Em casa (28/12/13)

Não sei se acontece o mesmo com vocês mas para mim não há outro lugar além da minha casa em que eu me sinta tão em casa como na casa de mamãe. É reconfortante chegar e ver a mesma grande mesa da sala de jantar com suas cadeiras simples, quase rústicas; o móvel da sala com um imenso espelho que ninguém sabe o que foi originalmente, (talvez  penteadeira?); a enorme gravura do Sagrado Coração de Jesus que eu achava que era coisa rara até ver, desapontada, reproduções à venda nos camelôs do Rio; o santuário com todas as estátuas de santos, com destaque para a de Jesus, Maria e José, diante da qual rezamos tantas vezes o terço em família e as fotos de todos nas paredes e nos porta-retratos. E no centro de tudo, mamãe. Ver e conversar com ela, capturando ainda algo do seu ótimo humor, apesar das tantas mazelas que os cem anos a serem completados em junho de 2014 trazem, é tudo de bom. Quando Lúcia perguntou-lhe se achava que ela, Lúcia ia também viver cem anos, ouviu um “não”. A filha não iria viver tanto porque, segundo a mamãe, cem anos é tempo demais. Parece que mamãe, ao contrário de nós, não está achando muita graça no centenário.

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Outro conforto de ter uma família grande como a nossa e do qual sinto a maior falta no Rio é contar com os serviços dessa verdadeira comunidade formada por meus tantos sobrinhos. Se eu precisar de um “personal trainer” conto com minha linda afilhada, Luanda. Se o caso merecer a atenção de um endocrinologista, corro para outra sobrinha, Fabiana Coretti. Também temos dentista: Gemina, filha do Carlos. Quando quis vestir modelo exclusivo para receber a Sereia de Ouro no Teatro José de Alencar, a estilista da família, minha sobrinha-neta Beatrice Melo, não só desenhou um lindo vestido como orientou sua confecção. Precisando de polícia, chamo o delegado Raufilio Vidal, marido da Juliana ou o Benone, marido da Silvia. Se o caso é consultar advogado, não me aperto, pois posso a qualquer momento recorrer ao Max Camara, marido da Sellene ou à jovem e promissora especialista em justiça do trabalho, Liana Alencar, mulher do Cláudio. Se eu ganhar na Sena peço orientação sobre o que fazer com o dinheiro ao financista da família, Célio Fernando, marido da Evelucia e pai da Beatrice. E acho que quando me tornar milionária, solicitarei à dona Iolanda que libere minha sobrinha, Mirian, contadora do grupo Edson Queiroz para gerir minha fortuna.

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Fui com minha irmã Clélia e Vera Mamede visitar o Estrigas no Mondubim e com alegria o vimos vir lá de sua casinha de telhas, no meio das mangueiras, com suas pernas ainda ágeis nos abrir o portão. Ali, na mesma velha varanda, a mesma conversa boa de sempre fluiu amável com a presença espiritual da Nice pairando em cada canto do jardim/quintal que ela cultivava com tanto amor. Na conversa, relembramos do velho pintor João Maria Siqueira (tema, aliás, de ótimo artigo de Flavio Paiva publicado no DN em 19/07/2007). Por iniciativa do Lustosa tive umas poucas aulas de pintura com ele na Casa de Cultura Raimundo Cela criada pela recentemente desaparecida dama das artes cearenses, Heloísa Juaçaba. Estrigas me contou que o Siqueira foi ordenado frade mas depois que largou o hábito nunca mais sossegou: foi pintor, cineasta e um monte de outras coisas. A meu ver conservou sempre alguma coisa de monacal no estilo sóbrio e reservado. Eu sabia de um filme feito por ele: “Rede de dormir”, mas Estrigas me contou que ele fez mais dois, um deles sobre outro pintor, Antonio  Bandeira. O Estrigas acha que Siqueira como pintor queria ser moderno mas era irremediavelmente acadêmico. Esperava produzir obra como a de Raimundo Cela. Apesar dos seus inegáveis méritos não conseguiu.

Estrigas disse que o médico ainda queria operá-lo de novo para colocar mais um stent. Mas ele garante que não se opera de novo. Acha que se viver um ou dois anos a mais está no lucro. Continua morando sozinho na casa-museu, com a mesma modéstia e atitude zen diante da vida. Bem que o Pedro Eimar – que também foi meu professor de desenho na pré-história – e dirige com a maior competência o Museu de Arte da UFC, podia dar uma alegria ao velho reabrindo a sala Aldemir Martins com a coleção de 22 originais doados pelo Estrigas. Quem sabe pondo ali uma plaquinha registrando este gesto de extrema generosidade de um artista pobre para com uma universidade rica. Lustosa dizia que depois que morresse queria, como na música, “prece e nada mais”.  Preferia receber todas as homenagens a que tinha direito em vida. Desconfio que o agnóstico Estrigas também é da mesma filosofia.

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Mas o melhor de vir a Fortaleza é mesmo reencontrar Fortaleza. Não chego ao ponto de ter aquela paixão que tinha o Lustosa e que ficou eternizada na frase: “Fortaleza, voltei meu lugar é aqui. Além de Messejana estou no exílio...” pois,  depois de 36 anos de Rio, acho que meu lugar é lá. Mas aqui em Fortaleza me sinto muito mais em casa. Ainda no caminho do aeroporto para o apartamento de mamãe bate alguma sensação indefinida, talvez por causa da brisa que balança levemente os galhos das arvores, ou por conta de um cheiro característico que sobe da terra junto com o calor; enfim por algo que remete a tantas lembranças remotas e essenciais. Sensação que se completa com o mergulho neste universo familiar em torno de mãe, da qual eu e minhas três irmãs, Lúcia, Socorro e Clélia formamos uma espécie de corte. Ambiente que me enreda e absorve de tal maneira que faz com que, às vezes, eu me sinta como o protagonista de “Cem anos de solidão”. Sempre penso em escapar dele para ver e abraçar os tantos amigos a quem quero bem e que fiz na adolescência e no começo da vida adulta antes de partir para o Rio. Quase nunca consigo. Por isso, daqui desta página, mando a todos eles o meu abraço afetuoso e os votos de um 2014 cheio de alegrias e da esperança de que consigamos nos ver mais vezes. Vocês também fazem parte dessa minha Fortaleza feita de memória e saudade.

O resgate de Napoleão Bonaparte no Recife (21/12/13)

A causa da prisão de Edmond Dantès, logo no início do “Conde de Monte Cristo”, foi uma coisa que me intrigou quando o li pela primeira vez, ainda na infância (numa daquelas maravilhosas edições condensadas da Melhoramentos). Ele teria sido portador de uma carta para Napoleão Bonaparte durante a curta escala de seu navio na ilha de Santa Helena. Dantès foi acusado de envolvimento uma conspiração bonapartista e daí decorreram todas as suas desgraças. Aquilo então me parecia um detalhe pouco interessante diante do resto da trama, sua prisão na fortaleza de IF; a educação que lhe deu o abade que ali encontrou; a fuga sensacional; o tesouro escondido em uma ilha e, finalmente sua ressurreição como Monte Cristo e sua tremenda vingança. Afinal porque uma simples carta levada a um prisioneiro poderia ser tão perigosa? Na época me dava uma certa preguiça tentar entender o fato justificava toda a trama. Agora que conheço a dimensão de Bonaparte, o fascínio que ele exercia sobre seus compatriotas e mesmo sobre pessoas outras nações, entendo o cuidado dos ingleses em mantê-lo isolado em uma ilha minúscula, no meio do Atlântico.

Recentemente descobri que houve mesmo pelo menos um projeto de resgatar Napoleão de seu penoso confinamento. Pesquisando por informações sobre Henri Plasson, comerciante e jornalista francês que viveu no Brasil entre 1816 e 1831, ligando-se a d. Pedro I a quem acompanhou na partida para a Europa, achei artigo do historiador Patrick Puigmal que revela que alguns desses projetos tiveram o Brasil como base (“Brasil bajo influencia napoleónica y francesa. Los mensajeros de la Independencia: militares, libreros y periodistas”, disponível em  file:///Users/Admin/Desktop/Abdicacao/franceses%20no%20brasil.webarchive.

O tema do artigo de Puigmal em si já é por demais interessante. Seu objetivo é provar que no Brasil, remanescentes do exército napoleônico tiveram um papel importante no nosso processo de emancipação. De acordo com os dados que levantou, alguns desses oficiais napoleônicos não só tiveram ação decisiva nas guerras da independência como foram os formadores de nossos Exército e Marinha. Ficando no Brasil eles foram distinguidos com elevadas patentes e títulos de nobreza, passando a fazer parte das melhores famílias da classe dominante do país.

Mas o episódio que inspira este artigo aconteceu em 1817 no âmbito da Revolução Pernambucana. Um navio vindo dos EUA, trazendo a bordo 25 oficiais e 70 soldados europeus e soldados e americanos foi apreendido no porto do Recife logo após o fracasso daquela revolução. O objetivo declarado daquela expedição era ajudar a jovem república, mas, quando interrogado, o coronel francês Latapie revelou que o projeto era resgatar Napoleão Bonaparte em Santa Helena.

A trama envolvia o Almirante Cochrane que viria do Chile trazendo em seus navios tropas do exército dos Andes comandadas pelo general Brayer, outro fiel soldado de Napoleão. Dali, os navios de Cochrane ancorados na ilha Fernando de Noronha seguiriam com destino a Santa Helena, resgatariam Napoleão e o trariam de volta para o Recife. O projeto fora concebido por seu irmão José Bonaparte, que vivia exilado em Estados Unidos. Pouco depois da detenção do Parangon, esse era o nome do navio, chegaram ao porto do Recife o Pengouin trazendo as armas compradas por Antonio Gonçalves da Cruz que fora aos EUA obter apoio para a Revolução Pernambucana e outro navio, vindo do Havre, na França, o “Les trois frères”, trazendo mais oficiais e soldados franceses. 

Segundo Puigmal, a proximidade geográfica entre a ilha de Santa Helena e a costa do Brasil foi elemento poderoso a favorecer esse tipo de projeto. A seu ver o estabelecimento no Rio de Janeiro do general holandês Dirk van Hogendorp, em 1816, não teria sido uma escolha aleatória. Hogendorp era tão ligado a Napoleão que foi contemplado em seu testamento e até morrer, em 1822, foi presença marcante na vida carioca, recebendo a visita de viajantes célebres e tornado-se próximo de D. Pedro I, que pagou as despesas de seu funeral. Hogendorp teria indicado ao Imperador o futuro Marechal Pierre Labatut que teve papel decisivo na guerras da Independência da Bahia como comandante do chamado Exército Pacificador. Além Hogendorp, outro francês também chegado ao Brasil em 1816, liderando a missão artística francesa, Joachim Lebreton, e que se ligaria estreitamente ao holandês, era suspeito de ser espião bonapartista.

