Entre setembro e outubro de 1830, a imprensa brasileira mais radical ensaiou uma campanha para que fossem boicotados produtos, lojas e modistas franceses. Acontecera que dois franceses tinham desembarcado ali pelos lados de Niterói e saíram a caçar borboletas na Fazenda Cavalão do conselheiro Manuel de Sousa França. Expulsos com maus modos pelos escravos do dono das terras voltaram, no dia seguinte, junto com a tripulação da fragata Carolina, onde estavam embarcados. Deram uns sopapos no escravo e levaram o irmão do proprietário até a embarcação onde lhe aplicaram o que no Brasil de então se chamava uma rodada de cipó.
Era um momento de exaltado nacionalismo que se voltava principalmente contra os portugueses e, por associação, contra d. Pedro I cujo reinado estava em franco declínio. A imprensa de oposição tinha na “Aurora Fluminense”, de Evaristo da Veiga sua voz mais ativa que repercutia, sempre de forma bem mais radical na “Ástrea”, no “Republico”, na “Voz Fluminense” e na “Nova Luz Brasileira”. Foi essa a imprensa que comandou os protestos contra os franceses em geral e seus comerciantes em particular.
A coisa tinha também um certo tempero de luta de classe pois o comércio francês era sinônimo de luxo e de futilidade, associado a produtos que agregavam maior valor só pelo fato de virem de Paris. Em 1816, D. João VI restabelecera relações diplomáticas e comerciais com a França. A partir daí o Rio de Janeiro sofreria uma verdadeira invasão francesa. Com suas modistas, cabeleireiros e decoradores, os franceses logo fariam da rua do Ouvidor a rua mais chique do Rio. A rua atraía às mulheres para as compras com a suas modas e aos maridos para o deslumbramento com as beldades gaulesas postadas atrás do balcão. Inovação escandalosa que revolucionou o comércio local, antes atendido pelos modestos meninos caixeiros.
Debret flagrou esse momento de transição cultural. Se ficara espantado com a falta de graça das modas usadas pelas brasileiras quando aqui chegou em 1816, quando partiu, constatara que “o habitante do Brasil tem-se mostrado, desde então, tão entusiástico apreciador da elegância e da moda francesa que, por ocasião da minha partida, em fins de 1831, a rua do Ouvidor, era quase que inteiramente constituída de lojas francesas de todo tipo, mantidas pela prosperidade de seu comércio”.
Em 1818, Durand vendia acessórios masculinos e femininos como calçados, chapéus, luvas, suspensórios, leques, escovas, pentes, flores artificiais e bijuterias. Os franceses também influíram nos hábitos e cuidados com a toalete, proporcionando uma série de serviços antes inexistentes na cidade. Cabeleireiros franceses como Richaud e Catelineau competiam pelo mercado, oferecendo toda a sorte de essências, perfumes, sabonetes, tinturas para cabelo e pomadas. Alfaiates, como o Gudin, ofereciam roupa pronta para vender. César Bouliech prometia fazer vestidos “à moda do mais moderno de Paris”. Tornier, chapeleiro de Paris, oferecia na Rua São José, chapéus redondos e armados.
Pois foi justamente contra esse próspero comércio francês que a “Nova Luz Brasileira”, de 21/09/1830, conclamou ao boicote, dizendo: “seja indigno do nome brasileiro; seja indigno da liberdade e da Constituição todo aquele que gastar um só vintém em uma casa francesa; todo aquele que trajar as suas modas; seja indigno do senso e caráter humano, quanto fizerem uso dos vestidos e macaquices próprias desses pelintras, de vestidos que não são mais do que traições para precipitarem a mocidade brasileira de um e outro sexo e para fazerem-nos esquecer o doce nome de Pátria, e os deveres de brasileiros embebidos em um vão, inútil e vergonhoso luxo.”
O jornal voltaria novamente ao ataque em 08/10/1830, lembrando que “se o espírito nacional se mostrasse decididamente disposto a tratar como deve a mísera canalha que vem de Paris vender-nos as suas tetéias e retalhos dez vezes mais caro do que nos atreveríamos a pagar a um nacional” talvez os franceses não nos tratassem com tanta arrogância. A influência nefasta dos franceses sobre a juventude, aliás, também é lembrando pelo articulista pois, além de venderem “livros indecentes e imorais” e faziam nossa mocidade andar “enfatuada e embonecada”, tornando-se os rapazes “tísicos e mirrados por andarem de tal forma entalados que nem podem olhar para seus pés”. Se boicotássemos os produtos franceses, continua, “não veríamos as nossas querida patrícias com a torre de babel à cabeça, com mangas de tão extraordinária dimensão que tornam defeituosos os lindos braços que a natureza lhes deu perfeitos”. A moda francesa contaminara até língua que estaria “manchada de feios galicismos”. O jornal terminava conclamando: “Nem mais um real aos franceses.”
“O Brasileiro Imparcial”, (28/09/1830) jornal adversário da “Nova Luz”, registrou que o apelo das folhas radicais que desejavam “que declaremos guerra à França” e “que ninguém compre mercadorias francesas” fizera com que fossem insultadas no teatro, “em a noite do dia 25, as senhoras que estavam com chapelinhos franceses”. Em Pouso Alegre, interior de Minas, o “Pregoeiro Constitucional” (30/10/1830) registrou o sucesso do boicote: “Os industriosos franceses que entre nós vivem tem desertas as suas casas, ninguém lhes compra nada e este castigo é bom. Dizem, e nós acreditamos, que deste mal virá o bem de levar as nossas belas a fazerem por sua própria mão os ornatos, contra o maldito costume, que nos iam embutindo, de nada ser bom que não fosse feito pelas modistas. Que alívio para os pais de família! Que abono para a nossa indústria!”
Mas a coisa logo arrefeceu, pois, com a chegada das notícias sobre a Revolução de Julho de 1830 de caráter liberal que derrubara os Bourbon, novamente os espíritos dos revolucionários nativos voltaram a se empolgar com a França e com os franceses, deixando de lado o boicote contra suas modas e seu comércio.