Félicie e o comissário Maigret (20/8/11)

Uma das últimas novelas de Simenon que li tendo o comissário Maigret como protagonista foi "Felicie est lá". A trama é um pouco confusa mas, como em outras novelas de Maigret, ela tem menos importância do que a construção dos tipos, do que o ambiente em que o crime aconteceu e do que a história que o antecedeu. A necessidade que Maigret tem de mergulhar profundamente na cena do crime e de se confundir tanto com os investigados a ponto de poder entender exatamente suas motivações é que compõem quase todo o corpo da narrativa. E são ainda as reações do próprio Maigret, seus humores variados, seus silêncios que lhe dão a maior parte da graça.

Em "Felicie est là" todo o enigma a ser desvendado por Maigret se concentra no personagem feminino que dá nome à novela. Esse personagem que tanto irrita Maigret, que tanto lhe parece ridículo nos primeiros contatos, vai ganhando consistência sem que altere um só aspecto de sua peculiar personalidade. É o comissário que, de um momento para outro, se vê envolvido e fascinado por aquela empregadinha de 24 anos, sempre maquilada com uma mistura de pó e rouge mal distribuída e vestida de forma ridícula: "aux vêtements baroques". Com seus ares soberanos, toda vez que fornece alguma informação, Félicie, verdadeira estátua da indignação, o faz de "très haut", como a mulher de Cesar que não pode ser nunca suspeitada.

Magra como um aspargo, reta e dura como uma tábua de passar, com um nariz pontudo que dava ao seu rosto um ar meio caprino e com sua voz aguda, o que distinguia Félicie de outras jovens domésticas era a atitude. Félicie não admitia que fosse considerada apenas como a empregada do falecido patrão, deixando no ar a suspeita de que talvez fosse, na verdade, uma filha não assumida. No modesto "bal musette" que frequentava nos finais de semana, enquanto tomava sua limonada, sempre com o dedo mindinho levantado, procurava dar a impressão que estava ali incógnita, como uma condessa disfarçada ou algo assim. Por isso as pessoas do pequeno bairro residencial, espécie de novo condomínio nos arredores de Paris, onde ela vive a chamam de "princesa" ou, por conta das roupas extravagantes que costuma usar para se distinguir das outras mocinhas de sua classe: "la perruche" (periquito). No entanto, as investigações comprovaram que Félicie era um dos sete filhos de um bêbado e de uma lavadeira de Fécamp - lugar miserável cuja descrição corresponde a uma de nossas favelas - que vivera ali até ser admitida na casa na qual era, de fato, empregada.

O que irrita Maigret em Félicie é a permanente encenação. Tudo nela parece fake, teatral e exagerado. Na cena em que se debulha em lágrimas verdadeiras, queixando-se da perseguição que sofre por parte do comissário, ele sabe bem que ela escolhera o lugar, o momento e a pose adequada para tentar mais impressioná-lo. No entanto, o modo como essa sentido de teatralização se confunde com a própria realidade de Félicie só se revela para Maigret quando vê sua reação diante da notícia de que o rapaz que amava tinha sido ferido. Realmente emocionada, Félicie pede a Maigret que a acompanhe ao hospital para vê-lo.

Quando reaparece na sala para sair, está vestida em luto completo, com um enorme véu negro, sob o qual se via seu rosto lívido, pois estava coberto por uma camada espessa de pó de arroz muito claro que dava a ela algo de fantasmagórico. Durante a viagem de trem ao centro de Paris, ela é a expressão do sofrimento contido. Imóvel, hierática, a imagem da dor, com um olhar perdido na distância, era visível, diz o narrador, que desejava que se pensasse dela: "Meu Deus, como ela sofre... e como se domina".

Félicie tinha um senso muito particular da mise en scène. Antes de chegar no hospital, ela insiste em comprar uvas, laranjas, champanhe e um enorme bouquet de lilases para oferecer ao enfermo. Pouco importava que ele não pudesse consumir nenhuma daquelas coisas. Era o gesto que contava: o espetáculo dos grandes cachos de uvas violeta, das laranjas maduras e perfumadas, da garrafa coberta de papel dourado... Ela faz questão de fazer sua entrada triunfal na enfermaria carregado todas aqueles pacotes de coisas caras e exóticas. A cena provoca risos abafados no corredor. Ainda mais porque Felicie, em mais um gesto teatral, possivelmente copiado de algo que vira no cinema, diz a uma das enfermeiras: "Faça tudo que puder para salvá-lo. Não meça despesas. Tome". Entregando-lhe uma nota de mil francos bem dobrada.

