Uma carreira (26/2/11)

Amiga de pouco mais de 30 anos, formada em contabilidade e administração resolveu tentar o mestrado de História Social.

Está em meio à esterna disputa da classe média por uma vaga no serviço público e achou que o mestrado lhe daria mais chances. Escolheu história não sei bem por qual motivo. Se inscreveu, apresentou seu projeto e fez a prova escrita.

O projeto foi aprovado mas ela não passou na prova, apesar do imenso esforço para ler pela primeira vez uma ampla bibliografia que incluía livros de Roger Chartier e de Pierre Bourdieu, além de vários autores brasileiros.

O projeto que apresentou era irrealizável: algo que previa o estudo comparatívo de várias civilizações orientais e sua influência sobre o ocidente. Mas, não sei porque foi aprovado.

Ela ficou empolgada com a História e se diz decidida a continuar seus estudos e a tentar novamente. Pretendia investir no mesmo projeto e, numa conversa informal me perguntou o que eu achava.

É sempre delicado dizer a alguém que não tem chance.

Principalmente quando a questão envolve cultura e vocação para uma atividade intelectual.

Dizer que uma carreira como essas se faz ao longo da vida. Começa ainda na adolescencia pela escolha de determinadas leituras, faz parte da construção da pessoa, do jeito que fala, das palavras que prefere empregar e até do jeito que pensa. Se traduz até mesmo na maneira de se vestir, no gosto musical, nos filmes de se prefere assistir, nas pessoas com quem prefere conversar...

O ambiente familiar pode influir mas o essencial está mesmo no espírito do indivíduo. É a ciência como vocação, pode-se assim dizer. Ou a cultura, ou arte, ou o pensamento.

Esse tipo de marca de origem distingue uma elite e cria diferenças mesmo em seu interior. Mas também cria preconceitos.

Para mim, quando era adolescente, a cultura era tudo. Os cultos, os que tinham lido os filmes certos, os que ouviam as músicas certas, os que falavam as palavras certas, só estes mereciam o meu respeito e a minha admiração. O resto da humanidade era uma massa indistinta presa na caverna de Platão. Não merecia nem um cumprimento. Talvez um gesto de benevolência. Suas palavras não tinham importância e sua companhia era francamente indesejável.

Foi preciso muito tempo e algumas tantas decepções para perceber que esse mundo dos chamados "cultos" era muito diversificado. Havia os "cultos" de direita e os de esquerda, havia os "cultos" liberais e os conservadores, havia os "cultos" arrogantes e os modestos, havia ainda os "cultos" do bem e os cultos do mal.

Ou seja: havia pessoas muito cultas, muito interessantes, até mesmo divertidas, cuja absoluta falta de caráter ou mesmo, o mau caráter fazia com que a atitude mais recomendável fosse a de se manter bem distante delas.

Foi preciso muita vida para dar o devido valor à bondade, à honestidade, à lealdade, à capacidade de trabalho, à determinação. Para perceber que essas qualidades, muitas vezes, superam a inteligência e a cultura como valores sociais. Pois um amigo bom, honesto e leal é muito mais necessário do que o companheiro de mesa de bar divertido e bom contador de anedotas mas que some diante de qualquer situação mais difícil.

Que no mundo do trabalho, o profissional dedicado, determinado e organizado realiza muito mais que o intelectual blasé, com uma excessiva expectativa sobre si, incapaz de concluir um trabalho por considerá-lo sempre aquem do que imagina que esperam dele.

Quantos dos primeiros eu vi fazerem carreiras bem sucedidas e superarem as marcas iniciais da cultura e de uma inteligencia apenas mediana? Quantos dos inteligentes, talentosos, criativos vi ficarem pelo caminho sem terem realizado nenhuma das esperanças que os seus contemporaneos tinham a seu respeito?

Naturalmente que isto não muda alguns aspectos que são importantes no processo de construção de uma carreira. E estes são na verdade aspectos práticos.

No caso da minha amiga, do começo deste artigo, empolgada com esse primeiro contato com a História e interessada em dar continuidade, fui franca.

Eu lhe lembrei que, neste momento, milhares de jovens estam cursando ou se formando em história. Destes milhares, muitos teriam feito estágios, com bolsas de iniciação científica, já se vinculando a algum projeto e se tornando conhecidos dos pesquisadores daquela área. Ao longo de sua formação essa garotada terá adquirido uma bagagem de conhecimentos, a partir mesmo das leituras e dos trabalhos feitos na gradução, que lhes torna familiar nomes como os de Roger Chartier e Pierre Bourdieu, só para usar os mesmos exemplos do começo. Terão ainda adquirindo o domínio do jargão e da atitude típica da área, coisa que se reconhece desde o momento em que a pessoa entra na sala para a entrevista.

Como competir com esse pessoal tendo mais de trinta anos e só agora tendo descoberto a História? Apenas se você tiver descoberto também que essa é a sua vocação e que por ela, estaria disposta a um investimento que compensasse todo o tempo perdido. Mesmo assim, eu lhe disse, você estará sempre competindo em situação de inferioridade.

Não se iluda como eu na minha adolescência me iludia com os mais cultos, deslumbrada com a impressão que causavam. Faça a sua carreira, aquela para a qual você se preparou, para a qual está vocacionada e seja uma boa administradora, uma boa contadora (como a minha bela e muito bem sucedida sobrinha, Mirian) e não só os historiadores, mas o mundo todo te respeitará.

Rio "réi" (19/2/11)

Quando desembarquei era o final de uma tarde de verão luminosa. O contorno tão familiar das elevações do maciço da Tijuca se recortava em um fundo de ouro sobre azul.

Voltar para o Rio de Janeiro em um dia de sol glorioso assim (sobretudo quando visto do ar condicionado do táxi), desperta a vontade de cantar todas aquelas canções que exaltam a beleza da cidade. Canções que, de tão cantadas se tornaram tão lugar-comum que a gente tem um certo pudor de, cantarolando-as, parecer banal. Desde o tradicional "Cidade Maravilhosa" que levanta o nível da animação de qualquer baile carnavalesco até o "hit" de Fernanda Abreu "Rio 40 graus, purgatório da beleza e do caos", tudo já foi exaustivamente repetido.

Mesmo assim, ninguém resiste e, se encontra companhia, sai cantando com todo o entusiasmo a valsinha que diz: "Rio de Janeiro, gosto de você/ Gosto de quem gosta,/ deste céu, deste mar,/ desta gente feliz". Ou, para os que preferem a bossa-nova, o consagrado "Samba do avião" do Jobim: "Da janela vê-se o Corcovado,/ o Redentor,/ que lindo". Tem ainda aquela do Gil: "o Rio de Janeiro continua lindo", que foi o tema escolhida para uma linda propaganda das olimpíadas de 2016.

O Rio de Janeiro que eu conheci na década de 1970, era já a cidade pós-Brasília, buliçosa, musical e irresponsável que veio dar na cara que o Rio tem agora. Rio dos contrastes, cidade populosa e barulhenta, cortada por viadutos, vibrante de luz e de movimento. Cidade que encontrou sua síntese num bairro: Copacabana, fusão de sonho e pesadelo, delírio tropical de megalópole. A Copacabana que eu conhecia das páginas da revista "O Cruzeiro" era chique, era o Copacabana Palace, as calçadas com seus desenhos maravilhosos, as misses com aqueles maiôs que tinham uma espécie de barrinha na parte de baixo, tipo Maria Yeda Vargas, nossa misse universo.

E Copacabana nos idos dos setenta já não era nada daquilo. Era o paredão de prédios quase indistintos da Av. Nossa Senhora de Copacabana, detrás do qual escorria o quotidiano miserável dos kitinetes, habitação da gente simples que se amontoa em beliches para pegar no batente cedo nas lojas do bairro, ou das garotas de programa. Odiei Copacabana que, aos meus olhos de 20 anos, concretivava a maldição de Rubem Braga. Em compensação amei e espero amar sempre Ipanema, com seus prédios baixos e o eterno Posto Nove.

Quando voltava ao Rio, depois de quatro meses e meio em Paris, vindo de táxi pela Linha Vermelha foi no Posto Nove que pensei. Na possibilidade de ir lá, naquele final de tarde, dar um mergulho nas águas geladas de Ipanema. Na verdade só possibilidade mesmo pois faz milênios que não vou à praia. Nem mesmo no Posto Nove. Mesmo sabendo que indo lá, no meio da multidão de gente nova, vai ter sempre alguém do meu tempo, alguma cara familiar. Porque o Nove, como os íntimos o chamam, não muda, mesmo as pessoas, sofrem a ação do tempo, mas estão lá firmes, geração após geração, com algumas defecções.

Tem até mesmo uma turma do voley que é a combinação mais curiosa que já vi. Junta contemporâneos do tempo da universidade só que das mais variadas tendências do movimento estudantil. Tem o Paulo Passarinho e o Cacau que eram do MEP; tem a Cristiane e a irmã que eram do 8; tem a turma da Maria Paula que era da AP, e até mesmo gente ligada ao Partidão, pessoal que no nosso tempo era sempre chamado, em tom pejorativo, de "reformista". Se juntaram como aqueles meninos rivais, no final de "Guerra de Botões", quando se encontraram em um colégio interno, cercados de estranhos. Assim é esta turma do voley, cercada de uma multidão que não viveu nada das lutas gloriosas dos idos dos 1970.

Olhando pela janela, quando o táxi deixa o Rebouças para trás e se descobre a Lagoa Rodrigo de Freitas com seus remadores, estou chegando em casa e digo comigo mesma: Rio "réi". Retomando o jeito cearense de falar, onde "réi" é "velho", mas não no sentido negativo que a palavra "velho" tem. É antes esse modo cearense de expressar o afeto com palavras que originalmente tem sentido oposto.

Assim é que a gente diz "nego réi", "cabra réi" para um amigo querido ao qual a gente conhece há tanto tempo, com cujos defeitos estamos tão acostumados que até gostamos deles, do qual somos tão íntimos que sabemos que, chamando-o assim, a gente está evocando um longa história comum.

E digo Rio "réi" neste sentido, como dizia, olhando para a janela em Paris e vendo o espetáculo que já se tornava conhecido, da neve caindo: neve "réia". Foi bom. "Como se ter ido fosse necessário para voltar" ou ainda, para concluir com um tema musical que evoca o Rio: "Paris, Paris, Je t´aime,/ Mas eu gosto muito mais é do Leme".

Souvernirs de Paris(12/2/11)

Última semana de Paris. Quatro meses e meio de vida na Cidade Luz e a sensação de que deveria ter feito mais coisas. Não fui ao Louvre, não vi a exposição do Monet, não vi as outras boas exposições que estavam em cartaz na cidade, não fui conhecer a Euro-Disney como me recomendara um amigo, nem mesmo passeei muito pela cidade.
 

Cheguei no dia primeiro de Outubro. Me instalei em pequeno apartamento em uma maison universitária e aqui nestes 27 metros quadrados passei a maior parte do meu tempo. Lendo o jornal do Rio, falando com Mario Bag pelo Skype, trocando figurinhas com amigos no Facebook, preparando as aulas que ia dar na universidade, escrevendo meus artigos para o Diário, tentando terminar trabalhos acadêmicos intermináveis e, principalmente, lendo os livros do Simenon, exclusivamente os do Inspetor Maigret.
 

