Natalinas (24/12/11)

A crônica de Natal de que mais gosto é uma do Rubem Braga sobre essas mensagens de fim de ano que nos mandam carteiros, porteiros e entregadores de jornal. O então cronista da revista Manchete acabara de receber um cartão de Natal com o desenho de um sininho badalando no verso do qual se lia: "Aqui está nosso cartão/ Em prova de amizade/ Desejando-lhe Boas Festas/ Saúde e Felicidade.// Entra ano e sai ano/Trabalhando sem cessar./São os fieis Lixeiros/ Que vêm vos cumprimentar.//Mais um ano de trabalho/ Aqui estão quem vos prestou/ Apesar de bem cansados/As vossas ordens estou.//Os vossos Lixeiros/Artur, Emílio e Agenor".

Rubem adorou o poema e recompensou os poetas com uma nota de 50 cruzeiros. Mas ficou preocupado com a perspectiva da visita de outros poetas: o da tinturaria, o da padaria, o carteiro, etc. A caixa estava fraca e o bar vazio, diz Rubem: "só com um restinho de ´Vovó Extra´ que um amigo me trouxe de Fortaleza? Ah, aqui outrora retumbaram uísques...".

Daí que ocorreu ao cronista convidar seus colegas Henrique Pongetti e Fernando Sabino para fazer uns cartões com versos destinados aos leitores. Saiu um plágio descarado do cartão dos lixeiros que dizia assim: "Entra ano e sai ano/ Escrevendo sem cessar/ São os vossos fieis Cronistas/ Que vem vos cumprimentar./Feliz Natal e Ano Novo!//Se o uísque estiver sobrando/ Lembrai-vos destes Cronistas/Que de sede estão penando/Henrique, Rubem e Fernando".

Apesar dos protestos de Rubem, argumentando que não era justo que o padeiro ganhasse festas e "o cronista, afinal de contas um padeiro espiritual" não pudesse nem pedir, o poema foi rejeitado pelos colegas, em nome dos bons princípios, da boa ética - e, completa Rubem, "desconfio, um pouco também de seus maus fígados". O cronista encerra essa deliciosa crônica natalina dizendo: "Desisto da ideia - embora, naturalmente, eu seja incapaz de fazer uma desfeita se alguém, apesar disso, insistir em mandar uísque para a casa de um cronista pobre sim, mas soberbo, nunca!".

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O Natal de 2010 passei em Paris, junto com meu filho e a namorada, na casa de Claudia Poncioni, brasileira gentil e amável, casada com Jean-Yves Mérien, ambos intelectuais, autores de obras importante. Ela, professora da Sorbonne, defendeu em 2010 sua tese de livre docência sobre o Engenheiro Vauthier, sobre qual lançou o livro "Pontes e Ideias - Louis-Léger Vauthier, um engenheiro fourierista no Brasil". Vauthier é aquele mesmo cujo diário intimo foi publicado por Gilberto Freire. Mérien é considerado um dos maiores especialistas na obra de Aluísio Azevedo, autor de alentada biografia do escritor maranhense, estudo ao qual dedicou muito anos. Ele também foi adido cultural de seu país na Argentina e no Brasil e, com suas vastas barbas, é a cara do Monet, do qual, aliás, trouxe para o Brasil uma mega-exposição, em 1997.

Jantar de família, para o qual a brasileira solidária que conhecera poucos meses antes em Lisboa não teve dúvida em chamar a compatriota solitária sem saber que eu tinha mais dois comigo. Logo também incluídos na lista de presentes. Claudia tem três filhos homens, sendo que os dois mais velhos, gêmeos, são do primeiro casamento. Um deles tão bem sucedido no mundo dos negócios internacionais que, de tanto correr o mundo, tinha até um cartão daqueles que o George Clooney sonhava ganhar naquele filme do qual não lembro agora o nome. Jantar chiqueréssimo, com aquela combinação tão francesa de simplicidade e sofisticação... Durante a conversa, meu filho, filiado ao PSOL e liderança do movimento estudantil em sua universidade, travou acirrado debate com o bem sucedido filho da minha amiga. Depois procurei aconselhá-lo: "tudo bem, meu filho, de fato ele é o inimigo, temos que destruí-lo, mas não precisa ser na noite de Natal, diante dos pais dele e depois de termos tomado todo o seu champanhe".

