Petit Nicolas e outras crianças de classe média (30/3/13)

Outro dia conversava com amigos franceses sobre o quanto me surpreendera positivamente o Petit Nicolas. É que para eles as histórias do Petit Nicolas foram elementos formadores em suas infâncias. Assim como para nós, a leitura dos livros de Monteiro Lobato, apesar da diferença de tempo entre as duas publicações. O livros do Petit Nicolas de René Goscigny, com ilustrações de Sempé, eu só descobri quando fiz um curso na Aliança e a professora Marisa que descobri ser mulher do historiador Luiz Carlos Soares, me adotava a leitura para nos fazer aprimorar o vocabulário. Um detalhe curioso desse curso de francês é que um dos cinco alunos era o ator Eduardo Moscovis. Que, aliás, no convívio, revelou-se um rapaz muito simpático, inteligente e bacana.

Voltando ao Petit Nicolas. Sua leitura foi, para mim, uma revelação. Imagino que para muitos dos leitores essa só se deu através do filme de mesmo nome que tanto sucesso fez. Aqui já falei dele mais de uma vez fazendo algumas ressalvas especialmente às partes que não foram baseadas nas histórias criadas pelo muito genial e ainda insuficientemente louvado Goscigny. Pois o que há de original nesses episódios envolvendo um garoto de classe média francês absolutamente comum é a maneira como Goscigny conta suas aventuras. A maneira tão inteligente e sensível como ele consegue realmente mostrar, para usar um lugar comum, a vida pelos olhos de uma criança.

Esse aspecto é mais evidente na relação de Nicolas com seu pai. É um pai que nada tem de herói nem de anti-herói. Um pai como eu, você e muita gente teve. Um pai trabalhador, temendo o desemprego, tendo que cortejar o chefe e, ao mesmo tempo, exercer em casa a autoridade de pai sem deixar de ser amigo e afetuoso. Um difícil equilíbrio que se prova em situações como a do dia em que Nicolas vai passar o dia na casa do amigo rico e o pai vai levá-lo em seu modesto automóvel. Diante da vastidão do jardim onde o sol se reflexo nas águas de uma piscina, do olhar deslumbrada do filho, o pai de Nicolas fica evidentemente inferiorizado. Sua reação, ao deixar o filho na porta onde o receberia o mordomo é dizer com ironia: não coma muito caviar.

A maior parte das histórias tem um humor assim delicado, feito para o seu público alvo mas que não deixa de nos sensibilizar. São episódios como o dever de matemática que o filho pede ao pai para ajudar a fazer e ele tenta mas diante da dificuldade desiste com irritação alegando ter tido um dia de trabalho desgastante; a visita do amigo de infância que acaba revelando aspectos da infância do pai que ele preferia que o filho não conhecesse e, ainda a eterna briga do pai com o vizinho.

O equivalente na minha infância para as aventuras do Petit Nicolas foram as revistas em quadrinho da Luluzinha e do Bolinha. E creio que entre os dois universos infantis há muitos pontos de contato. As crianças da turma do Bolinha são um pouco maiores do que as da turma do Petit Nicolas. Elas já estão na rua e é lá e não na escola que suas aventuras acontecessem. Outra diferença é que os meninos já enfrentam e temem uma turma rival, a terrível turma da zona norte. Ao contrário do Petit Nicolas, nessas histórias, a presença das meninas é constante e a interação delas com os meninos, todo o mundo no mesmo nível, é comum. Apesar da existência do clube do Bolinha, onde menina não entra, a presença feminina garante o papel de protagonista para a Luluzinha. Esta, mantém uma relação ambígua com o Bolinha, tem ciúmes da bela e loira Glorinha, do mesmo modo que o Bolinha não esconde o despeito com o colega rico e também loiro.

Enfim são universos infantis com muitos pontos de contato a partir da relação das crianças também com os adultos - o caça-gazeteiro do Bolinha é muito parecido com o bedel da escola de Nicolas. O mundo paralelo de fantasia, como aqueles que as crianças inventam a partir de um amigo invisível, está presente na revista da Luluzinha, através das historias das bruxas Meméia e Alceia que ela narra para o Alvinho. Há ainda essa mistura entre crianças menores e maiores, umas se ocupando das outras, algo bem norte-americano que não aparece no Petit Nicolas onde seu grupo de amigos todos meninos, tem a mesma idade. estuda na mesa sala e mora no mesmo bairro.

Outra turma que conheci já no final da adolescência foi a turma do Charlie Brown. Uma turma que nas tirinhas de Schulz se revela bem diversa da turmas da Luluzinha e do Petit Nicolas. O mundo do Charlie Brown pode ser muito cruel e aquele lado malvado das crianças que conhecemos bem se revela com bastante freqüência. E neste mundo cruel, a vitima preferida é o Charles Brown. Ele é um fracasso na escola, no namoro e no esporte. Ele não consegue soltar uma arraia, ou pipa, como dizem no Rio, sem se embolar todinho nos fios e papéis. Com sua enorme cabeça Charlie Brown é um fracasso até na aparência. Seu time de futebol é um desastre e ele ainda tem para lembrar sempre do seu fracasso a terrível Lucy, menina autoritária e má que o está sempre botando prá baixo. É ela que tira a bola toda a vez que Charlie Brown vai chutar fazendo com que ele caia. A turma tem outros elementos, com destaque para o Linus, sempre agarrado com o seu cobertor; a garota de cabelos naturalmente encaracolados pela qual Charlie Brown é apaixonado sem esperança e o o Snoopy que é um herói com luz e histórias próprias. Mas o que me impressiona é a angustia do Charlie Brown, suas noites em claro, olho aberto pensando nos seus problemas. Tudo isto parece muito pouco adequado para uma história infantil. E, no entanto a gente sabe que tem a ver com a realidade.

De qualquer maneira, quero crer que o ponto mesmo que une essas histórias, além de serem histórias de meninos de classe media, é a qualidade da construção dos tipos, sua maior densidade em comparação com outras historinhas do gênero e sua capacidade de encantar ainda até mesmo um adulto como eu que só tardiamente pode juntar a essa galeria as excelentes histórias do Petit Nicolas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário