Angra dos Reis (31/6/14)

Estou em campanha. Em campanha para melhorar a imagem de Angra dos Reis. Não aquela Angra dos Reis dos donos de grandes lanchas que parecem mansões flutuantes; nem a Angra dos Reis dos resorts luxuosos; nem mesmo a Angra dos Reis dos que têm ali casas à beira-mar. Mas Angra dos Reis mesmo, a honesta cidade que eu só conhecia de passagem e creio que, nunca tinha visitado antes.

Acontece com Angra algo que acontece hoje com relação ao Brasil: ali também a realidade objetiva é o oposto da sensação de pessimismo que a mídia, através de campanha intensiva, vem conseguindo implantar nos corações e mentes de muitos brasileiros. A sensação de algumas pessoas que vivem em Angra dos Reis é a de que estão no pior lugar do mundo e essa sensação não corresponde à realidade.

Estive lá por quase uma semana participando de uma banca de concurso para a UFF que tem ali um campus avançado. Os dias em que eu e meus colegas de banca, Rosilda Benácchio, Fabrício Pereira da Silva, Renato Lemos e Fábio Koifman estivemos na cidade para almoçar desfizeram essa impressão. O centro é agradável, como boas lojas e tem a vantagem de estar à beira do cais, onde o estacionamento de inúmeras traineirinhas me fez lembrar o “Ver o peso”. Apesar da modernização nem sempre feliz, a cidade conservou alguns prédios históricos remarcáveis. Bem diante do cais se ergue, belo e majestoso, o três vezes centenário Convento do Carmo. Mesmo quando a gente ergue a vista para os morros, onde cresceram de forma desordenada os bairros mais pobres, a densa vegetação que envolve as casas – todas de alvenaria - nos deixa a impressão que os pobres que vivem ali não passam de todo mau. Impressão que nos foi confirmada pelo simpático motorista da UFF, o Válber, nascido e criado no Morro da Caixa D’água.

Entre o centro e a pousada em que fiquei, conheci o quarteirão mais bonito do Brasil, creio eu. Este é constituído pelo conjunto de prédios, residências e jardins da Marinha que estão instalados diante de magnífica paisagem. Tudo ali parece ter sido pensado por um arquiteto com grande capacidade de planejamento. Ao prédio central, bem situado no meio do terreno, aliam-se as demais instalações da Marinha que, na curva seguinte do caminho, são seguidas por um conjunto de casas branquinhas, de portas azuis. Belas edificações, possivelmente do começo do século XX, tendo em seu meio um modesto mas muito charmoso “Hotel de Transito”.

A bem cuidada calçada que fica do lado de lá da pista, à beira-mar, é ideal para o footing. Como cheguei à noite, a beleza do lugar era diferente da que eu veria pela manhã, pois a área em frente aos prédios da Marinha é muito arborizada, e provida de inúmeros bancos desses de praça, todos voltados para o mar, como no nosso Passeio Público. O conjunto dá um ar tão distinto e agradável que redime Angra de todos os pecados que porventura tenha. Logo depois, entra-se por uma estrada estreita que conduz a praias como a do Bonfim, com sua linda capelinha no meio do mar e à Praia Grande onde ficava a nossa pousada Comando Geral (que nome horroroso!). Mas, tomar café sentada bem defronte à uma pequena baía coalhada de barcos, tendo ao fundo a silhueta da Ilha Grande, compensa todas as deficiências das instalações.

O campus fica em Jacuencanga, nome rebarbativo de local distante uns dez quilômetros do centro da cidade e quinze da pousada onde nos hospedaram. Só entendi o sentido da distância entre o lugar em que íamos trabalhar e a universidade quando descobri que há poucos, maus e caros hotéis dentro de Angra e que, nos arredores, o que há são pousadas e hotéis de turismo muito caros para fazerem face ao valor das diárias que uma universidade pública pode pagar. A causa também é a forma da cidade se estende nos dois sentidos do litoral, em bairros mais ou menos modestos, cobrindo ampla extensão entre o mar e as montanhas, cobertas pela vegetação que considero a mais bonita das que já vi: a mata atlântica.

O campus avançado da UFF foi instalado em pequenos prédios situados ao lado do antigo estaleiro da Verolme que hoje promove naquele bairro degradado de Angra uma espécie de renascimento. Mas, por enquanto, Jacuecanga continua a ser um lugar sem encantos. Seus prédios e casas lembram alguns subúrbios do Rio, no que têm de menos gracioso. São construções mal feitas e erguidas sem planejamento algum, de forma que o traçado das ruas não obedece a qualquer lógica. Em seu entorno e bem na beira da estrada é que vimos de fato aquela Angra favelizada de que nos tinham falado.


