D. Dolores e o bando de Lampião (13/3/10)

Há muitos anos ouço, minha mãe, Dolores Lustosa, contar com detalhes a história da invasão de Cazajeiras pelo bando de Lampião. Não que o próprio Lampião lá tenha estado, quem teria comandado esse ataque teria sido Sabino Gomes, um de seus cabras. Quando não tinha em vista alguma ação, Virgulino usava dividir o bando entre os homens que mais confiava e Sabino era de sua inteira confiança. Na entrevista que Lampião deu em Juazeiro, declarou que Sabino e seu irmão Antonio Ferreira era seus substitutos naturais. Ambos, aliás, se tornaram tenentes pelo mesmo ato de pantomina com que o Padre Cícero fez de Virgulino, Capitão. Minha mãe me contava que o ataque ocorrera a 28 de setembro de 1928 e que lembrava da data porque foi o dia em que a mãe dela dera à luz aos gêmeos. Sua irmã Sinhá, tinha levado os dois meninos para batizar na igreja do Colégio Diocesano, que ficava no Alto do Cabelão, um bairro que hoje tem o nome de Belo Horizonte.

Acontece que, recentemente, nas pesquisas que fiz para um pequeno estudo sobre Lampião, achei muitas referencias ao ataque à cidade de Sousa, também na Paraíba e nada sobre Cajazeiras. Alguns detalhes do ataque a Sousa, aliás, coincidiam com detalhes da narrativa de mamãe. A possível data da morte de Sabino também era anterior a setembro de 1928. Como uma constante na bibliografia sobre o cangaço é a descrição do verdadeiro pânico que tomava conta da população das pequenas cidades do interior a qualquer ameaça de invasão, me ocorreu pensar que talvez, minha mãe tivesse ficado tão impressionada com o relato do ataque a Sousa que imaginou que o mesmo tivesse sido contra Cajazeiras. Até que, finalmente achei referência ao ataque àquela cidade só que com a data de 1926. Liguei para a mamãe e perguntei novamente a data, ela disse: 28 de setembro de 1928, mas, emendou: ou teria sido 1926?

Foi em 1926 e quase tudo que mamãe contou está também contado no livro de Ivan Bichara, Carcará. Achei referencias ao livro na internet e o comprei em um sebo virtual. Conheci o ex-governador da Paraíba na casa de meu saudoso amigo Plínio Doyle, numa daquelas reuniões tão simpáticas que passaram à história com o nome de Sabadoyle. Ele, hoje já falecido, era de 1918 e minha mãe, que é de 1914, passaram infância e adolescência em Cajazeiras. Bichara lembrava de mamãe, cuja extraordinária beleza devia impressionar os rapazes daquela cidade. Ele me ofereceu um de seus livros, trocamos algumas palavras cordiais em outros encontros do Sabadoyle mas não sabia, até porque então não tinha interesse no assunto, que escrevera sobre o ataque de Sabino Gomes a Cajazeiras.

Segundo o relato de D. Dolores, apesar de ter corrido o boato de que os cangaceiros iam atacar a cidade, ninguém acreditava, porque Cajazeiras era grande, depois de Campina Grande, era a maior cidade da Paraíba. Quando a invasão começou, todo o mundo ficou apavorado e foi se trancar em casa. Mas, os que sabiam que a invasão ia acontecer estavam esperando e reagiram de arma na mão, pondo em fuga os cangaceiros. Estes deixaram a cidade atirando e, no caminho, mataram um alfaiate que, por curiosidade, metera a cabeça na janela para olhar.

Carcará, o livro de Ivan Bichara, é obra de ficção mas cita muitos nomes de personalidades da cidade que tiveram atuação efetiva no combate. Como minha mãe que tinha então 13 anos, Ivan, aos nove, ficou em casa deitado debaixo da cama com outros meninos. O que conta em seu livro certamente junta memória e história pois seu pai e outros de seus familiares figuram ali como personagens. Mas o elemento importante que une as duas narrativas é o orgulho pela corajosa reação do povo de Cajazeiras. Ao contrário dos tantos relatos em que, a um simples bilhete de Lampião ou de um de seus asseclas, as cidades imediatamente se submetiam, Cajazeiras se organizou para a reação armada. Prefeito, juiz, bispo, padre, delegado, comerciantes e a gente simples do povo se prepararam para reagir e reagiram, honrando a tradição de valentia da Paraíba.

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