Opiniões divididas
Quando meu filho era pequeno fez aquela clássica pergunta que toda criança faz em algum momento da infância: “Mamãe, Papai Noel existe?” O que responder numa hora destas? pensei eu. Para ganhar tempo devolvi a pergunta: o que você acha? E ele me disse: “Bem, lá na escola tem uma parte que acha que existe e outra parte que acha que não existe”.
Eu daria tudo para ter assistido a esse debate.
Amigo oculto
Todos os anos, quando ainda fazia o primário, a classe do Chico no Centro Educacional Anísio Teixeira – o CEAT - onde ele estudou até ir para a faculdade, tinha um amigo oculto. Todos os anos eu esquecia de comprar o presente. Como a cada nova reimpressão (já está na 13a) do meu livro “Historia dos escravos”, da Companhia das Letrinhas, recebo vinte exemplares, sempre tinha algum comigo que, na última hora, embrulhava para que ele levasse como presente de amigo oculto. Este era sorteado pela professora, com a turma formando um círculo, cada um com seu presente na mão. Da última vez que mandei o meu livrinho perguntei depois ao Chico como tinha sido. Ele me contou que um seu colega, reconhecendo o embrulho de todos os anos, teria murmurado repetidas vezes: “Tomara que não seja eu, tomara que não seja eu!”
Autorama
O sonho de Mario Bag na infância era ganhar um autorama. Uma vez, perto do Natal, ele perguntou ao pai: “Papai, quando é que o senhor vai me dar um autorama?” A resposta foi de seu Mario Mendonça, meu queridíssimo sogro cujo senso de humor terrível tive oportunidade de conhecer, foi: “Quando o Cauby casar”. Daí em diante, era a mãe do Bag que tinha que dar explicações sobre quem era esse tal de Cauby e porque ele ia demorar a casar. Cauby Peixoto, hoje, poderia se casar e ser feliz com quem ele quisesse. Nos anos 1960 era mais complicado.
Bebê barrigudo
Detestei descobrir bem antes de um dos natais de minha infância, escondidos no alto do guarda-roupa, os brinquedos pobres que íamos ganhar: bonecas de plástico, daquelas inteiriças que não mexiam os braços, nem os olhos e o cabelo era integrado, ou seja apenas uma tinta sobre a parte da cabeça feita em relevo do mesmo material para dar a idéia de cabelo. Mas teve um Natal que foi diferente. Talvez papai tenha ganho alguma gratificação no IAPC. Só hoje, quando eu também espero o Natal para receber meu 13o salário, é que esse tipo de coisa me ocorre.
Pois bem, teve um Natal em que meus pais deram para a Clélia uma boneca que era um luxo. Chamava-se Geísa, era loura e magra, deve ter custado caro. O corpo era de louça, braços e pernas articulados, aqueles furinhos no peito para sair o som e os cabelos, louros e encaracolados, eram implantados fio a fio. Creio que tinha olhos azuis, com longas pestanas, que abriam e fechavam. Na mesma ocasião eu ganhei um bebê de louça. Não me lembro de ter ficado com inveja da boneca da Clélia até o momento em que a Chaga – que, junto com a Maria e a Lili, se revezava nos cuidados com os menores dos 13 filhos de seu Costa e d. Dolores - me chamou num canto e disse: Viu, para ela deram uma boneca linda e loura e para você um boneco barrigudo. Acho até que disse que o boneco era barrigudo como eu. Eu fiquei tão chateada que taquei o boneco no chão e quebrei. Era de louça. Fiquei sem presente. Para compensar meus pais compraram um disquinho daqueles compactos coloridos. Engraçado foi que eu adorei o disquinho. Era a história do imperador da China e de seu rouxinol azul. Ouvi um monte de vezes.
Malhas Clélia
Aqui, enquanto digito essa coluna, me preparo para embarcar para mais um Natal em Fortaleza. Ao longo desses 35 anos de Rio de Janeiro devo ter passado no máximo quatro natais longe de casa. Logo que cheguei, em 1977, um ou dois anos depois, já na faculdade, e quando o Chico nasceu, em 1988, pois ele é de 28 de dezembro. O último foi o de 2010 quando estava em Paris por conta da Cátedra Simon Bolívar, IHEAL – Institut des Hautes Estudes de l’Amerique Latine - da Paris 3, que ocupei entre setembro daquele ano e fevereiro do ano seguinte.
Passar o Natal longe da barulheira que é o Natal na casa da dona Dolores é como se, naquele ano, não tivesse tido Natal. Essa festa imensa é regida pela batuta da Clélia. Antes, ela mesma comprava os presentes, escolhendo o que parecia mais adequado a cada um, de modo que, durante a festa, a mamãe fosse entregando. Depois, com o aumento gradativo da família, ficou estabelecida uma cota em dinheiro a ser entregue a cada uma das mães para que compre os presentes do marido e dos filhos e traga na noite de Natal afim de que sejam entregues pela mamãe diretamente ao presenteado.
Mesmo assim, ainda tem aqueles presentes das pessoas que trabalham no Camará, dos prestadores de serviços eventuais e de alguém que não estava no script e que resolveu aparecer. Para estes, Clélia vai ao centro da cidade, na Casa Girão - que ela deu um jeito de descobrir onde ficava, pois na nossa infância na Piedade, a única loja importante que tinha perto de casa, na Avenida Visconde do Rio Branco, era a Casa Girão - e compra um lote de camisetas em boa e resistente malha de algodão.
Mario Bag é um desses convidados que pode ou não aparecer no Natal e que, por isso, não tem presente garantido. Quando aparece pode escolher entre os mais variados tamanhos e cores das camisetas que ele apelidou de “Malhas Clélia”. Como, aliás, apelidou assim todas as obras sociais que ela lidera na família: Bolsa-Clélia, para os pobres da d. Dolores que mensalmente vão lá pedir uma ajuda; Programa Clélia de Valorização da Pessoa – ela sempre tem uma palavra de estímulo para seus amigos de facebook -, Expressobral – empresa que lidera excursões a Sobral e visita a seus pontos históricos. Super-Clélia, aliás, é um personagem criado por ele, sendo tema de várias aventuras em quadrinhos que circulam na família. Ela adora.
Manias (15/12/12)
“Mania é coisa que a gente
tem mas não sabe porque/
Mania de querer bem,
às vezes de falar mal/
Mania de só deitar
depois de ler o jornal/ De contar sempre aumentado
tudo o que viu e que fez/
De guardar fósforo usado
dentro da caixa outra vez/
Eu tenho várias manias,
delas não faço segredo/
Quem pode ver tinta fresca
sem antes passar o dedo?/ De só entrar no chuveiro
cantando a mesma canção/
De só pensar no cinzeiro
depois da cinza no chão/
Mania é coisa que a gente
tem mas não sabe porque
e das manias que eu tenho
uma é gostar de você.” ( Flavio Cavalcanti)
Todo dia, quando vai dormir, mamãe se cobre com um lençol de algodão branco bem levinho. Ela verifica se a costura está para o lado de dentro e se não tiver manda virar, pois não tolera dormir com lençol pelo avesso. Que diferença faz se o lençol é todo branco? Não sei, é mania. Parece que seu pai, o vovô Piano tinha a mesma mania.
“Mania é coisa que a gente tem mas não sabe porque”, como dizia aquela antiga canção cuja autoria, me lembrou Mathilda Kovak, é do polêmico apresentador de TV dos anos 1960, Flavio Cavalcanti. Abro aqui um parêntese para os que nasceram depois. Flávio Cavalcanti tinha um programa na TV, “Um instante, Maestro!” que funcionava como um tipo de tribunal em que compositores e cantores eram postos em julgamento e, se condenados, tinham o disco destruído. Nunca esqueci da vez em que o Flavio Cavalcante quebrou o disco do Vicente Celestino que, creio, já era bem velhinho. Foi uma das cenas mais cruéis da minha infância e, apesar de Mathilda tentar me fazer consertar o passado dizendo que era tudo armação, não adianta. Fico triste só de lembrar dos olhos rasos d’água do Vicente Celestino.
Eu não tenho várias manias como o personagem da música. Ou melhor, eu acho que não tenho. A única que assumo por conta de sua peculiaridade é uma que eu tinha quando era menina e que me acompanhou até a idade adulta: descascar paredes. Aquele tipo de parede sobre a qual a camada da tinta, talvez por já ter sido aplicada muitas vezes, se solta e racha. O prazer consiste em ir arrancando os pedaços. Se a tinta for plástica é menos bacana por que saem aqueles pedações de plástico ou não sai quase nada.
O bom é rachadura pequena na parede pintada com tinta comum, bem sequinha, que você vai tirando com a unha ou com a ajuda de algum objeto tipo espátula. E vai fazendo isto compulsivamente e com absoluta indiferença pelo fato de que a parede ficará horrível. Na infância, eu podia ficar horas arrancando os pedaços de tinta, deixando aquela sujeirada no chão e a parede exposta como um grande ferida. Na sala da Piedade, sobre um espaço assim fiz uns desenhos a lápis. Curiosamente, papai que se chateava com esse tipo de dano porque sempre sobrava para ele providenciar o conserto, deixou meus desenhos lá. Acho que gostou, ou pensou que eu levava jeito e ficou com medo de que, pintando logo a parede, eu me sentisse desestimulada para seguir uma possível vocação. Enfim, eu disse que tenho essa mania porque ainda hoje é um custo me conter diante de uma parede com aquele pedaço de tinta pedindo para ser arrancado. Fico com água na boca. Só não começo a descascar porque hoje seria eu e não o papai quem teria que mandar pintar.
Creio que essa minha mania é aparentada daquela que muita gente boa tem de ficar estourando bolhinha de plástico-bolha até doerem-lhes os dedos. De onde vem isto? Porque? Sei lá. Não serve para nada. Mas esse tipo de mania é quase coisa de foro íntimo, pois só quem convive com você no dia-a-dia vai descobrir. Manias complicadas são aquelas da conversação, aqueles cacoetes que a pessoa desenvolve sem notar e que se tornam um problema. Tem mania mais chata do que aquela das pessoas que antecipam o final da palavra que você vai dizer? Você está contando uma história e antes de terminar a frase seu interlocutor fala a última palavra ao mesmo tempo que você. Acho que isto é uma forma de ansiedade, uma espécie de vontade de ajudar o outro ou de fazer com que ele termine logo.
Mario Bag tem um amigo que quando conta alguma coisa que lhe aconteceu ou que fez cuja quantidade é incomum, inclui na narrativa uma pergunta do tipo: “Sabe quantas injeções eu tomei, sabe?” Ao que o interlocutor que, de fato, nem imagina, nem está tão interessado assim em saber, diz: “não” para ver se o amigo diz logo quantas foram. Mas aí é que está a parte maníaca da conversa. O narrador não se conforma e insiste: “chuta aí, chuta aí”. Você se recusa: “sei lá...” Ele insiste de novo: “Não: chuta aí, chuta aí, vai”. Esperando com a resposta encerrar o papo chato você chuta: “dez!” para ouvir o amigo contradizer triunfante, comemorando sua derrota: “quinze, meu camarada, quinze injeções.” Ou seja, fosse qual fosse a sua resposta ele ia dar um jeito de você errar, pois essa é a dinâmica da conversa dele.
De manias é feita a vida da gente. E, com o passar do tempo elas vão se tornando algo tão próprio da sua natureza que você até esquece que o resto da humanidade não age da mesma maneira. Nem todo o mundo acorda de manhã e corre para ler o jornal. Poucos são os que guardam fósforo usado dentro da caixa outra vez, (essa eu já tive mas foi por imitação, parei). Apesar de minha mania com tinta, jamais tive o impulso de passar o dedo em tinta fresca.
Tive uma vez um namorado que, há vários anos, guardava jornais que pretendia ler um dia. As pilhas se acumulavam nos cantos da sala, nas gavetas e sobre a mesa, com aquela poeira preta característica que o jornal velho cria. Em curta temporada que passei na casa dele, resolvi dar uma organizada, aproveitei sua ausência e joguei boa parte daquela tralha fora. Foi um deus-nos-acuda e creio que contribuiu para o rápido desfecho do nosso relacionamento. Também, que mania essa minha de querer arrumar os papéis velhos dos outros quando nos meus ninguém toca? Tremendo autoritarismo. Há que respeitar as manias de cada um.
Todo dia, quando vai dormir, mamãe se cobre com um lençol de algodão branco bem levinho. Ela verifica se a costura está para o lado de dentro e se não tiver manda virar, pois não tolera dormir com lençol pelo avesso. Que diferença faz se o lençol é todo branco? Não sei, é mania. Parece que seu pai, o vovô Piano tinha a mesma mania.
“Mania é coisa que a gente tem mas não sabe porque”, como dizia aquela antiga canção cuja autoria, me lembrou Mathilda Kovak, é do polêmico apresentador de TV dos anos 1960, Flavio Cavalcanti. Abro aqui um parêntese para os que nasceram depois. Flávio Cavalcanti tinha um programa na TV, “Um instante, Maestro!” que funcionava como um tipo de tribunal em que compositores e cantores eram postos em julgamento e, se condenados, tinham o disco destruído. Nunca esqueci da vez em que o Flavio Cavalcante quebrou o disco do Vicente Celestino que, creio, já era bem velhinho. Foi uma das cenas mais cruéis da minha infância e, apesar de Mathilda tentar me fazer consertar o passado dizendo que era tudo armação, não adianta. Fico triste só de lembrar dos olhos rasos d’água do Vicente Celestino.
Eu não tenho várias manias como o personagem da música. Ou melhor, eu acho que não tenho. A única que assumo por conta de sua peculiaridade é uma que eu tinha quando era menina e que me acompanhou até a idade adulta: descascar paredes. Aquele tipo de parede sobre a qual a camada da tinta, talvez por já ter sido aplicada muitas vezes, se solta e racha. O prazer consiste em ir arrancando os pedaços. Se a tinta for plástica é menos bacana por que saem aqueles pedações de plástico ou não sai quase nada.
O bom é rachadura pequena na parede pintada com tinta comum, bem sequinha, que você vai tirando com a unha ou com a ajuda de algum objeto tipo espátula. E vai fazendo isto compulsivamente e com absoluta indiferença pelo fato de que a parede ficará horrível. Na infância, eu podia ficar horas arrancando os pedaços de tinta, deixando aquela sujeirada no chão e a parede exposta como um grande ferida. Na sala da Piedade, sobre um espaço assim fiz uns desenhos a lápis. Curiosamente, papai que se chateava com esse tipo de dano porque sempre sobrava para ele providenciar o conserto, deixou meus desenhos lá. Acho que gostou, ou pensou que eu levava jeito e ficou com medo de que, pintando logo a parede, eu me sentisse desestimulada para seguir uma possível vocação. Enfim, eu disse que tenho essa mania porque ainda hoje é um custo me conter diante de uma parede com aquele pedaço de tinta pedindo para ser arrancado. Fico com água na boca. Só não começo a descascar porque hoje seria eu e não o papai quem teria que mandar pintar.
Creio que essa minha mania é aparentada daquela que muita gente boa tem de ficar estourando bolhinha de plástico-bolha até doerem-lhes os dedos. De onde vem isto? Porque? Sei lá. Não serve para nada. Mas esse tipo de mania é quase coisa de foro íntimo, pois só quem convive com você no dia-a-dia vai descobrir. Manias complicadas são aquelas da conversação, aqueles cacoetes que a pessoa desenvolve sem notar e que se tornam um problema. Tem mania mais chata do que aquela das pessoas que antecipam o final da palavra que você vai dizer? Você está contando uma história e antes de terminar a frase seu interlocutor fala a última palavra ao mesmo tempo que você. Acho que isto é uma forma de ansiedade, uma espécie de vontade de ajudar o outro ou de fazer com que ele termine logo.
Mario Bag tem um amigo que quando conta alguma coisa que lhe aconteceu ou que fez cuja quantidade é incomum, inclui na narrativa uma pergunta do tipo: “Sabe quantas injeções eu tomei, sabe?” Ao que o interlocutor que, de fato, nem imagina, nem está tão interessado assim em saber, diz: “não” para ver se o amigo diz logo quantas foram. Mas aí é que está a parte maníaca da conversa. O narrador não se conforma e insiste: “chuta aí, chuta aí”. Você se recusa: “sei lá...” Ele insiste de novo: “Não: chuta aí, chuta aí, vai”. Esperando com a resposta encerrar o papo chato você chuta: “dez!” para ouvir o amigo contradizer triunfante, comemorando sua derrota: “quinze, meu camarada, quinze injeções.” Ou seja, fosse qual fosse a sua resposta ele ia dar um jeito de você errar, pois essa é a dinâmica da conversa dele.
De manias é feita a vida da gente. E, com o passar do tempo elas vão se tornando algo tão próprio da sua natureza que você até esquece que o resto da humanidade não age da mesma maneira. Nem todo o mundo acorda de manhã e corre para ler o jornal. Poucos são os que guardam fósforo usado dentro da caixa outra vez, (essa eu já tive mas foi por imitação, parei). Apesar de minha mania com tinta, jamais tive o impulso de passar o dedo em tinta fresca.
Tive uma vez um namorado que, há vários anos, guardava jornais que pretendia ler um dia. As pilhas se acumulavam nos cantos da sala, nas gavetas e sobre a mesa, com aquela poeira preta característica que o jornal velho cria. Em curta temporada que passei na casa dele, resolvi dar uma organizada, aproveitei sua ausência e joguei boa parte daquela tralha fora. Foi um deus-nos-acuda e creio que contribuiu para o rápido desfecho do nosso relacionamento. Também, que mania essa minha de querer arrumar os papéis velhos dos outros quando nos meus ninguém toca? Tremendo autoritarismo. Há que respeitar as manias de cada um.
Ou é fácil ou é impossível (8/12/12)
Não gostei tanto de “Tropicália” quanto gostei do filme sobre os festivais, “Uma noite em 67”. Aquela agitação excessiva da câmera, os cortes e os efeitos da cor aplicada sobre filmes antigos, tentando dar um ar tropicalista ao documentário confundem e estressam. Mas gostei muito das imagens que, reunidas, refletiam de fato o espírito do tempo. Imagens que eu nunca tinha visto antes ou que tinha visto e não lembrava. Muitas cenas de filme do Cinema Novo que eu nunca tenha assistido. Até porque nunca fui muito fã do Cinema Novo. Gostei das referencias ao teatro Opinião porque assisti suas peças em Fortaleza e foi uma experiência importante na minha vida.
Também gostei de ouvir as músicas, mas isto é um movimento quase automático pois elas estão inscritas na nossa memória afetiva de forma indelével. E é claro, gostei de rever meus ídolos da juventude em seu melhor momento. Senti falta de alguma reflexão mais consistente sobre o tropicalismo que fosse além das imagens e das citações presentes em gravações originais. Senti falta de algo que dissesse um pouco o quanto foi importante para nós a releitura que Caetano, especialmente, promoveu de velhos autores esquecidos e desprezados. Mas tanta gente amiga e inteligente gostou que eu não quero implicar com um filme que tem tantas outras qualidades. Entre elas a de poder inspirar outros filmes que recuperem aquele momento único da história da cultura brasileira e que dá tanto gosto a quem o viveu, reviver.
Neste sentido o filme dos festivais fez muito mais. Especialmente naquelas cenas de bastidores em que, em um mesmo espaço se misturavam Caetano, Gil, Chico, Milton, Edu Lobo, Vandré, Nana, Sidney Miller, Roberto Carlos, os Mutantes... enfim todo o PIB do que a cultura brasileira produziu de melhor até hoje. Tanta gente boa, tanta imaginação e criatividade reunidas nos fazem pensar sobre a arbitrariedade com que é distribuído o talento. Caetano, Gil, Gal e Betânia representam o maior fenômeno no Brasil da reunião de talentos em um mesmo lugar e em uma mesma época. Assim como os meninos de Liverpool. A gente fica se indagando como é que foi possível que surgissem em um mesmo tempo e lugar pessoas tão talentosas, que soubessem dar forma expressiva à sua vocação e que provocassem uma onda tão forte a ponto de impulsionar outros talentos?
Como podem ter se revelado tantos talentos baianos, mineiros, cariocas, paulistas, cearenses, piauienses, pernambucanos e brasileiros em geral naquela mesma década de 1960? Tem a ver também, é verdade, com o fato de que a carreira artística ainda não estava tão industrializada no Brasil. Tem a ver com o fato de que, apesar da ditadura, havia muito mais liberdade criativa, liberdade que, depois seria totalmente castrada pela indústria fonográfica e seus compromissos com o mercado. Investindo nos sucessos certos, no que havia de menos ousado e criativo, a indústria fonográfica conseguiu pasteurizar as mais belas vozes femininas daquele tempo. Elis só escapou porque morreu cedo.