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Neste Natal, ganhei o melhor dos presentes que foi assistir, na concha acústica da UFC, à formatura do meu filho, Francisco Bento, em Física. Fui invadida por uma sensação de plena felicidade quando cantava o Hino Nacional a plenos pulmões, no meio daquela multidão de pais e filhos emocionados e felizes. Ali dava para ver como tinha gente de todas as classes sociais. Dava para ver como é democrática a universidade pública no Brasil e sempre o foi. Eu que estudei na UFRJ e tive tantos colegas da Baixada Fluminense entre os contemporâneos sei que como é falso o discurso dos que defendem a privatização do ensino superior sob o argumento de que a universidade pública só forma meninos ricos. Se o ensino de primeiro e segundo grau fosse tão bom e gratuito como nossas universidades federais e estaduais teríamos muito mais meninos pobres se formando. Felizmente os economistas descobriram, depois de anos de políticas equivocadas em que este item era sacrificado em favor de um PIB mais elevado, que a educação é a principal criadora de riqueza de um povo. Nas condições atuais, em que é tão difícil a um menino pobre chegar a uma boa universidade, os tantos pais sertanejos que vi ali, orgulhosos e emocionados se fazendo fotografar junto com os filhos, merecem parabéns reforçados.

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Também foi bom ver ali amigos do meu tempo de juventude com seus filhos também diplomados naquela noite. Estevão e Isabelle, professores das Ciências Sociais, pais de uma linda menina chamada Raquel, formada em Biologia, e a Vevé, Tereza Veronica, cujo filho, dela e do Valmik, ambos físicos e também professores da UFC, formava-se também em Biologia e é namorado da mesma bela Raquel aqui já mencionada. Nestes últimos tempos, essas surpresas da vida promovendo associações entre passado e presente têm me comovido. Será que é por causa do Natal?

Organização (17/12/11)

Eu queria tanto ser uma pessoa organizada. Olho em minha volta e só vejo o caos.

Duas poltronas com um monte de livros empilhados que mal se equilibram, junto com papéis, tudo misturado e desarrumado. Na mesa, a mesma coisa. Pelo chão, revistas e livros junto com sapatos, sandálias, bolsas e também sacolas onde estão reunidos os papéis que já estiveram espalhados sobre a mesa e, em arrumação anterior, foram postos ali para um dia serem separados. Só que esse dia, apesar de já terem se passado meses, ainda não chegou e outras sacolas cheias de papéis foram se somando à primeira. O dia chegará pois sempre chega a hora em que o maior desorganizado sente que não vai poder dar mais nenhum passo, nem achará mais nada se não organizar tudo.

Como eu tenho inveja dos organizados.

Inveja e admiração pois gosto de ver tudo arrumadinho, cada coisa no seu lugar: a mesa limpa; os livros nas estantes; os papéis separados; as canetas, lapiseiras e a tesoura em um copinho.

Tem gente assim. Acaba de trabalhar e a mesa está impecável. Morei com uma amiga no tempo da faculdade em um apartamento pequeno no qual dividíamos o armário. Devia ter fotografado. Do lado dela, tudo estava bem direitinho, organizado em caixinhas, com as roupas distribuídas de acordo com uma ordem previamente definida em seus cabides, os sapatos nas prateleiras. E o meu lado, não dá nem para descrever.

E olha que tenho a maior raiva de gente desorganizada. Implico mesmo. Na verdade, há uma espécie de escala de desorganização. Eu creio que estou em um nível elevado, mas já vi gente muito pior. Já vi gente um pouco melhor do que eu (devia não nomear mas não resisto, é a minha irmã, a Clélia) mas não muito, implicar com a minha desorganização. Eu tenho meu limite e quando o caos se instala como hoje, aqui em volta da minha mesa, paro tudo e vou organizar.

Assim é também com a pia da cozinha. Não deixo comidas nos pratos e panelas ou qualquer coisa assim que possa atrair bichos. Faço até um pré lavagem para quando for lavar mesmo ficar mais fácil. Mas vou acumulando e empilhando até não ter mais espaço. É aí que eu lavo tudo. O que é uma besteira pois seria muito mais fácil usar, lavar e guardar.

Assim como também com os livros, os papéis, as coisas em geral. Pois quando acumula é que dá essa sensação de que virou uma tarefa hercúlea. Isto deve vir de um dos trabalhos de Hércules, conforme aprendi com Monteiro Lobato, que teve, entre seus doze trabalhos, o de limpar as cocheiras de um determinado rei. Deviam estar imundas para a tarefa precisar de um Hércules.

Minha fantasia mesmo é aquela do filme "Fantasia" em que o Mickey, encarregado de limpar uma cozinha, por um efeito mágico vê as coisas se limparem e organizarem por elas mesmas, sem que ele possa fazer esforço. Que maravilha seria com um simples piscar de olhos, como o da Feiticeira, ver os livros se erguerem sozinhos daquelas duas poltronas e cada um por si mesmo se direcionar e se encaixar em seu lugar na estante.

