Caminho sem volta (14/7/12)

Foi assim que amigo nosso definiu sua predileção por vinhos caros. Não se imaginava jamais tomando novamente um miolo ou mesmo um concha y toro.

Nosso amigo não nascera assim. Era um rapaz de classe media carioca que, na infância estudara em escola pública mas que, inteligente e descolado, tornara-se um craque em computadores numa época em que isto valia alguma coisa. Época em que os entendidos em computadores eram verdadeiros magos que cobravam fortuna por hora de consulta. Alguns se tornaram tão bem sucedidos que montaram empresas especializadas em atender grandes empresas na misteriosa ciência dos hardwares e softwares.

Esta, como outras tantas profissões que desapareceram por causa dos computadores - quem se lembra da foto-letra e da foto-composição? - foi rapidamente desvalorizada pela facilidade com que garotos de 14 anos passaram a dominar esses conhecimentos antes tão exclusivos.

Nosso amigo surfou na onda ascendente e prolongou seu sucesso por mais algum tempo pois teve a sorte de casar com a filha do dono de uma grande empresa a que servia. Ricos e charmosos, talvez tenham sido os elegantes familiares da mulher que tornaram nosso amigo um consumidor de vinhos caros.

Acontece que a fortuna que parecia sólida da família ilustre sofreu fatal revés no governo Collor e foi ladeira abaixo. Nosso amigo não se deu conta. Com aquela auto-confiança daqueles para quem, até então, a sorte sempre sorrira, transferiu seus negócios para outra capital, alugou casa em condomínio de luxo, matriculou os filhos em colégio caro e, com isto, dilapidou o que restava do capital acumulado nos tempos da bonança. A queda foi rápida: aluguel e escola com pagamentos atrasados, casamento naufragando em meio às frustrações da mulher que vira ir pelo ralo os bens imóveis que lhe couberam da herança paterna.

No filme "Wall Street" (1987), a personagem interpretada por Daryl Hannah fala para o protagonista: "Ter dinheiro e perder é muito pior do que nunca ter tido." Não sei se a frase é essa mesma, mas acho que não ter tido dinheiro, ganhar e depois perder é que é o diacho.

Conheço pessoas nascidas em famílias que conheceram a opulência por várias gerações. Os nomes de seus antepassados se imbricam na árvore genealógica das mais antigas famílias brasileiras. Passaram a infância entre viagens ao exterior quando, para os pobres mortais da classe media, uma viagem de avião era um luxo quase inatingível. Hoje, por razões que talvez caibam naquela rifão antigo: pais ricos, filhos nobres, netos pobres - vivem modestamente em pequenos apartamentos. E vivem com muita elegância e dignidade, até mesmo com certa paz de espírito, de desprendimento das riquezas do mundo quase oriental. Afinal, viver com pouco é para eles uma novidade que dá mesmo um certo sabor de surpresa e de desafio à vida.

Quem lembra daquela última entrevista de Jorginho Guinle para a revista de domingo do JB? A matéria o apresentava de forma melancólica, vivendo na casa do filho caçula, modesto dois quartos em algum bairro da zona sul do Rio. Como gostam os jornalistas, havia mesmo a referencia a um sofá esburacado para dar mais força à descrição.

Pois o Jorginho Guinle estava ali com toda a sua nonchalance de sempre. O mesmo rapaz pequeno, bonito e elegante que Rachel de Queiroz me disse ter conhecido nos anos 1930, amante do jazz e da filosofia. Falando baixinho, com o aquele sorriso discreto, olhos claros e sedutores, ele disse ao jornalista que tinha se preparado para viver a vida toda sem trabalhar, o problema, concluiu, é que não pensava que ia viver tanto.

Assim é que morreu como quis, no Copacabana Palace, assistido pelos amigos que queriam bem àquele velho playboy internacional. Único brasileiro a realizar esse ideal-tipo em todas as suas dimensões, incluindo entre suas conquistas Rita Hayworth e, dizem, até Marilyn Monroe.

