Múltiplos talentos

 (26/3/11)

Certa vez, em um almoço na Tijuca, sentei-me ao lado dos pais da dona da casa. Era uma amiga não muito próxima e eu nunca tinha estado na sua casa nem conhecia seus pais que deviam ter em torno de 65 e 70 anos.


O pai era um senhor gentil e simpático, funcionário público aposentado ou militar reformado, moreno, baixo e tendendo mais para o gordo. Ela parecia mais jovem que ele e era alta, clara, ainda ostentando alguns traços da beleza que um dia deve ter sido remarcável.



Eu estava ao lado do marido, e conversava com ele sobre não sei o que, quando este me mostrando a mulher, sentada ao seu lado e conversando com outra pessoa, me perguntou: "Já conversou com ela?". Eu não entendi a razão da pergunta, mas respondi que não. Ele então apontou com o indicador para a própria cabeça e completou: "É uma inteligência!"


Fiquei um pouco desconcertada, mas logo a conversa se ampliou para o resto do grupo e eu tive oportunidade de conversar também com a mãe da minha amiga. Esta não perdeu tempo em demonstrar o que me antecipara o marido e discorreu longamente sobre seus múltiplos talentos, especialmente nas artes plásticas. De fato, a parede da casa de minha amiga ostentava trabalhos seus e algumas de suas talhas eram mesmo muito bem feitas. Eu talvez até as tivesse admirado mais não fosse o fecho que a autora deu ao seu auto-elogio: "Eu estou convencida de que sou super-dotada."


Fiquei de queixo caído.

Outros detalhes interessantes sobre o casal surgiram ao longo da conversa. Seu Geraldinho (chamemo-lo assim) assumia uma posição claramente subalternada diante da excepcional mulher que lhe concedera a graça de com ele se casar. Esta tinha em casa seu ateliê, ocupando sozinha não só o quarto do casal (seu Geraldinho roncava) como também o segundo cômodo da casa. Seu Geraldinho se contentava com pouco. Talvez tenha lhe sobrado o quarto de empregada.


Mas seu Geraldinho não parecia nada com um marido infeliz. Ao contrário, apesar de muito orgulhoso da mulher, ele vivia viajando. Sozinho. Longas excursões pelos lugares mais distantes e exóticos eram sua predileção e era assim que ele gastava boa parte de sua aposentadoria. 


Pensei que seu Geraldinho, casado com aquela entidade tão especial, talvez achasse consolo nos braços de alguma mulata gorda, baixa e simpática como ele. Uma vez li um conto do Somerset Maugham que terminava assim mesmo, com o marido pacato indo embora com a empregada e deixando a mulher esnobe com seus esnobes amigos, artistas e intelectuais.


Esse episódio me voltou à mente quando pensava em escrever algo sobre pessoas dotadas de múltiplos talentos e que, por uma série de circunstancias da vida, acabam não fazendo nada. Ou fazendo muito menos do que se esperava delas, como a mulher do seu Geraldinho.



Ser o portador de múltiplos talentos pode ser uma espécie de maldição. Assim como a riqueza que pode ser fator de desestímulo ao trabalho, ao esforço, ao aperfeiçoamento. Se você faz seus deveres com tanta facilidade, se passa de ano sem estudar, enquanto os outros - pobres mortais - se esfalfam, para que estudar não é mesmo? E com isto, passasse boa parte da vida escolar e até mesmo profissional. Só que, mais adiante, no mundo do trabalho se aprende que o sucesso é produto de 10 por cento de inspiração e 90 por cento de transpiração e se você, ao longo da vida, não aprendeu a fazer o feijão-com-arroz pode ser surpreendido com a falta que faz o conhecimento adquirido.


