Opiniões divididas
Quando meu filho era pequeno fez aquela clássica pergunta que toda criança faz em algum momento da infância: “Mamãe, Papai Noel existe?” O que responder numa hora destas? pensei eu. Para ganhar tempo devolvi a pergunta: o que você acha? E ele me disse: “Bem, lá na escola tem uma parte que acha que existe e outra parte que acha que não existe”.
Eu daria tudo para ter assistido a esse debate.
Amigo oculto
Todos os anos, quando ainda fazia o primário, a classe do Chico no Centro Educacional Anísio Teixeira – o CEAT - onde ele estudou até ir para a faculdade, tinha um amigo oculto. Todos os anos eu esquecia de comprar o presente. Como a cada nova reimpressão (já está na 13a) do meu livro “Historia dos escravos”, da Companhia das Letrinhas, recebo vinte exemplares, sempre tinha algum comigo que, na última hora, embrulhava para que ele levasse como presente de amigo oculto. Este era sorteado pela professora, com a turma formando um círculo, cada um com seu presente na mão. Da última vez que mandei o meu livrinho perguntei depois ao Chico como tinha sido. Ele me contou que um seu colega, reconhecendo o embrulho de todos os anos, teria murmurado repetidas vezes: “Tomara que não seja eu, tomara que não seja eu!”
Autorama
O sonho de Mario Bag na infância era ganhar um autorama. Uma vez, perto do Natal, ele perguntou ao pai: “Papai, quando é que o senhor vai me dar um autorama?” A resposta foi de seu Mario Mendonça, meu queridíssimo sogro cujo senso de humor terrível tive oportunidade de conhecer, foi: “Quando o Cauby casar”. Daí em diante, era a mãe do Bag que tinha que dar explicações sobre quem era esse tal de Cauby e porque ele ia demorar a casar. Cauby Peixoto, hoje, poderia se casar e ser feliz com quem ele quisesse. Nos anos 1960 era mais complicado.
Bebê barrigudo
Detestei descobrir bem antes de um dos natais de minha infância, escondidos no alto do guarda-roupa, os brinquedos pobres que íamos ganhar: bonecas de plástico, daquelas inteiriças que não mexiam os braços, nem os olhos e o cabelo era integrado, ou seja apenas uma tinta sobre a parte da cabeça feita em relevo do mesmo material para dar a idéia de cabelo. Mas teve um Natal que foi diferente. Talvez papai tenha ganho alguma gratificação no IAPC. Só hoje, quando eu também espero o Natal para receber meu 13o salário, é que esse tipo de coisa me ocorre.
Pois bem, teve um Natal em que meus pais deram para a Clélia uma boneca que era um luxo. Chamava-se Geísa, era loura e magra, deve ter custado caro. O corpo era de louça, braços e pernas articulados, aqueles furinhos no peito para sair o som e os cabelos, louros e encaracolados, eram implantados fio a fio. Creio que tinha olhos azuis, com longas pestanas, que abriam e fechavam. Na mesma ocasião eu ganhei um bebê de louça. Não me lembro de ter ficado com inveja da boneca da Clélia até o momento em que a Chaga – que, junto com a Maria e a Lili, se revezava nos cuidados com os menores dos 13 filhos de seu Costa e d. Dolores - me chamou num canto e disse: Viu, para ela deram uma boneca linda e loura e para você um boneco barrigudo. Acho até que disse que o boneco era barrigudo como eu. Eu fiquei tão chateada que taquei o boneco no chão e quebrei. Era de louça. Fiquei sem presente. Para compensar meus pais compraram um disquinho daqueles compactos coloridos. Engraçado foi que eu adorei o disquinho. Era a história do imperador da China e de seu rouxinol azul. Ouvi um monte de vezes.
Malhas Clélia
Aqui, enquanto digito essa coluna, me preparo para embarcar para mais um Natal em Fortaleza. Ao longo desses 35 anos de Rio de Janeiro devo ter passado no máximo quatro natais longe de casa. Logo que cheguei, em 1977, um ou dois anos depois, já na faculdade, e quando o Chico nasceu, em 1988, pois ele é de 28 de dezembro. O último foi o de 2010 quando estava em Paris por conta da Cátedra Simon Bolívar, IHEAL – Institut des Hautes Estudes de l’Amerique Latine - da Paris 3, que ocupei entre setembro daquele ano e fevereiro do ano seguinte.
Passar o Natal longe da barulheira que é o Natal na casa da dona Dolores é como se, naquele ano, não tivesse tido Natal. Essa festa imensa é regida pela batuta da Clélia. Antes, ela mesma comprava os presentes, escolhendo o que parecia mais adequado a cada um, de modo que, durante a festa, a mamãe fosse entregando. Depois, com o aumento gradativo da família, ficou estabelecida uma cota em dinheiro a ser entregue a cada uma das mães para que compre os presentes do marido e dos filhos e traga na noite de Natal afim de que sejam entregues pela mamãe diretamente ao presenteado.
Mesmo assim, ainda tem aqueles presentes das pessoas que trabalham no Camará, dos prestadores de serviços eventuais e de alguém que não estava no script e que resolveu aparecer. Para estes, Clélia vai ao centro da cidade, na Casa Girão - que ela deu um jeito de descobrir onde ficava, pois na nossa infância na Piedade, a única loja importante que tinha perto de casa, na Avenida Visconde do Rio Branco, era a Casa Girão - e compra um lote de camisetas em boa e resistente malha de algodão.