A circulação de europeus inspirados pelos ideais românticos da grande Revolução pelo Brasil, é um capítulo fascinante da nossa história e que ainda está por ser mais investigado. O fim do ciclo napoleônico, com sua derrota e exílio em 1815, com a subseqüente Restauração e a tentativa das antigas monarquias européias de passar uma borracha no que fora feito até então não arrefeceu o ânimo dessa gente. Se, quinze anos depois, outra revolução liberal, a de Julho de 1830, derrubou novamente os Bourbons do trono francês e provocou uma onda de revoluções liberais na Europa, isto se deveu, em grande parte, à permanente militância dos herdeiros de 1789 e de Napoleão Bonaparte. A obra recentemente lançada “La liberté guidant les peuples – les révolutions de 1830 en Europe”, conta como uma verdadeira internacional liberal composta de voluntários que se deslocavam para onde preciso fosse, atuou em todos os movimentos revolucionários que agitaram aquele continente durante a década de 1820.  Organizada por Silvie Aprile, Jean-Claude Caron e Emmanuel Fureix, este livro demonstra que a história dos acontecimentos políticos nacionais decisivos precisa ser investigada do ponto de vista de suas conexões internacionais.

            Um novo e promissor campo de estudos está se abrindo: o da História Conectada. O Brasil tem aí muito a revelar pois, como o artigo de Patrick Puigmal demonstra. Há caminhos ainda não percorridos a serem desbravados pelo historiador que se dispuser a ampliar os horizontes e lançar os olhos em múltiplas direções.

O poeta sistemático (14/12/13)

Inez Cabral me deu de presente o livro que acaba de publicar com texto inédito de seu pai. Um luxo duplo: ser amiga de Inez Cabral, que conheci na casa de Silvia Escorel e que o facebook tornou próxima e ganhar este livro que é um presente único para todo admirador da obra de João Cabral de Melo Neto. “Notas sobre uma possível A casa de farinha”, lançado pela editora Alfagura, reúne os originais manuscritos, datilografados e anotados pelo poeta para um peça teatral, mais precisamente um auto, escrita em 1966 (há uma anotação datada em uma das primeiras péginas). É uma fonte fabulosa para quem quiser entender a mecânica da produção de João Cabral de Melo Neto.

Trata-se de verdadeira carpintaria do texto. Melhor dizendo: verdadeira engenharia do texto. Ao contrário do que se pensa dos poetas, que tirariam dos seus devaneios os poemas que compõem seus livros, vemos aqui um trabalho prévio de pesquisa, de estruturação, de composição que faz lembrar o trabalho investido na produção de um texto acadêmico. Segundo Armando de Freitas Filho que assina um dos dois prefácios, (o outro é de Luís Pimentel) “este extenso e exigente planejamento” era uma característica da forma de João Cabral trabalhar. Ele preferia “preparar de antemão o arcabouço do livro, o seu alcance, do que escrever aleatoriamente os poemas que irão lhe dar volume.”

O projeto era escrever um auto em torno do último dia de funcionamento de uma casa de farinha no interior de Pernambuco, com os trabalhadores especulando sobre o que irá de fato acontecer, que destino será dado à casa de farinha e, por decorrência, a eles mesmos. João Cabral organiza os personagens de sua obra como um engenheiro organiza sua equipe de trabalho. Ele os divide em grupos, classifica-os pelas especialidades que as várias etapas do trabalho de produção da farinha exige e atribui a cada grupo uma função dramática de forma a garantir a dinâmica do espetáculo. Assim o grupo otimista das raspadoras se contrapõe ao grupo pessimista das raladoras; estes reagem aos ambíguos carregadores de mandioca que trazem de fora as noticias, ora apontando para um desfecho feliz, ora nem tanto.

O quebrador, o prensador e o forneiro são as únicas atividades que não são realizadas em grupo. Se o primeiro é otimista, o forneiro é realista e o prensador ambíguo, desempenhando na trama o papel do comentarista meio irônico, meio filosófico, pontuando suas lacônicas falas por meio de provérbios. O forneiro, descrito em texto de Gustavo Barroso incluído nas anotações de João Cabral, deveria fechar o auto sozinho, pois a sua é a última etapa da produção. Com uma espécie de rodo com que espalha a farinha no forno para não queimar, em movimentos que fazem lembrar o de um croupiê de casa de jogo, ele murmuraria seus comentários irônicos, como que para si mesmo.

O esquema é tão matematicamente planejado que João Cabral chega a fazer gráficos e a estabelecer uma estratégia para as disputas de forma que em alguns momentos otimistas estejam vencendo e pessimistas perdendo e vice-versa. Algumas páginas trazem títulos indicando os tópicos que virão abaixo: “Psicologia-ideologia dos personagens”; “Coisas que o texto tem que deixar claro”; “Suposições possíveis para o fechamento da casa de farinha”, etc. Há citações de autores como Karl Jasper, James Joyce mas as mais direcionadas para a atividade teatral são as de P. A. Touchard. A que parece mais influir nas decisões do autor é que a que diz que “la durée” (o prolongamento) é o inimigo no teatro, pois uma situação que se prolonga perde sua intensidade dramática.

Há mais de uma referência a “Esperando Godot” de Samuel Beckett. No auto, o dr. SUDENE é o personagem correspondente a Godot e que João Cabral diz querer evitar que se pareçam (“É preciso de qualquer maneira que não fique Godot o dr. SUDENE”). A SUDENE, Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste, que fora criada em 1959, aparece no imaginário dos trabalhadores da casa de farinha como um “sujeito fabuloso, do Recife e do Rio. Manda de longe, em todo mundo. Pode tudo. Ninguém o viu mas todo mundo acredita nele.”

Há, como não poderia deixar de ser, uma relação entre este auto, “A Casa de Farinha” e “Morte e vida Severina” (Auto de Natal). Ela é mais explicita na passagem em que Cabral diz que “Casa de farinha não tem a dramaticidade-viagem fácil do Auto de Natal.” Naquele em que não havia disputa, não havia discussões fortes: “no auto não há discussões, há conversas. A única discussão e fraca é Carpina x Severino”. Na Casa de Farinha a intenção de João Cabral é promover disputas violentas entre grupos e personagens chegando quase às vias de fato. Mas, a meu ver, um dos aspectos literariamente mais férteis desses originais são o que João Cabral chama de infúndios (palavra que, creio adaptou da espanhola “infundio” que é sinônimo de “mentira”). Infundios seriam mentiras para ajudar a viver e que seriam produzidas pelos personagens supostamente mais simplórios e otimistas: as raspadeiras de mandioca. E com um trecho que João Cabral conta como usará este recurso em seu auto da Casa da Farinha, finalizo meus comentários sobre este livro singular que certamente será um dia tema de tese de doutorado.

“Quando as raspadeiras estão juntas, sozinhas, para esquecer a preocupação que vem das ordens do dono da casa de farinha, elas deslizam para a conversa de infúndios: e começam a descrever o que estão fazendo – raspar mandioca - , a casa de farinha velha, as roupas, etc. como coisas do passado, de quando elas eram meninas. Mas isso não pode ser muito longo e tem de ficar claro. Inclusive deve ser introduzido pela pergunta: vamos imaginar mentira? Vamos contar infúndios; vamos imaginar coisas? etc. Assim, a gorda se imagina magra, a preta, mulata; falar de sapato e mostrar o pé descalço; falar do dinheiro que tem no lenço e na mesma hora se vê que não tem, etc. (Essa conversa é uma: imaginar o presente como passado).”

Intelectuais da educação (30/11/13)

Esta semana participei no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, o IFCS, da UFRJ, do encontro extraordinário do Grupo de Pensamento Social no Brasil da ANPOCS, que já vem se firmando como atividade paralela ao encontro anual. Este ano, além da apresentação dos trabalhos dos jovens pesquisadores que escolheram essa área do conhecimento para estudar, por iniciativa de André Botelho, o encontro homenageou três grandes damas das Ciências Sociais Brasileiras: Ângela Castro Gomes, Lucia Lippi de Oliveira e Elide Rugai Bastos. Uma homenagem de trabalho, digamos assim, pois os textos apresentados pelos que homenageavam, faziam um balanço crítico da produção acadêmica das autoras. Isto deu à homenagem um caráter consistente que permitirá a divulgação das análises em publicações acadêmicas. De qualquer maneira não deixou de haver muita emoção por parte das homenageadas e da platéia, um combinado de gente que se conhece há muito tempo e de gente jovem, empenhada em conhecer o Brasil do ponto de vista dos pensamentos concebidos sobre ele.

Na platéia estava também Helena Bomeny e revendo agora os comentários que fiz sobre um dos trabalhos que fui convidada a analisar, percebo que cometi falha grave ao não citar e recomendar à jovem doutoranda Ana Cristina Rocha que se dedica ao estudo da influência norte-americana nos métodos da educação básica no Brasil dos anos 1930, o livro de Helena, Os intelectuais da educação. Lançado em 2000 pela editora Zahar, em suas 85 páginas obtemos um panorama da história do ensino fundamental no Brasil, além de um diagnóstico de seus problemas e dos projetos alternativos que se apresentaram ao longo do século XX para enfrentá-los.

A ênfase do livro de Helena recai sobre as propostas de Anísio Teixeira e de seus contemporâneos da chamada Escola Nova. O livro conta como o problema da educação foi tratado (ou ignorado) no Império; como eram precárias as estatísticas até o começo do século XX e como a elite sempre priorizou o ensino superior em detrimento da escola primária. Não sei se é possível concordar com o argumento de que havia intencionalidade na exclusão da grande massa do sistema educacional mas, de qualquer maneira, a própria insensibilidade com que o problema foi tratado seria tão ou mais criminosa do que a intenção. Mais dramática ainda foi a forma como os excluídos da sociedade, a massa formada pelos negros e pardos após a Abolição, foi posta de lado como inútil e irrecuperável, priorizando-se o aprimoramento da mão-de-obra através da imigração européia. Pior para quem assim pensou. Pois os imigrantes vinham de países onde o problema da educação tinha outro tratamento e com uma consciência de seus direitos que era totalmente o avesso da prática do mercado de trabalho num Brasil recém saído da escravidão.

