Petit Nicolas e outras crianças de classe média (30/3/13)

Outro dia conversava com amigos franceses sobre o quanto me surpreendera positivamente o Petit Nicolas. É que para eles as histórias do Petit Nicolas foram elementos formadores em suas infâncias. Assim como para nós, a leitura dos livros de Monteiro Lobato, apesar da diferença de tempo entre as duas publicações. O livros do Petit Nicolas de René Goscigny, com ilustrações de Sempé, eu só descobri quando fiz um curso na Aliança e a professora Marisa que descobri ser mulher do historiador Luiz Carlos Soares, me adotava a leitura para nos fazer aprimorar o vocabulário. Um detalhe curioso desse curso de francês é que um dos cinco alunos era o ator Eduardo Moscovis. Que, aliás, no convívio, revelou-se um rapaz muito simpático, inteligente e bacana.

Voltando ao Petit Nicolas. Sua leitura foi, para mim, uma revelação. Imagino que para muitos dos leitores essa só se deu através do filme de mesmo nome que tanto sucesso fez. Aqui já falei dele mais de uma vez fazendo algumas ressalvas especialmente às partes que não foram baseadas nas histórias criadas pelo muito genial e ainda insuficientemente louvado Goscigny. Pois o que há de original nesses episódios envolvendo um garoto de classe média francês absolutamente comum é a maneira como Goscigny conta suas aventuras. A maneira tão inteligente e sensível como ele consegue realmente mostrar, para usar um lugar comum, a vida pelos olhos de uma criança.

Esse aspecto é mais evidente na relação de Nicolas com seu pai. É um pai que nada tem de herói nem de anti-herói. Um pai como eu, você e muita gente teve. Um pai trabalhador, temendo o desemprego, tendo que cortejar o chefe e, ao mesmo tempo, exercer em casa a autoridade de pai sem deixar de ser amigo e afetuoso. Um difícil equilíbrio que se prova em situações como a do dia em que Nicolas vai passar o dia na casa do amigo rico e o pai vai levá-lo em seu modesto automóvel. Diante da vastidão do jardim onde o sol se reflexo nas águas de uma piscina, do olhar deslumbrada do filho, o pai de Nicolas fica evidentemente inferiorizado. Sua reação, ao deixar o filho na porta onde o receberia o mordomo é dizer com ironia: não coma muito caviar.

A maior parte das histórias tem um humor assim delicado, feito para o seu público alvo mas que não deixa de nos sensibilizar. São episódios como o dever de matemática que o filho pede ao pai para ajudar a fazer e ele tenta mas diante da dificuldade desiste com irritação alegando ter tido um dia de trabalho desgastante; a visita do amigo de infância que acaba revelando aspectos da infância do pai que ele preferia que o filho não conhecesse e, ainda a eterna briga do pai com o vizinho.

O equivalente na minha infância para as aventuras do Petit Nicolas foram as revistas em quadrinho da Luluzinha e do Bolinha. E creio que entre os dois universos infantis há muitos pontos de contato. As crianças da turma do Bolinha são um pouco maiores do que as da turma do Petit Nicolas. Elas já estão na rua e é lá e não na escola que suas aventuras acontecessem. Outra diferença é que os meninos já enfrentam e temem uma turma rival, a terrível turma da zona norte. Ao contrário do Petit Nicolas, nessas histórias, a presença das meninas é constante e a interação delas com os meninos, todo o mundo no mesmo nível, é comum. Apesar da existência do clube do Bolinha, onde menina não entra, a presença feminina garante o papel de protagonista para a Luluzinha. Esta, mantém uma relação ambígua com o Bolinha, tem ciúmes da bela e loira Glorinha, do mesmo modo que o Bolinha não esconde o despeito com o colega rico e também loiro.

Enfim são universos infantis com muitos pontos de contato a partir da relação das crianças também com os adultos - o caça-gazeteiro do Bolinha é muito parecido com o bedel da escola de Nicolas. O mundo paralelo de fantasia, como aqueles que as crianças inventam a partir de um amigo invisível, está presente na revista da Luluzinha, através das historias das bruxas Meméia e Alceia que ela narra para o Alvinho. Há ainda essa mistura entre crianças menores e maiores, umas se ocupando das outras, algo bem norte-americano que não aparece no Petit Nicolas onde seu grupo de amigos todos meninos, tem a mesma idade. estuda na mesa sala e mora no mesmo bairro.