O caráter aleatório do talento é um fenômeno inexplicável. Tem algo de surpreendente e de mágico. Talvez seja efeito de alguma combinação cósmica dos astros ou talvez a explicação esteja na pergunta que um sujeito fez ao Mario Bag a propósito do jeito que ele tinha para o desenho: “você acha que tem a ver com vidas passadas?” Meu saudoso e querido amigo, Antonio Gabriel Nássara, dono de enorme talento em duas áreas: o desenho e a musica tinha uma resposta que resume um pouco essa impressão. Quando lhe perguntaram se era difícil para alguém fazer as músicas que ele fazia, Nassara respondeu que era fácil ou era impossível. Ou seja para quem tem talento é fácil, é facílimo. É só sair batucando o ritmo no tampo da mesa do bar ou mesmo na caixa de fósforo e coisa flui naturalmente, brota sem qualquer dificuldade. Para o que não tem talento nem o apoio da Orquestra Sifônica do Teatro Municipal ajuda.
Quando eu e Clélia éramos meninas, papai comprou um piano Essenfelder de segunda mão para que a gente aprendesse a tocar. Íamos umas três vezes por semana ter aulas na casa de d. Zenaide que ficava ali na Visconde de Rio Branco. Era uma pedreira. Nunca esqueci o tédio daquelas tardes mornas e modorrentas. As escalas repetidas até a exaustão, o método Kohler e a partitura de “Santa Lucia” de nada valeram diante da nossa absoluta falta de talento musical. Comprovado o nosso fiasco, a aulas foram canceladas e o piano ficou ali na sala da casa da Piedade como objeto decorativo. Um dia estava lá o Zé Pintor que sempre que papai tinha algum serviço de pintura para fazer, era chamado. Era o tipo do mulato (ou cafuso), magro, baixo, com os dentes estragados, um ar um tanto malandro, talvez por causa do chapéu que usava no trabalho. Pois bem, Zé Pintor, cujo talento musical se manifestava no repertório que assobiava enquanto pintava paredes, sentou diante do piano, - tenho quase certeza que ele nunca tinha visto um antes - levou a tampa do bicho, olhou para o teclado, sentiu o som das teclas brancas e pretas e, em poucos minutos, começou a tocar alguma coisa como "Cai, cai, balão" ou outra coisa bem popular. Eu fiquei de queixo caído.
Nunca mais vi Zé Pintor mas lembrei dele quando li há alguns anos a história do Cartola, esse gênio da raça, que também foi pintor de paredes. Conta a lenda que, depois de ter feito algum sucesso nos anos 1940, Cartola ficou esquecido até ser redescoberto por Sergio Porto guardando carros em um estacionamento do centro do Rio. Foi esse encontro casual que permitiu a volta e a revelação do que seu repertório tem de melhor. Se não fosse esse encontro... Enfim, talento é muito importante, mas o acaso precisa dar uma mãozinha.
Também gostei de ouvir as músicas, mas isto é um movimento quase automático pois elas estão inscritas na nossa memória afetiva de forma indelével. E é claro, gostei de rever meus ídolos da juventude em seu melhor momento. Senti falta de alguma reflexão mais consistente sobre o tropicalismo que fosse além das imagens e das citações presentes em gravações originais. Senti falta de algo que dissesse um pouco o quanto foi importante para nós a releitura que Caetano, especialmente, promoveu de velhos autores esquecidos e desprezados. Mas tanta gente amiga e inteligente gostou que eu não quero implicar com um filme que tem tantas outras qualidades. Entre elas a de poder inspirar outros filmes que recuperem aquele momento único da história da cultura brasileira e que dá tanto gosto a quem o viveu, reviver.
Neste sentido o filme dos festivais fez muito mais. Especialmente naquelas cenas de bastidores em que, em um mesmo espaço se misturavam Caetano, Gil, Chico, Milton, Edu Lobo, Vandré, Nana, Sidney Miller, Roberto Carlos, os Mutantes... enfim todo o PIB do que a cultura brasileira produziu de melhor até hoje. Tanta gente boa, tanta imaginação e criatividade reunidas nos fazem pensar sobre a arbitrariedade com que é distribuído o talento. Caetano, Gil, Gal e Betânia representam o maior fenômeno no Brasil da reunião de talentos em um mesmo lugar e em uma mesma época. Assim como os meninos de Liverpool. A gente fica se indagando como é que foi possível que surgissem em um mesmo tempo e lugar pessoas tão talentosas, que soubessem dar forma expressiva à sua vocação e que provocassem uma onda tão forte a ponto de impulsionar outros talentos?
Como podem ter se revelado tantos talentos baianos, mineiros, cariocas, paulistas, cearenses, piauienses, pernambucanos e brasileiros em geral naquela mesma década de 1960? Tem a ver também, é verdade, com o fato de que a carreira artística ainda não estava tão industrializada no Brasil. Tem a ver com o fato de que, apesar da ditadura, havia muito mais liberdade criativa, liberdade que, depois seria totalmente castrada pela indústria fonográfica e seus compromissos com o mercado. Investindo nos sucessos certos, no que havia de menos ousado e criativo, a indústria fonográfica conseguiu pasteurizar as mais belas vozes femininas daquele tempo. Elis só escapou porque morreu cedo.
O caráter aleatório do talento é um fenômeno inexplicável. Tem algo de surpreendente e de mágico. Talvez seja efeito de alguma combinação cósmica dos astros ou talvez a explicação esteja na pergunta que um sujeito fez ao Mario Bag a propósito do jeito que ele tinha para o desenho: “você acha que tem a ver com vidas passadas?” Meu saudoso e querido amigo, Antonio Gabriel Nássara, dono de enorme talento em duas áreas: o desenho e a musica tinha uma resposta que resume um pouco essa impressão. Quando lhe perguntaram se era difícil para alguém fazer as músicas que ele fazia, Nassara respondeu que era fácil ou era impossível. Ou seja para quem tem talento é fácil, é facílimo. É só sair batucando o ritmo no tampo da mesa do bar ou mesmo na caixa de fósforo e coisa flui naturalmente, brota sem qualquer dificuldade. Para o que não tem talento nem o apoio da Orquestra Sifônica do Teatro Municipal ajuda.
Quando eu e Clélia éramos meninas, papai comprou um piano Essenfelder de segunda mão para que a gente aprendesse a tocar. Íamos umas três vezes por semana ter aulas na casa de d. Zenaide que ficava ali na Visconde de Rio Branco. Era uma pedreira. Nunca esqueci o tédio daquelas tardes mornas e modorrentas. As escalas repetidas até a exaustão, o método Kohler e a partitura de “Santa Lucia” de nada valeram diante da nossa absoluta falta de talento musical. Comprovado o nosso fiasco, a aulas foram canceladas e o piano ficou ali na sala da casa da Piedade como objeto decorativo. Um dia estava lá o Zé Pintor que sempre que papai tinha algum serviço de pintura para fazer, era chamado. Era o tipo do mulato (ou cafuso), magro, baixo, com os dentes estragados, um ar um tanto malandro, talvez por causa do chapéu que usava no trabalho. Pois bem, Zé Pintor, cujo talento musical se manifestava no repertório que assobiava enquanto pintava paredes, sentou diante do piano, - tenho quase certeza que ele nunca tinha visto um antes - levou a tampa do bicho, olhou para o teclado, sentiu o som das teclas brancas e pretas e, em poucos minutos, começou a tocar alguma coisa como "Cai, cai, balão" ou outra coisa bem popular. Eu fiquei de queixo caído.
Nunca mais vi Zé Pintor mas lembrei dele quando li há alguns anos a história do Cartola, esse gênio da raça, que também foi pintor de paredes. Conta a lenda que, depois de ter feito algum sucesso nos anos 1940, Cartola ficou esquecido até ser redescoberto por Sergio Porto guardando carros em um estacionamento do centro do Rio. Foi esse encontro casual que permitiu a volta e a revelação do que seu repertório tem de melhor. Se não fosse esse encontro... Enfim, talento é muito importante, mas o acaso precisa dar uma mãozinha.
Historias de morte (1/12/12)
"Fulano está?"
"Não, Fulano não está mais entre nós."
"Ah, é? Sabe me dizer onde ele está agora?"
"Passou para o andar de cima."
"Será que dá para você transferir a ligação para lá?"
Mario Bag me garante que o diálogo acima, entre ele e a telefonista de uma agência de propaganda não foi bem assim, mas foi parecido. Pois, de fato esses eufemismos com a morte se prestam a mal-entendidos. Expressões como "foi para um plano superior", "bateu as botas", "esticou as canelas", "partiu desta para a melhor", "está comendo capim pela raiz", não são autoexplicativas.
***
Esta foi o Lustosa que me contou: No interior do Ceará, um sujeito estava muito doente, desenganado. O padre de sua paróquia, velho amigo do doente, procurava confortá-lo lembrando das alegrias que ele, que fora um justo, encontraria no reino dos céus. O paraíso era descrito como um lugar claro e alegre, onde o enfermo se encontraria junto de Nossa Senhora e cercado de anjinhos. Mesmo com essa descrição tão favorável da vida eterna o doente argumentou: "Ô, seu vigário, mas Quixeramobim tá tão bonzim..."
***
Também devo esta ao Lustosa: Duas comadres se encontram no cemitério de Sobral, uma entrando e outra saindo. A que entrava indagou de onde a outra vinha e ela explicou que fora dar uma arrumada no túmulo de seu falecido pai. A amiga perguntou em que parte do cemitério estava enterrado o pai da outra. "Bem, - foi a resposta - fica ali bem no centro da alameda principal, ao lado do bispo fulano e do general sicrano e bem em frente ao mausoléu da família do senador beltrano". Diante disto a outra exclamou: "Mas é um ponto ótimo!".
***
Minha sobrinha, a médica Fabiana Lustosa Corsetti, quando era pequena costumava ir com os pais visitar as velhas tias de sua mãe, no Mondubim. Além de Abigal e Dagmar, irmãs de papai, ainda vivia e ali morava nossa tia-avó, Amélia. Tia Amélia era a irmã solteirona da mãe de papai, D. Vitalina, à qual sobrevivera. Muito velhinha, muito magrinha, ficava quase que o tempo todo deitada na sua pequena cama marca Patente. Fabiana que devia ter então uns oito anos, estava encantada com uma malinha bem pequena, dessas malinhas amarelas de madeira e papelão que se vendem ainda nas feiras do interior e pediu: "Tia Amélia, quando a senhora morrer a senhora deixa essa malinha para mim?". Tia Amélia não gostou e respondeu na lata: "Que morrer o que menina, agora que eu fiz 92 anos".
***
Antes de ser casado com nossa tia Abgail, tio Joaquim tivera uma paixão de juventude que, ao que parece, o tinha muito maltratado, antes de morrer queimada em um incêndio. Funcionário da RFFSA ele costumava se hospedar na casa de uma velha senhora, em uma das estações do trem. A amiga conhecia-lhe as desditas amorosas do passado que lhe foram confiadas pelo viajante nas tantas vezes que ali se hospedou. Numa noite em que dormia no quarto vizinho ao da hospedeira, a alma da finada lhe apareceu junto ao pé da rede, chamando e pedindo: "Joaquim! Tu me perdoas, Joaquim?". Do outro lado da parede, a amiga atenta que ouvira o apelo da alma penada, lhe recomendou: "Perdoa não, Joaquim, que essa mulher foi muito ruim contigo".
***
Outro dia lembrei à mamãe que seu genro, meu falecido compadre, Francisco Edmilson Brito, gostava de brincar com a falta de aptidão dela para a culinária, anunciando-lhe aos domingos que iria almoçar na casa dos sogros para comer a comidinha feita por dona Dolores. Ela sempre lhe repetia: "Você morre e não come uma comida feita por mim". Aos 98 anos, diante dessa lembrança, mamãe observou: "E não é que ele morreu mesmo". Edmilson também teria rido dessa tirada de humor negro da sogra. Talvez uma forma que ela encontrou de demonstrar que sabe quais os que ainda que estão vivos e os que já se foram.
***
Três meninas órfãs, a Chaga, a Lili e a Maria, foram acolhidas pelos meus pais ainda em Sobral. Cresceram conosco, meio irmãs, meio babás, presenças constantes nas nossas vidas. Maria casou-se com quem papai queria, o Antônio Gomes, seu motorista desde o começo dos anos 60, até hoje a serviço de dona Dolores.
Chaga e Lili casaram com dois tipos que papai não aprovava e, como ele previra, não foram muito felizes. Lili, até hoje, de vez em quando, lamenta: "Eu devia ter ouvido o seu Costa, não devia ter me casado com aquele Verdura". Verdura era o apelido do marido dela, de quem eu nunca soube o verdadeiro nome. De fato, a vida da Lili tem sido um rosário de amarguras, apaziguadas até pouco tempo pela bebida, hábito que herdou do longo convívio com o Verdura. O engraçado da história do arrependimento é que seu casamento foi há mais de 50 anos...
Até a morte de papai, quando faltava empregada, a Lili vinha dar uma ajuda à mamãe. Temendo as broncas, ia beber escondido no botequim da esquina, sob o pretexto de comprar cigarros. Papai dizia: "A vida da Lili e desse cachorro é aquele botequim da esquina". É que sempre que ela ia lá, a acompanhava um velho cachorro magro e amarelo, desses cachorros que tem no sertão cearense e que fora parar lá em casa não sei porque, pois não fazia medo a ninguém. Lili vinha embora, mas o cachorro amarelo se deixava ficar lá no boteco sujo em meio aos bêbados que, de tempos em tempos, o enxotavam com um pontapé.
Lili foi a primeira pessoa que sonhou com o papai depois que ele morreu. No seu sonho, ele chegava no portão de nossa casa na Barão de Aracati, bonito, novo, com sua roupa clara, parecendo ter cinquenta anos, e vinha todo alegre falar com dona Dolores. Quando chegou perto, Lili pediu a ele: "Seu Costa, me arrume um trocado para eu comprar um cigarrinho". Ela mesma me contou e contou também do arrependimento que lhe veio quando acordou, porque em vez de pedir uma graça à alma do morto, pedira foi um trocado para comprar cigarro.
***
Creio que eu também fui a primeira pessoa a sonhar com o Lustosa, depois que ele morreu. Estava muito bem, alegre e jovial, vestido com um terno claro, xadrezinho azul. Perguntei se ele estava vivo ou morto e ele ficou meio sem graça, talvez porque a mamãe estivesse do lado e ele não quisesse decepcioná-la. Foi bom sonhar com ele.
"Não, Fulano não está mais entre nós."
"Ah, é? Sabe me dizer onde ele está agora?"
"Passou para o andar de cima."
"Será que dá para você transferir a ligação para lá?"
Mario Bag me garante que o diálogo acima, entre ele e a telefonista de uma agência de propaganda não foi bem assim, mas foi parecido. Pois, de fato esses eufemismos com a morte se prestam a mal-entendidos. Expressões como "foi para um plano superior", "bateu as botas", "esticou as canelas", "partiu desta para a melhor", "está comendo capim pela raiz", não são autoexplicativas.
***
Esta foi o Lustosa que me contou: No interior do Ceará, um sujeito estava muito doente, desenganado. O padre de sua paróquia, velho amigo do doente, procurava confortá-lo lembrando das alegrias que ele, que fora um justo, encontraria no reino dos céus. O paraíso era descrito como um lugar claro e alegre, onde o enfermo se encontraria junto de Nossa Senhora e cercado de anjinhos. Mesmo com essa descrição tão favorável da vida eterna o doente argumentou: "Ô, seu vigário, mas Quixeramobim tá tão bonzim..."
***
Também devo esta ao Lustosa: Duas comadres se encontram no cemitério de Sobral, uma entrando e outra saindo. A que entrava indagou de onde a outra vinha e ela explicou que fora dar uma arrumada no túmulo de seu falecido pai. A amiga perguntou em que parte do cemitério estava enterrado o pai da outra. "Bem, - foi a resposta - fica ali bem no centro da alameda principal, ao lado do bispo fulano e do general sicrano e bem em frente ao mausoléu da família do senador beltrano". Diante disto a outra exclamou: "Mas é um ponto ótimo!".
***
Minha sobrinha, a médica Fabiana Lustosa Corsetti, quando era pequena costumava ir com os pais visitar as velhas tias de sua mãe, no Mondubim. Além de Abigal e Dagmar, irmãs de papai, ainda vivia e ali morava nossa tia-avó, Amélia. Tia Amélia era a irmã solteirona da mãe de papai, D. Vitalina, à qual sobrevivera. Muito velhinha, muito magrinha, ficava quase que o tempo todo deitada na sua pequena cama marca Patente. Fabiana que devia ter então uns oito anos, estava encantada com uma malinha bem pequena, dessas malinhas amarelas de madeira e papelão que se vendem ainda nas feiras do interior e pediu: "Tia Amélia, quando a senhora morrer a senhora deixa essa malinha para mim?". Tia Amélia não gostou e respondeu na lata: "Que morrer o que menina, agora que eu fiz 92 anos".
***
Antes de ser casado com nossa tia Abgail, tio Joaquim tivera uma paixão de juventude que, ao que parece, o tinha muito maltratado, antes de morrer queimada em um incêndio. Funcionário da RFFSA ele costumava se hospedar na casa de uma velha senhora, em uma das estações do trem. A amiga conhecia-lhe as desditas amorosas do passado que lhe foram confiadas pelo viajante nas tantas vezes que ali se hospedou. Numa noite em que dormia no quarto vizinho ao da hospedeira, a alma da finada lhe apareceu junto ao pé da rede, chamando e pedindo: "Joaquim! Tu me perdoas, Joaquim?". Do outro lado da parede, a amiga atenta que ouvira o apelo da alma penada, lhe recomendou: "Perdoa não, Joaquim, que essa mulher foi muito ruim contigo".
***
Outro dia lembrei à mamãe que seu genro, meu falecido compadre, Francisco Edmilson Brito, gostava de brincar com a falta de aptidão dela para a culinária, anunciando-lhe aos domingos que iria almoçar na casa dos sogros para comer a comidinha feita por dona Dolores. Ela sempre lhe repetia: "Você morre e não come uma comida feita por mim". Aos 98 anos, diante dessa lembrança, mamãe observou: "E não é que ele morreu mesmo". Edmilson também teria rido dessa tirada de humor negro da sogra. Talvez uma forma que ela encontrou de demonstrar que sabe quais os que ainda que estão vivos e os que já se foram.
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Três meninas órfãs, a Chaga, a Lili e a Maria, foram acolhidas pelos meus pais ainda em Sobral. Cresceram conosco, meio irmãs, meio babás, presenças constantes nas nossas vidas. Maria casou-se com quem papai queria, o Antônio Gomes, seu motorista desde o começo dos anos 60, até hoje a serviço de dona Dolores.
Chaga e Lili casaram com dois tipos que papai não aprovava e, como ele previra, não foram muito felizes. Lili, até hoje, de vez em quando, lamenta: "Eu devia ter ouvido o seu Costa, não devia ter me casado com aquele Verdura". Verdura era o apelido do marido dela, de quem eu nunca soube o verdadeiro nome. De fato, a vida da Lili tem sido um rosário de amarguras, apaziguadas até pouco tempo pela bebida, hábito que herdou do longo convívio com o Verdura. O engraçado da história do arrependimento é que seu casamento foi há mais de 50 anos...
Até a morte de papai, quando faltava empregada, a Lili vinha dar uma ajuda à mamãe. Temendo as broncas, ia beber escondido no botequim da esquina, sob o pretexto de comprar cigarros. Papai dizia: "A vida da Lili e desse cachorro é aquele botequim da esquina". É que sempre que ela ia lá, a acompanhava um velho cachorro magro e amarelo, desses cachorros que tem no sertão cearense e que fora parar lá em casa não sei porque, pois não fazia medo a ninguém. Lili vinha embora, mas o cachorro amarelo se deixava ficar lá no boteco sujo em meio aos bêbados que, de tempos em tempos, o enxotavam com um pontapé.
Lili foi a primeira pessoa que sonhou com o papai depois que ele morreu. No seu sonho, ele chegava no portão de nossa casa na Barão de Aracati, bonito, novo, com sua roupa clara, parecendo ter cinquenta anos, e vinha todo alegre falar com dona Dolores. Quando chegou perto, Lili pediu a ele: "Seu Costa, me arrume um trocado para eu comprar um cigarrinho". Ela mesma me contou e contou também do arrependimento que lhe veio quando acordou, porque em vez de pedir uma graça à alma do morto, pedira foi um trocado para comprar cigarro.
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Creio que eu também fui a primeira pessoa a sonhar com o Lustosa, depois que ele morreu. Estava muito bem, alegre e jovial, vestido com um terno claro, xadrezinho azul. Perguntei se ele estava vivo ou morto e ele ficou meio sem graça, talvez porque a mamãe estivesse do lado e ele não quisesse decepcioná-la. Foi bom sonhar com ele.
