Cinco dos 13 filhos de Seu Costa e Dona Dolores nasceram em setembro. Quem nos chamou a atenção para essa singularidade foi o Claudio Pereira que, uma vez, já no final da minha adolescência, reuniu a turma de amigos boêmios do Roberto na Rua Nossa Senhora da Piedade, 126, onde então morávamos, para comemorar esse monte de aniversários. O Pereira batizou a festa de: Loucuras de setembro, assim como nas liquidações das lojas. Na ocasião, Antonio Carlos Coelho cantou em nossa homenagem um samba de Elton Medeiros que dizia: São quatro crioulos inteligentes, rapazes muito decentes /Fazendo inveja a muita gente / Muito bem empregados /Numa secretaria / Educados e diplomados em Filosofia.
Os crioulos éramos nós, veja só, que nem nos víamos assim. E, na verdade, do grupo dos nascidos em setembro, o mais moreninho era mesmo o Roberto Aurélio que os amigos apelidaram de Marrom. O segundo nome do Roberto é Aurélio, que lhe foi dado por meu pai por isso mesmo, em homenagem à Lei Áurea. O primeiro aniversariante de setembro, do dia 5, era a Clélia que até nascera loura e tem fotos para comprovar. Aliás, uma foto curiosíssima é a da formatura da Clélia como Doutora do B-A-BA, em que ela, uma menina muito clara, aparece ao lado de um Roberto ainda mais escuro em seu terninho branco, calças curtas e gravata borboleta.
Depois, no dia 10, vinha o aniversário do mais velho, o Francisco que, mesmo entre nós, é chamado como o chamam seus colegas jornalistas no Ceará, Lustosa. O Lustosa também nasceu clarinho e se conservou branco mas com uma fisionomia bem carregada, onde o nariz e o beiço indicam talvez a origem africana. Eu - que saí com um tipo mais puxado para o indígena o que me faz ser confundida com boliviana - sou de 23, o Roberto do dia 25 e o Pacelli, (Eugênio Pacelli em homenagem ao Papa Pio XII) o único daquela leva que sempre pôde passar realmente por branco, é do dia 30.
De resto, o sujeito podia nascer branco e depois ir escurecendo. Papai tinha uma técnica para descobrir se um bebê clarinho ia depois amorenar. Era só ver se em sua bundinha havia manchas arroxeadas. Elas indicavam que a branquitude do elemento não era coisa de durar mais do que os primeiros dias de vida. Não havia diferença de tratamento entre os mais clarinhos e os mais moreninhos. E, na verdade, meu pai, como o Gilberto Gil, só não confiava mesmo em um tipo de gente: o sarará. Aquele tipo com traços decididamente negros e cabelo pixaim mas alourado e com a pele de um tom de branco sujo, meio avermelhado. Vai ver que o papai achava que era uma mistura que não tinha dado certo, que não tinha sido bem sacudida de modo que o sarará tinha ficado no meio do caminho sem ser nem branco, nem preto, nem nada.
Papai não tinha problemas com negros, mulatos, cafuzos, mamelucos, brancos e nem com japoneses que acho que não conheceu nenhum. E os brancos mesmo, daquele tipo de cabelo louro e olho azul eram muito raros em Fortaleza. Tão raros que quando a pessoa queria desfazer uma ajuntamento de curiosos dizia: “Num morreu galego, não”. No sentido de que só juntava gente em caso de morte de “galego”, denominação que, antigamente, se dava no Ceará a qualquer estrangeiro branco.
Brincadeiras com o fato de ser neguinha, moreninha, bugrinha, cabocla, índia me acompanharam a vida inteira desde o colégio sem me incomodar. Talvez apenas na infância mais remota eu tenha me chateado com o fato de não ter sido escolhida para anjo da procissão da paróquia da Piedade. Preferiram umas meninas mais clarinhas. Mas não me lembro desse episódio como um momento de terrível discriminação. Talvez porque em casa tudo isso tenha sido sempre objeto de humor. Papai sempre tentou nos manter com os pés no chão dizendo: olhe, vocês escurinhos assim e pobres, tratem de estudar senão não vão ser nada na vida. Engraçado pensar que o papai também nos visse escurinhos pois a gente não se via assim. Ou melhor: não nos víamos de jeito nenhum. Éramos apenas. Gostando de piadas e de músicas engraçadas. Metidos a inteligentes.
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