A década de 1910 viu o surgimento de inúmeras ligas de defesa nacional que desempenhariam papel importante na luta pela educação popular. Este projeto seria aprimorado nos anos 1920 pela Associação Brasileira de Educação, no movimento que ficou conhecido como Escola Nova. Novos ventos sopravam da América e o maravilhoso encontro de Anísio Teixeira com Monteiro Lobato no Estados Unidos proporcionaria um outro encontro fundamental para o pensamento educacional no Brasil. Lobato aproximou Anísio de Fernando de Azevedo em 1929. A amizade e a colaboração entre esses dois últimos se prolongaria por toda a vida. O Manifesto dos pioneiros da educação nova, redigido por Fernando de Azevedo e lançado em 1932 com a assinatura de 26 educadores brasileiros, foi o primeiro grande documento sobre o problema da educação no Brasil. Os pioneiros defendiam com fervor a escola pública, gratuita e laica e esta bandeira encontraria na Igreja Católica o seu mais ferrenho adversário.

As escolas católicas ocupavam a maior parte do mercado de escolas particulares no Brasil, uma tradição que vinha da colônia, do tempo dos jesuítas: educação era assunto de padre. Em defesa dessa tradição Alceu Amoroso Lima, o maior intelectual católico da década de trinta se lançará, junto com o Padre Leonel Franca, num combate intenso contra as propostas da Escola Nova. Com o fracassado golpe comunista de 1935, a reação aproveitou o momento e juntou os inimigos no mesmo saco, condenando os liberais inspirados no modelo educacional norte-americano, Anísio Teixeira e Fernando de Azevedo ao ostracismo. Mais uma vez a educação pública foi posta para escanteio.

Os anos 1950 marcam a entrada das massas na cena política. As imagens das multidões no enterro de Vargas, em 1954, e no comício da Central, em 1963, são inequívocas. Aquele gente se agita e se manifesta. As coisas haviam mudado. Mas o discurso das elites continuava o mesmo. Exemplar é o debate entre Darcy Ribeiro e Carlos Lacerda. Darcy acusa Lacerda de ser o coveiro da escola pública. Os pioneiros da educação, em 1959, lançariam novo documento: o “Manifesto dos educadores mais uma vez convocados”, redigido ainda por Fernando de Azevedo foi assinado por 189 pessoas. Mas o projeto da Escola Nova era um sonho condenado. O regime militar implantado em 1964 que se estenderia até meados dos anos 70 nada fez pela educação de base. Antes, impediu a continuação do trabalho inspirado na obra de Paulo Freire: a educação pela liberdade. O MOBRAL, programa de alfabetização de adultos, único projeto educacional em que os militares investiram, destinava-se mais a maquilar as estatísticas sobre o analfabetismo no Brasil do que a resolver o problema.

Resumindo aqui o livro de Helena Bomeny, presto também minha homenagem a ela, Ângela, Elide e Lúcia, colegas e amigas, todas elas também professoras que, ao lado da obra impressa, podem se orgulhar de terem formado levas de outros brilhantes intelectuais que darão continuidade às reflexões sobre este mesmo velho Brasil que tanto nos intriga, apaixona e desafia.

Aproveite: esta oferta é por tempo limitado (23/11/13)

Uma daquelas coisas que me ficaram presas na memória, ocupando espaço no HD sem nenhuma utilidade aparente foi o slogan de uma liquidação de loja de tecidos na Fortaleza de minha infância: Loucuras de setembro. Até começar a escrever essas mal traçadas nunca havia parado para pensar no sentido oculto desse tipo de mensagem que os lojistas mandam aos seus usuais ou virtuais fregueses: liquidação, queima, venda extraordinária, ocasião única, vá correndo aproveitar. Todas remetem a uma situação limite, à possibilidade iminente de perda de uma oportunidade que pode ser a última. O dono enlouqueceu, quer vender por preço irrisório, quer acabar de qualquer maneira com o seu estoque, cabe a você aproveitar, pois o estado de insânia é momentâneo. Dura, em geral, um mês, tempo para mudar as vitrines e apresentar a nova coleção. 
 
Apelos assim batem no coração de quem desejou mas não pôde ser uma das primeiras a usar a última moda. A liquidação resolve o problema proporcionando a você a posse de coisas antes inacessíveis, ainda a tempo de serem exibidas no finalzinho da estação, que, com sorte, pode se estender por dias que vão além do seu tempo metereologicamente regulamentar. Liquidação é coisa de mulher, ser desejante e determinado, capaz de mergulhar numa caixa de saldos em pleno shopping para resgatar do meio de muita coisa desprezível aquela blusinha maravilhosa da grife do momento.

Folheando revistas antigas achei muitos anúncios de liquidações no Rio de Janeiro do começo do século XX. A primeira revista de moda publicada no Brasil foi A Estação: Jornal ilustrado para a família. Publicação quinzenal, A Estação que saiu regularmente de 1879 a 1904, era a versão em português da revista francesa La Saison que circulara no Brasil até o ano anterior e dividia-se em duas partes: um “Jornal de modas” e um suplemento literário. O primeiro era traduzido da publicação européia, trazia grande quantidade de moldes, riscos e figurinos. Mas o principal problema da revista era o fato de que seus figurinos, concebidos na Europa, estavam sempre em desacordo com as nossas estações climáticas. Problema inevitável sob pena das leitoras não se trajarem de acordo com a última moda de Paris. A Estação prometia, no entanto, dar sugestões para que as toaletes pudessem ser adaptadas. E acreditava que com isto ajudaria a revelar “todo o gosto e engenho de sua gentil leitora.”

Nos anos 1920, o que melhor se vestia no país aparecia primeiro nas lojas da rua do Ouvidor. A via dolorosa dos maridos pobres, como a chamou Machado de Assis, abrigava lojas de roupas e acessórios como a Notre Dame, a Torre Eiffel, a Royal Store, a Casa Raunier e a Sloper. A fama da Ouvidor, no entanto vinha sendo eclipsada desde a inauguração da Avenida Central (Rio Branco), em 1904. Nela ficavam, dentre outras, a Barbosa Freitas & Cia., a Casa Colombo, de roupas e uniformes para crianças e o Ao Barateiro, que, apesar do nome, era especializado em roupas finas para senhoras. No largo de São Francisco de Paula ficavam a Parc Royal, A’ Brazileira e A’ Paulicéa (que, em seu anúncio detalhava a localização: junto aos Fenianos).

Na revista D. Quixote, de 23 de março de 1921, o Parc Royal, “a maior e a melhor casa do Brasil”, anunciava o início de sua grande venda de saldos de fim de estação para o dia 1o de abril. No que fora antecedida pela casa Barbosa Freitas e Cia. que, em “sua venda extraordinária por motivo de excesso de stock” prometia descontos de 20%, 30% e até 50% em todos os artigos sem exceção. A’ Paulicéa, garantia enorme redução no preço de todo o seu “grandioso stock de artigos de verão”: sedas, roupas brancas, morins, cretones, meias e vestidos para crianças. A Casa Isidoro, na Sete de setembro, promovia vendas por preços excepcionais mas apenas por pouco tempo “para dar lugar às grandes entradas de nossos artigos de inverno”.

Já outro anúncio nos advertia que comprar A’ Brazileira era “acompanhar a moda parisiense, fazendo economia e cultuando o bom gosto”. Em número posterior, a loja era ainda mais enfática: “É escusado procurar vantagens em preços iguais aos que oferece A’ Brazileira”. A disputa pela clientela naquele final de verão parece ter pegado fogo, pois, em seguida, A’ Paulicéa, tomada de brios, contra-atacava anunciando que “A’ Paulicéa não anuncia descontos imaginários, mas os seus preços, bem visíveis, provam à evidência que” (assim mesmo, em caixa alta): “NINGUÉM VENDE MAIS BARATO”. E, no final, desafiava: “Confrontem os preços”.

Entre o final de abril e o começo de maio, os anúncios começam a ser substituídos por outros mais elaborados em que se mostram as coleções de inverno. A liquidação de inverno, no entanto, que acontecia entre agosto e setembro, parecia ser bem mais doída para o lojista. Pesarosa, A‘ Paulicéa anunciava “a sensacional venda de todo o seu stock de tecidos de lã, flanelas, boás, cobertores e mais agasalhos, a preços sem precedentes contramarcados pelo custo e outros com grande prejuízo”. Até o Parc Royal, apesar de garantir que ia em “pleno êxito” a sua grande venda de saldos “verdadeiros” (uma alfinetada na concorrência), apelava: “tudo marcado por preços que não nos será possível repetir”.

Os apelos dos lojistas podiam ser sóbrios como em anúncio na revista Careta de setembro 1923 em que a Notre Dame, o Ao Barateiro e A’ Brazileira, juntas prometiam “mais conforto e economia sensível na compra de todos os agasalhos da moda de seu stock: manteaux, costumes, peles e casacos de malha”; podiam prometer descontos modestos, como o da Casa Raunier: 15%, ou serem pretensamente técnicos como o da Casa Colombo, cujo “sistema de venda de saldos uma só vez por ano”, garantia, era único no mercado. O que importa é que apelavam todos para aquele sentimento legitimamente humano, comum a homens e mulheres, que é a vontade de possuir. Ainda que seja de liquidação.

Historiadores x jornalistas: um falso conflito (16/11/13)

De vez em quando se tenta estabelecer uma polêmica entre jornalistas e historiadores no que diz respeito ao resultado final de seus trabalhos quando tratam da História. A meu ver essa é uma falsa polêmica pois não vejo manifestações hostis da parte de historiadores contra jornalistas que se aventuram em obras históricas, nem vice-versa. Creio que essa ausência de conflito se deve a uma diferença importante entre os livros de historiadores e de jornalistas. Ela diz respeito à questão que o historiador se propõe a responder quando começa a fazer seu trabalho. Ou seja, a escolha do tema de um trabalho acadêmico tem como elemento detonador uma questão e é em torno daquela questão que ele se desenvolverá. Isto pode tornar a leitura do texto final do historiador menos interessante do que a de um livro-reportagem, por exemplo, no qual muitos e variados caminhos podem ser percorridos pelo redator sem que isto comprometa a qualidade da obra. Ao contrário, essa variedade é que torna alguns desses livros tão empolgantes. No caso do livro do historiador (ou do autor de trabalho acadêmico em geral), sua maior qualidade estará associada não só à quantidade e à qualidade do novo conhecimento que ele agrega mas também ao tratamento analítico que deu ao tema. Fazer isto e ainda produzir texto final capaz de interessar e ser compreensível a um público mais amplo do que o de seus pares continua a ser um desafio para a maior parte desses autores. 