Cartas de mãe (24/11/12)
Jayme Zettel encontrou com Mario Bag na Lagoa indo pra o remo no Botafogo. Conversa vai, conversa vem, Bag explicou a ele que estava adorando o remo, ao contrário do Chico que tinha que ser praticamente forçado a ir nos últimos anos da adolescência. Bag explicou que eu usava todo o tipo de artifícios para convencê-lo a ir, desde a chantagem, passando pela ameaça e chegando até ao suborno. Daí que o Zettel, com aquele seu olhar maroto, comentou baixinho: deve ser terrível ser filho da Isabel. Não pude deixar de rir do comentário e, agora, procurando inspiração para essa crônica, achei nos meus arquivos cartas que escrevi para o meu filho no começo de sua adolescência. Peço desculpas a ele por divulgá-las mas ela em nada o comprometem, só denunciam a mãe superprotetora e um tanto sufocante que ele tem. Mas não sei se hoje se tivesse um filho adolescente, escreveria outra coisa. Seguem abaixo alguns trechos para sua análise:
Querido filho, mesmo você achando que não estou qualificada a dar palpites sobre sua performance junto ao sexo feminino, atrevo-me a dar-lhe alguns conselhos.
1. O princípio de tudo é a autoconfiança, a autoestima, ter uma imagem positiva de si. No seu caso isto é facilitado porque você é realmente um cara alto, bonito, inteligente, boa praça e que tem uma conversa culta e variada. E não sou apenas eu, sua mãe, quem o diz. Essas coisas em si, fazem um homem atraente? Sim, mas precisam ser reforçadas pela confiança nelas. Confie e acredite que você é bacana, que não há motivo algum para ser rejeitado. Se aproxime das pessoas com segurança, sem hesitação. Um bom sorriso de chegada desarma até os mais antipáticos.
As mulheres, mesmo as mais bonitas (ou especialmente essas) são também muito inseguras. Elas também precisam saber que as pessoas gostam delas e as acham bonitas. Elas também têm o maior medo de serem rejeitadas e temendo o serem, adotam uma atitude antipática e distante. Quando aquela garota que não te dava bola aparece com um sujeito sem qualquer encanto você fica se indagando: o que ele tem que eu não tenho? A resposta é: confiança e capacidade de insistir e de seduzir. Por isso seja o primeiro a abordar a garota mais bonita. Dizendo exatamente isto: tudo bem? Sabia que você é a garota mais bonita desse lugar? Se ela fizer gênero, insista um pouquinho, faça ela sorrir dizendo que você faria qualquer loucura por ela. Amor e humor têm tudo a ver.
2. A melhor maneira de se aproximar de uma mulher é olhando para ela e sorrindo. Não tenha medo de olhar. O olhar já ganha a pessoa e evidencia seu interesse. Aprenda a falar com os olhos, a expressar desejo, afeto, interesse só com o olhar. Não tenha medo de olhar. Olhar é mais fácil do que falar. Os olhos, como se diz, são as janelas da alma. E isto vale tanto para expressar o que está dentro da gente quanto para apreender o que vem de fora.
Se a pessoa corresponde ao seu olhar, sorria. Flertar é o primeiro passo para a aproximação. Se a pessoa corresponder ao seu sorriso, não hesite, aproxime-se. E o primeiro papo pode ser mesmo banal: e aí, tudo bem? Mora por aqui? Vem sempre aqui? Diga coisas simpáticas: como ela está linda, como aquela roupa lhe cai bem, como tem os dentes e os cabelos lindos, como a voz dela é sexy... etc. Não tenha medo de revelar seu encantamento. O papo é também uma oportunidade para mostrar como você é um cara que sabe se colocar e, principalmente, como é sensível, capaz de demonstrar real interesse pelo outro. Se tiver oportunidade pegue na mão. O contato físico das mãos pode ser muito sedutor Mesmo se a garota que você está interessado não corresponder de imediato ao seu interesse, insista, mas dose sua presença, não pegue no pé, que é chato. Mande umas mensagens, faça uns cartões, ataque com frases inteligentes em pedacinhos de papel deixados na carteira de escola dela. Se, depois disto tudo você for mesmo rejeitado, deixe pra lá. Tudo bem, nem todo o mundo acha graça nas mesmas pessoas. A rejeição faz parte do jogo. A gente é rejeitado aqui, rejeita outra pessoa ali.
3. Ter umas amigas para conversar é um bom caminho para entender a alma feminina. É muito bacana ter amigas mulheres que confiem em você e que sabem que você é capaz de ouvi-las. O problema desse tipo de relação é que, depois que se estabelece, a gente vira irmãozinho e, a partir daí, é muito difícil mudar o status da relação. Se você está interessado numa garota, deixe isto claro. É melhor levar um fora do que ficar irmãozinho da pessoa que a gente quer. Se ela de todo o modo insistir em fazer confidências, abra o jogo: diga que não está a fim de ouvir aquele papo e que se ela quiser falar sobre vocês dois, você topa. Pode acontecer de você ter uma amiga e seu interesse se modificar. Aí o importante é você, primeiro, ter isto claro na sua cabeça para, em seguida, deixar isto claro para ela. É uma forma de não sofrer e de verificar se você tem alguma chance. Se não tiver, dê um tempinho na amizade até curar.
4. Todos nós, homens e mulheres, somos atraídos pelas pessoas mais complicadas, difíceis e misteriosas. Mas pessoas complicadas tendem a causar sofrimento aos que lhe são próximos. Ou por não saberem o que querem; ou por terem uma necessidade imensa de seduzir as pessoas em geral para se afirmar, pois, sendo inseguras, querem provar a si mesmas que são capazes de se fazerem amar. A literatura e o cinema estão cheios de personagens assim. Ao longo da vida a gente vai encontrar e se envolver com elas. A vontade de mudar ou de ajudar alguém em situação de risco está, muitas vezes, na origem desse tipo de ligação. Mas ninguém muda ninguém. Cada pessoa é dona de seu próprio destino. Pessoas que têm problemas com drogas, com bebida, com jogo, ou as criadoras de caso, que se sentem perseguidas ou vítimas do mundo, são um fardo para quem lhes quer bem.
Querido filho, mesmo você achando que não estou qualificada a dar palpites sobre sua performance junto ao sexo feminino, atrevo-me a dar-lhe alguns conselhos.
1. O princípio de tudo é a autoconfiança, a autoestima, ter uma imagem positiva de si. No seu caso isto é facilitado porque você é realmente um cara alto, bonito, inteligente, boa praça e que tem uma conversa culta e variada. E não sou apenas eu, sua mãe, quem o diz. Essas coisas em si, fazem um homem atraente? Sim, mas precisam ser reforçadas pela confiança nelas. Confie e acredite que você é bacana, que não há motivo algum para ser rejeitado. Se aproxime das pessoas com segurança, sem hesitação. Um bom sorriso de chegada desarma até os mais antipáticos.
As mulheres, mesmo as mais bonitas (ou especialmente essas) são também muito inseguras. Elas também precisam saber que as pessoas gostam delas e as acham bonitas. Elas também têm o maior medo de serem rejeitadas e temendo o serem, adotam uma atitude antipática e distante. Quando aquela garota que não te dava bola aparece com um sujeito sem qualquer encanto você fica se indagando: o que ele tem que eu não tenho? A resposta é: confiança e capacidade de insistir e de seduzir. Por isso seja o primeiro a abordar a garota mais bonita. Dizendo exatamente isto: tudo bem? Sabia que você é a garota mais bonita desse lugar? Se ela fizer gênero, insista um pouquinho, faça ela sorrir dizendo que você faria qualquer loucura por ela. Amor e humor têm tudo a ver.
2. A melhor maneira de se aproximar de uma mulher é olhando para ela e sorrindo. Não tenha medo de olhar. O olhar já ganha a pessoa e evidencia seu interesse. Aprenda a falar com os olhos, a expressar desejo, afeto, interesse só com o olhar. Não tenha medo de olhar. Olhar é mais fácil do que falar. Os olhos, como se diz, são as janelas da alma. E isto vale tanto para expressar o que está dentro da gente quanto para apreender o que vem de fora.
Se a pessoa corresponde ao seu olhar, sorria. Flertar é o primeiro passo para a aproximação. Se a pessoa corresponder ao seu sorriso, não hesite, aproxime-se. E o primeiro papo pode ser mesmo banal: e aí, tudo bem? Mora por aqui? Vem sempre aqui? Diga coisas simpáticas: como ela está linda, como aquela roupa lhe cai bem, como tem os dentes e os cabelos lindos, como a voz dela é sexy... etc. Não tenha medo de revelar seu encantamento. O papo é também uma oportunidade para mostrar como você é um cara que sabe se colocar e, principalmente, como é sensível, capaz de demonstrar real interesse pelo outro. Se tiver oportunidade pegue na mão. O contato físico das mãos pode ser muito sedutor Mesmo se a garota que você está interessado não corresponder de imediato ao seu interesse, insista, mas dose sua presença, não pegue no pé, que é chato. Mande umas mensagens, faça uns cartões, ataque com frases inteligentes em pedacinhos de papel deixados na carteira de escola dela. Se, depois disto tudo você for mesmo rejeitado, deixe pra lá. Tudo bem, nem todo o mundo acha graça nas mesmas pessoas. A rejeição faz parte do jogo. A gente é rejeitado aqui, rejeita outra pessoa ali.
3. Ter umas amigas para conversar é um bom caminho para entender a alma feminina. É muito bacana ter amigas mulheres que confiem em você e que sabem que você é capaz de ouvi-las. O problema desse tipo de relação é que, depois que se estabelece, a gente vira irmãozinho e, a partir daí, é muito difícil mudar o status da relação. Se você está interessado numa garota, deixe isto claro. É melhor levar um fora do que ficar irmãozinho da pessoa que a gente quer. Se ela de todo o modo insistir em fazer confidências, abra o jogo: diga que não está a fim de ouvir aquele papo e que se ela quiser falar sobre vocês dois, você topa. Pode acontecer de você ter uma amiga e seu interesse se modificar. Aí o importante é você, primeiro, ter isto claro na sua cabeça para, em seguida, deixar isto claro para ela. É uma forma de não sofrer e de verificar se você tem alguma chance. Se não tiver, dê um tempinho na amizade até curar.
4. Todos nós, homens e mulheres, somos atraídos pelas pessoas mais complicadas, difíceis e misteriosas. Mas pessoas complicadas tendem a causar sofrimento aos que lhe são próximos. Ou por não saberem o que querem; ou por terem uma necessidade imensa de seduzir as pessoas em geral para se afirmar, pois, sendo inseguras, querem provar a si mesmas que são capazes de se fazerem amar. A literatura e o cinema estão cheios de personagens assim. Ao longo da vida a gente vai encontrar e se envolver com elas. A vontade de mudar ou de ajudar alguém em situação de risco está, muitas vezes, na origem desse tipo de ligação. Mas ninguém muda ninguém. Cada pessoa é dona de seu próprio destino. Pessoas que têm problemas com drogas, com bebida, com jogo, ou as criadoras de caso, que se sentem perseguidas ou vítimas do mundo, são um fardo para quem lhes quer bem.
O primeiro ano do resto de nossas vidas (17/11/12)
Ontem, conversando com mamãe, perguntei-lhe se Iazinha já tinha morrido. Iazinha era uma prima dela que morava em algum lugar para os lados da Lauro Maia, creio eu e que a gente visitava de tempos em tempos. Tenho vaga lembrança da casa e do resto de sua família mas lembro bem de sua cara larga, meio quadrada, tão paraibana e tão característica das mulheres da família de mamãe. Eu não tinha como saber se Iazinha morrera, desconfiava que sim e perguntei até para puxar assunto. Mamãe respondeu que não e ficou indignada com a possibilidade da prima, a que era mais chegada, ter morrido sem que lhe tivessem contado. Mais tarde, chegou a Dadal e ficou confirmado que de fato a Iazinha já tinha morrido há muito tempo. Mamãe é que tinha esquecido.
Mas mesmo com esses lapsos de memória - afinal são 98 anos - a cabeça de mamãe continua excelente. Ela é capaz de lembrar telefones, datas, de fazer humor às custas dos outros e de achar graças nas nossas piadas. Ultimamente tem ajudado o Kiko a dar aulas de português ao Gabriel. Clélia me contou que dá exemplos para diferenciar “expiar” de “espiar”: “Gabriel expiou suas dívidas”. Kiko, aliás, é agora sua melhor e mais constante companhia. O filho mais velho do Lustosa, do qual a Clélia é tutora desde que ele era bem mocinho, encontrou nos cuidados com a avó algo importante para fazer.
Afetuoso, o contrário do resto da família, sempre querendo contato, Kiko insiste em perguntar se é o mais querido e ouve, depois da terceira vez, o “deixe de besteira, menino” tão característico de dona Dolores que já disse em entrevista de sua aversão ao excesso de afagos físicos. Se não declara seu amor por este neto especial, dona Dolores, no entanto, diante do desejo dele de viajar a Europa, o que ele não pode fazer sem companhia, declarou que se tivesse 95 anos, iria. Kiko é o alvo preferencial de suas broncas e piadas. Ontem mesmo ela o criticou por ter respondido a alguém que lhe perguntara o que fazia que não fazia nada. Mamãe insistiu para que ele repetisse que da próxima vez dirá: dou assistência à minha avó.
Se a cabeça lhe prega peças, ela consegue dar a volta por cima rapidamente. Assim é que disse outro dia que o Parsifal, seu filho tão problemático, morto há alguns anos, estivera aqui em casa. Quando lembramos que o Parsifal já tinha morrido ela parou, refletiu um pouco e completou: esteve em sonhos, eu o vi entrando aqui na sala bem de mansinho. Não se deixou apanhar. E está sempre atenta para essas armadilhas que a cabeça lhe prega. Talvez por isso esteja tão bem, tão lúcida e ainda tão necessária em nossas vidas.
Por tudo isto fiquei surpresa com a reação dela diante da possibilidade que lhe sonegassem informação tão importante quanto a da morte de Iazinha. Por isso também não achei justo que se pensasse, em um primeiro momento, em não lhe contar da morte do filho mais velho e, nos últimos 18 anos, o mais próximo, por passar boa parte do tempo em sua companhia. Na verdade, nos meses que o Lustosa ficou sem vir, por causa do tratamento, ela foi sendo informada, com cuidado, é claro, da gravidade do caso. Informada porque, de sua cadeira, em posição central na sala, ela acompanha tudo à sua volta. Assim os telefonemas, as conversas sussurradas, o ar de preocupação e de tristeza do povo não lhe passaram despercebidos e ela insistiu em saber o que estava acontecendo.
Recebeu a notícia da morte do filho com um ar de perplexidade. Sem lágrimas. Falando com o Paulo ao telefone, em meio a outros assuntos disse que, de novo, só a morte do Lustosa. Quando voltamos de Sobral, depois da linda cerimônia de lançamento de suas cinzas no rio Acarau, a encontramos a postos em sua cadeira. Ao abraçá-la, ela me perguntou como tinha sido, se tinha muita gente, como correra a homenagem. No entanto, esse terrível acontecimento, talvez por lhe parecer tão impossível, foi logo esquecido. De modo que, há poucos dias ela perguntou à Clélia se o Lustosa tinha sido despedido do “Diário do Nordeste”, pois sua coluna não estava mais saindo. Depois de lembrada, mostrou surpresa por ter sido tudo tão rápido e perguntou como vai ficar a situação da Verônica. Mas, em poucos minutos, indagou se o Lustosa ia escrever em outro jornal.
Ontem, me perguntou porque o Lustosa não tem mais vindo e quando ele virá. Eu lhe disse apenas que ia demorar. Olhei para ela e entendi que entendera. Achei melhor não insistir nessa informação que ela prefere não “realizar” (no sentido que a expressão tem em inglês). Na verdade, não quer lembrar. Mas também não quer esquecer do filho. Quer ficar nesse limbo que lhe possibilita ainda esperar pela volta dele. Pois com uma consciência tão aguda de tudo, com uma capacidade de participar de qualquer conversar, de falar com segurança ao telefone (conversas prejudicadas apenas por sua má audição), seu esquecimento é seletivo.
De resto, este ano de 2012 que vai chegando ao fim de forma tão melancólica foi um ano de grandes perdas para a família. Perdas inéditas por terem sido marcadas por uma nota trágica. Perdas que implicam numa inflexão na vida que levamos até agora. Pois, como na música do Milton Nascimento, a partir delas, sabemos que nada será como antes. Felipe Mello, filho de Evelucia e Célio, neto de Lucia e Benevides, foi embora em meio a um drama de repercussão internacional que se estendeu por semanas e em que se misturaram esperança e angústia. Lustosa partiu pouco depois, quase imediatamente após o diagnóstico da doença. Sem essas duas criaturas tão amadas, tão importantes nas nossas vidas, ficamos mais pobres, mais vazios. Só nos resta o consolo de imaginar que, a essa hora, lá no céu, Felipe com sua graça, seu charme e sua inteligência faz rir ao tio-avô que tanto apreciava descobrir tais qualidades entre os membros de sua vasta família.
Mas mesmo com esses lapsos de memória - afinal são 98 anos - a cabeça de mamãe continua excelente. Ela é capaz de lembrar telefones, datas, de fazer humor às custas dos outros e de achar graças nas nossas piadas. Ultimamente tem ajudado o Kiko a dar aulas de português ao Gabriel. Clélia me contou que dá exemplos para diferenciar “expiar” de “espiar”: “Gabriel expiou suas dívidas”. Kiko, aliás, é agora sua melhor e mais constante companhia. O filho mais velho do Lustosa, do qual a Clélia é tutora desde que ele era bem mocinho, encontrou nos cuidados com a avó algo importante para fazer.
Afetuoso, o contrário do resto da família, sempre querendo contato, Kiko insiste em perguntar se é o mais querido e ouve, depois da terceira vez, o “deixe de besteira, menino” tão característico de dona Dolores que já disse em entrevista de sua aversão ao excesso de afagos físicos. Se não declara seu amor por este neto especial, dona Dolores, no entanto, diante do desejo dele de viajar a Europa, o que ele não pode fazer sem companhia, declarou que se tivesse 95 anos, iria. Kiko é o alvo preferencial de suas broncas e piadas. Ontem mesmo ela o criticou por ter respondido a alguém que lhe perguntara o que fazia que não fazia nada. Mamãe insistiu para que ele repetisse que da próxima vez dirá: dou assistência à minha avó.
Se a cabeça lhe prega peças, ela consegue dar a volta por cima rapidamente. Assim é que disse outro dia que o Parsifal, seu filho tão problemático, morto há alguns anos, estivera aqui em casa. Quando lembramos que o Parsifal já tinha morrido ela parou, refletiu um pouco e completou: esteve em sonhos, eu o vi entrando aqui na sala bem de mansinho. Não se deixou apanhar. E está sempre atenta para essas armadilhas que a cabeça lhe prega. Talvez por isso esteja tão bem, tão lúcida e ainda tão necessária em nossas vidas.
Por tudo isto fiquei surpresa com a reação dela diante da possibilidade que lhe sonegassem informação tão importante quanto a da morte de Iazinha. Por isso também não achei justo que se pensasse, em um primeiro momento, em não lhe contar da morte do filho mais velho e, nos últimos 18 anos, o mais próximo, por passar boa parte do tempo em sua companhia. Na verdade, nos meses que o Lustosa ficou sem vir, por causa do tratamento, ela foi sendo informada, com cuidado, é claro, da gravidade do caso. Informada porque, de sua cadeira, em posição central na sala, ela acompanha tudo à sua volta. Assim os telefonemas, as conversas sussurradas, o ar de preocupação e de tristeza do povo não lhe passaram despercebidos e ela insistiu em saber o que estava acontecendo.
Recebeu a notícia da morte do filho com um ar de perplexidade. Sem lágrimas. Falando com o Paulo ao telefone, em meio a outros assuntos disse que, de novo, só a morte do Lustosa. Quando voltamos de Sobral, depois da linda cerimônia de lançamento de suas cinzas no rio Acarau, a encontramos a postos em sua cadeira. Ao abraçá-la, ela me perguntou como tinha sido, se tinha muita gente, como correra a homenagem. No entanto, esse terrível acontecimento, talvez por lhe parecer tão impossível, foi logo esquecido. De modo que, há poucos dias ela perguntou à Clélia se o Lustosa tinha sido despedido do “Diário do Nordeste”, pois sua coluna não estava mais saindo. Depois de lembrada, mostrou surpresa por ter sido tudo tão rápido e perguntou como vai ficar a situação da Verônica. Mas, em poucos minutos, indagou se o Lustosa ia escrever em outro jornal.
Ontem, me perguntou porque o Lustosa não tem mais vindo e quando ele virá. Eu lhe disse apenas que ia demorar. Olhei para ela e entendi que entendera. Achei melhor não insistir nessa informação que ela prefere não “realizar” (no sentido que a expressão tem em inglês). Na verdade, não quer lembrar. Mas também não quer esquecer do filho. Quer ficar nesse limbo que lhe possibilita ainda esperar pela volta dele. Pois com uma consciência tão aguda de tudo, com uma capacidade de participar de qualquer conversar, de falar com segurança ao telefone (conversas prejudicadas apenas por sua má audição), seu esquecimento é seletivo.
