Adalgisa Santana (28/9/13)

Na quinta liguei para saber de mamãe e Amália me disse que ela estava recebendo a visita da Dalva. Visita rara que só devia estar acontecendo porque mamãe, há coisa de uns 30 dias, caiu e fraturou o fêmur. Com 99 anos é um acidente e tanto. Teve cirurgia para colocar uma placa e a recuperação vem sendo penosa, sobretudo para ela, tão independente. Agora, dia e noite tem a seu lado uma cuidadora e vai para a sala em cadeira de rodas, coisas que sempre se recusou a aceitar.  De qualquer maneira, vai recuperando, rumo ao centenário que completará em junho de 2014.

Mas o tema da coluna não é d. Dolores e sim a Dalva. É que essa sertaneja valente  e trabalhadora vem muito pouco pras bandas de cá, residindo no Camará, distrito de Aquiraz, desde que veio ao mundo. É lá que fica o sítio que seu Costa comprou algum tempo depois de vender o sítio da Messejana onde moraram seus pais, numa casinha singela da qual só restaram as fotografias. Deve ter custado muito para o papai se desfazer daquele pedaço de terra. Lugar lindo, fresco, cheio de mangueiras, onde a gente se balançava nas redes debaixo delas estendidas. Juntinho de uma igrejinha muito da bonitinha que ainda está lá.

O Camará não era tão bonito, nem era tão fresco mas foi o que ele pode comprar. E se afeiçoou tanto ao lugar que para lá seguia sempre que podia. Para desgosto de d. Dolores que tinha horror a mato. Ainda tem. Quer chateá-la é convidar para uns dias no Camará ou mesmo na Guaramiranga, onde Dadal e Lúcia tem lindas vivendas. Papai não. Papai adorava a vida no mato, adorava todos os afazeres que diziam respeito a ter uma terra, pequena que fosse. Ele ficava por lá, sozinho com seus caboclos, erguendo cerca, cultivando macaxeira, cuidando das poucas vacas, fazendo a manutenção do cata-vento, mandando limpar o entorno da lagoa. Até uma casa de farinha ele mandou construir e tinha o maior gosto em promover a farinhada. Cheguei a ver a casa de farinha em ação com muita gente participando das várias etapas do processo.

No Camará, morou o Maximino, creio que vindo da Messejana e acho que foi o único caseiro que morou no terreno do seu Costa. Lembrei dele agora porque, meu cunhado, o Benevides, de vez em quando conta como um dito engraçado da infância do Fred, alguém ter-lhe perguntado o que tanto o preocupava e ele ter respondido: “estou pensando aqui se a Maria do Maximino está gostando do Camará”.

Fred, caçula de todos nós, era levado por papai para lhe fazer companhia nas idas ao Camará. Disse-me ele que morria de tristeza naqueles entardeceres melancólicos e que ia para cima do pé de cajueiro que tinha em frente da casa, chorar com saudades da mãe. Mario Bag morre de rir quando pensa no Fred chorando em cima do cajueiro.

Mas quem ficou para sempre sendo a cara do Camará foi mesmo a Dalva. Parece estranho que o principal trabalhador daquela roça tenha sido sempre uma mulher. Que a pessoa em que seu Costa mais confiava, a que era pau para toda obra fosse essa cabocla, essa cafuza, sem nenhum traço de feminilidade, além dos vestidos estampados, todos do mesmo modelo, que sempre usou. Parecia grande e forte, mandava e desmandava nos outros, enfrentava quem viesse lhe desafiar. Ninguém se metia com ela. Mas não era valentona, não. Era só e ainda é, pessoa de muita personalidade. Foi bem mais tarde, fazendo foto dela ao lado do Chico, menino ainda, com seus dez ou doze anos, que percebi como Dalva é pequena. Na foto, é quase um palmo mais baixa que o menino.