Soube que a UFF negocia com a prefeitura a transferência do seu campus para lugar situado no extremo oposto de Jacueganga, em região onde existe tráfico de drogas e um quadro de violências que espelha o que vivemos nas favelas do Rio. Tomara que professores e funcionários unam forças para pedir que o campus seja mudado, sim, mas para o centro de Angra. Isto atenderia às necessidades de toda a região, sem privilegiar nenhuma delas e não provocaria a fuga de quadros que, como acontece hoje nas escolas públicas do Rio, não querem arriscar a vida em troca de um emprego estável. Como sonhar não custa e como me foi dito que nos primórdios da chegada da UFF em Angra, as provas eram feitas nas instalações da Marinha, sugiro ao pessoal que batalhe para que se faça algum acordo no sentido de que esta abrigue em seu aprazível terreno o campus da UFF. 

Assim essa excelente universidade fluminense, poderia se orgulhar de ter os dois campus com vista mais bonita do Brasil, quiçá do mundo. Imagino que, tantos os pobres quanto os ricos ou remediados de Angra vão preferir ver seus filhos estudando em um lugar agradável e acredito que a convivência dos universitários com os jovens marujos talvez viesse a ser proveitosa para ambos os lados.

Mendes Fradique, Vitória e algumas batalhas acadêmicas (17/5/14)

Vim poucas vezes a Vitória mas, em todas elas, vim por obra e graça de Mendes Fradique, pseudônimo de José Madeira de Freitas que nasceu em 1893, em Alfredo Chaves. Por isto e também porque concretizou-se a profecia de um colega que disse que eu ia me tornar a maior especialista no mundo em Mendes Fradique (por falta de concorrentes, é claro), toda vez que o Espírito Santo se lembra dele, manda me chamar. Desta vez vim para participar do já tradicional Café Literário promovido pelo SESC e pude aproveitar mais esta oportunidade de lembrar aos capixabas quem foi esse autor maldito que tanto sucesso fez no Brasil dos anos 1920, sendo depois esquecido, ou apenas lembrado pelo que ficou como marca negativa de sua trajetória: a adesão ao integralismo.

Da primeira vez que vim a Vitória, creio que em 1994, foi para participar de outra feira de livros organizada por Francisco Aurélio Ribeiro. Fiz então duas boas amizades que gosto de conservar: Luiz Busatto, responsável pela edição fac-similar da “Gramática Portuguesa pelo Método Confuso”, publicada em 1984 e aquele que considero o maior nome da literatura capixaba contemporânea: Reinaldo Santos Neves. Na sessão de autógrafos que se seguiu, dividi mesa com a célebre escritora e ilustradora de livros infantis, Ângela Lago. Enquanto a fila de pequenos leitores de Ângela dobrava a esquina, eu só fui salva do completo abandono pelo aparecimento de dois velhinhos da Academia Espiritosantense de Letras que tinham conhecido o Mendes Fradique.

Mendes Fradique foi o tema de minha dissertação de mestrado, defendida no antigo IUPERJ (hoje IESP/UERJ) em 1991 e publicada pela editora Bertrand Brasil, em 1993. Antes mesmo da publicação do livro, realizei no BNDES uma grande exposição sobre o Rio de Janeiro de Mendes Fradique. O livro mereceu algumas resenhas na grande impressa, mas sempre um tanto reticentes, pois o integralismo de Madeira de Freitas acabava se sobrepondo à importância de sua obra anterior. Creio que foi por esse caminho que seguiu a publicada por Sergio Augusto no Estadão e que acabou por provocar resposta de outro ex-integralista e velho amigo de Madeira de Freitas, Miguel Reale.

Nos últimos tempos, Mendes Fradique tem me aparecido em muitas encruzilhadas. Uma deles é a coletânea “Quinze médicos intérpretes do Brasil” organizada por Gilberto Hochman, da Fundação Oswaldo Cruz, e na qual se inclui artigo meu sobre Mendes Fradique/Madeira de Freitas. Livro que vai ser publicado pela Editora Hucitec, na Coleção Pensamento Político e Social, dirigida por Élide Rugai e André Botelho. Mendes Fradique escreveu várias e divertidas crônicas tendo os médicos e a medicina como tema, além de um romance: “Dr. Voronoff” (1926), obra de ficção em torno dos experimentos do famoso médico russo. Como precisava rever este livro perguntei à bisneta de Mendes Fradique, Victoria Saramago se a família me cederia um exemplar desse. Marcos, filho de minha saudosa amiga Aparecida Saramago que tanto me estimulou nos estudos sobre o pai, não só me cedeu este e outros livros, como algumas belas fotografias.

