Tive uma vez um amigo importante que nunca se esquecia do dia do meu aniversário. Creio que foi, durante alguns anos, o primeiro telefonema que eu recebi nas manhãs do dia 23 de setembro, antes mesmo do de minha mãe. Chamava-se Plínio Doyle e hoje, passados quase onze anos de sua morte, quero relembrar sua figura simpática, inteligente e gentil.
Conheci Plínio Doyle na casa de Rui Barbosa por volta de 1985, quando eu ainda estava trabalhando em meu livro "Histórias de presidentes", que começara a escrever no Museu da República e terminaria na Casa. Plínio conhecia histórias e conhecia pessoas que tinham vivido as histórias. Ele também conhecia os livros onde eu poderia encontrar as coisas mais interessantes. Mas, eu não teria acesso a nada disto se o Plínio não fosse quem era: simples, acessível, bem humorado, sempre disposto a fazer novos amigos, independente da idade dos mesmos. Aos 79 anos, vítima de um AVC que o tinha deixado hemiplégico, ele estava todos os dias na casa Rui, no seu AMLB (Arquivo Museu de Literatura), que criara e ao qual dedicava boa parte do seu tempo. Logo eu era sua amiga e convidada para as reuniões do famoso Sabadoyle. O nome dessa reunião semanal, sempre aos sábados e na casa do Plínio fora inventado por um dos seus frequentadores: Raul Bopp. Nelas, se recuperava uma tradição antiga: a dos salões literários.
Advogado de grande prestígio no Rio, Plínio foi um obsessivo colecionador de livros e revistas raros. Sua coleção, hoje pertencente ao acervo da Casa de Rui Barbosa, cobre quase toda história literária do Brasil. Sempre ligado ao meio intelectual carioca, tendo sido colega na faculdade de Américo Jacobina Lacombe, Helio Viana, Octavio de Faria, Santiago Dantas, Antônio Galloti, Plínio aproximou-se de muitos outros escritores e poetas, depois de se tornar advogado do editor José Olympio. Assim, os encontros na livraria José Olympio, que ficava então no centro do Rio, passaram a ter um desdobramento nos finais de semana, em Ipanema, onde Plínio morava.
O Sabadoyle teve origem nas visitas que o poeta Carlos Drummond de Andrade fazia aos sábados a Plínio Doyle para consultar a vasta biblioteca do Plínio. Américo Jacobina Lacombe também aparecia por lá para rever o velho amigo e esses encontros, certamente muito agradáveis, foram se tornando um hábito. Aos poucos, agregaram-se outros amigos à sombra daquelas estantes acolhedoras: Raul Bopp, Pedro Nava, Joaquim Inojosa, Afonso Arinos, Alphonsus Guimaraens Filho, Prudente de Moraes Neto, Wilson Martins, Mario da Silva Brito, Silvio Meira, Ivan Bechara, Clara Ramos e muitos outros. As reuniões, propriamente, começaram em dezembro de 1964 na casa de Plínio, que ficava na rua Barão de Jaguaripe, número 62, em Ipanema. Depois ele adquiriu um apartamento no segundo andar do número 74, transferindo para lá a biblioteca de 20 mil volumes e as reuniões do Sabadoyle.
Como bem descreve outro frequentador, Homero Senna, ("Sabadoyle: historias de uma confraria literária", reeditado em 2000 pela Casa da Palavra), o grande charme daqueles encontros era o de ser um espaço da pura, simples, fantasista, descompromissada conversa. Para Wilson Martins, que sempre que vinha ao Rio batia ponto por lá, o encanto especial da reunião estava na absoluta espontaneidade e na ausência completa de pedantismo. Os que comparecem para brilhar mal podem esconder a decepção debaixo de um silêncio emburrado. De fato, o Sabadoyle não é um salão de preciosos pontificando sobre as próprias excelências; não é, tampouco, um viveiro de gênios autodesignados, repletos da própria suficiência.
As memórias dessa confraria literária puderam ser melhor recuperadas por Homero Senna graças à instituição do livro de atas. A primeira ata, feita em versos, foi do poeta Alphonsus de Guimaraes Filho e inaugurou o livro em onze de novembro de 1972. Logo instituiu-se a prática: depois do café com biscoitos, Plínio pedia silêncio e o autor previamente escolhido por ele fazia a leitura da ata. Eu creio que redigi umas duas ou três atas. A última delas em homenagem a Américo Jacobina Lacombe, que morreu em 1993 deixando tristes os amigos do Sabadoyle e os funcionários da Casa de Rui Barbosa, da qual era o presidente desde 1936.
Creio que, aos poucos, o desaparecimento de amigos queridos como Pedro Nava, Drummond e, finalmente, Lacombe, foram tirando o ânimo do Plínio para as reuniões. No entanto, quando morreu, em novembro de 2000, aos 96 anos, era perfeitamente lúcido e sua conversa continuava divertida e ilustrada. Visitei-o uma última vez naquele ano em sua casa e ele me contou histórias ótimas sobre Rosário Fusco que conhecera bem e sobre o qual eu não sabia nada. Por isso quando a gente perde um amigo assim, não perde só o amigo mas um verdadeiro tesouro de histórias e referências importantes acumulados e selecionadas pela sua privilegiada memória e pela aguda percepção que ele tinha do que foi interessante na vida que viveu, nas pessoas que conheceu e nos livros que leu.
Recorto do livro de Homero Senna, trechos de poema de Alphonsus de Guimaraens Filho, registrado em ata do dia 1º de outubro de 1975 por ocasião do aniversário do Plínio, para saudá-lo, hoje, onde quer que ele esteja (e espero que esteja junto com todos esses amigos acima citados) nas vésperas dos seus 105 anos de vida.
"Plínio, o Moço,
Plínio, o ameno,
Sorri com mansuetude contemplando
Livros que o contemplam.
(...)
De sua parte os livros lhe reservam
Sua ternura seca,
Sigilosa, mas plena de uma luz que alvoroça,
De um sossego tão bom de se viver.
(...)
Memórias diluídas
Como os dias que vão numa vertigem,
Cuidemos só de repetir a Plínio,
O Moço, Plínio, o Ameno,
Que, como os livros, todos
Lhe queremos um bem
Tão forte e vigoroso
Como - meu Deus, escapuliu-me!
Como a dose de anos que viveu".