Mario Bag é um desses convidados que pode ou não aparecer no Natal e que, por isso, não tem presente garantido. Quando aparece pode escolher entre os mais variados tamanhos e cores das camisetas que ele apelidou de “Malhas Clélia”. Como, aliás, apelidou assim todas as obras sociais que ela lidera na família: Bolsa-Clélia, para os pobres da d. Dolores que mensalmente vão lá pedir uma ajuda; Programa Clélia de Valorização da Pessoa – ela sempre tem uma palavra de estímulo para seus amigos de facebook -, Expressobral – empresa que lidera excursões a Sobral e visita a seus pontos históricos. Super-Clélia, aliás, é um personagem criado por ele, sendo tema de várias aventuras em quadrinhos que circulam na família. Ela adora.
Manias (15/12/12)
“Mania é coisa que a gente
tem mas não sabe porque/
Mania de querer bem,
às vezes de falar mal/
Mania de só deitar
depois de ler o jornal/ De contar sempre aumentado
tudo o que viu e que fez/
De guardar fósforo usado
dentro da caixa outra vez/
Eu tenho várias manias,
delas não faço segredo/
Quem pode ver tinta fresca
sem antes passar o dedo?/ De só entrar no chuveiro
cantando a mesma canção/
De só pensar no cinzeiro
depois da cinza no chão/
Mania é coisa que a gente
tem mas não sabe porque
e das manias que eu tenho
uma é gostar de você.” ( Flavio Cavalcanti)
Todo dia, quando vai dormir, mamãe se cobre com um lençol de algodão branco bem levinho. Ela verifica se a costura está para o lado de dentro e se não tiver manda virar, pois não tolera dormir com lençol pelo avesso. Que diferença faz se o lençol é todo branco? Não sei, é mania. Parece que seu pai, o vovô Piano tinha a mesma mania.
“Mania é coisa que a gente tem mas não sabe porque”, como dizia aquela antiga canção cuja autoria, me lembrou Mathilda Kovak, é do polêmico apresentador de TV dos anos 1960, Flavio Cavalcanti. Abro aqui um parêntese para os que nasceram depois. Flávio Cavalcanti tinha um programa na TV, “Um instante, Maestro!” que funcionava como um tipo de tribunal em que compositores e cantores eram postos em julgamento e, se condenados, tinham o disco destruído. Nunca esqueci da vez em que o Flavio Cavalcante quebrou o disco do Vicente Celestino que, creio, já era bem velhinho. Foi uma das cenas mais cruéis da minha infância e, apesar de Mathilda tentar me fazer consertar o passado dizendo que era tudo armação, não adianta. Fico triste só de lembrar dos olhos rasos d’água do Vicente Celestino.
Eu não tenho várias manias como o personagem da música. Ou melhor, eu acho que não tenho. A única que assumo por conta de sua peculiaridade é uma que eu tinha quando era menina e que me acompanhou até a idade adulta: descascar paredes. Aquele tipo de parede sobre a qual a camada da tinta, talvez por já ter sido aplicada muitas vezes, se solta e racha. O prazer consiste em ir arrancando os pedaços. Se a tinta for plástica é menos bacana por que saem aqueles pedações de plástico ou não sai quase nada.
O bom é rachadura pequena na parede pintada com tinta comum, bem sequinha, que você vai tirando com a unha ou com a ajuda de algum objeto tipo espátula. E vai fazendo isto compulsivamente e com absoluta indiferença pelo fato de que a parede ficará horrível. Na infância, eu podia ficar horas arrancando os pedaços de tinta, deixando aquela sujeirada no chão e a parede exposta como um grande ferida. Na sala da Piedade, sobre um espaço assim fiz uns desenhos a lápis. Curiosamente, papai que se chateava com esse tipo de dano porque sempre sobrava para ele providenciar o conserto, deixou meus desenhos lá. Acho que gostou, ou pensou que eu levava jeito e ficou com medo de que, pintando logo a parede, eu me sentisse desestimulada para seguir uma possível vocação. Enfim, eu disse que tenho essa mania porque ainda hoje é um custo me conter diante de uma parede com aquele pedaço de tinta pedindo para ser arrancado. Fico com água na boca. Só não começo a descascar porque hoje seria eu e não o papai quem teria que mandar pintar.
Creio que essa minha mania é aparentada daquela que muita gente boa tem de ficar estourando bolhinha de plástico-bolha até doerem-lhes os dedos. De onde vem isto? Porque? Sei lá. Não serve para nada. Mas esse tipo de mania é quase coisa de foro íntimo, pois só quem convive com você no dia-a-dia vai descobrir. Manias complicadas são aquelas da conversação, aqueles cacoetes que a pessoa desenvolve sem notar e que se tornam um problema. Tem mania mais chata do que aquela das pessoas que antecipam o final da palavra que você vai dizer? Você está contando uma história e antes de terminar a frase seu interlocutor fala a última palavra ao mesmo tempo que você. Acho que isto é uma forma de ansiedade, uma espécie de vontade de ajudar o outro ou de fazer com que ele termine logo.