Maigret não zombava mais dela. Prestara-se a acompanhá-la pelas ruas de Paris e no hospital como um pai benevolente. E, no entanto, reconhece o narrador, ela nunca tinha sido tão ridícula como naquele momento. Mas, como então compreende Maigret, toda aquela sofisticação encenada, a vontade de se elevar acima dos demais, de ser alguém que se destaca, mesmo correndo o risco do ridículo, de alguma forma é a força que impulsiona meninas como Félicie.

Quantas "Félicies" não conhecemos ao longo da vida? A menina que "não se enxergava" como a gente dizia. Aquela que, apesar da origem modesta, tem o gosto das coisas raras, das roupas e dos ambientes suntuosos. A moça pobre do interior, de nariz empinado que, apesar de não ter nada a seu favor, "se achava", como se diz hoje. Não só "se acha" como encena todas as suas atitudes para que os outros também "achem" algo dela. Lembro como considerávamos isto quase uma afronta. Aqueles arremedos de Blanche Dubois nos despertavam os sentimentos mais inconfessáveis. E, no entanto, em muitos casos, a determinação com que elas se empenharam no papel produzia, no final, um curioso fenômeno: a menina pobre, feia e malfeita transformar-se em modelo de verdadeiras sofisticação, elegância, charme e, até, beleza. Superando a caricatura inicial com que mimetizavam os modelos - ou as sínteses dos vários modelos - que as inspiraram no começo, elas acabaram por se converter realmente em princesas.

Da amizade (13/8/11)

Quando se tem vinte anos, os amigos são tudo. 

Por eles nos arriscamos das formas mais absurdas. Acreditamos, com toda a convicção, que aqueles laços são indestrutíveis, que nunca nos separaremos, que nunca nos trairemos. A facilidade com que trocamos de turma entre o colégio e a faculdade não altera esse sentido da amizade. Ao contrário, é com a entrada na juventude, com toda a sua carga de esperanças, de certezas e de propósitos que este sentido mais se reforça. O ambiente da faculdade com suas agitações, seus encontros e seus debates é o mais propício para formar tais laços e é, muitas vezes, ali que se cria o círculo de pessoas ao qual estaremos ligados ao longo da vida. Como a companhia dos amigos é então indispensável. Como ficamos tristes quando estamos longe deles. Eles se convertem na nossa verdadeira família. Com eles nos sentimos fortes, corajosos, protegidos. Com eles partilhamos o que temos para comer, a nossa casa, o nosso dinheiro. Então, nada recusamos ao nosso amigo.

O fim da faculdade provoca diáspora menos completa do que a vivida com o fim do Segundo Grau, quando mudamos radicalmente de turma. O afastamento agora é gradativo pois as relações vão esfriando com a diminuição da intensidade do convívio. Mas como estamos na mesma carreira dos camaradas, mesmo cada um escolhendo especialização diferente, não há rompimento. As instituições dialogam e os congressos reaproximam. Há rearranjos mas eles não impossibilitam a sintonia com os antigos companheiros. E a vida universitária se prolonga ainda na pós-graduação, mestrado e doutorado que, hoje em dia, qualquer um que almeje seguir uma carreira na sua área tem que cursar. Mas neste novo contexto, já não há aquele sentido de turma. A vida acadêmica cuida mesmo de ir isolando cada um, até por conta de suas reais exigências. No entanto, mesmo servindo de cenário para alguma competição, ela ainda não é o campo de batalha declarado que é o mercado de trabalho. É aí que a noção de amizade, tal como a construímos durante a vida estudantil, sofre verdadeiro colapso.

Afinal, seu colega de repartição é realmente seu amigo como foram os seus colegas de faculdade? Ele também abre mão de algo que deseja para ver você feliz? Ele é desprendido a ponto de lhe ceder a vaga melhor remunerada, até mesmo de sugerir seu nome no lugar do dele? Ele lhe fornece todas as fontes de que você precisa mesmo sendo as mesmas das quais ele se utilizará para a própria pesquisa? Isto falando só no sentido das coisas positivas. Daqueles colegas com os quais você desenvolve uma natural empatia, com os quais se identifica e se sente bem. Falando também daquela expectativa de acolhida que quem sai da faculdade tem quando entra no mundo do trabalho e que provoca tantas decepções, tantos desgostos.

