A crônica de Natal de que mais gosto é uma do Rubem Braga sobre essas mensagens de fim de ano que nos mandam carteiros, porteiros e entregadores de jornal. O então cronista da revista Manchete acabara de receber um cartão de Natal com o desenho de um sininho badalando no verso do qual se lia: "Aqui está nosso cartão/ Em prova de amizade/ Desejando-lhe Boas Festas/ Saúde e Felicidade.// Entra ano e sai ano/Trabalhando sem cessar./São os fieis Lixeiros/ Que vêm vos cumprimentar.//Mais um ano de trabalho/ Aqui estão quem vos prestou/ Apesar de bem cansados/As vossas ordens estou.//Os vossos Lixeiros/Artur, Emílio e Agenor".
Rubem adorou o poema e recompensou os poetas com uma nota de 50 cruzeiros. Mas ficou preocupado com a perspectiva da visita de outros poetas: o da tinturaria, o da padaria, o carteiro, etc. A caixa estava fraca e o bar vazio, diz Rubem: "só com um restinho de ´Vovó Extra´ que um amigo me trouxe de Fortaleza? Ah, aqui outrora retumbaram uísques...".
Daí que ocorreu ao cronista convidar seus colegas Henrique Pongetti e Fernando Sabino para fazer uns cartões com versos destinados aos leitores. Saiu um plágio descarado do cartão dos lixeiros que dizia assim: "Entra ano e sai ano/ Escrevendo sem cessar/ São os vossos fieis Cronistas/ Que vem vos cumprimentar./Feliz Natal e Ano Novo!//Se o uísque estiver sobrando/ Lembrai-vos destes Cronistas/Que de sede estão penando/Henrique, Rubem e Fernando".
Apesar dos protestos de Rubem, argumentando que não era justo que o padeiro ganhasse festas e "o cronista, afinal de contas um padeiro espiritual" não pudesse nem pedir, o poema foi rejeitado pelos colegas, em nome dos bons princípios, da boa ética - e, completa Rubem, "desconfio, um pouco também de seus maus fígados". O cronista encerra essa deliciosa crônica natalina dizendo: "Desisto da ideia - embora, naturalmente, eu seja incapaz de fazer uma desfeita se alguém, apesar disso, insistir em mandar uísque para a casa de um cronista pobre sim, mas soberbo, nunca!".
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O Natal de 2010 passei em Paris, junto com meu filho e a namorada, na casa de Claudia Poncioni, brasileira gentil e amável, casada com Jean-Yves Mérien, ambos intelectuais, autores de obras importante. Ela, professora da Sorbonne, defendeu em 2010 sua tese de livre docência sobre o Engenheiro Vauthier, sobre qual lançou o livro "Pontes e Ideias - Louis-Léger Vauthier, um engenheiro fourierista no Brasil". Vauthier é aquele mesmo cujo diário intimo foi publicado por Gilberto Freire. Mérien é considerado um dos maiores especialistas na obra de Aluísio Azevedo, autor de alentada biografia do escritor maranhense, estudo ao qual dedicou muito anos. Ele também foi adido cultural de seu país na Argentina e no Brasil e, com suas vastas barbas, é a cara do Monet, do qual, aliás, trouxe para o Brasil uma mega-exposição, em 1997.
Jantar de família, para o qual a brasileira solidária que conhecera poucos meses antes em Lisboa não teve dúvida em chamar a compatriota solitária sem saber que eu tinha mais dois comigo. Logo também incluídos na lista de presentes. Claudia tem três filhos homens, sendo que os dois mais velhos, gêmeos, são do primeiro casamento. Um deles tão bem sucedido no mundo dos negócios internacionais que, de tanto correr o mundo, tinha até um cartão daqueles que o George Clooney sonhava ganhar naquele filme do qual não lembro agora o nome. Jantar chiqueréssimo, com aquela combinação tão francesa de simplicidade e sofisticação... Durante a conversa, meu filho, filiado ao PSOL e liderança do movimento estudantil em sua universidade, travou acirrado debate com o bem sucedido filho da minha amiga. Depois procurei aconselhá-lo: "tudo bem, meu filho, de fato ele é o inimigo, temos que destruí-lo, mas não precisa ser na noite de Natal, diante dos pais dele e depois de termos tomado todo o seu champanhe".
...
Neste Natal, ganhei o melhor dos presentes que foi assistir, na concha acústica da UFC, à formatura do meu filho, Francisco Bento, em Física. Fui invadida por uma sensação de plena felicidade quando cantava o Hino Nacional a plenos pulmões, no meio daquela multidão de pais e filhos emocionados e felizes. Ali dava para ver como tinha gente de todas as classes sociais. Dava para ver como é democrática a universidade pública no Brasil e sempre o foi. Eu que estudei na UFRJ e tive tantos colegas da Baixada Fluminense entre os contemporâneos sei que como é falso o discurso dos que defendem a privatização do ensino superior sob o argumento de que a universidade pública só forma meninos ricos. Se o ensino de primeiro e segundo grau fosse tão bom e gratuito como nossas universidades federais e estaduais teríamos muito mais meninos pobres se formando. Felizmente os economistas descobriram, depois de anos de políticas equivocadas em que este item era sacrificado em favor de um PIB mais elevado, que a educação é a principal criadora de riqueza de um povo. Nas condições atuais, em que é tão difícil a um menino pobre chegar a uma boa universidade, os tantos pais sertanejos que vi ali, orgulhosos e emocionados se fazendo fotografar junto com os filhos, merecem parabéns reforçados.
...