Sempre que pensava em uma longa temporada no exterior tinha medo da solidão dos finais de semana. Perguntava aos amigos que tinham vindo sozinhos: o que você fazia nos seus finais de semana? É. Porque durante a semana, bem ou mal a pessoa tem uma certa rotina a cumprir, mas os finais de semana... os finais de semana são terríveis para quem está solitário no estrangeiro. Jantar e almoçar sozinha no restaurante, fazer longos passeios sozinha pela cidade, ver as coisas que estão anunciadas na Pariscope sozinha... Tudo isto é meio melancólico, mesmo em Paris.
 

Felizmente, fui compensada pela maravilhosa experiência de dar aulas para um pequeno grupo de alunos franceses e latino-americanos da cátedra Simon Bolívar que ocupei como professora visitante, na Université Sorbonne Nouvelle - Paris 3, junto ao Institut des Hautes Etudes de l´Amérique Latine (IHEAL). Eles tinham (com a exceção de um único e excelente aluno de 46 anos) entre 22 e 24 anos, no máximo.
 

Meninos e meninas aplicados, educados e amáveis, com uma relação muito respeitosa com a professora brasileira que falava tão mal o francês. Gente boa e inteligente que se interessa pelo Brasil e que um dia vai produzir estudos importantes para aprofundar o conhecimento da realidade de nosso País na Europa.
 

A maior parte desses alunos é orientado pelo professor Olivier Compagnon, historiador e cientista político francês que vem dedicando seus estudos ao Brasil e promovendo o estreitamento dos laços do IHEAL com a comunidade acadêmica brasileira.
 

Nesta mesma direção vai o trabalho de três jovens historiadoras francesas: Anaïs Fléchet, Juliette Dumont e Silvia Capanema. É graças aos esforços delas que se constituiu aqui em Paris a Association pour la Recherche sur le Brésil en Europe (Arbre) que vêm promovendo uma série de palestras em espaço especialíssimo: o templo da Igreja Positivista.
 

Esse pequeno auditório onde a Arbre vem realizando suas reuniões e conferencias é uma versão em ponto menor da Igreja Positivista do Brasil, situada na rua Benjamin Constant, no Rio de Janeiro. A última dessas conferências a que assisti foi a de Jacques Leenhardt, professor da École, amigo querido, que discorreu com alto e raro brilho sobre Gilberto Freyre.
 

Passei o Natal na casa de Claudia Poncioni e Jean-Yves Mérian. Casal de intelectuais, cujo apartamento junta o calor típico da nossa acolhida à máxima sofisticação francesa em jantar que nos deixou, a mim, ao Chico e à Raquel, muito impressionados. Claudia, que acaba de defender sua tese de livre docência sobre o engenheiro francês Louis Vauthier, se integrou ao projeto coordenado por Márcia Abreu, da Unicamp e Jean-Yves Mollier, da Universidade de Versailles Saint-Quentin sobre a circulação de livros, homens e ideias entre o Brasil e a Europa do século XIX. Projeto grandioso que promete dar bons frutos e do qual tenho a honra de também fazer parte. A chegada de Márcia aqui em Paris e a companhia constante de nosso amigo querido, Luiz Carlos Villalta, tornou a minha vida bem mais animada.
 

Para coroar tudo isto, já no finalzinho da temporada, chegaram Clélia e Valmir. Só assim fui ao museu d´Orsay e pude me quedar deslumbrada diante dos quadros de Degas, Van Gogh e de Cézanne. Andarilhos que viveram em Paris tantos anos e conhecem bem a cidade, eles lograram me tirar de casa e me obrigam a fazer longos percursos a pé, eu que estava viciada em andar debaixo da terra indo a todos os lugares de metrô. Onde, aliás, invariavelmente me perdia a ponto de Luzia Simons - reencontro maravilhoso que tive aqui ainda em dezembro - ter me recomendado a leitura de "Zazi no metrô".
 

Enfim, é sempre deste jeito: quando a gente está se acostumando, quando começa a ficar bom, acaba. Sentirei saudades.

Tempo, tempo, tempo, tempo (5/2/11)

Envelhecer é algo muito estranho.

A pessoa não nota que envelheceu.

Ela não tem uma consciência permanente de que não é mais aquela pessoa de trinta anos atrás. Naturalmente que tem algumas questões de natureza física, mas se elas não se manifestam sob a forma de doenças, na sua mente, você continua o mesmo.

O espelho é revelador. É nele, a partir de um olhar mais cuidadoso, que se percebem as marcas do tempo. Mesmo assim, como a pessoa se olha todo o dia, não nota a gritante diferença entre as duas fisionomias. A de hoje e a de 30 anos atrás.

O que pega mesmo é o olhar dos outros. É a maneira como os jovens lhe tratam. Ou como se compadecem quando você leva um tombo na rua. Mario Bag me contou que uma vez caiu na rua e que o pior não foi cair, foi ouvir uma mocinha apelando: "ajudem o senhor, ajudem o senhor".

Quando você tem filho jovem a situação fica ainda mais esquisita. Principalmente, porque entre a geração que hoje está na casa dos cinqüenta e a que está na casa dos vinte, há muita coisa em comum.

Coisas que vão além de discos, livros e filmes. Uma atitude combativa, uma vontade de mudar o mundo, uma revolta contra a injustiça social, uma volta para a natureza e para as coisas simples. Até mesmo a maneira de se vestir e de se comportar é a mesma daquele tempo.

Daí que quem está do lado de cá, vê aquelas pessoas e quer logo se enturmar. Fala de maneira jovial, tipo: aí, galera. Tenta engrenar os papos que sabem que são os mesmos do seu tempo, parecer moderninho e avançado. Enfim, ser aceito pela galera, como no começo da vida.

Nenguim olha para você até com certa simpatia, mas a distancia é quilomêtrica. Não dá liga. O papo não avança e só você é quem fala. Eles se sentem tolhidos, intimidados, assumem uma atitude respeitosa e, ao mesmo tempo, desconfiada.

Continuam a não confiar em ninguém com mais de 30 anos.

Não é só questão cultural que, ao fim e ao cabo, o fato de você já ter 30 anos a mais que eles no couro faz a maior diferença. Como dizia aquele rock antigo: muito jovens para morrer e muito velhos para o rock-and-roll.

Estamos cheios de reservas com a política, os desesperançados e os cínicos. Perdemos aquela fé absoluta na amizade. Os amigos mudaram tanto. Também não nos manifestamos imediatamente contra a injustiça. Pensamos com calma, pesando cada aspecto da situação. Temos medo das consequências para o nosso emprego. E no amor, nem se fala, passou o tempo de fazer loucuras. Todo o mundo quer, como na música do Tim Maia, sossego.

Fazer alguém de 20 ter essa mesma visão da vida e os mesmos cuidados que você é impossível. Ainda bem.

Não deixa de dar uma certa vertigem ver os filhos se metendo em situações que você pode antecipar de cara: tremenda roubada. Se não for nada que ponha em risco a saúde e a segurança deles, é melhor deixar. Só assim eles também engrossam o couro.

Quando meu filho resolveu deixar o Rio de Janeiro para viver em Fortaleza, porque só aqui era feliz, opus forte resistência. Um ano ou dois depois, me convenci. De fato, em Fortaleza ele era muito mais feliz do que no Rio. O pai dele me ligou para reclamar: mas você vai deixar ele fazer essa loucura?

Eu lhe respondi: meu amigo, no nosso tempo, o pessoal saía de casa, mas não era para fazer faculdade em uma cidade mais tranqüila e perto da família não. Neguim ia fazer a travessia do São Francisco de barco; viajar pelos lugares mais distantes da América Latina de carona; pegar o trem da morte para a Bolívia; trabalhar no circo; criar abelha em Mauá...

Eram tempos mais radicais, antes da mortandade associada à AIDS e às drogas, tempo em que os jovens achavam que podiam tudo e que tudo arriscavam.

O amor livre e as viagens de ácido ficaram no passado. Quem vê hoje as cenas de Woodstock tem a sensação que aquilo foi algo que se passou em outro planeta, tão improvável seria a repetição daquela festa musical reunindo uma multidão de gente jovem, nua e doida.

O mundo se revelou um lugar bem perigoso para a juventude da minha geração.

Ainda contamos os nossos mortos que tombaram na guerra das drogas, da AIDS e contra a Ditadura.

Por isso, mesmo sem conseguir fazer parte da tribo, não se pode deixar de olhar com imenso carinho para essa turma dos 20 anos e seu elenco de sonhos e ousadias. É como aquela quadrinha do Mário Quintana (Das Utopias) que gosto de repetir: se as coisas são inatingíveis, ora/ não é motivo para não querê-las/ que tristes os caminhos se não fora/ a presença distante das estrelas.

Amigos de amigos em um tempo virtual (29/1/11)

Antes de viajar, alguns amigos me recomendaram seus amigos.

Gente com a qual eu certamente me daria muito bem.

Com uma só exceção e assim mesmo porque houve um contato antes via Facebook, encontrei um desses amigos recomendados. Felizmente foi ótimo.

Figura agradável, conversa boa e inteligente.

Não duvido que o mesmo pudesse acontecer às tantas pessoas bacanas que me recomendaram encontrar.

Mas tenho para mim que amizade é algo meio difícil de transferir.

Empatia, familiaridade, identidade cultural, histórias comuns, muitas coisas fazem nascer e se perpetuar a amizade.

Sim, porque há também um fenômeno curioso que é o reencontro de um velho amigo. Coisa que pode ou não ser bem sucedida. Às vezes, o amigo virou alguém que não tem mais nada a ver com você e esse encontro é um desastre.

Li uma vez um conto do Guy de Maupassant sobre um reencontro assim em que o protagonista atende ao convite de um velho amigo do tempo de escola para visitá-lo no interior. Além do aspecto físico do amigo reencontrado, que se tornara imensamente gordo, o que já o fazia outra pessoa, o medíocre ambiente familiar, típico de uma pequena burguesia interiorana que o cercava causou verdadeiro pavor ao herói da aventura.

Outro exemplo que gosto tem a ver com o meu aprendizado do Francês. Uma das coisas que fiz durante o tempo em que me preparava para vir foi gravar algumas coisas para ouvir durante as caminhas na Lagoa. A gravação preferida eram algumas histórias do Petit Nicolas. Este mesmo que tem feito sucesso no cinema. Criação do genial Goscinny, o mesmo criador de Asterix e de Lucky Luke.

Goscinny: este era mesmo "o cara".

Com todo o respeito pelo Urdezo, mas Asterix sem o roteiro do Goscinny ficou francamente banal. E a gente sente quando outra mão menos leve se mete na obra do artista também nos filmes. Inclusive neste do pequeno Nicolas. Ele vive ali algumas aventuras que nada tem a ver com as singelas e bem humoradas que estão nos muitos livros que Goscinny publicou junto com as ilustrações do Sempé.

Duas cenas do filme jamais seriam escritas pelo Goscinny. Aquela do bandido que os meninos decidem contratar (o mundo marginal não cabe na vidinha de classe média de Nicolas e seus pais) e o jantar em que a mãe de Nicolas bebe demais e dá vexame. Tem ainda a cena da poção mágica (referencia ao Asterix) e o comentário final do garoto quando lhe nasce uma irmãzinha em vez de um irmão. Nada a ver com Goscinny.

A história que puxou o Goscinny para dentre dessa crônica é uma em que o pai de Nicolas convida um amigo de infância para jantar com a família imaginando quantas lembranças felizes os dois não teriam do tempo de escola.

O amigo é um desastrado falastrão e que, ao longo da pequena narrativa, comete várias indiscrições sobre o mau aluno que fora o pai do Petit Nicolas. A história é banal mas é bem engendrada e cheia de delicadas sutilezas como são todas dessa série de livros infantis, antiga aqui na França e que só agora vim a conhecer.

