Boicote aos produtos franceses (27/7/13)

Entre setembro e outubro de 1830, a imprensa brasileira mais radical ensaiou uma campanha para que fossem boicotados produtos, lojas e modistas franceses. Acontecera que dois franceses tinham desembarcado ali pelos lados de Niterói e saíram a caçar borboletas na Fazenda Cavalão do conselheiro Manuel de Sousa França. Expulsos com maus modos pelos escravos do dono das terras voltaram, no dia seguinte, junto com a tripulação da fragata Carolina, onde estavam embarcados. Deram uns sopapos no escravo e levaram o irmão do proprietário até a embarcação onde lhe aplicaram o que no Brasil de então se chamava uma rodada de cipó.

Era um momento de exaltado nacionalismo que se voltava principalmente contra os portugueses e, por associação, contra d. Pedro I cujo reinado estava em franco declínio. A imprensa de oposição tinha na “Aurora Fluminense”, de Evaristo da Veiga sua voz mais ativa que repercutia, sempre de forma bem mais radical  na “Ástrea”, no “Republico”, na “Voz Fluminense” e na “Nova Luz Brasileira”. Foi essa a imprensa que comandou os protestos contra os franceses em geral e seus comerciantes em particular.

A coisa tinha também um certo tempero de luta de classe pois  o comércio francês era sinônimo de luxo e de futilidade, associado a produtos que agregavam maior valor só pelo fato de virem de Paris. Em 1816, D. João VI restabelecera relações diplomáticas e comerciais com a França. A partir daí o Rio de Janeiro sofreria uma verdadeira invasão francesa. Com suas modistas, cabeleireiros e decoradores, os franceses logo fariam da rua do Ouvidor a rua mais chique do Rio. A rua atraía às mulheres para as compras com a suas modas e aos maridos para o deslumbramento com as beldades gaulesas postadas atrás do balcão.  Inovação escandalosa que revolucionou o comércio local, antes atendido pelos modestos meninos caixeiros.

Debret flagrou esse momento de transição cultural. Se ficara espantado com a falta de graça das modas usadas pelas brasileiras quando aqui chegou em 1816, quando partiu, constatara que “o habitante do Brasil tem-se mostrado, desde então, tão entusiástico apreciador da elegância e da moda francesa que, por ocasião da minha partida, em fins de 1831, a rua do Ouvidor, era quase que inteiramente constituída de lojas francesas de todo tipo, mantidas pela prosperidade de seu comércio”.

Em 1818, Durand vendia acessórios masculinos e femininos como calçados, chapéus, luvas, suspensórios, leques, escovas, pentes, flores artificiais e bijuterias. Os franceses também influíram nos hábitos e cuidados com a toalete, proporcionando uma série de serviços antes inexistentes na cidade. Cabeleireiros  franceses como Richaud e Catelineau competiam pelo mercado, oferecendo  toda a sorte de essências, perfumes, sabonetes, tinturas para cabelo e pomadas. Alfaiates, como o Gudin, ofereciam roupa pronta para vender. César Bouliech prometia fazer vestidos “à moda do mais moderno de Paris”. Tornier, chapeleiro de Paris, oferecia na Rua São José, chapéus redondos e armados.

Pois foi justamente contra esse próspero comércio francês que a “Nova Luz Brasileira”, de 21/09/1830, conclamou ao boicote, dizendo: “seja indigno do nome brasileiro; seja indigno da liberdade e da Constituição todo aquele que gastar um só vintém em uma casa francesa; todo aquele que trajar as suas modas; seja indigno do senso e caráter humano, quanto fizerem uso dos vestidos e macaquices próprias desses pelintras, de vestidos que não são mais do que traições para precipitarem a mocidade brasileira de um  e outro sexo e para fazerem-nos esquecer o doce nome de Pátria, e os deveres de brasileiros embebidos em um vão, inútil e vergonhoso luxo.”

O jornal voltaria novamente ao ataque em 08/10/1830, lembrando que  “se o espírito nacional se mostrasse decididamente disposto a tratar como deve a mísera canalha que vem de Paris vender-nos as suas tetéias e retalhos dez vezes mais caro do que nos atreveríamos a pagar a um nacional” talvez os franceses não nos tratassem com tanta arrogância. A influência nefasta dos franceses sobre a juventude, aliás, também é lembrando pelo articulista pois, além de venderem “livros indecentes e imorais” e faziam nossa mocidade andar “enfatuada e embonecada”, tornando-se os rapazes “tísicos e mirrados por andarem de tal forma entalados que nem podem olhar para seus pés”. Se boicotássemos os produtos franceses, continua, “não veríamos as nossas querida patrícias com a torre de babel à cabeça, com mangas de tão extraordinária dimensão que tornam defeituosos os lindos braços que a natureza lhes deu perfeitos”. A moda francesa contaminara até língua que estaria “manchada de feios galicismos”. O jornal terminava conclamando: “Nem mais um real aos franceses.”
    