Outro risco que corre o dotado de tantos talentos é a dispersão, o risco de ficar perdido diante de tantas possibilidades. Escolher um só desses tantos caminhos promissores é bem difícil. Ainda mais se cada manifestação de algum de seus talentos é saudada pelos que lhe cercam com um "oh!" de admiração. Se, desde cedo, você se revela bom desenhista, bom cantor, bom ator, bom dançarino, bom escritor, bom palestrante e, ainda por cima, com boa cabeça para os números, a vontade de implementar todos esses talentos é grande. Seguir uma profissão comum como qualquer outra pessoal dotada de menos potencial fica parecendo um desperdício.


O que eu vou ser quando crescer? Para a maior parte das pessoas, essa é uma dúvida que só se resolve mesmo depois da faculdade quando se escolhe se vai seguir adiante ou procurar outra coisa. É uma escolha dramática que pode atrasar o projeto de vida adulta mas que tem que ser feita. Para alguém que tem tantas escolhas, por ter revelado ainda cedo seus tantos talentos, fica difícil mesmo escolher qual a faculdade fazer.


Nessa hora a razão deve prevalescer sobre a emoção e os pais podem exercer papel decisivo. Como, aliás, na minha adolescência os pais exerciam. Lembro de um amigo talentoso que queria ser músico. O pai negociara com ele e o convencera a concluir o curso de engenharia quando ficaria livre para fazer o que quisesse. Foi até com uma certa altivez que ele entregou o diploma ao pai e foi em frente, em busca do seu sonho. Depois de constatar, na prática, que entre o talento genuíno e o sucesso há uma imensa sucessão de obstáculos que podem invializar o sonho, foi na engenharia que ele encontrou um trabalho digno, bem remunerado que veio depois a considerar gratificante.


Aos pais do filho ou filha de múltiplos talentos cabe zelar para que ele ou ela, mesmo que dedique parte de seu potencial a outros exercícios, escolha uma carreira específica, dentre as tantas que lhe podem convir. Que tendo-a escolhido siga-a com seriedade, obtendo uma boa formação. Lá na frente, quando estiver com a carreira estabelecida, com um renome profissional conquistado, constatará que seja qual tenha sido a sua escolha, os seus múltiplos talentos lhe serão mais úteis do que se tivesse ficado a ensaiar ser um pouco de tudo o que poderia ser, terminando por não ser nada.

2011: o ano que só agora começou
 (19/3/11)

Carnaval em março e no final da primeira metade do mês de março não dá certo no Brasil.

 Como o calendário emocional do brasileiro registra o fim do carnaval como o momento em que o ano realmente começa, se o carnaval acontece tão tarde, coitado do brasileiro bem intencionado que queria trabalhar. Não pode. Fica tolhido pela expectativa dos tantos feriados, pela quebra da rotina que eles impõem, pela obrigação de cair na folia ou de viajar com a família para algum lugar bem distante dela. De modo que, trabalhar, quem há de?

 Com isto tudo se atrasa, tudo é protelado: compromissos profissionais, regimes de emagrecimento que estavam prometidos deste o reveillon, aquele check-up básico que sempre os acompanham, o tratamento dentário que tinha sido adiado por conta das férias, a revisão do carro, a pintura da sala, etc. etc. etc.

 E quando a gente acorda dessa hibernação de verão, começa a ficar angustiado pelo tanto de coisa que tem a fazer e pelo pouco de tempo que lhe resta. Pois, se um quarto de 2011 já se foi, daqui a pouco, 2012 estará batendo na porta.


 No entanto, quando se pensa que este ano foi ano de mudança de governo e se compara com o Brasil do final de 2010, quanta diferença. Muita coisa mudou na cena política brasileira e a principal delas foi o começo do governo de Dilma Rousseff. Para os que torciam pela continuação dos projetos iniciados no Governo de Luis Inácio Lula da Silva foi um alívio assistir pela TV a posse da primeira mulher presidente do Brasil.


