Uma das últimas novelas de Simenon que li tendo o comissário Maigret como protagonista foi "Felicie est lá". A trama é um pouco confusa mas, como em outras novelas de Maigret, ela tem menos importância do que a construção dos tipos, do que o ambiente em que o crime aconteceu e do que a história que o antecedeu. A necessidade que Maigret tem de mergulhar profundamente na cena do crime e de se confundir tanto com os investigados a ponto de poder entender exatamente suas motivações é que compõem quase todo o corpo da narrativa. E são ainda as reações do próprio Maigret, seus humores variados, seus silêncios que lhe dão a maior parte da graça.
Em "Felicie est là" todo o enigma a ser desvendado por Maigret se concentra no personagem feminino que dá nome à novela. Esse personagem que tanto irrita Maigret, que tanto lhe parece ridículo nos primeiros contatos, vai ganhando consistência sem que altere um só aspecto de sua peculiar personalidade. É o comissário que, de um momento para outro, se vê envolvido e fascinado por aquela empregadinha de 24 anos, sempre maquilada com uma mistura de pó e rouge mal distribuída e vestida de forma ridícula: "aux vêtements baroques". Com seus ares soberanos, toda vez que fornece alguma informação, Félicie, verdadeira estátua da indignação, o faz de "très haut", como a mulher de Cesar que não pode ser nunca suspeitada.
Magra como um aspargo, reta e dura como uma tábua de passar, com um nariz pontudo que dava ao seu rosto um ar meio caprino e com sua voz aguda, o que distinguia Félicie de outras jovens domésticas era a atitude. Félicie não admitia que fosse considerada apenas como a empregada do falecido patrão, deixando no ar a suspeita de que talvez fosse, na verdade, uma filha não assumida. No modesto "bal musette" que frequentava nos finais de semana, enquanto tomava sua limonada, sempre com o dedo mindinho levantado, procurava dar a impressão que estava ali incógnita, como uma condessa disfarçada ou algo assim. Por isso as pessoas do pequeno bairro residencial, espécie de novo condomínio nos arredores de Paris, onde ela vive a chamam de "princesa" ou, por conta das roupas extravagantes que costuma usar para se distinguir das outras mocinhas de sua classe: "la perruche" (periquito). No entanto, as investigações comprovaram que Félicie era um dos sete filhos de um bêbado e de uma lavadeira de Fécamp - lugar miserável cuja descrição corresponde a uma de nossas favelas - que vivera ali até ser admitida na casa na qual era, de fato, empregada.
O que irrita Maigret em Félicie é a permanente encenação. Tudo nela parece fake, teatral e exagerado. Na cena em que se debulha em lágrimas verdadeiras, queixando-se da perseguição que sofre por parte do comissário, ele sabe bem que ela escolhera o lugar, o momento e a pose adequada para tentar mais impressioná-lo. No entanto, o modo como essa sentido de teatralização se confunde com a própria realidade de Félicie só se revela para Maigret quando vê sua reação diante da notícia de que o rapaz que amava tinha sido ferido. Realmente emocionada, Félicie pede a Maigret que a acompanhe ao hospital para vê-lo.
Quando reaparece na sala para sair, está vestida em luto completo, com um enorme véu negro, sob o qual se via seu rosto lívido, pois estava coberto por uma camada espessa de pó de arroz muito claro que dava a ela algo de fantasmagórico. Durante a viagem de trem ao centro de Paris, ela é a expressão do sofrimento contido. Imóvel, hierática, a imagem da dor, com um olhar perdido na distância, era visível, diz o narrador, que desejava que se pensasse dela: "Meu Deus, como ela sofre... e como se domina".
Félicie tinha um senso muito particular da mise en scène. Antes de chegar no hospital, ela insiste em comprar uvas, laranjas, champanhe e um enorme bouquet de lilases para oferecer ao enfermo. Pouco importava que ele não pudesse consumir nenhuma daquelas coisas. Era o gesto que contava: o espetáculo dos grandes cachos de uvas violeta, das laranjas maduras e perfumadas, da garrafa coberta de papel dourado... Ela faz questão de fazer sua entrada triunfal na enfermaria carregado todas aqueles pacotes de coisas caras e exóticas. A cena provoca risos abafados no corredor. Ainda mais porque Felicie, em mais um gesto teatral, possivelmente copiado de algo que vira no cinema, diz a uma das enfermeiras: "Faça tudo que puder para salvá-lo. Não meça despesas. Tome". Entregando-lhe uma nota de mil francos bem dobrada.
Maigret não zombava mais dela. Prestara-se a acompanhá-la pelas ruas de Paris e no hospital como um pai benevolente. E, no entanto, reconhece o narrador, ela nunca tinha sido tão ridícula como naquele momento. Mas, como então compreende Maigret, toda aquela sofisticação encenada, a vontade de se elevar acima dos demais, de ser alguém que se destaca, mesmo correndo o risco do ridículo, de alguma forma é a força que impulsiona meninas como Félicie.
Quantas "Félicies" não conhecemos ao longo da vida? A menina que "não se enxergava" como a gente dizia. Aquela que, apesar da origem modesta, tem o gosto das coisas raras, das roupas e dos ambientes suntuosos. A moça pobre do interior, de nariz empinado que, apesar de não ter nada a seu favor, "se achava", como se diz hoje. Não só "se acha" como encena todas as suas atitudes para que os outros também "achem" algo dela. Lembro como considerávamos isto quase uma afronta. Aqueles arremedos de Blanche Dubois nos despertavam os sentimentos mais inconfessáveis. E, no entanto, em muitos casos, a determinação com que elas se empenharam no papel produzia, no final, um curioso fenômeno: a menina pobre, feia e malfeita transformar-se em modelo de verdadeiras sofisticação, elegância, charme e, até, beleza. Superando a caricatura inicial com que mimetizavam os modelos - ou as sínteses dos vários modelos - que as inspiraram no começo, elas acabaram por se converter realmente em princesas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário