Estou em campanha. Em campanha para melhorar a imagem de Angra dos Reis. Não aquela Angra dos Reis dos donos de grandes lanchas que parecem mansões flutuantes; nem a Angra dos Reis dos resorts luxuosos; nem mesmo a Angra dos Reis dos que têm ali casas à beira-mar. Mas Angra dos Reis mesmo, a honesta cidade que eu só conhecia de passagem e creio que, nunca tinha visitado antes.
Acontece com Angra algo que acontece hoje com relação ao Brasil: ali também a realidade objetiva é o oposto da sensação de pessimismo que a mídia, através de campanha intensiva, vem conseguindo implantar nos corações e mentes de muitos brasileiros. A sensação de algumas pessoas que vivem em Angra dos Reis é a de que estão no pior lugar do mundo e essa sensação não corresponde à realidade.
Estive lá por quase uma semana participando de uma banca de concurso para a UFF que tem ali um campus avançado. Os dias em que eu e meus colegas de banca, Rosilda Benácchio, Fabrício Pereira da Silva, Renato Lemos e Fábio Koifman estivemos na cidade para almoçar desfizeram essa impressão. O centro é agradável, como boas lojas e tem a vantagem de estar à beira do cais, onde o estacionamento de inúmeras traineirinhas me fez lembrar o “Ver o peso”. Apesar da modernização nem sempre feliz, a cidade conservou alguns prédios históricos remarcáveis. Bem diante do cais se ergue, belo e majestoso, o três vezes centenário Convento do Carmo. Mesmo quando a gente ergue a vista para os morros, onde cresceram de forma desordenada os bairros mais pobres, a densa vegetação que envolve as casas – todas de alvenaria - nos deixa a impressão que os pobres que vivem ali não passam de todo mau. Impressão que nos foi confirmada pelo simpático motorista da UFF, o Válber, nascido e criado no Morro da Caixa D’água.
Entre o centro e a pousada em que fiquei, conheci o quarteirão mais bonito do Brasil, creio eu. Este é constituído pelo conjunto de prédios, residências e jardins da Marinha que estão instalados diante de magnífica paisagem. Tudo ali parece ter sido pensado por um arquiteto com grande capacidade de planejamento. Ao prédio central, bem situado no meio do terreno, aliam-se as demais instalações da Marinha que, na curva seguinte do caminho, são seguidas por um conjunto de casas branquinhas, de portas azuis. Belas edificações, possivelmente do começo do século XX, tendo em seu meio um modesto mas muito charmoso “Hotel de Transito”.
A bem cuidada calçada que fica do lado de lá da pista, à beira-mar, é ideal para o footing. Como cheguei à noite, a beleza do lugar era diferente da que eu veria pela manhã, pois a área em frente aos prédios da Marinha é muito arborizada, e provida de inúmeros bancos desses de praça, todos voltados para o mar, como no nosso Passeio Público. O conjunto dá um ar tão distinto e agradável que redime Angra de todos os pecados que porventura tenha. Logo depois, entra-se por uma estrada estreita que conduz a praias como a do Bonfim, com sua linda capelinha no meio do mar e à Praia Grande onde ficava a nossa pousada Comando Geral (que nome horroroso!). Mas, tomar café sentada bem defronte à uma pequena baía coalhada de barcos, tendo ao fundo a silhueta da Ilha Grande, compensa todas as deficiências das instalações.
O campus fica em Jacuencanga, nome rebarbativo de local distante uns dez quilômetros do centro da cidade e quinze da pousada onde nos hospedaram. Só entendi o sentido da distância entre o lugar em que íamos trabalhar e a universidade quando descobri que há poucos, maus e caros hotéis dentro de Angra e que, nos arredores, o que há são pousadas e hotéis de turismo muito caros para fazerem face ao valor das diárias que uma universidade pública pode pagar. A causa também é a forma da cidade se estende nos dois sentidos do litoral, em bairros mais ou menos modestos, cobrindo ampla extensão entre o mar e as montanhas, cobertas pela vegetação que considero a mais bonita das que já vi: a mata atlântica.
O campus avançado da UFF foi instalado em pequenos prédios situados ao lado do antigo estaleiro da Verolme que hoje promove naquele bairro degradado de Angra uma espécie de renascimento. Mas, por enquanto, Jacuecanga continua a ser um lugar sem encantos. Seus prédios e casas lembram alguns subúrbios do Rio, no que têm de menos gracioso. São construções mal feitas e erguidas sem planejamento algum, de forma que o traçado das ruas não obedece a qualquer lógica. Em seu entorno e bem na beira da estrada é que vimos de fato aquela Angra favelizada de que nos tinham falado.
Soube que a UFF negocia com a prefeitura a transferência do seu campus para lugar situado no extremo oposto de Jacueganga, em região onde existe tráfico de drogas e um quadro de violências que espelha o que vivemos nas favelas do Rio. Tomara que professores e funcionários unam forças para pedir que o campus seja mudado, sim, mas para o centro de Angra. Isto atenderia às necessidades de toda a região, sem privilegiar nenhuma delas e não provocaria a fuga de quadros que, como acontece hoje nas escolas públicas do Rio, não querem arriscar a vida em troca de um emprego estável. Como sonhar não custa e como me foi dito que nos primórdios da chegada da UFF em Angra, as provas eram feitas nas instalações da Marinha, sugiro ao pessoal que batalhe para que se faça algum acordo no sentido de que esta abrigue em seu aprazível terreno o campus da UFF.
Assim essa excelente universidade fluminense, poderia se orgulhar de ter os dois campus com vista mais bonita do Brasil, quiçá do mundo. Imagino que, tantos os pobres quanto os ricos ou remediados de Angra vão preferir ver seus filhos estudando em um lugar agradável e acredito que a convivência dos universitários com os jovens marujos talvez viesse a ser proveitosa para ambos os lados.