Mario Bag tem um amigo que quando conta alguma coisa que lhe aconteceu ou que fez cuja quantidade é incomum, inclui na narrativa uma pergunta do tipo: “Sabe quantas injeções eu tomei, sabe?” Ao que o interlocutor que, de fato, nem imagina, nem está tão interessado assim em saber, diz: “não” para ver se o amigo diz logo quantas foram. Mas aí é que está a parte maníaca da conversa. O narrador não se conforma e insiste: “chuta aí, chuta aí”. Você se recusa: “sei lá...” Ele insiste de novo: “Não: chuta aí, chuta aí, vai”. Esperando com a resposta encerrar o papo chato você chuta: “dez!” para ouvir o amigo contradizer triunfante, comemorando sua derrota: “quinze, meu camarada, quinze injeções.” Ou seja, fosse qual fosse a sua resposta ele ia dar um jeito de você errar, pois essa é a dinâmica da conversa dele.
De manias é feita a vida da gente. E, com o passar do tempo elas vão se tornando algo tão próprio da sua natureza que você até esquece que o resto da humanidade não age da mesma maneira. Nem todo o mundo acorda de manhã e corre para ler o jornal. Poucos são os que guardam fósforo usado dentro da caixa outra vez, (essa eu já tive mas foi por imitação, parei). Apesar de minha mania com tinta, jamais tive o impulso de passar o dedo em tinta fresca.
Tive uma vez um namorado que, há vários anos, guardava jornais que pretendia ler um dia. As pilhas se acumulavam nos cantos da sala, nas gavetas e sobre a mesa, com aquela poeira preta característica que o jornal velho cria. Em curta temporada que passei na casa dele, resolvi dar uma organizada, aproveitei sua ausência e joguei boa parte daquela tralha fora. Foi um deus-nos-acuda e creio que contribuiu para o rápido desfecho do nosso relacionamento. Também, que mania essa minha de querer arrumar os papéis velhos dos outros quando nos meus ninguém toca? Tremendo autoritarismo. Há que respeitar as manias de cada um.
Todo dia, quando vai dormir, mamãe se cobre com um lençol de algodão branco bem levinho. Ela verifica se a costura está para o lado de dentro e se não tiver manda virar, pois não tolera dormir com lençol pelo avesso. Que diferença faz se o lençol é todo branco? Não sei, é mania. Parece que seu pai, o vovô Piano tinha a mesma mania.
“Mania é coisa que a gente tem mas não sabe porque”, como dizia aquela antiga canção cuja autoria, me lembrou Mathilda Kovak, é do polêmico apresentador de TV dos anos 1960, Flavio Cavalcanti. Abro aqui um parêntese para os que nasceram depois. Flávio Cavalcanti tinha um programa na TV, “Um instante, Maestro!” que funcionava como um tipo de tribunal em que compositores e cantores eram postos em julgamento e, se condenados, tinham o disco destruído. Nunca esqueci da vez em que o Flavio Cavalcante quebrou o disco do Vicente Celestino que, creio, já era bem velhinho. Foi uma das cenas mais cruéis da minha infância e, apesar de Mathilda tentar me fazer consertar o passado dizendo que era tudo armação, não adianta. Fico triste só de lembrar dos olhos rasos d’água do Vicente Celestino.
Eu não tenho várias manias como o personagem da música. Ou melhor, eu acho que não tenho. A única que assumo por conta de sua peculiaridade é uma que eu tinha quando era menina e que me acompanhou até a idade adulta: descascar paredes. Aquele tipo de parede sobre a qual a camada da tinta, talvez por já ter sido aplicada muitas vezes, se solta e racha. O prazer consiste em ir arrancando os pedaços. Se a tinta for plástica é menos bacana por que saem aqueles pedações de plástico ou não sai quase nada.
O bom é rachadura pequena na parede pintada com tinta comum, bem sequinha, que você vai tirando com a unha ou com a ajuda de algum objeto tipo espátula. E vai fazendo isto compulsivamente e com absoluta indiferença pelo fato de que a parede ficará horrível. Na infância, eu podia ficar horas arrancando os pedaços de tinta, deixando aquela sujeirada no chão e a parede exposta como um grande ferida. Na sala da Piedade, sobre um espaço assim fiz uns desenhos a lápis. Curiosamente, papai que se chateava com esse tipo de dano porque sempre sobrava para ele providenciar o conserto, deixou meus desenhos lá. Acho que gostou, ou pensou que eu levava jeito e ficou com medo de que, pintando logo a parede, eu me sentisse desestimulada para seguir uma possível vocação. Enfim, eu disse que tenho essa mania porque ainda hoje é um custo me conter diante de uma parede com aquele pedaço de tinta pedindo para ser arrancado. Fico com água na boca. Só não começo a descascar porque hoje seria eu e não o papai quem teria que mandar pintar.
Creio que essa minha mania é aparentada daquela que muita gente boa tem de ficar estourando bolhinha de plástico-bolha até doerem-lhes os dedos. De onde vem isto? Porque? Sei lá. Não serve para nada. Mas esse tipo de mania é quase coisa de foro íntimo, pois só quem convive com você no dia-a-dia vai descobrir. Manias complicadas são aquelas da conversação, aqueles cacoetes que a pessoa desenvolve sem notar e que se tornam um problema. Tem mania mais chata do que aquela das pessoas que antecipam o final da palavra que você vai dizer? Você está contando uma história e antes de terminar a frase seu interlocutor fala a última palavra ao mesmo tempo que você. Acho que isto é uma forma de ansiedade, uma espécie de vontade de ajudar o outro ou de fazer com que ele termine logo.
