Na quinta liguei para saber de mamãe e Amália me disse que ela estava recebendo a visita da Dalva. Visita rara que só devia estar acontecendo porque mamãe, há coisa de uns 30 dias, caiu e fraturou o fêmur. Com 99 anos é um acidente e tanto. Teve cirurgia para colocar uma placa e a recuperação vem sendo penosa, sobretudo para ela, tão independente. Agora, dia e noite tem a seu lado uma cuidadora e vai para a sala em cadeira de rodas, coisas que sempre se recusou a aceitar. De qualquer maneira, vai recuperando, rumo ao centenário que completará em junho de 2014.
Mas o tema da coluna não é d. Dolores e sim a Dalva. É que essa sertaneja valente e trabalhadora vem muito pouco pras bandas de cá, residindo no Camará, distrito de Aquiraz, desde que veio ao mundo. É lá que fica o sítio que seu Costa comprou algum tempo depois de vender o sítio da Messejana onde moraram seus pais, numa casinha singela da qual só restaram as fotografias. Deve ter custado muito para o papai se desfazer daquele pedaço de terra. Lugar lindo, fresco, cheio de mangueiras, onde a gente se balançava nas redes debaixo delas estendidas. Juntinho de uma igrejinha muito da bonitinha que ainda está lá.
O Camará não era tão bonito, nem era tão fresco mas foi o que ele pode comprar. E se afeiçoou tanto ao lugar que para lá seguia sempre que podia. Para desgosto de d. Dolores que tinha horror a mato. Ainda tem. Quer chateá-la é convidar para uns dias no Camará ou mesmo na Guaramiranga, onde Dadal e Lúcia tem lindas vivendas. Papai não. Papai adorava a vida no mato, adorava todos os afazeres que diziam respeito a ter uma terra, pequena que fosse. Ele ficava por lá, sozinho com seus caboclos, erguendo cerca, cultivando macaxeira, cuidando das poucas vacas, fazendo a manutenção do cata-vento, mandando limpar o entorno da lagoa. Até uma casa de farinha ele mandou construir e tinha o maior gosto em promover a farinhada. Cheguei a ver a casa de farinha em ação com muita gente participando das várias etapas do processo.
No Camará, morou o Maximino, creio que vindo da Messejana e acho que foi o único caseiro que morou no terreno do seu Costa. Lembrei dele agora porque, meu cunhado, o Benevides, de vez em quando conta como um dito engraçado da infância do Fred, alguém ter-lhe perguntado o que tanto o preocupava e ele ter respondido: “estou pensando aqui se a Maria do Maximino está gostando do Camará”.
Fred, caçula de todos nós, era levado por papai para lhe fazer companhia nas idas ao Camará. Disse-me ele que morria de tristeza naqueles entardeceres melancólicos e que ia para cima do pé de cajueiro que tinha em frente da casa, chorar com saudades da mãe. Mario Bag morre de rir quando pensa no Fred chorando em cima do cajueiro.
Mas quem ficou para sempre sendo a cara do Camará foi mesmo a Dalva. Parece estranho que o principal trabalhador daquela roça tenha sido sempre uma mulher. Que a pessoa em que seu Costa mais confiava, a que era pau para toda obra fosse essa cabocla, essa cafuza, sem nenhum traço de feminilidade, além dos vestidos estampados, todos do mesmo modelo, que sempre usou. Parecia grande e forte, mandava e desmandava nos outros, enfrentava quem viesse lhe desafiar. Ninguém se metia com ela. Mas não era valentona, não. Era só e ainda é, pessoa de muita personalidade. Foi bem mais tarde, fazendo foto dela ao lado do Chico, menino ainda, com seus dez ou doze anos, que percebi como Dalva é pequena. Na foto, é quase um palmo mais baixa que o menino.
Dalva tem aquele jeito do cearense de falar sempre arengando. Um jeito de dizer: “marrr, minino”, no sentido admirado e crítico de “imagine, que coisa”, “que folga”. Logo que soube que ela estava lá em casa visitando a mamãe, pedi para chamá-la ao telefone. Ela se admirou e disse: “Marr, minino, como é que tu adivinhou que eu tava aqui?” Eu lhe disse que a notícia de que ela estava na Silva Jathay já chegara ao Rio de Janeiro e que por isso eu tinha ligado. Aproveitei para lhe pedir que ditasse para Amália escrever, pois Dalva apenas assina o nome, umas palavras para incluir no livro em homenagem aos 60 anos da Clélia. Ela ditou:
“A Clélia é gente muito boa para nós. O que a gente precisa ela arranja. A Isabel também é gente muito boa. Mas quando eram pequenas, todas duas, queriam tirar leite e eu não deixava pois atrapalhava o leite das vacas. Então estou com muita pena que vocês vão vender o terreno. Eu sinto muita falta deles que são gente muito boa. Todos eles. E o Carlos é muito bom me atende toda a hora que eu quiser. Que a Clélia seja vem feliz no seu aniversário e que tenha cem anos de vida. Assinado: Adalgisa Santana.”
Carlos, nosso irmão, é o dr. Carlos Efrem, o médico da família que tem ação completar à da Clélia, no que diz respeito a problemas de saúde, na ajuda aos familiares e aderentes mais necessitados. Quando vai ao Camará, forma-se na varanda da casa, junto da rede dele, uma fila de gente para se consultar. E ele atende, medica os que pode e encaminha para o Instituto José Frota os casos mais graves.
Dalva tinha uma irmã que já morreu, a Edite. Uma vez, as duas foram a Fortaleza resolver alguma coisa e fomos juntas no carro para o Centro. Passando em frente a uma funerária, a Edite comentava admirada a beleza dos caixões, quando alguém lhe disse para não olhar não que dava azar. Edite disse que ia continuar olhando pois, completou: “eu sei que não vou num desses mesmo. Eu vou é na minha redinha.” Naquele tempo, no Camará, gente como Edite e Dalva ainda iam para o cemitério em suas redes. Os punhos da rede eram amarrados em um pau, carregado ao ombro por dois homens que lideravam o cortejo.
Seu Santana, pai das duas e de outros tantos filhos, era vizinho do seu Costa no Camará. Um dos filhos dele veio para o Rio de Janeiro onde aprendeu a cozinhar e trabalhou anos para uma família de Copacabana. Fui portadora de muita castanha e de muito beiju para o irmão da Dalva.