As drogas são uma droga (25/6/11)

Mas, parece que tem gente que precisa delas para viver. Tem gente que só curte uma festa se tiver algum barato, se puder ficar doidão. Tem gente que só trabalha ligado e precisa de um combustível para alimentar a energia que seu trabalho exige. Tem gente que desenvolveu uma dependência, precisa da sua droga e fica muito infeliz se não obtiver.

Tem gente que ficou totalmente viciado, se desespera se não conseguir a droga que aplaca o seu vício e é capaz de fazer qualquer loucura para a conseguir. Tem gente que fica tão desesperado pela droga que acaba mesmo se tornando traficante para poder ter acesso fácil.


Felizmente é uma parte pequena da humanidade. Não conheço as estatísticas mas creio que a maior parte das pessoas toca a vida sem necessidade de estimulantes. A maior parte nem bebe, nem fuma. Outra parte expressiva consome álcool de forma moderada ou apenas em ocasiões especiais.


E, mesmo aqueles que não dispensam uma cervejinha no final do dia não representam o maior grupo. Claro que é grande desgraça quando alguém faz deste pequeno prazer que é tomar uma cervejinha, ou uma dose de uísque de vez em quando, um vício. Quando uma cervejinha só já não basta. Quando é preciso beber todos os dias. Quando a vontade de beber já começa ao acordar. Quando se torna um impulso incontrolável e o sujeito tem que dar uma escapada do trabalho para ir na esquina tomar uma.


Quando esconde garrafas em todos os lugares a que tem acesso. Quando as pessoas fazem pelas suas costas aquele sinal com o polegar apontando na direção da boca. Quando o ar em torno dela cheira a álcool para quem está a metros de distância. Quando relaxa totalmente e já não liga mais para o que pensam nem para o que dizem. Quando a bebida se torna a coisa mais importante e tudo o mais, família, trabalho, amigos, lazer passa a ser secundário.


O alcoolismo é fator de destruição de muitas vidas e de muitas famílias. No entanto, será que a melhor forma de impedir essas tragédias pessoais seria a proibição do álcool? Será que criminalizando a venda e o consumo do álcool evitar-se-iam esses dramas?


Imagine que o álcool fosse proibido no Brasil. Quem desejasse tomar uma cerveja, um vinho, uma cachaça ou um uísque teria que recorrer aos contrabandistas que se esconderiam em lugares perigosos. Seriam contrabandistas ou fabricantes que cobrariam altos preços pela mercadoria de baixa qualidade. Esses criminosos teriam que organizar seu esquema de segurança para não serem presos e para evitar isto pagariam elevadas propinas a policiais corruptos.


Ao mesmo tempo, quando um dos fregueses não pagasse a mercadoria ou quando alguém tentasse competir junto à sua clientela, ao invés de recorrer aos mecanismos legais de Justiça teriam que agir por conta própria criando sua própria polícia. E, em um ambiente sem lei, o assassinato, o sequestro e a tortura se tornariam práticas corriqueiras.


Beber, fumar, cheirar, tomar estimulantes são ações individuais que, tal como pular de asa-delta, por exemplo, têm que ser baseadas no livre arbítrio. Você faz porque quer e arca com as consequências. A natureza e o caráter de cada um é que define se o sujeito é propenso a se tornar ou não um dependente. E se tiver essa tendência, nenhuma lei do mundo vai impedi-lo de se tornar.


O custo da repressão ao tráfico de drogas tem sido comparado com a época da Lei Seca nos EUA quando a máfia siciliana controlava o comércio clandestino de bebidas e a violência de suas ações associada à corrupção da polícia demonstrou o equívoco daquela política. Hoje em dia, o drama do dependente e de sua família é consideravelmente aumentado quando seu vício está associado a uma d roga ilícita. Aí, os sofrimentos físicos e psicológicos são agravados pelo medo da violência latente que envolve a relação com o traficante.


Está na hora da sociedade se conscientizar de que as leis atuais, além de não terem conseguido impedir que as pessoas que queriam usar drogas usassem, a fazem pagar um alto preço para financiar uma política ineficaz. O custo da guerra às drogas atinge a toda a sociedade, as despesas com a segurança pública são imensamente aumentadas pelo combate ao tráfico; a violência das quadrilhas atinge indiscriminadamente os trabalhadores pobres que têm a infelicidade de viver em sua área de influência. Para impedir que um pequeno grupo se divirta ou se destrua, o resto da sociedade está sendo sacrificado. E mesmo o tratamento dos viciados fica prejudicado pois o dinheiro que poderia ser investido nele está sendo gasto com o dispendiosíssimo combate ao tráfico.