Outra turma que conheci já no final da adolescência foi a turma do Charlie Brown. Uma turma que nas tirinhas de Schulz se revela bem diversa da turmas da Luluzinha e do Petit Nicolas. O mundo do Charlie Brown pode ser muito cruel e aquele lado malvado das crianças que conhecemos bem se revela com bastante freqüência. E neste mundo cruel, a vitima preferida é o Charles Brown. Ele é um fracasso na escola, no namoro e no esporte. Ele não consegue soltar uma arraia, ou pipa, como dizem no Rio, sem se embolar todinho nos fios e papéis. Com sua enorme cabeça Charlie Brown é um fracasso até na aparência. Seu time de futebol é um desastre e ele ainda tem para lembrar sempre do seu fracasso a terrível Lucy, menina autoritária e má que o está sempre botando prá baixo. É ela que tira a bola toda a vez que Charlie Brown vai chutar fazendo com que ele caia. A turma tem outros elementos, com destaque para o Linus, sempre agarrado com o seu cobertor; a garota de cabelos naturalmente encaracolados pela qual Charlie Brown é apaixonado sem esperança e o o Snoopy que é um herói com luz e histórias próprias. Mas o que me impressiona é a angustia do Charlie Brown, suas noites em claro, olho aberto pensando nos seus problemas. Tudo isto parece muito pouco adequado para uma história infantil. E, no entanto a gente sabe que tem a ver com a realidade.

De qualquer maneira, quero crer que o ponto mesmo que une essas histórias, além de serem histórias de meninos de classe media, é a qualidade da construção dos tipos, sua maior densidade em comparação com outras historinhas do gênero e sua capacidade de encantar ainda até mesmo um adulto como eu que só tardiamente pode juntar a essa galeria as excelentes histórias do Petit Nicolas.

Cultura Nacional: sempre a se reinventar (23/3/13)

Vem de muito longe o temor da globalização cultural. Esta é confundida com o colonialismo cultural em que os países tecnologicamente mais pobres seriam bombardeados pelos modelos cultural dos países ricos. O que implicaria no desaparecimento da especificidade cultural dos primeiros. Todo o mundo ficaria igualzinho ao pessoal das séries de TV americana que a gente via de tarde. E, de fato, ao longo da história, os modelos de beleza e de comportamento dos países mais desenvolvidos, com população em sua maioria, branca acabavam fazendo com que sonhássemos ser iguais a eles. Eu, por exemplo, quando era menina, bem pequena, tive uma caixa de sabonete em que guardava meus lápis de cor que eu simplesmente adorava. Tudo que eu queria era me transformar naquela linda menina loira, de cabelos cacheados e olhos muito azuis que enfeitavam a tampa. Eu desejava até que houvesse algum meio de nascer de novo para ser daquele jeito. E aquelas famílias maravilhosas, com o papai chegando do trabalho, sempre de terno, a mamãe linda, com seu avental, sempre alegre e sorridente, cercada por seus maravilhosos eletrodomésticos e seus filhos travessos e felizes? Era mesmo tudo o que a gente queria ser.

Foi logo após o meio deste século que MacLuhan cunhou o termo Aldeia Global para definir o fenômeno da globalização cultural promovido pela cultura de massas. O que aconteceu de lá para cá? Lembro bem de quando a TV chegou ao sertão do nordeste. Tornou-se corriqueira a imagem da população da pequena cidade de interior reunida na praça, paralizada em torno de um único aparelho de TV. Antes da TV, muito antes, fora o cinema. O fascínio da juventude do sul da Itália (tão parecido com o nordeste brasileiro) pelo cinema americano inspirou muitos diretores italianos. Será que a cultura da população do interior da Itália foi drasticamente transformada pelo cinema? O que a gente pode ver na filmografia de Frederico Fellini, em filmes como “Noites de Cabiria” e “Ginger e Fred” é que essas coisas são acolhidas, absorvidas e transformadas quando entram em contato com um outro povo e sua cultura.