 Se esse dado de gênero é importante, creio que outro não o é menos. O fato de que aquela era posse da primeira pessoa torturada pela ditadura militar. O fato de seus torturadores terem nome e endereço conhecidos. O fato de que, no governo passado, o presidente Lula não ter tido força para barrar a ousadia de alguns setores militares que se manifestaram contra as investigações para saber o nome dos criminosos que torturaram pessoas indefesas até a morte.


 Com Dilma na presidência fica difícil engolir a declaração de um militar de que isto pertence à história, que isto é passado. Certamente para quem foi torturado, isto nunca será passado. A tortura destrói o indivíduo não só fisicamente, mas sobretudo moralmente, espiritualmente. 


Daí o suicídio de Frei Tito ter sido consequência direta das violências a que foi submetido pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, de abominável memória. Delegado aliás, citado pelo tenente-coronel reformado Maurício Lopes Lima, responsável pelas torturas sofridas pela presidente e que também participou das torturas ao Frei Tito. Em entrevista recente, o mesmo, que hoje vive tranquilo em Guarujá, alegando que tudo o que fizera fora a serviço do Estado e que não tinha prazer nenhum naquilo, disse que "o Fleury, por exemplo, até dava um sorriso."



 Os primeiros meses do governo foram marcados pela queda de braço entre a Presidente e alguns deputados em torno do aumento do salário mínimo. Da bancada daqueles que todos os anos aproveitavam a negociação para chantagear o governo, quem mais se destacou foi o presidente da Força Sindical. 


 Curiosamente, essa organização que sempre esteve à direita das demais organizações sindicais de trabalhadores, resolveu agora adotar um discurso populista de defesa intransigente de um aumento que, não tinha razão de ser neste contexto. Agiu bem o governo, não cedendo à chantagem e prosseguindo na política de aumento gradativo do mínimo tal como vinha sendo feito no governo anterior.



 No entanto, o aumento da taxa de juros, sempre alardeado como indispensáveis pelas colunistas economicos identificados com os interesses do mercado, deixou o eleitor de DiIma Rousseff com as barbas de molho. Também desconfiado de ver Antonio Palocci como o conselheiro mais próximo da presidente. O protagonisto de Palocci, queridinho do mercado e homem que garantiu a continuidade da política neo-liberal no primeiro mandato do presidente Lula, não sinaliza coisa boa. Ainda mais quando vem aliado aos boatos de fritura de dois ministros fundamentais para o sucesso do segundo governo Lula: Guido Mantega e Fernando Haddad.



 Foi com Mantega e seu alardeado e realmente implementado desenvolvimentismo que a política economia brasileira deu o salto que a colocou em destaque no cenário internacional. Foi com Haddad que se ampliaram as universidades públicas e as escolas técnicas federais pelo Brasil afora. A notícia de que justamente esses dois ministros estariam pela bola sete, a ponto de serem saídos do governo, alarmou quem votou em Dilma Rousseff.


 A mim, uma notícia especialmente preocupou: a de que, com o corte no orçamento, não havendo possibilidade de concursos para professores da universidades federais, as vagas seriam preenchidas por professores temporários. Ora, quem não se lembra que foi assim que os governos do neo-liberalismo começaram a desmontar as universidades públicas?



 Foi reduzindo o quadro de professores concursados e pondo em seu lugar gente em início de carreira que se submetia a um salário mais baixo que aqueles governos conseguiram esvaziar a universidade pública. Desestimulados com o salário congelado há décadas e com o acúmulo de trabalho, seus professores procuravam se aposentar o mais cedo possível para ir tentar emprego nas universidades privadas. Estas, sim, em franca expansão.



 Felizmente, nesta primeira semana de 2011, a presidente convidou o ministro Mantega para conversar e mandou o Palocci cuidar do clima.


 Talvez tudo isto tenha sido apenas porque o ano ainda não tinha começado.