Legalizem as drogas. Todas elas. Deixem que empresas como as que hoje fabricam bebidas, cigarros e medicamentos cuidem do negócio, garantindo que não venderão seus produtos para menores de idade e que estes só serão comercializados com o selo de aprovação da Anvisa. A qualidade delas melhorará, o controle sobre quem consome e quem não consome também.


Com isto diminuirão os riscos de quem consome morrer por conta de uma droga misturada com qualquer coisa, pois os produtos dos traficantes, por serem ilegais não estão sujeitos a nenhuma fiscalização. Com a legalização, sanções serão definidas para lidar com aqueles que se apresentarem drogadas para o trabalho, tal como hoje são ao que se apresenta bêbado. Nenhum médico pode operar alcoolizado, nem nenhum caixa de banco pode atender embriagado. Tal como hoje há lugares em que não se pode fumar, haverá lugares onde não se poderá consumir drogas.


E quando o acesso às drogas não for mais proibido, quando poder consumi-las for coisa tão banal quanto tomar um uísque no bar favorito, será que seu apelo não será também grandemente reduzido?

Ser pobre e ser bacana (18/6/11)

Mas acontece que a Maria Joana/ Acha que é pobre mas nasceu bacana/ Mora comigo mesmo assim não me engana/ Ela pensa em me deixar/ Já decidiu que vai vencer na vida/ Saiu de casa toda colorida/ Levou dinheiro prá comprar comida/Mas não sei se vai voltar/ Eu vou perguntar, Joana o que aconteceu/ Dinheiro não faz você mais rica do que eu.

A música de Sidney Miller, artista que era muito conhecido no início dos anos 1970 fala do tema que escolhi para essa crônica de hoje: o pobre que quer parecer rico.


Nada contra a ambição. Ao contrário. A ambição de subir, de melhorar de vida, de alcançar determinados objetivos é o grande motor do progresso pessoal e social. Quem não tem ambição, quem pensa pequeno, quem se contenta com pouco acaba conseguindo até menos do que ambicionava. A meu ver, é preciso ter a cabeça nas estrelas para chegar pelo menos na lua. Ao longo do caminho, muita frustração mas para quem é determinado elas dão até mais sabor à próxima conquista.


E isto é o contrário de querer ser mais do que é. De querer aparentar ser o que não se é. De querer ostentar o que não possui.


Lembro a propósito aquele conto do Guy de Maupassant da mulher do pequeno empregado do comércio que, convidada pela primeira vez a ir a um baile e envergonhada de não poder ostentar uma joia, pede emprestado um colar de brilhantes a uma amiga rica. Depois da festa, onde realmente foi um sucesso, no caminho para casa descobre que perdera o colar. Aí começa o seu drama, pois para repor a joia toma empréstimo que o salário modesto do marido não pode pagar e dedica os anos seguintes a trabalhar duro para pagar a dívida. Muitos anos depois reencontra a amiga que se espanta com a decrepitude de seu aspecto. Ela então conta sua história. A amiga rica lhe diz: mas fulana, aquele colar era uma cópia. O original fica sempre no cofre do banco.


Acho a história excessivamente cruel e cito-a apenas por causa do final. A mulher pobre nem sequer poderia imaginar que os verdadeiramente ricos guardavam suas joias nos cofres e ostentavam apenas excelentes imitações. Pequeno detalhe da cultura de uma classe que só quem a frequenta ou a ela pertence seria capaz de conhecer. Ignorância que fez toda a diferença para o seu destino.


Ouvi certa vez um provérbio popular que dizia: o que desgraça o pobre é querer parecer rico. E é mesmo. O que atrasa a vida é o sujeito morar em casa alugada em subúrbio distante e ostentar na garagem vistoso carro do ano. É o professor universitário, que vive apenas do seu salário ir aos melhores restaurantes, tomar os melhores vinhos, porque anda na companhia de amigos empresários ou profissionais liberais de renda bem mais generosa e não pode fazer feio. É a estudante pobre que só pode usar roupas e acessórios das melhores grifes mesmo que isto represente um endividamento que sua bolsa de estudos jamais poderá cobrir.