De resto, este ano de 2012 que vai chegando ao fim de forma tão melancólica foi um ano de grandes perdas para a família. Perdas inéditas por terem sido marcadas por uma nota trágica. Perdas que implicam numa inflexão na vida que levamos até agora. Pois, como na música do Milton Nascimento, a partir delas, sabemos que nada será como antes. Felipe Mello, filho de Evelucia e Célio, neto de Lucia e Benevides, foi embora em meio a um drama de repercussão internacional que se estendeu por semanas e em que se misturaram esperança e angústia. Lustosa partiu pouco depois, quase imediatamente após o diagnóstico da doença. Sem essas duas criaturas tão amadas, tão importantes nas nossas vidas, ficamos mais pobres, mais vazios. Só nos resta o consolo de imaginar que, a essa hora, lá no céu, Felipe com sua graça, seu charme e sua inteligência faz rir ao tio-avô que tanto apreciava descobrir tais qualidades entre os membros de sua vasta família.
Memórias pitorescas e sentimentais: O Patuá (10/11/12)
O Patuá começou a ser escrito nas escadarias que ligavam o segundo ao terceiro andar do IFCS. O projeto gráfico e quase todos os desenhos eram do Cesar da Mata mas o cérebro por trás daquela perigosa organização criminosa era mesmo o Julio Cesar Adiala. O Pátua tinha sua origem na Frente Alienada do IFCS criada pelo Julio e pelo Dico (Jurandyr Leite). A FA-IFCS era anarquista e costumava anotar na margem dos cartazes pregados nas paredes do corredor. Lembro bem de um que trazia o verso de João Cabral: um galo sozinho não tece uma manhã, abaixo do qual Julio escreveu: Mas dá um bom ensopadinho.
O Patuá trazia como subtítulo: o jornal da Coobagana (braço armado da coosativa), entidade que se auto-intitulava como a maior frente desarticuladora do pensamento formal e metafísico do IFCS. O lema da Coobagana se inspirava na célebre frase do Che: hay que travar-se pero, sin perder la bagana jamás. Sua tiragem era uma ironia com a Hora do Povo: rumo aos 100.000. O jornal oferecia um brinde do mês (coisas como uma bagana, uma seda, um pilão) sempre associado a um slogan do tipo: mais erva ou paramos o Brasil, voar é com os ácidos e outros que tais.
O personagem que dava nome ao jornal, Basílio Patuá, era produto de uma criação coletiva, mas o redator de sua biografia era o Macarrão. O primeiro editorial lembrava uma das bandeiras de Basílio: ópio para o povo e anunciava que sua obra seria divulgada através do Instituto histórico e cultural pela preservação da memória de Basílio Patuá. Para combater a influência perniciosa do Patuá, Luís Carlos Prestes publicaria carta (naturalmente forjada pelos redatores), em que Basílio é apresentado como um agente do imperialismo que vivia a desvirtuar a juventude mundial:
Camaradas patuístas de norte a sul, de leste a oeste, quem aqui vos fala é Luís Carlos Prestes. Quero nesta missiva manifestar minha indignação com o lançamento deste periódico difamador, que se lança contra instituições democráticas arduamente conquistadas pelo proletariado. (...) O grande Stálin, em 1932, denunciava no Comintern a contribuição negativa de Basílio Patuá para o avanço da consciência socialista. Conclamo todos os comunistas a cerrarem fileiras contra esse ser viciado combatendo desde já o jornal Patuá. Saudações Proletárias. L. C. Prestes.
Boa parte da publicação se dedicava a ironizar os colegas da própria equipe. Dentre estes, o alvo preferido era o Washington que se propunha a publicar artigos sérios, invariavelmente atacados (tanto o autor quanto o texto) nos números seguintes. No número dois, foi publicada uma prova de sociologia forjada pelo Julio e atribuída ao Macarrão, onde se liam pérolas como: P: Porque Marx afirma que a consciência não determina o ser social? R: Marx afirma que a consciência não determina o ser social porque ele acredita que a consciência não determina o ser social. Das colunas sociais, a melhor foi a que dava conta do casamento de dois colegas nossos, radicais militantes do Oito: o Tonho e a Lenaura. O jornal explicava: não eles não vão casar um com o outro, amados leitores. Nem eles mesmos agüentariam. O casamento seria realizado na igreja de São Judas Iscariotes, em Duque de Caxias:
Após a cerimônia, os dois casais oferecerão animada festa na redação do jornal “Hora do Povo”, com direito a coquetéis molotov e empadas de gasolina. Haverá também baile animado pela orquestra do maestro Luís Carlos e seus Cavaleiros da Esperança. Lembrete: os casamentos, em caso de revolução, serão adiados para depois da reconstrução nacional.
Uma das vítimas do humor patuísta foi o Aldemísio Cordeiro, o Aldo, um colega mais velho que vendia caramelos e apostava numa política avessa à agressividade do movimento estudantil mas que também nada tinha a ver com o humor cínico e corrosivo daquela turma. Pacifista, Aldemelo Caramísio (como o apelidou o pessoal do Patuá), resolveu lançar um jornal: O Espaço. Segundo os redatores do Patuá, o jornal deveria se chamar Espaço Sideral, “vista a tamanha façanha de materialização do nada”.
“Morte ao deficiente físico” seria o lema de nosso colega Antônio, “o popular Padeiro que, em sua transloucada batalha vencera o primeiro round dando uma rasteira na muleta” de um dos nossos professores. Noticiando o aniversário de Cléber, um dos colaboradores, o jornal dizia que naquela data ele completaria “mais um ano estéril e inútil em sua inútil e estéril vida”. Mas, de todas as maldades do Patuá nenhuma foi mais cruel do que a referência a um nosso colega da História que, no ano anterior surtara e vagava pelos corredores da escola completamente fora de si. A causa fora o concurso O esquerdinha do ano do qual fora vencedor e, quando soube da notícia, diz o Patuá: enlouqueceu de alegria. Aliás, o concurso O esquerdinha do ano, tinha como objetivo premiar o revolucionário mais revolucionário. O texto de apresentação dizia:
“O que mais caracteriza o ano de 1979 no Brasil não é o fato de ele não ser um ano bissexto, mas sim de ser o ano do despertar político da sociedade civil brasileira. (...) Fora do Brasil, o mundo via a liberdade brilhar em raios fúlgidos no horizonte. A Nicarágua conquistava sua liberdade, Reza-Pahlev era expulso do Irã, morria Talcott Parsons.”
Dentro desde clima é que tinha sido criado o concurso. No regulamento havia uma cláusula que dizia: “Proibida a participação de comunistas de mais de oitenta anos.” À qual se acrescentava um único parágrafo: Prestes a completar oitenta pode. Referência naturalmente ao velho Prestes que acabara de voltar do exílio e ia fazer 80 anos. Lembro bem de sua visita ao IFCS: moreno, sequinho, de pequena estatura, vestido com camisa azul clara e calça azul marinho de tecido barato (indústria soviética). Quando Juarez o viu, perguntou: “Aquele é o Prestes?” Pensei que fosse o motorneiro do bonde de Santa Tereza.
O Patuá trazia como subtítulo: o jornal da Coobagana (braço armado da coosativa), entidade que se auto-intitulava como a maior frente desarticuladora do pensamento formal e metafísico do IFCS. O lema da Coobagana se inspirava na célebre frase do Che: hay que travar-se pero, sin perder la bagana jamás. Sua tiragem era uma ironia com a Hora do Povo: rumo aos 100.000. O jornal oferecia um brinde do mês (coisas como uma bagana, uma seda, um pilão) sempre associado a um slogan do tipo: mais erva ou paramos o Brasil, voar é com os ácidos e outros que tais.
O personagem que dava nome ao jornal, Basílio Patuá, era produto de uma criação coletiva, mas o redator de sua biografia era o Macarrão. O primeiro editorial lembrava uma das bandeiras de Basílio: ópio para o povo e anunciava que sua obra seria divulgada através do Instituto histórico e cultural pela preservação da memória de Basílio Patuá. Para combater a influência perniciosa do Patuá, Luís Carlos Prestes publicaria carta (naturalmente forjada pelos redatores), em que Basílio é apresentado como um agente do imperialismo que vivia a desvirtuar a juventude mundial:
Camaradas patuístas de norte a sul, de leste a oeste, quem aqui vos fala é Luís Carlos Prestes. Quero nesta missiva manifestar minha indignação com o lançamento deste periódico difamador, que se lança contra instituições democráticas arduamente conquistadas pelo proletariado. (...) O grande Stálin, em 1932, denunciava no Comintern a contribuição negativa de Basílio Patuá para o avanço da consciência socialista. Conclamo todos os comunistas a cerrarem fileiras contra esse ser viciado combatendo desde já o jornal Patuá. Saudações Proletárias. L. C. Prestes.
Boa parte da publicação se dedicava a ironizar os colegas da própria equipe. Dentre estes, o alvo preferido era o Washington que se propunha a publicar artigos sérios, invariavelmente atacados (tanto o autor quanto o texto) nos números seguintes. No número dois, foi publicada uma prova de sociologia forjada pelo Julio e atribuída ao Macarrão, onde se liam pérolas como: P: Porque Marx afirma que a consciência não determina o ser social? R: Marx afirma que a consciência não determina o ser social porque ele acredita que a consciência não determina o ser social. Das colunas sociais, a melhor foi a que dava conta do casamento de dois colegas nossos, radicais militantes do Oito: o Tonho e a Lenaura. O jornal explicava: não eles não vão casar um com o outro, amados leitores. Nem eles mesmos agüentariam. O casamento seria realizado na igreja de São Judas Iscariotes, em Duque de Caxias:
Após a cerimônia, os dois casais oferecerão animada festa na redação do jornal “Hora do Povo”, com direito a coquetéis molotov e empadas de gasolina. Haverá também baile animado pela orquestra do maestro Luís Carlos e seus Cavaleiros da Esperança. Lembrete: os casamentos, em caso de revolução, serão adiados para depois da reconstrução nacional.
Uma das vítimas do humor patuísta foi o Aldemísio Cordeiro, o Aldo, um colega mais velho que vendia caramelos e apostava numa política avessa à agressividade do movimento estudantil mas que também nada tinha a ver com o humor cínico e corrosivo daquela turma. Pacifista, Aldemelo Caramísio (como o apelidou o pessoal do Patuá), resolveu lançar um jornal: O Espaço. Segundo os redatores do Patuá, o jornal deveria se chamar Espaço Sideral, “vista a tamanha façanha de materialização do nada”.
“Morte ao deficiente físico” seria o lema de nosso colega Antônio, “o popular Padeiro que, em sua transloucada batalha vencera o primeiro round dando uma rasteira na muleta” de um dos nossos professores. Noticiando o aniversário de Cléber, um dos colaboradores, o jornal dizia que naquela data ele completaria “mais um ano estéril e inútil em sua inútil e estéril vida”. Mas, de todas as maldades do Patuá nenhuma foi mais cruel do que a referência a um nosso colega da História que, no ano anterior surtara e vagava pelos corredores da escola completamente fora de si. A causa fora o concurso O esquerdinha do ano do qual fora vencedor e, quando soube da notícia, diz o Patuá: enlouqueceu de alegria. Aliás, o concurso O esquerdinha do ano, tinha como objetivo premiar o revolucionário mais revolucionário. O texto de apresentação dizia:
“O que mais caracteriza o ano de 1979 no Brasil não é o fato de ele não ser um ano bissexto, mas sim de ser o ano do despertar político da sociedade civil brasileira. (...) Fora do Brasil, o mundo via a liberdade brilhar em raios fúlgidos no horizonte. A Nicarágua conquistava sua liberdade, Reza-Pahlev era expulso do Irã, morria Talcott Parsons.”
Dentro desde clima é que tinha sido criado o concurso. No regulamento havia uma cláusula que dizia: “Proibida a participação de comunistas de mais de oitenta anos.” À qual se acrescentava um único parágrafo: Prestes a completar oitenta pode. Referência naturalmente ao velho Prestes que acabara de voltar do exílio e ia fazer 80 anos. Lembro bem de sua visita ao IFCS: moreno, sequinho, de pequena estatura, vestido com camisa azul clara e calça azul marinho de tecido barato (indústria soviética). Quando Juarez o viu, perguntou: “Aquele é o Prestes?” Pensei que fosse o motorneiro do bonde de Santa Tereza.
Memórias pitorescas e sentimentais: o IFCS (3/11/12)
Foi em 1978 que entrei no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. O IFCS funciona no edifício da antiga Escola Politécnica, cujo nome gravado na pedra ainda se lê no frontispício do majestoso prédio que dá vista para a estátua de José Bonifácio, no Largo de S. Francisco. Com suas escadarias de granito, suas portas altas, o belo assoalho da entrada, o prédio impressiona à primeira vista. O portal se abre para o pátio interno, onde funcionavam os antigos laboratórios da Politécnica que, no tempo que cheguei, estavam abandonados, prestando-se a usos bem menos nobres. Apesar do aspecto histórico do prédio, havia e há ainda um péssimo odor em virtude dos tantos mendigos que ocupam as calçadas de seu entorno.
O que me surpreendeu quando lá fui pela primeira vez, foi a agitação do movimento estudantil. No painel principal do terceiro andar, havia um enorme cartaz com fotos relembrando os dez anos da morte do estudante Edson Luís. Morri de medo. Era no final do tenebroso reinado de Eremildo Viana e a chamada Abertura estava apenas começando. Mas, logo tivemos o privilégio de participar da festa que foi a volta dos professores cassados. Deles, o mais famoso era Darcy Ribeiro que aparece no cento da foto que registrou esse belo momento da minha vida universitária.
Vida que, aliás, no IFCS, acontecia nos corredores pois as salas de aula viviam quase às moscas. Havia uma ebulição constante, permeada por acalorados debates entre as muitas tendências do Movimento Estudantil. Eu, que não era muito familiarizada com as idas e vindas da esquerda internacional ou mesmo nacional, não conseguia entender a que se devia tanta disputa. Para falar a verdade, minha alienação era tanta que, quando entrei na escola, padecia de dois medos antagônicos: o de que os comunistas pensassem que eu era da polícia ou que a polícia pensasse que eu era comunista.
Havia os do partidão, aos quais os mais avançados chamavam de reformistas. Concentravam-se mais no curso de História. A tendência com que eu mais simpatizava era o MEP, Movimento de Emancipação do Proletário (que nome, heim?), um dos tantos movimentos de esquerda que estiveram na origem do PT do Rio. Simpatizava porque achava as pessoas mais sensatas, mais equilibradas, não que eu soubesse a fundo o que distinguia o MEP dos demais. Havia outras tendências menores ou que vimos nascer, como a Libelu (Liberdade e Luta), tão pequena que só tinha duas representantes, duas irmãs do Amazonas que foram logo apelidadas de Libe e Lu. A Convergência Socialista apareceu depois, puxando gente insatisfeita com o MEP. Tudo isso era agitado pelas lideranças, pessoas com um pensamento organizado, que tinham opinião definida e definitiva sobre aqueles assuntos. Gente que se esgoelava nas assembléias, que travava verdadeiros duelos verbais entre si e que, nos corredores, trocava olhares irônicos, piadas, provocações.
Também havia a chamada massa atrasada. Aqueles que apenas percebiam o que estava rolando e que acabavam sendo manipulados por um ou por outro lado. Um desses colegas era o Alan, ou Alien, como o apelidou o Julio Adiala, por causa do filme “Alien: o 8º passageiro” e porque o Alan era mesmo muito alienado. Lembro claramente dele na aula do prof. Hausseman, magro, branco, bonito e completamente tolo. Menino pobre da Lapa que, quando entrou no IFCS, trazia um daqueles cadernos com o retrato da Sônia Braga na capa e tinha a ingenuidade de ser fã do John Travolta. Não desse Travolta que está hoje na moda, mas daquele dos Embalos de sábado à noite que era execrado pelo presunçoso pessoal do IFCS. Alan imitava direitinho os passos de dança do seu ídolo e não tinha pejo de fazê-lo para os colegas sempre que solicitado. Simpático e bem falante, encantado com as meninas tão modernas e liberadas que encontrava ali, se comportava de maneira inadequada e logo virou o “pele” da escola.
Alan pode ser considerado assim como uma espécie de vítima do movimento estudantil. Pois, influenciado por esse, logo mudou de ídolo e de visual: no lugar do cabelo cheio de brilhantina do Travolta, adotou a cabeleira revolta, adornada pela boina revolucionária do Che, deixou de lado o sapato de bico fino e as calças com vinco por botinas e roupas negras. Mas, rejeitado pelas lideranças, Alan fez seus próprios planos para a Revolução. Tinha até um mapa sobre onde seriam colocadas as bombas, no Galeão, na Rodoviária e não me lembro mais aonde. Para ele a revolução era assim como aquelas guerras dos Meninos da Rua Paulo, algo para se fazer nas férias. Ele quis até organizar um grupo para ir lutar na Nicarágua depois do final do período letivo. Ainda na Faculdade, o Alan desapareceu. Nunca mais soubemos dele. Corriam boatos de que teria sido preso. Mas nada que se comprovasse. O mais provável é que tenha pirado de vez, como aconteceu a outros tantos daquele tempo.
Do movimento estudantil, os mais furiosos eram os nossos amigos do Oito. O MR8 comandava o diretório quando cheguei lá e ali ficou até quase o final do meu curso, em 1981. Curiosamente nossos melhores amigos, aqueles com quem confraternizávamos, de quem ficamos amigos da vida inteira eram do Oito. Fazíamos piada com eles, riamos do seu exagerado entusiasmo, de sua fúria, do empenho que dedicavam à causa, indo de manhã cedinho vender A Hora do Povo na Central do Brasil, mas os adorávamos e estávamos sempre juntos deles. Na verdade nossos amigos do Oito (alguns são meus grandes amigos até hoje), faziam contraste com aquela imagem intransigente de sua organização pelo espírito mais alternativo, mais Santa Teresa que tinham. Nenhum deles chegava ao exagero de vestir luto no dia oito de outubro (dia da morte de Che Guevara), como a Lenaura, por exemplo.
O que me surpreendeu quando lá fui pela primeira vez, foi a agitação do movimento estudantil. No painel principal do terceiro andar, havia um enorme cartaz com fotos relembrando os dez anos da morte do estudante Edson Luís. Morri de medo. Era no final do tenebroso reinado de Eremildo Viana e a chamada Abertura estava apenas começando. Mas, logo tivemos o privilégio de participar da festa que foi a volta dos professores cassados. Deles, o mais famoso era Darcy Ribeiro que aparece no cento da foto que registrou esse belo momento da minha vida universitária.
Vida que, aliás, no IFCS, acontecia nos corredores pois as salas de aula viviam quase às moscas. Havia uma ebulição constante, permeada por acalorados debates entre as muitas tendências do Movimento Estudantil. Eu, que não era muito familiarizada com as idas e vindas da esquerda internacional ou mesmo nacional, não conseguia entender a que se devia tanta disputa. Para falar a verdade, minha alienação era tanta que, quando entrei na escola, padecia de dois medos antagônicos: o de que os comunistas pensassem que eu era da polícia ou que a polícia pensasse que eu era comunista.
Havia os do partidão, aos quais os mais avançados chamavam de reformistas. Concentravam-se mais no curso de História. A tendência com que eu mais simpatizava era o MEP, Movimento de Emancipação do Proletário (que nome, heim?), um dos tantos movimentos de esquerda que estiveram na origem do PT do Rio. Simpatizava porque achava as pessoas mais sensatas, mais equilibradas, não que eu soubesse a fundo o que distinguia o MEP dos demais. Havia outras tendências menores ou que vimos nascer, como a Libelu (Liberdade e Luta), tão pequena que só tinha duas representantes, duas irmãs do Amazonas que foram logo apelidadas de Libe e Lu. A Convergência Socialista apareceu depois, puxando gente insatisfeita com o MEP. Tudo isso era agitado pelas lideranças, pessoas com um pensamento organizado, que tinham opinião definida e definitiva sobre aqueles assuntos. Gente que se esgoelava nas assembléias, que travava verdadeiros duelos verbais entre si e que, nos corredores, trocava olhares irônicos, piadas, provocações.
