Carnaval em março e no final da primeira metade do mês de março não dá certo no Brasil.
Como o calendário emocional do brasileiro registra o fim do carnaval como o momento em que o ano realmente começa, se o carnaval acontece tão tarde, coitado do brasileiro bem intencionado que queria trabalhar. Não pode. Fica tolhido pela expectativa dos tantos feriados, pela quebra da rotina que eles impõem, pela obrigação de cair na folia ou de viajar com a família para algum lugar bem distante dela. De modo que, trabalhar, quem há de?
Com isto tudo se atrasa, tudo é protelado: compromissos profissionais, regimes de emagrecimento que estavam prometidos deste o reveillon, aquele check-up básico que sempre os acompanham, o tratamento dentário que tinha sido adiado por conta das férias, a revisão do carro, a pintura da sala, etc. etc. etc.
E quando a gente acorda dessa hibernação de verão, começa a ficar angustiado pelo tanto de coisa que tem a fazer e pelo pouco de tempo que lhe resta. Pois, se um quarto de 2011 já se foi, daqui a pouco, 2012 estará batendo na porta.
No entanto, quando se pensa que este ano foi ano de mudança de governo e se compara com o Brasil do final de 2010, quanta diferença. Muita coisa mudou na cena política brasileira e a principal delas foi o começo do governo de Dilma Rousseff. Para os que torciam pela continuação dos projetos iniciados no Governo de Luis Inácio Lula da Silva foi um alívio assistir pela TV a posse da primeira mulher presidente do Brasil.
Se esse dado de gênero é importante, creio que outro não o é menos. O fato de que aquela era posse da primeira pessoa torturada pela ditadura militar. O fato de seus torturadores terem nome e endereço conhecidos. O fato de que, no governo passado, o presidente Lula não ter tido força para barrar a ousadia de alguns setores militares que se manifestaram contra as investigações para saber o nome dos criminosos que torturaram pessoas indefesas até a morte.
Com Dilma na presidência fica difícil engolir a declaração de um militar de que isto pertence à história, que isto é passado. Certamente para quem foi torturado, isto nunca será passado. A tortura destrói o indivíduo não só fisicamente, mas sobretudo moralmente, espiritualmente.
Daí o suicídio de Frei Tito ter sido consequência direta das violências a que foi submetido pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, de abominável memória. Delegado aliás, citado pelo tenente-coronel reformado Maurício Lopes Lima, responsável pelas torturas sofridas pela presidente e que também participou das torturas ao Frei Tito. Em entrevista recente, o mesmo, que hoje vive tranquilo em Guarujá, alegando que tudo o que fizera fora a serviço do Estado e que não tinha prazer nenhum naquilo, disse que "o Fleury, por exemplo, até dava um sorriso."
Os primeiros meses do governo foram marcados pela queda de braço entre a Presidente e alguns deputados em torno do aumento do salário mínimo. Da bancada daqueles que todos os anos aproveitavam a negociação para chantagear o governo, quem mais se destacou foi o presidente da Força Sindical.
Curiosamente, essa organização que sempre esteve à direita das demais organizações sindicais de trabalhadores, resolveu agora adotar um discurso populista de defesa intransigente de um aumento que, não tinha razão de ser neste contexto. Agiu bem o governo, não cedendo à chantagem e prosseguindo na política de aumento gradativo do mínimo tal como vinha sendo feito no governo anterior.
No entanto, o aumento da taxa de juros, sempre alardeado como indispensáveis pelas colunistas economicos identificados com os interesses do mercado, deixou o eleitor de DiIma Rousseff com as barbas de molho. Também desconfiado de ver Antonio Palocci como o conselheiro mais próximo da presidente. O protagonisto de Palocci, queridinho do mercado e homem que garantiu a continuidade da política neo-liberal no primeiro mandato do presidente Lula, não sinaliza coisa boa. Ainda mais quando vem aliado aos boatos de fritura de dois ministros fundamentais para o sucesso do segundo governo Lula: Guido Mantega e Fernando Haddad.
Foi com Mantega e seu alardeado e realmente implementado desenvolvimentismo que a política economia brasileira deu o salto que a colocou em destaque no cenário internacional. Foi com Haddad que se ampliaram as universidades públicas e as escolas técnicas federais pelo Brasil afora. A notícia de que justamente esses dois ministros estariam pela bola sete, a ponto de serem saídos do governo, alarmou quem votou em Dilma Rousseff.
A mim, uma notícia especialmente preocupou: a de que, com o corte no orçamento, não havendo possibilidade de concursos para professores da universidades federais, as vagas seriam preenchidas por professores temporários. Ora, quem não se lembra que foi assim que os governos do neo-liberalismo começaram a desmontar as universidades públicas?
Foi reduzindo o quadro de professores concursados e pondo em seu lugar gente em início de carreira que se submetia a um salário mais baixo que aqueles governos conseguiram esvaziar a universidade pública. Desestimulados com o salário congelado há décadas e com o acúmulo de trabalho, seus professores procuravam se aposentar o mais cedo possível para ir tentar emprego nas universidades privadas. Estas, sim, em franca expansão.
Felizmente, nesta primeira semana de 2011, a presidente convidou o ministro Mantega para conversar e mandou o Palocci cuidar do clima.
Talvez tudo isto tenha sido apenas porque o ano ainda não tinha começado.
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