Dalva tem aquele jeito do cearense de falar sempre arengando. Um jeito de dizer: “marrr, minino”, no sentido admirado e crítico de “imagine, que coisa”, “que folga”. Logo que soube que ela estava lá em casa visitando a mamãe, pedi para chamá-la ao telefone. Ela se admirou e disse: “Marr, minino, como é que tu adivinhou que eu tava aqui?” Eu lhe disse que a notícia de que ela estava na Silva Jathay já chegara ao Rio de Janeiro e que por isso eu tinha ligado. Aproveitei para lhe pedir que ditasse para Amália escrever, pois Dalva apenas assina o nome, umas palavras para incluir no livro em homenagem aos 60 anos da Clélia. Ela ditou: 
   
“A Clélia é gente muito boa para nós. O que a gente precisa ela arranja. A Isabel também é gente muito boa. Mas quando eram pequenas, todas duas, queriam tirar leite e eu não deixava pois atrapalhava o leite das vacas. Então estou com  muita pena que vocês vão vender o terreno. Eu sinto muita falta deles que são gente muito boa. Todos eles. E o Carlos é muito bom me atende toda a hora que eu quiser. Que a Clélia seja vem feliz no seu aniversário e que tenha cem anos de vida. Assinado: Adalgisa Santana.”

Carlos, nosso irmão, é o dr. Carlos Efrem, o médico da família que tem ação completar à da Clélia, no que diz respeito a problemas de saúde, na ajuda aos familiares e aderentes mais necessitados. Quando vai ao Camará, forma-se na varanda da casa, junto da rede dele, uma fila de gente para se consultar. E ele atende, medica os que pode e encaminha para o Instituto José Frota os casos mais graves. 

Dalva tinha uma irmã que já morreu, a Edite. Uma vez, as duas foram a Fortaleza resolver alguma coisa e fomos juntas no carro para o Centro. Passando em frente a uma funerária, a Edite comentava admirada a beleza dos caixões, quando alguém lhe disse para não olhar não que dava azar. Edite disse que ia continuar olhando pois, completou: “eu sei que não vou num desses mesmo. Eu vou é na minha redinha.” Naquele tempo, no Camará, gente como Edite e Dalva ainda iam para o cemitério em suas redes. Os punhos da rede eram amarrados em um pau, carregado ao ombro por dois homens que lideravam o cortejo.


Seu Santana, pai das duas e de outros tantos filhos, era vizinho do seu Costa no Camará. Um dos filhos dele veio para o Rio de Janeiro onde aprendeu a cozinhar e trabalhou anos para uma família de Copacabana. Fui portadora de muita castanha e de muito beiju para o irmão da Dalva.

Diamantina (21/9/13)

Estou em Diamantina, lugar que nunca tinha visitado antes. Viemos de Belo Horizonte numa van para participar do 2o. Festival de História, organizado por Américo Antunes que descobri ser, por conta do discurso do prefeito na abertura, minhoca da terra. Longas viagens por terra com colegas historiadores e jornalistas é sempre ocasião de bons papos. Da turma que ia na van eu já conhecia Bruno Carvalho, jovem professor de literatura em Princeton. Bruno fora nosso convidado no seminário “Brasil/EUA: novas gerações, novos olhares”, que organizei com James Green em junho na Casa de Rui Barbosa. Também encontrara recentemente com Mario Magalhães, jornalista cuja biografia de Marighela tem tido grande repercussão. Mario participou, no Instituto Dragão do Mar no encontro do conselho do Porto Iracema das Artes do qual fomos convidados por Paulo Linhares a fazer parte.

Também viajava conosco o jornalista Ricardo Amaral, autor de livro sobre Dilma Roussef: “A vida quer coragem”. Entusiasta da obra de Guimarães Rosa, Ricardo indicava na longa viagem entre Belo Horizonte e Diamantina os lugares mais importantes da geografia Roseana: o ponto exato em que começa aquele sertão mineiro que parece tanto com o nosso sertão cearense. Conversamos de tudo um pouco mas o melhor foi saber que Ricardo tinha conhecido meu irmão Lustosa e que tinha por ele carinho e amizade. É claro que isto para mim já é suficiente para fazer de um conhecido um amigo.

