Estrigas e Nice: a vida como arte (8/5/10)

Na última visita que fiz ao Estrigas, domingo passado, observei-o dirigindo-se ao portão do sitio para abrir e dar passagem ao nosso carro. Vinha com seu passo firme, de chinelas, trajando bermuda bordada pela Nice, que em qualquer roupa que apareça um rasgão mete flores. Era o mesmo Estrigas de sempre: a estatura pequena, levemente encurvada, seca como a de um passarinho, a fisionomia incomum, com o bigode surgindo debaixo do nariz adunco, num registro que lembraria um pouco Stephan Zweig, não fora pelo cabelo, até hoje teimando em permanecer escuro, inconfundível marca da origem indígena. E não pude deixar de pensar que no ano passado ele completou 90 primaveras. E me peguei indagando aos meus botões: Será que quando eu fizer 90 anos também terei a graça de ir pelos meus próprios pés ligeiros abrir o portão para os amigos que chegarem? Serão meus pés tão ágeis, serão tantos os amigos, será minha conversa tão amena e será tão acolhedora a minha casa quanto a de Estrigas e Nice? Quem me dera.
  
Também me ocorre pensar o que vai acontecer com ele e Nice, ela também já chegando aos 90, quando se concretizar o projeto de transferência do Mini Museu Firmeza para alguma das instituições interessadas. Os dois acreditam que terão mais calma para se dedicar exclusivamente à pintura sem tem que atender aos tantos grupos que visitam o museu. Estão cansados de esperar por uma solução que lhes permitisse ter em casa a segurança que o museu pede e o apoio de gente mais nova e interessada para guiar os visitantes apresentando-lhes o acervo.  

O capítulo da segurança é o que mais tira o sono dos que querem bem ao Estrigas e à Nice. Mais de uma vez, os dois, sozinhos em casa tiveram a ameaça de ladrões. A um deles o próprio Estrigas, apesar de franzino, teve que desarmar. Tudo o que torna charmosa a casa dos dois, é, nesses tempos difíceis, fator de insegurança: seu isolamento em meio ao grande quintal tão nosso, tão tipicamente cearense, por onde se espraia a confortadora sombra das mangueiras, a velha casa de telha, com suas tantas portas e janelas singelas, como a das casas da nossa infância. A meu ver, este é um problema simples que pode ser resolvido por alguma dos tantos empresários cearenses que amam a cultura de seu Estado. Basta que contratem alguém da confiança do casal para fazer as vezes de caseiro, motorista e segurança deles. Alguém com um salário razoável para morar uma casinha a ser construída logo na entrada de forma o que parece eles têm um parente que cabe nesse figurino.
 

Quanto ao Museu, ao seu acervo e mesmo à obra de Estrigas e Nice, creio que o melhor seria pensar em um grande projeto acadêmico e patrimonial. Nele se incluiriam a catalogação, restauração e conservação do acervo do Mini Museu e da obra dos dois artistas. Ao lado disto, deveriam ser treinados jovens guias, talvez meninos, os melhores alunos de alguma escola pública. Eles teriam um treinamento inicial feito por algum historiador da arte do ceará para que conhecessem o acervo e tivessem condições de apresentá-lo aos visitantes.
 

Temo pelo desmembramento dessa verdadeira obra de arte que são Estrigas, Nice, suas obras, seu museu e sua casa. O acervo tem em si enorme valor para a memória da arte cearense. No entanto, acho que a riqueza maior resiste no conjunto. Que a magia do lugar está na reunião de todos os elementos. Se Estrigas e Nice não vão, infelizmente, durar para sempre, seria muito importante que seu modo de vida especial, único, verdadeiro patrimônio da cultura cearense fosse preservado tal como é. Assim as gerações futuras poderiam saber que já houve um tempo em que, no Ceará, duas pessoas tão especiais, verdadeiros filósofos de uma existência simples e harmônica, construíram uma forma de viver superior, despojada e modesta, que se manifestava não só nos quadros que pintaram, mas também na casa em que viveram, nos doces e bordados que a dona da casa fazia, e nas conversas inteligentes amáveis que travavam com os tantos privilegiados que tiveram a sorte de os terem conhecido.

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