Também havia a chamada massa atrasada. Aqueles que apenas percebiam o que estava rolando e que acabavam sendo manipulados por um ou por outro lado. Um desses colegas era o Alan, ou Alien, como o apelidou o Julio Adiala, por causa do filme “Alien: o 8º passageiro” e porque o Alan era mesmo muito alienado. Lembro claramente dele na aula do prof. Hausseman, magro, branco, bonito e completamente tolo. Menino pobre da Lapa que, quando entrou no IFCS, trazia um daqueles cadernos com o retrato da Sônia Braga na capa e tinha a ingenuidade de ser fã do John Travolta. Não desse Travolta que está hoje na moda, mas daquele dos Embalos de sábado à noite que era execrado pelo presunçoso pessoal do IFCS. Alan imitava direitinho os passos de dança do seu ídolo e não tinha pejo de fazê-lo para os colegas sempre que solicitado. Simpático e bem falante, encantado com as meninas tão modernas e liberadas que encontrava ali, se comportava de maneira inadequada e logo virou o “pele” da escola.
Alan pode ser considerado assim como uma espécie de vítima do movimento estudantil. Pois, influenciado por esse, logo mudou de ídolo e de visual: no lugar do cabelo cheio de brilhantina do Travolta, adotou a cabeleira revolta, adornada pela boina revolucionária do Che, deixou de lado o sapato de bico fino e as calças com vinco por botinas e roupas negras. Mas, rejeitado pelas lideranças, Alan fez seus próprios planos para a Revolução. Tinha até um mapa sobre onde seriam colocadas as bombas, no Galeão, na Rodoviária e não me lembro mais aonde. Para ele a revolução era assim como aquelas guerras dos Meninos da Rua Paulo, algo para se fazer nas férias. Ele quis até organizar um grupo para ir lutar na Nicarágua depois do final do período letivo. Ainda na Faculdade, o Alan desapareceu. Nunca mais soubemos dele. Corriam boatos de que teria sido preso. Mas nada que se comprovasse. O mais provável é que tenha pirado de vez, como aconteceu a outros tantos daquele tempo.
Do movimento estudantil, os mais furiosos eram os nossos amigos do Oito. O MR8 comandava o diretório quando cheguei lá e ali ficou até quase o final do meu curso, em 1981. Curiosamente nossos melhores amigos, aqueles com quem confraternizávamos, de quem ficamos amigos da vida inteira eram do Oito. Fazíamos piada com eles, riamos do seu exagerado entusiasmo, de sua fúria, do empenho que dedicavam à causa, indo de manhã cedinho vender A Hora do Povo na Central do Brasil, mas os adorávamos e estávamos sempre juntos deles. Na verdade nossos amigos do Oito (alguns são meus grandes amigos até hoje), faziam contraste com aquela imagem intransigente de sua organização pelo espírito mais alternativo, mais Santa Teresa que tinham. Nenhum deles chegava ao exagero de vestir luto no dia oito de outubro (dia da morte de Che Guevara), como a Lenaura, por exemplo.
35 anos de RJ: memórias pitorescas e sentimentais (27/10/12)
Só agora me dei conta que vivo no Rio de Janeiro há mais de 35 anos pois cheguei do Ceará em 1977, numa daquelas levas de cearenses que por aqui desembarcaram. O primeiro bairro em que morei foi o Leblon que ainda não era o baixo famoso das novelas do Manoel Carlos. No tempo da porta aberta, quem me deu abrigo foi a artista gráfica Vera Duarte, em sua linda e charmosa casa à Rita Ludolf, um apartamento no andar térreo de um prédio antigo que já não existe mais. Vera, carioquíssima, era amiga de Fausto Nilo e promovia grandes almoços que se estendiam pela noite a dentro, naquela desordem que nos era tão familiar, a nós que deixáramos para trás a boa vida boêmia do bares da Praia de Iracema, em Fortaleza.
A moda da boêmia carioca do tempo era o Baixo Leblon e nos dividíamos entre o Diagonal, a Pizzaria Guanabara, o Luna Bar, e mais tarde, bem mais tarde, o Real Astória. Havia alguns que se arriscavam a freqüentar o Degrau, mas esse não era para o nosso bico pois era muito caro. Apesar da constante presença em seus bares, Leblon, Jardim Botânico e Gávea faziam parte de um país distante, pois a maioria de nós morava mesmo era em Botafogo, no Flamengo ou em Copacabana.
Eu, por exemplo, logo fui morar ali na esquina da Marquês de Abrantes com a Praia de Botafogo, no último andar do Edifício Audax, um prédio modesto mas decente, tipo de quarto-e-sala amplo e arejado, bem diverso dos apartamentos que se fazem hoje. Nele tinham morado a Maíra e a Maura, mulher do Bené. Diante de sua confortável varanda se oferecia por inteiro a vista deslumbrante do Pão de Açúcar. Dali vi passar lá em baixo, no Aterro, os cortejos fúnebres de Jardel Filho e de Clara Nunes. No térreo ficava um restaurante italiano, o Giotto (que fazia o melhor petit four da cidade), mas eu e meus amigos de IFCS preferíamos o vizinho La Mole, ali no novo prédio da antiga embaixada da Argentina, por causa do couvert farto e barato. Preferência que, naturalmente, despertava o ódio dos garçons.
Para quem mora naquela esquina, o bairro é mais Flamengo que Botafogo. E os serviços que se usam ficam nas ruas Marquês de Abrantes e Senador Vergueiro. Bem no começo da Marquês de Abrantes fica o Lamas, na época que cheguei a grande e tradicional opção de bar e restaurante. Mas para a minha turma do IFICS o lazer mesmo se fazia no Largo do Machado. Lá tinha um ou duas adegas (de onde vem este hábito de adega no calor do Rio?), onde a gente, curiosamente, ia para tomar chopp com bolinho de bacalhau. Outra característica eram os muitos restaurantes árabes, todos numa mesma galeria, a dos cinemas. Nela também a gente encontrava aquele comércio simples, de alfaiates e pequenas boutiques de marcas desconhecidas. A seqüência Botafogo, Flamengo, Catete, faz assim uma espécie de dégradé da cidade do mais novo para o mais antigo que a gente encontra mesmo é na Lapa e no Centro. Pois a cidade moderna, a cidade que a gente queria ver, vinha antecedida pela fama e pelo glamour de Copacabana e Ipanema.
A impressão mais assustadora de grande cidade que tive foi a de Copacabana. A Copacabana que eu conhecia das páginas da revista O Cruzeiro era chique, era o Copacabana Palace, as calçadas com seus desenhos maravilhosos, as misses com aqueles maiôs que tinham uma espécie de barrinha na parte de baixo, tipo Maria Yeda Vargas, nossa miss universo. E Copacabana nos idos da década de 1970 já não era nada daquilo. Era o paredão de prédios quase indistintos da Av. Nossa Senhora de Copacabana, detrás do qual escorria o quotidiano pobre dos quitinetes, habitação da gente simples que se amontoava em beliches para pegar no batente cedo nas lojas do bairro, ou das garotas de programa.
Copacabana apavorava o imigrante com a multidão compacta que fervilhava em suas calçadas, com a miséria dos pedintes contrastando com a riqueza das vitrines. Era uma São Paulo transportada para detrás da Avenida Atlântica. Pois Copacabana cabe direitinho no verso de Sampa: quem teve outro sonho feliz de cidade/ aprende depressa a chamar de realidade/ porque és o avesso do avesso do avesso do avesso. Odiei Copacabana, mas, em compensação amei e espero amar sempre Ipanema, com seus prédios baixos e o eterno Posto 9. Difícil falar do Posto 9 porque ele não muda, ainda andam por ali as mesmas pessoas, sofreram a ação do tempo, mas continuam lá, firmes, misturando-se duas ou três gerações.
Mas se a gente gostava de Ipanema por toda a mítica que se criou ou por seu encanto real, paixão mesmo para toda a vida, era Santa Teresa. Lá, onde tanta gente boa morava ou acabava indo morar em apartamentos antigos e amplos de aluguel barato, divididos pôr dois, três, quatro ou até mesmo cinco colegas, rapazes e moças. E Santa Teresa tinha e continua a ter aquele charme boêmio despojado que lhe conferem o velho casario, o clima mais fresco e seus habitantes. Mantiveram-se ali, a velha arquitetura, a mata virgem, o bonde, o jeito de vizinhança que se conhece. Daí o encanto peculiar desse bairro, atraindo para os seus cantos escondidos a vida mais boêmia, mais alternativa, mais sentimental.
Bairro da gente que gosta da natureza, dos doidões, dos artistas, dos poetas e dos lunáticos. Dos que fazem pão em casa. Dos que não comem carne. Dos que só comem arroz integral. Dos que tomam pó de guaraná ralado na língua do pirarucu. Dos que usam incenso. Dos que botam Tarô. Dos que iam e voltavam de Mauá. Dos seguidores do Rajnish. Dos que bebem no Sobrenatural, no Curvelo, no Arnaldo, no Largo das Neves. Dos que bebem em geral. Dos que acham aventura andar de pé no estribo do bonde. Dos adeptos das formas menos ortodoxas de amar. Das belas moças desgrenhadas, em vestidões amplos (da Índia ou de Bali), cheirando a patchouli. Cama de tatame, pela vida a fora... Bairro bicho-grilo. Deus o conserve assim, bem como tanta coisa boa que ainda no encanta nessa Cidade que continua a ser maravilhosa.
A moda da boêmia carioca do tempo era o Baixo Leblon e nos dividíamos entre o Diagonal, a Pizzaria Guanabara, o Luna Bar, e mais tarde, bem mais tarde, o Real Astória. Havia alguns que se arriscavam a freqüentar o Degrau, mas esse não era para o nosso bico pois era muito caro. Apesar da constante presença em seus bares, Leblon, Jardim Botânico e Gávea faziam parte de um país distante, pois a maioria de nós morava mesmo era em Botafogo, no Flamengo ou em Copacabana.
Eu, por exemplo, logo fui morar ali na esquina da Marquês de Abrantes com a Praia de Botafogo, no último andar do Edifício Audax, um prédio modesto mas decente, tipo de quarto-e-sala amplo e arejado, bem diverso dos apartamentos que se fazem hoje. Nele tinham morado a Maíra e a Maura, mulher do Bené. Diante de sua confortável varanda se oferecia por inteiro a vista deslumbrante do Pão de Açúcar. Dali vi passar lá em baixo, no Aterro, os cortejos fúnebres de Jardel Filho e de Clara Nunes. No térreo ficava um restaurante italiano, o Giotto (que fazia o melhor petit four da cidade), mas eu e meus amigos de IFCS preferíamos o vizinho La Mole, ali no novo prédio da antiga embaixada da Argentina, por causa do couvert farto e barato. Preferência que, naturalmente, despertava o ódio dos garçons.
Para quem mora naquela esquina, o bairro é mais Flamengo que Botafogo. E os serviços que se usam ficam nas ruas Marquês de Abrantes e Senador Vergueiro. Bem no começo da Marquês de Abrantes fica o Lamas, na época que cheguei a grande e tradicional opção de bar e restaurante. Mas para a minha turma do IFICS o lazer mesmo se fazia no Largo do Machado. Lá tinha um ou duas adegas (de onde vem este hábito de adega no calor do Rio?), onde a gente, curiosamente, ia para tomar chopp com bolinho de bacalhau. Outra característica eram os muitos restaurantes árabes, todos numa mesma galeria, a dos cinemas. Nela também a gente encontrava aquele comércio simples, de alfaiates e pequenas boutiques de marcas desconhecidas. A seqüência Botafogo, Flamengo, Catete, faz assim uma espécie de dégradé da cidade do mais novo para o mais antigo que a gente encontra mesmo é na Lapa e no Centro. Pois a cidade moderna, a cidade que a gente queria ver, vinha antecedida pela fama e pelo glamour de Copacabana e Ipanema.
A impressão mais assustadora de grande cidade que tive foi a de Copacabana. A Copacabana que eu conhecia das páginas da revista O Cruzeiro era chique, era o Copacabana Palace, as calçadas com seus desenhos maravilhosos, as misses com aqueles maiôs que tinham uma espécie de barrinha na parte de baixo, tipo Maria Yeda Vargas, nossa miss universo. E Copacabana nos idos da década de 1970 já não era nada daquilo. Era o paredão de prédios quase indistintos da Av. Nossa Senhora de Copacabana, detrás do qual escorria o quotidiano pobre dos quitinetes, habitação da gente simples que se amontoava em beliches para pegar no batente cedo nas lojas do bairro, ou das garotas de programa.
Copacabana apavorava o imigrante com a multidão compacta que fervilhava em suas calçadas, com a miséria dos pedintes contrastando com a riqueza das vitrines. Era uma São Paulo transportada para detrás da Avenida Atlântica. Pois Copacabana cabe direitinho no verso de Sampa: quem teve outro sonho feliz de cidade/ aprende depressa a chamar de realidade/ porque és o avesso do avesso do avesso do avesso. Odiei Copacabana, mas, em compensação amei e espero amar sempre Ipanema, com seus prédios baixos e o eterno Posto 9. Difícil falar do Posto 9 porque ele não muda, ainda andam por ali as mesmas pessoas, sofreram a ação do tempo, mas continuam lá, firmes, misturando-se duas ou três gerações.
Mas se a gente gostava de Ipanema por toda a mítica que se criou ou por seu encanto real, paixão mesmo para toda a vida, era Santa Teresa. Lá, onde tanta gente boa morava ou acabava indo morar em apartamentos antigos e amplos de aluguel barato, divididos pôr dois, três, quatro ou até mesmo cinco colegas, rapazes e moças. E Santa Teresa tinha e continua a ter aquele charme boêmio despojado que lhe conferem o velho casario, o clima mais fresco e seus habitantes. Mantiveram-se ali, a velha arquitetura, a mata virgem, o bonde, o jeito de vizinhança que se conhece. Daí o encanto peculiar desse bairro, atraindo para os seus cantos escondidos a vida mais boêmia, mais alternativa, mais sentimental.
Bairro da gente que gosta da natureza, dos doidões, dos artistas, dos poetas e dos lunáticos. Dos que fazem pão em casa. Dos que não comem carne. Dos que só comem arroz integral. Dos que tomam pó de guaraná ralado na língua do pirarucu. Dos que usam incenso. Dos que botam Tarô. Dos que iam e voltavam de Mauá. Dos seguidores do Rajnish. Dos que bebem no Sobrenatural, no Curvelo, no Arnaldo, no Largo das Neves. Dos que bebem em geral. Dos que acham aventura andar de pé no estribo do bonde. Dos adeptos das formas menos ortodoxas de amar. Das belas moças desgrenhadas, em vestidões amplos (da Índia ou de Bali), cheirando a patchouli. Cama de tatame, pela vida a fora... Bairro bicho-grilo. Deus o conserve assim, bem como tanta coisa boa que ainda no encanta nessa Cidade que continua a ser maravilhosa.
O Filho de J. Carlos (20/10/12)
Na quinta-feira fui ao São João Batista dizer adeus a um amigo muito especial: Eduardo de Brito e Cunha. Estavam lá seus filhos, netos e muitos amigos. A mesma gente que encontrei quando estive com ele pela última vez na sua festa de 90 anos em Petrópolis. Elegante, alegre, muito firme, ele recebia os convidados na porta, saudando todo o mundo pelo nome, pois tinha excelente memória. Era uma festa de família com direito a apresentação de fotografias da vida do aniversariante e fiquei muito feliz em ser convidada e ainda por cima aparecer em uma das imagens.
Antes de ter me tornado amiga do Eduardo eu era amiga de seu filho, Oscar Henrique, que conheci no Museu da República, em 1983, onde ambos trabalhávamos. Quando publiquei meu primeiro livro, "Histórias de Presidentes", em 1989, precisei da autorização dos filhos para usar imagens de J. Carlos. Foi aí que Oscar me apresentou a seu pai, Eduardo, que não só me deu a autorização como ficou feliz em ver a capa do livro, concebida por Adriana Moreno, com aquela maravilhosa caricatura do Getúlio na frente do Palácio do Catete. Sei do quanto gostava dessa capa porque uma cópia dela ficava lá na parede de sua casa em Petrópolis.
Em 1994, fui indicada por Paulo Herckenhoff para escrever artigo sobre J. Carlos para "The Journal of Decorative and Propaganda Arts", da Wolfson Foundation cujo número do ano seguinte, homenagearia o Brasil. Para a pesquisa, Eduardo me aconselhou procurar seu irmão, Luiz Carlos que morava aqui pertinho de mim, na rua J. Carlos, no Jardim Botânico. Luiz Carlos se desdobrou para me dar o máximo de informações possíveis e, graças a ele pude conhecer material biográfico sobre o artista que, até então, nunca tinha sido divulgado.
Inclusive os detalhes da história que me fora contada também pelo Nássara do convite que Walt Disney fizera ao J. Carlos para ir trabalhar nos EUA. O convite não foi aceito mas, com a entrada do Brasil na Guerra, J. Carlos mandou a Disney o desenho de um papagaio vestido de pracinha e abraçado ao Pato Donald, em uniforme de mariner. O esboço desse desenho que ficava emoldurado na parede de Luiz Carlos é igualzinho ao futuro personagem de quadrinhos o Zé Carioca. E pude contar essa história no meu artigo.
Creio que foi Eduardo que me mostrou o álbum de fotografias lindamente organizado por J. Carlos em que se mostra a construção da casa deles no Jardim Botânico. Ali, o capricho do artista gráfico genial se destaca nas legendas e na distribuição das fotos. Mas a epígrafe do álbum é que diz muito de quem foi o J. Carlos pai de família. É assim: "sob a ponta fina de um lápis, ergueu-se essa casa". Pois foi exclusivamente com seu trabalho de artista, exercido de forma contínua e responsável, ao longo de quase cinquenta anos que J. Carlos criou seus quatro filhos: Luiz Carlos, Eduardo, Lourdes e Lúcia. Deles apenas a caçula, minha querida amiga Lúcia, continua viva. Aliás, em ótima forma. A gente frequenta a mesma academia de ginástica.
Depois da morte de Luiz Carlos, Eduardo concentrou a maior parte do acervo do pai e à conservação dele dedicou a vida e quase todo o espaço útil de sua casa em Petrópolis. Visitei-o lá algumas vezes. Todas as vezes fui recebida com um carinho e uma amizade que sempre me comoveram.
A sua casinha acolhedora, em meio ao verde, tinha as paredes das duas salas decoradas com originais de J. Carlos. As estantes repletas de coleções das revistas em que trabalhou, especialmente "A Careta". No gabinete, espaço contíguo à sala, ficavam as pastas com os recortes e as mapotecas repletas de originais. Nas paredes cartazes e imagens impressas de eventos que homenageavam J. Carlos. Tudo isto tinha um só zelador, um só conservador, era Eduardo de Brito e Cunha. Sozinho ele cuidava para que o tempo e a umidade não estragassem a obra do pai. Sozinho ele se encarregava de receber os convidados e mostrar o acervo, de dar sugestões sobre onde encontrar alguma coisa que pudesse não constar do mesmo (o que era raro).
E fazia tudo isto com gosto, e fazia tudo isto com prazer, e fazia tudo isto com verdadeira devoção filial. Zelar pela memória e conservar a obra do pai foi a grande missão de sua vida. Generoso e criterioso. Sempre que uma obra de qualidade pudesse servir para divulgar e tornar mais conhecida e valorizada a arte de J. Carlos, tinha pronta autorização dele para usar alguma imagem. No entanto, foi firme na cobrança dos direitos dos herdeiros quanto alguém tratava de obter lucro às custas da mesma. Assim não hesitou em acionar empresas que agiram de má-fé neste sentido.
Estava atento a tudo que dizia a J. Carlos. Era ao Eduardo que se procurava para esclarecer sobre a autenticidade de algum desenho apresentado para venda em leilões ou em galerias. Me orgulho de ter sido consultada algumas vezes por ele a respeito dessas questões. Era bom receber seu telefonema sempre amável, sempre brincalhão, com aquele jeito de falar que, não sei porque, parecia de mineiro. Da última vez que me ligou foi logo depois do aniversário de 90 anos para cobrar o autógrafo no livro que eu lhe dera de presente e esquecera de assinar. Quando abracei seu filho mais velho, José Carlos, tal como ele funcionário de carreira do Banco do Brasil, fiz questão de felicitá-lo pela graça de ter tido um pai como Eduardo bondoso, honesto e afetuoso. Pai e filho dedicado, cuja falta será sentida aqui e lá no céu, onde agora certamente está ao lado de J. Carlos, tendo deixado para trás um acervo cuja conservação dava sentido à sua vida. Tomara que o grande sonho do Eduardo, o da criação de um Museu em torno de J. Carlos venha a se concretizar. Quem sabe na sua linda casinha de Petrópolis, de forma a que a memória de pai e filho se conserve associada para sempre?
Antes de ter me tornado amiga do Eduardo eu era amiga de seu filho, Oscar Henrique, que conheci no Museu da República, em 1983, onde ambos trabalhávamos. Quando publiquei meu primeiro livro, "Histórias de Presidentes", em 1989, precisei da autorização dos filhos para usar imagens de J. Carlos. Foi aí que Oscar me apresentou a seu pai, Eduardo, que não só me deu a autorização como ficou feliz em ver a capa do livro, concebida por Adriana Moreno, com aquela maravilhosa caricatura do Getúlio na frente do Palácio do Catete. Sei do quanto gostava dessa capa porque uma cópia dela ficava lá na parede de sua casa em Petrópolis.
