Uma permanente saudade (7/9/13)
Ainda não pude ver o livro que Edmo Linhares, Juarez Leitão e Cesar Montenegro organizaram em homenagem ao Lustosa. A crônica foi escrita antes do lançamento que aconteceu na noite dessa última sexta feira no Ideal Clube mas eu sei, porque li no jornal, que “Permanente Lustosa” reúne crônicas de amigos e alguns dos irmãos (eu, inclusive) do jornalista e escritor que dá nome à biblioteca de Sobral. São 41 depoimentos distribuídos por 250 páginas e, entre os autores, constam nomes de amigos como Antenor Barros Leal, Frota Neto, Lúcio Alcântara e Paulo Elpídio. Não sei se também está ali o Helio Barros. Se vivo fosse, Dorian Sampaio não faltaria.
Se a quantidade de depoimentos é o reflexo de uma vida em que a amizade teve um papel tão grande – ou, talvez, ainda maior - que a vida familiar, os depoimentos que deram esses amigos acima citados confirmam o caráter de permanência que dá titulo ao livro. É que, dezessete anos mais nova que o Lustosa, lembro de ver, na minha infância, suas ilustres e simpáticas pessoas na nossa modesta casa, situada à rua Nossa Senhora da Piedade, número 126. Ali mesmo no famoso beco da Piedade, eternizado no livro de crônicas do Lustosa “Cartas do Beco”, esses amigos que aos meus olhos infantis pareciam tão chiques, estavam começando uma amizade que durou mais de cinqüenta anos e que se reafirma agora neste livro.
A esses amigos de juventude, o Lustosa chamava de “irmão”, dando à fraternidade um sentido ainda mais abrangente que tem. Fraternidade no sentido de companheirismo, de solidariedade, mas principalmente de comunhão de espírito. Um espírito cuja marca seria o amor à alta literatura, o gosto pela escrita mas, também, a irreverência. A conversação sendo o espaço do epigrama, da provocação amável, de demonstrações de carinho permeadas pela ironia, pontuadas pela gargalhada gostosa. Diferenças políticas que, como seria natural, se acentuaram também com o tempo, não turvaram as águas desse rio que fluiu sem acidentes até o último dos seus dias. Ao longo de sua vida ele teve essa sensação de conforto que uma velha amizade nos proporciona. E confesso que essa era uma das características que eu mais invejava no Lustosa.
Também me parece hoje surpreendente que, com seu temperamento, que não era fácil e que se tornara ainda mais difícil nos últimos anos, ele tenha não só conservado aqueles velhos amigos como feito outros tantos. Pois também tinha aquela cara zangada do Lustosa, aquele humor irritado com a resposta ao estilo do seu Luga e que, às vezes, desconcertava. Era implicante também. Tomava abuso de pessoas sem ter nem a ver, às vezes por motivo fútil, sendo capaz mesmo de cometer julgamentos injustos só por implicar com alguém. Mas nunca foi um arrogante, nunca agiu como alguém que se achasse acima dos outros, nunca usou seu prestígio para diminuir ou humilhar quem quer que fosse. Era altaneiro, mas nunca foi prepotente.
Havia algo nele de irresistivelmente sedutor. Talvez a maneira de falar, talvez o entusiasmo genuíno que demonstraria por tudo que realmente o encantasse, talvez a gargalhada que explodia com gosto diante de algo que o divertia, talvez o fato de ter sido mesmo um grande escritor. E a pessoa que intui isto não deixa de reverenciar e querer bem ao homem de talento indiscutível que foi o Lustosa. A facilidade com que narrava, a naturalidade com que contava suas histórias, a erudição aliada ao senso de humor extraordinário de suas narrativas, um senso de humor marcado pela auto ironia, recomendam a leitura de seus livros.
Lustosa tinha uma mágoa verdadeira de ter sido um autor regional. Seus livros não conquistaram o sudeste e, para um autor brasileiro, essa é a definição do sucesso: ser lido no Rio e em São Paulo. Não é só no Ceará. Vale para o resto do Brasil inteiro. Do Oiapoque ao Chuí. Felizmente teve o bom senso de seguir em frente, continuando a publicação de seus livros. Com isto pode deixar o legado de uma grande obra, cujas imperfeições editoriais se devem apenas ao temperamento ansioso do autor que, na pressa de levar ao prelo os originais muitas vezes deixou passar algumas imperfeições. Certamente, seus textos sobre a sociedade sobralense (sociedade aqui no sentido sociológico mesmo) representam uma contribuição efetiva para a compreensão do caráter das elites do interior cearense da primeira metade o século XX.
Antes de concluir, eu gostaria de citar um texto do livro a que tive acesso pelo privilégio que tenho de ser irmã mais velha do autor. É o texto do Fred que só é meu irmão mais novo porque teve o mau gosto de tomar meu lugar de caçula da família nascendo ano e meio depois de mim. A história de sua amizade com o irmão mais velho deve ser um dos capítulos mais bonitos do livro. Ela diz muito do caráter dessa dupla, separada por grande diferença de idade que, no entanto, tinha tanto em comum.
“Eram 19 anos que, desde que saí da adolescência, não faziam a menor diferença. Lustosa não deixava de ter um lado paternal e protetor, mas o que prevalecia era a amizade fraterna, a admiração mútua, os interesses compartilhados, a camaradagem dos gestos gratuitos. (...) Em 2001, eu tinha uma viagem profissional relativamente tranqüila a Lisboa, Madri e Barcelona. Resolvi convidá-lo a ir comigo. Convite de grego, pois eu só tinha a oferecer a passagem. Ele aceitou de bom grado. Foi todo animado. E adorou. Sempre dizia – Eu vim para gostar. E gostou. Aproveitamos muito de Lisboa, que ele conhecia bem, e de Madri, que ainda não conhecia. Mas ele adorou mesmo foi Barcelona, por onde lhe fiz caminhar mais do que podia e o levei a almoçar em El Sibarita.”
Foi bom o Fred lembrar desse último detalhe, o gosto que o Lustosa tinha por bons restaurantes, a boa mesa. Aliás, ele tinha o gosto por tudo que era bom: boas pessoas, bons livros, bons amores, boas comidas e boas bebidas. Era um querido e a saudades que deixou, como diz o Fred no final de seu texto, “choram altissonantes em mim. E em tantos amigos.”
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