Felizmente os amigos que tenho reencontrado via facebook só têm me dado alegrias. E também os novos que tenho feito pelo mesmo sistema. Uso a rede para fazer um social, digamos assim. Encontrar pessoas do tempo do colégio, da faculdade, ou de outros momentos da vida, fazer um comentário qualquer sobre a vida, reproduzir meus artigos, as fotos que fiz nas viagens e me distrair um pouco entre um trabalho e outro diante do computador.

Não quero ter um milhão de amigos como o Rei, porque sei que a gente não dá conta. Em geral, quando pedem minha amizade no facebook eu não recuso. Aceito, dou uma primeira olhada no mural da pessoa, vejo que amigos temos em comum e aguardo uns dias para ver como a coisa se desenvolve.

Se o que aquela pessoa posta nada tem a ver comigo, ou pouco tem a ver, se ela usa o facebook apenas para divulgar seu trabalho, ou se a gente não estabelece nenhuma conexão além do fato de estar na lista uma da outra, depois de um tempo, em corto. Espero que isto não cause tristeza aos cortados. Espero também que façam o mesmo comigo. Assim a coisa fica mais econômica.

Agora, tem gente nova que posta coisas tão interessantes, que é um verdadeiro prazer ver o que aquela pessoa incluiu no facebook. Mas confesso que meu prazer é bem maior quando reencontro alguém que não via há muito tempo ou que por circunstâncias da vida não tenho tempo de encontrar com mais freqüência e cuja conversa sempre me divertiu.

Enfim, de qualquer maneira, com mais de 450 amigos, eu acho que está de bom tamanho. Não chego ao extremo de dizer que já conheço muita gente e não quero conhecer mais. Até porque muitos dos amigos e parentes de minha lista figuram lá apenas na foto, sem quase aparecerem na conversa.

Pense num abestado... (22/1/11)

Mario Bag adora essa expressão. De vez em quando me manda alguma coisa engraçada e inclui a legenda "pense num abestado". Claro que sendo carioca da gema e essencialmente tijucano não cresceu falando "abestado". Mas afeiçoou-se tanto ao modo de falar nordestino que ficou indignado quando descobriu que a forma: "abestado" não constava do Aurélio. Aparecia "abestalhado" e outras variações. Mas o autêntico "abestado" que passei a vida inteira dizendo não estava lá. Isto faz tempo. Pode ser que nas novas edições tenham incluído.

No entanto, a outra parte da expressão: "pense num..." essa não era usada no tempo que eu vivia em Fortaleza. Até o final dos anos 1970, não me lembro de ninguém usando essa expressão tão sintética e, ao mesmo tempo, tão abrangente. Em sua essência ela quer dizer: "Pense na coisa mais extraordinária associada a essa idéia", pois tal situação, ou tal pessoa conseguiu bater aquele recorde.

No começo eu implicava com o "pense em..." que achava invenção, novidade da qual eu não tinha participado. Mas hoje vejo com simpatia. Não só por causa do Bag, mas também porque é uma coisa cearense, tipicamente cearense e que surgiu há menos de 30 anos.

Claro que para o meu filho de 22, isto é a pré-história, mas para mim, do tempo em que a gente dizia merendar, em vez de lanchar; mangar em vez de zombar; cruzeta em vez de cabide; gigolete em vez de arquinho... enfim, para nós que ainda não tínhamos sido globalizados, o fato de uma expressão nascer fora do circuito da televisão e do sul-maravilha, é um verdadeiro fenômeno de resistência cultural.

Quando eu era criança a gente chamava os amigos dizendo: "rambora, negrada". Hoje é considerado politicamente incorreto mas no meu tempo era apenas um chamado aos companheiros e o "negrada", é claro, incluía quem estava chamando.

Outra expressão que eu gosto é: "nem escuto a zoada da mutuca". Outro dia me ocorreu dizer só dizer de brincadeira, meio por folclore. Mas é uma expressão ótima. A gente diz quando uma pessoa fica nos provocando, falando coisas desagradáveis... enfim. Acho que é bom para ocasiões em que a gente não deve aceitar provocações e, aí, para não ouvir as tais provocações, cruza os braços e fica repetindo o mantra: "nem escuto a zoada da mutuca".

Mais manjada mas que gosto de contar aos amigos do Rio é o "não morreu galego não" usado para dispersar ajuntamentos de curiosos. É interessante pois, eu acho, tem a ver com a antiga configuração da sociedade cearense. Uma sociedade onde os galegos (estrangeiros brancos) eram poucos. Daí que fosse natural que muita gente acorresse quando se soubesse que morreu um "galego".

Uma vez vi, em Fortaleza, um desses programas policiais que passam na televisão, o repórter perguntar a um sujeito que tinha sido preso por vender maconha na Barra do Ceará. O repórter perguntou se era difícil praticar esse comércio naquele bairro e o rapaz respondeu com bastante simplicidade: "é não. É bem rasinho."

Bem rasinho. Quer dizer: bem facinho. Mas quer dizer também que não dá para o sujeito se afogar. É coisa que o sujeito faz brincando, pois não tem perigo nenhum. Ou, pelo menos, parecia não ter.

Foi nos programas policiais também, eu acho que pegou a expressão "botando boneco". Esta, ao que parece, saiu de moda mas, ela me veio à lembrança por conta desse interessante fenômeno que é a força das expressões surgidas no contexto de uma cultura marginal e ilegal.

Foi no ambiente do tráfico do Rio de Janeiro que surgiram e se fixaram o "tá limpo" ou o "sujou" para se referir à chegada da policia e, por extensão, de qualquer autoridade com potencial repressor.

Um amigo alemão achou muita graça quando lhe contei que quando a polícia chegava em alguns morros do Rio, os informantes do tráfico diziam que os "alemão" estavam na área. "Os alemão" era referencia aos alemães dos filmes americanos e do pavor que espalhavam nos momentos mais fortes da ação.

Essas coisas surgem assim, do nada. Da cabeça inteligente de algum menino que, se não fossem as circunstancias da vida, talvez, em vez de chefe do tráfico, tivesse ido liderar uma equipe de engenheiros, de jornalistas ou de atletas. Gente que ficou pelo meio do caminho e cujo legado anônimo pertence hoje à cultura popular.

Legado que merecia ser catalogado e preservado como o único patrimônio cultural produzido por mais de uma geração de jovens que foi perdida para o crime. Patrimônio de uma juventude que, se cultivada por melhor escola e por melhores condições de vida, poderia ter contribuído ainda mais para enriquecer a cultura e a língua brasileira.

O quintal dos outros (15/1/11)

Justiça social é bom é no quintal dos outros.

Tenho quase certeza que meu pai atribuía essa frase, de um pragmatismo terrível, ao bispo de Sobral, tema dos estudos de meu irmão mais velho, D. José Tupinambá da Frota.

Dita por um homem da igreja, que deveria, mais do que ninguém, querer ver a justiça social se difundindo por toda a sociedade, ganha um caráter ainda mais implacável. É a face institucional, dura e prática da igreja com seus negócios do mundo: suas terras, seus prédios e seus empregados (e outrora, ainda, seu escravos).

Lembrei da frase ao ver, aqui na França, meus colegas professores e funcionários públicos às voltas com as mesmas políticas neo-liberais que experimentamos em passado recente. A representação deles como um elenco de inúteis que nada querem além de gozar dos imensos privilégios com que o sistema aqui, historicamente, protege os trabalhadores vem se tornando um mote recorrente nas conversas e artigos de jornal.

O que me espantou foi ouvir mesmo de alguns desses colegas a repetição do discurso de que as causas dos males da França hoje são as excessivas despesas com o social. De que, ao invés de buscar na iniciativa privada as alternativas, todo o mundo quer se encostar em um emprego público. Irônico é que esses mesmos que gozam hoje dos privilégios do emprego público e da aposentadoria aos 65 anos queiram privar os que virão depois dos mesmos direitos.

"Conheço bem tuas promessas, outras ouvi iguais a essas e esse teu jeito de enganar conheço bem..." Podemos cantar, como no samba de Anísio Silva, eu e meus colegas brasileiros. Nós que vivemos os governos dos dois Fernandos, quando funcionários públicos e aposentados foram apresentados como vagabundos, verdadeiros vilões da economia. Nós que fomos o alvo preferido de todas as medidas que, tal como agora parecem estar sendo a política do governo na França, se voltaram para a redução de seus empregos, salários e aposentadorias. Política esta complementada pela gradativa redução dos serviços de assistência social e de saúde gratuita.

É estranho ver esse discurso e essa política se difundir aqui, justamente onde parecia não haver lugar para ela. Aqui, no berço onde foram gestadas e sedimentadas todas as mais gratas conquistas políticas e sociais que influíram sobre as outras nações do mundo.

Ouvindo a vocalização daquele mesmo velho discurso que frequentou as páginas de jornais brasileiros e os debates acadêmicos na década de 1990, tem-se a sensação que o diabólico Deus Mercado tendo encontrado a porteira fechada nos quintais onde antigamente, impulsionado pelo FMI, implantava seu cortejo de medidas infelicitantes, voltou-se para uma nova clientela.

Gente que está tão acostumada a ter serviços e comodidades que, para nós, são conquistas recentes - como o seguro desemprego - e que, por isso, não se dá conta do que representam. Como a maior parte dos países da América do Sul faz hoje serrada resistência àquelas receitas que os governantes, até recentemente, engoliam sem protestar, seus ideólogos se voltaram para outros quintais. Vendem seu peixe agora nos jornais e universidades daqui.

O desmonte está apenas começando. As estratégias políticas adotadas são as mesmas que foram adotadas entre nós. A primeira pode ser acompanhada pelo mundo através dos telejornais: o desgaste dos movimentos sociais através de longas greves que, privando a população de serviços, garantem seu apoio à visão negativa dos mesmos. Isto, aliado ao trabalho de cobri-los de ridículo e de opróbrio através da imprensa amiga para desmoralizá-los, vai anulando seu poder de pressão.

Não é o caso de comemorar a infelicidade que paira sobre os países ricos que hoje vivem uma situação dramática de desemprego. Mas, sem dúvida, para nós é reconfortante saber que desse médico e de seus remédios, pelo menos por enquanto, estamos livres. E, para os membros da classe média, professores universitários, funcionários públicos e aposentados que hoje, no Brasil, com seus empregos e aposentadorias estáveis, podem respirar aliviados mas que não abandonaram a fé no Deus Mercado, vai essa versão adaptada da frase do bispo de Sobral:

"Neo-liberalismo é bom é no quintal dos outros".

Se acaso acontecer uma mulher na Presidência (8/1/11)

Uma das peças mais bonitas que vi na internet durante a campanha presidencial foi o clip de Iberê Camargo com mulheres de todos os tipos dançando vestidas de branco. A voz que cantava era a de Aniceto do Império e o samba, de 1984, dizia: Se acaso acontecer uma mulher na presidência, é sapiência. A imagem é rica em simbolismo mas, apesar de ser fato inédito o Brasil ter eleito uma mulher para presidente, mais importante do que o gênero, a cor ou a religião da pessoa escolhida para chefiar a Nação é o projeto que tem para o país.

E este, Dilma Rousseff demonstrou, ao longo dos anos em que foi a principal ministra do presidente Lula, qual é.

