrão e empregado na iniciativa privada e funcionário e chefe no serviço público. Adicionou-se agora mesmo o princípio do "assédio moral" para definir e caracterizar aquelas situação subjetivas em que a perseguição ao funcionário se dá, menos pelo grito do que através de atribuições que não lhe concernem ou que são humilhantes. O melhor a fazer, no caso do funcionário público que está se sentindo vítima de assédio moral, é pedir que tudo que lhe seja solicitado o seja por escrito.
Outra coisa que se aprende também é que boa parte da atitude que as pessoas adotam para com você tem a ver com a sua postura (física mesmo), o jeito como você chega e o tom que você dá às suas solicitações. No ambiente frio das repartições e guichês de atendimento ao público alguma firmeza vai ter sempre maior eficácia do que a doçura. Inseguros, tímidos, balbuciantes, gaguejantes são o alvo preferencial dos que gostam de destratar os mais fracos. E o mundo do trabalho está cheio deles. Por isso uma certa auto-confiança real ou encenada ajuda muito. Não que seja o caso de adotar uma atitude agressiva. Mas de ter firmeza e de, caso sinta da parte do seu interlocutor a tentativa de lhe inferiorizar, falar alto e grosso. Em alguns casos, vai ser mesmo preciso que você que dê uns gritos. Quando, por exemplo, você liga para a sua operadora de telefone e já vai no terceiro ou quarto atendente que lhe pede para repetir todos os mesmos dados que você já disse aos que o atenderam antes aí só mesmo dando uns bons gritos. É claro que eles estão se valendo de sua boa educação para lhe enrolar e só vão resolver mesmo o problema depois que você fizer uma meia dúzia de ameaças endereçadas ao gerente da área do pobre infeliz que está do outro lado da linha.
E isto não tem nada a ver com o "você sabe com quem está falando?" Na verdade, é a reposta que se deve dar a quem vem com essa do "você sabe com quem está falando?", tentativa de intimidação baseada em uma suposta hierarquia social que não deve ter valor algum numa sociedade democrática. Independente da questão de classe o que importa é a questão do respeito que lhe é devido seja qual for a sua situação social. Você está ali, como cidadão ou como consumidor e tem o direito de ser bem atendido.
Infelizmente, em um país em que os pobres são sempre desconsiderados, quando você está vestido de maneira mais singela, digamos assim, tipo saí do jeito que estava em casa e fui na padaria da esquina, pode ser que alguém se ache no direito de te tratar como trata os subalternos. Afinal, moreninha (sim, existe preconceito racial no Brasil) e vestida desde jeito, deve trabalhar em alguma casa de família por aqui. Em geral - talvez pela falta de polidez nos modos ou por não terem aprendido o que é um comportamento politicamente correto - é a gente mais simples que com maior frequência adota esse tipo de atitude. Evidentemente que alguns sinais exteriores de uma cultura de elite, no jeito de falar logo restabelecem o status quo. Mas, naturalmente também, ninguém vai se prestar a falar difícil só para se impor à caixa do supermercado.
E isto não é privilégio nosso. Lembro de uma amiga que viveu na França por um tempo e que dizia que os franceses, mais precisamente os de Paris, eram de uma antipatia atroz. Tratavam mal quem quer que fosse e eram os reis de dar esporro principalmente se viam que você vinha do Terceiro Mundo. Ela descobriu que o segredo para lidar com eles era falar mais alto, pelo menos dois tons acima.
Mundo hobbesiano? Distante do reino das fadas e dos gnomos em que alguns acreditam viver? Pode ser mas são as armas que a gente adquire na luta cotidiana e que a experiência vai afiando a ponto de passarem a fazer parte de sua maneira de estar no mundo. Não significa que haja nesse tipo de enfrentamento qualquer forma de paixão. Ao contrário, são os ajustes da vida prática, do espaço do trabalho, onde sempre haverá conflito, mas sempre haverá espaço para a negociação.
A linguagem do mundo longe do lar é bem próxima da linguagem da selva. Mas, depois de estabelecidos os campos, depois que se sai desse Estado de Natureza inicial, depois de definidas as regras do jogo, aí começa o convívio civilizado, os dados estão na mesa e nem você avança no meu terreno nem eu avanço no seu. Pois isto tem um preço. Que pode ser alto. Creio que podemos chamar a isto de Contrato Social.
Tangos (2/7/11)
O tango argentino é parte da tradição musical brasileira. Compõe, junto com outros exotismos, com o bolero e algumas velhas canções italianas, o fundo musical da nossa memória afetiva pois eram gêneros muito ouvidos na década de 1960. Todo o mundo sabia cantarolar um pedaço de "La Barca", "Relógio", "Recuerdos de Ypacaraí", assim como também "O sole mio", "Santa Lucia", "Torna surriento". Mas o tango, mais do que qualquer outro gênero, nos impactava (e divertia) pelo despudorado exagero trágico. Eram tentativas de recriar as situações mais desesperadas, os mais profundos sofrimentos humanos associados ao amor, à traição ou mesmo à injustiça social. Na verdade, o tango, cuja dança mais parece uma disputa violenta entre um casal, tenta pintar, do ponto de vista da vítima, daquele que acreditou que a essência do ser humano era feita de outro material e levou a pior, o que há de mais negativo na natureza humana.