 “O Brasileiro Imparcial”, (28/09/1830) jornal adversário da “Nova Luz”, registrou que o apelo das folhas radicais que desejavam “que declaremos guerra à França” e “que ninguém compre mercadorias francesas” fizera com que fossem insultadas no teatro,  “em a noite do dia 25, as senhoras que estavam com chapelinhos franceses”. Em Pouso Alegre, interior de Minas, o “Pregoeiro Constitucional” (30/10/1830) registrou o sucesso do boicote: “Os industriosos franceses que entre nós vivem tem desertas as suas casas, ninguém lhes compra nada e este castigo é bom. Dizem, e nós acreditamos, que deste mal virá o bem de levar as nossas belas a fazerem por sua própria mão os ornatos, contra o maldito costume, que nos iam embutindo, de nada ser bom que não fosse feito pelas modistas. Que alívio para os pais de família! Que abono para a nossa indústria!”


Mas a coisa logo arrefeceu, pois, com a chegada das notícias sobre a Revolução de Julho de 1830 de caráter liberal que derrubara os Bourbon, novamente os espíritos dos revolucionários nativos voltaram a se empolgar com a França e com os franceses, deixando de lado o boicote contra suas modas e seu comércio.

Dolores Feitosa (20/7/13)

Creio que não cometo crime autoral antecipando aqui parte do que escrevi como texto de apresentação do recém-lançado livro de Luiza Amorim, “Dolores Feitosa: resiliente como a caatinga”. Na verdade, nem tudo que digo aqui disse lá e, de qualquer maneira, é sempre bom falar de Dolores Feitosa, de suas histórias e dos elos que ao longo da vida fomos estabelecendo com ela e sua família. E quem ler sua biografia vai concordar comigo.

Trata-se da história de uma mulher cearense do sertão, esposa e mãe de família dedicada. Filha moça da mais antiga elite do Estado. Mas sua história é também a história de uma intelectual e de uma ativista, pioneira nas lutas ambientais no Ceará. No entanto, quando se chega ao final da leitura de sua biografia, a gente percebe que há ainda muito mais classificações que poderiam abarcar esse personagem de trajetória tão singular que é Dolores Feitosa.

Cabe ressaltar que foi a competência de Luiza Amorim, sua capacidade de mergulhar no universo de seu biografado, aliando a pesquisa em jornais, papéis, e fotografias aos depoimentos, que proporciona uma visão por inteiro de Dolores Feitosa. Mais uma vez, tal como lhe aconteceu quando escreveu as biografias de Lustosa da Costa e de Adísia Sá, a própria autora se deixou envolver pelo objeto de seus estudos. E imagino como não deve ter sido saborosa essa convivência de Luiza com Dolores, sua família e seus lugares preferidos, especialmente o sertão dos Inhamuns. Conversar com uma mulher inteligente, ouvir-lhe as histórias, apreender sua filosofia de vida e partilhar suas saudades é privilégio raro, experiência única da qual a gente sempre sai maior do que entrou.

E isto poderão também dizer os leitores desse livro, depois que percorrem, através de suas páginas, a vida dessa mulher, herdeira daquela mesma aristocracia rústica que tanto fascinou Lustosa da Costa. Sua vida de menina, com mãe e avó sempre presentes, modelos de mulher de personalidade forte que já se distinguiam por suas ações sociais na Sobral da primeira metade do século XX, faz dela uma moça privilegiada. O nível de educação que obteve, mesmo com as restrições para que cursasse uma faculdade, foi bem diverso do a que tiveram acesso as moças de classe média de seu tempo.

Mas, sendo moça de elite, Dolores era também moça inteligente e suas ambições passavam além dos sonhos das meninas ricas de Sobral. Talvez por isso tenha se deixado seduzir pelo funcionário da Secretaria de Agricultura, Joaquim Feitosa, filho de outra família cujas origens remontam ao passado mais distante da ocupação dos sertões cearenses. Pois o Joaquim também não era um sertanejo como os outros, nem um moço da elite cearense comum. Foi o encontro feliz de inteligências privilegiadas, de ideais compartilhados que os manteve unidos e afinados até o final.

