Uma das coisas que mais desconcertam a gente nesta altura da vida é ver como pessoas que eram tidas como brilhantes no tempo da escola não cumpriram o que o destino lhes parecia ter reservado.
Como é que fulano, conhecedor dos clássicos, que discutia de igual para igual com o professor na sala de aula, não se tornou ele mesmo um mestre? Por que sicrano, cujas ironias e tiradas inteligentes nos impressionavam tanto, não concluiu aquela tese que prometia revolucionar o que até então se tinha escrito sobre o assunto? Por que beltrana, tão ensimesmada no tempo da escola, tão apegada aos livros, tão superior, não fez uma bela carreira e continua hoje gramando em pequenos empregos, vendo o tempo passar e os jovens ocuparem os lugares que lhe pareciam reservados?
Creio que há uma palavra para resumir bem a causa desses projetos frustrados de celebridade: presunção. A presunção de que a você está destinado um papel especial, de que sabe mais que os outros ou de que é capaz (e tem a obrigação) de fazer algo que seja realmente notável pode arruinar a carreira até dos mais talentosos. A presunção faz com que o sujeito crie expectativas elevadas sobre si mesmo, se imponha objetivos difíceis e até inalcançáveis e passe a crer que só aquilo o fará realmente digno de tudo o que esperam dele. Aí tudo o mais fica menor. Tudo o mais que faz parte da vida, do dia a dia de uma carreira, é pouco perto da grande missão à qual o sábio deve dedicar a vida.
E esse cotidiano dos pequenos trabalhos, das tarefas normais de uma carreira, são coisas a que o presunçoso tem muita dificuldade de se submeter. Aquilo não é para ele. Ele já nasceu pronto para um grande destino e não precisa passar pelas fases intermediárias para chegar ao topo. É o garoto que sonha em ser presidente da República mas não quer nem saber de se candidatar a líder de sua classe na escola. É o jovem ambicioso que se imagina diretor de uma grande empresa mas que não admite começar como estagiário. É a jovem doutora desempregada que não aceita começar em emprego que não lhe pague salário de acordo com o que acredita ser o que merece ganhar e que por isso fica fora do mercado.
E assim, o tempo vai passando e a grande obra ou a bela carreira a que estavam destinados não acontece. Pessoas que começaram muito depois deles, talentos medianos ou talentos genuínos que precisaram do trabalho para se revelar, seguiram suas vidas e fizeram mesmo surpreendentes trajetórias. Mas o presunçoso ficou travado porque nada do que empreendia estava à altura do que ele esperava dele mesmo. É um processo neurótico que faz com que o sujeito considere sempre o que fez aquém do que a sua suposta genialidade prometia e acabe por não fazer nada. Apesar disto, ou talvez por causa disto mesmo, ele tem sempre um comentariozinho irônico e depreciativo sobre a qualidade do trabalho de algum colega, sobre os dotes intelectuais de outro, sobre a visão de mundo de um terceiro. É como aquele tipo de crítico de arte que não cria nada mas que é implacável em seus comentários sobre a obra dos artistas.
Há, no entanto, que dividir os presunçosos em duas categorias. Existem aqueles a que realmente sobram talento, inteligência, brilho pessoal e que, por conta desse superávit primário, digamos assim, não investem na carreira, pois estão acostumados a ter tudo de mão beijada. A estes a vida pode pegar de surpresa mais adiante, diante da mesa do antigo colega que tanto ridicularizaram no tempo da faculdade, agora importante diretor de instituição de ponta na área em que ambos se formaram, a pedir um emprego.
Para esses, no entanto, sempre pode haver redenção, pois não há limites para a surpresa quando se trata de inteligência e talento. Como ouvi dizer uma vez no Ceará: talento é como açude arrombando, tapa um buraco aqui e outro se abre acolá. Ou seja, mesmo tendo sabotado suas enormes possibilidades, quem tem talento mesmo, pode até tardiamente superar a presunção e realizar uma grande obra. Pois fora a presunção que criara obstáculos entre ele e o seu destino. Presunção que se confunde com insegurança, pois mesmo o mais talentoso não tem ideia real de qual o tamanho de sua competência. Presunção que é também uma forma de imaturidade, de ingenuidade, de vontade de ver o mundo a seus pés.
Mas há o segundo grupo, o dos que pensam que têm inteligência e talento. Os dos meninos mimados, filhos de pais talentosos e que foram criados na convicção de que também o eram. O das moças que "se acham" e que estão só a espera de serem descobertas e que, por causa, disto não vão se meter em ofícios menores. É neste grupo que se concentram os mais amargurados, os mais frustrados, os mais indignados com o que a sorte lhes reservou, os que mais se revoltam ao verem colegas do passado ocupando lugares que acreditavam lhe estar destinados.
Diante dessas trajetórias não se pode deixar de pensar como a vida é tão menos grandiosa do que na juventude imaginávamos. De como uma carreira é feita das pequenas conquistas do cotidiano. De que é fazendo um pouco aqui e ali que se vai afinando a mão para um ofício e sendo reconhecido como alguém que faz aquilo bem e com responsabilidade. E que mesmo quem está em um bom momento na carreira não pode ficar "rempli de soi-même", como dizem os franceses. Ao contrário, é preciso continuar achando que ainda falta alguma coisa. Este é o impulso necessário para seguir em frente, porque tem sempre algo que a gente não sabe e pode aprender.
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