Dores de amores (17/9/11)
Eu fico com essa dor / Ou essa dor tem que morrer/A dor que nos ensina/ E a vontade de não ter/Sofrer de mais que tudo/ Nós precisamos aprender/ Eu grito e me solto/ Eu preciso aprender/ Curo esse rasgo ou ignoro qualquer ser/ Sigo enganado ou enganando meu viver/ Pois quando estou amando é parecido com sofrer/ Eu morro de amores/ Eu preciso aprender.... - Luiz Melodia
Não fique triste, fique com tudo.
Dizem que este foi o conselho que Ivana Trump deu a mulheres que foram trocadas pelo marido por outra mais jovem ou não. O marido, no seu caso, era um biliardário e a vingança de Ivana consistia em tirar o máximo do que pudesse para ferir o traidor onde mais lhe doeria: na conta bancária. No entanto, o conselho também serve para quem não se separou de marido rico se pensarmos em um "tudo" metafórico.
Separar é sempre difícil. Para quem tomou a decisão, menos. Apesar da dúvida permanente sobre se era isto mesmo que deveria fazer, quem decidiu sair de uma relação está mais preparado para enfrentar o que vem depois. Afinal, antes de dizer que queria terminar, pensou, refletiu, apalpou-se bem. O outro, não. Sentia que não havia mais aquele entusiasmo inicial mas também não imaginava que as coisas chegassem a esse ponto. Ou talvez até imaginasse. Talvez até soubesse que era inevitável. Apenas como não era este o seu desejo, ficava, tentando ao máximo evitar situações de conflito para adiar o desfecho fatal.
Mas este dia chegou e você se viu sozinha, sem programa para o final de semana, sem aqueles telefonemas de final de noite, sem a companhia permanente dos últimos tempos: um enorme vazio a ser preenchido. Os primeiros dias são os mais difíceis e a tendência de procurar a causa em você mesma é grande. É porque sou feia; é porque sou gorda; é porque sou malfeita; é porque falo alto; é porque sou sem graça... Mesmo que nada disto seja verdade. Aí, na sequencia, a autoestima vai pro brejo. De um lado o "ninguém vai gostar de mim" e de outro o "nunca mais vou conquistar alguém tão especial".
Às vezes, você mesma nem achava isto tudo quando estavam juntos. Até achava ele meio tolo, meio chato e, naquelas fases em que ele era totalmente obcecado por você, precisava até mandá-lo passear de vez em quando para ter um tempinho só para você. Bem: agora que você tem todo o tempo do mundo só para você, que saudades. A tendência é buscar consolo para a dor e mergulhar em um frenesi de festas, encontros, namoricos rápidos. Mas isto não resolve e esses namoricos rápidos tendem a deixar a gente até mais infeliz. O ideal é mesmo viver um pouco o luto da separação e organizar a cabeça.
É preciso seguir em frente e a melhor forma de fazê-lo é solidarizar-se consigo mesma. Buscar em você e nas suas qualidades, no seu projeto de vida o conforto e a força para seguir em frente. Resgatar a boa imagem que os outros têm de você e, de todas as maneiras, evitar reencontros com o ex cuja imagem idealizada tem que ser desconstruída. Não é preciso transformá-lo em um vilão mas é preciso se convencer que ele não está com essa bola toda. Melhor ainda é preciso trabalhar para nem precisar disto pois vai estar pensando em outra coisa. Como na música do Lulu Santos: "Ainda vai levar um tempo/ Pra fechar / O que feriu por dentro/ Natural que seja assim/ Tanto pra você/ Quanto pra mim.../Ainda leva uma cara/Pra gente poder dar risada/ Assim caminha a humanidade/Com passos de formiga/ E sem vontade.../ Não vou dizer que foi ruim/ Também não foi tão bom assim/ Não imagine que te quero mal/ Apenas não te quero mais...".
Separações são boas para fazermos um balanço do que a gente realmente quer e do que a gente realmente é. Principalmente no começo da vida, quando não temos muita clareza de nada. Demora muito para a gente descobrir que jamais vai formar um todo com outra pessoa. Que ambos vão ser sempre individualidades em constante transformação e sujeitas aos apelos que o mundo lá fora oferece. Mesmo que se ame muito e se tenha a sensação de que se achou a cara metade, a possibilidade do fim paira sempre sobre qualquer relacionamento. Por uma ironia do destino, só depois da maturidade, com a vida definida, carreira estruturada e estabilidade econômica é que a gente está mesmo preparado para viver - não digo um grande amor, pois este é fruto justamente das angústias e expectativas da juventude - mas um bom e equilibrado relacionamento.
Que graça tem isto? Com vinte anos, graça nenhuma. Com vinte antes todas as sensações são intensas e definitivas e a pessoa é até capaz de morrer de amor. Sem mesmo pensar que o amor é apenas um somatório de questões a serem destrinchadas por um bom psicanalista. Questões que têm, às vezes, muito mais a ver com o nosso medo do futuro ou com o lugar que ocupamos no mundo. Então, a pessoa a que estamos ligadas representa um pouco a solução para as nossas inseguranças em quesitos que não têm a ver exatamente com o amor. E aí, a separação pode ser mesmo uma forma de nos fazer ver e de nos fortalecer. Nos convencer de que, apesar da tristeza, temos que seguir em frente. Ou melhor que, seguindo o conselho de Ivana Trump, fiquemos com tudo: tudo o que somos e com todas as nossas infinitas possibilidades. E para fechar com uma outra canção boa para essas horas, fique com Gilberto Gil e seu amor esotérico:
"Não adianta nem me abandonar/ Porque mistério sempre há de pintar por aí/ Pessoas até muito mais vão lhe amar /Até muito mais difíceis que eu prá você/Que eu, que dois, que dez, que dez milhões, todos iguais/ Até que nem tanto esotérico assim/Se eu sou algo incompreensível, meu Deus é mais/ Mistério sempre há de pintar por aí/ Não adianta nem me abandonar (não adianta não)/ Nem ficar tão apaixonada, que nada/ Que não sabe nadar/Que morre afogada por mim".
Não fique triste, fique com tudo.
Dizem que este foi o conselho que Ivana Trump deu a mulheres que foram trocadas pelo marido por outra mais jovem ou não. O marido, no seu caso, era um biliardário e a vingança de Ivana consistia em tirar o máximo do que pudesse para ferir o traidor onde mais lhe doeria: na conta bancária. No entanto, o conselho também serve para quem não se separou de marido rico se pensarmos em um "tudo" metafórico.