Diamantina parece com Ouro Preto sem o ar cosmopolita que emprestam a Ouro Preto, seus tantos turistas e forasteiros que ali acabaram por se fixar. Talvez por ser mais longe de Belo Horizonte ou por conta das tantas coisas que fazem um lugar ficar mais na moda que outro, Diamantina ainda não se tornou a queridinha do turismo histórico que faz com que tanta gente visite Tiradentes, Parati e Olinda, por exemplo. Diamantina ainda não está tomada por boutiques e restaurantes charmosos e caros. Diamantina ainda não perdeu o ar de cidade de interior. Diamantina ainda é uma cidade dominada pelos diamantinos. E a isto, a meu ver, deve muito de sua graça.

As belezas arquitetônicas do lugar também me pareceram mais singelas. É verdade que essas são impressões de um dia só de viagem. Não entrei em nenhuma igreja. Não me impressionei com a fachada da Matriz que se ergue majestosa entre duas ladeiras com seus degraus debruçados para o grande pátio em frente. O lugar me lembrou espaço semelhante em Salvador, apesar das proporções da igreja, das ladeiras e do pátio serem mais modestas aqui. Vi três igrejinhas tão bonitinhas, tão coloridinhas e tão delicadas que me deu vontade de embrulhar e levar para a casa. Também me encantou seu lindo mercado com suas porteiras rústicas, suas dimensões também modestas, suas cores terrosas.

Na noite da véspera de abertura do Festival tive o prazer de conversar com Kenneth Maxwell de cuja obra sou franca admiradora. Perguntei a ele quantos anos fazia da publicação de “A devassa da devassa”. Fazem exatamente quarenta anos da primeira publicação na Inglaterra desse livro fundador que abriu a trilha para outros trabalhos acadêmicos relevantes. A partir da análise dos autos da devassa, Maxwell estabeleceu o que foi de fato aquele episódio da nossa história que ficou conhecido como “Inconfidência Mineira”, identificando as paixões e os interesses que moveram os malogrados revolucionários brasileiros.

Kenneth Maxwell proferiu a conferencia que abriu o seminário, seguido de mesa-redonda da qual participaram a historiadora Junia Ferreira Furtado e Bruno Carvalho, em torno do recém lançado “Livro de Tiradentes”. Organizado por Maxwell, o livro acaba de sair pelo selo que a Penguin tem no Brasil em parceria com a Companhia das Letras. Reunindo textos dos componentes da mesa, além de outros autores, o “Livro de Tiradentes” é a reedição do Recueil des Loix Constitutives des États-Unis de l’Amérique, coletânea de seus documentos constitucionais de fundação: a Declaração de Independência, primeira redação dos Artigos de Confederação, censo das colônias inglesas de 1775 e a Constituição de seis dos treze estados confederados.

O “Recueil” foi publicado na França por iniciativa de Benjamin Franklin numa interessante estratégia de marketing político que visava conquistar as simpatias dos franceses para a nova nação. Trazido clandestinamente ao Brasil por estudantes de Montpelier, o “Recueil” iluminou a mente do alferes mineiro, Joaquim José da Silva Xavier e de outros mineiros mais ilustres que ele para as possibilidades que a instauração de uma nova ordem política oferecia. Daí que o livro ficou conhecido como “Livro de Tiradentes”e o exemplar que pertenceu a Joaquim José da Silva Xavier, depois de peregrinar até pela biblioteca estadual de Santa Catarina, figura hoje na coleção do Museu da Inconfidência, em Ouro Preto.

Em sua conferencia de Maxwell se deteve sobre as tantas conexões internacionais estabelecidas pelos inconfidentes. Destaque merece o estudante brasileiro de medicina de Montpellier, José Joaquim da Maia Barbalho que, sob o pseudônimo de Vendek, conseguiu estabelecer contato com Thomas Jefferson com vistas a obter o apoio dos EUA para a revolução brasileira. Pragmáticos como sempre os americanos preferiram mesmo o acordo comercial com a velha e carcomida coroa portuguesa. Mais que o episódio das tentativas de conexão com os EUA, a presença de tantos estudantes brasileiros na França da Revolução revela muito sobre as tantas entradas que se abriram para que as idéias iluministas penetrassem, apesar da mais rigorosa censura, na rica colônia portuguesa na América.

A boa companhia na viagem para cá, a beleza de Diamantina e a conferência de Maxwell vão tornando esses dias formidáveis.