Pois sabemos que o colega, algumas vezes, pode ser qualquer coisa menos teu amigo. É quando aquela antipatia natural e manifesta se converte em franca rivalidade, tornando o dia a dia no trabalho tão árido e pesado. Mas não é desse tipo de colega que quero falar, pois disto já falei há pouco tempo. O que quero falar é da possibilidade da amizade e das formas que ela pode assumir na idade adulta. Foram as amizades que construí no mundo do trabalho que me fizeram refletir sobre o quanto elas ali, mesmo quando afetuosas, são diferentes daquela verdadeira celebração da amizade que vivemos nos tempos de estudante.

Quem trabalha oito horas por dia em um único ambiente, acaba tendo poucas alternativas de vida social. Afinal, a maior parte de sua vida é passada no trabalho. Se tem a sorte de partilhá-lo com pessoas com as quais tenha afinidades intelectuais, pessoas com as quais pode conversar sobre os temas que lhe são mais caros, em perfeita sintonia, num contexto em que a diferença entre as opiniões dá até mais sabor ao debate, essas pessoas acabarão se tornando seus amigos também. A tendência é que, nas reuniões e festas que você promova, eles contem em maior numero do que os amigos de outras origens.

São como pessoas da família e, de maneira até mais assemelhada com uma família do que aquelas amizades da vida estudantil. Pois se na faculdade você pode escolher os colegas com as quais gosta mais de estar, tanto na família quanto no trabalho, a gente sabe que não pode escolher de antemão e que aquelas serão as pessoas com as quais mais terá que conviver todos os dias. Assim, mesmo tendo ressalvas a qualquer aspecto das vidas ou personalidades delas, você acaba aceitando-as, até achando-lhes graça, tal como acha graça das manias de alguns de seus irmãos ou parentes.

Como em um casamento, esse equilíbrio é produto do longo convívio, de uma vida partilhada entre escrivaninhas fixadas lado a lado. Vida na qual alguns conflitos serviram para ajustar as engrenagens, para estabelecer os limites adequados de cada um e que agora, passados tantos anos, forma a base de uma sociedade de respeito mútuo. Somos velhos companheiros de luta, partilhamos as agruras, as expectativas e insatisfações do quotidiano da repartição, passamos muita coisa juntos. Ao contrário dos tempos de estudantes, agora temos interesses que dizem respeito não só ao nosso próprio projeto profissional - que é necessariamente individual e fruto de nossas ambições e de nossos esforços para realizá-las - quanto à nossa subsistência e à de nossa família. Não podemos, nem queremos partilhar nossa casa, nosso salário e nem os riscos a que, por alguma circunstância da vida, o colega se expôs. O que não nos impede de confortá-lo, ajudá-lo e de promover no seio da nossa pequena coletividade, ações para ampará-lo até materialmente, se preciso for. São amizades sóbrias e limitadas por essas circunstâncias. Mas são também reais, duradouras e confortáveis.

Da inveja (6/8/11)

Há alguns anos era bem comum ver pelas ruas das cidades automóveis com um adesivo: "a inveja é uma m...". O irônico da coisa é que alguns carros que os traziam eram tão velhos e destroçados que não faziam inveja a ninguém. A inveja é sentimento tão sombrio que tem algo de negativamente mágico, de sortilégio que, na tradição popular se converte em: olho-gordo, olho-de-seca-pimenteira, mau-olhado ou "malocchio" como dizem os italianos. E quando este recai sobre alguém, sai de baixo. Um monte de coisas ruins pode acontecer. É correr para ser benzido pelos frades Barbadinhos ou para tomar uns passes no pai-de-santo, ou ainda recorrer a alguma "simpatia" que, como o nome está dizendo, deve ser o melhor antídoto contra a inveja.
 