        A humanidade não cansa de nos surpreender com o inusitado, com as soluções mais inesperadas, com os fenômenos mais intrigantes. Quem esperaria assistir, desde o final do século XX, ao recrudescimento dos costumes associados à cultura muçulmana? No tempo do feminismo, da liberação sexual, da legalizaçao dos casamentos homossexuais, quem esperava ainda ver as cenas de mulheres  envoltas em véus? Se elas nos assustam pelo que temos notícia das violências associadas à inferiorização da mulher em alguns países do Oriente Médio, ver nas grandes cidades europeias, belas e resolutas mulheres envoltas em seus véus por escolha delas mesmas, não deixa de ser algo desconcertante. O véu e outros assessórios exóticos que vemos mulheres asiáticas e africanas usanndo em Londre e Patris são escolhas culturais, símbolos de resistência e de afirmação do que lhes é peculiar em contraste com o que lhes impõe o Ocidente.

Creio que os que temem tanto a subversão das culturas pela cultura de massas as vêem como muito frágeis, sujeitas a se destruirem ao menor contato. Ao mesmo tempo, são irreais os projetos dos que pensam em preservá-las em sua pureza, isolando de qualquer influência externa as manifestações folclóricas, por exemplo. Como manifestações vivas da cultura elas se transformam também ao contato com o mundo exterior até porque seus atores vivem nele. É só observar como foram se adaptando algumas danças e festas populares no Norte e Nordeste. Nem sempre a mudança é para melhor, mas, enfim, talvez só por causa dela é que aquela tradicão tenha se mantido viva.

A MPB, esta mesma que toca no rádio, é a nossa forma de expressão cultural mais respeitada internacionalmente. Ela vem se transformado desde a gravação do primeiro samba, em 1917, “Pelo telefone”, expressão pura do povo da Pequena África, região do Estácio, bairro do Rio. Depois que Pixinguinha e os oito batutas desembarcaram em Paris, no começo dos anos 1920, sob o patrocínio de Arnaldo Guinle, o samba mudou. Se lá chegaram cantando: “nous sommes les batutas/ nous faisons tout le monde danser le samba”, eles voltaram de lá marcados pelo jazz que então corria solto em Paris. E foi a entrada dos metais pesados junto com a batida rítmica dos instrumentos de percussão que gerou essa coisa nova e sensacional que foi o samba dos anos 1920 e 1930. E que de lá para cá não cansa de se reinventar.

Nesta matéria vale à pena contrastar a atitude de Mário de Andrade, valente protetor do nosso folclore e do nosso patrimônio cultural, pouco simpático à MPB que tocava no rádio, com a de Oswald Andrade e a concepção antropofágica, inspirada nos índios que devoravam o colonizador. A idéia é de que ao devorar a cultura do outro, ao invés de nos transformarmos no outro, enriquecemos a nossa própria cultura, criando algo novo. Sem dúvida o trabalho de Mário de Andrade e de Rodrigo Mello Franco em defesa do nosso patrimônio cultural foi admirável e é indispensável. Foram eles  que formularam para o Estado uma política de preservação que nos garantiu a existência hoje dos chamados  tesouros do patrimônio: Ouro Preto,  Missões, Goiás Velho. No eixo desta discussão está o papel que cabe ao Estado, no que diz respeito à preservação da cultura nacional. Preservar do esquecimento, do desaparecimento as manifestações culturais tradicionais é sua obrigação. No entanto, cultura pressupõe liberdade, inclusive de se transformar. É preciso estar aberto ao novo. No meio de tanta novidade, muita coisa descartável haverá. Estas, como o próprio nome diz, desaparecerão sem deixar vestígios. E o que estiver destinado a permanecer, permanecerá. 

Filosofia da irreverência (16/3/13)

     A grande atração da tradicional festa do dia da cultura do ano passado na Casa de Rui Barbosa foi Eduardo Dusek. Na linha do “one-man-show”, ele conseguiu divertir com suas anedotas e levantar a platéia com seus antigos sucessos. Dos que interpretou naquela noite o meu preferido é “Doméstica”. Para quem não lembra a música conta a historia de uma jovem e ingênua mulata do interior que, na capital, vai trabalhar na casa de um casal de americanos. A dona da casa, além de lhe pagar mal ainda lhe dava uns bofetes. Ao que parece o casal era traficante de cocaína mas no dia em que a policia bateu lá disseram que a empregada é que era a dona da droga. Na prisão, a doméstica virou uma liderança e saiu determinada a se dar bem. Fazendo a vida nas calçadas de Copacabana, conheceu um alemão que casou com ela e a levou para Sttutgart. O final da história é com a mulata transformada em baronesa dona de um castelo que, depois de por anúncio no jornal para contratar uma doméstica, vê bater na sua porta a mesma americana que um dia fora sua patroa. Contando assim não tem tanta graça mas a música com a repetição da palavra “doméstica” -  “doméstica, era a americana de doméstica”, - na voz escrachada do Dussek é impagável.  
  
