Em frente à nossa casa ficava a casa do seu Oscar. Seu Oscar era macumbeiro. Assim sempre ouvi dizer. Ou murmurar porque ninguém dizia claramente. Talvez com medo de que a gente quisesse virar macumbeiro quando crescesse. Sei lá. O fato é que se dizia que ele era macumbeiro e tenho a impressão de que se ouviam tocar uns tambores no quintal dele que ficava nos fundos da casa. Assim o som era meio abafado. Mas também pode ser só imaginação do pessoal. Agora, dessa distância, não tenho mais como saber.
De qualquer maneira, na casa do seu Oscar a gente não podia ir. Papai não deixava. A casa do seu Oscar também era de taipa. Mas era bem mais ajeitadinha que a da Chicó. O seu Oscar era casado com D. Raimundinha. Ambos mulatos, ou cafuzos, ambos escuros e discretos. No Natal a gente obtinha assim uma espécie de salvo-conduto para ir na casa do seu Oscar ver a lapinha. A lapinha do seu Oscar era formidável. Tinha de um tudo. Desde o que tem toda lapinha: o menino Jesus na manjedoura, com os três reis magos e tudo o mais até figuras que estavam então na moda, Pelé, Fitipaldi, miss Brasil, etc. tudo feito de barro. Era um show.
Engraçado o papai deixar a gente ir ver. Parece que ele percebia que aquilo tinha um valor que ultrapassava até os preconceitos religiosos e sociais dele. E olha que lá em casa a gente nem cumprimentava protestante, quanto mais macumbeiro. Quando passavam aqueles jovens americanos pelas ruas distribuindo suas bíblias de capa cinza a gente não podia nem pegar. Eu pensava que era porque as bíblias dos protestantes diziam tudo ao contrário do que diziam os missais que a mamãe usava para ir à Igreja. Espíritas também não eram muito apreciados. Mas eram mais considerados do que os protestantes pois algumas pessoas respeitáveis de nossas relações eram espíritas.
Todo os domingos a gente ia à missa na Igreja da Piedade. Meus pais sempre foram muito religiosos e ligados ao clero das paróquias a que pertenceram. Gostavam de fazer amizade com os padres e, depois que vieram de Sobral, no ano em que nasci, logo que se estabeleceram no bairro se aproximaram dos padres salesianos que comandavam a paróquia da Piedade. Os padres mantinham um colégio onde alguns de meus irmãos estudaram. Essa igreja, com suas missas, novenas e quermesses foi um dos lugares marcantes da minha infância.
Acho que foi em uma procissão promovida pela paróquia que fiquei morrendo de inveja das meninas que iam vestidas da anjo. Eu era bem pequena mas parece que, com a minha cor e meus cabelos tão pretinhos não tinha nenhuma chance de ser anjo. Para ser anjo a menina tinha que ser loura. Nem que fosse aquele tipo de louro que tinha no Ceará, do olho preto e, na verdade só com o cabelo alourado e com a pele daquele tom que a gente chama de amarelo embompado: um moreno claro e pálido, tendendo para o marfim.
Em frente da igreja da Piedade ficavam algumas casas boas. Ali vivia um fotógrafo famoso que tinha inventado um jeito de fazer fotos panorâmicas muito apreciadas por turmas de formandos. Creio que a rua que passava em frente da Igreja era ainda a Joaquim Távora que começava na Av. Visconde do Rio Branco e acabava em frente da Igreja da Piedade. Quer dizer: a rua devia seguir em frente mas a gente só costumava a ir até ali. Aquele pedaço do bairro que ficava depois da igreja já era um lugar distante para nós, as moças da casa.
Porém, aquele era um território livre para os meninos que freqüentavam as tertúlias (era como o pessoal chamava as festinhas dançantes nas casas de uns e outros) e acabaram namorando moças de algumas família daquela parte do bairro. Eu só me lembro de ter ido a uma tertúlia uma vez quando eu tinha uns treze anos, devidamente escoltada pelo meu irmão Roberto. Um rapaz me convidou para dançar e eu disse que não. Era um rapaz bonitinho, com o seu terno, pois para algumas festas só se ia de terno, devia ser a festa de quinze anos de alguém. Eu usava um tubinho de gorgorão rosa. Depois lamentei. Mas a verdade é que eu não sabia dançar e era muito matuta.
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