Mario Bag tem um amigo que quando conta alguma coisa que lhe aconteceu ou que fez cuja quantidade é incomum, inclui na narrativa uma pergunta do tipo: “Sabe quantas injeções eu tomei, sabe?” Ao que o interlocutor que, de fato, nem imagina, nem está tão interessado assim em saber, diz: “não” para ver se o amigo diz logo quantas foram. Mas aí é que está a parte maníaca da conversa. O narrador não se conforma e insiste: “chuta aí, chuta aí”. Você se recusa: “sei lá...” Ele insiste de novo: “Não: chuta aí, chuta aí, vai”. Esperando com a resposta encerrar o papo chato você chuta: “dez!” para ouvir o amigo contradizer triunfante, comemorando sua derrota: “quinze, meu camarada, quinze injeções.” Ou seja, fosse qual fosse a sua resposta ele ia dar um jeito de você errar, pois essa é a dinâmica da conversa dele.
De manias é feita a vida da gente. E, com o passar do tempo elas vão se tornando algo tão próprio da sua natureza que você até esquece que o resto da humanidade não age da mesma maneira. Nem todo o mundo acorda de manhã e corre para ler o jornal. Poucos são os que guardam fósforo usado dentro da caixa outra vez, (essa eu já tive mas foi por imitação, parei). Apesar de minha mania com tinta, jamais tive o impulso de passar o dedo em tinta fresca.
Tive uma vez um namorado que, há vários anos, guardava jornais que pretendia ler um dia. As pilhas se acumulavam nos cantos da sala, nas gavetas e sobre a mesa, com aquela poeira preta característica que o jornal velho cria. Em curta temporada que passei na casa dele, resolvi dar uma organizada, aproveitei sua ausência e joguei boa parte daquela tralha fora. Foi um deus-nos-acuda e creio que contribuiu para o rápido desfecho do nosso relacionamento. Também, que mania essa minha de querer arrumar os papéis velhos dos outros quando nos meus ninguém toca? Tremendo autoritarismo. Há que respeitar as manias de cada um.
Ou é fácil ou é impossível (8/12/12)
Não gostei tanto de “Tropicália” quanto gostei do filme sobre os festivais, “Uma noite em 67”. Aquela agitação excessiva da câmera, os cortes e os efeitos da cor aplicada sobre filmes antigos, tentando dar um ar tropicalista ao documentário confundem e estressam. Mas gostei muito das imagens que, reunidas, refletiam de fato o espírito do tempo. Imagens que eu nunca tinha visto antes ou que tinha visto e não lembrava. Muitas cenas de filme do Cinema Novo que eu nunca tenha assistido. Até porque nunca fui muito fã do Cinema Novo. Gostei das referencias ao teatro Opinião porque assisti suas peças em Fortaleza e foi uma experiência importante na minha vida.
Também gostei de ouvir as músicas, mas isto é um movimento quase automático pois elas estão inscritas na nossa memória afetiva de forma indelével. E é claro, gostei de rever meus ídolos da juventude em seu melhor momento. Senti falta de alguma reflexão mais consistente sobre o tropicalismo que fosse além das imagens e das citações presentes em gravações originais. Senti falta de algo que dissesse um pouco o quanto foi importante para nós a releitura que Caetano, especialmente, promoveu de velhos autores esquecidos e desprezados. Mas tanta gente amiga e inteligente gostou que eu não quero implicar com um filme que tem tantas outras qualidades. Entre elas a de poder inspirar outros filmes que recuperem aquele momento único da história da cultura brasileira e que dá tanto gosto a quem o viveu, reviver.
Neste sentido o filme dos festivais fez muito mais. Especialmente naquelas cenas de bastidores em que, em um mesmo espaço se misturavam Caetano, Gil, Chico, Milton, Edu Lobo, Vandré, Nana, Sidney Miller, Roberto Carlos, os Mutantes... enfim todo o PIB do que a cultura brasileira produziu de melhor até hoje. Tanta gente boa, tanta imaginação e criatividade reunidas nos fazem pensar sobre a arbitrariedade com que é distribuído o talento. Caetano, Gil, Gal e Betânia representam o maior fenômeno no Brasil da reunião de talentos em um mesmo lugar e em uma mesma época. Assim como os meninos de Liverpool. A gente fica se indagando como é que foi possível que surgissem em um mesmo tempo e lugar pessoas tão talentosas, que soubessem dar forma expressiva à sua vocação e que provocassem uma onda tão forte a ponto de impulsionar outros talentos?
Como podem ter se revelado tantos talentos baianos, mineiros, cariocas, paulistas, cearenses, piauienses, pernambucanos e brasileiros em geral naquela mesma década de 1960? Tem a ver também, é verdade, com o fato de que a carreira artística ainda não estava tão industrializada no Brasil. Tem a ver com o fato de que, apesar da ditadura, havia muito mais liberdade criativa, liberdade que, depois seria totalmente castrada pela indústria fonográfica e seus compromissos com o mercado. Investindo nos sucessos certos, no que havia de menos ousado e criativo, a indústria fonográfica conseguiu pasteurizar as mais belas vozes femininas daquele tempo. Elis só escapou porque morreu cedo.