Outro aspecto que merece reflexão diz respeito aos prazos oficiais para a realização de teses e dissertações que foram encurtados há alguns anos. Antigamente uma tese de doutorado era considerada o trabalho final que coroava a carreira universitária. Muita gente levava dezenas de anos para concluir a sua que devia ser uma obra de excelência capaz de modificar a visão que se tinha até então sobre o tema analisado. Hoje, os mestrandos tem que estar com a dissertação pronta em dois anos e os doutorandos com a teses defendida em quatro. A pressão para que teses de doutorado sejam concluídas dentro do prazo, me parece, tem resultado em muitos trabalhos insatisfatórios ou mesmo incompletos. Mesmo assim, sendo uma produção em que estão implicadas muitas questões subjetivas, é difícil avaliar se, com um prazo maior, aqueles trabalhos teriam saído melhores. Até porque, a tese, o livro, o artigo, são apenas produtos de um “self” que um intelectual passa a vida construindo e a pós-graduação é apenas um dos primeiros degraus dessa escada. Isto também, com as devidas ressalvas, torna diferentes os trabalhos de historiadores e jornalistas. Afinal se o trabalho acadêmico hoje pode ser sempre melhorado, modificado, revisto a partir do diálogo com a obra de outros colegas, o livro do jornalista pretende ser, até por razões comerciais, a última e definitiva palavra sobre aquele assunto.

Atualmente, com a ampliação das pós-graduções, com a obrigatoriedade da publicação de trabalhos para pontuar o Currículo Lattes, há uma verdadeira montanha de textos acadêmicos produzidos ou em vias de produção que nem mesmo as editoras universitárias conseguem atender. Por outro lado, aada vez menos as editoras comerciais embarcam na publicação de obras acadêmicas e, quando o fazem estabelecem restrições que descaracterizam a obra para livrá-la do chamado “ranço acadêmico”. Com tais cortes o imenso trabalho investido nas notas e nas discussões teóricas se perde e isto, muitas vezes, compromete o resultado do livro editado. Muitas obras “difíceis” perdem muito de seu valor se apresentadas sob a forma de “vulgatas”.

É preciso preservar, estimular e garantir a divulgação desse tipo de trabalho que é o que, de fato, promove o desenvolvimento cientifico do país. É preciso que haja espaço para que obras que pensam o Brasil como as de Oliveira Viana, Sergio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre,Viana Moog, Caio Prado Junior, Florestan Fernandes, Guerreiro Ramos e Celso Furtado venham à luz. Por isso, me parece que o futuro editorial desse tipo de obra está na exclusiva publicação on-line. Hoje, através dos sites de grandes universidades e bibliotecas brasileiras e estrangeiras já se tem acesso a um grande volumes de trabalhos acadêmicas especializados, com um alcance e uma agilidade que nenhuma editora de livros impressos consegue atingir.  Se essas obras não têm tantos leitores é grande seu poder transformador e multiplicador, através da divulgação que delas os professores nas universidades ou outros autores de trabalhos acadêmicos ao citá-las e comentá-las, ou mesmo os formadores de opinião em seus artigos na imprensa. É evidente que, por caminhos variados, as idéias de alguns dos clássicos citados acima estão presentes também na forma com que jornalistas e escritores apresentam a História do Brasil em seus livros voltados para o grande público.


Acredito que há lugar para todos e a cada livro corresponde um tipo de leitor. Há livros de história escritos por não historiadores que atendem perfeitamente a um leitor de cultura mediana e, ao meu ver, suprem o nível de conhecimento que o não especialista precisa ter sobre o assunto. Muitas deles, aliás, são corretamente pesquisados, bem escritos e, por vezes, representam o primeiro ou o único contato que o leitor vai ter com aquele assunto. Outros são trabalhos que apresentam análises discussões tão consistentes quanto as que se desenvolvem na academia. Aliás, é sempre bom lembrar que, no Brasil, antes da criação dos cursos de História, grande parte da produção historiográfica era feita por jornalistas. Jornalistas como Raimundo de Magalhães Júnior e Francisco de Assis Barbosa produziram obra de fôlego como as biografias - nunca superadas em qualidade - de Deodoro da Fonseca, o primeiro, e de Lima Barreto, o segundo. Qualquer historiador deve se sentir honrado com tão boas companhias.

Pequenos assaltos (2/11/13)

Bato três vezes na madeira antes de dizer que, nestes 36 anos de Rio de Janeiro nunca fui assaltada. Quer dizer, isto se não contar aquele dia em que passando de carro em frente da Cobal de Botafogo, numa retenção de trânsito, fui abordada por um garoto de seus 14 anos, magro, amarelo, muito franzino, como um desses personagens de filme sobre a seca no Nordeste. A diferença é que havia nele algo de gasto, de desmoralizado, de cínico e aquela ousadia do que sabe que não tem nada a perder, tão característica dos meninos de rua da cidade grande. Ele encostou na janela do carro e me disse alguma coisa que me pareceu “isto é um assalto”. Ou nem precisou dizer pois, por conta das tantas histórias que a gente ouve de meninos assaltando carros armados com caco de vidro, eu lhe dei o dinheiro que tinha em um movimento automático. Isto faz tanto tempo que o carro nem tinha ar condicionado, pois ainda não tinha virado uma regra essencial de sobrevivência na selva andar com os vidros fechados.

Por causa desse história de ar condicionado me lembrei de outra. Foi em São Paulo, numa breve viagem, daquelas bate e volta, para participar do júri de um concurso da Folha. Eu ia para o aeroporto e o taxi contratado pelo jornal para me levar não tinha ou estava com o ar condicionado quebrado. Por alguma razão que só a realidade paulistana pode explicar, os taxistas que pego ali não costumam ligar o ar. O fato é que o calor do dia abafado me fez ficar de janelas abertas, durante um daqueles engarrafamentos tradicionais da cidade. Estávamos em cima de um viaduto, eu tinha posto a maleta com notebook no chão, justamente temendo um roubo, mas conservava a bolsa no colo. Eis que, senão quando, dois jovens magros, altos e claros que vinham andando pela margem, passaram por mim e, de repente, um deles meteu a mão pela janela, arrancou minha bolsa e saiu correndo. O susto foi grande mas o medo de ficar sem os documentos para voltar para casa foi maior.

Abri a porta do taxi e corri atrás deles. Ainda os vi de cima do viaduto, lá em baixo, correndo para uma das ruas daquela região, creio que Bela Vista, e de lá fiquei gritando para eles: devolve, devolve! Eles me viram, me ouviram, creio até que sorriram e seguiram caminho. Pedi ajuda a dois guardas de trânsito mas eles não me deram a menor bola. Não era da alçada deles, eu acho. O taxi teve que seguir adiante pois o trânsito andou e eu me vi ali em cima de um viaduto daquela estranha cidade (como os cariocas gostam de chamar) sem dinheiro, sem documentos, sem celular, pensando no que fazer. Confesso que não entrei em pânico. Lá de baixo, enquanto eu esperava alguma coisa acontecer, alguém me chamou: Isabel, Isabel! Olhei e vi um sujeito moreno, junto com outras pessoas, todas com cara de gente trabalhadora que, lá de baixo, acenavam para mim perguntando: Você é Isabel? Desci. Ele estava com os meus documentos, por isso me chamava pelo nome.

Os ladrões tinham largado minha bolsa na calçada em frente da oficina dele. Era uma oficina de conserto de bombas d’água, creio eu e a turma que trabalhava lá era super simpática. Pareciam personagens de música do Adoniran Barbosa, aquela mistura popular tão paulistana que inclui sempre um italiano, um negro e um nordestino e mais um que mistura isto tudo. Minha bolsa estava esvaziada, sem dinheiro, sem celular, sem óculos, sem... enfim, só sobrou o que não valia nada. Para o ladrão, claro, porque para mim foi ótimo achar o telefone do pessoal da Folha que, acionado, logo entrou em contato com o taxi dizendo onde eu estava. Chegou o taxi junto com uma patrulhinha. O policial – sem muito interesse - perguntou se eu queria ir à delegacia prestar queixa. Imagine. Eu só queria conseguir chegar em casa. Fui para o aeroporto com o número do bilhete e embarquei sem um tostão e com um medo danado que acontecesse mais algum imprevisto.

Mas isto não vale porque foi em São Paulo. No Rio, além do episódio do menino amarelo, uma vez me levaram cinqüenta reais. Não foi exatamente um roubo. Estacionei meu carro atrás do Circo Voador, ali na Lapa. Era de noite mas era relativamente cedo, o lugar estava cheio de carros mas meio vazio de gente. O rapaz disse que olharia o carro para mim e me pediu adiantado os dois reais de praxe, eu abri a bolsa peguei uma nota de cinqüenta que era o que eu tinha e, estupidamente disse, com a nota na mão, não tenho dois reais, só cinqüenta. Ele rapidamente respondeu: eu troco. Pegou a nota e saiu correndo pelos becos escuros do entorno da rua do Lavradio e nunca mais foi visto. Eu fiquei com cara de trouxa. Ainda procurei uns guardas que estavam no Largo conversando com os ambulantes, para reclamar. Afinal cinqüenta reais ainda eram alguma coisa e, nem era tanto pelo dinheiro, mas pela forma como me tinha sido levado. Os guardas me olharam como quem olha para alguma marciana, como quem diz: Hellôôô, isto é a Lapa, madame, se toca. Só mesmo sendo muito otária para ficar ali à noite, numa esquina deserta, com uma nota de cinqüenta na mão.


Essas histórias me voltaram agora que sou atormentada por uma dúvida. Desconfio que me cobraram preço extorsivo pelo serviço de colocação das minhas janelas de guilhotina. O sujeito que cortava a madeira indicou o que colocava a janela que indicou o que fazia os pesos. O que cortava cobrou um preço muito elevado, o que colocou cobrou outro tanto e o dos pesos foi na mesma toada. A alegação de todos é de que era um serviço exclusivo, ninguém mais fazia. Como não pude fazer uma profunda pesquisa de mercado, fiquei com o que me disseram e paguei o que me pediram. Mesmo assim, restou a dúvida: será que eles não combinaram tudo entre si, incorrendo no artigo do código penal que tipifica a formação de quadrilha? De qualquer maneira, como não posso fazer nada mesmo fico com sensação igual a que tive naquela esquina da Lapa, vendo o garoto que se escafedia lépido e certamente feliz com a minha nota de cinqüenta muito bem presa em uma das mãos.

Praticando o desapego (26/10/13)

Gosto muito dessa expressão que tem circulado em tom de brincadeira pelo facebook. Como é mesmo que se pratica o desapego? Deixando partir alguém que já não nos quer; abrindo mão de tanta coisa inútil que nos cerca; pedindo ou aceitando desculpas de um amigo... Minha irmã mais velha, a Lúcia diz que guardar coisa quebrada dá azar. Então deve ser por isso que meu livro anda atrasado e a obra aqui em casa não termina. Tenho um monte de coisa quebrada aqui em casa guardada em armários e gavetas e que penso que um dia vou consertar, mas esse dia nunca chega. E olha que a maior parte é coisa inútil, daquele tipo de lembrancinha de viagem que não serve para nada. Está na hora de praticar o desapego com essas coisas e jogar tudo no lixo.