Separar é sempre difícil. Para quem tomou a decisão, menos. Apesar da dúvida permanente sobre se era isto mesmo que deveria fazer, quem decidiu sair de uma relação está mais preparado para enfrentar o que vem depois. Afinal, antes de dizer que queria terminar, pensou, refletiu, apalpou-se bem. O outro, não. Sentia que não havia mais aquele entusiasmo inicial mas também não imaginava que as coisas chegassem a esse ponto. Ou talvez até imaginasse. Talvez até soubesse que era inevitável. Apenas como não era este o seu desejo, ficava, tentando ao máximo evitar situações de conflito para adiar o desfecho fatal.
Mas este dia chegou e você se viu sozinha, sem programa para o final de semana, sem aqueles telefonemas de final de noite, sem a companhia permanente dos últimos tempos: um enorme vazio a ser preenchido. Os primeiros dias são os mais difíceis e a tendência de procurar a causa em você mesma é grande. É porque sou feia; é porque sou gorda; é porque sou malfeita; é porque falo alto; é porque sou sem graça... Mesmo que nada disto seja verdade. Aí, na sequencia, a autoestima vai pro brejo. De um lado o "ninguém vai gostar de mim" e de outro o "nunca mais vou conquistar alguém tão especial".
Às vezes, você mesma nem achava isto tudo quando estavam juntos. Até achava ele meio tolo, meio chato e, naquelas fases em que ele era totalmente obcecado por você, precisava até mandá-lo passear de vez em quando para ter um tempinho só para você. Bem: agora que você tem todo o tempo do mundo só para você, que saudades. A tendência é buscar consolo para a dor e mergulhar em um frenesi de festas, encontros, namoricos rápidos. Mas isto não resolve e esses namoricos rápidos tendem a deixar a gente até mais infeliz. O ideal é mesmo viver um pouco o luto da separação e organizar a cabeça.
É preciso seguir em frente e a melhor forma de fazê-lo é solidarizar-se consigo mesma. Buscar em você e nas suas qualidades, no seu projeto de vida o conforto e a força para seguir em frente. Resgatar a boa imagem que os outros têm de você e, de todas as maneiras, evitar reencontros com o ex cuja imagem idealizada tem que ser desconstruída. Não é preciso transformá-lo em um vilão mas é preciso se convencer que ele não está com essa bola toda. Melhor ainda é preciso trabalhar para nem precisar disto pois vai estar pensando em outra coisa. Como na música do Lulu Santos: "Ainda vai levar um tempo/ Pra fechar / O que feriu por dentro/ Natural que seja assim/ Tanto pra você/ Quanto pra mim.../Ainda leva uma cara/Pra gente poder dar risada/ Assim caminha a humanidade/Com passos de formiga/ E sem vontade.../ Não vou dizer que foi ruim/ Também não foi tão bom assim/ Não imagine que te quero mal/ Apenas não te quero mais...".
Separações são boas para fazermos um balanço do que a gente realmente quer e do que a gente realmente é. Principalmente no começo da vida, quando não temos muita clareza de nada. Demora muito para a gente descobrir que jamais vai formar um todo com outra pessoa. Que ambos vão ser sempre individualidades em constante transformação e sujeitas aos apelos que o mundo lá fora oferece. Mesmo que se ame muito e se tenha a sensação de que se achou a cara metade, a possibilidade do fim paira sempre sobre qualquer relacionamento. Por uma ironia do destino, só depois da maturidade, com a vida definida, carreira estruturada e estabilidade econômica é que a gente está mesmo preparado para viver - não digo um grande amor, pois este é fruto justamente das angústias e expectativas da juventude - mas um bom e equilibrado relacionamento.
Que graça tem isto? Com vinte anos, graça nenhuma. Com vinte antes todas as sensações são intensas e definitivas e a pessoa é até capaz de morrer de amor. Sem mesmo pensar que o amor é apenas um somatório de questões a serem destrinchadas por um bom psicanalista. Questões que têm, às vezes, muito mais a ver com o nosso medo do futuro ou com o lugar que ocupamos no mundo. Então, a pessoa a que estamos ligadas representa um pouco a solução para as nossas inseguranças em quesitos que não têm a ver exatamente com o amor. E aí, a separação pode ser mesmo uma forma de nos fazer ver e de nos fortalecer. Nos convencer de que, apesar da tristeza, temos que seguir em frente. Ou melhor que, seguindo o conselho de Ivana Trump, fiquemos com tudo: tudo o que somos e com todas as nossas infinitas possibilidades. E para fechar com uma outra canção boa para essas horas, fique com Gilberto Gil e seu amor esotérico:
"Não adianta nem me abandonar/ Porque mistério sempre há de pintar por aí/ Pessoas até muito mais vão lhe amar /Até muito mais difíceis que eu prá você/Que eu, que dois, que dez, que dez milhões, todos iguais/ Até que nem tanto esotérico assim/Se eu sou algo incompreensível, meu Deus é mais/ Mistério sempre há de pintar por aí/ Não adianta nem me abandonar (não adianta não)/ Nem ficar tão apaixonada, que nada/ Que não sabe nadar/Que morre afogada por mim".
O melhor dos narradores (10/9/11)
Como é bom conversar com Fausto Nilo.
Creio que se trata do melhor narrador que já ouvi. Daqueles que quando conta uma história prende sua atenção do começo ao fim. Lembro bem que, quando o encontrei pela primeira vez no Rio de Janeiro, em 1977, ele me impressionou pela habilidade que tinha de tornar agradável qualquer papo, incluindo temas inusitados e apresentando-os de uma forma ao mesmo tempo culta e divertida.
Fausto tem a economia precisa da boa conversa. Esta consiste em falar e deixar falar, comentando a fala do outro mas sempre acrescentando uma observação inteligente, bem humorada ou crítica, sem monopolizar a palavra. Estratégia eficaz pois a audiência, reconhecendo a superioridade do primeiro orador se impacienta esperando que ele volte ao domínio da cena. É o homem dos salões por excelência pois é nos encontros de gente escolhida que ele encontra o público que melhor aprecia sua cultura eclética e a maneira original com que elabora seus assuntos. Não se trata de um modesto, felizmente, pois penso da modéstia o que pensava Thomas Mann: é uma forma de hipocrisia. E o Fausto não é modesto, sabe do próprio valor - creio que soube desde muito cedo - e, por isso mesmo não precisa ficar alardeando seus feitos. Mas, quando é o caso, conta naturalmente episódios em que se distinguiu ou realça as qualidades de que mais se orgulha.