Mas, para quem passou infância e adolescência em um apartamento de dois quartos, dividindo um deles com outros três irmãos, mal suportando a canjica rala da merenda da escola pública; para quem passou essa fase da vida folheando revistas com fotos de carros esportes e de mulheres espetaculares, sonhando um dia conquistar tudo isto; que conquistou e agora se vê obrigado a encarar novamente aquele mesmo padrão de vida acanhado de seus pais, é mais difícil.

A classe media, como o nome está dizendo, é aquela classe que se situa entre a alta e a baixa. Quer dizer: o sujeito dali pode subir ou descer. Vai depender da maneira como ele conduzir a vida. Por isso em algumas festas de antigas famílias da classe media se encontram bem sucedidos advogados e médicos, cujos irmãos exercem profissões bem modestas. Quem mandou não estudar? É a pergunta que fica na cabeça de quem vê o quadro.

Mas também, cabe dizer: quem mandou não ter aquele sentido de previdência que seus pais tanto tentaram lhe inculcar? Quem mandou não ter garantindo uma casa própria e um emprego seguro? Nada contra a ousadia e o empreendedorismo. Ao contrário, todo louvor ao sujeito criativo que, mesmo sem muito estudo, de um pequeno negócio conseguiu criar algo grande que dá emprego a muita gente. No Rio de Janeiro, a gente lê com prazer matérias sobre cearenses espertos que lá chegaram para trabalhar como garçom e acabaram donos de restaurantes, acolhendo outros tantos cearenses que lá desembarcaram para seguir o mesmo destino.

E nesse sentido de previdência está embutido um sentimento contrário ao de nosso amigo do começo do artigo: não tem caminho sem volta. A vida prega peças e dá rasteiras mesmo nos mais previdentes. Por isto a gente tem que estar sempre preparado para abrir mão dos acessórios: o vinho caro, os cremes importados, a roupa de grife, o restaurante sofisticado, o carro do ano...

Pois, as verdadeiras pobreza e riqueza são sempre as do espírito.

O calafrio do ridículo evitado (7/7/12)

Ah, o amor, quantas peças nos prega. Quantas noites insones, quantas lágrimas, quantas cartas, enfim, quanto sofrimento desperdiçado por quem não merecia. Passados os anos, um encontro casual nos revela aquela criatura tão desejada sob o efeito dos estragos que o tempo perpetra em todos nós e aí, não podemos deixar de pensar: como é que eu pude?

Em "Memórias póstumas de Brás Cubas" há aquele reencontro final do protagonista com seu grande amor de juventude, Marcela, cuja fisionomia arruinada pouco lembrava a antiga beleza que o levara a cometer tantas loucuras.

Mas da obra de Machado de Assis a que, a meu ver, melhor ensina sobre esse tipo de situação é o caso do deputado Botero, personagem do conto "Papéis Velhos". Preterido nas suas pretensões a uma vaga no novo ministério, o deputado Brotero, despeitadíssimo, redige uma carta ao seu líder em que anuncia estar retirando-se definitivamente da vida pública.

Carta pronta, o deputado insone, agitado, começa a mexer em velhos papéis. Depara-se então com um pacote de cartas relativas a uma paixão antiga. Numa delas o Brotero, jovem, apaixonado e que acabara de ser abandonado pela amante, ameaça-a com o suicídio. Foi neste mo­mento, como diz Machado, que ele sentiu o calafrio do ridículo evitado.

À simples ideia de que poderia ter mesmo se matado, passaram diante de seus olhos as consequências que seu gesto teria tido: o comentário maldoso das pessoas, a imoralidade de sua vida afetiva em exposição. Imediatamente, Brotero comparou as situações, repensou a atitude que ia tomar e guardou na gaveta a carta definitiva que desistira de encaminhar ao líder.

Amigo meu, em entressafra entre um casamento e outro, recebeu telefonema de uma antiga paixão. Fora uma daquelas paixões sensuais, pois a moça não tinha nada na cachola mas tinha um corpo de curvas enlouquecedoras. Aliava a isto uma prodigiosa capacidade de envolvê-lo em situações perigosas pois tinha um noivo que andava armado mas mesmo assim vivia marcando encontros amorosos com meu amigo. Este, depois de informado do perigo que correra em uma ocasião em que cruzara com o dito noivo na porta da casa dela, teria gritado, dando-lhe um sacode: "Mas,você é louca?". "Por você", foi a resposta da sedutora.