Nós e a América (14/9/13)

No dia 11 de setembro de 1973, caiu o governo Allende e começou a ditadura militar de Pinochet no Chile. Lembro exatamente do momento em que recebi essa notícia. Eu estava indo para um curso de inglês que freqüentava em uma daquelas casinhas tão simpáticas da UFC onde havia (e espero que ainda haja) cursos gratuitos de francês, inglês, espanhol e alemão. Ia completar 18 anos e sabia que o que estava acontecendo no Chile era realmente terrível.

Em plena ditadura militar, gente como eu e alguns amigos torcíamos por Allende. Torcíamos pelo final da ditadura aqui e aquela notícia era como uma derrota da esperança. Apesar de não saber nada sobre o Chile, nem sobre os outros países da América Latina a gente vivia em um ambiente em que predominava uma espécie de corrente espiritual que nos ligava a eles. Corrente que passava pela literatura, pela música e pelas circunstâncias políticas.

Não me lembro se foi a Sipahi, a Mena ou o Beto quem primeiro me falou de Violeta Parra. Nem sei mesmo se é verdadeira a história de que ela compôs “Volver a los dezessiete” porque, já mulher madura, tombara apaixonada por um rapaz de 17 anos. O mais importante é que, tanto essa história que dizia muito do caráter dessa mulher sobre a qual eu nunca soube muita coisa, quanto os versos daquela canção, nos aproximavam daquela outra América. Uma América que tinha algo de mágico e de fascinante com seus índios oriundos de uma civilização milenar. Havia também o prazer todo especial de cantar algo que era politicamente tão significativo em castelhano.

Lembro da noite que passei em claro, ainda na nossa casa da Piedade lendo “Cem anos de solidão”, de Gabriel Garcia Marquez. Imagino que eu devia ter uns 13 ou 14 anos pois o livro foi publicado no Brasil pela CODECRI, editora do pessoal do Pasquim, em 1968 e, certamente foi o Lustosa quem deve ter comprado e deixado lá para nos estimular a ler. Lembro da impressão estranha que tive daquela narrativa em que se misturaram situações irreais, mágicas, com cenas de violência. Enfim, um combinado de coisas que deixava na gente um certo mal estar. Algo que tinha a ver com o destino do personagem central e de sua família. Confesso que nunca mais li “Cem anos de solidão”. Creio que o livro em si não era diretamente associado a essa latinidade que se afirmava, naquele momento, por oposição aos Estados Unidos e à sua ingerência cada vez mais daninha sobre nossos destinos.

De qualquer maneira, estava ali, tal como nas canções de Violeta Parra, uma mensagem intrínseca, de uma beleza doída, exótica que remetia também ao povo brasileiro. Esse povo que nós, na verdade, meninos e meninas de classe média não tínhamos muita noção do que era. A cultura então produzida pelos artistas e intelectuais da esquerda dos anos 1960/70 no Brasil procurava chamar a atenção para o povo das fábricas, do sertão e da Amazônia mas também nos irmanava aos vizinhos da América Latina trazendo-os um pouco para mais perto de nós. Lia-se, além de Garcia Marquez, Cortazar, Carpentier, Vargas Llosa, e, por causa deles e da proximidade que eles nos colocaram com seus países, lemos e gostamos de Borges, que, antes, muito pelo contrário, não tinha nada a ver com aquilo. Mas o livro essencial para compreender a realidade era “As veias abertas da América Latina”, de Eduardo Galeano. Esse mesmo Galeano que, ao contrário de Vargas Llosa continua aí, do lado do bem.

As canções de Violeta Parra foram cantadas em português pela maior cantora brasileira daquele tempo: Elis Regina. Sua linda e potente voz emprestava aos versos uma alegria, um dinamismo diverso da melancolia de Mercedes Sosa. E este também foi um fenômeno daquele momento em que estivemos mais perto dos nossos hermanos: as gravações de Mercedes Sosa com Milton Nascimento. Da ditadura de Pinochet chegavam os ecos das mil e uma barbaridades cometidas. Delas nenhuma me impressionou mais do que a história de que os torturadores tinha quebrados os dedos de Victor Jarra (havia versão mais dramática em que lhes tinham cortado as mãos) para que ele nunca mais tocasse aquelas musicas subversivas.