Sua fantástica memória também faz com que ele tenha um vasto acervo de histórias sobre a vida cultural de Fortaleza entre os anos 1950 e 1970, tempo e lugar em que fez sua formação. Ouvi-las é como passear ao lado do narrador por uma Fortaleza onde a vida se fazia essencialmente no Centro, no entorno da Praça do Ferreira. É participar de toda a ebulição cultural que marcou o movimento estudantil cearense entre o golpe militar de 1964 e o AI-5. É como sentar à mesa do bar do Anísio e tomar cuba-libre até o amanhecer, ouvindo as canções do Rodger Rogério e os impropérios do Brandão.
Por tudo isso Fausto predomina em qualquer conversa sem esforço, mesclando erudição, na medida certa (sem pedantismo), com anedotas e canções. Canções raras de um repertório nacional esquecido - pois é conhecer da MPB no que ela tem de mais recôndito - cuja beleza ele nos revela com sua boa voz sertaneja. Eu não sabia mas Fausto me contou que ele e Cláudio Pereira disputavam para ver quem conhecia mais músicas. Não qualquer música mas aquelas músicas antigas que ninguém no mundo jamais ouviu falar. De fato, eu ficava impressionada quando o Pereira saudava minha irmã com uma canção cujo tema era uma mulher com seu raríssimo nome: "Clélia, minha querida Clélia". Não sei se foi com o Pereira ou foi com o Fausto que ouvi "Nós era sete", cuja letra descobri depois ser de Antonio Maria. Sei que os dois gostavam da música e eu tentei, sem sucesso, achá-la na internet para incluí-la entre aquelas cerca de 700 canções que compõem a minha memorabilia musical afetiva e que se encerra sem incluir quase nada de novo nos anos 1980.
Na casa de Vera Duarte, no Rio, no final dos anos 70, ouvi Fausto cantar uma música da qual nunca me esqueci, que não ouvi mais em lugar nenhum e só agora achei no Google e que diz assim "Daquela peleja voltou um cacique/ Depois um caíque sozinho voltou/ Ao ver o caíque vazio vagando/ A virgem chorando tristonha falou/ Guerreiro vencido não temas a morte/ O amor é mais forte que o tronco do ipê!/ E foi altaneira guardar suas mágoas/ No fundo das águas do rio Tietê." Era kitsch mas era bonito às pampas e hoje penso como o gosto por esse tipo de canções sentimentais, cheias de gestos heroicos ou sofrimentos de amor me veio de ouvi-las cantadas por gente como o Fausto, como meu irmão Roberto Aurélio ou pelo ídolo maior da minha geração, Caetano Veloso, que ousara até ver (e fazer-nos ver) beleza em "Coração Materno", de Vicente Celestino.
Entre a adolescência em que seu parceiro constante foi Cláudio Pereira e o resto da vida em que seu grande amigo foi Augusto Pontes, Fausto definiu seus caminhos. Nunca foi como os dois um catalisador: alguém que tem sempre em torno de si seguidores, admiradores ou críticos. Cláudio e Augusto, esses dois grandes bruxos rivais que dominaram a vida cultural cearense das quatro últimas décadas do século XX, eram, cada um à sua maneira, gregários, espetaculosos, polêmicos mas totalmente vinculados a seus público e cenário. Diferente deles, Fausto, mais velho que o primeiro e mais novo que o segundo, foi sempre um indivíduo às voltas com seus próprios projetos, suas composições e sua família. Não formou uma corte de seguidores tem apenas amigos, parceiros, colegas e construiu com Silvia Parente um lar bastante acolhedor, ilha de tranquilidade alheia à trepidação da vida boemia, da qual só se escuta o eco distante.
Falo aqui de um amigo que conheci há mais de trinta anos e que, depois disto, fez em Fortaleza toda uma carreira como arquiteto - sua primeira e definitiva vocação profissional - enquanto eu fazia a minha de escritora e historiadora no Rio de Janeiro. Assim, quando de raro em raro, nos vemos, é para relembrar o passado e pouco falar do presente. Relembrar as melhores frases de Augusto Pontes; os episódios da temporada no Rio em que ele e Silvinha viviam cercados de músicos cariocas e cearenses; saber e dar notícias de gente daqui e de lá que não vemos há muito tempo. Mas confesso que me faz um bem danado quando amigos cariocas voltam de uma visita à minha cidade, falando com entusiasmo do Centro Cultural Dragão do Mar, obra de Fausto Nilo, poeta da arquitetura e da MPB, melhor contador de histórias que já conheci.
Creio que se trata do melhor narrador que já ouvi. Daqueles que quando conta uma história prende sua atenção do começo ao fim. Lembro bem que, quando o encontrei pela primeira vez no Rio de Janeiro, em 1977, ele me impressionou pela habilidade que tinha de tornar agradável qualquer papo, incluindo temas inusitados e apresentando-os de uma forma ao mesmo tempo culta e divertida.
Fausto tem a economia precisa da boa conversa. Esta consiste em falar e deixar falar, comentando a fala do outro mas sempre acrescentando uma observação inteligente, bem humorada ou crítica, sem monopolizar a palavra. Estratégia eficaz pois a audiência, reconhecendo a superioridade do primeiro orador se impacienta esperando que ele volte ao domínio da cena. É o homem dos salões por excelência pois é nos encontros de gente escolhida que ele encontra o público que melhor aprecia sua cultura eclética e a maneira original com que elabora seus assuntos. Não se trata de um modesto, felizmente, pois penso da modéstia o que pensava Thomas Mann: é uma forma de hipocrisia. E o Fausto não é modesto, sabe do próprio valor - creio que soube desde muito cedo - e, por isso mesmo não precisa ficar alardeando seus feitos. Mas, quando é o caso, conta naturalmente episódios em que se distinguiu ou realça as qualidades de que mais se orgulha.
Sua fantástica memória também faz com que ele tenha um vasto acervo de histórias sobre a vida cultural de Fortaleza entre os anos 1950 e 1970, tempo e lugar em que fez sua formação. Ouvi-las é como passear ao lado do narrador por uma Fortaleza onde a vida se fazia essencialmente no Centro, no entorno da Praça do Ferreira. É participar de toda a ebulição cultural que marcou o movimento estudantil cearense entre o golpe militar de 1964 e o AI-5. É como sentar à mesa do bar do Anísio e tomar cuba-libre até o amanhecer, ouvindo as canções do Rodger Rogério e os impropérios do Brandão.
