Uma das primeiras músicas que ouvi, na idade em que a gente começa a prestar atenção nas coisas, foi a Canção dos Expedicionários. Meu pai gostava dela e cantava-a com uma melodia diversa da do hino que só vim a conhecer muitos anos depois, com grande estranhamento. Era um tipo de modinha cujas notas se repetiam de forma harmoniosa. Lembro até hoje de alguns versos:
Você sabe de onde eu venho? / venho do morro, do engenho,/ do pampa/ do seringal,/ da boa terra do coco,/ da choupana onde um é pouco,/ dois é bom,/ três é demais. Depois vinha outro verso que também remetia a imagens fixadas pela poesia e pela música popular: Deixei lá trás meu terreiro,/ meu limão, meu limoeiro,/ meu pé de jacarandá,/ minha casa pequenina,/ lá no alto da colina/ onde canta o sabiá.
A música falava ainda das montanhas alterosas e dos verdes mares bravios de minha terra natal. O poeta, Guilherme de Almeida, escolhera fazer para os nossos pracinhas uma bricolage de todas as imagens que a música, a poesia e a literatura brasileiras tinham constituído ao longo dos tempos para representar o Brasil, tanto enquanto unidade quanto em sua diversidade. Produzira uma delicada colcha de retalhos que deveria aquecer as noites assustadoras de nossos soldados que iam lutar em defesa dos ideais da democracia na distante e fria Europa.
Sempre associei a idéia de Brasil, a idéia de pátria, a essa poética simples que tem no Hino à Bandeira o melhor exemplar oficial. Porque o Hino à Bandeira que a gente cantava no colégio, com poesia de Olavo Bilac e música do compositor popular maestro Francisco Braga, tem uma forma tão singela, tão saltada e alegre, cheia de imagens fáceis de fixar que me parece o mais bonito de todos. Era, talvez por isso, o preferido de Luís Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança. Para mim, dentre a poética patriótica, o Hino à Bandeira só perde mesmo para O Navio Negreiro, de Castro Alves.
Pode ser que hoje muita gente considere isto patriotada mas essa foi a minha formação e creio que a de muita gente de minha idade. Crescemos ouvindo o “ama com fé e orgulho a terra em que nascestes/ criança, nunca verás país algum como este”. A pátria que víamos mesmo, com tanta pobreza e miséria não correspondia a essa imagem tão dourada. Na época de rebeldia da adolescência esse sentimento se transmudou em revolta contra as desigualdades sociais, em vontade de mudar a ordem das coisas e fazer um Brasil mais justo e melhor.
Creio que um sentimento foi herdeiro do outro e que as mensagens de amor à pátria se transformaram em confiança de que o Brasil, com seus imensos potenciais poderia ser um país melhor para os seus filhos se fosse conduzido por uma política mais justa. Mas creio que o fator principal dessa educação em que se valorizava o país – mesmo que num tom excessivamente ufanista e baseado apenas nas riquezas naturais – foi o fortalecimento do sentimento de amor-próprio de cada um dos brasileiros. A consciência de pertencimento a uma comunidade ligada por uma língua, por uma história e por uma cultura comum. É uma comunidade imaginada mas seu poder simbólico é imenso e não deve ser desprezado.
O amor à pátria aquece o coração de quem está distante, na lembrança da terra com palmeira onde canta o sabiá ou da casinha pequenina lá do pé da serra. Não é diferente do que sentem os americanos, os franceses, os alemães, os italianos mas não pode ser estímulo a sentimentos bélicos nem à xenofobia, pois aí é que se converte em arma do fascismo. Sentimentos que, aliás, nunca foram característicos do povo brasileiro. Povo que tem como marca maior essa capacidade de acolher e aceitar o outro, de fazer com que, já na segunda geração, os filhos dos imigrantes italianos, alemães, árabes, espanhóis e japoneses sejam apenas brasileiros. A semana da Pátria é boa para reforçar esse sentido de pertencimento ao Brasil. É o nosso país. O país em que viveram nossos pais e avós e em que viverão nossos filhos e netos. É nosso patrimônio histórico, político, econômico, cultural e social.
A ele pertencemos e ele nos pertence. Vamos nos comprometer em torná-lo cada vez melhor para todos os brasileiros.
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