Mas tem os livros, as dezenas de livros que tenho e que nunca vou ler. Não por demérito deles mas porque é preciso ser razoável: se o livro está comigo há décadas, nunca foi lido e não tem nada a ver com a literatura que tem me interessado no últimos anos para que guardá-lo durante as próximas décadas que talvez ainda me restem de vida? É verdade que da última em que pratiquei o desapego com meus livros, me desfiz de uma coleção muito castigada de livros do Somerseth Maughan. Hoje, me lembro com saudades daquelas e de outras tantas obras de ficção que tinha esperança de voltar a ler. Romances, contos e novelas nas ótimas traduções de antigamente que eram feitas por gente como Drummond, Quintana, Veríssimo, Lispector.

De muitos outros livros não tenho idéia quando mandei embora. Em que momento me desapeguei tanto da minha edição de "Cem anos de solidão", aquela bem pobrezinha da Codecri, que li em uma noite de 1968, no quarto que dividia com Clélia, no segundo andar de nosso sobradinho da rua Nossa Senhora da Piedade, 126? Por uma obra do acaso, chegou até os dias de hoje na minha estante a edição da "Nova Seleta" que usei no primário. A esta continuo muito apegada, mesmo não tendo mais utilidade nenhuma.

O engraçado desse negócio que é muito mais fácil se desfazer de coisas dos outros do que das nossas. Nós, os que temos a mania dos papéis velhos, dos livros com páginas se esfarelando, temos muita facilidade de condenar os que têm a mesma mania. Uma vez, tive um namorado alemão que juntava jornais brasileiros que um dia ia ler. Em seu pequeno apartamento de recém divorciado, os velhos jornais se acumulavam, com aquela poeira preta característica, nos armários; nas gavetas; sobre cadeiras; no chão e nos lugares mais improváveis... pois bem, resolvi praticar o desapego no lugar dele e, aproveitando sua ausência, mandei-os para o lixo. A briga foi feia e o namoro desandou dali em diante.

Tenho exemplo pior: uma colega mantinha pastas e pastas de pesquisa que fizera há muitos anos, em um armário comum do trabalho. Ela estava fora e era preciso limpar a área porque o lugar em que trabalhávamos ia ser reduzido, muitos armários teriam que sair. Foi aí que resolvi praticar por ela o desapego e mandei para o lixo aquelas pastas que eu achava que ela não mais ia usar. A reação foi dramática. Quase rompemos. Ela depois me perdoou, acho até que esqueceu. Talvez, de fato, precisasse se livrar daquela carga que a ligava a um passado ao qual ela não pensava em retornar e que seguia guardando, ao longo dos anos, na esperança que aparecesse alguém interessado nos dados armazenados ali. Não sei. De qualquer maneira, não cabia a mim decidir e hoje reconheço a minha falta de critério pois, eu mesma guardo cadernos e mais cadernos com textos dos jornais e livros que utilizei nas minhas teses de mestrado e doutorado. E devo fazê-lo com base na mesma esperança que tinha minha colega de que alguém um dia se interesse por eles.

Até a lembrança de algumas coisas que perdi me persegue. Uma vez, em uma mudança perdi algumas fotos antigas de meu pai. Só de uma delas me lembro e essa lembrança ainda dói. Era uma foto dele, muito jovem, com dois colegas das Casas Pernambucanas, onde começou a vida como caixeiro. Eu a tinha separado, junto com duas outras, em um saco comum de plástico, daqueles azuis, pois tinha a intenção de pintar um quadro a partir dela (era no tempo em que eu pintava, ou achava que ainda ia pintar). Na mudança de um apartamento para outro, o saco azul deve ter sido confundido pelo pessoal da mudança com um saco comum de lixo e jogado fora. Sempre penso nessa foto e onde ela pode estar. Minha maior esperança é que alguém a tenha achado em algum lixão, recolhido e posto para vender junto com outras naquela feira de antiguidades da Praça Quinze. Este é o destino mais nobre que ela poderia ter e é, certamente, a última possibilidade que tenho de rever a imagem ainda que esmaecida, de meu pai, com seu terno branco, em sua primeira juventude.

Eu sou do tipo que até recolhe coisa velha na rua. Confesso. Na minha sala tem uma cadeira que comprei de um mendigo em Botafogo. É verdade que o fiz a partir do expertise do meu então colega de repartição, Angelo Venosa, que atestou que o móvel tinha estilo. Guardo também uma carteira escolar daquelas em que a mesa é integrada com o assento, lembram? Para que serve? Nada, além da nostalgia que desperta em quem a vê. Foi Luciana Fróes quem me deu. Agora que ando praticando o desapego por conta da obra aqui em casa, resolvi passá-la adiante e pedi a Ângela Porto que a leve para a casa do sítio que ela e Heitor Moura estão reformando em Secretário. Acho que é mais fácil praticar o desapego quando você sabe que o objeto a que se é apegado vai ficar mais ou menos perto ou que, pelo menos, será mantido dentro de seu círculo de afeto. Acho que foi por isso também que a Luciana me deu sua carteira escolar, para sabê-la bem pertinho, na casa de sua amiga e vizinha de Fonte da Saudade. Não creio que vá se incomodar ao descobrir, lendo essas linhas, que a mesma vai agora ficar sob a guarda da filha do Stanislaw Ponte Preta, o Sérgio Porto, amigo e colega de seu pai, no Banco do Brasil, o charmoso, irreverente e sempre lembrado, Oldar Fróes.

Lembrança de Américo Jacobina Lacombe (12/10/13)

A pessoa mais elegante que já conheci na vida chamava-se Américo Jacobina Lacombe. Era uma elegância filha do conservadorismo, da coerência e de uma imensa cultura. Elegância que se expressava no tratamento atencioso que dispensava aos seus funcionários; nas amizades sólidas conservadas ao longo de muitos anos; no amor à memória de seus ancestrais; na dedicação ao trabalho e até no hábito de ir à missa aos domingos no Mosteiro de São Bento. Em um país como o nosso, em que as instituições se desfazem da noite para o dia, em que as convicções dos homens públicos são tão voláteis, a presença de Lacombe na Casa de Rui Barbosa, casa que dirigiu durante 54 anos, funcionava como uma âncora que a mantinha firme seu alicerces.

Foi em 1939, que o jovem advogado Américo Jacobina Lacombe sondou o ministro Gustavo Capanema sobre a possibilidade de vir a ser o diretor da Casa de Rui Barbosa. Não era um cargo disputadíssimo - criada em 1928,  a Casa tinha então apenas três funcionários – mas, Lacombe era um estudioso da obra e um admirador de Rui Barbosa. Capanema explicou que a vaga já estava prometida a um protegido de Juraci Magalhães. O decreto já estava pronto, faltando só Getúlio assinar. Mesmo assim, Capanema sugeriu a Américo que encaminhasse uma carta ao presidente falando de seus projetos para a Casa e anexando seu livro sobre Rui Barbosa. Lacombe foi nomeado e, pode-se dizer que, se a Casa de Rui Barbosa chegou aos dias de hoje com o prestígio que tem, deve muito à sua dedicação.

Eu o conheci já no final dessa longa jornada e posso dar testemunho de que, das boas coisas de trabalhar na Fundação, dessas coisas boas que a gente só percebe o quanto eram boas quando as perde, o melhor delas era trocar com o Dr. Américo algumas palavras amenas num encontro casual pelos corredores. Era um prazer contar a ele o que se estava fazendo e obter uma indicação bibliográfica fundamental. Indicação bibliográfica de historiador das antigas, por isso mesmo, conhecedor de livros que a gente mais nova esqueceu ou que não deu o devido valor.

Lacombe tinha sensibilidade para reconhecer novos valores e para, pensando sobretudo no futuro da instituição, estimulá-los em seus trabalhos. Creio que posso me incluir entre os que foram beneficiados por essa intuição do antigo presidente. Durante o tempo em que convivemos, escrevi dois livros: “Histórias de Presidentes” (1989) e “Brasil pelo método confuso” (1992) e, durante a redação dos dois, tive a honra de ter como leitor crítico o Dr. Américo. Ele me deu muitas informações esclarecedoras, dando-me detalhes que ouvira de Tobias Monteiro, de quem fora secretário, ou narrando fatos que assistira pessoalmente.

Foram essas histórias que me estimularam a fazer com ele uma série de entrevistas. Propus a coisa a Homero Senna e juntos passamos tardes de agradáveis conversações na biblioteca da casa de Lacombe. Ao longo de seu depoimento, o que mais encanta é a presença discreta e permanente dos amigos. Em 1926, ainda nos chamados “cursos preparatórios”, conheceu Plínio Doyle e juntos fizeram a Faculdade de Direito. Ali, uma turma inteligente que contava também com San Tiago Dantas, Otávio de Faria, Antonio Gallotti e Hélio Viana criou o CAJU – Centro Acadêmico Jurídico - , de feição conservadora e que se envolveria em animadas disputadas com os colegas e professores de esquerda. Dentre esses últimos o mais destacado era Castro Rebello que Lacombe e seus amigos, em protesto por sua escolha como paraninfo, optaram por colar grau na secretaria. Bem mais tarde, graças a Francisco de Assis Barbosa, se aproximaria do antigo professor, convidando-o a prefaciar volume das obras completas de Rui Barbosa.

O primeiro Lacombe chegou ao Brasil ainda no reinado de D. João VI. Era o “maître de ballet” Louis Lacombe que tive o prazer de reencontrar nas páginas dos jornais da Independência. Os Lacombe mantiveram a tradição francesa na educação das gerações seguintes e o pai de Américo, Domingos, estudou em Paris, foi aluno de Mallarmé e colega de Henri Bergson. O sobrenome Jacobina também se enraíza na história do Brasil. Seu avô, Antonio de Araújo Ferreira Jacobina salvou Rui Barbosa de quem era primo e amigo, de ser preso. Durante o governo de Floriano Peixoto, o dono da confeitaria Pascoal, depois de servir o jantar no Itamarati a Floriano e seus ministros, correu até a casa de Antonio Jacobina para lhe contar que planejavam prender Rui Barbosa tão logo ele chegasse ao Rio, vindo de Buenos Aires. Informado, Rui, em vez de desembarcar, seguiu rumo ao exílio em Londres. As prestações da casa da rua São Clemente, onde hoje fica a Fundação foram sendo quitadas pelo avô de Lacombe. No Rio, o nome Jacobina ficou muito ligado ao famoso Colégio Jacobina, criado pela mãe de Américo em 1912, na Rua Almirante Tamandaré, onde a família residia.