Em 1994, fui indicada por Paulo Herckenhoff para escrever artigo sobre J. Carlos para "The Journal of Decorative and Propaganda Arts", da Wolfson Foundation cujo número do ano seguinte, homenagearia o Brasil. Para a pesquisa, Eduardo me aconselhou procurar seu irmão, Luiz Carlos que morava aqui pertinho de mim, na rua J. Carlos, no Jardim Botânico. Luiz Carlos se desdobrou para me dar o máximo de informações possíveis e, graças a ele pude conhecer material biográfico sobre o artista que, até então, nunca tinha sido divulgado.
Inclusive os detalhes da história que me fora contada também pelo Nássara do convite que Walt Disney fizera ao J. Carlos para ir trabalhar nos EUA. O convite não foi aceito mas, com a entrada do Brasil na Guerra, J. Carlos mandou a Disney o desenho de um papagaio vestido de pracinha e abraçado ao Pato Donald, em uniforme de mariner. O esboço desse desenho que ficava emoldurado na parede de Luiz Carlos é igualzinho ao futuro personagem de quadrinhos o Zé Carioca. E pude contar essa história no meu artigo.
Creio que foi Eduardo que me mostrou o álbum de fotografias lindamente organizado por J. Carlos em que se mostra a construção da casa deles no Jardim Botânico. Ali, o capricho do artista gráfico genial se destaca nas legendas e na distribuição das fotos. Mas a epígrafe do álbum é que diz muito de quem foi o J. Carlos pai de família. É assim: "sob a ponta fina de um lápis, ergueu-se essa casa". Pois foi exclusivamente com seu trabalho de artista, exercido de forma contínua e responsável, ao longo de quase cinquenta anos que J. Carlos criou seus quatro filhos: Luiz Carlos, Eduardo, Lourdes e Lúcia. Deles apenas a caçula, minha querida amiga Lúcia, continua viva. Aliás, em ótima forma. A gente frequenta a mesma academia de ginástica.
Depois da morte de Luiz Carlos, Eduardo concentrou a maior parte do acervo do pai e à conservação dele dedicou a vida e quase todo o espaço útil de sua casa em Petrópolis. Visitei-o lá algumas vezes. Todas as vezes fui recebida com um carinho e uma amizade que sempre me comoveram.
A sua casinha acolhedora, em meio ao verde, tinha as paredes das duas salas decoradas com originais de J. Carlos. As estantes repletas de coleções das revistas em que trabalhou, especialmente "A Careta". No gabinete, espaço contíguo à sala, ficavam as pastas com os recortes e as mapotecas repletas de originais. Nas paredes cartazes e imagens impressas de eventos que homenageavam J. Carlos. Tudo isto tinha um só zelador, um só conservador, era Eduardo de Brito e Cunha. Sozinho ele cuidava para que o tempo e a umidade não estragassem a obra do pai. Sozinho ele se encarregava de receber os convidados e mostrar o acervo, de dar sugestões sobre onde encontrar alguma coisa que pudesse não constar do mesmo (o que era raro).
E fazia tudo isto com gosto, e fazia tudo isto com prazer, e fazia tudo isto com verdadeira devoção filial. Zelar pela memória e conservar a obra do pai foi a grande missão de sua vida. Generoso e criterioso. Sempre que uma obra de qualidade pudesse servir para divulgar e tornar mais conhecida e valorizada a arte de J. Carlos, tinha pronta autorização dele para usar alguma imagem. No entanto, foi firme na cobrança dos direitos dos herdeiros quanto alguém tratava de obter lucro às custas da mesma. Assim não hesitou em acionar empresas que agiram de má-fé neste sentido.
Estava atento a tudo que dizia a J. Carlos. Era ao Eduardo que se procurava para esclarecer sobre a autenticidade de algum desenho apresentado para venda em leilões ou em galerias. Me orgulho de ter sido consultada algumas vezes por ele a respeito dessas questões. Era bom receber seu telefonema sempre amável, sempre brincalhão, com aquele jeito de falar que, não sei porque, parecia de mineiro. Da última vez que me ligou foi logo depois do aniversário de 90 anos para cobrar o autógrafo no livro que eu lhe dera de presente e esquecera de assinar. Quando abracei seu filho mais velho, José Carlos, tal como ele funcionário de carreira do Banco do Brasil, fiz questão de felicitá-lo pela graça de ter tido um pai como Eduardo bondoso, honesto e afetuoso. Pai e filho dedicado, cuja falta será sentida aqui e lá no céu, onde agora certamente está ao lado de J. Carlos, tendo deixado para trás um acervo cuja conservação dava sentido à sua vida. Tomara que o grande sonho do Eduardo, o da criação de um Museu em torno de J. Carlos venha a se concretizar. Quem sabe na sua linda casinha de Petrópolis, de forma a que a memória de pai e filho se conserve associada para sempre?
Orgulho Sobralense (13/10/12)
Só na quinta-feira conheci a Biblioteca Municipal de Sobral: Lustosa da Costa.
Chegamos na cidade no final do dia, eu, Fred, Elza e Valmir, marido da Clélia que tinha ido nos buscar no Pinto Martins para seguirmos viagem no carro dele. A estrada, especialmente no começo, tem trechos muito áridos, quase desérticos, mas passamos por alguns lugarejos agradáveis e, quanto mais perto estávamos de chegar a Sobral tínhamos o prazer de constatar que a vegetação ia se tornava mais verde, pontuadas por alguns olhos d´água que, ainda mesmo modestos, tornavam menos inóspita a paisagem.
A entrada da cidade então foi pra mim grata surpresa. Vim poucas vezes a Sobral e, da última, há uns dez anos, questões de trabalho me fizeram apressar o retorno para decepção do Lustosa que insistia em me levar para ver os lugares e as pessoas. De modo que fiquei surpresa com a avenida larga, nova e bem cuidada pela qual se entra em Sobral. Também gostei de ver o colorido das casinhas bem pintadas que a margeiam. O que dá menos prazer hoje em dia quando se visita algumas cidades do interior é ser recebido na entrada por um amontoado de lojas de material de construção mal distribuídas e mal ajambradas. Em Sobral não é assim. Até a placa de uma loja chamada "Sinhá Sabóia", personagem de família tradicional do lugar, dá um certo charme à essa entrada. E é muito bom chegar ao centro histórico e ver logo o pequeno e singelo arco do triunfo. Adoro dizer que na cidade em que nasci tem arco do triunfo. De resto, Sobral toda tá muito bonitinha.
Estávamos atrasados e corremos para chegar a tempo de assistir à cerimônia que marcava a despedida final de Lustosa da cidade que ele tanto amava. Tive um certo impacto ao avistar, debruçado sobre o Rio Acaraú, o prédio amplo, moderno e imponente, projeto do arquiteto Antonio Carlos Campelo. A biblioteca harmoniza-se maravilhosamente com seu entorno, especialmente com a belíssima ponte nova que se avista ao longe e que dá certo ar cosmopolita a Sobral.
Não estava preparada para a delicada singeleza de tudo que se passou. Toda a cerimônia, organizada pelo nosso querido amigo, o escritor e acadêmico José Luis Lira em parceria com Ana Linhares, diretora da biblioteca, foi feita diante dessa bela paisagem. Tinha tanta gente na homenagem ao Lustosa. A maior parte era aquela mesma gente boa de Sobral que eu só conhecia de nome, de ouvir falar nos artigos e livros do Lustosa. Vieram de Brasília, sua mulher Verônica, seus filhos Raquel, Sara, Carlos, junto com sua linda Paula, Tomás, filho de Raquel e a sobrinha e afilhada Joanna. Estávamos também muitos dos irmãos, Lúcia, Paulo, Socorro, Pacelli, Clélia, eu e Fred. Os cunhados Valmir e Benevides, as cunhadas, Rosa e Elza. As sobrinhas Sellene, Mirian, Marina e Mariana. O sobrinho Gabriel. Seus amigos queridos que foram de Fortaleza a Sobral: Paulo Elpídio, Zuleide e Marinha, Lauro Vinhas e Marildes, e o Juarez Leitão. Este último, companheiro inseparável do Lustosa nos últimos anos, solidário, leal e, principalmente, de divertidíssima prosa.
Quando chegamos, a banda tocava um dobrado e o presidente da Academia Sobralense de Letras, José Luis Lira deu início à cerimônia. Com elegância e distinção fez as saudações de praxe e pronunciou tocante discurso. Seguido pela fala eloquente e apaixonada de Juarez Leitão e do texto do Carlos Eduardo, falando em nome dos filhos, que levou todo o mundo às lágrimas. Em seguida Sara e Carlos se dirigiram à lancha que os levou ao meio do Acaraú para jogar ali, tal como era o desejo dele, as cinzas do Lustosa. Parte delas ficará depositada na biblioteca para ser colocada, mais tarde, na base do busto do jornalista a ser esculpido. Sua biblioteca particular vai, segundo me anunciaram seus filhos, enriquecer o acervo da Biblioteca Lustosa da Costa. E não poderia ser de outro jeito.
Paulo, meu irmão, me disse que o rio Acaraú de sua infância era seco e que fora perenizado por obra e graça dos esforços das competentes administrações que vêm contribuindo para devolver a Sobral seu protagonismo. Inclusive seu atual prefeito, José Clodoveu de Arruda Neto, que o povo chama carinhosamente de Veveu. Conversando com ele ao final da cerimônia, elogiei a beleza da cidade, o fato de ver tudo muito bonitinho e bem cuidado. Ele expôs seu principio. O principio da vidraça quebrada. Ou seja, se numa casa, uma vidraça quebra e você deixa ficar assim mesmo, daqui a pouco, outra janela de outro lado também se deteriora, a tinta da parede descasca, o muro tomba, enfim... o imóvel se degrada. Com as cidades é a mesma coisa. Portanto o negócio é não deixar nem a primeira vidraça ficar quebrada. É zelar para manter tudo direitinho, sem lixo, sem sujeira, com as ruas bem calçadas e sinalizadas. E é isto, ao meu ver que é o que faz a diferença entre o bom e o mau prefeito.
Depois fomos todos jantar em restaurante aprazível, bem em frente a igreja de Nossa Senhora do Rosário, recém restaurada. No caminho fui conversando com o Campelo, velho e querido amigo, atual Secretário de Cultura de Sobral. Ele e sua mulher, Alja, ambos tendo vivido sempre em Fortaleza, estão perfeitamente integrados à vida da cidade. Gostam do lugar, gostam da brisa do entardecer, gostam dos tesouros arquitetônicos prodigiosamente conservados mas, principalmente, gostam das pessoas. Gostam dessa simplicidade que nossa Fortaleza perdeu.
Sobral conservou seus valores materiais e imateriais, e a eles agregou de forma equilibrada a modernização urbana necessária. Gosto de pensar que o Lustosa tem parte nisto. Gosto de pensar que essa obsessão dele por Sobral, expressa em seus tantos livros, sua vontade de desvendar a história desse lugar em que viveu infância e adolescência, com seu elenco de personagens e questões que o fascinaram para o resto da vida, ajudaram Sobral a se redescobrir e a conservar elevada a sua já tradicionalmente elevada autoestima.
Chegamos na cidade no final do dia, eu, Fred, Elza e Valmir, marido da Clélia que tinha ido nos buscar no Pinto Martins para seguirmos viagem no carro dele. A estrada, especialmente no começo, tem trechos muito áridos, quase desérticos, mas passamos por alguns lugarejos agradáveis e, quanto mais perto estávamos de chegar a Sobral tínhamos o prazer de constatar que a vegetação ia se tornava mais verde, pontuadas por alguns olhos d´água que, ainda mesmo modestos, tornavam menos inóspita a paisagem.
A entrada da cidade então foi pra mim grata surpresa. Vim poucas vezes a Sobral e, da última, há uns dez anos, questões de trabalho me fizeram apressar o retorno para decepção do Lustosa que insistia em me levar para ver os lugares e as pessoas. De modo que fiquei surpresa com a avenida larga, nova e bem cuidada pela qual se entra em Sobral. Também gostei de ver o colorido das casinhas bem pintadas que a margeiam. O que dá menos prazer hoje em dia quando se visita algumas cidades do interior é ser recebido na entrada por um amontoado de lojas de material de construção mal distribuídas e mal ajambradas. Em Sobral não é assim. Até a placa de uma loja chamada "Sinhá Sabóia", personagem de família tradicional do lugar, dá um certo charme à essa entrada. E é muito bom chegar ao centro histórico e ver logo o pequeno e singelo arco do triunfo. Adoro dizer que na cidade em que nasci tem arco do triunfo. De resto, Sobral toda tá muito bonitinha.
Estávamos atrasados e corremos para chegar a tempo de assistir à cerimônia que marcava a despedida final de Lustosa da cidade que ele tanto amava. Tive um certo impacto ao avistar, debruçado sobre o Rio Acaraú, o prédio amplo, moderno e imponente, projeto do arquiteto Antonio Carlos Campelo. A biblioteca harmoniza-se maravilhosamente com seu entorno, especialmente com a belíssima ponte nova que se avista ao longe e que dá certo ar cosmopolita a Sobral.
Não estava preparada para a delicada singeleza de tudo que se passou. Toda a cerimônia, organizada pelo nosso querido amigo, o escritor e acadêmico José Luis Lira em parceria com Ana Linhares, diretora da biblioteca, foi feita diante dessa bela paisagem. Tinha tanta gente na homenagem ao Lustosa. A maior parte era aquela mesma gente boa de Sobral que eu só conhecia de nome, de ouvir falar nos artigos e livros do Lustosa. Vieram de Brasília, sua mulher Verônica, seus filhos Raquel, Sara, Carlos, junto com sua linda Paula, Tomás, filho de Raquel e a sobrinha e afilhada Joanna. Estávamos também muitos dos irmãos, Lúcia, Paulo, Socorro, Pacelli, Clélia, eu e Fred. Os cunhados Valmir e Benevides, as cunhadas, Rosa e Elza. As sobrinhas Sellene, Mirian, Marina e Mariana. O sobrinho Gabriel. Seus amigos queridos que foram de Fortaleza a Sobral: Paulo Elpídio, Zuleide e Marinha, Lauro Vinhas e Marildes, e o Juarez Leitão. Este último, companheiro inseparável do Lustosa nos últimos anos, solidário, leal e, principalmente, de divertidíssima prosa.
Quando chegamos, a banda tocava um dobrado e o presidente da Academia Sobralense de Letras, José Luis Lira deu início à cerimônia. Com elegância e distinção fez as saudações de praxe e pronunciou tocante discurso. Seguido pela fala eloquente e apaixonada de Juarez Leitão e do texto do Carlos Eduardo, falando em nome dos filhos, que levou todo o mundo às lágrimas. Em seguida Sara e Carlos se dirigiram à lancha que os levou ao meio do Acaraú para jogar ali, tal como era o desejo dele, as cinzas do Lustosa. Parte delas ficará depositada na biblioteca para ser colocada, mais tarde, na base do busto do jornalista a ser esculpido. Sua biblioteca particular vai, segundo me anunciaram seus filhos, enriquecer o acervo da Biblioteca Lustosa da Costa. E não poderia ser de outro jeito.
Paulo, meu irmão, me disse que o rio Acaraú de sua infância era seco e que fora perenizado por obra e graça dos esforços das competentes administrações que vêm contribuindo para devolver a Sobral seu protagonismo. Inclusive seu atual prefeito, José Clodoveu de Arruda Neto, que o povo chama carinhosamente de Veveu. Conversando com ele ao final da cerimônia, elogiei a beleza da cidade, o fato de ver tudo muito bonitinho e bem cuidado. Ele expôs seu principio. O principio da vidraça quebrada. Ou seja, se numa casa, uma vidraça quebra e você deixa ficar assim mesmo, daqui a pouco, outra janela de outro lado também se deteriora, a tinta da parede descasca, o muro tomba, enfim... o imóvel se degrada. Com as cidades é a mesma coisa. Portanto o negócio é não deixar nem a primeira vidraça ficar quebrada. É zelar para manter tudo direitinho, sem lixo, sem sujeira, com as ruas bem calçadas e sinalizadas. E é isto, ao meu ver que é o que faz a diferença entre o bom e o mau prefeito.
Depois fomos todos jantar em restaurante aprazível, bem em frente a igreja de Nossa Senhora do Rosário, recém restaurada. No caminho fui conversando com o Campelo, velho e querido amigo, atual Secretário de Cultura de Sobral. Ele e sua mulher, Alja, ambos tendo vivido sempre em Fortaleza, estão perfeitamente integrados à vida da cidade. Gostam do lugar, gostam da brisa do entardecer, gostam dos tesouros arquitetônicos prodigiosamente conservados mas, principalmente, gostam das pessoas. Gostam dessa simplicidade que nossa Fortaleza perdeu.
Sobral conservou seus valores materiais e imateriais, e a eles agregou de forma equilibrada a modernização urbana necessária. Gosto de pensar que o Lustosa tem parte nisto. Gosto de pensar que essa obsessão dele por Sobral, expressa em seus tantos livros, sua vontade de desvendar a história desse lugar em que viveu infância e adolescência, com seu elenco de personagens e questões que o fascinaram para o resto da vida, ajudaram Sobral a se redescobrir e a conservar elevada a sua já tradicionalmente elevada autoestima.
Lustosa da Costa, meu irmão (6/10/12)
No dia em que o Lustosa morreu, minha amiga de adolescência, Juraci Bessa Maia, hoje professora da UFC, lembrou que foi por influência dele que nós duas escolhemos fazer o curso de Ciências Sociais. Eu não me lembrava disto. Lembrava sim do seu entusiasmo pela Sociologia, do fato de que, quando entrei na universidade, em 1977, ele me deu logo um livro de sua biblioteca "A redução sociológica", de Guerreiro Ramos, e a nova edição do "Raízes do Brasil", de Sergio Buarque de Holanda. Eu me esquecera desse dado tão importante. De que meu primeiro contato não só com as Ciências Sociais mas também com a grande literatura francesa, graças ao acesso fácil aos livros de sua maravilhosa biblioteca, me foram proporcionado por meu irmão. Graças também aos tantos outros livros que comprava para nós, e aos artigos de jornal que gostaria que lêssemos, anotadas com nosso nome em sua letra tão característica.
Porque a influência do Lustosa sobre minha vida é feita de coisas assim essenciais. Acredito que, como, na bela e banalizada sentença do "Pequeno Príncipe": o essencial é invisível ao olhos, só se vê bem com o coração. E só agora com o coração ferido pela perda do meu irmão e amigo posso ver coisas essenciais. Posso lembrar de que, na minha infância, com um talento razoável para o desenho, fui levada por ele a estudar pintura no centro de artes de Heloísa Juaçaba, onde tive o privilégio de ter aulas com o pintor e cineasta J. Siqueira. Posso lembrar também que, antes disto mesmo, convenceu papai a nos comprar um piano e nos pagar aulas pois era de bom tom que mocinhas bem educadas tivessem uma educação musical. O investimento não prosperou porque eu e Clélia éramos totalmente desprovidas de dotes musicais.
Certamente foi ele ainda que convenceu nossos pais a me deixar entrar nas Bandeirantes, movimento que então era o que havia de mais moderno e que integrava meninas de várias classe sociais. Lembro do meu deslumbramento ao participar de atividade na casa de Edson Queiroz, com seus lindos jardins, pois uma das filhas dele, Lenise, era minha colega das fadinhas. Na adolescência, ainda preocupado em fazer de nós, meninas chucras da Piedade, encabuladas, matutésimas, tão desenvoltas e elegantes como as mocinhas da Aldeota, nos matriculou em curso que a Socila estava oferecendo no Ideal Club.
Era assim, o irmão mais velho, o amigo de seus irmãos, o tio e o pai empolgado pelo sucesso dos filhos e dos sobrinhos. Mas, principalmente, o filho que esteve sempre ao lado do pai e da mãe. O filho que honrou a memória do pai, fazendo das histórias que este lhe contou elemento base de sua obra sobre Sobral. Pois foram personalidades complementares: o Lustosa e seu Costa. Tão diferentes entre si e tão próximos, tão amigos. Respeitando-se e amando-se, pai e filho. O pai amável, todo doçura, todo sedução, todo habilidade para as coisas práticas e para as costuras da vida em família e na sociedade local. O filho mais sério, mais zangado, estabanado como a mãe, capaz de guardar mágoas profundas, mas também homem do mundo e da sociedade, construtor de amizades sólidas e duradouras. Amizades da vida inteira: Dorian Sampaio, Lúcio Alcântara, Paulo Elpídio, Helio Barros, Lúcio Brasileiro, Antenor Barros Leal, Claudio Castelo. Essa gente andou lá em casa desde que eu era pequena, eram os amigos-irmãos, como ele chamava. Essa gente esteve na rua Nossa Senhora da Piedade, 126, para a festa de 15 anos de Maria Clélia. Festa hippie, cujo convite foi desenhado pelo então já famoso Mino. Coisa que só o enorme prestígio do Lustosa poderia angariar para a família.