Por tudo isso Fausto predomina em qualquer conversa sem esforço, mesclando erudição, na medida certa (sem pedantismo), com anedotas e canções. Canções raras de um repertório nacional esquecido - pois é conhecer da MPB no que ela tem de mais recôndito - cuja beleza ele nos revela com sua boa voz sertaneja. Eu não sabia mas Fausto me contou que ele e Cláudio Pereira disputavam para ver quem conhecia mais músicas. Não qualquer música mas aquelas músicas antigas que ninguém no mundo jamais ouviu falar. De fato, eu ficava impressionada quando o Pereira saudava minha irmã com uma canção cujo tema era uma mulher com seu raríssimo nome: "Clélia, minha querida Clélia". Não sei se foi com o Pereira ou foi com o Fausto que ouvi "Nós era sete", cuja letra descobri depois ser de Antonio Maria. Sei que os dois gostavam da música e eu tentei, sem sucesso, achá-la na internet para incluí-la entre aquelas cerca de 700 canções que compõem a minha memorabilia musical afetiva e que se encerra sem incluir quase nada de novo nos anos 1980.
Na casa de Vera Duarte, no Rio, no final dos anos 70, ouvi Fausto cantar uma música da qual nunca me esqueci, que não ouvi mais em lugar nenhum e só agora achei no Google e que diz assim "Daquela peleja voltou um cacique/ Depois um caíque sozinho voltou/ Ao ver o caíque vazio vagando/ A virgem chorando tristonha falou/ Guerreiro vencido não temas a morte/ O amor é mais forte que o tronco do ipê!/ E foi altaneira guardar suas mágoas/ No fundo das águas do rio Tietê." Era kitsch mas era bonito às pampas e hoje penso como o gosto por esse tipo de canções sentimentais, cheias de gestos heroicos ou sofrimentos de amor me veio de ouvi-las cantadas por gente como o Fausto, como meu irmão Roberto Aurélio ou pelo ídolo maior da minha geração, Caetano Veloso, que ousara até ver (e fazer-nos ver) beleza em "Coração Materno", de Vicente Celestino.
Entre a adolescência em que seu parceiro constante foi Cláudio Pereira e o resto da vida em que seu grande amigo foi Augusto Pontes, Fausto definiu seus caminhos. Nunca foi como os dois um catalisador: alguém que tem sempre em torno de si seguidores, admiradores ou críticos. Cláudio e Augusto, esses dois grandes bruxos rivais que dominaram a vida cultural cearense das quatro últimas décadas do século XX, eram, cada um à sua maneira, gregários, espetaculosos, polêmicos mas totalmente vinculados a seus público e cenário. Diferente deles, Fausto, mais velho que o primeiro e mais novo que o segundo, foi sempre um indivíduo às voltas com seus próprios projetos, suas composições e sua família. Não formou uma corte de seguidores tem apenas amigos, parceiros, colegas e construiu com Silvia Parente um lar bastante acolhedor, ilha de tranquilidade alheia à trepidação da vida boemia, da qual só se escuta o eco distante.
Falo aqui de um amigo que conheci há mais de trinta anos e que, depois disto, fez em Fortaleza toda uma carreira como arquiteto - sua primeira e definitiva vocação profissional - enquanto eu fazia a minha de escritora e historiadora no Rio de Janeiro. Assim, quando de raro em raro, nos vemos, é para relembrar o passado e pouco falar do presente. Relembrar as melhores frases de Augusto Pontes; os episódios da temporada no Rio em que ele e Silvinha viviam cercados de músicos cariocas e cearenses; saber e dar notícias de gente daqui e de lá que não vemos há muito tempo. Mas confesso que me faz um bem danado quando amigos cariocas voltam de uma visita à minha cidade, falando com entusiasmo do Centro Cultural Dragão do Mar, obra de Fausto Nilo, poeta da arquitetura e da MPB, melhor contador de histórias que já conheci.
"Rempli de soi-même" (3/9/11)
Uma das coisas que mais desconcertam a gente nesta altura da vida é ver como pessoas que eram tidas como brilhantes no tempo da escola não cumpriram o que o destino lhes parecia ter reservado.
Como é que fulano, conhecedor dos clássicos, que discutia de igual para igual com o professor na sala de aula, não se tornou ele mesmo um mestre? Por que sicrano, cujas ironias e tiradas inteligentes nos impressionavam tanto, não concluiu aquela tese que prometia revolucionar o que até então se tinha escrito sobre o assunto? Por que beltrana, tão ensimesmada no tempo da escola, tão apegada aos livros, tão superior, não fez uma bela carreira e continua hoje gramando em pequenos empregos, vendo o tempo passar e os jovens ocuparem os lugares que lhe pareciam reservados?
Creio que há uma palavra para resumir bem a causa desses projetos frustrados de celebridade: presunção. A presunção de que a você está destinado um papel especial, de que sabe mais que os outros ou de que é capaz (e tem a obrigação) de fazer algo que seja realmente notável pode arruinar a carreira até dos mais talentosos. A presunção faz com que o sujeito crie expectativas elevadas sobre si mesmo, se imponha objetivos difíceis e até inalcançáveis e passe a crer que só aquilo o fará realmente digno de tudo o que esperam dele. Aí tudo o mais fica menor. Tudo o mais que faz parte da vida, do dia a dia de uma carreira, é pouco perto da grande missão à qual o sábio deve dedicar a vida.
E esse cotidiano dos pequenos trabalhos, das tarefas normais de uma carreira, são coisas a que o presunçoso tem muita dificuldade de se submeter. Aquilo não é para ele. Ele já nasceu pronto para um grande destino e não precisa passar pelas fases intermediárias para chegar ao topo. É o garoto que sonha em ser presidente da República mas não quer nem saber de se candidatar a líder de sua classe na escola. É o jovem ambicioso que se imagina diretor de uma grande empresa mas que não admite começar como estagiário. É a jovem doutora desempregada que não aceita começar em emprego que não lhe pague salário de acordo com o que acredita ser o que merece ganhar e que por isso fica fora do mercado.
