Eu fico com essa dor / Ou essa dor tem que morrer/A dor que nos ensina/ E a vontade de não ter/Sofrer de mais que tudo/ Nós precisamos aprender/ Eu grito e me solto/ Eu preciso aprender/ Curo esse rasgo ou ignoro qualquer ser/ Sigo enganado ou enganando meu viver/ Pois quando estou amando é parecido com sofrer/ Eu morro de amores/ Eu preciso aprender.... - Luiz Melodia
Não fique triste, fique com tudo.
Dizem que este foi o conselho que Ivana Trump deu a mulheres que foram trocadas pelo marido por outra mais jovem ou não. O marido, no seu caso, era um biliardário e a vingança de Ivana consistia em tirar o máximo do que pudesse para ferir o traidor onde mais lhe doeria: na conta bancária. No entanto, o conselho também serve para quem não se separou de marido rico se pensarmos em um "tudo" metafórico.
Separar é sempre difícil. Para quem tomou a decisão, menos. Apesar da dúvida permanente sobre se era isto mesmo que deveria fazer, quem decidiu sair de uma relação está mais preparado para enfrentar o que vem depois. Afinal, antes de dizer que queria terminar, pensou, refletiu, apalpou-se bem. O outro, não. Sentia que não havia mais aquele entusiasmo inicial mas também não imaginava que as coisas chegassem a esse ponto. Ou talvez até imaginasse. Talvez até soubesse que era inevitável. Apenas como não era este o seu desejo, ficava, tentando ao máximo evitar situações de conflito para adiar o desfecho fatal.
Mas este dia chegou e você se viu sozinha, sem programa para o final de semana, sem aqueles telefonemas de final de noite, sem a companhia permanente dos últimos tempos: um enorme vazio a ser preenchido. Os primeiros dias são os mais difíceis e a tendência de procurar a causa em você mesma é grande. É porque sou feia; é porque sou gorda; é porque sou malfeita; é porque falo alto; é porque sou sem graça... Mesmo que nada disto seja verdade. Aí, na sequencia, a autoestima vai pro brejo. De um lado o "ninguém vai gostar de mim" e de outro o "nunca mais vou conquistar alguém tão especial".
Às vezes, você mesma nem achava isto tudo quando estavam juntos. Até achava ele meio tolo, meio chato e, naquelas fases em que ele era totalmente obcecado por você, precisava até mandá-lo passear de vez em quando para ter um tempinho só para você. Bem: agora que você tem todo o tempo do mundo só para você, que saudades. A tendência é buscar consolo para a dor e mergulhar em um frenesi de festas, encontros, namoricos rápidos. Mas isto não resolve e esses namoricos rápidos tendem a deixar a gente até mais infeliz. O ideal é mesmo viver um pouco o luto da separação e organizar a cabeça.
É preciso seguir em frente e a melhor forma de fazê-lo é solidarizar-se consigo mesma. Buscar em você e nas suas qualidades, no seu projeto de vida o conforto e a força para seguir em frente. Resgatar a boa imagem que os outros têm de você e, de todas as maneiras, evitar reencontros com o ex cuja imagem idealizada tem que ser desconstruída. Não é preciso transformá-lo em um vilão mas é preciso se convencer que ele não está com essa bola toda. Melhor ainda é preciso trabalhar para nem precisar disto pois vai estar pensando em outra coisa. Como na música do Lulu Santos: "Ainda vai levar um tempo/ Pra fechar / O que feriu por dentro/ Natural que seja assim/ Tanto pra você/ Quanto pra mim.../Ainda leva uma cara/Pra gente poder dar risada/ Assim caminha a humanidade/Com passos de formiga/ E sem vontade.../ Não vou dizer que foi ruim/ Também não foi tão bom assim/ Não imagine que te quero mal/ Apenas não te quero mais...".
Separações são boas para fazermos um balanço do que a gente realmente quer e do que a gente realmente é. Principalmente no começo da vida, quando não temos muita clareza de nada. Demora muito para a gente descobrir que jamais vai formar um todo com outra pessoa. Que ambos vão ser sempre individualidades em constante transformação e sujeitas aos apelos que o mundo lá fora oferece. Mesmo que se ame muito e se tenha a sensação de que se achou a cara metade, a possibilidade do fim paira sempre sobre qualquer relacionamento. Por uma ironia do destino, só depois da maturidade, com a vida definida, carreira estruturada e estabilidade econômica é que a gente está mesmo preparado para viver - não digo um grande amor, pois este é fruto justamente das angústias e expectativas da juventude - mas um bom e equilibrado relacionamento.
Que graça tem isto? Com vinte anos, graça nenhuma. Com vinte antes todas as sensações são intensas e definitivas e a pessoa é até capaz de morrer de amor. Sem mesmo pensar que o amor é apenas um somatório de questões a serem destrinchadas por um bom psicanalista. Questões que têm, às vezes, muito mais a ver com o nosso medo do futuro ou com o lugar que ocupamos no mundo. Então, a pessoa a que estamos ligadas representa um pouco a solução para as nossas inseguranças em quesitos que não têm a ver exatamente com o amor. E aí, a separação pode ser mesmo uma forma de nos fazer ver e de nos fortalecer. Nos convencer de que, apesar da tristeza, temos que seguir em frente. Ou melhor que, seguindo o conselho de Ivana Trump, fiquemos com tudo: tudo o que somos e com todas as nossas infinitas possibilidades. E para fechar com uma outra canção boa para essas horas, fique com Gilberto Gil e seu amor esotérico:
"Não adianta nem me abandonar/ Porque mistério sempre há de pintar por aí/ Pessoas até muito mais vão lhe amar /Até muito mais difíceis que eu prá você/Que eu, que dois, que dez, que dez milhões, todos iguais/ Até que nem tanto esotérico assim/Se eu sou algo incompreensível, meu Deus é mais/ Mistério sempre há de pintar por aí/ Não adianta nem me abandonar (não adianta não)/ Nem ficar tão apaixonada, que nada/ Que não sabe nadar/Que morre afogada por mim".
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