É bonita a história de Joaquim e Dolores. É bonita a história de suas lutas. Mas é especialmente bonita a maneira como Dolores a viveu e a prolongou como história dela mesma, depois da morte de Joaquim. Pois nessa aventura ela nunca foi coadjuvante. Foi parceira que, além das missões a que se dedicou, foi mãe e sofreu com a doença e a perda do filho, tendo que abrir mão de atividades que lhe eram caras para confortá-lo até o último momento.

Muitas são as passagens emocionantes desse livro. Uma bela página da história das lutas cearenses que eu não conhecia é a da atividade de Dolores e de outras mães de estudantes que se opunham à ditadura militar. Numa ação tão curiosa e creio que até mesmo inédita na história do movimento estudantil brasileiro, as mães do Ceará, estiveram ao lado dos filhos, sem condená-los nem reprimi-los, na frente da passeata que, em 1968, reuniu 20 mil pessoas em Fortaleza para protestar contra a ditadura. Antes, as mães foram ao governador pedir autorização para a passeata, se comprometendo, em nome dos filhos, de que a mesma fosse pacífica. As mães marcharam à frente dos estudantes, protegendo-os como mães que eram contra qualquer violência.

As tantas causas em que se envolveu Dolores, algumas vencedoras outras perdidas, mas sempre deixando um saldo positivo no sentido da consciência e da formação de outros atores, são também páginas que merecem ser preservadas para a história. O patrimônio histórico, natural e arqueológico do sertão cearense deve muito à ação que empreendeu e continua empreendendo essa mulher que se aproxima dos 90 anos com a mesma fibra com que encarou aquele rapaz alto e lhe deu uma decisão. Pois o Feitosa lhe arrastava a asa em Sobral mas tinha noiva em outra cidade.

Não posso deixar de contar como me aproximei de Dolores Feitosa. Durante o Ginásio, no final dos anos 1970, no Colégio das Dorotéias, tive uma colega, Fátima Lúcia de que me tornei amiga. Viva, irreverente, transgressora, Fátima estava sempre sendo chamada às falas pela terrível Irmã Andrade, diretora que era também irmã de sua mãe. Devo ter ido uma ou duas vezes em sua casa, onde a presença tão elegante de seu pai, homem alto, simpático e de sorriso levemente irônico, predominava.

Mais tarde que soube que Joaquim e Dolores Feitosa, os pais da Fátima, eram pessoas importantes nas questões ambientais do Ceará, pessoas de visão, gente progressista em uma sociedade onde pessoas assim ainda eram raras. Nos últimos anos, tenho acompanhado as notícias sobre as atividades da própria Dolores, o reconhecimento de suas ações em defesa dos Inhamuns, sua militância para fazer de Tauá um centro importante da cultura do semi-árido e do próprio reconhecimento que vêm ganhando as ações da Fundação Bernardo Feitosa. Com dando esse nome à fundação que criaram, Dolores e Joaquim homenagearam, ao mesmo tempo, ao tio, tão importante e ao filho, tão infeliz e tão amado.

O americano tranqüilo (13/7/13)

Existe um povo que a bandeira empresta
Para cobrir tanta infâmia e covardia...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!... 
(Castro Alves)

Dez anos depois do começo da guerra do Iraque, creio que as imagens mais impressionantes que apareceram na imprensa sobre os bastidores do conflito foram aquelas em que soldados norte-americanos torturavam prisioneiros. Nada mais apavorante do que aquela cena de um homem nu, tentando se proteger ou cobrir suas intimidades dos cães ferozes que soldados atiçam contra ele. Ou outra, de um sujeito vestido, sentado, e imobilizado pelo pavor, com o pescoço ferido pelo que poderia ter sido uma mordida, sendo ameaçado também por um cão.

As outras fotos, de corpos nus, empilhados ou simulando atos sexuais, ou ainda de um corpo despido, coberto de excrementos, com  os braços abertos, remetem à violação maior da dignidade humana. Do desrespeito aos valores do povo conquistado. As notícias que as acompanham, de violência sexual, de gente sendo obrigada a tirar sua comida de vasos sanitários, ou sendo obrigada a amaldiçoar seu Deus, são notícias da degradação, notícias de uma guerra suja.