     Tive dois LPs de Eduardo Dusek. Um, de 1983, “Cantando no chuveiro” e outro de 1986, “Dusek na sua”. Reuniam, sem dúvida, em sua maioria, canções de caráter humorístico. A maior parte delas tem letra de Luis Carlos Góes e são, a qualquer momento em que se ouça, divertidíssimas sátiras sociais. Barrados no baile, sobre o casal que tenta entrar de penetra em uma festa é engraçada, ritmicamente ótima, uma feliz combinação de boa música com uma letra inteligente e tremendamente crítica, completamente lúcida e atual. Do mesmo nível é “O problema do nordeste” ou “Caatinga tour” que tem como refrão: o problema do nordeste, menina, é não ter piscina (bis)/ o grilo da caatinga, que não vinga, é não ser Joatinga (bis). E pergunta: “eu não sei porque que os políticos não azulejam logo nosso sertão? ” para em seguida propor outras soluções: “um decorador que decore logo o sertão” e “o sertão acarpetar/ acarpetar logo o sertão”. Tem crítica mais saborosa à alienação das “socialites” do sudeste com relação aos problemas brasileiros do que esta?

     No outro disco, “Dusek na sua”, destaque merece A índia e o traficante, a melhor paródia que se conhece à célebre guarania: Índia. Paródia que não incorpora a melodia do original, apenas se inspira nela para criar música nova, melodicamente bela. Ao mesmo tempo em que impõe um toque de dramaticidade na história que se desenrola: da índia que se envolve com um traficante. O resultado é extremamente realista, contemporâneo, verdadeira crítica da corrupção dos índios abandonados à própria sorte, por esta latino-america afora, presas mais fáceis das drogas e do crime. Realmente feliz foi a forma como os artistas apresentaram a ignorância inicial da índia e sua súbita ascensão no mundo do crime, culminando a trama com um desfecho trágico. Do mesmo disco é o “Samba-heavy” ou “Enredo geral”, paródia tão boa quanto o “Samba do crioulo doido” de Stanislaw Ponte Preta ao estilo samba-exaltação. Com a vantagem para o samba de Dusek/Góis de funcionar também como aguda crítica social: “e os cordão, tudo de ouro meu irmão/ tem turista na bandeja...”

     Em São Paulo, na mesma linha, mas com uma sintonia diferente, mais paulistana, mais cool, apareciam o Rumo, o Premeditando o Breque, Arrigo Barnabé, Itamar Assunção, lançando sucessos em que a boa música se aliava ao humor. Era bom e era divertido. Aquela fase passou mas não foi sucedida por outra mais rica e criativa. Ao contrário, aquela foi a última boa safra da produção musical brasileira. Se muita coisa ruim emergiu das águas daquela fase irreverente, pouca coisa aconteceu depois digna de registro (afora a sucessão interminável de grandes jovens cantoras).

     Essa turma toda é da mesma geração de Regina Casé, Luis Fernando Guimarães, Débora Bloch, Diogo Vilela, Fernanda Torres e Guilherme Karan. Quem era jovem no Rio dos anos oitenta, os viu nos palcos fazendo um humor finíssimo, sofisticado, com uma aguda percepção do cotidiano. Os espetáculos de Hamilton Vaz Pereira no “Asdrúbal trouxe o trombone” e os esquetes em que Pedro Cardoso contracenava com o precocemente falecido Felipe Pinheiro, marcaram uma época. Na TV, esse humor deu origem à ótima TV Pirata, que teve alguma continuidade nas primeiras fases do Casseta & Planeta. Mas foi a competência de Guel Arraes que, incorporando e inventando em cima de seus recursos técnicos que o meio possibilitava, fez de Armação ilimitada com Andréa Beltrão, algo realmente novo. Gênero de humor que teria continuidade com Comédia da vida privada e com a versão atual de  A Grande Família.
     O humor como expressão da arte esbarra sempre na equivocada visão desta como algo sublime, fora do cotidiano, além da realidade. Mas o que foram o Modernismo e o Tropicalismo senão a subversão deste conceito pelo humor, o realce como um valor da consciência da capacidade de se auto-satirizar que tem o brasileiro? Uma vez me perguntaram se meus estudos sobre humor e caricatura não reforçavam a imagem do Brasil de país pouco sério, onde tudo acaba em comédia. Devolvi com outra pergunta indagando se seria preferível que fosse um país onde tudo acabasse em tragédia, um país hamletiano, cujo povo angustiado marcharia inexoravelmente para o suicídio coletivo. Melhor assim, não? Melhor que este seja um povo com uma visão crítica de si mesmo, capaz de rir da própria desgraça, capaz de carnavalizar a vida. Seria equivalente a uma filosofia zen-budista que possibilita relativizar o drama e seguir adiante. Povos que se levam muito a sério acabam produzindo holocaustos, vietnans e iraques.