O caráter aleatório do talento é um fenômeno inexplicável. Tem algo de surpreendente e de mágico. Talvez seja efeito de alguma combinação cósmica dos astros ou talvez a explicação esteja na pergunta que um sujeito fez ao Mario Bag a propósito do jeito que ele tinha para o desenho: “você acha que tem a ver com vidas passadas?” Meu saudoso e querido amigo, Antonio Gabriel Nássara, dono de enorme talento em duas áreas: o desenho e a musica tinha uma resposta que resume um pouco essa impressão. Quando lhe perguntaram se era difícil para alguém fazer as músicas que ele fazia, Nassara respondeu que era fácil ou era impossível. Ou seja para quem tem talento é fácil, é facílimo. É só sair batucando o ritmo no tampo da mesa do bar ou mesmo na caixa de fósforo e coisa flui naturalmente, brota sem qualquer dificuldade. Para o que não tem talento nem o apoio da Orquestra Sifônica do Teatro Municipal ajuda.
Quando eu e Clélia éramos meninas, papai comprou um piano Essenfelder de segunda mão para que a gente aprendesse a tocar. Íamos umas três vezes por semana ter aulas na casa de d. Zenaide que ficava ali na Visconde de Rio Branco. Era uma pedreira. Nunca esqueci o tédio daquelas tardes mornas e modorrentas. As escalas repetidas até a exaustão, o método Kohler e a partitura de “Santa Lucia” de nada valeram diante da nossa absoluta falta de talento musical. Comprovado o nosso fiasco, a aulas foram canceladas e o piano ficou ali na sala da casa da Piedade como objeto decorativo. Um dia estava lá o Zé Pintor que sempre que papai tinha algum serviço de pintura para fazer, era chamado. Era o tipo do mulato (ou cafuso), magro, baixo, com os dentes estragados, um ar um tanto malandro, talvez por causa do chapéu que usava no trabalho. Pois bem, Zé Pintor, cujo talento musical se manifestava no repertório que assobiava enquanto pintava paredes, sentou diante do piano, - tenho quase certeza que ele nunca tinha visto um antes - levou a tampa do bicho, olhou para o teclado, sentiu o som das teclas brancas e pretas e, em poucos minutos, começou a tocar alguma coisa como "Cai, cai, balão" ou outra coisa bem popular. Eu fiquei de queixo caído.
Nunca mais vi Zé Pintor mas lembrei dele quando li há alguns anos a história do Cartola, esse gênio da raça, que também foi pintor de paredes. Conta a lenda que, depois de ter feito algum sucesso nos anos 1940, Cartola ficou esquecido até ser redescoberto por Sergio Porto guardando carros em um estacionamento do centro do Rio. Foi esse encontro casual que permitiu a volta e a revelação do que seu repertório tem de melhor. Se não fosse esse encontro... Enfim, talento é muito importante, mas o acaso precisa dar uma mãozinha.
Também gostei de ouvir as músicas, mas isto é um movimento quase automático pois elas estão inscritas na nossa memória afetiva de forma indelével. E é claro, gostei de rever meus ídolos da juventude em seu melhor momento. Senti falta de alguma reflexão mais consistente sobre o tropicalismo que fosse além das imagens e das citações presentes em gravações originais. Senti falta de algo que dissesse um pouco o quanto foi importante para nós a releitura que Caetano, especialmente, promoveu de velhos autores esquecidos e desprezados. Mas tanta gente amiga e inteligente gostou que eu não quero implicar com um filme que tem tantas outras qualidades. Entre elas a de poder inspirar outros filmes que recuperem aquele momento único da história da cultura brasileira e que dá tanto gosto a quem o viveu, reviver.
Neste sentido o filme dos festivais fez muito mais. Especialmente naquelas cenas de bastidores em que, em um mesmo espaço se misturavam Caetano, Gil, Chico, Milton, Edu Lobo, Vandré, Nana, Sidney Miller, Roberto Carlos, os Mutantes... enfim todo o PIB do que a cultura brasileira produziu de melhor até hoje. Tanta gente boa, tanta imaginação e criatividade reunidas nos fazem pensar sobre a arbitrariedade com que é distribuído o talento. Caetano, Gil, Gal e Betânia representam o maior fenômeno no Brasil da reunião de talentos em um mesmo lugar e em uma mesma época. Assim como os meninos de Liverpool. A gente fica se indagando como é que foi possível que surgissem em um mesmo tempo e lugar pessoas tão talentosas, que soubessem dar forma expressiva à sua vocação e que provocassem uma onda tão forte a ponto de impulsionar outros talentos?
Como podem ter se revelado tantos talentos baianos, mineiros, cariocas, paulistas, cearenses, piauienses, pernambucanos e brasileiros em geral naquela mesma década de 1960? Tem a ver também, é verdade, com o fato de que a carreira artística ainda não estava tão industrializada no Brasil. Tem a ver com o fato de que, apesar da ditadura, havia muito mais liberdade criativa, liberdade que, depois seria totalmente castrada pela indústria fonográfica e seus compromissos com o mercado. Investindo nos sucessos certos, no que havia de menos ousado e criativo, a indústria fonográfica conseguiu pasteurizar as mais belas vozes femininas daquele tempo. Elis só escapou porque morreu cedo.