É a retomada do desenvolvimento inspirada no pensamento econômico de Celso Furtado, a partir de uma perspectiva histórica e crítica dos efeitos nocivos da aplicação generalizada da tese do automatismo do livre mercado à nossa economia. A certeza de que esse modelo leva à persistência do atraso e que só a regulação das atividades econômicas pelo Estado pode suplantar o subdesenvolvimento. Furtado propunha que, tal como vem sendo feito no governo do Presidente Lula, o Estado estimulasse a agricultura familiar voltada para o consumo interno. Foi também a receita de Celso Furtado que esse mesmo governo adotou durante a crise de 2008. Corrigindo e orientando a economia por meio de tributação e de políticas cambial, de investimentos e de subsídios, ao mesmo tempo em que protegia os direitos do trabalhador, o Estado garantiu a dinâmica do mercado consumidor interno. E o consumo é, na visão de Celso Furtado, a base do crescimento de qualquer economia.

O regime implantado depois do golpe militar de 1964 incorporou algumas dessas teses, anulando, no entanto, sua dimensão popular e democrática. Pois Celso Furtado acreditava que, se o Estado devia ser o agente da transformação, cabia somente à sociedade civil, através de suas organizações e sindicatos, pressionar para que o crescimento econômico fosse acompanhado pela distribuição equilibrada da riqueza. O fim da ditadura aconteceu em um contexto mundial de fragilidade econômica em que as teses neoliberais se tornaram hegemônicas. Os movimentos sociais que tinham tomando impulso nos últimos anos do regime militar perderam o poder de pressão diante do esvaziamento do mercado de trabalho e de consumo patrocinado pelo poder então quase exclusivo do capital financeiro.

Foi durante o segundo mandato do presidente Lula que o Brasil entrou na rota do crescimento, do pleno emprego e da redução da pobreza sem que isto representasse, como em tentativas anteriores, ônus exclusivo para a classe média. Ao contrário, a necessidade de recuperar a administração pública, sucateada por quase vinte anos de política neoliberal, levou à multiplicação dos concursos. A expansão da produção criou tantos empregos para os profissionais mais qualificados que o problema passou a ser a falta de gente para preencher tantas vagas.

Dilma Rousseff teve participação decisiva nesse processo e, certamente, seguirá ampliando essas melhorias.

Seus desafios são outros.

É ter a habilidade que teve o seu antecessor de governar com aliados tão heterodoxos. Alguns com voraz apetite pelos cargos e dinheiros públicos a eles associados. É trabalho de fina engenharia política conseguir contê-los dentro dos limites da legalidade e, ao mesmo tempo, manter seu apoio no Parlamento. Apoio que é fundamental para a continuidade do projeto desenvolvimentista.

É desafio garantir o prestígio e o poder das nossas Forças Armadas sem permitir que elas sejam tentadas a se verem como as únicas fiadoras dos destinos da Nação.

Outro desafio de Dilma é enfrentar problema que lhe diz respeito de perto: o da justa punição aos torturadores e assassinos de presos políticos. Aliás, o cinismo, o tom desrespeitoso e desafiador das entrevistas do torturador da presidente eleita provam bem ao que leva a não punição desses criminosos. Enfim. São muitos os desafios. Como disse o Aniceto: haja sapiência.

O melhor presente (25/12/10)

Não tenho preconceito contra o Natal. Não acho uma festa chata. Ao contrário. Lá em casa o bom é o Natal, pois o Ano Novo, depois que todo o mundo casou, ficou tristíssimo.

No entanto, na minha infância a festa de ano-novo era a mais bonita. Talvez apenas porque tinha o ritual do brinde da meia-noite. Quando o relógio marcava meia-noite todo o mundo se abraçava e brindava com champanhe. Devia ser um Perterlongo ou até mesmo um Chuva de prata mas, naquele tempo, quem se importava? Era a única ocasião em que aquelas taças rasas que se usam para beber champanhe saíam do armário. Não sei quando meus pais começaram a adotar esse brinde da meia-noite como coisa obrigatória, mas ele continua a ser feito todos os anos. Até hoje, mesmo com toda a desanimação que têm marcado os últimos reveillons da família. Creio que foi em ocasião assim, em sua ótima casa lá na serra da Guaramiranga, que dei o último abraço em meu cunhado, compadre e amigo, Francisco Edmilson Brito.

O Natal continua sendo, depois do aniversário de d. Dolores – que em 2011 completa 97, se Deus quiser – a grande festa da família. É aí que, seja como for, todo o mundo aparece para receber o presente das mãos da mamãe. Como a família é hoje uma comunidade de bem mais de cem almas, houve uma terceirização do processo de compra dos presentes. Antigamente era a Clélia, que sempre foi a organizadora de tudo isto, quem ia pessoalmente comprar cada presente analisando a personalidade do presenteado para não desgostar ninguém. Com o crescimento exponencial da família, Super-Clélia, como a chama o Mario Bag, organizou um esquema de passar às filhas, noras e netas adultas o valor do presente que Mamãe entregará em mão na noite do dia 24 a todos os familiares. Presentes que devem ser comprados e religiosamente depositados debaixo da árvore de Natal para que D. Dolores o entregue pessoalmente ao felizardo.

Claro que esse sofisticado esquema implica que nem d. Dolores sabe qual é o presente que está dando, nem o presenteado, percebendo a situação, se sente tão presenteado. (Mesmo assim, deve-se dizer em seu louvor, que mamãe encena tudo muito bem) Mas o que fazer quando a família se transforma em uma enorme comunidade? Só um gênio da administração como Clélia para dar conta de tudo. Dar conta de erguer no mesmo lugar da sala, a mesma velha árvore de Natal com os mesmos enfeites do ano anterior; de montar a lapinha da nossa infância misturando elementos de tantas lapinhas que de mais de meio século foram se juntando ou tendo substituídas as peças quebradas por outras de tamanho diferente.

Só mesmo a Clélia para ir comprar uma centena de camisetas de boa malha de algodão nas lojas Girão, as mesmas que nos atendiam na Visconde do Rio Branco e hoje estão lá pelo centro no entorno da Praça José de Alencar. As famosas “malhas Clélia”, como as chama Mario Bag que todo o ano recebe uma. Compradas para a eventualidade de aparecer alguém que não foi lembrado ou que nunca aparece e naquele ano resolveu aparecer. Assim também ficam em seus armários alguns tantos presentes de criança para o mesmo tipo de situação.

Daí que neste Natal e nos próximos e em todos os seguintes o que eu desejo de presente e que desejo de presente a todas as pessoas que eu quero bem é que tenham alguém como Clélia em suas vidas se chegarem aos 80 ou aos 90 como minha mãe, ou mesmo aos 100 como ela promete chegar.

Alguém que faça da sua casa um ambiente cálido e cheio de vida, onde todos os domingos um bando de gente alegre, animada, falando alto se encontre em volta de você. Mesmo que você não escute muito bem e se sinta um pouco confusa com toda aquele barulho.

Eu desejo que você tenha aos 90 anos em sua vida, alguém que te obrigue a sair de casa como Clélia obriga a mamãe a sair. Alguém que insista, escolha sua roupa, penteie seu cabelo, passe na hora para lhe buscar, ajude você a sentar no carro, estacione pertinho para você descer, não escute suas reclamações pedindo para ir embora logo no começo da festa e tenha depois o prazer de ouvir você reconhecer o quanto foi bom ter ido.

Alguém que se ocupe tanto com você que ainda tenha a delicadeza de deixar você pensar que é você quem manda, que é você quem decide.

Então meus amigos, o que desejo a vocês, nos próximos natais que virão e nos tantos anos novos que vocês, se Deus quiserem verão, é que tenham a seu lado uma Clélia como minha mãe tem.

É o que eu desejo ardorosamente para mim também mas infelizmente, apesar das aparências em contrário, nasci dois anos depois e periga ela viver menos do que eu.

Uma corajosa batalha contra o HIV (4/12/10)

A AIDS foi uma tragédia que se abateu sobre a minha geração durante os anos 1980 e 1990. Se o drama vitimou celebridades como Cazuza e Sandra Bréa ele também entrou na vida de quase todos nós, através dos amigos que tombaram vítimas da doença.

Lembro de um colega, pessoa das mais simpáticas com a qual me dava muito bem. Não trabalhava na Casa Rui mas realizava um projeto por lá. Sempre que nos encontrávamos, fazíamos uma festa danada. Depois de meses sem vê-lo, encontrei com ele por acaso em um restaurante do centro. Saudei-o com a mesma alegria de sempre mas ele me tratou com uma frieza quase hostil. O que muito me desconcertou. Tempos depois soube de sua morte. Quando nos encontráramos ele já estava doente e, talvez, a consciência da morte inexorável o fizesse olhar as pessoas com outros olhos.

Olhos de um condenado revoltado com o seu destino.

Lembro de várias outras pessoas queridas, homossexuais ou não que foram desaparecendo, tornando meio amarga a vida antes tão alegre do Rio de Janeiro. Aquela vida desvairada da passagem das décadas de 1970 para 1980, onde o sexo era algo natural, corriqueiro, banal, fazia parte da vida e não significava quase nada, além de um momento que podia ser mais ou menos divertido.

O surgimento da AIDS marcou realmente o final do sonho para mais de uma geração. Gerações que romperam com o tabu da virgindade; cujas mulheres tiveram com a pílula garantia de uma vida sexual mais livre; gerações que aceitavam e conviviam bem com o homossexualismo. As notícias se repetiam e nos abalavam, principalmente porque a doença matou muita gente de talento.

Mas uma dessas mortes me marcou de maneira especial. Não só a morte mas a doença que vitimou uma amiga, quase irmã, a quem queria muito bem. O seu caso não foi como o de algumas das vítimas dos primeiros tempos que, pouco depois do diagnóstico, começavam a apresentar o quadro típico da doença e sucumbiam em alguns meses. Tendo descoberto que era soropositiva em 1986, minha amiga conviveu com o vírus durante 14 anos, morrendo em fevereiro de 2000.

Quando o coquetel surgiu, ela não quis usar e continuou com as terapias alternativas que vinham dando resultado. No final, não davam mais. E minha amiga não quis o coquetel pois isto implicava em assumir diante de pessoas que ia além do nosso pequeno grupo de amigos do tempo da faculdade - verdadeira família que se conserva unida até hoje - que era portadora do vírus HIV. Ir ao posto médico se inscrever e esperar na fila pela sua dose era arriscar ser vista pelos parentes que ignoraram sua condição. Ela não quis. Mas creio que também não quis pois estava cansada de conviver com aquela adaga erguida sobre a cabeça. Tantos anos vivendo com medo da morte, também cansam.

A doença era como uma sombra a obscurecer o cenário de uma vida para todos os efeitos igual a de todos nós. Festas, carnavais, viagens, trabalhos, tudo partilhamos durante aqueles anos todos em que ela viu nascer nossos filhos e a ele se dedicou como tia e madrinha. Durante anos ela teve uma vida quase normal. Casou, separou, teve namorados. Disciplinada como era, sempre teve o cuidado com o sexo seguro e a preservação da vida dos que a amaram.

Era uma menina valente, séria, muito trabalhadora e que não tinha nada do estereótipo das pessoas a que então se via como fadadas a contraírem a doença. Não era promíscua e vivera apenas algumas poucas paixões bem sofridas. Só que teve o azar de, naquele tempo em que isto era tão natural, fazer amor com o cara errado.

