Ademar Casé (25/9/10)

Ainda não vi o filme sobre o Ademar Casé que tive o prazer de conhecer e entrevistar. Tomara que tenham captado o espírito discreto desse pernambucano inteligente que, na simplicidade de seus inventos, muito contribuiu para dar à vida cultural brasileira a cara que ela tem hoje.

No dia 14 de fevereiro de 1932, às 20 horas, uma sirene apitava no pequeno estúdio da PRC-5, a Rádio Philips, anunciando a estréia do Programa Casé. A dinâmica do programa procurava fugir à lentidão tradicional da programação do jovem rádio brasileiro. Evitar os buracos entre as músicas, copiar, enfim, o estilo dos programas da BBC, de Londres, e da NBC, de Nova York, que Ademar Casé conseguia captar através de seu pequeno ondas curtas modelo 514.

Casé descobrira o rádio quando, junto com dois outros amigos, também empregados do comércio no centro do Rio, passou a ir todas as tardes à rua Mem de Sá para ouvir um precaríssimo rádio de galena. O pernambucano de Caruaru deslumbrou-se com a magia da coisa. Ficou, durante muitos dias, namorando um rádio na vitrine da Casa Lucas, na Av. Passos, até ter coragem e dinheiro para comprar um. Pagou em 10 prestações e, em casa, convidou os amigos para conhecer a maravilha. O instinto de bom comerciante fez dele um bem-sucedido vendedor de rádio. Mas foi devido unicamente ao seu talento que descobriu as infinitas possibilidades do invento.

O programa de estréia já inovava pela maior agilidade. Com quatro horas de duração, estava dividido em duas partes: de 8 às 10 era da música popular, e de 10 à meia-noite pertencia aos eruditos. Mas a música popular já se impunha. Era na primeira parte do programa que o telefone não parava de tocar. Pois entre os que cantavam na estréia havia nomes como Francisco Alves, Mário Reis e Noel Rosa...

Tempos precários em que, de vez em quando, era preciso improvisar um locutor. Numa das vezes em que o primeiro locutor oficial do programa, José Carvalho, faltou, Casé teve que implorar a um rapaz esquerdista que tinha um programa de 15 minutos antes do seu para apresentar. Meio recalcitrante, sem querer fazer os anúncios, que já eram a marca do programa, o rapaz acabou topando. O nome dele era Carlos Lacerda.
Tempos de dureza em que, de vez em quando, Casé ameaçava acabar com o programa, por absoluta falta de recursos. E tinha que desenvolver mil estratégias para conquistar patrocinadores. E estes eram os mais variados. Iam desde laxantes, cujos anúncios tinham que ser disfarçados através de esquetes muito bem bolados, pois sua propaganda era proibida.

Tempos lendários em que era possível pescar um Noel Rosa de detrás de um piano, onde adormecera perdendo a hora do programa. Tempos em que um Ademar Casé, bem casado e muito encabulado, com medo dos comentários maldosos, não podia recusar uma carona, em noite de chuva, à sua mais célebre contratada, Carmem Miranda. Tempos em que gente como Henrique Pongetti, Orestes Barbosa e Luís Peixoto somavam seus talentos para anunciar produtos banais e em que um Orestes Barbosa, anti-lusitano furioso, botava para correr do estúdio o célebre cantos de fados Manuel Monteiro.

E o estúdio? Ficava ali, nos fundos da loja da Philips, na Rua Sacadura Cabral, nº 146, em meio a uma espécie de depósito de aparelhos. Um espaço exíguo, com um único microfone no meio, em torno do qual se amontoavam os músicos, os cantores e o apresentador, num tremendo empurra-empurra. Que foi ainda mais agravado quando a polícia de Getúlio, durante a Revolução Constitucionalista de 32, mandou um censor para impedir qualquer propaganda pró-São Paulo. No meio dos improvisos de Noel Rosa, Marília Batista, Almirante e João de Barro, para o quadro de “De babado sim, de babado não”, patrocinado pela loja de louças O Dragão da Rua Larga, o censor metia o orelhão para ouvir se não passava nada de subversivo.

Usina de criatividade da era do rádio, Ademar Casé lançou aqui, os romances em capítulos. Títulos clássicos da literatura, subdivididos em capítulos diários para poderem caber no esquema ágil do rádio. O sucesso foi tamanho que o elenco, capitaneado por Alziro Zarur não resistiu à proposta melhor de um concorrente e mudou prá lá, levando a idéia do Casé. Para cobrir o buraco, Casé bolou um programa em que eram dramatizados os grandes crimes, aqueles que mais haviam estarrecido a opinião pública. Sucesso total.

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