Estou em Diamantina, lugar que nunca tinha visitado antes. Viemos de Belo Horizonte numa van para participar do 2o. Festival de História, organizado por Américo Antunes que descobri ser, por conta do discurso do prefeito na abertura, minhoca da terra. Longas viagens por terra com colegas historiadores e jornalistas é sempre ocasião de bons papos. Da turma que ia na van eu já conhecia Bruno Carvalho, jovem professor de literatura em Princeton. Bruno fora nosso convidado no seminário “Brasil/EUA: novas gerações, novos olhares”, que organizei com James Green em junho na Casa de Rui Barbosa. Também encontrara recentemente com Mario Magalhães, jornalista cuja biografia de Marighela tem tido grande repercussão. Mario participou, no Instituto Dragão do Mar no encontro do conselho do Porto Iracema das Artes do qual fomos convidados por Paulo Linhares a fazer parte.
Também viajava conosco o jornalista Ricardo Amaral, autor de livro sobre Dilma Roussef: “A vida quer coragem”. Entusiasta da obra de Guimarães Rosa, Ricardo indicava na longa viagem entre Belo Horizonte e Diamantina os lugares mais importantes da geografia Roseana: o ponto exato em que começa aquele sertão mineiro que parece tanto com o nosso sertão cearense. Conversamos de tudo um pouco mas o melhor foi saber que Ricardo tinha conhecido meu irmão Lustosa e que tinha por ele carinho e amizade. É claro que isto para mim já é suficiente para fazer de um conhecido um amigo.
Diamantina parece com Ouro Preto sem o ar cosmopolita que emprestam a Ouro Preto, seus tantos turistas e forasteiros que ali acabaram por se fixar. Talvez por ser mais longe de Belo Horizonte ou por conta das tantas coisas que fazem um lugar ficar mais na moda que outro, Diamantina ainda não se tornou a queridinha do turismo histórico que faz com que tanta gente visite Tiradentes, Parati e Olinda, por exemplo. Diamantina ainda não está tomada por boutiques e restaurantes charmosos e caros. Diamantina ainda não perdeu o ar de cidade de interior. Diamantina ainda é uma cidade dominada pelos diamantinos. E a isto, a meu ver, deve muito de sua graça.
As belezas arquitetônicas do lugar também me pareceram mais singelas. É verdade que essas são impressões de um dia só de viagem. Não entrei em nenhuma igreja. Não me impressionei com a fachada da Matriz que se ergue majestosa entre duas ladeiras com seus degraus debruçados para o grande pátio em frente. O lugar me lembrou espaço semelhante em Salvador, apesar das proporções da igreja, das ladeiras e do pátio serem mais modestas aqui. Vi três igrejinhas tão bonitinhas, tão coloridinhas e tão delicadas que me deu vontade de embrulhar e levar para a casa. Também me encantou seu lindo mercado com suas porteiras rústicas, suas dimensões também modestas, suas cores terrosas.
Na noite da véspera de abertura do Festival tive o prazer de conversar com Kenneth Maxwell de cuja obra sou franca admiradora. Perguntei a ele quantos anos fazia da publicação de “A devassa da devassa”. Fazem exatamente quarenta anos da primeira publicação na Inglaterra desse livro fundador que abriu a trilha para outros trabalhos acadêmicos relevantes. A partir da análise dos autos da devassa, Maxwell estabeleceu o que foi de fato aquele episódio da nossa história que ficou conhecido como “Inconfidência Mineira”, identificando as paixões e os interesses que moveram os malogrados revolucionários brasileiros.
Kenneth Maxwell proferiu a conferencia que abriu o seminário, seguido de mesa-redonda da qual participaram a historiadora Junia Ferreira Furtado e Bruno Carvalho, em torno do recém lançado “Livro de Tiradentes”. Organizado por Maxwell, o livro acaba de sair pelo selo que a Penguin tem no Brasil em parceria com a Companhia das Letras. Reunindo textos dos componentes da mesa, além de outros autores, o “Livro de Tiradentes” é a reedição do Recueil des Loix Constitutives des États-Unis de l’Amérique, coletânea de seus documentos constitucionais de fundação: a Declaração de Independência, primeira redação dos Artigos de Confederação, censo das colônias inglesas de 1775 e a Constituição de seis dos treze estados confederados.
O “Recueil” foi publicado na França por iniciativa de Benjamin Franklin numa interessante estratégia de marketing político que visava conquistar as simpatias dos franceses para a nova nação. Trazido clandestinamente ao Brasil por estudantes de Montpelier, o “Recueil” iluminou a mente do alferes mineiro, Joaquim José da Silva Xavier e de outros mineiros mais ilustres que ele para as possibilidades que a instauração de uma nova ordem política oferecia. Daí que o livro ficou conhecido como “Livro de Tiradentes”e o exemplar que pertenceu a Joaquim José da Silva Xavier, depois de peregrinar até pela biblioteca estadual de Santa Catarina, figura hoje na coleção do Museu da Inconfidência, em Ouro Preto.
Em sua conferencia de Maxwell se deteve sobre as tantas conexões internacionais estabelecidas pelos inconfidentes. Destaque merece o estudante brasileiro de medicina de Montpellier, José Joaquim da Maia Barbalho que, sob o pseudônimo de Vendek, conseguiu estabelecer contato com Thomas Jefferson com vistas a obter o apoio dos EUA para a revolução brasileira. Pragmáticos como sempre os americanos preferiram mesmo o acordo comercial com a velha e carcomida coroa portuguesa. Mais que o episódio das tentativas de conexão com os EUA, a presença de tantos estudantes brasileiros na França da Revolução revela muito sobre as tantas entradas que se abriram para que as idéias iluministas penetrassem, apesar da mais rigorosa censura, na rica colônia portuguesa na América.
A boa companhia na viagem para cá, a beleza de Diamantina e a conferência de Maxwell vão tornando esses dias formidáveis.
Nenhum comentário:
Postar um comentário