Era uma menina que tivera sempre uma vida difícil. A mãe se suicidara quando ela ainda estava na faculdade. O pai não tinha muitos recursos e ela trabalhara duro desde o começo. Talvez desde cedo, diante da fragilidade emocional da mãe, tenha compreendido que teria que enfrentar a vida sozinha. Aplicada, competente e disciplinada, a gente até brincava com o jeito meio de soldadinho que tinha, a firmeza com que nos repreendia, tudo aquilo que a tornava menos feminina, apesar da delicadeza do seu aspecto. Talvez por isso, sua auto-estima não fosse tão elevada e ela se tornasse presa fácil daquele tipo de sedutor. Um charmoso estrangeiro que consumia drogas por via intravenosa e, por causa disto, tinha contraído o vírus.

O dia 1º de Dezembro foi definido como o dia internacional de luta contra o HIV. Para mim foi um dia para lembrar dessa amiga querida, que era uma lutadora e que enfrentou todos os desafios que a vida lhe apresentou com muita garra. Tinha todos os elementos para vencer. Foi vencida por uma doença traiçoeira que matou a alegria da nossa geração.

O Inspetor Maigret (18/12/10)

“Todos os dias leio até me arderem os olhos o livro de Cesário Verde”.

É um verso do Fernando Pessoa que uma amiga do tempo do colégio das Dorotéias, Filomena Pinheiro gostava de declamar. Aliás, pensando bem, a Mena, como a chamávamos, era uma menina muito culta e madura para a nossa idade. Creio que tínhamos entre 14 e 15 anos quando nos encontramos. Ela sabia vários poemas do Pessoa e, acompanhada nas cordas pelo irmão, Zé Pinheiro, cantava as músicas do Milton Nascimento para a gente. Lembro bem do clima de despedida quando o pai dela foi transferido pela Shell de Fortaleza de volta para a terra deles, Belém do Pará. A gente lá no terraço da nossa casa da Piedade cantando “sei que nada será como antes...” A gente, vírgula, a Mena e o Zé, afinadíssimos, cantando e eu desafinando. Naquele tempo, sem consciência. Precisei de quase 40 anos para ouvir um amigo dizer que eu era daquelas pessoas desafinadas que cantavam crente que estavam cantando bem.

Mas a lembrança desse tempo feliz e desses amigos queridos me ocorreu por causa do verso do Pessoa sobre Cesário Verde, do qual tenho em casa uma pequena antologia. Não me lembro se a li. Minha biblioteca de poesia é modesta pois como já disse, sou mais de prosa do que de verso e a poesia a que me afeiçôo ou pela qual me encanto é aquela que, de vez em quando, me cai diante dos olhos ou me chega aos ouvidos como os versos de Fernando Pessoa que a Mena declamava.

E esse verso do Pessoa me veio à mente por conta de leitura bem diversa da poesia. É que eu, todos os dias leio até me arderem os olhos as aventuras do Inspetor Maigret, de George Simenon.

Claro que já tinha lido antes muitas delas em tradução para o português. Retomei durante o curso que fiz na Aliança Francesa antes de vir para Paris. Era para melhorar o francês. Já em Paris, quase todos os dias passo em frente a um sebo com grandes caixas de livros na calçada a 1 euro. Comecei comprado alguns avulsos até me decidir por comprar a coleção completa.

Nem sempre as tramas não são muito bem elaboradas. O que as torna sempre interessantes é clima que o autor dá à narrativa. Os personagens são densos, bem construídos e, dentre eles, o mais apaixonante é o Inspetor Maigret. Uma série que vi na TV5 o apresenta vivido por um ator, Bruno Crémer, que ficou para sempre na minha imaginação com a cara do Inspetor Maigret.

Mas é a personalidade do inspetor, seus sentimentos, suas irritações e seus complexos que o tornam tão próximo do leitor. E também sua vida de classe média com o dinheiro contado; o apartamento modesto; a aposentadoria na pequena casa de campo comprada com as economias reunidas a custo. Mesmo em seu emprego na polícia Maigret, apesar de célebre, ocupa cargo intermediário e tem que sempre apresentar seus relatórios a um superior, juiz ou procurador. A relação com os investigadores subordinados a que chama “mes enfants”, mesmo quando são quase da sua idade e as situações ambíguas com as mulheres e sua relação com Mme Maigret.

Madame Maigret, aliás, merece um estudo à parte. Pois se é um tanto amélia, até um tanto simplória, sempre esperando o marido com o almoço pronto, mesmo quando ele não vem, é muito confiante e pouco se importa com a possibilidade de alguma escapadela do marido. Até agora não aconteceu nenhuma. Nem acho que vá acontecer. No entanto, a descrição pelo narrador detalhada de aspectos físicos de alguns personagens femininos, acentuando-se o fato de serem ou não desejáveis, trai o desejo do próprio Maigret. Que, no entanto, se conserva fiel a Mme Maigret. São muitas as situações em que a testemunha, em ambiente de intimidade e em trajes que deixam à mostra partes do corpo, se insinua para o inspetor. Ele registra o impacto mas não cede. E, em geral, termina a investigação em algum programa prosaico junto com Mme Maigret, indo ao cinema ou viajando para um pequeno hotel no interior.

Um aspecto interessante de Mme Maigret é o fato de que, em várias ocasiões, ela é confundida com uma criada do marido. Seu físico não é descrito – sabe-se que é um pouco gordinha - apenas os seus vestidos e a modéstia de sua aparência faz com que, mesmo bem vestida não ouse entrar nas lojas mais sofisticadas de Paris.

Enfim. Maigret segue aqui me fazendo companhia e é realmente ótimo para melhorar o conhecimento do francês coloquial. São muito os livros e não creio que lerei todos até voltar. Mas já imagino que quando esse dia chegar, a imensa saudade que vou sentir do meu inspetor Maigret.

Só podia ser... (11/12/10)

Há dez dias a internet não funciona.
Quando ligo para o serviço responsável passo de um atendente a outro ou fico horas esperando na linha. No começo, diziam que o problema era no seu computador que tem esta ou aquela configuração errada.

Depois, quando ficou evidente que outros computadores que usam o mesmo serviço sofrem com o mesmo problema é que finalmente confessam: estamos fazendo uma modificação na rede. Assim mesmo ainda garantem que na tarde do mesmo dia tudo se resolverá e depois disto já se passaram três dias.

Só podia ser... no Brasil? Não. Não é o Brasil. Também não foi no Brasil que um banco demorou um mês para abrir uma simples conta corrente. Banco este que só tem um caixa para atender ao serviço de toda uma agência. Banco onde um cliente pode passar a tarde esperando para ser atendido.

Não que tudo isto não haja no Brasil. Claro que há e muito. Nem mesmo estou traumatizada com essa experiencia. Na verdade, escrevo isto para relembrar uma antiga irritação que tenho contra os que dizem “só podia ser no Brasil” contra qualquer coisa errada que acontece em nosso país. Ou os que idealizam “ah, se fosse lá fora” isto não aconteceria.

Creio que nessa visão idealizada há um pouco de vontade de utopia. Vontade de imaginar que existe um mundo melhor “lá fora”, onde as coisas funcionam com a regularidade de um relógio, onde as pessoas são todas muito bem educadas, onde não tem cocô de cachorro na rua... Este mundo ideal, tão diferente do Brasil, é talvez necessário.

Lembrei, a propósito disto, de um conto da Patrícia Highsmith. O protagonista é um sujeito como aquele personagem do George Clooney que vivia de aeroporto para aeroporto, contratado por empresas para demitir seus funcionários. O sujeito está no aeroporto esperando o avião que atrasara para ir a Frankfurt tratar de negócios cabeludos envolvendo muito dinheiro e nos quais ele era um craque. De repente, perto dele senta uma mocinha de uns vinte anos que é a imagem perfeita de uma antiga namorada.

Na verdade, a garota é idêntica à única mulher pela qual o sujeito tinha sido realmente apaixonado em toda a sua vida. Ela tinha desistido dele por conta, justamente, da sua obsessão em ganhar dinheiro, da sua falta de tempo para ela. Dinheiro que ele queria ganhar justamente para poder casar com ela.

Na época, ele sentiu mas foi ao longo dos anos que aquele amor e aquela mulher foram ganhando proporções. Ele seguira sua vida, casara, tivera filhos mas a vida árida, onde o trabalho vinha em primeiro lugar dera uma dimensão ainda maior ao amor frustrado do passado, a tudo o que poderia ter sido.

Por uma série de circunstâncias narrativas que não cabe aqui relatar, o sujeito descobre que a garota é filha da antiga namorada e que esta tinha se transformada numa mulher de meia-idade, meio gorda, muito perua e extremamente conservadora. Ele a vê de longe dando uma bronca na filha, com sua voz desagradável e aquela visão tem um impacto definitivo sobre ele.

Quando li que o sujeito se matava no final achei que a autora tinha exagerado. Mas, ao mesmo tempo, entendo o significado daquela morte naquele contexto.
A vida toda idealizando o que poderia ter sido, ou que havia uma vida melhor que ele poderia ter vivido. Essa vida que estaria sendo vivida em outro lugar, por alguém, junto da mulher ideal, ele perdera o direito a ela por ter optado por uma vida árida, onde o amor não tinha lugar. No entanto, imaginar que havia uma existência assim, funcionava como uma espécie de mundo paralelo para onde ele talvez um dia pudesse ir. Constatar que aquela mulher idealizada se transformara em algo que nada mais tinha a ver com o passado representou a destruição instantânea daquela vida idealizada que ele poderia ter tido.

Enfim: era tudo a mesma porcaria e não valia a pena continuar.

Creio que essa projeção utópica do personagem é a mesma dos brasileiros que imaginam que seriam muito mais felizes se na Europa ou nos EUA vivessem. Tenho encontrado pelo caminho muitos desses desterrados. Pessoas que foram buscar “lá fora” o que imaginavam que jamais teriam no seu país e só encontraram a realidade. Piorada pelo fato de serem estrangeiros.

Não se trata de dizer que o Brasil é uma grande pátria de um grande povo, ou coisa que o valha. O Brasil é um país com muitos problemas, muitas desigualdades e onde, até pouco tempo, não havia muitas oportunidades. No entanto, para o cidadão médio de classe média é ainda o melhor lugar para construir uma carreira.

Com a vantagem de que todo o mundo fala português.

Encontro com Luzia Simons (27/11/10)

Lembro que fiquei muito impressionada quando me disseram que, naquela música do Belchior onde diz “afina os ouvidos e os olhos, Luzia; que eu venho de longe, Oropa, França e Bahia”, a Luzia mencionada era a Lúcia Mesquita.

Isto foi há milênios mas acho que a Luzia já não morava mais no Ceará.

Eu morava com meus pais e irmãos no simpático sobradinho da Nogueira Acioli onde passamos pouco tempo entre a mudança da Piedade para a Rua Barão de Aracati. O Pessoal do Ceará acontecia no “sul-maravilha” e o trio de ouro que representava esse sucesso era composto por Belchior, Ednardo e Fagner. Então, alguém que era mencionada em musica de Belchior, cujo único disco então lançado girava sem parar na minha vitrola, era também uma personalidade.

Fora um pouco antes, ainda na Piedade que eu conhecera a Luzia. Eu e Clélia ainda estudávamos na Dorotéias, vivíamos ainda sob a vigilância cuidadosa dos pais e a Luzia já andava para cima e para baixo pelas ruas da cidade com Sérgio Pinheiro, Potinho e meu irmão, Roberto. O Roberto ficara amigo do Cláudio Pereira no Banco do Nordeste e este lhe abrira as portas da vida boêmia e cultural da cidade enturmando-o com um bando de gente modernérrima da qual a Luzia fazia parte.