Por isso não posso deixar de dar o devido valor ao ambiente pequeno burguês em que fui educada. Lá em casa, éramos treze filhos e meus pais com seus modestos salários de funcionários públicos nunca nos deixaram faltar nada. Tínhamos o essencial mas não tínhamos o supérfluo. O carro da família era um só. E viagens só para lugares próximos onde o ônibus chegava. Creio que, ao longo de toda a sua vida, meus pais só foram ao Rio de Janeiro, duas vezes. A pasta de dente e o sabonete eram os mais baratos e comprados em grande quantidade. Pegar um táxi era algo totalmente impensável, uma extravagância. O lanche da escola, levado de casa era pão com goiabada. Nunca íamos a restaurantes, nossas roupas eram feitas em casa pela costureira e, quando possível, recicladas de uns para outros. O par de sapatos tinha que durar o ano inteiro.


Não que a aparência não fosse valorizada. Era sim. A aparência de gente limpa, decente e honesta que morava em casa própria, tinha emprego público e não devia nada a ninguém.


Claro que isto tudo, quando se tinha 15 ou 18 anos parecia muito pobre e não deixava de envergonhar toda a vez que a gente se punha em contato com meninas de famílias melhor aquinhoadas. Principalmente porque as adolescentes são as criaturinhas mais preconceituosas do mundo. Aí a roupa, o sapato, os artigos de toalete tudo era motivo de comparação. E os nossos perdiam longe em qualquer campeonato deste tipo.


É apenas quando se sai para o mundo, quando se tem que cuidar da própria casa, de organizar o próprio orçamento com a própria renda modesta que esses ensinamentos, essa sábia economia doméstica, mostra sua utilidade. E é graças ao que aprendemos em casa que a gente sabe que é bobagem comprar a pasta de dentes que os bacanas citam como a preferida; ou o carro maravilhoso da propaganda cuja prestação come um terço do seu salário; ou a roupa de grife famosa que nem é tão bonita assim e nem lhe cai tão bem mas que todo o mundo sabe de onde é.


Naturalmente que isto também tem a ver com uma cultura em que a aparência, o luxo, o supérfluo não têm muita importância porque outros valores mais altos se alevantam. Os valores da religião católica em que fomos criados, o respeito aos dez mandamentos e a atenção para não incorrer nos sete pecados capitais. Amar ao próximo, não mentir, não roubar, não matar, respeitar pai e mãe... Evitar o orgulho, a preguiça, a gula, o ódio, a inveja...


Também o amor à Pátria tão estimulado em um lar de pais nacionalistas. Amor que se expressava na valorização da cultura brasileira mas também na vontade de que cada um de nós fosse agente de progresso para o Brasil. Que cada um cumprisse com o seu dever, sendo um cidadão honesto e trabalhador.


Esses valores é que eram, agora eu sei, toda a nossa riqueza.

Histórias de namorados (11/6/11)

“O namorado do ano nunca está sem calças ele usa Rony´s”, este foi o slogan criado por Cláudio Pereira para o concurso “O namorado do ano”, um dos tantos que ele promoveu na Fortaleza dos anos 1970. Não sei que argumentos Pereira usou nem que recursos recebeu do patrocinador – o fabricante dos jeans Rony´s - para os eventos relativos ao concurso. Na verdade, esses eventos resumiam-se aos artigos que o Pereira publicava em sua coluna “Patrulheiros Toddy” e às farras homéricas em sua casa da Beira Mar ou no Bar do Anísio, regados a baldes de Cuba Libre. Pode ser até que o apoio do patrocinador tenha sido apenas o fornecimento desse indispensável combustível.

Os candidatos eram amigos e parentes, que não viam com muito entusiasmo a aparição nas páginas na imprensa. Eu, que era o tema preferido do Pereira naquele ano, já tendo sido eleita Garota Cultural, tinha também um namorado que figurava entre os candidatos, o músico e compositor Stélio Valle. O Stelinho era forte candidato, pois segundo a coluna, fizera para mim uma serenata em que cantava esses versos inspirados: “Isabel, que redentora és tu que escravizaste meu coração?”. É de lascar aparecer no jornal associada a poesia de tal qualidade. Mas em se tratando do Pereira o melhor era não reclamar. De resto, não adiantava nada mesmo.