Mas o que mais desconcertava nas terríveis fotos era a carinha marota daquela menina-soldado de 21 anos que arrastava um iraquiano nu pela coleira, ou que sorria, levantando o dedo em sinal positivo diante do corpo morto e desfigurado pela tortura de um outro prisioneiro. Aquela carinha risonha é a carinha das crianças e mocinhas americanas da séries que nos acostumamos a ver na nossa infância. É a cara boa, saudável e bem alimentada da América que aprendemos a amar através dos seriados da sessão da tarde, dos desenhos de Norman Rockwell e dos adoráveis filmes de Frank Capra.

De algum forma as contradições do espírito da América foram bem apreendidas por Grahan Greene em seu O Americano tranqüilo. A história se passa na Saigon de 1952, em meio ao conflito pela libertação do domínio francês. O protagonista é o jornalista inglês, Thomas Fowler, um homem de meia-idade, correspondente do London Times, que se deixara esquecer na Indochina, entre uma garrafa de uísque, umas tragadas de ópio e os cuidados de uma bela oriental. A chegada de Alden Pyle, dos EUA, um jovem idealista, militante da política norte-americana de ajuda aos países em desenvolvimento, altera a situação.

Aproximando-se de Fowler, com aquela simplicidade e boa-fé tão típica de seus compatriotas, o rapaz se choca com o desencantado cinismo com que Fowler conduz sua vida. Movido pelo  mesmo espírito salvacionista que o levara a Indochina o rapaz decide conquistar a namorada de Fowler, prometendo casar-se com ela e levá-la para a América. Fowler era casado na Inglaterra e sua mulher, de quem já vivia separado, lhe recusava o divórcio. A história desse triângulo amoroso se desenrola em meio à uma série de revelações sobre a verdadeira missão de Pyle. Esta era muito menos inocente do que ele quis levar Fowler a acreditar. 

Através das desventuras do seu alter-ego, Greene revela as entranhas do processo, a perversa estratégia americana para convencer o mundo do perigo que representava o avanço comunista no Extremo Oriente. É o começo da grande  campanha midiática para fazer com que a opinião pública mundial apoiasse a intensificação da presença americana no Vietnãn. Para tanto era aceitável criar notícias falsas mesmo que a custa de dezenas de vidas inocentes. Assim é que a trama e Pyle, o americano tranqüilo, revelam suas reais dimensões na cena dramática da bomba explodida numa praça central de Saigon e falsamente atribuída aos comunistas.

O Americano tranqüilo foi escrito em 1953, bem antes do que nós costumamos considerar como a guerra do Vietnã propriamente dita. A guerra dos americanos no Vietnã veio suceder à guerra que os antigos colonizadores franceses combateram lá durante mais de dez anos, sacrificando nela o melhor de sua força militar. Os americanos começavam a entrar no país justamente quando lá chegou Greene para trabalhar como correspondente da revista Life, em 1952. O que torna  o livro tão atual é a repetição da mesma estratégia – com recursos mais sofisticados – agora no Oriente Médio. E também a maneira como Greene conseguiu estabelecer uma associação tão inteligente entre a lógica dessa estratégia e a imagem que os americanos têm de si e de seu papel no mundo.

Em O Americano tranqüilo, Greene conseguiu reunir em um personagem a crença inabalável nas verdade democráticas, a simplicidade do amor à família e à liberdade em luta num mundo em que torpe regime comunista tentava por suas garras. A partir de sua experiência na Indochina, Greene pôde antecipar os caminhos a que conduziam a singela visão de mundo expressa nos tantos seriados ao estilo de “papai-sabe-tudo”, com todos aqueles adoráveis lares americanos para os quais o personagem que justifica o título do livro sonhava um dia voltar.

A América resplandece de ideais humanitários e de ações grandiosas em meio às ilustrações de Norman Rockwell, onde os semblantes rosados e sorridentes de um povo simples e feliz nos encantam e sensibilizam. Nos filmes de Frank Capra, com Jonh Doe – o homem comum deste povo comum – que levanta as massas rumo ao fascinante ideal da solidariedade entre vizinhos de bairro, ou em “Mr. Smith goes to Washington”, em que o super chefe dos escoteiros chega ao senado - como senador, vale acrescentar – para lutar por um campo nacional de escoteiros. Mas, tanto o momento fundador desses ideais, quanto o renascimento deles no New Deal de Roosevelt, estão longe, assim como está longe a época da inocência. E o cidadão comum da America de hoje em dia tem bem menos motivos para estar otimista quanto ao seu futuro do que os daquele tempo.