Cláudio Pereira (15/5/10)


Desconcertante. Creio que esta é a melhor palavra para definir Cláudio Pereira. Nada nele era previsível. A farra constante em que vivia fazia prever um sujeito avesso às coisas de família e, no entanto, não havia ninguém mais família do que ele. A paralisia não foi impedimento para levar a vida de festas que levou e nem mesmo para a conquista do amor definitivo de uma linda mulher: Martine Kunz.

Conheço-o desde a minha adolescência. Então era já uma celebridade da vida boemia do Ceará. Tornou-se amigo de meu irmão, Roberto, no Banco do Nordeste e os dois partilharam por um tempo a casa da Beira-mar. A famosa casa do Pereira de festas e agitos que marcaram época bem do lado do bar do Anísio da qual era espécie de sucursal.

Em torno dele, a mesa era sempre aberta e democrática. Foi a pessoa mais sem preconceitos que conheci em toda a minha vida. Não os tinha de raça, sexo, idade, classe social e nem mesmo aqueles que os intelectuais costumam ter. Via graça e interesse nas pessoas mais diferentes: das mais modestas às mais sofisticadas; das mais cultas às mais simplórias; das mais moças às mais velhas. Não discriminava ninguém.

Lembro bem da manhã em que ele apareceu na praia logo depois dos dias em que passara preso e fora torturado. Perguntei onde tinha andado e ele me respondeu que andara descascando baratas, naufragado na tristeza, como no tango que cantarolou... Só muito mais tarde é que entendi do que falava. Da amargura que, de alguma forma, ficara nele a partir daquela experiência trágica da qual, não sei porque, sempre me pareceu, que o acidente que o deixou paralítico foi um desdobramento.

Foi se tratar no Rio por alguns anos. Longe da cidade que tanto amava. Talvez sofrimento maior do que a própria invalidez. Queria voltar e voltou, em 1976, para a mesma casa da Beira-mar, já definitivamente preso à cadeira de rodas. Imaginavam os amigos que ia se aquietar, se converter, mudar, enfim. Que nada, voltou à mesma farra de antigamente. Não perdia nada: carnaval, aniversário, casamento, missa e enterro, a tudo comparecia sempre acompanhado de um fiel escudeiro encarregado de levá-lo na cadeira e de manter-lhe cheio o copo.

Pereira convivia bem com as limitações físicas, tentando fazer com que elas limitassem o mínimo possível a vida que queria levar. Mas não gostava do assunto e tenho a impressão que teria detestado ler no jornal que o chamaram de "cadeirante". Não se eximia de brincar com o problema. Conta a lenda que em uma manhã, na beira-mar depois de uma noite de farra, vendo passar o ex-governador Parsifal Barroso no seu footing, postou-se, com sua cadeiras de roda diante dele e disse para espanto do bom velhinho: "Governador, governador. Fazei-me andar, fazei-me andar".

Dentre as tantas molecagens que fez através imprensa, houve a concessão de troféus para algumas figuras da cidade. Temendo as reações, incluiu na lista o Troféu duas rodas para Cláudio Pereira, o aleijado que não se manca. Para dar mais veracidade à coisa publicou, na semana seguinte, cartas de entidades de apoio aos paraplégicos protestando e se solidarizando com ele.

Amava Fortaleza sobre todo os lugares e nunca quis viver em outra parte. Era o dono da cidade que conhecia profundamente desde as priscas eras do Balão Vermelho. Uma vez, na casa da Beira-mar apareceu um repórter que fazia uma matéria sobre a tradicional rivalidade entre Recife e Fortaleza. O Campelo logo se exaltou com a pergunta dizendo: "Que rivalidade o que. Os pernambucanos é que são muito metidos a besta". Mas o Pereira, tranquilizou o repórter e prometeu explicação mais racional. Disse ele que, de fato, não havia rivalidade. O problema era que Fortaleza era a melhor cidade do mundo e por isso, os pernambucanos, coitados, ficavam meio despeitados.

Realmente, a Fortaleza que conheci, do tempo da Beira-mar, do bar do Anísio, do Estoril, das farras, canções e conversas madrugada adentro, era mesmo a melhor cidade do mundo. Símbolo maior daquele tempo, daquela cidade, com sua morte, Cláudio Pereira, marca para todos os que viveram esse momento mágico o fim de uma era e lhes deixa a impressão de que Fortaleza perdeu sua alma.

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