Arrastando um chinelinho

Creio que foi também nesse tempo que a Clélia namorou o Joaquim Cartaxo. Papai e mamãe tinham a maior implicância com o Cartaxo. É que o Cartaxo andava “arrastando um chileninho” como eles diziam. Vestia-se, aliás, como meu filho e seus amigos se vestem hoje, bolsa a tiracolo e roupas (muito) despojadas. Aspecto pouco apresentável para candidato ao posto de namorado de filha do seu Costa e ainda por cima da queridinha do papai. Papai tinha tanta confiança na Clélia que era ela quem dirigia o carro da família. Uma vez o carro andou apresentando uns problemas de bateria. A água secava logo. O papai, irritado, comentou com o filho caçula: “Não sei por que a água dessa bateria anda secando tão rápido.” O Fred que conhecia a implicância do papai com o Cartaxo, só de molecagem falou: “Sabe o que é, papai? É que o Cartaxo é viciado em água de bateria. De vez em quando ele vai lá co m um canudinho e bebe tudo.”

Brito

Genro mesmo de qualidade, totalmente aprovado pelo sogro era o Edmilson, marido da Socorro. Francisco Edmilson Brito era cabra bom do Juazeiro, gente que gosta da terra, de um tipo de família genuinamente sertaneja, à qual o papai logo se afeiçoou. Papai gostava tanto de ter Socorro e Edmilson por perto que insistiu muito para que eles comprassem a terra contígua ao sítio dele, lá no Camará. Coitado do Brito que, com seu modesto salário do Banco do Nordeste ia ao cinema com a namorada levando os três irmãos mais novos, Clélia, Isabel e Fred. Foi assim que assisti no Cine Art e me apaixonei definitivamente pelo “Mogli” e suas maravilhosas canções adaptadas com a maior competência para o português. “Só uso o necessário”, tema do Balu; a marcha dos elefantes “Esse nosso batalhão, é uma instituição...”; além da música daqueles urubus malandros fantásticos e da do reino dos ma cacos, todas ótimas.

Belo par

Mas o genro mais bonito que pintou no pedaço foi mesmo o Benevides. José Evenilde Benevides Martins, o namorado da Lucia era representante do Laboratório Carlo Erba quando começaram a namorar. Andava em um jipinho azul clarinho, o que, para nós, que tínhamos apenas o carro da família, era o que podia haver de mais bacana no mundo. Aliás, a Lucia e o Zé formaram o casal de namorados mais bonito da família. Ela era lindinha mesmo. De beleza diferente das irmãs, Lucia tem um tipo menos Lustosa e mais Ferreira Costa. Certa semelhança com a tia freira, Clélia, no tipo físico delicado, no tom mate da pele, nos cabelos castanhos levemente encaracolados, nos olhos vivos. Uma amiga que a conheceu, há poucos anos no Rio e que costuma ser muito crítica nesses quesitos observou: “Como ela é bonita. E chique.” Fui eu quem levou as alianças em seu casamento e seu vestido de noiva, criado por ela mes mo, foi o que de mais moderno, elegante e, ao mesmo tempo, discreto, se usou Fortaleza daquele tempo.

Mãos finas

Dentre as histórias de papai que contei para o Mario Bag, uma das que ele mais gosta é a dos critérios dele para identificar se um sujeito é trabalhador ou não. É apertar-lhe a mão e sentir se palma é áspera ou lisinha e macia. No primeiro caso, trata-se de sujeito trabalhador. No segundo, de cabra folgado, incapaz de pregar um prego, de consertar uma pia, de trocar um pneu de carro. E Mario Bag que não conheceu papai imagina que se aqui tivesse vindo no tempo dele ouviria sua ordem ao fiel escudeiro Antonio Gomes: “Antonio, veja a mão desse cabra aí.” E Mario Bag seria logo reprovado, pois desenhar não deixa a mão áspera. É ofício que pede mesmo mãos macias e movimentos leves. Valmir Lopes de Lima, marido da Clélia, com suas mãos de intelectual de hábitos sofisticados também não deve ter merecido boa nota. No entanto, quando casaram, a noiva era mulher independente, cujas sensata s decisões os pais tinham aprendido a respeitar. A entrada da Clélia na igreja conduzida pelos dois, o pai e a mãe, é cena de profundo simbolismo.

“Devolva-me”


De resto, já não se fazem mais namorados nem namoros como antigamente. Namoro era coisa séria que envolvia a família da namorada sempre atenta na preservação da boa imagem da moça. Acabado o namoro devolviam-se cartas e presentes. Aliás, não poderia terminar essa crônica sem contar o caso daquele namorado da mamãe que, na Paraíba do começo dos anos 1930 mandou-lhe muitas cartas e que, findo o namoro, como era de praxe, as obteve de volta. Voltaram cheias de correções em vermelho. Mamãe que era professora nunca perdoou erro de português. Coitado desse namorado, além de levar um fora ainda foi reprovado naquela matéria.