E a Luzia foi a primeira menina, entre as da minha geração, a adotar um comportamento avançado. Era pequena, branca, magra e dentuça, usava roupas diferentes, despojadas e queria ser artista plástica. Dos três amigos, namorou primeiro o Sérgio e depois o Roberto, com quem manteve uma longa e tumultuada relação bem no espírito daqueles tempos confusos. Viveu um tempo no Rio e andou por São Paulo, freqüentando aqueles espaços que gente que nem ela então freqüentava. Creio que foi nessa temporada paulistana de grande dureza que ela ficou amiga da Lucinha Tunderbill que tocava com Rita Lee.

A gente nunca foi muito próxima e, quando foi a minha vez de sair por aí, ela já tinha partido. Engraçado que quando nos encontramos há poucos dias e falamos daqueles tempos em que tínhamos freqüentado os mesmos espaços, nas mesmas companhias só que com a diferença de um ou dois anos, descobrimos que as duas não bebiam. Ela e eu passamos noites nos bares só conversando miolo-de-pote com os bêbados, ouvindo canções e cantadas, para apenas podermos partilhar um pouco daquela liberdade que só aos homens era então dada experimentar.

Para viver uma vida que ia um pouco além da que víamos ser vivida pelas mulheres um pouquinho mais velhas que nós, também inteligentes, também modernas, mas já tendo que encarar a realidade de tomar conta de filhos. No meio da madrugada algumas, muito irritadas, vinham ao bar buscar os maridos boêmios que, seguindo a tradição machista cearense, não estavam nem aí para os problemas domésticos.

Depois que Luzia partiu, perdemos o contato e, cada uma seguindo carreira diferente, pouco sabíamos uma da outra. Eu sabia vagamente que ela era uma artista plástica muito bem sucedida na Europa. Mas, como gosto de dizer a um outro amigo artista plástico a quem quero muito bem, Ângelo Venosa, parei de comprar os fascículos da minha coleção de Gênios de Pintura no volume dos Impressionistas e pouco sei, com raras exceções (Chagall, Munch, Escher, Matisse, Miró, algum acoisa do Picasso), do que veio depois. Enfim, só acompanho o que acontece nas artes plásticas hoje por razões afetivas.

Agora eu e Luzia nos reencontramos por obra e graça do facebook onde partilhamos essa rotina virtual tão divertida. E foi através do mundo virtual que descobri a grande artista que Luzia é. Seus trabalhos se espalham em várias galerias da Europa. Seu longo currículo inclui exposições e prêmios prestigiosos. Sua vida confortável, entre a casa em Stuttgard e o amplo ateliê em Berlim é bancada pela venda de seus quadros que hoje conquistam o público brasileiro, através de uma conceituada galeria de São Paulo

É uma obra que casa as técnicas e linguagens modernas com a expressão da mais pura, sutil e delicada beleza. Durante o nosso jantar, em Paris, há poucos dias, Luzia me deu dois catálogos de suas exposições. Um com seus trabalhos mais recentes: fantásticas tulipas e outro mais antigo sobre viagem e memória. Ambos lindos, ambos revelando uma artista cujo olhar privilegiado se constituiu da soma de experiências, doces e amargas da vida e que transformar tudo isto em pura arte. Tal como sugerira Belchior, Luzia Mesquita afinou os olhos e os ouvidos entre Oropa, França e Bahia e se fez artista como Luzia Simons.

Valeu, Saroldi (20/11/10)

Esta semana morreu o Saroldi.

Um amigo do qual eu me orgulhava e gostava de apresentar aos outros amigos pois o Saroldi sempre fazia bonito.

Luiz Carlos Saroldi era um homem do rádio, muito conhecido no Rio de Janeiro onde durante anos apresentou um programa chamado “As dez mais da sua vida”.

Eu o conheci no começo dos anos 1990 em uma das vezes que fui dar uma entrevistas na Rádio Nacional a um outro radialista que gostava de me convidar: Humberto Reis. Sempre que tinha uma data histórica, lá ia eu para a Rádio Nacional falar ou falava mesmo pelo telefone. Como até hoje faço quando me liga minha amiga Fátima Bonfim. Adoro falar no rádio.

Figura elegante, alto, magro e com uma bela voz, sem aquela empostação exagerada de alguns radialistas, o Saroldi cativava pela delicadeza e pela dignidade mas também por conta de um certo charme malandro, muito carioca com alguma coisa da antiga Zona Norte, que caracterizava o seu humor. Ao mesmo tempo, toda a sua presença respirava sofisticação e cultura.

Ele me convidou pouco tempo depois para dar uma entrevista no programa dele que tinha passado a ser apresentado na rádio MEC, seu último espaço no rádio brasileiro. Foi um programa tão legal. Adorei relembrar as músicas da minha vida e contar as histórias associadas a elas.

E o programa envolvia um trabalho de pesquisa danado. Eu quis incluir logo no começo da relação das músicas uma antíquissima que dizia “amei Angélica, mulher anêmica, de cores pálidas, de gestos tímidos...”. É que era uma música que fez muito sucesso lá me casa na minha infância. Aliás, o disco todo que acho que era do Jararaca e Ratinho. Só musica engraçada. E eu quis incluir para mostrar um pouco desse gosto pelo humor que eu sempre tive e que tinha a ver com o ambiente familiar.

Depois vinham algumas como o “churrasco de mãe”, do Teixeirinha, que era muito ouvido pela Maria Farias e aquela que dizia “e a fonte a cantar: chuá, chuá” que tocava muito no rádio e eu adoro até hoje. Eu quis também incluir a “Canção do Expedicionário”. Mas eu não queria o hino, aquela coisa marcial, queria-a do jeito que o meu pai cantava que era como uma modinha. Achei até que o papai tinha inventado aquilo pois no Rio ninguém conhecia. Mas uma vez na casa do Estrigas, o Nirez cantou para mim confirmando que existia mesmo aquela versão.

Depois, incluí o primeiro disco do Gilberto Gil, de 1968 que foi também o primeiro disco que comprei. Eu gostava especialmente de uma música que diz: “na terra onde o mar não bate, não bate o meu coração...” Alguma coisa do Tropicália, do Milton Nascimento e do Pessoal do Ceará. Quase tudo o Saroldi achou só não achou “além do cansaço”, do Petrúcio e do Brandão que, creio só foi gravada uma vez pelo Fagner. Entrou “Doroty Lamour”, é claro. O engraçado é que toda a minha memória musical afetiva terminava nos anos 1970.

Gostávamos da conversa um do outro e nos consultávamos sobre os assuntos em que achávamos que o outro era especialista. E, desde que conheço o Saroldi, só o vi envolvido em projetos bacanas. Além da reedição do livro sobre história da rádio nacional; uma peça musical que escreveu sobre Ary Barroso, estrelada pelo Tim Rescala e que fez temporada de sucesso no CCBB e um lindo espetáculo de música e poesia que ele apresentou uma vez no Paço Imperial em torno do Bispo do Rosário.

Saroldi fazia parte daquela cota obrigatória de amigos que você chama quando só pode chamar pouca gente. Numa reunião dessas, lá em casa, ele reencontrou Wanderley Guilherme dos Santos que tinha conhecido na mocidade em Vila Isabel.

Meus colegas e amigos da Casa Rui, se tornaram amigos dele também e sempre que podíamos, o convidamos para iluminar com suas luzes os nossos seminários. Memorável o trabalho que apresentou uma vez sobre a história do rádio brasileiro, aliando a narrativa em sua bela voz a documentos sonoros de seus preciosos arquivos.

Ficou doente há alguns anos e enfrentou a doença com a mesma elegância que enfrentava tudo o mais na vida. Parecia ter vencido e, depois disto, eu o vi muitas vezes andando de manhã na Lagoa, fazendo seus exercícios. Nos saudávamos sempre com alegria mas, de fato, nos víamos menos. De vez em quando trocávamos um e-mail.

É quando parte um amigo especial assim como o Saroldi que a gente lamenta não ter conversado mais, aproveitado mais o que ele sabia, fruído mais da sua companhia. Mas, todas a lembrança que tenho de nossa amizade é só de coisa boa e sou-lhe eternamente grata por isto.

Primeiro emprego (6/11/10)

Assim que comecei a publicar essa coluna a que dou de vez em quando, ou quase sempre um toque memorialista, me ligou o dr. Renato Aragão, com aquela voz descansada, sotaque forte e arrastado, dizendo: “Isabel, você tem que um dia escrever uma artigo sobre a SUDEC, contar como a política ambiental protagonizada pelo Estado aqui no Ceará, começou lá”.

Tive que pensar um pouco pois, na verdade, eu nunca tinha me dado conta disto antes. Em matéria de política ambiental quem é craque lá em casa é a Clélia, a santa das causas impossíveis. Mas eu queria falar da SUDEC porque lá foi o primeiro emprego sério que tive e é assim que aquele lugar está gravado na minha memória afetiva.
O dr. Renato Aragão – e, passados tantos anos – não me acostumei a chamá-lo de outra maneira, era o diretor do Departamento de Recursos Naturais da SUDEC naquele ano de 1975 em que fui trabalhar lá.

Eu tinha 20 anos e tinha passado rapidamente por uma experiência de trabalho que poderia ter me levado por outros caminhos não fosse a interferência e o zelo dos meus pais.

Dorian Sampaio, amigo de meu irmão Lustosa, mantinha uma página no Correio do Ceará, se não me engano. Página inteira, ele escrevia algum texto editorial mas precisava preencher o resto com pequenas notas e foi para isto que fui contratada. No entanto, para os meus pais aquele não era um ambiente muito sadio. Por acaso, Dorian Sampaio vivia uma crise no casamento e o pivô da crise se chamava Isabel, que viria a ser sua segunda mulher. Esse rumor acendeu o alerta vermelho e logo o próprio Dorian teve que, atendendo a pedidos familiares, me demitir. Foi experiência curta e que muito me agradou pois pouca coisa se compara ao prazer de ver o próprio texto publicado.

Para compensar conseguiram para mim uma vaga de secretária na SUDEC, cujo presidente era Eduardo Bezerra, irmão mais velho do arquiteto Ricardo e do fotógrafo Nelson, ambos amigos que fiz em outro ambiente boêmio que eu então frequentava, o dos bares da Beira-mar. O cargo não tinha o mesmo glamour, nem o lugar a mesma animação do escritório do Dorian. O prédio da SUDEC, ali na Sólon Pinheiro, dando fundos para a Barão de Aratanha (rua onde morou minha avó paterna, Vitalina, junto com tia Dagmar) novo, muito claro, com sua iluminação natural e com suas divisórias de Eucatex, era mesmo meio acético.

O trabalho também não prometia ser do mais criativos. Secretária. Tinha que atender telefone e redigir ofícios, portarias e outras coisas mais.

No entanto, vejo hoje, foi uma experiência fundamental na minha vida. O dr. Renato talvez não saiba mas devo a ele o aprendizado de algo que vem me sendo muito útil: a escrita de documentos protocolares. Esse formato neutro que, no entanto, exige muita economia e muito tino de quem redige. Pois, às vezes, é preciso mandar algum recado nas entrelinhas aparentemente neutras. E na vida de todo funcionário, esses momentos são muitos. Confesso que experimento até um certo prazer em redigir ofícios e comunicados oficiais. Foi com paciência e boa vontade com a minha preguiça e meu tédio que meu primeiro chefe me ensinou a redigi-los.