E assim, o tempo vai passando e a grande obra ou a bela carreira a que estavam destinados não acontece. Pessoas que começaram muito depois deles, talentos medianos ou talentos genuínos que precisaram do trabalho para se revelar, seguiram suas vidas e fizeram mesmo surpreendentes trajetórias. Mas o presunçoso ficou travado porque nada do que empreendia estava à altura do que ele esperava dele mesmo. É um processo neurótico que faz com que o sujeito considere sempre o que fez aquém do que a sua suposta genialidade prometia e acabe por não fazer nada. Apesar disto, ou talvez por causa disto mesmo, ele tem sempre um comentariozinho irônico e depreciativo sobre a qualidade do trabalho de algum colega, sobre os dotes intelectuais de outro, sobre a visão de mundo de um terceiro. É como aquele tipo de crítico de arte que não cria nada mas que é implacável em seus comentários sobre a obra dos artistas.
Há, no entanto, que dividir os presunçosos em duas categorias. Existem aqueles a que realmente sobram talento, inteligência, brilho pessoal e que, por conta desse superávit primário, digamos assim, não investem na carreira, pois estão acostumados a ter tudo de mão beijada. A estes a vida pode pegar de surpresa mais adiante, diante da mesa do antigo colega que tanto ridicularizaram no tempo da faculdade, agora importante diretor de instituição de ponta na área em que ambos se formaram, a pedir um emprego.
Para esses, no entanto, sempre pode haver redenção, pois não há limites para a surpresa quando se trata de inteligência e talento. Como ouvi dizer uma vez no Ceará: talento é como açude arrombando, tapa um buraco aqui e outro se abre acolá. Ou seja, mesmo tendo sabotado suas enormes possibilidades, quem tem talento mesmo, pode até tardiamente superar a presunção e realizar uma grande obra. Pois fora a presunção que criara obstáculos entre ele e o seu destino. Presunção que se confunde com insegurança, pois mesmo o mais talentoso não tem ideia real de qual o tamanho de sua competência. Presunção que é também uma forma de imaturidade, de ingenuidade, de vontade de ver o mundo a seus pés.
Mas há o segundo grupo, o dos que pensam que têm inteligência e talento. Os dos meninos mimados, filhos de pais talentosos e que foram criados na convicção de que também o eram. O das moças que "se acham" e que estão só a espera de serem descobertas e que, por causa, disto não vão se meter em ofícios menores. É neste grupo que se concentram os mais amargurados, os mais frustrados, os mais indignados com o que a sorte lhes reservou, os que mais se revoltam ao verem colegas do passado ocupando lugares que acreditavam lhe estar destinados.
Diante dessas trajetórias não se pode deixar de pensar como a vida é tão menos grandiosa do que na juventude imaginávamos. De como uma carreira é feita das pequenas conquistas do cotidiano. De que é fazendo um pouco aqui e ali que se vai afinando a mão para um ofício e sendo reconhecido como alguém que faz aquilo bem e com responsabilidade. E que mesmo quem está em um bom momento na carreira não pode ficar "rempli de soi-même", como dizem os franceses. Ao contrário, é preciso continuar achando que ainda falta alguma coisa. Este é o impulso necessário para seguir em frente, porque tem sempre algo que a gente não sabe e pode aprender.
Como é que fulano, conhecedor dos clássicos, que discutia de igual para igual com o professor na sala de aula, não se tornou ele mesmo um mestre? Por que sicrano, cujas ironias e tiradas inteligentes nos impressionavam tanto, não concluiu aquela tese que prometia revolucionar o que até então se tinha escrito sobre o assunto? Por que beltrana, tão ensimesmada no tempo da escola, tão apegada aos livros, tão superior, não fez uma bela carreira e continua hoje gramando em pequenos empregos, vendo o tempo passar e os jovens ocuparem os lugares que lhe pareciam reservados?
Creio que há uma palavra para resumir bem a causa desses projetos frustrados de celebridade: presunção. A presunção de que a você está destinado um papel especial, de que sabe mais que os outros ou de que é capaz (e tem a obrigação) de fazer algo que seja realmente notável pode arruinar a carreira até dos mais talentosos. A presunção faz com que o sujeito crie expectativas elevadas sobre si mesmo, se imponha objetivos difíceis e até inalcançáveis e passe a crer que só aquilo o fará realmente digno de tudo o que esperam dele. Aí tudo o mais fica menor. Tudo o mais que faz parte da vida, do dia a dia de uma carreira, é pouco perto da grande missão à qual o sábio deve dedicar a vida.
E esse cotidiano dos pequenos trabalhos, das tarefas normais de uma carreira, são coisas a que o presunçoso tem muita dificuldade de se submeter. Aquilo não é para ele. Ele já nasceu pronto para um grande destino e não precisa passar pelas fases intermediárias para chegar ao topo. É o garoto que sonha em ser presidente da República mas não quer nem saber de se candidatar a líder de sua classe na escola. É o jovem ambicioso que se imagina diretor de uma grande empresa mas que não admite começar como estagiário. É a jovem doutora desempregada que não aceita começar em emprego que não lhe pague salário de acordo com o que acredita ser o que merece ganhar e que por isso fica fora do mercado.
E assim, o tempo vai passando e a grande obra ou a bela carreira a que estavam destinados não acontece. Pessoas que começaram muito depois deles, talentos medianos ou talentos genuínos que precisaram do trabalho para se revelar, seguiram suas vidas e fizeram mesmo surpreendentes trajetórias. Mas o presunçoso ficou travado porque nada do que empreendia estava à altura do que ele esperava dele mesmo. É um processo neurótico que faz com que o sujeito considere sempre o que fez aquém do que a sua suposta genialidade prometia e acabe por não fazer nada. Apesar disto, ou talvez por causa disto mesmo, ele tem sempre um comentariozinho irônico e depreciativo sobre a qualidade do trabalho de algum colega, sobre os dotes intelectuais de outro, sobre a visão de mundo de um terceiro. É como aquele tipo de crítico de arte que não cria nada mas que é implacável em seus comentários sobre a obra dos artistas.
Há, no entanto, que dividir os presunçosos em duas categorias. Existem aqueles a que realmente sobram talento, inteligência, brilho pessoal e que, por conta desse superávit primário, digamos assim, não investem na carreira, pois estão acostumados a ter tudo de mão beijada. A estes a vida pode pegar de surpresa mais adiante, diante da mesa do antigo colega que tanto ridicularizaram no tempo da faculdade, agora importante diretor de instituição de ponta na área em que ambos se formaram, a pedir um emprego.