Quantas lágrimas. Tempos de dor e de sofrimento são pródigos em inspiração. Do repertório de Violeta Parra, a preferida de todos até hoje é “Gracias a La vida”. Quem não cantou e ainda canta com emoção esse hino que celebra a vida, esse canto otimista? A canção se faz ainda mais bela pela mistura de coisas que têm a ver com a vida em geral, com o trabalho, com a sociedade, com a humanidade ao amor individual de uma mulher por seu homem que pontua o final de cada verso: en las multitudes el hombre que yo amo; la voz tan tierna de mi bien amado; la ruta del alma del que estoy amando; la casa tuya, tu calle y tu patio; el fondo de tus ojos claros…

A música de Violeta Parra se fazia ainda mais tocante também pelo fato de ser cantada em meio a uma atmosfera tão sombria. Sem dúvida a crônica negra das ditaduras latinas, as histórias de desaparecidos argentinos, dos seus filhos seqüestrados pelos militares e dados a criar por famílias solidarias ao regime (como a dos donos do jornal Clarin) é uma conta que nunca vai fechar.

Durante aquelas duas décadas, as ditaduras militares nos irmanaram numa corrente de sofrimento. Neste momento, alguns dos países da America Latina têm governos democráticos que ensaiam políticas econômicas e sociais que beneficiam os mesmos desfavorecidos de sempre. Esses governos se ligam pela memória e pela história àquele momento, enfrentando as mesmas forças do atraso e da reação que, com o apoio dos EUA, promoveram golpes militares que resultaram em ditaduras violentamente repressivas. Cabe agora restabelecer, pela intensificação de ações  culturais, pelas difusão das letras, pelo intercâmbio de jovens estudantes uma nova corrente de idéias, sentimentos e sensibilidades que funcione como um escudo, nos mantendo unidos e coesos contra as tentativas de impedir o avanço da América Latina rumo a um futuro melhor para seus povos.

Uma permanente saudade (7/9/13)


Ainda não pude ver o livro que Edmo Linhares, Juarez Leitão e Cesar Montenegro organizaram em homenagem ao Lustosa. A crônica foi escrita antes do lançamento que aconteceu na noite dessa última sexta feira no Ideal Clube mas eu sei, porque li no jornal, que “Permanente Lustosa” reúne crônicas de amigos e alguns dos irmãos (eu, inclusive) do jornalista e escritor que dá nome à biblioteca de Sobral. São 41 depoimentos distribuídos por 250 páginas e, entre os autores, constam nomes de amigos como Antenor Barros Leal, Frota Neto, Lúcio Alcântara e Paulo Elpídio. Não sei se também está ali o Helio Barros. Se vivo fosse, Dorian Sampaio não faltaria.

Se a quantidade de depoimentos é o reflexo de uma vida em que a amizade teve um papel tão grande – ou, talvez, ainda maior - que a vida familiar, os depoimentos que deram esses amigos acima citados confirmam o caráter de permanência que dá titulo ao livro. É que, dezessete anos mais nova que o Lustosa, lembro de ver, na minha infância, suas ilustres e simpáticas pessoas na nossa modesta casa, situada à rua Nossa Senhora da Piedade, número 126. Ali mesmo no famoso beco da Piedade, eternizado no livro de crônicas do Lustosa “Cartas do Beco”, esses amigos que aos meus olhos infantis pareciam tão chiques, estavam começando uma amizade que durou mais de cinqüenta anos e que se reafirma agora neste livro.

A esses amigos de juventude, o Lustosa chamava de “irmão”, dando à fraternidade um sentido ainda mais abrangente que tem. Fraternidade no sentido de companheirismo, de solidariedade, mas principalmente de comunhão de espírito. Um espírito cuja marca seria o amor à alta literatura, o gosto pela escrita mas, também, a irreverência. A conversação sendo o espaço do epigrama, da provocação amável, de demonstrações de carinho permeadas pela ironia, pontuadas pela gargalhada gostosa. Diferenças políticas que, como seria natural, se acentuaram também com o tempo, não turvaram as águas desse rio que fluiu sem acidentes até o último dos seus dias. Ao longo de sua vida ele teve essa sensação de conforto que uma velha amizade nos proporciona. E confesso que essa era uma das características que eu mais invejava no Lustosa.