E este sentimento está muito mais na música do que na letra. Lembro do impacto que senti quando, na Fortaleza da minha adolescência, assisti a um espetáculo com Astor Piazzola. Era o tango em versão moderna, cuja magia encontrava no bandoneón do grande artista ainda maior intensidade. Na trilha sonora do filme "Tangos - exílio de Gardel", a sensação de angústia dos exilados da ditadura militar argentina seria intensificada pelos acordes sincopados da música de Piazzola.
Tango nº 1
Um dos tantos antigos que tem lugar especial na minha memória afetiva é "Mano a mano". Na verdade só muito depois associei esse título tão familiar ao verso que começa com "naufragado na tristeza". A primeira vez em que o ouvi foi numa tarde de sol pouco intenso, talvez na Praia do Ideal, e isso foi há tanto tempo que ainda se ia à Praia do Ideal. E foi há tanto tempo que o Cláudio Pereira ainda andava pelas próprias pernas. E eu vi vindo da calçada rumo à areia, jovem, daquele tom de louro marrom tão característico dos louros cearense, magro e alto, com umas calças claras, meio folgadas. E fomos até ele, eu e Clélia, que não o víamos há alguns dias e perguntamos por onde tinha andado. Ele nos disse que tinha andando, como no tango "naufragado na tristeza", que tinha andando descascando baratas - ou algo parecido que hoje não lembro mais. Não sei se soube logo que ele tinha passado aqueles dias sendo torturado de forma cruel e desumana como então se usava fazer no Brasil contra a juventude, por conta de seus ideais. Tempos depois, relembrando aquele encontro, ele me diria como fora confortador nos ver, vindo pela primeira vez à praia, depois de dias nas mãos de seus algozes, a mim e à Clélia, com nossos maiôs pretos e nossos sorrisos adolescentes.
Tango nº 2
"Cambalache" (1935) se situa em um patamar mais sofisticado e mais denso na tradição do tango argentino. Enrique dos Santos Discépolo, seu autor, que scribia piensamientos tristes que se podian bailar foi o criador do tango existencial, pessimista que pintava uma visão sombria do homem e do mundo. Em "Cambalache", mais do que o desencanto individual, o que o artista denuncia é a sociedade que se gestara com base no principio do "el que no llora, no mama", a sociedade do individualismo desenfreado que marcara os loucos anos 1920, que desencadeariam os amargurados anos 1930, naquela que os argentinos chamaram de década da infâmia.
Mas, o potencial crítico da música é tanto que ela se mostra perfeitamente adequada para representar qualquer tempo e qualquer país marcado pela corrupção: "Que el mundo fue y sera una porqueria,/ ya lo se; en el quinientos seis y en el dos mil tambien...". O século XX revelou-se, tal como previra o poeta, "un despliegue de malda insolente, todos viviam revolcaos en un merengue / y en un mismo lodo todos manoseaos". Apenas em uma parte Discépolo errou em seu prognóstico: quando disse que valeriam a mesma coisa "el que labura noche y dia como un buey que el que vive de los otros". Parece que, pelo menos, para os que trabalharam noite e dia como um boi, o destino foi bem menos benevolente do que para os que vivem à custa dos outros.
É de Discépolo também "Gira, gira", onde aparecem estes versos estimulantes: "Aunque te quiebre la vida,/ aunque te muerda un dolor,/ no esperes nunca una ayuda / ni una mano... ni un favor". Claro que essas coisas ditas em castelhano têm mais intensidade, mas, mesmo assim, vale a pena lembrar parte da letra em português que eu costumava ouvir na voz de Albertinho Fortuna: "Quando gastares a sola/ Pedindo uma esmola, pedindo um olhar/ A indiferença do mundo/ Que é surdo e é mudo/ Virá te assombrar/ Verás que tudo é mentira/ Verás que nada é amor/ Que os outros pouco se importam/ Gira, gira...".
Tango nº 3
Só recentemente me dei conta de que a letra de "Tomo y obligo", que termina com a sentença "sofra e não chore porque um homem não deve chorar", narra praticamente a mesma história do tango brasileiro que termina com: "hoje quem paga sou eu". De autoria do jornalista David Nasser e de Herivelto Martins, que também compuseram os outros dois tangos brasileiros mais cantados, "Vermelho: vinte e sete", "Carlos Gardel", músicas que fizeram sucesso na voz incomparável de Nelson Gonçalves.
Muitos outros tangos maravilhosos haveria para recordar. Creio que o que é mais bonito musicalmente deve ser "La cumparsita". Mas "Madressilva" também é páreo duro. Outro dia, ouvindo "La cumparcita", me ocorreu que os tangos, em geral, originalmente criados para ambientes sombrios, noturnos e tensos, são o tipo da música que, entre nós, se costumava escutar nas manhãs ensolaradas dos domingos familiares. Talvez porque não tenhamos tanto esse sentido do trágico que é tão característico de nossos vizinhos. Aqui tudo acaba em samba. Mesmo o tango.