O poder e a imprensa (9/3/13)

D. Pedro I adorava escrever para os jornais. Originais de alguns de seu artigos, muito rabiscados mas escritos com boa letra (bem melhor do que a do pai) estão guardados no Museu Imperial de Petrópolis. Não está lá, no entanto, o mais célebre, publicado em janeiro de 1823 em “O Espelho”, cujo sugestivo título: “Calmante do Malagueta ou p... que o pariu a ele”, antecipava o conteúdo. Como não existe o original ficou sempre a dúvida sobre a autoria mas, como o estilo faz o homem e aquele artigo chulo tinha bem o estilo do nosso irrequieto imperador tudo leva a crer que foi ele mesmo quem o escreveu.

Se não hesitava em ofender, d. Pedro no entanto era muito pouco tolerante com qualquer crítica impressa. De forma que quando Luis Augusto May, o Malagueta, publicou em junho de 1823 artigo em que atacava principalmente a José Bonifácio mas que fazia também veladas ao imperador, foi surpreendido por visita noturna de uma bando de embuçados em sua casa no bairro de São Cristóvão. Apanhou muito o Malagueta, herdando dessa surra defeito permanente em uma das mãos.

Seis anos depois, em 1829, por conta de artigo em que fazia graça com o casamento de d. Pedro com d. Amélia, a segunda imperatriz, o Malagueta sofreu novo atentado. Malquisto por muitos de seus colegas, May foi então objeto de uma quadrinha publicado em panfleto: “Caro Malagueta meu,/ o mundo pasmado está/ do tanto que se vos dá/ do pouco que se vos deu”. Em um tempo em que, por falta de clareza nas leis, gozava-se de franca liberdade de imprensa, com direito ao anonimato, ou seja a não assinar o que se publicava, era na base da pancada ou do tiro que as questões entre as partes ofendidas eram resolvidas.

Foi nesse contexto que Libero Badaró se tornou o primeiro jornalista a ser assassinado no Brasil por conta de seus escritos. Badaró chegara ao Brasil em 1826,  estabelecendo-se como médico em São Paulo, em 1828. No ano seguinte lançou o Observador Constitucional que agitaria a vida da cidade, defendendo a liberdade de imprensa e uma reforma rconstitucional que estabelecesse uma monarquia federativa descentralizada. A contundência de seus artigos foi a causa do atentado que sofreu na noite de 20 de novembro. Reza a tradicao que suas últimas palavras foram: “Morre um liberal, mas não morre a liberdade”. Durante a Regência (1831/1840) a proliferação de panfletos e jornais propiciaria ainda alguns episódios do tipo. Em novembro de 1832, seria o amigo de Badaró, Evaristo da Veiga quem receberiam um tiro em uma emboscada. Este não mataria o jornalista mas motivaria quadrinha publicada em um dos pasquins:  Deu-se um tiro no Evaristo/ no livreiro deputado/ muito mal feito foi isto/ foi tiro muito mal dado.