Pois foi ele que fez do sobrenome Lustosa da Costa uma marca e uma legenda que todos nós que viemos depois procuramos espelhar e valorizar. Sermos irmãos do grande jornalista, conhecido de todo o mundo no Ceará, não só por sua presença na imprensa, mas por fazer dessa presença espaço de boa literatura nos fez importantes, nos fez altaneiros. Ele nos pertencia e nós a ele. Sua crônica diária, quase sempre intimista, quase sempre falava da família. Era até motivo de piada. Mas é que o Lustosa era a sua família. Ele vibrava com nossas conquistas mais até do que nós mesmos. E tudo que fazíamos era para ele sempre como a confirmação de que aqueles irmãozinhos menores, lá do Beco da Piedade, valiam alguma coisa.
Na hora em que a gente perde alguém tão importante na vida, a culpa do que não fizemos é o complemento amargo das boas lembranças. Se minhas dívidas com meu irmão são imensas, a culpa de não tê-lo dito e demonstrado enquanto ele estava aqui, pertinho, entre nós, disponível e doido para estar perto, é enorme. Ele queria sempre me levar para estar com seus amigos. Amigos que eu não conhecia bem e que eram da geração dele. Blasé, eu preferia estar com aquela turma boemia do Pereira, nos bares da vida, contando histórias da minha própria mocidade. Eu não fui tantas vezes em que ele me convidou. E me custava tão pouco ter ido.
Quando a gente tem na vida alguém assim, que sempre esteve entre nós, que sempre pairou sobre nós, com o qual divergimos e com cujas manias implicamos, a gente não dá valor. A gente acha que vai ter muito tempo para atender ao que ele nos pede. Que da próxima a gente vai... etc. etc. Só que agora sabemos que não vai ter próxima, que na próxima vez que formos a Fortaleza ficar uns dias com mamãe não vamos ter a presença dele por lá. Companhia mais constante da mãe nonagenária, Lustosa era cada vez mais caseiro, cada vez mais família e cada vez mais feliz de poder participar daqueles animados e barulhentos almoços de domingo da casa de D. Dolores.
Depois de nos despedirmos dele, em Brasília, fomos eu, Roberto e Fred, junto com um grupo grande de sobrinhos e sobrinhas, almoçar. Barulhentos, cheios de histórias, os primos reencontravam primos que não se viam há muito tempo, apesar de viverem na mesa cidade. Não pude deixar de agradecer ao Lustosa me proporcionar mais esse encontro feliz. Não pude também deixar de lamentar que ele, que gostava tanto de ver a família toda reunida, não estivesse ali para rir conosco como fizemos tantas vezes.
Porque a influência do Lustosa sobre minha vida é feita de coisas assim essenciais. Acredito que, como, na bela e banalizada sentença do "Pequeno Príncipe": o essencial é invisível ao olhos, só se vê bem com o coração. E só agora com o coração ferido pela perda do meu irmão e amigo posso ver coisas essenciais. Posso lembrar de que, na minha infância, com um talento razoável para o desenho, fui levada por ele a estudar pintura no centro de artes de Heloísa Juaçaba, onde tive o privilégio de ter aulas com o pintor e cineasta J. Siqueira. Posso lembrar também que, antes disto mesmo, convenceu papai a nos comprar um piano e nos pagar aulas pois era de bom tom que mocinhas bem educadas tivessem uma educação musical. O investimento não prosperou porque eu e Clélia éramos totalmente desprovidas de dotes musicais.
Certamente foi ele ainda que convenceu nossos pais a me deixar entrar nas Bandeirantes, movimento que então era o que havia de mais moderno e que integrava meninas de várias classe sociais. Lembro do meu deslumbramento ao participar de atividade na casa de Edson Queiroz, com seus lindos jardins, pois uma das filhas dele, Lenise, era minha colega das fadinhas. Na adolescência, ainda preocupado em fazer de nós, meninas chucras da Piedade, encabuladas, matutésimas, tão desenvoltas e elegantes como as mocinhas da Aldeota, nos matriculou em curso que a Socila estava oferecendo no Ideal Club.
Era assim, o irmão mais velho, o amigo de seus irmãos, o tio e o pai empolgado pelo sucesso dos filhos e dos sobrinhos. Mas, principalmente, o filho que esteve sempre ao lado do pai e da mãe. O filho que honrou a memória do pai, fazendo das histórias que este lhe contou elemento base de sua obra sobre Sobral. Pois foram personalidades complementares: o Lustosa e seu Costa. Tão diferentes entre si e tão próximos, tão amigos. Respeitando-se e amando-se, pai e filho. O pai amável, todo doçura, todo sedução, todo habilidade para as coisas práticas e para as costuras da vida em família e na sociedade local. O filho mais sério, mais zangado, estabanado como a mãe, capaz de guardar mágoas profundas, mas também homem do mundo e da sociedade, construtor de amizades sólidas e duradouras. Amizades da vida inteira: Dorian Sampaio, Lúcio Alcântara, Paulo Elpídio, Helio Barros, Lúcio Brasileiro, Antenor Barros Leal, Claudio Castelo. Essa gente andou lá em casa desde que eu era pequena, eram os amigos-irmãos, como ele chamava. Essa gente esteve na rua Nossa Senhora da Piedade, 126, para a festa de 15 anos de Maria Clélia. Festa hippie, cujo convite foi desenhado pelo então já famoso Mino. Coisa que só o enorme prestígio do Lustosa poderia angariar para a família.
Pois foi ele que fez do sobrenome Lustosa da Costa uma marca e uma legenda que todos nós que viemos depois procuramos espelhar e valorizar. Sermos irmãos do grande jornalista, conhecido de todo o mundo no Ceará, não só por sua presença na imprensa, mas por fazer dessa presença espaço de boa literatura nos fez importantes, nos fez altaneiros. Ele nos pertencia e nós a ele. Sua crônica diária, quase sempre intimista, quase sempre falava da família. Era até motivo de piada. Mas é que o Lustosa era a sua família. Ele vibrava com nossas conquistas mais até do que nós mesmos. E tudo que fazíamos era para ele sempre como a confirmação de que aqueles irmãozinhos menores, lá do Beco da Piedade, valiam alguma coisa.
Na hora em que a gente perde alguém tão importante na vida, a culpa do que não fizemos é o complemento amargo das boas lembranças. Se minhas dívidas com meu irmão são imensas, a culpa de não tê-lo dito e demonstrado enquanto ele estava aqui, pertinho, entre nós, disponível e doido para estar perto, é enorme. Ele queria sempre me levar para estar com seus amigos. Amigos que eu não conhecia bem e que eram da geração dele. Blasé, eu preferia estar com aquela turma boemia do Pereira, nos bares da vida, contando histórias da minha própria mocidade. Eu não fui tantas vezes em que ele me convidou. E me custava tão pouco ter ido.
Quando a gente tem na vida alguém assim, que sempre esteve entre nós, que sempre pairou sobre nós, com o qual divergimos e com cujas manias implicamos, a gente não dá valor. A gente acha que vai ter muito tempo para atender ao que ele nos pede. Que da próxima a gente vai... etc. etc. Só que agora sabemos que não vai ter próxima, que na próxima vez que formos a Fortaleza ficar uns dias com mamãe não vamos ter a presença dele por lá. Companhia mais constante da mãe nonagenária, Lustosa era cada vez mais caseiro, cada vez mais família e cada vez mais feliz de poder participar daqueles animados e barulhentos almoços de domingo da casa de D. Dolores.
Depois de nos despedirmos dele, em Brasília, fomos eu, Roberto e Fred, junto com um grupo grande de sobrinhos e sobrinhas, almoçar. Barulhentos, cheios de histórias, os primos reencontravam primos que não se viam há muito tempo, apesar de viverem na mesa cidade. Não pude deixar de agradecer ao Lustosa me proporcionar mais esse encontro feliz. Não pude também deixar de lamentar que ele, que gostava tanto de ver a família toda reunida, não estivesse ali para rir conosco como fizemos tantas vezes.
Afrânio Coutinho: literatura como missão (29/9/12)
Para Afrânio Coutinho, baiano que chegou ao Rio de Janeiro em 1947, com 36 anos de idade, bem vale o lema: literatura como missão. Afrânio Coutinho, que nasceu em 1911, formou-se em medicina em 1931, mas nunca exerceu a profissão pois, desde cedo, sua paixão foi a literatura. Começando como professor de Literatura e História no curso secundário, foi convidado, em 1941, a fazer parte do corpo docente da Faculdade de Filosofia da Bahia.
No ano seguinte, caiu-lhe no colo o emprego dos sonhos: o cargo de redator-secretário da revista "Seleções", em Nova York. Este posto que ocupou durante cinco anos, os cursos que frequentou na Universidade de Columbia e em outras universidades norte-americanas, aperfeiçoando-se em crítica, história literária e Barroco, mudaram o rumo de sua trajetória.
Se a vocação para a crítica literária já estava nele, a maneira de a fazer, a essência da arte ou da ciência da crítica, ele aprenderia lá na América. Sua atividade posterior no Brasil foi definitivamente marcada pela influência da moderna crítica americana e, para fazer dela a ferramenta de trabalho por excelência dos estudiosos da matéria, empreendeu uma verdadeira cruzada através da imprensa. De volta ao Brasil, inaugurou, em 1948, no Suplemento Literário do Diário de Notícias, a seção "Correntes Cruzadas", debatendo problemas de crítica e teoria literária. Manteve constante colaboração na imprensa e em revistas literárias, do país e do estrangeiro e dirigiu, entre 1951 e 1960, a revista "Coletânea".
Polêmico, agressivo, direto, sem papas na língua, cioso de seu lugar e de seu papel na história da crítica literária, Afrânio defendia uma atitude mais séria por parte dos que faziam e promoviam a literatura no Brasil. Protestando contra as "igrejinhas" que, através da proteção aos do grupo, faziam com que muito falsos valores emergissem enquanto talentos verdadeiros permaneciam desconhecidos, ele dizia que sua missão era promover "a renovação da crítica literária, que, no Brasil, estava dominada pelo impressionismo, velho e sovado, e, pior ainda, transformado ou degenerado em simples jornalismo, ou achismo, do gostei ou não gostei, praticado à larga pelos donos de rodapés de crítica literária".
Amava a polêmica e nela estava em seu elemento, se sentia perfeitamente à vontade: "Minha paixão é o assalto à praça", dizia. Quando assumiu a cadeira de número 33 da Academia Brasileira de Letras, disse em seu discurso de posse: "ao me escolherdes para a vossa ilustre companhia, escolhestes a própria controvérsia". E continuou, lembrando que nunca foram amenas as suas relações com os grupos literários, desconfiados dele, um solitário que: "se recusava a submeter-se ao ritual de admissão nas confrarias e igrejinhas e reagia contra o predomínio, habitual entre nós, da vida literária sobre a literatura". Apesar dessa aparente vocação de demolidor, Afrânio Coutinho foi um semeador, sua obra vastíssima foi construída ao lado de uma trajetória de professor dedicado, em função da qual sacrificou empregos que teriam lhe proporcionado melhor rendimento.
Porque, de sua missão em prol da literatura brasileira fazia parte a educação, desde seu primeiro ofício em um colégio na Bahia. Depois do período nos EUA, passou pelo Colégio Pedro II, no Rio e outros tantos cursos e universidades. Até concluir sua trajetória na Universidade Federal do Rio de Janeiro, formou gerações e gerações de especialistas qualificados. Mesmo depois da aposentadoria, prosseguiu no ofício de professor através das atividades da Oficina Literária Afrânio Coutinho onde, tendo por base sua vasta biblioteca particular, promovia estudos na área da literatura, ministrava cursos, proferia conferências e recebia escritores nacionais e estrangeiros.
Sua obra variada se inicia com a publicação, em 1940, de Filosofia de Machado de Assis, depois revista em função dos novos conceitos. Coordenou, a partir de 1950, a elaboração e publicação da monumental A literatura no Brasil. Foi naquele ano que publicou também a tese que defendeu para o concurso do colégio Pedro II, Aspectos da literatura barroca, que seria depois complementada pela Bibliografia para o estudo do barroco. Da longa sucessão de livros que publicou, se destacam as edições críticas da obra de grandes autores brasileiros e a elaboração, junto com J. Galante de Sousa e Eduardo Coutinho, da "Enciclopédia de Literatura Brasileira", publicada em 1990.
Dois trabalhos de Afrânio Coutinho merecem destaque: a organização dos textos e o belo prefácio à polêmica Alencar/Nabuco e o pequeno "Euclides, Capistrano e Araripe". Neste último, especialmente a parte em que fala de Capistrano de Abreu e do contexto de sua formação: o Ceará do século XIX. Ali, Afrânio Coutinho se superou na recuperação do universo de referências que conformaram o perfil do intelectual especialíssimo que foi Capistrano, apresentando um panorama rico e original da situação cultura do Ceará naquele período. Ao mesmo tempo, é notável a maneira como demonstra o papel fundamental de uma educação básica de qualidade na trajetória de toda uma geração de escritores.
Creio que este é um aspecto da história cultural do Ceará que merecia ser mais investigado. Quando se analisa o perfil dos fundadores da Padaria Espiritual que eram, em sua maioria rapazes do comércio, colocam-se algumas questões: onde eles adquiriram aquela cultura? Como tiveram alcance aos livros que citam, alguns deles em línguas estrangeiras? Onde fizeram sua formação? Imagino que tanto o Liceu do Ceará, quanto os seminários de padres, quanto as escolas primárias são os lugares onde se deve procurar as repostas.
O interessante seria descobrir como foi que esse ensino de qualidade se difundiu no nordeste do século XIX e, mais importante, em que momento ele deixou de existir.
No ano seguinte, caiu-lhe no colo o emprego dos sonhos: o cargo de redator-secretário da revista "Seleções", em Nova York. Este posto que ocupou durante cinco anos, os cursos que frequentou na Universidade de Columbia e em outras universidades norte-americanas, aperfeiçoando-se em crítica, história literária e Barroco, mudaram o rumo de sua trajetória.
Se a vocação para a crítica literária já estava nele, a maneira de a fazer, a essência da arte ou da ciência da crítica, ele aprenderia lá na América. Sua atividade posterior no Brasil foi definitivamente marcada pela influência da moderna crítica americana e, para fazer dela a ferramenta de trabalho por excelência dos estudiosos da matéria, empreendeu uma verdadeira cruzada através da imprensa. De volta ao Brasil, inaugurou, em 1948, no Suplemento Literário do Diário de Notícias, a seção "Correntes Cruzadas", debatendo problemas de crítica e teoria literária. Manteve constante colaboração na imprensa e em revistas literárias, do país e do estrangeiro e dirigiu, entre 1951 e 1960, a revista "Coletânea".
Polêmico, agressivo, direto, sem papas na língua, cioso de seu lugar e de seu papel na história da crítica literária, Afrânio defendia uma atitude mais séria por parte dos que faziam e promoviam a literatura no Brasil. Protestando contra as "igrejinhas" que, através da proteção aos do grupo, faziam com que muito falsos valores emergissem enquanto talentos verdadeiros permaneciam desconhecidos, ele dizia que sua missão era promover "a renovação da crítica literária, que, no Brasil, estava dominada pelo impressionismo, velho e sovado, e, pior ainda, transformado ou degenerado em simples jornalismo, ou achismo, do gostei ou não gostei, praticado à larga pelos donos de rodapés de crítica literária".
Amava a polêmica e nela estava em seu elemento, se sentia perfeitamente à vontade: "Minha paixão é o assalto à praça", dizia. Quando assumiu a cadeira de número 33 da Academia Brasileira de Letras, disse em seu discurso de posse: "ao me escolherdes para a vossa ilustre companhia, escolhestes a própria controvérsia". E continuou, lembrando que nunca foram amenas as suas relações com os grupos literários, desconfiados dele, um solitário que: "se recusava a submeter-se ao ritual de admissão nas confrarias e igrejinhas e reagia contra o predomínio, habitual entre nós, da vida literária sobre a literatura". Apesar dessa aparente vocação de demolidor, Afrânio Coutinho foi um semeador, sua obra vastíssima foi construída ao lado de uma trajetória de professor dedicado, em função da qual sacrificou empregos que teriam lhe proporcionado melhor rendimento.
Porque, de sua missão em prol da literatura brasileira fazia parte a educação, desde seu primeiro ofício em um colégio na Bahia. Depois do período nos EUA, passou pelo Colégio Pedro II, no Rio e outros tantos cursos e universidades. Até concluir sua trajetória na Universidade Federal do Rio de Janeiro, formou gerações e gerações de especialistas qualificados. Mesmo depois da aposentadoria, prosseguiu no ofício de professor através das atividades da Oficina Literária Afrânio Coutinho onde, tendo por base sua vasta biblioteca particular, promovia estudos na área da literatura, ministrava cursos, proferia conferências e recebia escritores nacionais e estrangeiros.
Sua obra variada se inicia com a publicação, em 1940, de Filosofia de Machado de Assis, depois revista em função dos novos conceitos. Coordenou, a partir de 1950, a elaboração e publicação da monumental A literatura no Brasil. Foi naquele ano que publicou também a tese que defendeu para o concurso do colégio Pedro II, Aspectos da literatura barroca, que seria depois complementada pela Bibliografia para o estudo do barroco. Da longa sucessão de livros que publicou, se destacam as edições críticas da obra de grandes autores brasileiros e a elaboração, junto com J. Galante de Sousa e Eduardo Coutinho, da "Enciclopédia de Literatura Brasileira", publicada em 1990.
Dois trabalhos de Afrânio Coutinho merecem destaque: a organização dos textos e o belo prefácio à polêmica Alencar/Nabuco e o pequeno "Euclides, Capistrano e Araripe". Neste último, especialmente a parte em que fala de Capistrano de Abreu e do contexto de sua formação: o Ceará do século XIX. Ali, Afrânio Coutinho se superou na recuperação do universo de referências que conformaram o perfil do intelectual especialíssimo que foi Capistrano, apresentando um panorama rico e original da situação cultura do Ceará naquele período. Ao mesmo tempo, é notável a maneira como demonstra o papel fundamental de uma educação básica de qualidade na trajetória de toda uma geração de escritores.
Creio que este é um aspecto da história cultural do Ceará que merecia ser mais investigado. Quando se analisa o perfil dos fundadores da Padaria Espiritual que eram, em sua maioria rapazes do comércio, colocam-se algumas questões: onde eles adquiriram aquela cultura? Como tiveram alcance aos livros que citam, alguns deles em línguas estrangeiras? Onde fizeram sua formação? Imagino que tanto o Liceu do Ceará, quanto os seminários de padres, quanto as escolas primárias são os lugares onde se deve procurar as repostas.
O interessante seria descobrir como foi que esse ensino de qualidade se difundiu no nordeste do século XIX e, mais importante, em que momento ele deixou de existir.
"Quem seus inimigos poupa... (22/9/12)
Nas mãos lhes morre” – é esse o complemento do adágio popular que achei
em um dos jornais da Independência. Refrões, adágios, provérbios ou
aforismos, são os nomes que, com ligeiras variações de sentido, designam
aquela expressão sucinta, quase sempre doutrinal ou sentenciosa, cuja
legitimidade se baseia na antiguidade e na aprovação pelo senso comum.
Formula sintética e direta, o que dá titulo a este artigo, como alguns
de seus congêneres, é repleto de significados e fornece uma lição digna
de Maquiavel que analisaremos no final.
Don José Maria Sbarbi,
presbítero premiado pela Biblioteca Nacional de Espanha, em 1871, por
sua monografia sobre “Los refranes, adagios e proverbios castellanos”,
acreditava que estudar os provérbios era adquirir ciência de modo “más
llevadero, consumando el difícil maridaje de lo útil com lo agradable”.
Segundo Monsenhor Sbarbi, Aristóteles já os definia como “preciosas
relíquias da venerável antiguidade preservadas pela memória dos homens”.
Atribui-se a Horácio aquele que se usa até hoje: “quando
vires as barbas do teu vizinho arder, deita as tuas de molho”. E a
Sêneca, um de que muita gostava o Visconde de Cairu: “Quem bate
primeiro, bate duas vezes”. Os que mais apareciam nos jornais
brasileiros de 1822 eram mesmo os de origem obscura: “palavras loucas,
orelhas moucas”; “quem não tem padrinho morre mouro”; “na barba do tolo
aprende o barbeiro novo”; “cada louco com sua teima”, etc.