O caráter aleatório do talento é um fenômeno inexplicável. Tem algo de surpreendente e de mágico. Talvez seja efeito de alguma combinação cósmica dos astros ou talvez a explicação esteja na pergunta que um sujeito fez ao Mario Bag a propósito do jeito que ele tinha para o desenho: “você acha que tem a ver com vidas passadas?” Meu saudoso e querido amigo, Antonio Gabriel Nássara, dono de enorme talento em duas áreas: o desenho e a musica tinha uma resposta que resume um pouco essa impressão. Quando lhe perguntaram se era difícil para alguém fazer as músicas que ele fazia, Nassara respondeu que era fácil ou era impossível. Ou seja para quem tem talento é fácil, é facílimo. É só sair batucando o ritmo no tampo da mesa do bar ou mesmo na caixa de fósforo e coisa flui naturalmente, brota sem qualquer dificuldade. Para o que não tem talento nem o apoio da Orquestra Sifônica do Teatro Municipal ajuda.
Quando eu e Clélia éramos meninas, papai comprou um piano Essenfelder de segunda mão para que a gente aprendesse a tocar. Íamos umas três vezes por semana ter aulas na casa de d. Zenaide que ficava ali na Visconde de Rio Branco. Era uma pedreira. Nunca esqueci o tédio daquelas tardes mornas e modorrentas. As escalas repetidas até a exaustão, o método Kohler e a partitura de “Santa Lucia” de nada valeram diante da nossa absoluta falta de talento musical. Comprovado o nosso fiasco, a aulas foram canceladas e o piano ficou ali na sala da casa da Piedade como objeto decorativo. Um dia estava lá o Zé Pintor que sempre que papai tinha algum serviço de pintura para fazer, era chamado. Era o tipo do mulato (ou cafuso), magro, baixo, com os dentes estragados, um ar um tanto malandro, talvez por causa do chapéu que usava no trabalho. Pois bem, Zé Pintor, cujo talento musical se manifestava no repertório que assobiava enquanto pintava paredes, sentou diante do piano, - tenho quase certeza que ele nunca tinha visto um antes - levou a tampa do bicho, olhou para o teclado, sentiu o som das teclas brancas e pretas e, em poucos minutos, começou a tocar alguma coisa como "Cai, cai, balão" ou outra coisa bem popular. Eu fiquei de queixo caído.
Nunca mais vi Zé Pintor mas lembrei dele quando li há alguns anos a história do Cartola, esse gênio da raça, que também foi pintor de paredes. Conta a lenda que, depois de ter feito algum sucesso nos anos 1940, Cartola ficou esquecido até ser redescoberto por Sergio Porto guardando carros em um estacionamento do centro do Rio. Foi esse encontro casual que permitiu a volta e a revelação do que seu repertório tem de melhor. Se não fosse esse encontro... Enfim, talento é muito importante, mas o acaso precisa dar uma mãozinha.
Historias de morte (1/12/12)
"Fulano está?"
"Não, Fulano não está mais entre nós."
"Ah, é? Sabe me dizer onde ele está agora?"
"Passou para o andar de cima."
"Será que dá para você transferir a ligação para lá?"
Mario Bag me garante que o diálogo acima, entre ele e a telefonista de uma agência de propaganda não foi bem assim, mas foi parecido. Pois, de fato esses eufemismos com a morte se prestam a mal-entendidos. Expressões como "foi para um plano superior", "bateu as botas", "esticou as canelas", "partiu desta para a melhor", "está comendo capim pela raiz", não são autoexplicativas.
***
Esta foi o Lustosa que me contou: No interior do Ceará, um sujeito estava muito doente, desenganado. O padre de sua paróquia, velho amigo do doente, procurava confortá-lo lembrando das alegrias que ele, que fora um justo, encontraria no reino dos céus. O paraíso era descrito como um lugar claro e alegre, onde o enfermo se encontraria junto de Nossa Senhora e cercado de anjinhos. Mesmo com essa descrição tão favorável da vida eterna o doente argumentou: "Ô, seu vigário, mas Quixeramobim tá tão bonzim..."
***
Também devo esta ao Lustosa: Duas comadres se encontram no cemitério de Sobral, uma entrando e outra saindo. A que entrava indagou de onde a outra vinha e ela explicou que fora dar uma arrumada no túmulo de seu falecido pai. A amiga perguntou em que parte do cemitério estava enterrado o pai da outra. "Bem, - foi a resposta - fica ali bem no centro da alameda principal, ao lado do bispo fulano e do general sicrano e bem em frente ao mausoléu da família do senador beltrano". Diante disto a outra exclamou: "Mas é um ponto ótimo!".
***
Minha sobrinha, a médica Fabiana Lustosa Corsetti, quando era pequena costumava ir com os pais visitar as velhas tias de sua mãe, no Mondubim. Além de Abigal e Dagmar, irmãs de papai, ainda vivia e ali morava nossa tia-avó, Amélia. Tia Amélia era a irmã solteirona da mãe de papai, D. Vitalina, à qual sobrevivera. Muito velhinha, muito magrinha, ficava quase que o tempo todo deitada na sua pequena cama marca Patente. Fabiana que devia ter então uns oito anos, estava encantada com uma malinha bem pequena, dessas malinhas amarelas de madeira e papelão que se vendem ainda nas feiras do interior e pediu: "Tia Amélia, quando a senhora morrer a senhora deixa essa malinha para mim?". Tia Amélia não gostou e respondeu na lata: "Que morrer o que menina, agora que eu fiz 92 anos".