O escotismo foi introduzido no Rio de Janeiro pelo multi-empreendedor Arnaldo Guinle (personagem que está a merecer uma biografia). Da primeira turma a se reunir no Fluminense faziam parte, além de Lacombe, Oscar Niemeyer e Custódio Mesquita. Outra curiosidade biográfica: em sua biblioteca existia um livro de Júlio Verne com a anotação “comprado na tômbola do João Guimarães”. É que o João, seu colega no Colégio Arnaldo, em Minas, depois de ler um livro, rifava-o entre os colegas. Apesar de não ser ainda o consagrado escritor Guimarães Rosa, tinha o hábito de anotar num caderninho as palavras curiosas que descobria.


Histórias como estas estão reunidas no pequeno volume  “Lacombe, narrador” que organizei a partir das entrevistas. Relendo-o, não posso deixar de lamentar o quanto de conhecimento desapareceu junto com Lacombe. Quantas vezes, nesses vinte anos que se passaram desde sua morte, não me peguei pensando: a quem que eu vou perguntar isto? A fonte para saber coisas sobre personagens da história que ninguém hoje sabe, para saber detalhes de como as coisas aconteceram, ou para saber em que livro raro tem isto, não existe mais, nem tem substituto possível.

O encontro com os “bo-bos” em Franca (5/11/13)

Entre 9 e 13 de setembro passado estive em Franca onde pronunciei a conferência de abertura da XIXa. Semana de História. Convite dos mais lisonjeiros pois, organizado por minha colega Valéria Guimarães, aquele encontro foi marcado pela presença de convidados internacionais dos mais ilustres e de uma outra convidada brasileira não menos ilustre: Jerusa Pires Ferreira. Jerusa que, por motivo de saúde, só pode participar através de vídeo conferencia, dividiu a mesa com Loïc Artiaga, professor da Université de Limoges.

Jerusa conversou conosco pela telinha do computador sobre “edições populares e a cultura das bordas”. Segundo Jerusa foi ao fazer um levantamento de editoras, autores e livros populares brasileiros que o tema dos desdobramentos do fenômeno da cultura midiática no Brasil se lhe colocou, sob a forma do que chama Cultura das Bordas. Apesar de relacionada principalmente com o universo do livro e da edição popular, a cultura de bordas abarca diversas outras manifestações das periferias urbanas que trafegam por circuitos não convencionais, valendo-se de imaginários recorrentes e provcando conjunções inesperadas. 

Loïc Artiaga, analisou um fenômeno literário interessante. O da circulação de determinadas obras que fazem imenso sucesso em seu lançamento em comparação com outra que aparecem discretamente e vão ganhando volume ao longo do tempo. Ele comparou a repercussão no mundo de duas obras publicadas no começo do século XX, o primeiro volume da série de romances-folhetins em torno do personagem Fantômas e o “O Caminho de Swan” de Marcel Proust. Artiaga comparou mapas e estatísticas de circulação editorial demonstrando a oposição entre o avassalador sucesso inicial do primeiro e o limitado sucesso do segundo com a progressiva inversão dessas posições. Suas conclusões nos fazem pensar sobre o destino de alguns best-sellers da atualidade. 

Éric Maigret, da Universidade Paris III, falou sobre as novas mídias, no que concerne especialmente à comunicação virtual. A seu ver, existiria hoje uma divisão esquizofrênica no contexto da comunicação de massa entre “cultura” e “Cultura”. Ele observa que, hoje, quase todas as práticas culturais, inclusive as mais “elevadas”, se valem das modernas mídias. Ou seja, essas práticas não correspondem mais à antiga cisão cultural que fazia com que programas de TV, de rádio e outras manifestações menos ortodoxas fossem associadas à “cultura” com letra minúscula. Assim, essa pluralização das ordens de legitimidade ficaria hoje bem compreendia no conceito de “pós-legitimidade cultural”.

Finalmente falou o convidado mais conhecido no Brasil, Dominique Kalifa, da Sorbonne. Segundo Kalifa, desde a metade do século XIX, a questão da produção cultural voltada para a maioria representou um desafio. Hoje, o debate estaria sendo retomado pela História e pelas Ciências Sociais diante de um mundo globalizado pela comunicação virtual. Cultura popular, cultura de massa, cultura midiática tornaram-se novos campos de batalha onde se enfrentam, outra vez, abordagens estéticas, ideológicas e científicas. Kalifa estabelece a cartografia desses debates, com ênfase na História.

Foi um encontro e tanto, especialmente porque, estando em Franca por quase uma semana, todos no mesmo hotel, almoçando juntos, indo e voltando da UNESP nos mesmos carros, pudemos conversar longamente sobre os mais variados assuntos. Durante almoços e jantares nos ótimos restaurantes de Franca ou reunidos na bela casa de meus velhos amigos, Susani e Jean Marcel de Carvalho França, também professores da mesma universidade, rimos à vontade. De fato, foi um luxo, aproveitar a companhia de Kalifa para falar de literatura policial, um dos temas em que é especialista e poder trocar figurinhas com Eric Maigret, dono de sobrenome do meu comissário favorito, que sabe tudo sobre quadrinhos e cultural underground dos anos 1960/70. Foi, aliás, a partir de uma expressão surgida na fala de Maigret que emergiram os papos mais divertidos. Maigret citou, a propósito desses universos sociais sincréticos em que se misturam elementos culturais de origens variadas, os chamados bo-bos, “bourgeois bohemes”. Eu não conhecia a expressão mas, pela quantidade de entradas que achei no Google, vi que ela é bem conhecida. 

O bo-bo é burguês de origem e boêmio por natureza. Não é o tipo do boêmio auto-destrutivo e pessimista. Não. O bo-bo acredita que seja possível viver de igual para igual com pessoas de originadas em classes sociais diferente da sua. Seu otimismo e sua boa-vontade para com o que vem do povo, faz com que ele adote uma atitude benevolente diante de manifestação popular. Essa benevolência cega do bo-bo impede que ele enxergue o quanto é irritante sua elegia da “vida simples da gente do morro” para quem vive mesmo no morro. Daí que, depois de certo tempo de convívio, ambos, o bo-bo e pessoa do povo que ele escolheu para idealizar, quedem decepcionados um com o outro. Afinal, o bo-bo mora ou trabalha em lugares degradados –favela, subúrbio, centro da cidade ou vilazinha no interior – porque escolheu. O fato é que, para onde vai, o bo-bo leva sua atitude elegante, sua boa aparência e sua bagagem cultural subjetiva. E os lugares e as pessoas que antes ali viviam e trabalhavam não serão mais os mesmos depois da chegada do bo-bo. Pois o bo-bo é sempre fashion: da sandália havaiana, passando pela camiseta, até os óculos, nada que o bo-bo use parece comum. Mesmo que seja. 

Como qualquer conceito o de bo-bo é bastante elástico. Nele cabem tanto aqueles nossos amigos de juventude que iam para o interior criar abelhas quanto os que, motivados pela militância política, tornaram-se operários e favelados. Embora tenda sempre para a esquerda, o bo-bo de hoje, tornou-se um defensor radical da natureza e da causa ambiental. Desiludido com os políticos, cujas práticas são a negação de seus ideais românticos, o bo-bo contemporâneo se empolga facilmente com os que agitam bandeiras negando a política. Tal como no passado, os ideais os guiam e os ideais os perdem.

Adalgisa Santana (28/9/13)

Na quinta liguei para saber de mamãe e Amália me disse que ela estava recebendo a visita da Dalva. Visita rara que só devia estar acontecendo porque mamãe, há coisa de uns 30 dias, caiu e fraturou o fêmur. Com 99 anos é um acidente e tanto. Teve cirurgia para colocar uma placa e a recuperação vem sendo penosa, sobretudo para ela, tão independente. Agora, dia e noite tem a seu lado uma cuidadora e vai para a sala em cadeira de rodas, coisas que sempre se recusou a aceitar.  De qualquer maneira, vai recuperando, rumo ao centenário que completará em junho de 2014.

Mas o tema da coluna não é d. Dolores e sim a Dalva. É que essa sertaneja valente  e trabalhadora vem muito pouco pras bandas de cá, residindo no Camará, distrito de Aquiraz, desde que veio ao mundo. É lá que fica o sítio que seu Costa comprou algum tempo depois de vender o sítio da Messejana onde moraram seus pais, numa casinha singela da qual só restaram as fotografias. Deve ter custado muito para o papai se desfazer daquele pedaço de terra. Lugar lindo, fresco, cheio de mangueiras, onde a gente se balançava nas redes debaixo delas estendidas. Juntinho de uma igrejinha muito da bonitinha que ainda está lá.

O Camará não era tão bonito, nem era tão fresco mas foi o que ele pode comprar. E se afeiçoou tanto ao lugar que para lá seguia sempre que podia. Para desgosto de d. Dolores que tinha horror a mato. Ainda tem. Quer chateá-la é convidar para uns dias no Camará ou mesmo na Guaramiranga, onde Dadal e Lúcia tem lindas vivendas. Papai não. Papai adorava a vida no mato, adorava todos os afazeres que diziam respeito a ter uma terra, pequena que fosse. Ele ficava por lá, sozinho com seus caboclos, erguendo cerca, cultivando macaxeira, cuidando das poucas vacas, fazendo a manutenção do cata-vento, mandando limpar o entorno da lagoa. Até uma casa de farinha ele mandou construir e tinha o maior gosto em promover a farinhada. Cheguei a ver a casa de farinha em ação com muita gente participando das várias etapas do processo.

No Camará, morou o Maximino, creio que vindo da Messejana e acho que foi o único caseiro que morou no terreno do seu Costa. Lembrei dele agora porque, meu cunhado, o Benevides, de vez em quando conta como um dito engraçado da infância do Fred, alguém ter-lhe perguntado o que tanto o preocupava e ele ter respondido: “estou pensando aqui se a Maria do Maximino está gostando do Camará”.

Fred, caçula de todos nós, era levado por papai para lhe fazer companhia nas idas ao Camará. Disse-me ele que morria de tristeza naqueles entardeceres melancólicos e que ia para cima do pé de cajueiro que tinha em frente da casa, chorar com saudades da mãe. Mario Bag morre de rir quando pensa no Fred chorando em cima do cajueiro.