D. Pedro II, ao contrário do pai, foi totalmente tolerante com o que se publicava sobre ele nos jornais. Talvez não seja exagero dizer que foi durante o Segundo Reinado que a imprensa gozou de maior liberdade no Brasil, daí que existam tantas caricaturas suas. E, tudo leva a crer que tal superexposição funcionou a favor e não contra a construção de uma imagem positiva de D. Pedro II junto ao povo sobre o qual reinava. Mesmo em quando as críticas foram mais contudentes, até mesmo ofensivas como as que publicava Apulco de Castro no seu O corsário, o Imperador nada fez contra o jornalista. Quem deu cabo de Apulco de Castro foram os militares que, sentindo-se ofendidos por alguns de seus artigos, o tocaiaram e lincharam numa esquina da hoje boêmia rua do Lavradio.

E foi, de fato, sob o governo dos dois presidentes militares que a imprensa pode sentir saudades do tempo do velho Imperador. Se o Marechal Deodoro não tomou medidas legais contra o jornal monarquista, a Tribuna, seus sobrinhos, todos militares empasteleram o jornal e causaram a morte do tipógrafo. Seu sucessor, Floriano, prendeu e mandou para longe do Rio de Janeiro os mais ousados como José do patrocínio e Olavo Bilac. Durante a República Velha, oposição mesmo que fazia era Edmundo Bittencourt, do Correio da Manhã. Chegou a bater-se em duelo contra seu conterrâneo o também gaúcho, Pinheiro Machado, presidente do Senado e eminência parda dos primeiros anos do século XX. Tão forte era a influência do jornal de Bittencourt que ele esteve por trás de duas agitações importantes no período: insuflando as massas contra o governo na Revolta da Vacina, em 1904 e tentando sabotar a eleição de Artur Bernardes, em 1922, com o famoso caso das cartas falsas.

A Revolução de 1930 marca um processo de acendente controle da imprensa. Fatos como a Revolução Constitucionalista de 1932, em São Paulo e a frustrada tentativa de golpe dos comunistas em 1935, justificaram restrições que se tornariam ostensivas depois do golpe de 1937, quando a censura se torna política de governo. No entanto, reinou franca liberdade de imprensa durante o segundo governo Vargas. Foram os jornais de oposição que produziram a violenta campanha que resultou no desfecho trágico da madrugada de 24 de agosto de 1954. A censura mesmo só voltaria a predominar em 1964, a partir do golpe militar que meteria os censores dentro das redações.

Felizmente, depois da redemocratização, o Brasil vive período de franca liberdade de imprensa e as questões relativas ao abuso da liberdade de imprensa, tal como no começo de nossa história são resolvidas nos tribunais. Há que se questionar apenas a possível parcialidade da justiça. E, neste caso, talvez esteja na hora de se promover no Brasil uma campanha pela moralização dos tribunais em todas as suas instâncias. Pelo fim das ligações anti-democráticas de compadrio entre juizes, promotores, jornalistas, empresários e políticos influentes que fazem com que o rigor da lei só atinja os que não têm conexões fortes junto a esses grupos poderosos.

Portugal (2/3/13)

Quando se proclamou a República no Brasil, Eça de Queiroz, o maior escritor português de todos os tempos, foi um dos primeiros a nos gozar. Disse ele que a nossa revolução fora uma espécie de golpe de mágica em que a um simples gesto de Deodoro com sua espada, “sem choque, sem ruído, como cenas que deslizam, a monarquia, o monarca, o pessoal monárquico” tinham desaparecido, em seu lugar surgindo uma República “já provida de bandeira, de hino, de selo dos correios e da bênção do arcebispo Lacerda”.

“Nas repartições do Estado os amanuenses, que já tinham lançado no papel dos decretos a velha fórmula ‘Em nome de S. M., o Imperador’, riscam, ao ouvir da rua aclamações alegres, este dizer anacrônico, e, sem mesmo molhar novamente a pena, desenrolam no seu melhor cursivo a fórmula recente ‘Em nome do Presidente da República’.” Pouco depois, em 1910, era Portugal que despachava a sua monarquia, ancestral da nossa, sob os auspícios do presidente mais pé-frio da história do Brasil: Hermes da Fonseca. Hermes, em visita oficial, participava de um banquete com o rei D. Carlos, quando este foi informado de que já não mais o era. Mas, tão logo os portugueses exportaram seu monarca, caiu-lhes nos costados a ditadura Salazar, cuja triste memória é relembrada na placa afixada em um prédio sombrio da Rua do Limoeiro, por trás da Sé, e que diz:

Aqui,
do silêncio das “gavetas”
dos peitos desfeitos pelas torturas da pide
subiu o clamor da liberdade
floriu Abril