Agora é Cinzas (12/3/11)

Sempre que penso em escrever algo sobre o Carnaval, meu primeiro impulso é recorrer ao verso de Chico Buarque: Carnaval, desengano,/ deixei a dor em casa me esperando/ e brinquei e cantei e fui, vestido de rei,/ quarta-feira sempre desce o pano.
O desengano na música do Chico antecede e sucede ao Carnaval, que funciona como uma espécie de interregno de uma vida de infelicidade. Talvez haja aí um elemento de culpa católica associada ao prazer. O sujeito se esbalda na festa da carne e depois entra na Quaresma cheio de arrependimento.

De mesmo espírito melancólico era a canção que se ouvia na voz de Nara Leão, "Marcha da quarta-feira de cinzas", de Vinicius de Moraes e Carlinhos Lyra: "Acabou mais um carnaval, ninguém ouve cantar canções, ninguém passa brincando feliz e nos corações, saudades e cinzas foi o que restou". Música que entrou naquela peça "Liberdade, liberdade", possivelmente porque tinha um sentido de protesto, mais evidente no verso que dizia: "e no entanto é preciso cantar, mais que nunca é preciso cantar, é preciso cantar e alegrar a cidade".

De fato, era preciso cantar muito, pois estávamos na Ditadura Militar, momento em que a MPB foi espaço importante de crítica e de denúncia do regime. Como é exemplo, aliás, em outra música de Chico Buarque, a mensagem sutil de "Apesar de você". Na festa do Canecão em que Chico se manifestou em apoio à candidatura de Dilma Rousseff, o momento mais bonito foi quando ela contou que estava presa quando ouviu, na cela que dividia com outras companheiras, "Apesar de você" pela primeira vez.

Longe estávamos das marchinhas em que os protagonistas eram o Pierrô, a Colombina e o Arlequim. O Pierrô apaixonado que vivia só cantando e que, por causa de uma Colombina, acabou chorando. Apesar dos elementos europeus da Commedia dell´arte, o drama do triângulo amoroso no Brasil se resolvia de forma mais objetiva com a Colombina mandando o Pierrô "cacete" tomar sorvete com o Arlequim. Conselho que ele não seguiu, preferindo ir tomar vermute com amendoim, só para rimar.

Um clássico musical que tem origem em episódio triste e que fez sucesso no carnaval de 1958 é "Madureira Chorou". Homenagem à vedete Zaquia Jorge, que morreu afogada na Barra da Tijuca quando lá estava com algumas amigas tomando banho de mar.

Ao seu velório, no Teatro de Madureira, acorreram mais de 4.000 pessoas. O samba é de Carvalhinho em parceria com o viúvo de Zaquia, Julio Monteiro. No entanto, além do drama da vedete morta, o que distingue mesmo essa música é a primeira frase: "Madureira chorou", de uma sonoridade e de um apelo fantásticos.
Madureira chorou,
Madureira, chorou de dor,
Quando a voz do destino,
Obedecendo ao divino,
A sua estrela chamou.

Gente modesta,

Gente boa do subúrbio,
Que só comete distúrbio,
Se alguém os menosprezar,

Aquela gente,

Que mora na Zona Norte,
Até hoje, chora a morte,
Da estrela do lugar.


Mas a música mais triste de todas associadas ao Carnaval que conheço é "Maria, Carnaval e Cinzas", de Luiz Carlos Paraná, apresentada por Roberto Carlos no Festival de MPB da Record de 1967. Tirou o segundo lugar e o vídeo disponível no You Tube mostra o Rei, com toda a fidalguia, sob uma vaia fenomenal, cantando-a por inteiro, fisionomia e voz plácidas e saudando a plateia com uma reverencia no final da apresentação. A letra conta a história de uma criança que nasce no primeiro dia de carnaval para morrer na quarta-feira de cinzas. Vale a pena lembrar, pois é algo que se perdeu na poeira do tempo.