E este sentimento está muito mais na música do que na letra. Lembro do impacto que senti quando, na Fortaleza da minha adolescência, assisti a um espetáculo com Astor Piazzola. Era o tango em versão moderna, cuja magia encontrava no bandoneón do grande artista ainda maior intensidade. Na trilha sonora do filme "Tangos - exílio de Gardel", a sensação de angústia dos exilados da ditadura militar argentina seria intensificada pelos acordes sincopados da música de Piazzola.
Tango nº 1
Um dos tantos antigos que tem lugar especial na minha memória afetiva é "Mano a mano". Na verdade só muito depois associei esse título tão familiar ao verso que começa com "naufragado na tristeza". A primeira vez em que o ouvi foi numa tarde de sol pouco intenso, talvez na Praia do Ideal, e isso foi há tanto tempo que ainda se ia à Praia do Ideal. E foi há tanto tempo que o Cláudio Pereira ainda andava pelas próprias pernas. E eu vi vindo da calçada rumo à areia, jovem, daquele tom de louro marrom tão característico dos louros cearense, magro e alto, com umas calças claras, meio folgadas. E fomos até ele, eu e Clélia, que não o víamos há alguns dias e perguntamos por onde tinha andado. Ele nos disse que tinha andando, como no tango "naufragado na tristeza", que tinha andando descascando baratas - ou algo parecido que hoje não lembro mais. Não sei se soube logo que ele tinha passado aqueles dias sendo torturado de forma cruel e desumana como então se usava fazer no Brasil contra a juventude, por conta de seus ideais. Tempos depois, relembrando aquele encontro, ele me diria como fora confortador nos ver, vindo pela primeira vez à praia, depois de dias nas mãos de seus algozes, a mim e à Clélia, com nossos maiôs pretos e nossos sorrisos adolescentes.
Tango nº 2
"Cambalache" (1935) se situa em um patamar mais sofisticado e mais denso na tradição do tango argentino. Enrique dos Santos Discépolo, seu autor, que scribia piensamientos tristes que se podian bailar foi o criador do tango existencial, pessimista que pintava uma visão sombria do homem e do mundo. Em "Cambalache", mais do que o desencanto individual, o que o artista denuncia é a sociedade que se gestara com base no principio do "el que no llora, no mama", a sociedade do individualismo desenfreado que marcara os loucos anos 1920, que desencadeariam os amargurados anos 1930, naquela que os argentinos chamaram de década da infâmia.
Mas, o potencial crítico da música é tanto que ela se mostra perfeitamente adequada para representar qualquer tempo e qualquer país marcado pela corrupção: "Que el mundo fue y sera una porqueria,/ ya lo se; en el quinientos seis y en el dos mil tambien...". O século XX revelou-se, tal como previra o poeta, "un despliegue de malda insolente, todos viviam revolcaos en un merengue / y en un mismo lodo todos manoseaos". Apenas em uma parte Discépolo errou em seu prognóstico: quando disse que valeriam a mesma coisa "el que labura noche y dia como un buey que el que vive de los otros". Parece que, pelo menos, para os que trabalharam noite e dia como um boi, o destino foi bem menos benevolente do que para os que vivem à custa dos outros.
É de Discépolo também "Gira, gira", onde aparecem estes versos estimulantes: "Aunque te quiebre la vida,/ aunque te muerda un dolor,/ no esperes nunca una ayuda / ni una mano... ni un favor". Claro que essas coisas ditas em castelhano têm mais intensidade, mas, mesmo assim, vale a pena lembrar parte da letra em português que eu costumava ouvir na voz de Albertinho Fortuna: "Quando gastares a sola/ Pedindo uma esmola, pedindo um olhar/ A indiferença do mundo/ Que é surdo e é mudo/ Virá te assombrar/ Verás que tudo é mentira/ Verás que nada é amor/ Que os outros pouco se importam/ Gira, gira...".
Tango nº 3
Só recentemente me dei conta de que a letra de "Tomo y obligo", que termina com a sentença "sofra e não chore porque um homem não deve chorar", narra praticamente a mesma história do tango brasileiro que termina com: "hoje quem paga sou eu". De autoria do jornalista David Nasser e de Herivelto Martins, que também compuseram os outros dois tangos brasileiros mais cantados, "Vermelho: vinte e sete", "Carlos Gardel", músicas que fizeram sucesso na voz incomparável de Nelson Gonçalves.
Muitos outros tangos maravilhosos haveria para recordar. Creio que o que é mais bonito musicalmente deve ser "La cumparsita". Mas "Madressilva" também é páreo duro. Outro dia, ouvindo "La cumparcita", me ocorreu que os tangos, em geral, originalmente criados para ambientes sombrios, noturnos e tensos, são o tipo da música que, entre nós, se costumava escutar nas manhãs ensolaradas dos domingos familiares. Talvez porque não tenhamos tanto esse sentido do trágico que é tão característico de nossos vizinhos. Aqui tudo acaba em samba. Mesmo o tango.
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