Recentemente participei de duas bancas de doutorado em que tive que defender novamente a minha dissertação sobre Mendes Fradique. É que, sendo convidada para avaliar trabalhos que lidavam com os mesmos temas constantes naquele meu livro, constatei que o mesmo não constava das bibliografias. Creio, e disse isto nas duas ocasiões, que quem convida alguém para uma banca deve se certificar antes o que aquele escreveu sobre o assunto. Como considero que as teses que defendi ali continuam boas e úteis, precisei demonstrá-lo. Afinal se a gente não defende o nosso trabalho quem há de, não é mesmo?

No tempo em que Cristiane Costa era editora do “Caderno Idéias”, do “Jornal do Brasil”, ela me pediu para resenhar um livro sobre humor. Eu era então a pessoa que, no Rio de Janeiro, mais vinha produzido sobre o tema, entre artigos e livros que contemplavam as obras de J. Carlos, Nássara, Carlos Estevão, além do humor e da caricatura em geral. Qual não foi meu espanto ao constatar que o autor, velho conhecido nosso, tendo sido já convidado para vir à Casa Rui algumas vezes, usava os mesmos textos de Mendes Fradique que eu usara em meu livro, com a mesma finalidade analítica, sem ter se dado ao trabalho de sequer incluir meu livro na bibliografia. Para não dizer que não havia referência à minha tese, havia sim, uma, no final da nota de número duzentos e tanto. em letra bem miudinha.

O que fiz eu? Nada. Não fiz a resenha e engoli a raiva, pois lembrei do que uma vez me disse o sábio Francisco de Assis Barbosa, cujo centenário, aliás, se comemorou no dia 13 de maio último: ninguém atira pedra em balão que está subindo. Denúncias de plágio relacionadas com obras de sucesso acabam por dar ao denunciador um ar de despeito, de inveja. E afinal, pelos critérios convencionais, meu livro não tinha sido plagiado. Não havia na obra do outro, um só parágrafo copiado da minha. Mas como disse um colega da Casa Rui a quem pedi que o lesse, era evidente que o meu trabalho fora usado como fio condutor de obra que valia-se do jargão acadêmico para dar um ar de maior densidade analítica do que haveria na minha.

O engraçado disto tudo é que na resenha que fizera de meu livro, Wilson Martins criticara justamente o “ranço acadêmico” de que ele estaria impregnado. Imagine se ele lesse o que e como escrevem os autores de trabalhos sobre o assunto que vieram depois daquele. De resto, se preciso travar essas pequenas batalhas em defesa de minha obra, poderei sempre me orgulhar de ter em meus arquivos carta em que Antonio Candido, motivado pela leitura de meu livro, me convidava, em nome da editora para organizar a edição que a Cia das Letras preparava da “História do Brasil pelo método confuso” e que seria lançada em 2004 com introdução e notas minhas.

A menina, o suco de açaí e o mendigo (3/5/14)

Estava esperando o sinal abrir quase na esquina da 19 de Fevereiro com a Voluntários da Pátria. Distraidamente, olhava um mendigo que estava na esquina. Era um desses tantos que a gente vê perambulando pelas ruas do Rio, tipo do mendigo maluquinho, ainda jovem (entre 30 e 40 anos?), pequeno, magro, saco nas costas; bermuda e camiseta tipo “engole ele paletó que o defunto era maior"; pés descalços ou metidos em uma sandália velha. Eu os vejo sempre por aí, e às vezes cruzo com algum, na Lagoa. Quando passam, deixam um mal cheiro no ar e o movimento natural que a gente tem é de se afastar o mais rápido possível, até tapando o nariz. Em geral, são negros, ou mais precisamente cafuzos, se (ainda não for politicamente incorreto dizer que alguém é cafuzo), pois têm uma pele escura, bem escura, mas os traços são mestiços e os cabelos bastos, amarfamanhados, dão à cabeleira um estilo rastafári. O aspecto geral é de sujeira, ausência de banho ou de qualquer outro cuidado de higiene e, talvez, a rigidez do penteado se deva mais a isto do que àquilo.