Também me parece hoje surpreendente que, com seu temperamento, que não era fácil e que se tornara ainda mais difícil nos últimos anos, ele tenha não só conservado aqueles velhos amigos como feito outros tantos. Pois também tinha aquela cara zangada do Lustosa, aquele humor irritado com a resposta ao estilo do seu Luga e que, às vezes, desconcertava. Era implicante também. Tomava abuso de pessoas sem ter nem a ver, às vezes por motivo fútil, sendo capaz mesmo de cometer julgamentos injustos só por implicar com alguém. Mas nunca foi um arrogante, nunca agiu como alguém que se achasse acima dos outros, nunca usou seu prestígio para diminuir ou humilhar quem quer que fosse. Era altaneiro, mas nunca foi prepotente.

Havia algo nele de irresistivelmente sedutor. Talvez a maneira de falar, talvez o entusiasmo genuíno que demonstraria por tudo que realmente o encantasse, talvez a gargalhada que explodia com gosto diante de algo que o divertia, talvez o fato de ter sido mesmo um grande escritor. E a pessoa que intui isto não deixa de reverenciar e querer bem ao homem de talento indiscutível que foi o Lustosa. A facilidade com que narrava, a naturalidade com que contava suas histórias, a erudição aliada ao senso de humor extraordinário de suas narrativas, um senso de humor marcado pela auto ironia, recomendam a leitura de seus livros.

Lustosa tinha uma mágoa verdadeira de ter sido um autor regional. Seus livros não conquistaram o sudeste e, para um autor brasileiro, essa é a definição do sucesso: ser lido no Rio e em São Paulo. Não é só no Ceará. Vale para o resto do Brasil inteiro. Do Oiapoque ao Chuí. Felizmente teve o bom senso de seguir em frente, continuando a publicação de seus livros. Com isto pode deixar o legado de uma grande obra, cujas imperfeições editoriais se devem apenas ao temperamento ansioso do autor que, na pressa de levar ao prelo os originais muitas vezes deixou passar algumas imperfeições. Certamente, seus textos sobre a sociedade sobralense (sociedade aqui no sentido sociológico mesmo) representam uma contribuição efetiva para a compreensão do caráter das elites do interior cearense da primeira metade o século XX.

Antes de concluir, eu gostaria de citar um texto do livro a que tive acesso pelo privilégio que tenho de ser irmã mais velha do autor. É o texto do Fred que só é meu irmão mais novo porque teve o mau gosto de tomar meu lugar de caçula da família nascendo ano e meio depois de mim. A história de sua amizade com o irmão mais velho deve ser um dos capítulos mais bonitos do livro. Ela diz muito do caráter dessa dupla, separada por grande diferença de idade que, no entanto, tinha tanto em comum.

“Eram 19 anos que, desde que saí da adolescência, não faziam a menor diferença. Lustosa não deixava de ter um lado paternal e protetor, mas o que prevalecia era a amizade fraterna, a admiração mútua, os interesses compartilhados, a camaradagem dos gestos gratuitos. (...) Em 2001, eu tinha uma viagem profissional relativamente tranqüila a Lisboa, Madri e Barcelona. Resolvi convidá-lo a ir comigo. Convite de grego, pois eu só tinha a oferecer a passagem. Ele aceitou de bom grado. Foi todo animado. E adorou. Sempre dizia – Eu vim para gostar. E gostou. Aproveitamos muito de Lisboa, que ele conhecia bem, e de Madri, que ainda não conhecia. Mas ele adorou mesmo foi Barcelona, por onde lhe fiz caminhar mais do que podia e o levei a almoçar em El Sibarita.”

Foi bom o Fred lembrar desse último detalhe, o gosto que o Lustosa tinha por bons restaurantes, a boa mesa. Aliás, ele tinha o gosto por tudo que era bom: boas pessoas, bons livros, bons amores, boas comidas e boas bebidas. Era um querido e a saudades que deixou, como diz o Fred no final de seu texto, “choram altissonantes em mim. E em tantos amigos.”