***
Antes de ser casado com nossa tia Abgail, tio Joaquim tivera uma paixão de juventude que, ao que parece, o tinha muito maltratado, antes de morrer queimada em um incêndio. Funcionário da RFFSA ele costumava se hospedar na casa de uma velha senhora, em uma das estações do trem. A amiga conhecia-lhe as desditas amorosas do passado que lhe foram confiadas pelo viajante nas tantas vezes que ali se hospedou. Numa noite em que dormia no quarto vizinho ao da hospedeira, a alma da finada lhe apareceu junto ao pé da rede, chamando e pedindo: "Joaquim! Tu me perdoas, Joaquim?". Do outro lado da parede, a amiga atenta que ouvira o apelo da alma penada, lhe recomendou: "Perdoa não, Joaquim, que essa mulher foi muito ruim contigo".
***
Outro dia lembrei à mamãe que seu genro, meu falecido compadre, Francisco Edmilson Brito, gostava de brincar com a falta de aptidão dela para a culinária, anunciando-lhe aos domingos que iria almoçar na casa dos sogros para comer a comidinha feita por dona Dolores. Ela sempre lhe repetia: "Você morre e não come uma comida feita por mim". Aos 98 anos, diante dessa lembrança, mamãe observou: "E não é que ele morreu mesmo". Edmilson também teria rido dessa tirada de humor negro da sogra. Talvez uma forma que ela encontrou de demonstrar que sabe quais os que ainda que estão vivos e os que já se foram.
***
Três meninas órfãs, a Chaga, a Lili e a Maria, foram acolhidas pelos meus pais ainda em Sobral. Cresceram conosco, meio irmãs, meio babás, presenças constantes nas nossas vidas. Maria casou-se com quem papai queria, o Antônio Gomes, seu motorista desde o começo dos anos 60, até hoje a serviço de dona Dolores.
Chaga e Lili casaram com dois tipos que papai não aprovava e, como ele previra, não foram muito felizes. Lili, até hoje, de vez em quando, lamenta: "Eu devia ter ouvido o seu Costa, não devia ter me casado com aquele Verdura". Verdura era o apelido do marido dela, de quem eu nunca soube o verdadeiro nome. De fato, a vida da Lili tem sido um rosário de amarguras, apaziguadas até pouco tempo pela bebida, hábito que herdou do longo convívio com o Verdura. O engraçado da história do arrependimento é que seu casamento foi há mais de 50 anos...
Até a morte de papai, quando faltava empregada, a Lili vinha dar uma ajuda à mamãe. Temendo as broncas, ia beber escondido no botequim da esquina, sob o pretexto de comprar cigarros. Papai dizia: "A vida da Lili e desse cachorro é aquele botequim da esquina". É que sempre que ela ia lá, a acompanhava um velho cachorro magro e amarelo, desses cachorros que tem no sertão cearense e que fora parar lá em casa não sei porque, pois não fazia medo a ninguém. Lili vinha embora, mas o cachorro amarelo se deixava ficar lá no boteco sujo em meio aos bêbados que, de tempos em tempos, o enxotavam com um pontapé.
Lili foi a primeira pessoa que sonhou com o papai depois que ele morreu. No seu sonho, ele chegava no portão de nossa casa na Barão de Aracati, bonito, novo, com sua roupa clara, parecendo ter cinquenta anos, e vinha todo alegre falar com dona Dolores. Quando chegou perto, Lili pediu a ele: "Seu Costa, me arrume um trocado para eu comprar um cigarrinho". Ela mesma me contou e contou também do arrependimento que lhe veio quando acordou, porque em vez de pedir uma graça à alma do morto, pedira foi um trocado para comprar cigarro.
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Creio que eu também fui a primeira pessoa a sonhar com o Lustosa, depois que ele morreu. Estava muito bem, alegre e jovial, vestido com um terno claro, xadrezinho azul. Perguntei se ele estava vivo ou morto e ele ficou meio sem graça, talvez porque a mamãe estivesse do lado e ele não quisesse decepcioná-la. Foi bom sonhar com ele.
"Não, Fulano não está mais entre nós."
"Ah, é? Sabe me dizer onde ele está agora?"
"Passou para o andar de cima."
"Será que dá para você transferir a ligação para lá?"
Mario Bag me garante que o diálogo acima, entre ele e a telefonista de uma agência de propaganda não foi bem assim, mas foi parecido. Pois, de fato esses eufemismos com a morte se prestam a mal-entendidos. Expressões como "foi para um plano superior", "bateu as botas", "esticou as canelas", "partiu desta para a melhor", "está comendo capim pela raiz", não são autoexplicativas.
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Esta foi o Lustosa que me contou: No interior do Ceará, um sujeito estava muito doente, desenganado. O padre de sua paróquia, velho amigo do doente, procurava confortá-lo lembrando das alegrias que ele, que fora um justo, encontraria no reino dos céus. O paraíso era descrito como um lugar claro e alegre, onde o enfermo se encontraria junto de Nossa Senhora e cercado de anjinhos. Mesmo com essa descrição tão favorável da vida eterna o doente argumentou: "Ô, seu vigário, mas Quixeramobim tá tão bonzim..."
