Não sei se acontece o mesmo com vocês mas para mim não há outro lugar além da minha casa em que eu me sinta tão em casa como na casa de mamãe. É reconfortante chegar e ver a mesma grande mesa da sala de jantar com suas cadeiras simples, quase rústicas; o móvel da sala com um imenso espelho que ninguém sabe o que foi originalmente, (talvez penteadeira?); a enorme gravura do Sagrado Coração de Jesus que eu achava que era coisa rara até ver, desapontada, reproduções à venda nos camelôs do Rio; o santuário com todas as estátuas de santos, com destaque para a de Jesus, Maria e José, diante da qual rezamos tantas vezes o terço em família e as fotos de todos nas paredes e nos porta-retratos. E no centro de tudo, mamãe. Ver e conversar com ela, capturando ainda algo do seu ótimo humor, apesar das tantas mazelas que os cem anos a serem completados em junho de 2014 trazem, é tudo de bom. Quando Lúcia perguntou-lhe se achava que ela, Lúcia ia também viver cem anos, ouviu um “não”. A filha não iria viver tanto porque, segundo a mamãe, cem anos é tempo demais. Parece que mamãe, ao contrário de nós, não está achando muita graça no centenário.
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Outro conforto de ter uma família grande como a nossa e do qual sinto a maior falta no Rio é contar com os serviços dessa verdadeira comunidade formada por meus tantos sobrinhos. Se eu precisar de um “personal trainer” conto com minha linda afilhada, Luanda. Se o caso merecer a atenção de um endocrinologista, corro para outra sobrinha, Fabiana Coretti. Também temos dentista: Gemina, filha do Carlos. Quando quis vestir modelo exclusivo para receber a Sereia de Ouro no Teatro José de Alencar, a estilista da família, minha sobrinha-neta Beatrice Melo, não só desenhou um lindo vestido como orientou sua confecção. Precisando de polícia, chamo o delegado Raufilio Vidal, marido da Juliana ou o Benone, marido da Silvia. Se o caso é consultar advogado, não me aperto, pois posso a qualquer momento recorrer ao Max Camara, marido da Sellene ou à jovem e promissora especialista em justiça do trabalho, Liana Alencar, mulher do Cláudio. Se eu ganhar na Sena peço orientação sobre o que fazer com o dinheiro ao financista da família, Célio Fernando, marido da Evelucia e pai da Beatrice. E acho que quando me tornar milionária, solicitarei à dona Iolanda que libere minha sobrinha, Mirian, contadora do grupo Edson Queiroz para gerir minha fortuna.
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Fui com minha irmã Clélia e Vera Mamede visitar o Estrigas no Mondubim e com alegria o vimos vir lá de sua casinha de telhas, no meio das mangueiras, com suas pernas ainda ágeis nos abrir o portão. Ali, na mesma velha varanda, a mesma conversa boa de sempre fluiu amável com a presença espiritual da Nice pairando em cada canto do jardim/quintal que ela cultivava com tanto amor. Na conversa, relembramos do velho pintor João Maria Siqueira (tema, aliás, de ótimo artigo de Flavio Paiva publicado no DN em 19/07/2007). Por iniciativa do Lustosa tive umas poucas aulas de pintura com ele na Casa de Cultura Raimundo Cela criada pela recentemente desaparecida dama das artes cearenses, Heloísa Juaçaba. Estrigas me contou que o Siqueira foi ordenado frade mas depois que largou o hábito nunca mais sossegou: foi pintor, cineasta e um monte de outras coisas. A meu ver conservou sempre alguma coisa de monacal no estilo sóbrio e reservado. Eu sabia de um filme feito por ele: “Rede de dormir”, mas Estrigas me contou que ele fez mais dois, um deles sobre outro pintor, Antonio Bandeira. O Estrigas acha que Siqueira como pintor queria ser moderno mas era irremediavelmente acadêmico. Esperava produzir obra como a de Raimundo Cela. Apesar dos seus inegáveis méritos não conseguiu.
Estrigas disse que o médico ainda queria operá-lo de novo para colocar mais um stent. Mas ele garante que não se opera de novo. Acha que se viver um ou dois anos a mais está no lucro. Continua morando sozinho na casa-museu, com a mesma modéstia e atitude zen diante da vida. Bem que o Pedro Eimar – que também foi meu professor de desenho na pré-história – e dirige com a maior competência o Museu de Arte da UFC, podia dar uma alegria ao velho reabrindo a sala Aldemir Martins com a coleção de 22 originais doados pelo Estrigas. Quem sabe pondo ali uma plaquinha registrando este gesto de extrema generosidade de um artista pobre para com uma universidade rica. Lustosa dizia que depois que morresse queria, como na música, “prece e nada mais”. Preferia receber todas as homenagens a que tinha direito em vida. Desconfio que o agnóstico Estrigas também é da mesma filosofia.
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Mas o melhor de vir a Fortaleza é mesmo reencontrar Fortaleza. Não chego ao ponto de ter aquela paixão que tinha o Lustosa e que ficou eternizada na frase: “Fortaleza, voltei meu lugar é aqui. Além de Messejana estou no exílio...” pois, depois de 36 anos de Rio, acho que meu lugar é lá. Mas aqui em Fortaleza me sinto muito mais em casa. Ainda no caminho do aeroporto para o apartamento de mamãe bate alguma sensação indefinida, talvez por causa da brisa que balança levemente os galhos das arvores, ou por conta de um cheiro característico que sobe da terra junto com o calor; enfim por algo que remete a tantas lembranças remotas e essenciais. Sensação que se completa com o mergulho neste universo familiar em torno de mãe, da qual eu e minhas três irmãs, Lúcia, Socorro e Clélia formamos uma espécie de corte. Ambiente que me enreda e absorve de tal maneira que faz com que, às vezes, eu me sinta como o protagonista de “Cem anos de solidão”. Sempre penso em escapar dele para ver e abraçar os tantos amigos a quem quero bem e que fiz na adolescência e no começo da vida adulta antes de partir para o Rio. Quase nunca consigo. Por isso, daqui desta página, mando a todos eles o meu abraço afetuoso e os votos de um 2014 cheio de alegrias e da esperança de que consigamos nos ver mais vezes. Vocês também fazem parte dessa minha Fortaleza feita de memória e saudade.