Mas quem ficou para sempre sendo a cara do Camará foi mesmo a Dalva. Parece estranho que o principal trabalhador daquela roça tenha sido sempre uma mulher. Que a pessoa em que seu Costa mais confiava, a que era pau para toda obra fosse essa cabocla, essa cafuza, sem nenhum traço de feminilidade, além dos vestidos estampados, todos do mesmo modelo, que sempre usou. Parecia grande e forte, mandava e desmandava nos outros, enfrentava quem viesse lhe desafiar. Ninguém se metia com ela. Mas não era valentona, não. Era só e ainda é, pessoa de muita personalidade. Foi bem mais tarde, fazendo foto dela ao lado do Chico, menino ainda, com seus dez ou doze anos, que percebi como Dalva é pequena. Na foto, é quase um palmo mais baixa que o menino.

Dalva tem aquele jeito do cearense de falar sempre arengando. Um jeito de dizer: “marrr, minino”, no sentido admirado e crítico de “imagine, que coisa”, “que folga”. Logo que soube que ela estava lá em casa visitando a mamãe, pedi para chamá-la ao telefone. Ela se admirou e disse: “Marr, minino, como é que tu adivinhou que eu tava aqui?” Eu lhe disse que a notícia de que ela estava na Silva Jathay já chegara ao Rio de Janeiro e que por isso eu tinha ligado. Aproveitei para lhe pedir que ditasse para Amália escrever, pois Dalva apenas assina o nome, umas palavras para incluir no livro em homenagem aos 60 anos da Clélia. Ela ditou: 
   
“A Clélia é gente muito boa para nós. O que a gente precisa ela arranja. A Isabel também é gente muito boa. Mas quando eram pequenas, todas duas, queriam tirar leite e eu não deixava pois atrapalhava o leite das vacas. Então estou com  muita pena que vocês vão vender o terreno. Eu sinto muita falta deles que são gente muito boa. Todos eles. E o Carlos é muito bom me atende toda a hora que eu quiser. Que a Clélia seja vem feliz no seu aniversário e que tenha cem anos de vida. Assinado: Adalgisa Santana.”

Carlos, nosso irmão, é o dr. Carlos Efrem, o médico da família que tem ação completar à da Clélia, no que diz respeito a problemas de saúde, na ajuda aos familiares e aderentes mais necessitados. Quando vai ao Camará, forma-se na varanda da casa, junto da rede dele, uma fila de gente para se consultar. E ele atende, medica os que pode e encaminha para o Instituto José Frota os casos mais graves. 

Dalva tinha uma irmã que já morreu, a Edite. Uma vez, as duas foram a Fortaleza resolver alguma coisa e fomos juntas no carro para o Centro. Passando em frente a uma funerária, a Edite comentava admirada a beleza dos caixões, quando alguém lhe disse para não olhar não que dava azar. Edite disse que ia continuar olhando pois, completou: “eu sei que não vou num desses mesmo. Eu vou é na minha redinha.” Naquele tempo, no Camará, gente como Edite e Dalva ainda iam para o cemitério em suas redes. Os punhos da rede eram amarrados em um pau, carregado ao ombro por dois homens que lideravam o cortejo.


Seu Santana, pai das duas e de outros tantos filhos, era vizinho do seu Costa no Camará. Um dos filhos dele veio para o Rio de Janeiro onde aprendeu a cozinhar e trabalhou anos para uma família de Copacabana. Fui portadora de muita castanha e de muito beiju para o irmão da Dalva.

Diamantina (21/9/13)

Estou em Diamantina, lugar que nunca tinha visitado antes. Viemos de Belo Horizonte numa van para participar do 2o. Festival de História, organizado por Américo Antunes que descobri ser, por conta do discurso do prefeito na abertura, minhoca da terra. Longas viagens por terra com colegas historiadores e jornalistas é sempre ocasião de bons papos. Da turma que ia na van eu já conhecia Bruno Carvalho, jovem professor de literatura em Princeton. Bruno fora nosso convidado no seminário “Brasil/EUA: novas gerações, novos olhares”, que organizei com James Green em junho na Casa de Rui Barbosa. Também encontrara recentemente com Mario Magalhães, jornalista cuja biografia de Marighela tem tido grande repercussão. Mario participou, no Instituto Dragão do Mar no encontro do conselho do Porto Iracema das Artes do qual fomos convidados por Paulo Linhares a fazer parte.

Também viajava conosco o jornalista Ricardo Amaral, autor de livro sobre Dilma Roussef: “A vida quer coragem”. Entusiasta da obra de Guimarães Rosa, Ricardo indicava na longa viagem entre Belo Horizonte e Diamantina os lugares mais importantes da geografia Roseana: o ponto exato em que começa aquele sertão mineiro que parece tanto com o nosso sertão cearense. Conversamos de tudo um pouco mas o melhor foi saber que Ricardo tinha conhecido meu irmão Lustosa e que tinha por ele carinho e amizade. É claro que isto para mim já é suficiente para fazer de um conhecido um amigo.

Diamantina parece com Ouro Preto sem o ar cosmopolita que emprestam a Ouro Preto, seus tantos turistas e forasteiros que ali acabaram por se fixar. Talvez por ser mais longe de Belo Horizonte ou por conta das tantas coisas que fazem um lugar ficar mais na moda que outro, Diamantina ainda não se tornou a queridinha do turismo histórico que faz com que tanta gente visite Tiradentes, Parati e Olinda, por exemplo. Diamantina ainda não está tomada por boutiques e restaurantes charmosos e caros. Diamantina ainda não perdeu o ar de cidade de interior. Diamantina ainda é uma cidade dominada pelos diamantinos. E a isto, a meu ver, deve muito de sua graça.

As belezas arquitetônicas do lugar também me pareceram mais singelas. É verdade que essas são impressões de um dia só de viagem. Não entrei em nenhuma igreja. Não me impressionei com a fachada da Matriz que se ergue majestosa entre duas ladeiras com seus degraus debruçados para o grande pátio em frente. O lugar me lembrou espaço semelhante em Salvador, apesar das proporções da igreja, das ladeiras e do pátio serem mais modestas aqui. Vi três igrejinhas tão bonitinhas, tão coloridinhas e tão delicadas que me deu vontade de embrulhar e levar para a casa. Também me encantou seu lindo mercado com suas porteiras rústicas, suas dimensões também modestas, suas cores terrosas.

Na noite da véspera de abertura do Festival tive o prazer de conversar com Kenneth Maxwell de cuja obra sou franca admiradora. Perguntei a ele quantos anos fazia da publicação de “A devassa da devassa”. Fazem exatamente quarenta anos da primeira publicação na Inglaterra desse livro fundador que abriu a trilha para outros trabalhos acadêmicos relevantes. A partir da análise dos autos da devassa, Maxwell estabeleceu o que foi de fato aquele episódio da nossa história que ficou conhecido como “Inconfidência Mineira”, identificando as paixões e os interesses que moveram os malogrados revolucionários brasileiros.

Kenneth Maxwell proferiu a conferencia que abriu o seminário, seguido de mesa-redonda da qual participaram a historiadora Junia Ferreira Furtado e Bruno Carvalho, em torno do recém lançado “Livro de Tiradentes”. Organizado por Maxwell, o livro acaba de sair pelo selo que a Penguin tem no Brasil em parceria com a Companhia das Letras. Reunindo textos dos componentes da mesa, além de outros autores, o “Livro de Tiradentes” é a reedição do Recueil des Loix Constitutives des États-Unis de l’Amérique, coletânea de seus documentos constitucionais de fundação: a Declaração de Independência, primeira redação dos Artigos de Confederação, censo das colônias inglesas de 1775 e a Constituição de seis dos treze estados confederados.

O “Recueil” foi publicado na França por iniciativa de Benjamin Franklin numa interessante estratégia de marketing político que visava conquistar as simpatias dos franceses para a nova nação. Trazido clandestinamente ao Brasil por estudantes de Montpelier, o “Recueil” iluminou a mente do alferes mineiro, Joaquim José da Silva Xavier e de outros mineiros mais ilustres que ele para as possibilidades que a instauração de uma nova ordem política oferecia. Daí que o livro ficou conhecido como “Livro de Tiradentes”e o exemplar que pertenceu a Joaquim José da Silva Xavier, depois de peregrinar até pela biblioteca estadual de Santa Catarina, figura hoje na coleção do Museu da Inconfidência, em Ouro Preto.

Em sua conferencia de Maxwell se deteve sobre as tantas conexões internacionais estabelecidas pelos inconfidentes. Destaque merece o estudante brasileiro de medicina de Montpellier, José Joaquim da Maia Barbalho que, sob o pseudônimo de Vendek, conseguiu estabelecer contato com Thomas Jefferson com vistas a obter o apoio dos EUA para a revolução brasileira. Pragmáticos como sempre os americanos preferiram mesmo o acordo comercial com a velha e carcomida coroa portuguesa. Mais que o episódio das tentativas de conexão com os EUA, a presença de tantos estudantes brasileiros na França da Revolução revela muito sobre as tantas entradas que se abriram para que as idéias iluministas penetrassem, apesar da mais rigorosa censura, na rica colônia portuguesa na América.

A boa companhia na viagem para cá, a beleza de Diamantina e a conferência de Maxwell vão tornando esses dias formidáveis.

Nós e a América (14/9/13)

No dia 11 de setembro de 1973, caiu o governo Allende e começou a ditadura militar de Pinochet no Chile. Lembro exatamente do momento em que recebi essa notícia. Eu estava indo para um curso de inglês que freqüentava em uma daquelas casinhas tão simpáticas da UFC onde havia (e espero que ainda haja) cursos gratuitos de francês, inglês, espanhol e alemão. Ia completar 18 anos e sabia que o que estava acontecendo no Chile era realmente terrível.

Em plena ditadura militar, gente como eu e alguns amigos torcíamos por Allende. Torcíamos pelo final da ditadura aqui e aquela notícia era como uma derrota da esperança. Apesar de não saber nada sobre o Chile, nem sobre os outros países da América Latina a gente vivia em um ambiente em que predominava uma espécie de corrente espiritual que nos ligava a eles. Corrente que passava pela literatura, pela música e pelas circunstâncias políticas.

Não me lembro se foi a Sipahi, a Mena ou o Beto quem primeiro me falou de Violeta Parra. Nem sei mesmo se é verdadeira a história de que ela compôs “Volver a los dezessiete” porque, já mulher madura, tombara apaixonada por um rapaz de 17 anos. O mais importante é que, tanto essa história que dizia muito do caráter dessa mulher sobre a qual eu nunca soube muita coisa, quanto os versos daquela canção, nos aproximavam daquela outra América. Uma América que tinha algo de mágico e de fascinante com seus índios oriundos de uma civilização milenar. Havia também o prazer todo especial de cantar algo que era politicamente tão significativo em castelhano.