Ali ficava a tristemente famosa Prisão do Aljube, onde eram interrogados e torturados os presos políticos. Entre seus muros estiveram detidos, entre muitos outros resistentes: Álvaro Cunhal, Miguel Torga e Agostinho Neto, Fernando Rosas, Carlos Paredes, José Ernesto de Sousa e Agostinho da Silva. A placa, que traz a data abril de 1984, comemora o décimo aniversário de uma revolução talvez mais importante que a de 1910, a Revolução dos Cravos que livrou o país da ditadura salazarista. A Revolução dos Cravos foi cantada por Chico Buarque, como prova da simpatia e das identidades entre os povos brasileiro e português, em um momento particularmente parecido de suas histórias. Mas houve uma canção portuguesa que também nos emocionou e que aprendemos a cantar naquele tempo: 

“Grândola, vila morena...”

Canção que hoje vem sendo entoada como um protesto contra as políticas econômicas neoliberais que estão destruindo a sociedade portuguesa. Desemprego, corrosão dos salários e das aposentadoria; demissão de funcionários públicos sob o pretexto de “enxugar a máquina”; privatização de serviços essenciais de fornecimento como água, luz e saneamento básico; degradação do parque industrial, etc. etc. Enfim, a mesma receita desumana e indiferente que vimos ser implantada aqui nas últimas décadas do século XX e como o mesmo resultado: aumento da pobreza; da miséria; da violência; da prostituição infantil; da delinqüência juvenil; do abandono dos velhos e da desagregação das famílias.

 Em outubro 2010, participei de um seminário em Lisboa pelo centenário da República Portuguesa. Coordenado por Vânia Chaves, diretora do CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), os textos ali apresentados foram reunidos no livro organizado por Luís da Cunha Pinheiro e Maria Manuel Marques, minha querida amiga Miúcha: Em torno de duas Repúblicas: 15 de novembro de 1889 - 5 de outubro de 1910. O livro está disponivel online em: http://pt.calameo.com/read/001827977ca7588997533

Tive o privilégio de que minha conferencia de abertura fosse antecedida da fala do então candidato à presidência de Portugal, o poeta e escritor Manuel Alegre. Homem de bela biografia, Manuel Alegre se candidatura assim como uma espécie de protesto contra as candidaturas apoiadas pelo sistema financeiro que hoje determina os destinos políticos do Primeiro Mundo. Tendo começado sua vida política no movimento estudantil, ainda na faculdade de direito de Coimbra, onde foi fundador do CITAC – Centro de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra, Alegre dirigiu um jornal com o sugestivo nome de “A Briosa” onde combatia a ditadura Salazar. Por liderar uma tentativa de revolta militar, foi preso pela PIDE em Luanda, em 1963 partindo depois para o exílio na Argélia. Ali se fez dirigente da Frente Patriótica de Libertação Nacional e seus poemas e textos transmitidos para Portugal através da rádio Voz da Liberdade, foram um estímulo para os que ali lutavam contra a repressão. Depois da Revolução dos Cravos, (25 de Abril de 1974), retornou a Portugal, se unindo a Mário Soares na campanha que o Partido Socialista promoveu pela aprovação da Constituição de 1976, de cujo preâmbulo Manuel Alegre é autor. Ele já fora candidato independente à Presidência da República, tendo obtido mais de 1 milhão de votos nas eleições presidenciais de 2006.

De agradável presença, conservando ainda o porte atlético do nadador que foi na juventude, com sua fala elegante e mansa, Manuel Alegre encantou os que o ouviram com um relato o significado subversivo que a palavra “República”  tinha durante a ditadura Salazar, a ponto das pessoas contrarias ao regime, a sussurrarem entre si, como um código secreto. Estranhei que houvesse tão pouca gente na platéia e que o candidato chegasse praticamente sozinho, sem o acompanhamento de jornalistas ou de seguidores. Afinal era uma atividade que bem poderia ser usada como propaganda de campanha. Manuel Alegre não ganhou, mas creio que talvez, na situação crítica que Portugal hoje atravessa por conta dos amargos remédios neoliberais que o FMI lhes empurra garganta abaixo, suas histórias despertassem mais interesse. Pois, parece que neste momento, não há muito o que comemorar na Republica Portuguesa.