Durante a segunda metade do século XIX, um caricaturista dominou a imprensa ilustrada brasileira: Angelo Agostini. Nascido na Itália, em Vercelle, uma vila do Piemonte, a 8 de abril de 1843, Agostini foi educado em Paris e chegou com sua família ao Brasil, provavelmente em 1859. Estabelecendo-se em São Paulo estreou na imprensa daquela província em 1864, no Diabo Coxo. Entre 1866 e 1867 editou a revista Cabrião, mudando-se naquele ano para o Rio de Janeiro.
Na Corte, Agostini, atuaria em várias publicações. Colabora ainda em 1867 com a Arlequim e, no ano seguinte, já está em Vida Fluminense. Durante quatro anos, de 1869 a 1875, será o principal artista de O Mosquito. Em 1875 cria sua própria publicação: a Revista Ilustrada. Tendo durado de 1876 a 1898, a Revista Ilustrada foi o mais longevo e influente impresso do gênero de seu tempo. O último jornal que Agostini editou foi Dom Quixote mas ele colaborou também com publicações importantes como a Gazeta de Notícias, O Malho e teve atuação destacada na célebre publicação infantil, O Tico-tico. Ângelo Agostini faleceu no Rio de Janeiro, a 23 de janeiro de 1910.
Ao longo de sua longa carreira Agostini produziu imagens dos mais variados aspectos de nossa história e sua obra é fonte privilegiada de informação para quem estuda o Brasil do Segundo Reinado e do início da República. A Guerra do Paraguai, por exemplo, pode ser acompanhada através das verdadeiras reportagens gráficas que Agostini produziu. Seu testemunho se torna ainda mais interessante por nos dar uma idéia do real sentimento da população sobre a forma violenta como o governo imperial conduziu o recrutamento dos soldados, quando os “voluntários” eram praticamente pegados a laço.
Durante a década de 1870, o grande tema da imprensa foi a chamada Questão dos Bispos: o imbroglio envolvendo D. Vital, D. Macedo, a Maçonaria e D. Pedro II, que quase provocou a separação da Igreja do Estado ainda no Império. Angelo Agostini aproveita o episódio para dar vazão ao seu entranhado anticlericalismo com imagens contundentes contra os membros da Igreja Católica, inclusive o Papa Pio IX e os jesuítas. Assestaria suas armas preferencialmente contra o jornal que então a era o porta voz da Igreja no Rio de Janeiro: O Apóstolo.
Mas o aspecto mais importante da obra de Angelo Agostini foi sua contribuição para a causa abolicionista. Contribuição que seria reconhecida, depois do 13 de maio de 1888, até mesmo por Joaquim Nabuco que pediu ao caricaturista que se naturalizasse brasileiro pois já o era de coração. Como ressalta o cearense Herman Lima, em sua clássica obra, História da Caricatura no Brasil:
"Foi longo, na verdade, e sem esmorecimentos, o seu clamor de liberdade e é bem fácil de calcular a repercussão que teria na massa de leitores esse ininterrupto combate às misérias da senzala, com o registro gráfico de todos os crimes contra o negro, os trucidamentos por açoites, os suicídios por desespero, a exploração desumana do trabalho servil, a insensibilidade acomodatícia dos políticos cegos e surdos às vozes da humanidade dos que pediam a cessação daquela vergonha."
Precursor das histórias em quadrinhos, tendo publicado as Aventuras de Nhô Quin, ainda quando estava na Vida Fluminense, Agostini formou mais de uma geração de outros caricaturistas no seu estilo onde predominavam as formas arredondadas, o jogo de luz e sombra produzido a partir do uso do lápis gorduroso sobre a pedra litográfica. Ao mesmo tempo, as ilustrações que publicava na Revista Ilustrada funcionavam como verdadeiros substitutos da fotografia que ainda não freqüentava as páginas dos jornais. Tornando familiares rostos e atitudes de políticos e de gente famosa, a Revista possibilitava aos menos cultos acompanhar os fatos apenas através das imagens.
Tudo isto contribui para dar ao caricaturista Angelo Agostini, cujo centenário de morte se celebra este ano, um lugar entre as maiores personalidades da história da imprensa brasileira.
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