Pois bem, ouvindo aquela voz que anos atrás tanto o excitava, meu amigo foi tomado pela lembrança daqueles encontros calientes e se preparou todo, cantarolando o refrão daquela música: "eu hoje vou de me dar bem". Marcaram numa praça movimentada e lá ficou ele no lugar combinado esperando ver chegar aquela belezura de outrora. Eis que senão quando ele a vê vindo em sua direção. Como disse uma atriz maldosa a outra em um filme: ela não só tinha conseguido conservar o antigo corpinho quanto o ampliara em todas as direções. Cada uma daquelas adoradas curvas tinha se transformado em um sólido pneu. As coxas macias tinham sido ampliadas por massudos culotes internos e externos que retardavam os passos da criatura. O delicioso queixinho provocador do passado se escondia agora em meio a uma vasta papada. Vendo o perigo que corria, meu amigo não teve dúvida, tomado pelo pânico, atravessou a rua, correndo o risco de ser atropelado pelos ônibus e fugiu covardemente.

Em um primeiro momento achei apenas muito machista o comentário que um outro amigo de Facebook fez esta semana sobre situação parecida. Ele falou do prazer que experimentara ao ver, ao longe, uma antiga paixão que nunca lhe tinha dado bola e os efeitos que vinte anos tinham exercido sobre aquele tão desejado corpinho. Para as mulheres esta observação é de uma crueldade tremenda. Pois o mundo exige muito mais delas em termos de beleza exterior do que dos homens. A gente vê mulheres lindas casadas com homens feios e não estranha. Mas estranha sempre quando vê um homem bonito com uma mulher feia. Na verdade, mesmo nesses novos tempos feministas o que desmerece o homem, outrora desejado, diante dos olhos das mulheres é, menos que a decadência física, o insucesso. O desprezo que a mulher demonstra por aquele poeta, aquele artista, aquele intelectual, pelo qual tivera uma paixão arrebatadora e não correspondida; por aquele homem cujas atitudes e palavras eram admiradas e que não realizou tudo o que parecia ser destinado a realizar ou que, simplesmente, saiu de moda. Assim a reação do amigo de Facebook à decadência física da antiga musa tinha a ver mesmo era com aquele gostinho de vingança diante da queda de alguém cujas qualidades admirávamos e desejávamos partilhar e que nos desprezou.

Lembro do comentário que fiz a uma amiga socióloga muito bem sucedida sobre um amor do passado. Soubera por amiga comum que, durante o tempo do mestrado em outra cidade ela vivera uma paixão avassaladora por um músico baiano, hoje totalmente esquecido e que, ao que parece, não correspondera na mesma proporção. Eu não tive dúvida em lhe perguntar: imagina se tivesse dado certo, hein? Você estaria hoje casada com um percussionista baiano, com aquela reca de baianinhos e ainda tendo que ajudar a carregar os atabaques? Rimos muito e ela completou: "É mesmo. Do que escapei... Deus é pai!".

Exemplar dessa vingança feminina contra antigas paixões é o olhar que a jovem condessa lança para o antigo amante, o jornalista Raoul Nathan, no final da trama de "Uma filha de Eva", de Honoré de Balzac. Quando ela o vê, anos depois, em suas reais dimensões, sem a luz e a grandeza que lhe emprestavam antes a paixão que ela sentira, só sente desprezo por ele e muita vergonha por ter sido tão apaixonado por um ser que, passado o tempo, lhe parecia pequeno e mesquinho.

A momentânea cegueira de amor, tanto em homens quanto em mulheres, pode levar a decisões que comprometem toda uma vida. O problema é que elas são mais intensas na juventude, quando ninguém tem na gaveta ainda o maço de cartas que acendeu a luzinha na mente do deputado Botero.