"Complicada e perfeitinha/ Você me apareceu/ Era tudo que eu queria/ Estrela da sorte/ Quando a noite ela surgia/ Meu bem você cresceu/ Meu namoro é na folhinha/ Mulher de fases."
A música dos Raimundos era bobinha e os versos são meio de pé-quebrado mas animaram muita festinha na década passada. E só agora me dei conta de como ela define bem algumas mulheres que conheço: "mulheres de fases", mulheres instáveis que mudam de sentimento de uma forma tão radical que desconcertam totalmente o sujeito apaixonado.
Na verdade, muita gente - homem ou mulher - é um pouco assim quando jovem. Conhece uma pessoa. Encanta-se. Teme não ser correspondido. É correspondido - que maravilha! Começa a namorar. Perfeição. Você não quer sair de perto e ele- que incrível - também não quer largar você nenhum segundo sequer. Que bom. Aí é que começam os problemas.
Foi rápido demais, fácil demais e intenso demais. Gastou logo. Um dos dois vai enjoar de tanto amor e outro vai ficar sobrando. Normal. Afinal a gente tem vinte anos e depois de umas tantas situações assim começa a ir mais devagar com o andor. Mas e quem tem 50 e continua na mesma?
Tenho algumas amigas assim: de paixões intensas, às vezes inconscientemente motivadas por interesses bem diversos das coisas do amor, cinderelas acima da idade que ainda acham que os homens podem resolver todos os seus problemas. Aí, quando conhecem algum que cabe na moldura apaixonam-se de imediato e não medem esforços para conquistar o objeto do desejo. Determinadas, acabam conquistando-o mesmo. No entanto, a intensidade do começo da relação é diretamente proporcional ao tédio que delas se apodera quando tudo fica estável, tranquilo, enfim, quando vira casamento. Conheço uma que, sendo uma linda mulher quando chega nessa fase, enfeia, engorda, se desleixa e mergulha em profunda melancolia, em total desânimo. A esse estado geralmente se segue um outro que é o da revisão crítica das qualidades do parceiro.
Nesse momento é que tudo se torna motivo de conflito entre o casal. Conflitos que, mesmo motivados por coisas insignificantes, se tornam inconciliáveis. Daí, o desejo de separação passa a ser nela um desejo tão intenso quanto o fora o desejo de união.
O outro não entende nada e insiste e sofre e se sente péssimo. Resiste a aceitar que tanto amor tenha se transformada em tanta rejeição. Mas o empenho da nossa heroína em se livrar do gajo tem a mesma intensidade que tivera o seu empenho em atraí-lo e ele acaba saindo de casa. É então que ela floresce, fica novamente bonita, magra, radiosa e feliz. Confiante e destemida monta logo uma nova casa, faz novos amigos e dentre eles, descobre outro cara que, nos garante, é a pessoa certa para ela, verdadeira alma gêmea pela qual logo se apaixona, a quem seduz, a quem convence de casar. Os amigos que já viram esse filme tantas vezes sabem que o ciclo todo vai se repetir.
Há uma variante que é quando a história se repete com o mesmo homem. E isto, em geral acontece quando ele, que se separara triste e com a vida desorganizada, começa a se recuperar e a sair com outra pessoa. É então que nossa amiga enlouquece. Pois algumas mulheres inverteram o velho jogo masculino da traição.
Têm uma vida sexual animada por muitos casos, namoros, etc. sem prejuízo da ligação duradoura e estável com a pessoa com a qual estejam realmente envolvidas. E não se trata de relações abertas pois uma coisa que esse tipo de mulher não suporta, nem perdoa é traição. Por algum mecanismo inexplicável ela, mesmo tendo sentido por ele, pouco tempo antes, total repulsa, não suporta a ideia de vê-lo nos braços de outra. É quando descobre que nunca deixou de amá-lo e vai a luta para trazê-lo de volta.
Aí, vale tudo, lágrimas, sedução, chantagem... Se houver filhos no meio, eles - os mesmos que antes precisavam que o pai saísse de casa pois não aguentavam ver as brigas - agora, segundo ela, estão sofrendo muito com a ausência do pai.
O sujeito resiste. Gato escaldado não quer sofrer de novo e tenta evitar de todas as maneiras ser novamente atraído para a mesma armadilha. Mas a força de vontade da mulher de fases é impressionante e ela vence mais uma vez. A história podia terminar aí, não é mesmo? Final feliz. Mas não é assim com essas mulheres, elas podem repetir esse script uma infinidade de vezes com o mesmo par ou com outros pares. Podem organizar a vida toda em torno desse amor (montar apartamento ou mudar-se para a casa da outra pessoa) para, em poucos meses, descobrir que não é nada disto, se separar e organizar rapidamente a vida em outra casa.
Pareceria apenas um jogo egoísta se, do lado das mulheres de fases, não houvesse também um dispêndio enorme de energia, de sofrimento e mesmo de recursos materiais. Pois a cada casamento e a cada separação, são móveis e eletrodomésticos que ficam pelo caminho. Fora a vida dos filhos, alterada, instável marcada pelas tantas mudanças de casa e de presença masculina ao lado da mãe. O que me espanta nesse movimento de eterno retorno não é tanto o egoísmo da situação mas a incapacidade de aprender com a experiência.
O desconhecimento dos próprios mecanismos internos e a compulsão que leva a tentar de novo e a mergulhar de cabeça, confiando que desta vez vai ser diferente. A paixão vivida assim é como uma droga de cujo prazer não se consegue privar mas que, quando o efeito vai passando precisa-se imediatamente de outra dose.
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