Analisando a cultura do século XVI, na Europa do Norte, Natalie Zemon
Davis mostra que, apesar da distância que havia entre a linguagem
clerical e/ou literária e a fala do homem do campo, elas tinham algo em
comum: ambas compartilhavam o uso do provérbio. Isso se deveria, entre
outras coisas, ao fato de que o nível de alfabetização entre os leigos
na Europa do Norte se conservara baixo até o século XV.
Para
os padres, os provérbios comuns eram uma maneira de invocar um universo
de discurso familiar e de ajudar as pessoas a lembrarem a mensagem do
sermão. Os advogados, por sua vez, se encantavam com a estrutura
harmoniosa e a brevidade, acreditando que, por sua densidade, os
provérbios ajudavam a persuadir.
Mas, segundo Davis, com o
advento do Racionalismo e do Iluminismo, os provérbios foram postos de
lado: passaram a ser vistos como produto de falsas associações. Não
sendo passíveis de provas adequadas, não se recomendavam nem por sua
concisão nem por sua familiaridade, tampouco por sua longa existência.
Talvez seu uso não tenha sido tão deixado de lado assim. Em meu livro
“Insultos impressos” (Cia. das Letras, 2000) demonstro como eram
frequentemente usados pelos jornalistas que fizeram a Independência do
Brasil.
Muito me impressionou o uso que todos os que escreviam
nos jornais daquele tempo – de Hipólito da Costa, passando por
Gonçalves Ledo e o Visconde de Cairu, até chegar aos jornalistas mais
populares, como João Soares Lisboa e Luís Augusto May – faziam deles. E,
vindo mais perto, nos surpreendemos ao verificar que Rui
Barbosa parece ter sido senão um estudioso pelo menos um colecionador de obras que tratavam do assunto.
De sua admirável biblioteca constam 15 títulos relacionados a aforismos, provérbios ou refrões. Um deles, de Gustave Le Bon.
Acreditava Don José Sbarbi que o império dos provérbios era universal e
tão antigo como o mundo e que sua duração alcançaria até o fim das
gerações. Decerto esse império não é tão poderoso hoje quanto em seu
tempo. Mas um dicionário de provérbios lançado há poucos anos pela
Lacerda Editores, ao estabelecer as diversas formas que um mesmo
provérbio pode assumir em vários idiomas, surpreende ao nos revelar a
universalidade de alguns que considerávamos tipicamente brasileiros.
O que escolhi para dar titulo a esse artigo, “quem seus inimigos poupa
nas mãos lhes morre”, me veio à mente a propósito exatamente da
política. Neste terreno, mais do que em outros, a lição curta e direta
daquele provérbio deve ser sempre lembrada. Especialmente pelos bons,
aqueles que veem a política e a humanidade com olhos diversos dos de
Maquiavel. Seu sentido é de que se você tem o poder e a oportunidade de
neutralizar forças que estão empenhadas em lhe destruir e não o faz, não
tenha dúvida, quando a situação se inverter, você será destruído.
Os bem intencionados e os abnegados que só veem na política uma forma
de fazer o bem, de ajudar aos que mais precisam, esquecem essa lição
fundamental: para os que já são ricos e poderosos e estão se lixando
para o destino dos outros, o dinheiro e o poder nunca são demais. Há no
mundo um contingente considerável de pessoas para as quais o sofrimento,
a miséria e a degradação do próximo são perfeitamente indiferentes. Aí
vale outro refrão: não tome os outros por si.
Proteja o seu
legado, neutralize os inimigos de seu projeto, faça o que estiver ao seu
alcance para impedi-los de destruir o que foi conquistado. Quem conhece
a história das lutas sociais sabe que foi um processo longo, sofrido e
difícil cujo resultado precisa ser guardado dia e noite contra os que
estão empenhados em vê-lo naufragar. “O preço da liberdade é a eterna
vigilância”, já foi um slogan do liberalismo de direita mas que vale
para qualquer situação.
Na verdade não só o da liberdade mas
também o preço da igualdade, dos direitos, da distribuição mais justa
das riquezas, da manutenção de um estado de bem-estar social. O que
vemos hoje acontecer nos países desenvolvidos é exatamente o resultado
da falta de vigilância dos que estavam acostumados a ter tudo e não se
deram conta do valor do que lhes estava sendo tirado. As novas gerações
não tinham ideia do quanto aquelas conquistas tinham custado aos seus
pais e avós. Leva-se muito tempo para erguer uma nação mais justa e
igualitária. Reduzi-la rapidamente à situação anterior é só questão de
recursos e de oportunidade.
No centenário da Independência (15/9/12)
Em pequeno e admirável livro, " A Nação faz 100 anos" hoje disponível na internet, a historiadora Marly Motta analisou o ambiente e o caráter das festas que marcaram o centenário da Independência do Brasil, em 1922. Segundo Marly, uma espécie de "vigilância comemorativa" já teria tomado conta da sociedade brasileira alguns anos antes da data. Como sói acontecer em momentos como este, a Nação, através de suas elites, passou por um processo de auto-análise, revendo o passado, criticando o presente, antecipando o que deveria ser o futuro. Como disse, em tom bem humorado a revista "Careta": "os grandes momentos da vida sugerem grandes idéias; o gigante vai fazer cem anos de vida independente. É possível que nessa ocasião lhe acuda a idéia (...) de tomar um bom lombrigueiro".
O passado marcado pela colonização portuguesa favorecia a produção de diagnósticos negativos. De acordo com eles não tínhamos progredido, não éramos iguais aos Estados Unidos por conta dos portugueses. Portugueses estes que continuavam visíveis na paisagem da Capital Federal, dominando o comércio, os transportes e o aluguel das habitações pobres. Portugueses execrados desde o começo da República, quando os florianistas os tinham escolhido como alvo preferencial de sua revolta. Sentimento que a aproximação do Centenário da Independência contribuía para fazer renascer. Era preciso apagar a mancha do colonizador para afirmar a brasilidade.
E este também foi um dos argumentos usados pelos que defendiam o arrasamento do Morro do Castelo, primeiro núcleo urbano do Rio de janeiro. Alegaram que aquela herança colonial era um estafermo a encobrir a beleza natural do Rio, que era foco de mazelas e doenças e que impedia a circulação do ar na cidade. Desde o tempo da colônia o morro do Castelo viera perdendo prestigio para outros espaços da cidade, acabando por se converter em um bairro pobre e abandonado. As cabrinhas que se via pastando na sua encosta, segundo o "Revista da Semana", faziam contraste com a vizinhança elegante, onde sobressaiam os edifícios modernos e imponentes do Teatro Municipal, da Biblioteca Nacional e do STF.
Poucas foram as vozes que se levantaram em defesa do velho morro. Delas a mais revoltada era a de Lima Barreto que acusava o governo de deixar de lado obras de utilidade social para "pensar só nesses arremedos parisienses, nessas fachadas e ilusões cenográficas". Numa cidade onde havia falta de moradia para o povo, dizia Lima Barreto, o governo pretendia destruir, por causa de uma festa, a área habitada por milhares de pessoas, em sua maioria pobres, sem lhes oferecer nada em troca. Lima Barreto denunciava, já naquele tempo, o deslumbramento da elite expresso na tola indagação que estava nas entrelinhas de todas as matérias jornalistas sobre os festejos: o que vão pensar de nós os estrangeiros? De fato, para o brasileiro parecer civilizado diante do visitante europeu era preciso, como disse a revista "Careta": "saber envergar uma casaca, fumar charuto sem se engasgar (...) e rir de boca fechada para não cuspir na cara do vizinho".
O morro foi abaixo para dar lugar aos magníficos pavilhões que compuseram a Grande Exposição Internacional comemorativa do centenário da Independência. Do elenco de grandes obras erguidas então, restaram os prédios que abrigam hoje a ABL, o MIS/RJ, o Serviço de Saúde dos Portos e parte do MHN. Outra obra que se fez por conta da festa foi a construção do Hotel Gloria. O Hotel Gloria, onde se hospedaram os visitantes mais ilustres foi, aliás, o "point" para onde acorriam os jornalistas em busca das celebridas. Foi no seu hall que Viriato Correia entrevistou a nora do Conde D´Eu que, junto com dois dos netos da princesa Isabel, acompanharam o avô na travessia do Atlântico.
Com o fim do banimento da família imperial decretado no final de 1920, os despojos de d. Pedro II e de d. Teresa Cristina foram trazidos para o Rio de Janeiro. Chegaram no começo de 1921, acompanhados pelo conde D´Eu. Viriato Correa acompanhou o velho Conde em suas andanças pelo Rio e registrou, em entrevista publicada no Correio da Manhã, a emoção de seu reencontro com antigos soldados da Guerra do Paraguai que tinham lutado sob suas ordens. Entusiasmado pela acolhida calorosa que recebeu, o Conde d´Eu aceitou o convite para voltar em 1922 para os festejos pelo centenário da Independência. A morte o colheu durante a travessia do Atlântico.
Se a imagem de d. Pedro II e de seu reinado foi valorizada naquele contexto sendo louvado por Assis Chateaubriand, como "ultimo governo honesto que teve o Brasil" , o mesmo louvor não foi dedicado a seu pai. Segundo a imprensa do tempo d. Pedro I "não passou de um mero oportunista que refreou o quanto pode as arrancadas independentistas." Ao invés de dar destaque ao "estróina" que, apesar de "suas decisões repentinas, vacilações de caráter, incultura de espírito e falta de austeridade em seus costumes privados" proclamou a Independência, as celebrações, especialmente as realizadas em São Paulo, preferiram valorizar o papel de José Bonifácio.
Era parte do esforço paulista para garantir para São Paulo um lugar central nas comemorações. Um monumento aos Andrada foi erguido em Santos e, segundo Marly Motta, as próprias manifestações artísticas da Semana de Arte Moderna em sua critica à cultura da "Belle Epoque" traziam embutidas uma censura ao Rio de Janeiro. Através de Mario de Andrade, São Paulo reivindicava para si papel central na renovação da cultura brasileira apontando a decadência do Rio de Janeiro. Assim, como demonstra o livro de Marly Motta, os festejos pelo Centenário da Independência marcaram também a irrupção de São Paulo no cenário cultural brasileiro de maneira avassaladora e definitiva.
O passado marcado pela colonização portuguesa favorecia a produção de diagnósticos negativos. De acordo com eles não tínhamos progredido, não éramos iguais aos Estados Unidos por conta dos portugueses. Portugueses estes que continuavam visíveis na paisagem da Capital Federal, dominando o comércio, os transportes e o aluguel das habitações pobres. Portugueses execrados desde o começo da República, quando os florianistas os tinham escolhido como alvo preferencial de sua revolta. Sentimento que a aproximação do Centenário da Independência contribuía para fazer renascer. Era preciso apagar a mancha do colonizador para afirmar a brasilidade.
E este também foi um dos argumentos usados pelos que defendiam o arrasamento do Morro do Castelo, primeiro núcleo urbano do Rio de janeiro. Alegaram que aquela herança colonial era um estafermo a encobrir a beleza natural do Rio, que era foco de mazelas e doenças e que impedia a circulação do ar na cidade. Desde o tempo da colônia o morro do Castelo viera perdendo prestigio para outros espaços da cidade, acabando por se converter em um bairro pobre e abandonado. As cabrinhas que se via pastando na sua encosta, segundo o "Revista da Semana", faziam contraste com a vizinhança elegante, onde sobressaiam os edifícios modernos e imponentes do Teatro Municipal, da Biblioteca Nacional e do STF.
Poucas foram as vozes que se levantaram em defesa do velho morro. Delas a mais revoltada era a de Lima Barreto que acusava o governo de deixar de lado obras de utilidade social para "pensar só nesses arremedos parisienses, nessas fachadas e ilusões cenográficas". Numa cidade onde havia falta de moradia para o povo, dizia Lima Barreto, o governo pretendia destruir, por causa de uma festa, a área habitada por milhares de pessoas, em sua maioria pobres, sem lhes oferecer nada em troca. Lima Barreto denunciava, já naquele tempo, o deslumbramento da elite expresso na tola indagação que estava nas entrelinhas de todas as matérias jornalistas sobre os festejos: o que vão pensar de nós os estrangeiros? De fato, para o brasileiro parecer civilizado diante do visitante europeu era preciso, como disse a revista "Careta": "saber envergar uma casaca, fumar charuto sem se engasgar (...) e rir de boca fechada para não cuspir na cara do vizinho".
O morro foi abaixo para dar lugar aos magníficos pavilhões que compuseram a Grande Exposição Internacional comemorativa do centenário da Independência. Do elenco de grandes obras erguidas então, restaram os prédios que abrigam hoje a ABL, o MIS/RJ, o Serviço de Saúde dos Portos e parte do MHN. Outra obra que se fez por conta da festa foi a construção do Hotel Gloria. O Hotel Gloria, onde se hospedaram os visitantes mais ilustres foi, aliás, o "point" para onde acorriam os jornalistas em busca das celebridas. Foi no seu hall que Viriato Correia entrevistou a nora do Conde D´Eu que, junto com dois dos netos da princesa Isabel, acompanharam o avô na travessia do Atlântico.
Com o fim do banimento da família imperial decretado no final de 1920, os despojos de d. Pedro II e de d. Teresa Cristina foram trazidos para o Rio de Janeiro. Chegaram no começo de 1921, acompanhados pelo conde D´Eu. Viriato Correa acompanhou o velho Conde em suas andanças pelo Rio e registrou, em entrevista publicada no Correio da Manhã, a emoção de seu reencontro com antigos soldados da Guerra do Paraguai que tinham lutado sob suas ordens. Entusiasmado pela acolhida calorosa que recebeu, o Conde d´Eu aceitou o convite para voltar em 1922 para os festejos pelo centenário da Independência. A morte o colheu durante a travessia do Atlântico.
Se a imagem de d. Pedro II e de seu reinado foi valorizada naquele contexto sendo louvado por Assis Chateaubriand, como "ultimo governo honesto que teve o Brasil" , o mesmo louvor não foi dedicado a seu pai. Segundo a imprensa do tempo d. Pedro I "não passou de um mero oportunista que refreou o quanto pode as arrancadas independentistas." Ao invés de dar destaque ao "estróina" que, apesar de "suas decisões repentinas, vacilações de caráter, incultura de espírito e falta de austeridade em seus costumes privados" proclamou a Independência, as celebrações, especialmente as realizadas em São Paulo, preferiram valorizar o papel de José Bonifácio.
Era parte do esforço paulista para garantir para São Paulo um lugar central nas comemorações. Um monumento aos Andrada foi erguido em Santos e, segundo Marly Motta, as próprias manifestações artísticas da Semana de Arte Moderna em sua critica à cultura da "Belle Epoque" traziam embutidas uma censura ao Rio de Janeiro. Através de Mario de Andrade, São Paulo reivindicava para si papel central na renovação da cultura brasileira apontando a decadência do Rio de Janeiro. Assim, como demonstra o livro de Marly Motta, os festejos pelo Centenário da Independência marcaram também a irrupção de São Paulo no cenário cultural brasileiro de maneira avassaladora e definitiva.
Quero chorar, não tenho lágrimas… (8/8/12)
Esse é o primeiro verso de uma marchinha de carnaval que segue dizendo: "que me rolem na face para me socorrer,/ se eu chorasse talvez desabafasse/ o que eu sinto no peito eu não posso dizer/, só porque não sei chorar/ eu vivo triste a sofrer". O sujeito queria chorar mas era em ritmo bem sacudido pois essa marchinha era daquelas buliçosas. Mas dizia uma coisa verdadeira sobre o poder das lágrimas. Não é que só quem não sabe chorar que sofre mas, a verdade é que quem chora experimenta certo alívio.
Só mesmo nas marchinhas de carnaval era que um "homem de moral" podia se dar ao luxo de chorar. Pelo que me recordo nos sambas-canção tem muita angustia, muita magoa mas poucas lágrimas. Em "Vingança" do Lupicínio Rodrigues, um dos prazeres do vingativo é saber que encontraram o/a autor/a de suas desditas "bebendo e chorando" na mesa de um bar.
Na minha infância, esse negócio de chorar era coisa de gente fraca porque homem que é homem não chora e mulher valente também não chora não. No tempo do colégio das Dorotéias, eu só mangava das meninas que tinham morrido de chorar em "Romeu e Julieta", do Zefirelli e em "Love Story". Este último eu nem assisti porque Garota Cultural que se prezasse não se prestava a ver filme meloso. Também passei longe de "Dio come ti amo". Eu tinha total desprezo por esse gênero lacrimoso filme que tanto sucesso fazia entre as minhas colegas. Imagina, eu, chorar? Meu negócio era Bergman. Filme-cabeça.
E, no entanto, devo ter chorado bem em uns e outros filmes de que não me lembro agora. Mesmo não sendo livro muito conceituado no tempo, "Meu pé de laranja-lima", do qual não lembro uma linha sequer, me fez derramar lágrimas de esguicho, como dizia Nelson Rodrigues. Também dei vazão às lágrimas em algumas despedidas. Assim mesmo era choro escondido, disfarçado, envergonhado. Só fui mesmo me libertar desse preconceito contra o choro na medida em que as coisas da vida passaram a me levar naturalmente às lágrimas.
Em Paris fiquei surpresa de ver, mais de uma vez, mulheres chorando na rua. Não eram mulheres do povo, ou pedintes como a gente vê muito por lá. Estas não desciam a essa humilhação de implorar entre lágrimas pela sua caridade. Mendigo parisiense tem uma alta concepção cenográfica. Sentava-se em alguma esquina, sempre acompanhado por um ou dois cachorros pequenos e em atitude sofrida, porém digna, mão estendida, tendo ao lado um cartaz em papelão com seu apelo, às vezes um simples: "J´ai faim". No inverno é batata: funciona que é uma beleza.
As mulheres parisienses que vi chorar nem eram frágeis, nem eram pobres e não pareciam ter passado por nenhuma desgraça. Pareciam pessoas que tinham se despedido de alguém querido e que estavam partindo, pois vi-as na rua, no metrô ou no trem com uma pequena mala de viagem. O que me surpreendeu foi que elas deixassem as lágrimas correr livremente pelo rosto sem qualquer vergonha ou constrangimento. Eram mulheres altivas, muito claras e elegantes e não pareciam estar buscando a piedade nem o conforto das pessoas em volta. Ao contrário, certamente, como a maior parte das parisienses, avessas a qualquer tipo de familiaridade, teriam reagido com aspereza à tentativa de confortá-las.
Eu fiquei pensando no sentido daquelas lágrimas assumidas. Lágrimas que não estavam associadas a nenhuma outra atitude dramática, a nenhum queixume ou fungado, enfim, a nenhuma outra demonstração de sofrimento. Será que essas mulheres choravam assim porque entre tantos direitos conquistados os franceses teriam o da liberdade de chorar em público sem que ninguém tenha nada a ver com isto? Não sei. Mas achei bacana.
Eu choro pouco. Em geral quando algo terrível me acontece eu tendo a reagir analisando tudo, organizando, racionalizando, vendo todos os lados do problema para melhor enfrentá-lo. Mesmo quando tive medo de ter uma doença grave, eu fiquei obcecada pelo assunto, em pânico, mas não chorei. Hoje vejo que isto não é vantagem nenhuma pois quando algo me toca a ponto de me fazer chorar, esse choro me alivia e me dá uma sensação de conforto e relaxamento. Chorar é bom para quem chora e acho que, dependendo da causa, é uma homenagem ao objeto de nossas lágrimas. Chorar nos dá uma sensação de vida pois é uma manifestação do corpo, uma reação fisiológica. Significa que nossos olhos responderam ao sinal que lhe mandou o coração e a mente, lavando-se e, com isto, aliviando um pouco a nossa dor.
Grande aquisição da família foi José Benevides, marido da Lúcia, um chorão confesso e desavergonhado. Detrás daquela estampa de magnata americano bate um legítimo coração sertanejo. Sertanejo de Mombaça, terra do povo que mata e chora pelo morto. Benevides não mata ninguém mas se emociona fácil e as lágrimas lhe brotam grossas e generosas. Diante de histórias de superação, em batizados, casamentos e enterros, mesmo que não seja de gente próxima, o Benevides chora. É coisa de família, segundo ele me contou. O pai dele era um chorão, a irmã, Iramiza é outra e sua linda filha, Sellene, é herdeira dessa tradição familiar. Neste momento em que vivem uma história de perda tão dramática, recomendo ao Benevides e aos de sua família que têm a graça das lágrimas que as deixem correr livres, fartas e generosas. Chorem com liberdade, pois assim desafogam o coração e, com suas lágrimas, prestam a homenagem mais sincera à memória de seu ente querido.
E termino essa crônica do Dia da Pátria, o samba do grande Paulo Vanzolini, amigo do Pessoal do Ceará:
"Chorei, não procurei esconder,/ todos viram, fingiram/ pena de mim não precisava/ ali onde eu chorei/ qualquer um chorava/dar a volta por cima que eu dei, quero ver quem dava".
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