De onde eu estava, vi o mendigo estender um copo de plástico para alguém, com ar de quem pede algo, acompanhando o pedido com um sorriso cheio de dentes escuros, estragados. Alguém que não estava no meu campo de visão, pois tinha uns três carros na minha frente. Pensei que o gesto era para receber umas moedas, apesar do inusitado do copo de plástico, mas foi aí que vi a pessoa com quem ele falava se debruçar para derramar ali, com a ajuda de uma colher, parte da vitamina de açaí que estava tomando em um copo com a marca da casa de sucos que fica naquela mesma esquina. Era uma moça. Dessas moças bonitas que tem aqui no Rio: corpo bem feito e rijo, altura entre a média e mignon; lindos e longos cabelos, levemente ondulados; roupa despojada, calça jeans, camiseta justa e uma suéter amarrada na cintura.

“Um ar esnobe de quem nada quer”, como dizia aquela música antiga que, talvez pelos autores não terem se dado conta ainda do que são esse seres irresistíveis e de infinitas possibilidades que são as meninas da zona sul do Rio. E completava: “cigarrinho aceso em sua mão/ toca moderninho violão,/ diz que o amor é coisa que não quer” para terminar no refrão “lá vai ela e pensa que é mulher”. E os autores eram Evaldo Gouveia e Jair Amorim que ainda pensavam nas moças do Rio como aquelas que do violão tinham apenas o formato do corpo e aquele ar lânguido e disponível das beldades com duas polegadas a mais que tanto agradavam aos homens dos anos 1950 ou 1960. Beldades como aquelas moças de maiô que, na praia, cercam João Gilberto e Tom Jobim, numa foto clássica do tempo da bossa nova.

A menina do Rio, tal como a vejo e conheci desde que aqui cheguei em 1977, é bem diferente disto e pensa, sim, sabe, tem certeza de que é mulher. Tão mulher que pode até amar outras mulheres. Apesar do cigarrinho (hoje, talvez substituído pela vitamina de açaí), apesar de saber tocar violão ou guitarra, da calça jeans e da camiseta, é muito mulher. E por ser tanto talvez faz um pouquinho de medo aos homens. É a mulher que surgiu das grandes transformações que revolucionaram os costumes naquelas duas décadas de ouro, 1960 e 1970. Tão sedutora ou mais do que as misses que as antecederam, mas cheia de decisão, marchando resoluta pela grande e violenta cidade que conhece tão bem. 
  
 A “Garota moderna” que vi na esquina da Voluntários, já ia atravessar a rua quando foi abordada pelo mendigo que, com o seu melhor sorriso banguela, deve ter lhe pedido um real ou, quem sabe, que lhe pagasse um lanche. Isto suponho, porque estava longe e não vi nem ouvi. Suponho também que talvez tenha sido ela mesma que lhe propõe partilhar o suco de açaí. O fato é que só a entrevi quando curvou-se um pouco para despejar  parte do seu suco de açaí no copo do mendigo. Depois seguiu pela Voluntários no lado oposto da rua, lépida e fagueira, os cabelos “lindos como eu nunca vi”, brilhando e balando ao vento. Imagem da beleza, da limpeza e da juventude sadia, no sentido oposto de seu amigo mendigo, seu avesso, que vinha na minha direção, feliz da vida, com seu meio copo de vitamina de açaí.

 Essa cena, quase um flash, me tocou o coração e quase me levou às lágrimas. Estou ficando emotiva. O fato é que fiquei querendo um bem danado àquela menina desconhecida. Talvez seja porque nesses tempos eu veja emergir por todo lado uma juventude tão estúpida, egoísta e auto-centrada, tão pouco sensível ao sofrimento do outro, que quando a gente encontra alguém capaz de um gesto tão simples, fica com vontade de abraçar e agradecer pelo fato de que ainda existam jovens assim. Jovens de outro quilate, como as tantas que havia no meu tempo de faculdade, no tempo mesmo daquelas da música do Evaldo Gouveia. Como as tantas que vieram um pouco antes e que foram trucidadas pela Ditadura. Como as tantas que, por sua generosidade, pela capacidade que tiveram de compreender a realidade brasileira e pelo esforço que fizeram para tentar minorar o sofrimento dos pobres, lutando pela redução da desigualdade, pagaram um alto preço.

Hoje, que o mundo virou de ponta cabeça. Hoje, onde, até mesmo nos lugares onde os direitos sociais pareciam absolutamente garantidos, estão sendo a todo o dia usurpados, como acontece nos países desenvolvidos da Europa e nos Estados Unidos; hoje, quando até mesmo os mais valentes desanimam diante do rigor com que a sociedade, mesmo na Democracia, ainda pune os que ousaram lutar pela redução das desigualdades; hoje, diante do avanço avassalador das forças do atraso e do obscurantismo, a esperança dos desencantados da minha geração reside em gente como a menina que ainda é capaz de dividir seu suco de açaí com o mendigo.