Eu já comprei um livro intitulado "Como se organizar". Foi motivo de hilariedade aqui em casa pois o Mario Bag conta para todo o mundo que este logo se perdeu em meio ao caos dos livros e nunca mais foi encontrado. Não é bem assim. O problema é que o livro, tal como toda dieta milagrosa, dizia tudo que a gente já sabe.

Pois o desorganizado não é desorganizado por não saber ser organizado. Como qualquer pessoa que está acima do peso e já tentou várias dietas, ele sabe exatamente o que deveria fazer para manter tudo em ordem. O problema é que não consegue. Ele é desorganizado por um impulso da natureza, por um tipo de compulsão, talvez por ansiedade ou obsessão, pelo fato de que quando está fazendo uma coisa não queira perder tempo ou pensar em outra qualquer.

Por isso que, na mesma casa, educados pelo mesmo sistema, irmãos podem ser absolutamente diferentes nessa matéria. Minha irmã Socorro, a Dadal, por exemplo, era toda arrumadinha no tempo do colégio. Sempre com o seu uniforme bem passado, a blusa de um branco imaculado, o cabelo bem penteado. É só ver as fotos dela quando estava no Normal do Colégio das Dorotéias.

Bom, o jeito é terminar essa crônica e meter a mão na massa. Esses dias de grande faxina, como naqueles desenhos do Norman Rockwell são um espetáculo à parte. Uma das características do meu padrão é a de manter uma certa ordem no caos. Essa consiste em guardar tudo mais ou menos de acordo com uma classificação. Assim, nas sacolas onde estão todos os papéis que saíram da mesa estão contas, textos, cartas, recortes de jornal, etc. Sairão daqui para pastas destinadas a cada um desses. Éééé... eu sou desorganizada mas consegui um dia fazer isto e, desde então, no dia da grande faxina, ponho essas coisas nos seus lugares e dou uma melhorada considerável no ambiente.

O problema é que no dia seguinte, ou mesmo, no mesmo dia começa tudo de novo. Os papéis voltam a se acumular, os livros saem da estante para serem consultados e não voltam mais, o sapato tirado para poder trabalhar mais confortavelmente jaz esquecido debaixo da mesa junto com umas revistas que não sei porque foram parar ali. Isto tudo agravado pelos equipamentos e fios associados ao computador, mais telefone, impressora, luminária e ventilador.

Meu consolo é saber que o Barão do Rio Branco, maior nome da história diplomática brasileira, quando morreu deixou em seu escritório uma sucessão de mesas atulhadas de papel. Consta que ele usava uma mesa e quando esta ficava tão caótica como a minha, pedia outra. Juntava mais coisas sobre aquela, pedia outra e assim por diante. Eu, pelo menos, só uso uma mesa. É que aqui não tenho espaço para botar outras.
 

A solidão, o elevador e o arranha-céu (3/12/11)

Lá em casa tinha um disco do Silvio Caldas. É engraçado dizer isto hoje quando, mesmo os CDs contendo centenas de músicas tornaram-se obsoletos porque no seu iPod você pode reunir todas as músicas que ouviu ao longo da vida e ainda sobra espaço. Mas na minha infância e adolescência um disco era algo importante e a gente tinha bem poucos para a família inteira, aliás.

No meu iPod reuni todas as músicas que eu quero ouvir até morrer. Parece exagero mas como são mais de setecentas e mesmo nas mais longas viagens que fiz de carro, daqui do Rio de Janeiro até Caxambu não deu para ouvir tudo, acho que serão essas mesmas as que vão me acompanhar daqui em diante. Eu as reuni quando estava escrevendo um trabalho de fôlego. Nas horas em que batia aquele tédio saía em busca de tal ou qual canção que ouvira não sei aonde na voz de não sei quem. E com a facilidade de achar na internet tantas versões ainda pude me dar ao luxo de escolher os arranjos que mais me agradavam aos ouvidos.

Então tem todos os gêneros. Quer dizer todos os gêneros que produziram alguma coisa que gostei de ouvir. Muita MPB, é claro, mas também, algumas clássicas americanas, alguns rocks antigos, algumas canções românticas. Uma série com nome de mulheres. Uma seleção de músicas de combate, liderada pela Marselhesa na voz de Mireille Mathieu; alguns tangos; alguns boleros; algumas guarânias; alguns sambas; alguns sambas-canção; um ou outro chorinho; fados e canções tradicionais italianas; umas canções sertanejas; uns frevos; algumas canções de musicais americanos; alguns clássicos, inclusive óperas; algumas poucas músicas instrumentais. Enfim, com raras exceções, consegui todas as músicas que queria ter e sempre que tenho que gastar longas horas viajando ou caminhando, essas velhas amigas me fazem companhia.