Outra coisa boa foi ter encontrado um ambiente de trabalho tão bacana. Me considero moça de sorte por ter trabalhado com o Dr. Renato Aragão e sua equipe de geógrafos. Gente boa, gente inteligente, gente honesta. Ambiente de trabalho fraternal, com um chefe bem humorado. Não tanto como o seu xará, o humorista, como ele também de Sobral, mas com uma bonomia, levemente irônica de pessoa sábia. De homem inteligente e esperto que sabe contornar os obstáculos, que sabe negociar e fazer política com elegância e discrição.

Ali, eu vi Cleonice, Gleuba e Robertinho debruçados sobre os mapas fotográficos do Ceará. Só hoje entendo o caráter precursor daqueles estudos que definiam as zonas ambientais do meu Estado. Anos depois, seria minha irmã Clélia, envolvida com o tema que participaria, ao lado do Dr. Renato de conselhos e comissões encarregadas de analisar impacto ambiental.

E foi ali na SUDEC, de fato, que tudo começou. Para mim, no mundo do trabalho e para a questão ambiental no Ceará, sob a liderança do meu amigo, o Dr. Renato Aragão.

Mensagem do Pereira via Facebook (30/10/10)

Esta semana sonhei com o Cláudio Pereira.

Sonho esquisito pois ele estava vivo e andava. Sem cadeira de rodas.
Falávamos sobre vida e morte.

Eu lhe dizia que ele estava vivo e ele dizia que estava morto e me lembrava sobre as condições em que tinha morrido. Eu lembrava de nosso último encontro no clube dos arquitetos ali perto da Antonio Sales e ele completava: então, ali eu estava de cadeira de rodas e agora estou de pé.

De fato, no sonho era o Pereira da juventude que vi, pela primeira vez há muito tempo, eu creio, na Prainha, no primeiro concurso Garota Cultural, de bermuda branca, sandálias e camisa colorida. Magro, alto para os nossos padrões e de pernas finas. Creio que ele mesmo dizia alguma coisa sobre ser mal feito de corpo. Mas não cansava de exaltar a beleza dos próprios olhos.

O Pereira do sonho era um Pereira parecido com aquele de uma foto que acho que está comigo no Rio, muito jovem, de óculos e trajando um manteau diante da Torre Eiffel. Segundo me contou uma vez, ele vivera em Paris como mordomo de uma senhora que acreditava que ele deveria pertencer a uma família riquíssima no Brasil pois só pessoas muito ricas, e ainda por cima loiras e de olhos claros, a seu ver, conseguiriam a proeza de viver na Europa.

Terá sido verdade? Com o Pereira nunca se sabia.

Daí minha incredulidade de acreditar em sua morte mesmo quando afirmava em meu sonho que tinha morrido.

Pois, para o Pereira a realidade era aquela que queríamos que fosse.

É por isso que hoje quando vejo fotos de algo que acontece em Fortaleza tenho sempre a esperança de ver o Pereira em algum lugar. Pois ele estava em tudo, ia a tudo que acontecia na cidade, casamento, missa de sétimo dia, enterro... Uma vez me contou que um desse personagens pitorescos que vão a todos os enterros reclamou sua ausência em um, pois sempre se encontravam. Mas o Pereira não tinha predileção por cerimônias fúnebres ele gostava era de estar onde as coisas aconteciam, onde estavam as pessoas que ele conhecia ou que ia conhecer.

Gostava tanto de foto e de ver sua foto no jornal que, certa vez, alguém publicou uma nota em uma coluna social criticando essa mania do Pereira de pedir nota e foto em coluna. Eu li e como lhe queria bem, mesmo achando mesmo um exagero seu gosto pela foto no jornal, perguntei se não ia responder. Ele disse que já tinha respondido. Tinha escrito para o colunista agradecendo a observação utilíssima e dizendo que estava procurando se emendar. Aproveitava para enviar, junto com uma garrafa de vinho, uma foto, pedindo para que fosse publicada na mesma coluna em que fora criticado.

Quando comecei a usar o Facebook, um dos primeiros convites que mandei foi para o Pereira. A gente se gostava muito mas se falava pouco e se via menos ainda. Mesmo nas férias em que eu ia a Fortaleza, acabava por encontrá-lo apenas uma vez já perto de ir embora. Felizmente foi assim que o vi e me despedi dele em janeiro do ano passado. No melhor estilo, em um bar cheio de gente amiga.

Eu achava, como acho, o facebook uma forma de comunicação extraordinária. Através dele me reaproximei de Fátima Sipahi, amiga do tempo das Dorotéias. Tive a grata surpresa de descobri-la tal como deveria ser, com gostos e pensamentos tão próximos dos meus que só isto já deu ao facebook uma importância grande. No facebook, reencontrei Sérgio Pinheiro e partilhamos algumas lembranças daqueles tempo felizes em torno do nosso querido amigo Pereira. E me aproximei de Delberg Ponce de Leon, arquiteto amigo de Fausto Nilo que conheço de priscas eras mas com o qual nunca tinha conversado tanto e trocando tanta informação interessante. Foi o Delberg que, no facebook me deu notícias da visita de meu filho, Chico, ao escritório do Fausto para uma entrevista a ser apresentada na Rádio Universitária. E para mim era um encontro de um enorme simbolismo esse do meu filho com o Fausto que, junto com a Silvia, foi parceiro de aventura nos meus primeiros anos no Rio. Foi bom saber pelo Delberg da boa impressão que causou o meu rapaz.

Por isso eu queria tanto ter tido o Pereira como amigo de facebook. Assim eu poderia receber mensagens para “Bela Isa” dando conta das novidades de Fortaleza através do olhar mais bem humorado possível. Vai ver que esse sonho é um sinal e o Pereira finalmente decidiu entrar no facebook para me dar notícias que com ele foram sempre do outro mundo.

Como os nossos pais (23/10/10)

Durante a Ditadura Militar o sonho de liberdade foi alimentado por muitas correntes de pensamento e de desejo. De um lado, a repressão do regime contra as liberdades políticas e individuais revoltava e estimulava a vontade de se lutar contra ela, de outro lado, a própria transformação que o mundo vivia impulsionado e impulsionando os momentos feministas, gay e negro, tornava o desejo de liberdade um ideal bem mais abrangente e inclusivo.

Esses movimentos mundiais foram tão importantes para mudar o Brasil quanto o foi o fim da ditadura. A revolução nos costumes que marcou esse tempo teve início ainda nos anos sessenta, a partir de atitudes de ousadia aparentemente fúteis mas que tinham grande significado simbólico como o escândalo causado pela mini-saia de Mary Quant; ou pela magreza andrógina da modelo Twigg ou ainda pelos sussurros eróticos de Jane Birkin na gravação de “Je t´aime”. A filosofia “paz e amor” dos hippies mesclava elementos de religiões orientais com uma negação dos valores da sociedade de consumo. Com ela recuperou-se o culto de uma vida simples e comunitário. Foram coisas importantes para a mudança de atitude de homens e mulheres com relação ao próprio corpo e à própria sexualidade como os movimento feminista e gay e o advento da pílula anticoncepcional.

Quem foi jovem entre os anos 1950 e 1970 sabe a distância que aqueles comportamentos tinham da educação moral e cristã que quase todos recebíamos em casa. A pesada tradição católica da família brasileira foi duramente atingida por essas mudanças. A disputa nos lares entre pais e filhos foi dura e penosa e implicou em muito sofrimento de parte a parte. Pois nossos pais, como na canção de Belchior, vinham de uma época em que filho e filha tinham uma educação bem diferente. Eles ainda achavam que o destino da mulher era o casamento e que seu trabalho, quando lhe era permitido trabalhar, era trabalho complementar ao do marido. Eles vinham de um época em que a virgindade era um valor essencial e definidor da validade de uma matrimonio. Eles vinham de uma época em que não se falava absolutamente em sexo e em que homossexualismo era uma doença ou uma aberração.

Quem foi jovem naquele tempo teve que brigar muito para fazer valer o direito de decidir sobre o próprio destino e sobre a forma como queria viver. Quem foi jovem naquele tempo teve que romper com os pais e sair de casa para realizar seu direito o seu desejo de liberdade. Foi uma luta sofrida e, passados tantos anos, já maduros, com a vida feita, saradas as feridas, constatamos nós e nossos velhos pais que relações construídas a partir do respeito à liberdade de escolha, do diálogo e da amizade são relações muito mais verdadeiras e felizes. O saldo positivo dessas conquistas foi que hoje as relações entre pais e filhos são mais francas e implicam em menos sofrimento e menos culpa de parte a parte.

A grande mudança em termos de comportamento sexual foi provocada pela AIDS. A doença fatal que começou a se disseminar no Brasil nos anos 1980 interrompeu esse ciclo de liberdade e trouxe com ela a volta do preconceito contra os homossexuais e a redução da própria possibilidade da liberdade sexual tal como foi praticada nas duas décadas anteriores. Mesmo tendo arrefecido com os tratamentos que a tornaram uma doença controlada, a devastação causada pela AIDS nos anos 1980 e 1990 deixou um saldo negativo: o forte estímulo para o fundamentalismo religioso voltasse com força total tanto entre católicos quanto entre evangélicos.

O amor livre foi substituído pelo culto à virgindade antes do casamento tal como antes dos anos 1960. O preconceito contra os homossexuais que nunca se reduziu realmente no seio das famílias, ganhou força. Nesse contexto de retrocesso a luta pelo direito ao aborto, reivindicação dos movimentos feministas de todos os tempos, passou a sofrer pesada campanha dos setores mais conservadores da sociedade. Os que foram jovens nos anos 1970, têm hoje a idade que seus pais tinham naquele tempo em que uma pessoa entre os 40 e 50 anos era velha. Alguns desses até esqueceram tudo que viveram e sonharam em outros tempos para se transformarem em velhos conservadores.

Mas, para os que ainda continuam a crer nos valores de sua juventude, vale à pena, em nome de um tempo mais feliz por nossos filhos e netos, trazer sempre à lembrança aquela sensação angustiante em que vivíamos entre o medo que tínhamos de sermos punidos pelos nossos pais e a culpa cristã que nos assolava por termos pecado. Lutemos sempre para que aqueles tempos sombrios não voltem a predominar matando a alegria e a espontaneidade da juventude.

Um tempo sem grandeza (16/10/10)

Foi no governo de Fernando Collor que o discurso neoliberal começou a se traduzir em políticas para o Brasil. Daquele ponto de vista só há uma receita para o País progredir: corte das despesas públicas, com a redução do aparelho de Estado e total abertura do mercado aos capitais estrangeiros. A primeira medida implicou na demissão de muitos funcionários públicos. A segunda, previa a venda das empresas estatais, que só foi plenamente implementada no governo de outro Fernando, o Henrique, propiciava que essas mesmas estatais, quase todas lidando com recursos estratégicos, fossem compradas por estrangeiros.

O irônico é que os chamados “marajás”, funcionários com salários estratosféricos, principal alvo de Collor, permaneceram intocáveis pois estavam protegidos pelas leis trabalhistas. Quem foi sacrificada mesmo foi a raia miúda do funcionalismo. Os salários do que ficaram foram congelados, enquanto a inflação continuava avançando. Não foi feita uma avaliação precisa de onde havia excesso e onde havia falta de funcionários. Boa parte dos demitidos foi substituída por terceirizados, sem que isto significasse qualquer melhora no serviço ou mesmo uma redução considerável das despesas do Estado. Em alguns setores estratégicos como o elétrico, muitos acidentes foram provocados pela falta de pessoal com experiência e treinamento adequado.

