Manias (15/12/12)

“Mania é coisa que a gente
 tem mas não sabe porque/ 
Mania de querer bem, 
às vezes de falar mal/
Mania de só deitar 
depois de ler o jornal/ De contar sempre aumentado 
tudo o que viu e que fez/ 
De guardar fósforo usado 
dentro da caixa outra vez/ 
Eu tenho várias manias,
 delas não faço segredo/ 
Quem pode ver tinta fresca 
sem antes passar o dedo?/  De só entrar no chuveiro 
cantando a mesma canção/ 
De só pensar no cinzeiro 
depois da cinza no chão/
 Mania é coisa que a gente 
tem mas não sabe porque 
e das manias que eu tenho
 uma é gostar de você.” ( Flavio Cavalcanti)

Todo dia, quando vai dormir, mamãe se cobre com um lençol de algodão branco bem levinho. Ela verifica se a costura está para o lado de dentro e se não tiver manda virar, pois não tolera dormir com lençol pelo avesso. Que diferença faz se o lençol é todo branco? Não sei, é mania. Parece que seu pai, o vovô Piano tinha a mesma mania.
“Mania é coisa que a gente tem mas não sabe porque”, como dizia aquela antiga canção cuja autoria, me lembrou Mathilda Kovak, é do polêmico apresentador de TV dos anos 1960, Flavio Cavalcanti. Abro aqui um parêntese para os que nasceram depois. Flávio Cavalcanti tinha um programa na TV, “Um instante, Maestro!” que funcionava como um tipo de tribunal em que compositores e cantores eram postos em julgamento e, se condenados, tinham o disco destruído. Nunca esqueci da vez em que o Flavio Cavalcante quebrou o disco do Vicente Celestino que, creio, já era bem velhinho. Foi uma das cenas mais cruéis da minha infância e, apesar de Mathilda tentar me fazer consertar o passado dizendo que era tudo armação, não adianta. Fico triste só de lembrar dos olhos rasos d’água do Vicente Celestino. 


Eu não tenho várias manias como o personagem da música. Ou melhor, eu acho que não tenho. A única que assumo por conta de sua peculiaridade é uma que eu tinha quando era menina e que me acompanhou até a idade adulta: descascar paredes. Aquele tipo de parede sobre a qual a camada da tinta, talvez por já ter sido aplicada muitas vezes, se solta e racha. O prazer consiste em ir arrancando os pedaços. Se a tinta for plástica é menos bacana por que saem aqueles pedações de plástico ou não sai quase nada.


O bom é rachadura pequena na parede pintada com tinta comum, bem sequinha, que você vai tirando com a unha ou com a ajuda de algum objeto tipo espátula. E vai fazendo isto compulsivamente e com absoluta indiferença pelo fato de que a parede ficará horrível. Na infância, eu podia ficar horas arrancando os pedaços de tinta, deixando aquela sujeirada no chão e a parede exposta como um grande ferida. Na sala da Piedade, sobre um espaço assim fiz uns desenhos a lápis. Curiosamente, papai que se chateava com esse tipo de dano porque sempre sobrava para ele providenciar o conserto, deixou meus desenhos lá. Acho que gostou, ou pensou que eu levava jeito e ficou com medo de que, pintando logo a parede, eu me sentisse desestimulada para seguir uma possível vocação. Enfim, eu disse que tenho essa mania porque ainda hoje é um custo me conter diante de uma parede com aquele pedaço de tinta pedindo para ser arrancado. Fico com água na boca. Só não começo a descascar porque hoje seria eu e não o papai quem teria que mandar pintar.


Creio que essa minha mania é aparentada daquela que muita gente boa tem de ficar estourando bolhinha de plástico-bolha até doerem-lhes os dedos. De onde vem isto? Porque? Sei lá. Não serve para nada. Mas esse tipo de mania é quase coisa de foro íntimo, pois só quem convive com você no dia-a-dia vai descobrir. Manias complicadas são aquelas da conversação, aqueles cacoetes que a pessoa desenvolve sem notar e que se tornam um problema. Tem mania mais chata do que aquela das pessoas que antecipam o final da palavra que você vai dizer? Você está contando uma história e antes de terminar a frase seu interlocutor fala a última palavra ao mesmo tempo que você. Acho que isto é uma forma de ansiedade, uma espécie de vontade de ajudar o outro ou de fazer com que ele termine logo.


Mario Bag tem um amigo que quando conta alguma coisa que lhe aconteceu ou que fez cuja quantidade é incomum, inclui na narrativa uma pergunta do tipo: “Sabe quantas injeções eu tomei, sabe?” Ao que o interlocutor que, de fato, nem imagina, nem está tão interessado assim em saber, diz: “não” para ver se o amigo diz logo quantas foram. Mas aí é que está a parte maníaca da conversa. O narrador não se conforma e insiste: “chuta aí, chuta aí”. Você se recusa: “sei lá...” Ele insiste de novo: “Não: chuta aí, chuta aí, vai”. Esperando com a resposta encerrar o papo chato você chuta: “dez!” para ouvir o amigo contradizer triunfante, comemorando sua derrota: “quinze, meu camarada, quinze injeções.” Ou seja, fosse qual fosse a sua resposta ele ia dar um jeito de você errar, pois essa é a dinâmica da conversa dele.


De manias é feita a vida da gente. E, com o passar do tempo elas vão se tornando algo tão próprio da sua natureza que você até esquece que o resto da humanidade não age da mesma maneira. Nem todo o mundo acorda de manhã e corre para ler o jornal. Poucos são os que guardam fósforo usado dentro da caixa outra vez, (essa eu já tive mas foi por imitação, parei). Apesar de minha mania com tinta, jamais tive o impulso de passar o dedo em tinta fresca. 


Tive uma vez um namorado que, há vários anos, guardava jornais que pretendia ler um dia. As pilhas se acumulavam nos cantos da sala, nas gavetas e sobre a mesa, com aquela poeira preta característica que o jornal velho cria. Em curta temporada que passei na casa dele, resolvi dar uma organizada, aproveitei sua ausência e joguei boa parte daquela tralha fora. Foi um deus-nos-acuda e creio que contribuiu para o rápido desfecho do nosso relacionamento. Também, que mania essa minha de querer arrumar os papéis velhos dos outros quando nos meus ninguém toca? Tremendo autoritarismo. Há que respeitar as manias de cada um.

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