Bato três vezes na madeira antes de
dizer que, nestes 36 anos de Rio de Janeiro nunca fui assaltada. Quer dizer,
isto se não contar aquele dia em que passando de carro em frente da Cobal de
Botafogo, numa retenção de trânsito, fui abordada por um garoto de seus 14
anos, magro, amarelo, muito franzino, como um desses personagens de filme sobre
a seca no Nordeste. A diferença é que havia nele algo de gasto, de
desmoralizado, de cínico e aquela ousadia do que sabe que não tem nada a
perder, tão característica dos meninos de rua da cidade grande. Ele encostou na
janela do carro e me disse alguma coisa que me pareceu “isto é um assalto”. Ou
nem precisou dizer pois, por conta das tantas histórias que a gente ouve de
meninos assaltando carros armados com caco de vidro, eu lhe dei o dinheiro que
tinha em um movimento automático. Isto faz tanto tempo que o carro nem tinha ar
condicionado, pois ainda não tinha virado uma regra essencial de sobrevivência
na selva andar com os vidros fechados.
Por causa desse história de ar
condicionado me lembrei de outra. Foi em São Paulo, numa breve viagem, daquelas
bate e volta, para participar do júri de um concurso da Folha. Eu ia para o
aeroporto e o taxi contratado pelo jornal para me levar não tinha ou estava com
o ar condicionado quebrado. Por alguma razão que só a realidade paulistana pode
explicar, os taxistas que pego ali não costumam ligar o ar. O fato é que o
calor do dia abafado me fez ficar de janelas abertas, durante um daqueles
engarrafamentos tradicionais da cidade. Estávamos em cima de um viaduto, eu
tinha posto a maleta com notebook no chão, justamente temendo um roubo, mas
conservava a bolsa no colo. Eis que, senão quando, dois jovens magros, altos e
claros que vinham andando pela margem, passaram por mim e, de repente, um deles
meteu a mão pela janela, arrancou minha bolsa e saiu correndo. O susto foi
grande mas o medo de ficar sem os documentos para voltar para casa foi maior.
Abri a porta do taxi e corri atrás
deles. Ainda os vi de cima do viaduto, lá em baixo, correndo para uma das ruas
daquela região, creio que Bela Vista, e de lá fiquei gritando para eles:
devolve, devolve! Eles me viram, me ouviram, creio até que sorriram e seguiram
caminho. Pedi ajuda a dois guardas de trânsito mas eles não me deram a menor bola.
Não era da alçada deles, eu acho. O taxi teve que seguir adiante pois o
trânsito andou e eu me vi ali em cima de um viaduto daquela estranha cidade
(como os cariocas gostam de chamar) sem dinheiro, sem documentos, sem celular,
pensando no que fazer. Confesso que não entrei em pânico. Lá de baixo, enquanto
eu esperava alguma coisa acontecer, alguém me chamou: Isabel, Isabel! Olhei e
vi um sujeito moreno, junto com outras pessoas, todas com cara de gente
trabalhadora que, lá de baixo, acenavam para mim perguntando: Você é Isabel?
Desci. Ele estava com os meus documentos, por isso me chamava pelo nome.
Os ladrões tinham largado minha bolsa
na calçada em frente da oficina dele. Era uma oficina de conserto de bombas
d’água, creio eu e a turma que trabalhava lá era super simpática. Pareciam
personagens de música do Adoniran Barbosa, aquela mistura popular tão
paulistana que inclui sempre um italiano, um negro e um nordestino e mais um
que mistura isto tudo. Minha bolsa estava esvaziada, sem dinheiro, sem celular,
sem óculos, sem... enfim, só sobrou o que não valia nada. Para o ladrão, claro,
porque para mim foi ótimo achar o telefone do pessoal da Folha que, acionado,
logo entrou em contato com o taxi dizendo onde eu estava. Chegou o taxi junto
com uma patrulhinha. O policial – sem muito interesse - perguntou se eu queria
ir à delegacia prestar queixa. Imagine. Eu só queria conseguir chegar em casa.
Fui para o aeroporto com o número do bilhete e embarquei sem um tostão e com um
medo danado que acontecesse mais algum imprevisto.
Mas isto não vale porque foi em São
Paulo. No Rio, além do episódio do menino amarelo, uma vez me levaram cinqüenta
reais. Não foi exatamente um roubo. Estacionei meu carro atrás do Circo Voador,
ali na Lapa. Era de noite mas era relativamente cedo, o lugar estava cheio de
carros mas meio vazio de gente. O rapaz disse que olharia o carro para mim e me
pediu adiantado os dois reais de praxe, eu abri a bolsa peguei uma nota de
cinqüenta que era o que eu tinha e, estupidamente disse, com a nota na mão, não
tenho dois reais, só cinqüenta. Ele rapidamente respondeu: eu troco. Pegou a
nota e saiu correndo pelos becos escuros do entorno da rua do Lavradio e nunca
mais foi visto. Eu fiquei com cara de trouxa. Ainda procurei uns guardas que
estavam no Largo conversando com os ambulantes, para reclamar. Afinal cinqüenta
reais ainda eram alguma coisa e, nem era tanto pelo dinheiro, mas pela forma
como me tinha sido levado. Os guardas me olharam como quem olha para alguma
marciana, como quem diz: Hellôôô, isto é a Lapa, madame, se toca. Só mesmo
sendo muito otária para ficar ali à noite, numa esquina deserta, com uma nota
de cinqüenta na mão.
Essas histórias me voltaram agora que
sou atormentada por uma dúvida. Desconfio que me cobraram preço extorsivo pelo
serviço de colocação das minhas janelas de guilhotina. O sujeito que cortava a
madeira indicou o que colocava a janela que indicou o que fazia os pesos. O que
cortava cobrou um preço muito elevado, o que colocou cobrou outro tanto e o dos
pesos foi na mesma toada. A alegação de todos é de que era um serviço
exclusivo, ninguém mais fazia. Como não pude fazer uma profunda pesquisa de
mercado, fiquei com o que me disseram e paguei o que me pediram. Mesmo assim,
restou a dúvida: será que eles não combinaram tudo entre si, incorrendo no
artigo do código penal que tipifica a formação de quadrilha? De qualquer
maneira, como não posso fazer nada mesmo fico com sensação igual a que tive
naquela esquina da Lapa, vendo o garoto que se escafedia lépido e certamente feliz
com a minha nota de cinqüenta muito bem presa em uma das mãos.
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