Ser pobre e ser bacana (18/6/11)

Mas acontece que a Maria Joana/ Acha que é pobre mas nasceu bacana/ Mora comigo mesmo assim não me engana/ Ela pensa em me deixar/ Já decidiu que vai vencer na vida/ Saiu de casa toda colorida/ Levou dinheiro prá comprar comida/Mas não sei se vai voltar/ Eu vou perguntar, Joana o que aconteceu/ Dinheiro não faz você mais rica do que eu.

A música de Sidney Miller, artista que era muito conhecido no início dos anos 1970 fala do tema que escolhi para essa crônica de hoje: o pobre que quer parecer rico.


Nada contra a ambição. Ao contrário. A ambição de subir, de melhorar de vida, de alcançar determinados objetivos é o grande motor do progresso pessoal e social. Quem não tem ambição, quem pensa pequeno, quem se contenta com pouco acaba conseguindo até menos do que ambicionava. A meu ver, é preciso ter a cabeça nas estrelas para chegar pelo menos na lua. Ao longo do caminho, muita frustração mas para quem é determinado elas dão até mais sabor à próxima conquista.


E isto é o contrário de querer ser mais do que é. De querer aparentar ser o que não se é. De querer ostentar o que não possui.


Lembro a propósito aquele conto do Guy de Maupassant da mulher do pequeno empregado do comércio que, convidada pela primeira vez a ir a um baile e envergonhada de não poder ostentar uma joia, pede emprestado um colar de brilhantes a uma amiga rica. Depois da festa, onde realmente foi um sucesso, no caminho para casa descobre que perdera o colar. Aí começa o seu drama, pois para repor a joia toma empréstimo que o salário modesto do marido não pode pagar e dedica os anos seguintes a trabalhar duro para pagar a dívida. Muitos anos depois reencontra a amiga que se espanta com a decrepitude de seu aspecto. Ela então conta sua história. A amiga rica lhe diz: mas fulana, aquele colar era uma cópia. O original fica sempre no cofre do banco.


Acho a história excessivamente cruel e cito-a apenas por causa do final. A mulher pobre nem sequer poderia imaginar que os verdadeiramente ricos guardavam suas joias nos cofres e ostentavam apenas excelentes imitações. Pequeno detalhe da cultura de uma classe que só quem a frequenta ou a ela pertence seria capaz de conhecer. Ignorância que fez toda a diferença para o seu destino.


Ouvi certa vez um provérbio popular que dizia: o que desgraça o pobre é querer parecer rico. E é mesmo. O que atrasa a vida é o sujeito morar em casa alugada em subúrbio distante e ostentar na garagem vistoso carro do ano. É o professor universitário, que vive apenas do seu salário ir aos melhores restaurantes, tomar os melhores vinhos, porque anda na companhia de amigos empresários ou profissionais liberais de renda bem mais generosa e não pode fazer feio. É a estudante pobre que só pode usar roupas e acessórios das melhores grifes mesmo que isto represente um endividamento que sua bolsa de estudos jamais poderá cobrir.


Por isso não posso deixar de dar o devido valor ao ambiente pequeno burguês em que fui educada. Lá em casa, éramos treze filhos e meus pais com seus modestos salários de funcionários públicos nunca nos deixaram faltar nada. Tínhamos o essencial mas não tínhamos o supérfluo. O carro da família era um só. E viagens só para lugares próximos onde o ônibus chegava. Creio que, ao longo de toda a sua vida, meus pais só foram ao Rio de Janeiro, duas vezes. A pasta de dente e o sabonete eram os mais baratos e comprados em grande quantidade. Pegar um táxi era algo totalmente impensável, uma extravagância. O lanche da escola, levado de casa era pão com goiabada. Nunca íamos a restaurantes, nossas roupas eram feitas em casa pela costureira e, quando possível, recicladas de uns para outros. O par de sapatos tinha que durar o ano inteiro.


Não que a aparência não fosse valorizada. Era sim. A aparência de gente limpa, decente e honesta que morava em casa própria, tinha emprego público e não devia nada a ninguém.


Claro que isto tudo, quando se tinha 15 ou 18 anos parecia muito pobre e não deixava de envergonhar toda a vez que a gente se punha em contato com meninas de famílias melhor aquinhoadas. Principalmente porque as adolescentes são as criaturinhas mais preconceituosas do mundo. Aí a roupa, o sapato, os artigos de toalete tudo era motivo de comparação. E os nossos perdiam longe em qualquer campeonato deste tipo.


É apenas quando se sai para o mundo, quando se tem que cuidar da própria casa, de organizar o próprio orçamento com a própria renda modesta que esses ensinamentos, essa sábia economia doméstica, mostra sua utilidade. E é graças ao que aprendemos em casa que a gente sabe que é bobagem comprar a pasta de dentes que os bacanas citam como a preferida; ou o carro maravilhoso da propaganda cuja prestação come um terço do seu salário; ou a roupa de grife famosa que nem é tão bonita assim e nem lhe cai tão bem mas que todo o mundo sabe de onde é.


Naturalmente que isto também tem a ver com uma cultura em que a aparência, o luxo, o supérfluo não têm muita importância porque outros valores mais altos se alevantam. Os valores da religião católica em que fomos criados, o respeito aos dez mandamentos e a atenção para não incorrer nos sete pecados capitais. Amar ao próximo, não mentir, não roubar, não matar, respeitar pai e mãe... Evitar o orgulho, a preguiça, a gula, o ódio, a inveja...


Também o amor à Pátria tão estimulado em um lar de pais nacionalistas. Amor que se expressava na valorização da cultura brasileira mas também na vontade de que cada um de nós fosse agente de progresso para o Brasil. Que cada um cumprisse com o seu dever, sendo um cidadão honesto e trabalhador.


Esses valores é que eram, agora eu sei, toda a nossa riqueza.

3 comentários:

  1. Por essa e por outras que ensino meus filhos que a grande onda é estar preperado. E, para os vícios que o mercado injeta na gente, tem sempre o genérico - rs. Bj.

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  2. Adorei Isabel! Alegra minha segunda-feira gripada, saber que ainda tem gente nesse mundo a fora, que sabe que a verdadeira riqueza da vida não está em coisas que podemos tocar ou ver, e menos ainda comprar. Certamente entre gritos, choros, alguns tropeços e momentos de incompreensão meus pais tentaram fazer o mesmo que os seus por mim e pela Júlia, e de fato conseguiram, esse é o meu maior tesouro.

    Luíza da Matta

    Luíza da Matta

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  3. oi, Luiza, que bom receber seu comentário. e logo depois do meu sobrinho, Max. obrigada a vocês pelo retorno. é sempre bom saber que o texto foi lido e que, principalmente, tocou. beijo grande, Isabel

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