Nosso amigo não nascera assim. Era um rapaz de classe media carioca que, na infância estudara em escola pública mas que, inteligente e descolado, tornara-se um craque em computadores numa época em que isto valia alguma coisa. Época em que os entendidos em computadores eram verdadeiros magos que cobravam fortuna por hora de consulta. Alguns se tornaram tão bem sucedidos que montaram empresas especializadas em atender grandes empresas na misteriosa ciência dos hardwares e softwares.
Esta, como outras tantas profissões que desapareceram por causa dos computadores - quem se lembra da foto-letra e da foto-composição? - foi rapidamente desvalorizada pela facilidade com que garotos de 14 anos passaram a dominar esses conhecimentos antes tão exclusivos.
Nosso amigo surfou na onda ascendente e prolongou seu sucesso por mais algum tempo pois teve a sorte de casar com a filha do dono de uma grande empresa a que servia. Ricos e charmosos, talvez tenham sido os elegantes familiares da mulher que tornaram nosso amigo um consumidor de vinhos caros.
Acontece que a fortuna que parecia sólida da família ilustre sofreu fatal revés no governo Collor e foi ladeira abaixo. Nosso amigo não se deu conta. Com aquela auto-confiança daqueles para quem, até então, a sorte sempre sorrira, transferiu seus negócios para outra capital, alugou casa em condomínio de luxo, matriculou os filhos em colégio caro e, com isto, dilapidou o que restava do capital acumulado nos tempos da bonança. A queda foi rápida: aluguel e escola com pagamentos atrasados, casamento naufragando em meio às frustrações da mulher que vira ir pelo ralo os bens imóveis que lhe couberam da herança paterna.
No filme "Wall Street" (1987), a personagem interpretada por Daryl Hannah fala para o protagonista: "Ter dinheiro e perder é muito pior do que nunca ter tido." Não sei se a frase é essa mesma, mas acho que não ter tido dinheiro, ganhar e depois perder é que é o diacho.
Conheço pessoas nascidas em famílias que conheceram a opulência por várias gerações. Os nomes de seus antepassados se imbricam na árvore genealógica das mais antigas famílias brasileiras. Passaram a infância entre viagens ao exterior quando, para os pobres mortais da classe media, uma viagem de avião era um luxo quase inatingível. Hoje, por razões que talvez caibam naquela rifão antigo: pais ricos, filhos nobres, netos pobres - vivem modestamente em pequenos apartamentos. E vivem com muita elegância e dignidade, até mesmo com certa paz de espírito, de desprendimento das riquezas do mundo quase oriental. Afinal, viver com pouco é para eles uma novidade que dá mesmo um certo sabor de surpresa e de desafio à vida.
Quem lembra daquela última entrevista de Jorginho Guinle para a revista de domingo do JB? A matéria o apresentava de forma melancólica, vivendo na casa do filho caçula, modesto dois quartos em algum bairro da zona sul do Rio. Como gostam os jornalistas, havia mesmo a referencia a um sofá esburacado para dar mais força à descrição.
Pois o Jorginho Guinle estava ali com toda a sua nonchalance de sempre. O mesmo rapaz pequeno, bonito e elegante que Rachel de Queiroz me disse ter conhecido nos anos 1930, amante do jazz e da filosofia. Falando baixinho, com o aquele sorriso discreto, olhos claros e sedutores, ele disse ao jornalista que tinha se preparado para viver a vida toda sem trabalhar, o problema, concluiu, é que não pensava que ia viver tanto.
Assim é que morreu como quis, no Copacabana Palace, assistido pelos amigos que queriam bem àquele velho playboy internacional. Único brasileiro a realizar esse ideal-tipo em todas as suas dimensões, incluindo entre suas conquistas Rita Hayworth e, dizem, até Marilyn Monroe.
Mas, para quem passou infância e adolescência em um apartamento de dois quartos, dividindo um deles com outros três irmãos, mal suportando a canjica rala da merenda da escola pública; para quem passou essa fase da vida folheando revistas com fotos de carros esportes e de mulheres espetaculares, sonhando um dia conquistar tudo isto; que conquistou e agora se vê obrigado a encarar novamente aquele mesmo padrão de vida acanhado de seus pais, é mais difícil.
A classe media, como o nome está dizendo, é aquela classe que se situa entre a alta e a baixa. Quer dizer: o sujeito dali pode subir ou descer. Vai depender da maneira como ele conduzir a vida. Por isso em algumas festas de antigas famílias da classe media se encontram bem sucedidos advogados e médicos, cujos irmãos exercem profissões bem modestas. Quem mandou não estudar? É a pergunta que fica na cabeça de quem vê o quadro.
Mas também, cabe dizer: quem mandou não ter aquele sentido de previdência que seus pais tanto tentaram lhe inculcar? Quem mandou não ter garantindo uma casa própria e um emprego seguro? Nada contra a ousadia e o empreendedorismo. Ao contrário, todo louvor ao sujeito criativo que, mesmo sem muito estudo, de um pequeno negócio conseguiu criar algo grande que dá emprego a muita gente. No Rio de Janeiro, a gente lê com prazer matérias sobre cearenses espertos que lá chegaram para trabalhar como garçom e acabaram donos de restaurantes, acolhendo outros tantos cearenses que lá desembarcaram para seguir o mesmo destino.
E nesse sentido de previdência está embutido um sentimento contrário ao de nosso amigo do começo do artigo: não tem caminho sem volta. A vida prega peças e dá rasteiras mesmo nos mais previdentes. Por isto a gente tem que estar sempre preparado para abrir mão dos acessórios: o vinho caro, os cremes importados, a roupa de grife, o restaurante sofisticado, o carro do ano...
Pois, as verdadeiras pobreza e riqueza são sempre as do espírito.