Nasceu Maria quando a folia

Perdia a noite, ganhava o dia
Foi fantasia seu enxoval
Nasceu Maria no Carnaval
E não lhe chamaram assim
Como tantas Marias de santas


Marias de flor, seria Maria
Maria somente, Maria semente
De samba e de amor
Não era noite não era dia
Só madrugada, só fantasia
Só morro e samba
Viva Maria


Quem sabe a sorte
Lhe sorriria e um dia viria
De porta-estandarte
Sambando com arte
Puxando cordões e em plena
Folia de certo estaria
Nos olhos e sonhos de mil
Foliões


Morreu Maria quando a folia
Na quarta feira também morria
E foi de cinzas seu enxoval
Viveu apenas um Carnaval
Que fosse chamada Então como tantas
Marias de santas


Marias de flor,
em vez de Maria
Maria somente, Maria semente De samba e de dor
Não era noite, não era dia
Somente restos de fantasia
Somente cinzas, pobre Maria
Jamais a vida lhe sorriria


E nunca viria de
Porta-estandarte
Sambando com arte
Puxando cordões
E não estaria em plena folia
Nos olhos e sonhos
De mil foliões


Para mim, esta Quarta-feira de Cinzas foi marcada pela tristeza da partida de minha tia, Irmã Clélia Ferreira Costa. Freira da ordem das Missionárias de Jesus Crucificado, tia Clélia, tinha 87 anos e era a irmã mais nova de meu pai que lhe queria muito bem. Ela teve uma trajetória notável dirigindo várias das casas de sua Ordem, espalhadas pelo Brasil e multiplicando as ações de caridade que caracterizam o trabalho das Missionárias.


Nos últimos anos viveu em Fortaleza na residência das irmãs que fica na Avenida Rui Barbosa mas era presença constante ao lado de D. Dolores. Inteligente, de uma elegância sóbria e discreta, com os modos impecáveis que manteve até o final da vida, Tia Clélia tinha algo de cosmopolita na sua maneira de se conduzir e era, na minha opinião, a pessoa mais chique da família.

Histórias de rua (4/3/11)

Eu simplesmente a-do-ro ser surpreendida nas ruas, por ditos humorísticos inesperados e, por isto mesmo, ainda mais saborosos. Minha vida de trabalho, longe das ruas e presa aos livros e ao computador, também não me dá muitas oportunidades de ter este prazer.

Felizmente, vivo com um homem que vai de ônibus pra toda parte, que para no botequim da esquina para tomar um café (e outras coisas…) e que também tem o mesmo gosto por esse tipo de situação. Por isto, hoje, a crônica vai assim: uma sequência de episódios vistos/ouvidos pelas ruas do Rio de Janeiro, para animar seu carnaval.

1 - Economia popular

Uma vez, eu estava num elevador no centro da cidade. Um boy que ia ao meu lado segurou a porta em um determinado andar e jogou uma caixa de fósforos para a recepcionista que estava sentada na mesa diante do elevador.

Ela indagou: quanto foi?

Ele: 1 real.

Ela: Uma caixa de fósforos já está custando 1 real?

Ele: Não. A caixa de fósforos foi 70 centavos mas, e o carreto?

2 - Cantada

No começo de minha vida, aqui no Rio de Janeiro, eu ia à praia em Ipanema passando de biquíni ali pela Joana Angélica, na glória de meus 22 anos, um porteiro falou para mim:

- Neguinha, tu mata os peixe.

Foi o elogio masculino mais criativo que já ouvi.

3 - Solidariedade

Zé Japonês é o apelido que a turma deu a Alvaro Matida, médico - hoje autoridade nos estudos sobre a AIDS - e que se tornou nosso amigo desde o tempo da faculdade. Uma vez o Japonês estava esperando o bonde para Santa Teresa, naquela estação do centro da cidade. Só estavam lá ele e um bêbado do tipo que se enraíza em lugares como aquele. Cambaleando ele se aproximou do Zé e pediu um cigarro. Recebeu, acendeu e como demonstração de agradecimento, olhou para o Zé e disse, seguidas vezes, balançando a cabeça: "Eu não me conformo com aquilo que aconteceu em Hiroshima."