Lembro da noite que passei em claro, ainda na nossa casa da Piedade lendo “Cem anos de solidão”, de Gabriel Garcia Marquez. Imagino que eu devia ter uns 13 ou 14 anos pois o livro foi publicado no Brasil pela CODECRI, editora do pessoal do Pasquim, em 1968 e, certamente foi o Lustosa quem deve ter comprado e deixado lá para nos estimular a ler. Lembro da impressão estranha que tive daquela narrativa em que se misturaram situações irreais, mágicas, com cenas de violência. Enfim, um combinado de coisas que deixava na gente um certo mal estar. Algo que tinha a ver com o destino do personagem central e de sua família. Confesso que nunca mais li “Cem anos de solidão”. Creio que o livro em si não era diretamente associado a essa latinidade que se afirmava, naquele momento, por oposição aos Estados Unidos e à sua ingerência cada vez mais daninha sobre nossos destinos.

De qualquer maneira, estava ali, tal como nas canções de Violeta Parra, uma mensagem intrínseca, de uma beleza doída, exótica que remetia também ao povo brasileiro. Esse povo que nós, na verdade, meninos e meninas de classe média não tínhamos muita noção do que era. A cultura então produzida pelos artistas e intelectuais da esquerda dos anos 1960/70 no Brasil procurava chamar a atenção para o povo das fábricas, do sertão e da Amazônia mas também nos irmanava aos vizinhos da América Latina trazendo-os um pouco para mais perto de nós. Lia-se, além de Garcia Marquez, Cortazar, Carpentier, Vargas Llosa, e, por causa deles e da proximidade que eles nos colocaram com seus países, lemos e gostamos de Borges, que, antes, muito pelo contrário, não tinha nada a ver com aquilo. Mas o livro essencial para compreender a realidade era “As veias abertas da América Latina”, de Eduardo Galeano. Esse mesmo Galeano que, ao contrário de Vargas Llosa continua aí, do lado do bem.

As canções de Violeta Parra foram cantadas em português pela maior cantora brasileira daquele tempo: Elis Regina. Sua linda e potente voz emprestava aos versos uma alegria, um dinamismo diverso da melancolia de Mercedes Sosa. E este também foi um fenômeno daquele momento em que estivemos mais perto dos nossos hermanos: as gravações de Mercedes Sosa com Milton Nascimento. Da ditadura de Pinochet chegavam os ecos das mil e uma barbaridades cometidas. Delas nenhuma me impressionou mais do que a história de que os torturadores tinha quebrados os dedos de Victor Jarra (havia versão mais dramática em que lhes tinham cortado as mãos) para que ele nunca mais tocasse aquelas musicas subversivas.

Quantas lágrimas. Tempos de dor e de sofrimento são pródigos em inspiração. Do repertório de Violeta Parra, a preferida de todos até hoje é “Gracias a La vida”. Quem não cantou e ainda canta com emoção esse hino que celebra a vida, esse canto otimista? A canção se faz ainda mais bela pela mistura de coisas que têm a ver com a vida em geral, com o trabalho, com a sociedade, com a humanidade ao amor individual de uma mulher por seu homem que pontua o final de cada verso: en las multitudes el hombre que yo amo; la voz tan tierna de mi bien amado; la ruta del alma del que estoy amando; la casa tuya, tu calle y tu patio; el fondo de tus ojos claros…

A música de Violeta Parra se fazia ainda mais tocante também pelo fato de ser cantada em meio a uma atmosfera tão sombria. Sem dúvida a crônica negra das ditaduras latinas, as histórias de desaparecidos argentinos, dos seus filhos seqüestrados pelos militares e dados a criar por famílias solidarias ao regime (como a dos donos do jornal Clarin) é uma conta que nunca vai fechar.

Durante aquelas duas décadas, as ditaduras militares nos irmanaram numa corrente de sofrimento. Neste momento, alguns dos países da America Latina têm governos democráticos que ensaiam políticas econômicas e sociais que beneficiam os mesmos desfavorecidos de sempre. Esses governos se ligam pela memória e pela história àquele momento, enfrentando as mesmas forças do atraso e da reação que, com o apoio dos EUA, promoveram golpes militares que resultaram em ditaduras violentamente repressivas. Cabe agora restabelecer, pela intensificação de ações  culturais, pelas difusão das letras, pelo intercâmbio de jovens estudantes uma nova corrente de idéias, sentimentos e sensibilidades que funcione como um escudo, nos mantendo unidos e coesos contra as tentativas de impedir o avanço da América Latina rumo a um futuro melhor para seus povos.

Uma permanente saudade (7/9/13)


Ainda não pude ver o livro que Edmo Linhares, Juarez Leitão e Cesar Montenegro organizaram em homenagem ao Lustosa. A crônica foi escrita antes do lançamento que aconteceu na noite dessa última sexta feira no Ideal Clube mas eu sei, porque li no jornal, que “Permanente Lustosa” reúne crônicas de amigos e alguns dos irmãos (eu, inclusive) do jornalista e escritor que dá nome à biblioteca de Sobral. São 41 depoimentos distribuídos por 250 páginas e, entre os autores, constam nomes de amigos como Antenor Barros Leal, Frota Neto, Lúcio Alcântara e Paulo Elpídio. Não sei se também está ali o Helio Barros. Se vivo fosse, Dorian Sampaio não faltaria.

Se a quantidade de depoimentos é o reflexo de uma vida em que a amizade teve um papel tão grande – ou, talvez, ainda maior - que a vida familiar, os depoimentos que deram esses amigos acima citados confirmam o caráter de permanência que dá titulo ao livro. É que, dezessete anos mais nova que o Lustosa, lembro de ver, na minha infância, suas ilustres e simpáticas pessoas na nossa modesta casa, situada à rua Nossa Senhora da Piedade, número 126. Ali mesmo no famoso beco da Piedade, eternizado no livro de crônicas do Lustosa “Cartas do Beco”, esses amigos que aos meus olhos infantis pareciam tão chiques, estavam começando uma amizade que durou mais de cinqüenta anos e que se reafirma agora neste livro.

A esses amigos de juventude, o Lustosa chamava de “irmão”, dando à fraternidade um sentido ainda mais abrangente que tem. Fraternidade no sentido de companheirismo, de solidariedade, mas principalmente de comunhão de espírito. Um espírito cuja marca seria o amor à alta literatura, o gosto pela escrita mas, também, a irreverência. A conversação sendo o espaço do epigrama, da provocação amável, de demonstrações de carinho permeadas pela ironia, pontuadas pela gargalhada gostosa. Diferenças políticas que, como seria natural, se acentuaram também com o tempo, não turvaram as águas desse rio que fluiu sem acidentes até o último dos seus dias. Ao longo de sua vida ele teve essa sensação de conforto que uma velha amizade nos proporciona. E confesso que essa era uma das características que eu mais invejava no Lustosa.

Também me parece hoje surpreendente que, com seu temperamento, que não era fácil e que se tornara ainda mais difícil nos últimos anos, ele tenha não só conservado aqueles velhos amigos como feito outros tantos. Pois também tinha aquela cara zangada do Lustosa, aquele humor irritado com a resposta ao estilo do seu Luga e que, às vezes, desconcertava. Era implicante também. Tomava abuso de pessoas sem ter nem a ver, às vezes por motivo fútil, sendo capaz mesmo de cometer julgamentos injustos só por implicar com alguém. Mas nunca foi um arrogante, nunca agiu como alguém que se achasse acima dos outros, nunca usou seu prestígio para diminuir ou humilhar quem quer que fosse. Era altaneiro, mas nunca foi prepotente.

Havia algo nele de irresistivelmente sedutor. Talvez a maneira de falar, talvez o entusiasmo genuíno que demonstraria por tudo que realmente o encantasse, talvez a gargalhada que explodia com gosto diante de algo que o divertia, talvez o fato de ter sido mesmo um grande escritor. E a pessoa que intui isto não deixa de reverenciar e querer bem ao homem de talento indiscutível que foi o Lustosa. A facilidade com que narrava, a naturalidade com que contava suas histórias, a erudição aliada ao senso de humor extraordinário de suas narrativas, um senso de humor marcado pela auto ironia, recomendam a leitura de seus livros.

Lustosa tinha uma mágoa verdadeira de ter sido um autor regional. Seus livros não conquistaram o sudeste e, para um autor brasileiro, essa é a definição do sucesso: ser lido no Rio e em São Paulo. Não é só no Ceará. Vale para o resto do Brasil inteiro. Do Oiapoque ao Chuí. Felizmente teve o bom senso de seguir em frente, continuando a publicação de seus livros. Com isto pode deixar o legado de uma grande obra, cujas imperfeições editoriais se devem apenas ao temperamento ansioso do autor que, na pressa de levar ao prelo os originais muitas vezes deixou passar algumas imperfeições. Certamente, seus textos sobre a sociedade sobralense (sociedade aqui no sentido sociológico mesmo) representam uma contribuição efetiva para a compreensão do caráter das elites do interior cearense da primeira metade o século XX.

Antes de concluir, eu gostaria de citar um texto do livro a que tive acesso pelo privilégio que tenho de ser irmã mais velha do autor. É o texto do Fred que só é meu irmão mais novo porque teve o mau gosto de tomar meu lugar de caçula da família nascendo ano e meio depois de mim. A história de sua amizade com o irmão mais velho deve ser um dos capítulos mais bonitos do livro. Ela diz muito do caráter dessa dupla, separada por grande diferença de idade que, no entanto, tinha tanto em comum.

“Eram 19 anos que, desde que saí da adolescência, não faziam a menor diferença. Lustosa não deixava de ter um lado paternal e protetor, mas o que prevalecia era a amizade fraterna, a admiração mútua, os interesses compartilhados, a camaradagem dos gestos gratuitos. (...) Em 2001, eu tinha uma viagem profissional relativamente tranqüila a Lisboa, Madri e Barcelona. Resolvi convidá-lo a ir comigo. Convite de grego, pois eu só tinha a oferecer a passagem. Ele aceitou de bom grado. Foi todo animado. E adorou. Sempre dizia – Eu vim para gostar. E gostou. Aproveitamos muito de Lisboa, que ele conhecia bem, e de Madri, que ainda não conhecia. Mas ele adorou mesmo foi Barcelona, por onde lhe fiz caminhar mais do que podia e o levei a almoçar em El Sibarita.”

Foi bom o Fred lembrar desse último detalhe, o gosto que o Lustosa tinha por bons restaurantes, a boa mesa. Aliás, ele tinha o gosto por tudo que era bom: boas pessoas, bons livros, bons amores, boas comidas e boas bebidas. Era um querido e a saudades que deixou, como diz o Fred no final de seu texto, “choram altissonantes em mim. E em tantos amigos.”