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Também devo esta ao Lustosa: Duas comadres se encontram no cemitério de Sobral, uma entrando e outra saindo. A que entrava indagou de onde a outra vinha e ela explicou que fora dar uma arrumada no túmulo de seu falecido pai. A amiga perguntou em que parte do cemitério estava enterrado o pai da outra. "Bem, - foi a resposta - fica ali bem no centro da alameda principal, ao lado do bispo fulano e do general sicrano e bem em frente ao mausoléu da família do senador beltrano". Diante disto a outra exclamou: "Mas é um ponto ótimo!".
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Minha sobrinha, a médica Fabiana Lustosa Corsetti, quando era pequena costumava ir com os pais visitar as velhas tias de sua mãe, no Mondubim. Além de Abigal e Dagmar, irmãs de papai, ainda vivia e ali morava nossa tia-avó, Amélia. Tia Amélia era a irmã solteirona da mãe de papai, D. Vitalina, à qual sobrevivera. Muito velhinha, muito magrinha, ficava quase que o tempo todo deitada na sua pequena cama marca Patente. Fabiana que devia ter então uns oito anos, estava encantada com uma malinha bem pequena, dessas malinhas amarelas de madeira e papelão que se vendem ainda nas feiras do interior e pediu: "Tia Amélia, quando a senhora morrer a senhora deixa essa malinha para mim?". Tia Amélia não gostou e respondeu na lata: "Que morrer o que menina, agora que eu fiz 92 anos".
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Antes de ser casado com nossa tia Abgail, tio Joaquim tivera uma paixão de juventude que, ao que parece, o tinha muito maltratado, antes de morrer queimada em um incêndio. Funcionário da RFFSA ele costumava se hospedar na casa de uma velha senhora, em uma das estações do trem. A amiga conhecia-lhe as desditas amorosas do passado que lhe foram confiadas pelo viajante nas tantas vezes que ali se hospedou. Numa noite em que dormia no quarto vizinho ao da hospedeira, a alma da finada lhe apareceu junto ao pé da rede, chamando e pedindo: "Joaquim! Tu me perdoas, Joaquim?". Do outro lado da parede, a amiga atenta que ouvira o apelo da alma penada, lhe recomendou: "Perdoa não, Joaquim, que essa mulher foi muito ruim contigo".
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Outro dia lembrei à mamãe que seu genro, meu falecido compadre, Francisco Edmilson Brito, gostava de brincar com a falta de aptidão dela para a culinária, anunciando-lhe aos domingos que iria almoçar na casa dos sogros para comer a comidinha feita por dona Dolores. Ela sempre lhe repetia: "Você morre e não come uma comida feita por mim". Aos 98 anos, diante dessa lembrança, mamãe observou: "E não é que ele morreu mesmo". Edmilson também teria rido dessa tirada de humor negro da sogra. Talvez uma forma que ela encontrou de demonstrar que sabe quais os que ainda que estão vivos e os que já se foram.
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Três meninas órfãs, a Chaga, a Lili e a Maria, foram acolhidas pelos meus pais ainda em Sobral. Cresceram conosco, meio irmãs, meio babás, presenças constantes nas nossas vidas. Maria casou-se com quem papai queria, o Antônio Gomes, seu motorista desde o começo dos anos 60, até hoje a serviço de dona Dolores.
Chaga e Lili casaram com dois tipos que papai não aprovava e, como ele previra, não foram muito felizes. Lili, até hoje, de vez em quando, lamenta: "Eu devia ter ouvido o seu Costa, não devia ter me casado com aquele Verdura". Verdura era o apelido do marido dela, de quem eu nunca soube o verdadeiro nome. De fato, a vida da Lili tem sido um rosário de amarguras, apaziguadas até pouco tempo pela bebida, hábito que herdou do longo convívio com o Verdura. O engraçado da história do arrependimento é que seu casamento foi há mais de 50 anos...
Até a morte de papai, quando faltava empregada, a Lili vinha dar uma ajuda à mamãe. Temendo as broncas, ia beber escondido no botequim da esquina, sob o pretexto de comprar cigarros. Papai dizia: "A vida da Lili e desse cachorro é aquele botequim da esquina". É que sempre que ela ia lá, a acompanhava um velho cachorro magro e amarelo, desses cachorros que tem no sertão cearense e que fora parar lá em casa não sei porque, pois não fazia medo a ninguém. Lili vinha embora, mas o cachorro amarelo se deixava ficar lá no boteco sujo em meio aos bêbados que, de tempos em tempos, o enxotavam com um pontapé.
Lili foi a primeira pessoa que sonhou com o papai depois que ele morreu. No seu sonho, ele chegava no portão de nossa casa na Barão de Aracati, bonito, novo, com sua roupa clara, parecendo ter cinquenta anos, e vinha todo alegre falar com dona Dolores. Quando chegou perto, Lili pediu a ele: "Seu Costa, me arrume um trocado para eu comprar um cigarrinho". Ela mesma me contou e contou também do arrependimento que lhe veio quando acordou, porque em vez de pedir uma graça à alma do morto, pedira foi um trocado para comprar cigarro.
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Creio que eu também fui a primeira pessoa a sonhar com o Lustosa, depois que ele morreu. Estava muito bem, alegre e jovial, vestido com um terno claro, xadrezinho azul. Perguntei se ele estava vivo ou morto e ele ficou meio sem graça, talvez porque a mamãe estivesse do lado e ele não quisesse decepcioná-la. Foi bom sonhar com ele.
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