Talvez estivesse na estação há tantos anos apenas esperando aparecer um japonês para expressar sua solidariedade.

4 - Briga de rua

Mario Bag me contou que nos anos 70, presenciou uma briga de rua entre dois "amigos" - "daquelas que não vale pedrada, nem dedo no olho, só agarrão e torção de braço e pescoço até o outro desistir". Depois de uns vinte minutos de "agarra", quando os dois já estavam imobilizados, um disse, já cansado: "Me solta que eu te solto!".

Diz o Bag que hoje quando vê políticos ameaçando uns aos outros com dossiês, se lembra da frase: " Me solta que eu te solto".

5 - Bar do Abílio
O Bar do Abílio é um "pé-sujo" da Tijuca. Numa sexta-feira, dois trabalhadores, habitués da casa, traçavam uma feijoada, quando chegou outro freguês e sentou na mesma mesa. Um dos que tinha chegado antes, reclamou, brincando: "Pô, Abílio, assim não dá! Nunca mais venho almoçar aqui!". Abílio, que não costuma se alterar com nada, perguntou: "Por que?". "Este bar está muito mal freqüentado", respondeu o outro. A resposta deixou o Abílio aliviado: "Ah, bom, que susto! Pensei que tinhas achado uma barata na feijoada".

6 - A honra da Paraíba

Dos três ou quatro servidores do Bar do Abílio, nenhum devia ter carteira assinada. O paraibano que tocava a cozinha se queixava que não recebia salário há 17 anos. Uma vez discutindo com um freguês paraibano que tomava sua cerveja por trás do balcão, foi chamado por este de "escravo de Abílio".
 E respondeu, prontamente: "Mas eu pelo menos trabalho, não sou como você, que vive se encostando por aqui", respondeu o cozinheiro, concluindo com legítimo orgulho pátrio: "Você desonra o nome da Paraíba".

7 - O fracasso humano

Numa manhã, entrando rapidamente no bar para tomar água, enquanto esperava ser atendido, o Bag ouviu um desses freqüentadores de botequim, já com três ou quatro cervejas nas idéias, falando para o atendente do botequim:
 "Ontem, reuni meus três filhos e disse: Vocês já estão crescidos e já está na hora de vocês saberem de uma coisa…". Quando o Bag já ia saindo, ouviu-o concluir o pensamento com essa frase de personagem de Nelson Rodrigues: "Já está na hora de vocês saberem que seu pai é um bosta!!!"

8 - No ônibus

No meio da turma barulhenta de alunos de escola pública, uma menina, muito enfeitada, se destacava. Um colega moleque falou para ela: "Ei fulana, tá fashion, hoje, heim? É, tá tipo: fech´os olhos e sai correndo".

9 - EIPM

Todo ambulante que entra em ônibus do Rio para vender alguma coisa começa sua fala dizendo: "desculpe interromper o silêncio da sua viagem"e mesmo que no ônibus esteja a maior balbúrdia, ele segue anunciando as inúmeras vantagens do produto que está vendendo. Há ainda uma fórmula em que o vendedor diz: "eu podia estar roubando, eu podia estar matando, eu podia estar estuprando..." Uma vez um rapaz, deficiente físico, com dificuldades de movimentos e de fala usou essa formula para espanto da platéia do ônibus que quase lhe disse: "não podia não".

Quase todos falam o mesmo texto, com a mesma impostação. Mario Bag acredita que todos eles devem ser formados por uma "Escola Inferior de Propaganda e Marketing".

10 - Kombi

Esta eu entreouvi na portaria da Casa de Rui Barbosa. Dois seguranças, um dos quais, nas horas vagas, usava a sua velha Kombi para fazer frete era aconselhado pelo colega: "Rapaz: Kombi que não circula não pega frete".

Acho que essa filosofia tão singela é aplicável em muitas situações.

Bom carnaval!!