Também foi bom ver ali amigos do meu tempo de juventude com seus filhos também diplomados naquela noite. Estevão e Isabelle, professores das Ciências Sociais, pais de uma linda menina chamada Raquel, formada em Biologia, e a Vevé, Tereza Veronica, cujo filho, dela e do Valmik, ambos físicos e também professores da UFC, formava-se também em Biologia e é namorado da mesma bela Raquel aqui já mencionada. Nestes últimos tempos, essas surpresas da vida promovendo associações entre passado e presente têm me comovido. Será que é por causa do Natal?
Rubem adorou o poema e recompensou os poetas com uma nota de 50 cruzeiros. Mas ficou preocupado com a perspectiva da visita de outros poetas: o da tinturaria, o da padaria, o carteiro, etc. A caixa estava fraca e o bar vazio, diz Rubem: "só com um restinho de ´Vovó Extra´ que um amigo me trouxe de Fortaleza? Ah, aqui outrora retumbaram uísques...".
Daí que ocorreu ao cronista convidar seus colegas Henrique Pongetti e Fernando Sabino para fazer uns cartões com versos destinados aos leitores. Saiu um plágio descarado do cartão dos lixeiros que dizia assim: "Entra ano e sai ano/ Escrevendo sem cessar/ São os vossos fieis Cronistas/ Que vem vos cumprimentar./Feliz Natal e Ano Novo!//Se o uísque estiver sobrando/ Lembrai-vos destes Cronistas/Que de sede estão penando/Henrique, Rubem e Fernando".
Apesar dos protestos de Rubem, argumentando que não era justo que o padeiro ganhasse festas e "o cronista, afinal de contas um padeiro espiritual" não pudesse nem pedir, o poema foi rejeitado pelos colegas, em nome dos bons princípios, da boa ética - e, completa Rubem, "desconfio, um pouco também de seus maus fígados". O cronista encerra essa deliciosa crônica natalina dizendo: "Desisto da ideia - embora, naturalmente, eu seja incapaz de fazer uma desfeita se alguém, apesar disso, insistir em mandar uísque para a casa de um cronista pobre sim, mas soberbo, nunca!".
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O Natal de 2010 passei em Paris, junto com meu filho e a namorada, na casa de Claudia Poncioni, brasileira gentil e amável, casada com Jean-Yves Mérien, ambos intelectuais, autores de obras importante. Ela, professora da Sorbonne, defendeu em 2010 sua tese de livre docência sobre o Engenheiro Vauthier, sobre qual lançou o livro "Pontes e Ideias - Louis-Léger Vauthier, um engenheiro fourierista no Brasil". Vauthier é aquele mesmo cujo diário intimo foi publicado por Gilberto Freire. Mérien é considerado um dos maiores especialistas na obra de Aluísio Azevedo, autor de alentada biografia do escritor maranhense, estudo ao qual dedicou muito anos. Ele também foi adido cultural de seu país na Argentina e no Brasil e, com suas vastas barbas, é a cara do Monet, do qual, aliás, trouxe para o Brasil uma mega-exposição, em 1997.
Jantar de família, para o qual a brasileira solidária que conhecera poucos meses antes em Lisboa não teve dúvida em chamar a compatriota solitária sem saber que eu tinha mais dois comigo. Logo também incluídos na lista de presentes. Claudia tem três filhos homens, sendo que os dois mais velhos, gêmeos, são do primeiro casamento. Um deles tão bem sucedido no mundo dos negócios internacionais que, de tanto correr o mundo, tinha até um cartão daqueles que o George Clooney sonhava ganhar naquele filme do qual não lembro agora o nome. Jantar chiqueréssimo, com aquela combinação tão francesa de simplicidade e sofisticação... Durante a conversa, meu filho, filiado ao PSOL e liderança do movimento estudantil em sua universidade, travou acirrado debate com o bem sucedido filho da minha amiga. Depois procurei aconselhá-lo: "tudo bem, meu filho, de fato ele é o inimigo, temos que destruí-lo, mas não precisa ser na noite de Natal, diante dos pais dele e depois de termos tomado todo o seu champanhe".
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Neste Natal, ganhei o melhor dos presentes que foi assistir, na concha acústica da UFC, à formatura do meu filho, Francisco Bento, em Física. Fui invadida por uma sensação de plena felicidade quando cantava o Hino Nacional a plenos pulmões, no meio daquela multidão de pais e filhos emocionados e felizes. Ali dava para ver como tinha gente de todas as classes sociais. Dava para ver como é democrática a universidade pública no Brasil e sempre o foi. Eu que estudei na UFRJ e tive tantos colegas da Baixada Fluminense entre os contemporâneos sei que como é falso o discurso dos que defendem a privatização do ensino superior sob o argumento de que a universidade pública só forma meninos ricos. Se o ensino de primeiro e segundo grau fosse tão bom e gratuito como nossas universidades federais e estaduais teríamos muito mais meninos pobres se formando. Felizmente os economistas descobriram, depois de anos de políticas equivocadas em que este item era sacrificado em favor de um PIB mais elevado, que a educação é a principal criadora de riqueza de um povo. Nas condições atuais, em que é tão difícil a um menino pobre chegar a uma boa universidade, os tantos pais sertanejos que vi ali, orgulhosos e emocionados se fazendo fotografar junto com os filhos, merecem parabéns reforçados.
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Também foi bom ver ali amigos do meu tempo de juventude com seus filhos também diplomados naquela noite. Estevão e Isabelle, professores das Ciências Sociais, pais de uma linda menina chamada Raquel, formada em Biologia, e a Vevé, Tereza Veronica, cujo filho, dela e do Valmik, ambos físicos e também professores da UFC, formava-se também em Biologia e é namorado da mesma bela Raquel aqui já mencionada. Nestes últimos tempos, essas surpresas da vida promovendo associações entre passado e presente têm me comovido. Será que é por causa do Natal?