Para esses, no entanto, sempre pode haver redenção, pois não há limites para a surpresa quando se trata de inteligência e talento. Como ouvi dizer uma vez no Ceará: talento é como açude arrombando, tapa um buraco aqui e outro se abre acolá. Ou seja, mesmo tendo sabotado suas enormes possibilidades, quem tem talento mesmo, pode até tardiamente superar a presunção e realizar uma grande obra. Pois fora a presunção que criara obstáculos entre ele e o seu destino. Presunção que se confunde com insegurança, pois mesmo o mais talentoso não tem ideia real de qual o tamanho de sua competência. Presunção que é também uma forma de imaturidade, de ingenuidade, de vontade de ver o mundo a seus pés.
Mas há o segundo grupo, o dos que pensam que têm inteligência e talento. Os dos meninos mimados, filhos de pais talentosos e que foram criados na convicção de que também o eram. O das moças que "se acham" e que estão só a espera de serem descobertas e que, por causa, disto não vão se meter em ofícios menores. É neste grupo que se concentram os mais amargurados, os mais frustrados, os mais indignados com o que a sorte lhes reservou, os que mais se revoltam ao verem colegas do passado ocupando lugares que acreditavam lhe estar destinados.
Diante dessas trajetórias não se pode deixar de pensar como a vida é tão menos grandiosa do que na juventude imaginávamos. De como uma carreira é feita das pequenas conquistas do cotidiano. De que é fazendo um pouco aqui e ali que se vai afinando a mão para um ofício e sendo reconhecido como alguém que faz aquilo bem e com responsabilidade. E que mesmo quem está em um bom momento na carreira não pode ficar "rempli de soi-même", como dizem os franceses. Ao contrário, é preciso continuar achando que ainda falta alguma coisa. Este é o impulso necessário para seguir em frente, porque tem sempre algo que a gente não sabe e pode aprender.
Mulheres de fases (27/8/11)
"Complicada e perfeitinha/ Você me apareceu/ Era tudo que eu queria/ Estrela da sorte/ Quando a noite ela surgia/ Meu bem você cresceu/ Meu namoro é na folhinha/ Mulher de fases."
A música dos Raimundos era bobinha e os versos são meio de pé-quebrado mas animaram muita festinha na década passada. E só agora me dei conta de como ela define bem algumas mulheres que conheço: "mulheres de fases", mulheres instáveis que mudam de sentimento de uma forma tão radical que desconcertam totalmente o sujeito apaixonado.
Na verdade, muita gente - homem ou mulher - é um pouco assim quando jovem. Conhece uma pessoa. Encanta-se. Teme não ser correspondido. É correspondido - que maravilha! Começa a namorar. Perfeição. Você não quer sair de perto e ele- que incrível - também não quer largar você nenhum segundo sequer. Que bom. Aí é que começam os problemas.
Foi rápido demais, fácil demais e intenso demais. Gastou logo. Um dos dois vai enjoar de tanto amor e outro vai ficar sobrando. Normal. Afinal a gente tem vinte anos e depois de umas tantas situações assim começa a ir mais devagar com o andor. Mas e quem tem 50 e continua na mesma?
Tenho algumas amigas assim: de paixões intensas, às vezes inconscientemente motivadas por interesses bem diversos das coisas do amor, cinderelas acima da idade que ainda acham que os homens podem resolver todos os seus problemas. Aí, quando conhecem algum que cabe na moldura apaixonam-se de imediato e não medem esforços para conquistar o objeto do desejo. Determinadas, acabam conquistando-o mesmo. No entanto, a intensidade do começo da relação é diretamente proporcional ao tédio que delas se apodera quando tudo fica estável, tranquilo, enfim, quando vira casamento. Conheço uma que, sendo uma linda mulher quando chega nessa fase, enfeia, engorda, se desleixa e mergulha em profunda melancolia, em total desânimo. A esse estado geralmente se segue um outro que é o da revisão crítica das qualidades do parceiro.
Nesse momento é que tudo se torna motivo de conflito entre o casal. Conflitos que, mesmo motivados por coisas insignificantes, se tornam inconciliáveis. Daí, o desejo de separação passa a ser nela um desejo tão intenso quanto o fora o desejo de união.
O outro não entende nada e insiste e sofre e se sente péssimo. Resiste a aceitar que tanto amor tenha se transformada em tanta rejeição. Mas o empenho da nossa heroína em se livrar do gajo tem a mesma intensidade que tivera o seu empenho em atraí-lo e ele acaba saindo de casa. É então que ela floresce, fica novamente bonita, magra, radiosa e feliz. Confiante e destemida monta logo uma nova casa, faz novos amigos e dentre eles, descobre outro cara que, nos garante, é a pessoa certa para ela, verdadeira alma gêmea pela qual logo se apaixona, a quem seduz, a quem convence de casar. Os amigos que já viram esse filme tantas vezes sabem que o ciclo todo vai se repetir.
Há uma variante que é quando a história se repete com o mesmo homem. E isto, em geral acontece quando ele, que se separara triste e com a vida desorganizada, começa a se recuperar e a sair com outra pessoa. É então que nossa amiga enlouquece. Pois algumas mulheres inverteram o velho jogo masculino da traição.
Têm uma vida sexual animada por muitos casos, namoros, etc. sem prejuízo da ligação duradoura e estável com a pessoa com a qual estejam realmente envolvidas. E não se trata de relações abertas pois uma coisa que esse tipo de mulher não suporta, nem perdoa é traição. Por algum mecanismo inexplicável ela, mesmo tendo sentido por ele, pouco tempo antes, total repulsa, não suporta a ideia de vê-lo nos braços de outra. É quando descobre que nunca deixou de amá-lo e vai a luta para trazê-lo de volta.
Aí, vale tudo, lágrimas, sedução, chantagem... Se houver filhos no meio, eles - os mesmos que antes precisavam que o pai saísse de casa pois não aguentavam ver as brigas - agora, segundo ela, estão sofrendo muito com a ausência do pai.
O sujeito resiste. Gato escaldado não quer sofrer de novo e tenta evitar de todas as maneiras ser novamente atraído para a mesma armadilha. Mas a força de vontade da mulher de fases é impressionante e ela vence mais uma vez. A história podia terminar aí, não é mesmo? Final feliz. Mas não é assim com essas mulheres, elas podem repetir esse script uma infinidade de vezes com o mesmo par ou com outros pares. Podem organizar a vida toda em torno desse amor (montar apartamento ou mudar-se para a casa da outra pessoa) para, em poucos meses, descobrir que não é nada disto, se separar e organizar rapidamente a vida em outra casa.