 A inveja se traveste e, em geral, o invejoso não se dá conta de que aquela profunda aversão que sente contra alguém é, na verdade, a mais genuína e furiosa inveja. O alvo da inveja passa a ser uma obsessão e todas as suas atitudes são observadas com uma lupa: não me cumprimentou pelo aniversário; não chamou para sua festa; não me citou no discurso; riu da piada de não sei quem e não da minha, etc. etc. etc. É a maneira de tentar achar no outro as razões que justifiquem aquele incomodo sentimento que atormenta tanto quanto uma úlcera.
O verdadeiro invejoso não é o cara que deseja ter o que você tem ou o que você conquistou. É aquele que não quer que você tenha de jeito nenhum. Que fica revoltado porque foi você e não ele quem venceu. Isto sim, é inveja. Mario Bag sentiu esse olhar invejoso na pele quando lançou seu primeiro livro infantil no começo dos anos 1990. Até então conhecido como ilustrador de capas de discos, ele se aventurava pela primeira vez, e com muito bom resultado, na literatura infantil, escrevendo e ilustrado seu próprio livro. Quando apareceu em uma das gravadoras convidando para o lançamento, um "amigo" ficou possesso: "Como você vai lançar um livro? Não é possível. Você não tem preparo para isto. Eu é que deveria lançar livro, eu é que escrevo peças, poesias, que conheço os clássicos da literatura." Mario Bag riu e falou: "tu tá é no recalque". Quando ele me contou essa história, arrematou: "a inveja do cara era tão nítida que podia ser fotografada".
 

Certa vez, na casa de Plínio Doyle, em um dos famosos sabadoyles, começou-se a contar histórias sobre um historiador que fora um notório invejoso. Américo Jacobina Lacombe lembrou que, em uma ocasião, estando ele e o dito historiador em Nova York, foram visitar Gilberto Amado que ali vivia há alguns anos e que, de lá, vinha mandando para José Olympio os originais dos tantos volumes de suas memórias. Quando os dois jovens amigos se despediam, Gilberto virou para o Lacombe e pediu: "Lacombe, você pode levar para o José Olympio os originais deste volume das minhas memórias?". Lacombe, concordou, é claro. Mas, mal chegara à saída do prédio, teve que ouvir do amigo o protesto: "Mas porque ele escolheu você para levar a encomenda e não a mim?". Imagine você - completou Lacombe - o sujeito ter inveja de não ter sido escolhido para levar um pacote?
 

E logo apareceram outros para narrar mais episódios envolvendo o mesmo invejoso. Durante a ditadura de Salazar, uma comissão de intelectuais brasileiros foi selecionada para participar de algum evento em Lisboa. Como também estávamos aqui em regime de exceção, os nomes daqueles que eram considerados suspeitos foram excluídos. O do historiador invejoso não foi e ele protestou: "como eu não fui excluído se sou muito mais de esquerda do que fulaninho?". Consta que o mesmo também reclamara muito com a editora que publicara os livros dele e o da mulher pois a capa do único que ela lançara até então era mais bonita que as dos seus.
 

A inveja entre marido e mulher pode se confundir com o ciúme mas é coisa bem diferente. Tive um amigo escritor bem mais velho, com o qual me correspondia há anos, sem que a mulher, também escritora, demonstrasse qualquer ciúme, ao contrário, via nossa amizade até com certa benevolência. Era eu então uma jovem estudante em começo de carreira. No entanto, com o passar do tempo e com o espaço que comecei a ocupar no meio acadêmico e na imprensa, escrevendo resenhas e críticas de livros, houve uma curiosa mutação. Em um jantar em que estivemos juntos fomos protagonistas de cena das mais impressionantes. Diante do ar constrangido do meu pobre amigo, a mulher começou a se queixar de que, depois que casara, ninguém mais a reconhecia; que produzia muito e publicara tantos livros mas que todo o mundo só dava valor ao marido e que passaram a vê-la apenas como mulher dele. Foi algo tão inusitado que eu precisei lembrá-la do tanto de gente que a admirava, que a citava, que a convidava para conferências.
 

Aquela não foi um manifestação de ciúmes por conta da minha amizade com o marido, com o qual eu tinha total empatia. Admirava sua inteligência luminosa e seu notável senso de humor em que se combinavam, a um só tempo, a ironia e a delicadeza. Ela também era inteligente e interessante, mas, de fato, nem o que ela fazia, nem sua maneira de ser tinham nada a ver comigo. E ela morria de inveja dele por causa disto. Queria que eu a admirasse no lugar de admirá-lo.
 

Mas a inveja pode também ser até uma forma de elogio. É quando você sabe que um amigo vai fazer uma viagem maravilhosa; ou foi escolhido para um trabalho sensacional; ou vive uma história da amor perfeita e diz com a maior sinceridade: que inveja! Aí a inveja não é inveja verdadeira e sim admiração disfarçada. É uma forma encabulada de dizer: eu adoraria estar vivendo isto que você está vivendo, mas eu estou muito feliz e, de certa forma, o seu sucesso é o meu também porque tenho a sorte de ser seu amigo.