No governo de Fernando Henrique Cardoso, foi adotado foi o Programa de Demissão Voluntária. Funcionava assim: o governo dava ao funcionário que quisesse se demitir um determinado valor que, teoricamente, deveria servir para ele abrir seu próprio negócio. Para os que acreditaram na propaganda oficial de que lá fora existia um mercado próspero só esperando por seu espírito empreendedor foi um logro e tanto. Quem formulava aquela política sabia bem que o mercado de consumo estava paralisado pois o que havia mesmo era um universo enorme de desempregados sem qualquer perspectiva de colocação e uma classe média que se submetia ao baixo salário para conservar o emprego.
“Foi um tempo sem grandeza”, como diz o tango. Um tempo em que alguns, os que estavam no mercado financeiro, fizeram a festa. A palavra de ordem era: que vença o melhor e o Estado que fique de fora para permitir que as forças do mercados sigam seu curso livremente. Ora, enquanto aqui agiam as forças do mercado internacional destronando facilmente os produtos nacionais, lá, nos EUA, na Europa, eles continuavam a proteger a sua produção industrial e a agrícola.

À alegria pela eleição de Lula, em 2002, sucedeu um certo desalento. Parecia que ele também tinha se convertido ao credo neoliberal. No entanto, hoje a gente vê como aquela estratégia foi crucial para a estabilidade política e econômica e para a preservação da imagem do Brasil como uma nação racional que não se movimenta aos trancos, ao sabor das mudanças de comando.

O segundo mandato do Presidente Lula, com Dilma Rousseff liderando o ministério, marcou o início da implantação de seu verdadeiro projeto. Um projeto em que a prioridade é a redução da desigualdade. O que de fato foi conseguido através da extensão da bolsa-família a um número nunca visto de famílias e do real aumento do salário mínimo. A ampliação dos quadros do funcionalismo através de concursos públicos vem melhorando a qualidade dos serviços. A criação de universidade públicas e escolas técnicas pelo Brasil afora abre novas perspectivas para a juventude.

Às vésperas do segundo turno é preciso que os brasileiros estejam alerta para a escolha que vão fazer. Além das promessas do candidato José Serra, é preciso ler o que dizem os editoriais e as colunas dos articulistas dos grandes jornais e revistas que dão apoio declarado ou não à sua candidatura. Eles continuam a pregar a redução do Estado; o corte dos gastos em programas sociais e a defender as privatizações. Da mesma forma influem sobre os destinos dessa eleição divulgando o que é bom para Serra e o que é ruim para Dilma eles influirão no seu governo garantindo que adote a receita neoliberal que tanto sofrimento nos trouxe.

Segundo esta mesma receita é preciso deter o crescimento da indústria para que a economia não fique aquecida demais e a inflação volte. Dizem que: quanto mais fábrica, mais emprego, mais dinheiro circulando, mais gente comprando, mais falta de coisas para comprar e... mais inflação.

A receita do governo Lula e de Dilma Rousseff é o contrário desta. Sua proposta que colocou o Brasil onde hoje está é criar cada vez mais fábricas, gerar cada vez mais emprego, aumentando a produção e o consumo e fazendo com que o dinheiro circule e que se movimente toda a cadeia econômica. Momentos inflacionários acontecerão, mas o Brasil não pode parar por causa deles.

Os brasileiros não podem mais adiar o amanhã. O amanhã é hoje e a vitória de Dilma Rousseff nesta eleição é a única garantia de que esse amanhã não volte a ser ontem.

Blaise Cendrars: o autor-personagem (9/10/10)

Blaise Cendrars é um desses nomes que qualquer pessoa que tenha alguma informação sobre o Movimento Modernista já ouviu falar. Se essa informação é um pouco mais consistente ela envolve o conhecimento sobre suas viagens ao Brasil e sua visita, com Mário de Andrade e outros intelectuais paulistas, às cidades histórias mineiras. Mas no que não diz respeito ao Brasil, a trajetória de Cendrars é bem pouco conhecida entre nós e, muitos anos depois de sua passagem por nossas terras, poucos de seus livros foram aqui publicados. Daí o impacto para o leitor de primeira viagem de “Loteamento do céu”, lançado no Brasil no ano passado em edição da Cia das Letras. No posfácio dessa edição Claude Leroy explica o quanto o livro frustara aos leitores europeus, principalmente no concernia à sua segunda parte.

Frustração ainda maior para os que, como eu, tinham sido capturados nas primeiras páginas pelo relato do encontro de Blaise, em Paris, com o filho Rémy, piloto de guerra e a curiosa namoradora deste. Ali, o escritor teria prometido ao filho escrever a história de São José de Cupertino, um santo levitador, patrono da aviação. Cendrars, um conhecido mitômano, cujas narrativas misturam fatos autobiográficos com fantasia – para desespero dos estudiosos de sua obra – faz seguir a cena desse encontro em Paris. pelo impressionante relato do que foi a fuga de toda uma população pelas estradas da França invadida pelos alemães. E neste contexto que ele tem seu último encontro com o filho Rémy, que logo depois morreria em combate. Cendrars fala do profundo isolamento em que se manteve durante os anos da ocupação alemã. Escondido em algum lugar do interior da França, sem vontade de ver ou encontrar ninguém. Ali é que teria se dedicado às pesquisas sobre os santos levitadores, as quais apresenta de forma exaustiva em longa sucessão de páginas.

Esse trecho enfadonho e desconcertante, no entanto, talvez fosse a derradeira homenagem do pai ao filho morto. Seu caráter místico também não é de todo estranho à obra do autor, onde sempre esteve presente um certo fascínio por tudo que é fantasia, milagre e delírio. A narrativa é vertiginosa, cheia de percalços, recheada de imagens absurdas, montruosas, oníricas. Os parágrafos são golfadas de palavras e imagens cujo único ponto de ligação é a mente alucinada de seu criador.

Tal como na parte seguinte do livro (A Torre Eiffel Sideral), quando, olhando as estrelas em uma estrada solitária do interior de São Paulo, embarca em um delírio que o leva de volta às trincheiras da Primeira Guerra; lembrança que se associa com a da escrita de seu primeiro livro e de seu trabalho na Rússia, em 1905, com um joalheiro; daí por caminhos tortuosos, desembarca na África, linkada pela lembrança da gravura de um livro que vira na primeira infância. O fluxo narrativo e reflexivo é tão intenso e acelerado que não permite ao leitor nenhuma distração.

Marcado pela tragédia das duas Grandes Guerras, tendo perdido o braço direito na Primeira e o filho, na Segunda, Cendrars é um escritor que amalgama suas vida e obra em um mesmo elemento de forma a fazer com que uma complete a outra. Seu misticismo que seria a saída para o profundo desencanto do mundo que resultara de sua amarga experiência seria, no entanto, neutralizado pelo imenso cinismo. Cinismo que é um traço de personalidade e já se manifesta naquela cena de juventude, bem antes da Guerra, quando puxara o freio do trem em que viajava pela Rússia só para saber o que aconteceria. Cinismo que também está presente, quando, na maturidade, hóspede do paulista quatrocentão e arruinado Oswaldo Pradoso, divide com indiferença e, talvez até mesmo, com prazer, a cachaça que lhe oferece o capataz mau-caráter da fazenda. Cinismo que, enfim, certamente facilitou muito a sua vida no Brasil.

Cendrars é um escritor extraordinário de cuja imaginação brotam situações, seres e paisagens de uma ousadia que jamais foi alcançada pelos seus epígonos brasileiros. O clima de magia e pesadelo associado à atmosfera tropical que emana de sua obra só seria tentado entre nós bem mais tarde pelo Cinema Novo.

Para nunca esquecer... (2/10/10)

Você não se lembra?

Do que foram os anos de política neoliberal no Brasil? Aquele período sombrio que teve início no governo Collor, sofreu breve interrupção no governo Itamar Franco e voltou com força total nos dois governos de Fernando Henrique Cardoso? Você viu como a classe média ficou empobrecida por conta daquela política?

Lembra de quantos colegas competentes foram demitidos ou convencidos a se demitir do serviço público na ilusão de que o “mercado” os acolheria, e só encontraram pobreza e abandono?

Dos professores das universidades públicas que, em virtude dos salários praticamente congelados, preferiram se aposentar e buscar emprego nas universidades privadas? De como foram contratados professores em caráter precário ganhando até 500 reais por mês nas universidades públicas, esvaziando com isto as reivindicações dos professores de carreira? De como caíram monumentos históricos por falta de pessoal especializado em restauração e conservação que nunca foram contratados naqueles anos infelizes?

De como ficaram sucateadas as repartições públicas, em que tudo faltava, não só pessoal como o material básico de limpeza? Do exército de terceirizados que, recebendo salários miseráveis, veio ocupar o lugar de seus colegas na administração dessas mesmas repartições e só fizeram a fortuna dos empresários desse ramo? Das filas enormes em frente aos guichês do INSS por falta de pessoal para o atendimento?

Das tantas vezes em que pegou um táxi e o motorista era um engenheiro ou economista de uma estatal que tinha sido vítima do “enxugamento” da máquina pública? Das centenas de fábricas fechadas por conta de uma política econômica que renegou a produção em nome do capital especulativo?

Da miséria em que vivia o povo do Nordeste sem o mínimo do necessário para sobreviver e que hoje vive em casas de alvenaria com luz elétrica, geladeira e televisão? Das tantas meninas prostituídas pelas condições miseráveis de suas famílias? Dos índices de mortalidade infantil que então tínhamos? Dos tantos jovens que optaram pelo crime porque não tinham qualquer perspectiva de inserção no mercado de trabalho por conta de uma política econômica que considerava isto apenas um efeito perverso de um modelo que elevava o PIB sem levar reconhecer a profunda desigualdade social?

É muito importante que você se lembre que aquele Brasil da desesperança e do pessimismo só foi superado no segundo governo de Luís Inácio Lula da Silva. Só foi superado quando assumiu as rédeas do governo uma mulher identificada com os ideais do desenvolvimentismo, tal como pensado por Celso Furtado e pelo que havia de melhor no pensamento político, econômico e científico que estava em plena florescência no Brasil antes do Golpe Militar de 1964.
Aquele Brasil de um povo humilhado e sem expectativas do segundo governo de Fernando Henrique Cardoso só foi superado quando Dilma Roussef assumiu a Casa Civil. Só foi realmente superado quando o governo Lula finalmente levou adiante um projeto de real redistribuição da riqueza; de elevação gradativa do salário mínimo; de fortalecimento das instituições públicas; de valorização dos professores; de eficiência da máquina pública a partir da criação de um quadro de funcionários concursados; de enriquecimento das empresas estatais que são patrimônio de todos os brasileiros.

É um quadro de melhora na qualidade de vida que atingiu a todos e que só infelicita aos preconceituosos que colocam acima da felicidade e do bem-estar do povo de seu país os modismos de uma elite fútil e inconsciente e o discurso do falso moralismo dos que pretendem inviabilizar a era de progresso e desenvolvimento que iniciamos.

É preciso lembrar sempre que foi a partir do momento em que Dilma Roussef assumiu o papel de protagonista do governo Lula que o Brasil entrou nessa nova era. Esta mulher inteligente, forte e corajosa que a oposição tenta desqualificar apresentando hora como tutelada ora como autoritária tem um projeto para o nosso país. Foi ela que impulsionou o governo Lula no caminho certo. A possibilidade do abandono desse projeto com a eleição de um candidato da oposição, só pode despertar em quem viveu aqueles anos desencantados, as mais tristes lembranças. Não deixe o sonho acabar. Vote no melhor para todo o povo brasileiro e que é, certamente, o melhor para o Brasil.