Pareceria apenas um jogo egoísta se, do lado das mulheres de fases, não houvesse também um dispêndio enorme de energia, de sofrimento e mesmo de recursos materiais. Pois a cada casamento e a cada separação, são móveis e eletrodomésticos que ficam pelo caminho. Fora a vida dos filhos, alterada, instável marcada pelas tantas mudanças de casa e de presença masculina ao lado da mãe. O que me espanta nesse movimento de eterno retorno não é tanto o egoísmo da situação mas a incapacidade de aprender com a experiência.
O desconhecimento dos próprios mecanismos internos e a compulsão que leva a tentar de novo e a mergulhar de cabeça, confiando que desta vez vai ser diferente. A paixão vivida assim é como uma droga de cujo prazer não se consegue privar mas que, quando o efeito vai passando precisa-se imediatamente de outra dose.
A música dos Raimundos era bobinha e os versos são meio de pé-quebrado mas animaram muita festinha na década passada. E só agora me dei conta de como ela define bem algumas mulheres que conheço: "mulheres de fases", mulheres instáveis que mudam de sentimento de uma forma tão radical que desconcertam totalmente o sujeito apaixonado.
Na verdade, muita gente - homem ou mulher - é um pouco assim quando jovem. Conhece uma pessoa. Encanta-se. Teme não ser correspondido. É correspondido - que maravilha! Começa a namorar. Perfeição. Você não quer sair de perto e ele- que incrível - também não quer largar você nenhum segundo sequer. Que bom. Aí é que começam os problemas.
Foi rápido demais, fácil demais e intenso demais. Gastou logo. Um dos dois vai enjoar de tanto amor e outro vai ficar sobrando. Normal. Afinal a gente tem vinte anos e depois de umas tantas situações assim começa a ir mais devagar com o andor. Mas e quem tem 50 e continua na mesma?
Tenho algumas amigas assim: de paixões intensas, às vezes inconscientemente motivadas por interesses bem diversos das coisas do amor, cinderelas acima da idade que ainda acham que os homens podem resolver todos os seus problemas. Aí, quando conhecem algum que cabe na moldura apaixonam-se de imediato e não medem esforços para conquistar o objeto do desejo. Determinadas, acabam conquistando-o mesmo. No entanto, a intensidade do começo da relação é diretamente proporcional ao tédio que delas se apodera quando tudo fica estável, tranquilo, enfim, quando vira casamento. Conheço uma que, sendo uma linda mulher quando chega nessa fase, enfeia, engorda, se desleixa e mergulha em profunda melancolia, em total desânimo. A esse estado geralmente se segue um outro que é o da revisão crítica das qualidades do parceiro.
Nesse momento é que tudo se torna motivo de conflito entre o casal. Conflitos que, mesmo motivados por coisas insignificantes, se tornam inconciliáveis. Daí, o desejo de separação passa a ser nela um desejo tão intenso quanto o fora o desejo de união.
O outro não entende nada e insiste e sofre e se sente péssimo. Resiste a aceitar que tanto amor tenha se transformada em tanta rejeição. Mas o empenho da nossa heroína em se livrar do gajo tem a mesma intensidade que tivera o seu empenho em atraí-lo e ele acaba saindo de casa. É então que ela floresce, fica novamente bonita, magra, radiosa e feliz. Confiante e destemida monta logo uma nova casa, faz novos amigos e dentre eles, descobre outro cara que, nos garante, é a pessoa certa para ela, verdadeira alma gêmea pela qual logo se apaixona, a quem seduz, a quem convence de casar. Os amigos que já viram esse filme tantas vezes sabem que o ciclo todo vai se repetir.
Há uma variante que é quando a história se repete com o mesmo homem. E isto, em geral acontece quando ele, que se separara triste e com a vida desorganizada, começa a se recuperar e a sair com outra pessoa. É então que nossa amiga enlouquece. Pois algumas mulheres inverteram o velho jogo masculino da traição.
Têm uma vida sexual animada por muitos casos, namoros, etc. sem prejuízo da ligação duradoura e estável com a pessoa com a qual estejam realmente envolvidas. E não se trata de relações abertas pois uma coisa que esse tipo de mulher não suporta, nem perdoa é traição. Por algum mecanismo inexplicável ela, mesmo tendo sentido por ele, pouco tempo antes, total repulsa, não suporta a ideia de vê-lo nos braços de outra. É quando descobre que nunca deixou de amá-lo e vai a luta para trazê-lo de volta.
Aí, vale tudo, lágrimas, sedução, chantagem... Se houver filhos no meio, eles - os mesmos que antes precisavam que o pai saísse de casa pois não aguentavam ver as brigas - agora, segundo ela, estão sofrendo muito com a ausência do pai.
O sujeito resiste. Gato escaldado não quer sofrer de novo e tenta evitar de todas as maneiras ser novamente atraído para a mesma armadilha. Mas a força de vontade da mulher de fases é impressionante e ela vence mais uma vez. A história podia terminar aí, não é mesmo? Final feliz. Mas não é assim com essas mulheres, elas podem repetir esse script uma infinidade de vezes com o mesmo par ou com outros pares. Podem organizar a vida toda em torno desse amor (montar apartamento ou mudar-se para a casa da outra pessoa) para, em poucos meses, descobrir que não é nada disto, se separar e organizar rapidamente a vida em outra casa.
Pareceria apenas um jogo egoísta se, do lado das mulheres de fases, não houvesse também um dispêndio enorme de energia, de sofrimento e mesmo de recursos materiais. Pois a cada casamento e a cada separação, são móveis e eletrodomésticos que ficam pelo caminho. Fora a vida dos filhos, alterada, instável marcada pelas tantas mudanças de casa e de presença masculina ao lado da mãe. O que me espanta nesse movimento de eterno retorno não é tanto o egoísmo da situação mas a incapacidade de aprender com a experiência.
O desconhecimento dos próprios mecanismos internos e a compulsão que leva a tentar de novo e a mergulhar de cabeça, confiando que desta vez vai ser diferente. A paixão vivida assim é como uma droga de cujo prazer não se consegue privar mas que, quando o efeito vai passando precisa-se imediatamente de outra dose.
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