Dia destes por obra de uma tecla que no iPod se chama "aleatório", cheguei em música cantada pelo Silvio Caldas. O mesmo do disco do começo desse artigo. Não me lembro o título do disco mas lembro de várias canções. A começar pela "Minha palhoça", muito bonitinha, (ai, se você quisesse morar na minha palhoça); tinha "a tua vida é um segredo" que terminava dizendo: "são nossas vidas/ romances sempre iguais/três atos de mentira,/ cai o pano e nada mais". Como o pessoal era desiludido naquele tempo, heim?

Mas tinha também "Até amanhã", que é bem alegre; como também era alegre uma muito divertida que dizia "Foi uma pedra que rolou na ribanceira da desilusão e resultou, e resultou na causa mortis do meu pobre coração". Simples e boa era a que dizia; "Na aldeia, oi,/ na aldeia/ quero ver o seu vestido arrastando-se na areia". Acho que tinha também "Saudades dela": "vai saudade a casa daquela ingrata que deixou você prá mim" mas creio que não tinha duas músicas emblemáticas que ficaram sempre na minha memória associadas a Silvio Caldas. A primeira é "Violões em Funeral", aquela música em homenagem ao Noel Rosa, depois de sua morte. Digam o que disserem, mas eu continuo achando-a muito bonita: "Vila Isabel veste luto/pelas esquinas escuto/violões em funeral".

A outra música faz parte de uma brincadeira do Claudio Pereira quando me fez eleger Garota Cultural, em 1977. Ele incluiu numa das tantas matérias falsas que fez uma que dizia que quando cheguei ao Bar do Anísio fui recebida por um coro de admiradores que cantava a música de Silvio Caldas: "Nos braços de Isabel eu sou mais homem/Nos braços de Isabel eu sou um Deus". É de lasca, não é mesmo?

Dentre as músicas que tenho no meu iPod incluí algumas daquele disco. Não todas para não ficar chato e nem todas no vozeirão dele pois algumas releituras deram vida nova a muitas canções daquele tempo. A que ouvi naquele dia, por acaso, foi "Arranha céu", de Orestes Barbosa e do próprio Silvio Caldas. Como é da parte do final da coleção, quase nunca consigo ouvi-la. Aí, pude saboreá-la com o mesmo prazer que a gente tem quando, inesperadamente, ouve uma música de que gosta. A música começa assim: "Cansei de esperar por ela/ toda noite na janela/ vendo a cidade a luzir./ Nesses delírios nervosos/ dos anúncios luminosos/ que são a vida a mentir".

"Os anúncios luminosos que são a vida a mentir" é tudo de bom. Condizem com o espírito angustiado do sujeito que espera por uma mulher, sabendo que a anunciada vinda dela pode ter sido uma promessa tão falsa como a dos anúncios. Desconfia que ela não vem, mas espera assim mesmo, porque no estado em que está, só lhe resta esse fiapo de esperança. Os anúncios, são também chamados de "reclames" para rimar com "e disse ao peito não ames/ se teu amor não te quer". Mas a parte central desse drama romântico urbano e moderno está no verso: "E cada vez que subia/ o elevador não trazia/ essa mulher, maldição./ E quando lento gemia/ o elevador que descia,/ subia o meu coração".

Essa gangorra de sentimentos, durante a sofrida espera pela pessoa amada, com o ouvido ligado nos menores ruídos, fica ainda mais interessante por estar associada a um cenário moderníssimo. A música é de 1937 e, tanto os elevadores, quanto os arranha-céus ainda não eram tão comuns. A solidão deveria parecer mais acachapante dentro de um apartamento, no alto de uma daquelas torres cujas vidraças refletiam a profusão de luzes da grande cidade. Tem um momento de revolta em que o sujeito fala para si mesmo, tentando convencer-se a desistir, a renunciar, a esquecer: "descansa, fecha a vidraça/ esquece aquela desgraça/ esquece aquela mulher". Mas não adianta. A paixão é mais forte, domina o inconsciente como se revela no último verso:

"Deitei-me então sobre o peito

Vieste em sonho ao meu leito

E eu acordei, que aflição

Pensando que te abraçava

Alucinado apertava

Eu mesmo meu coração".