O programa de instalação da Padaria preconizava que seu fim era "fornecer pão de espírito aos sócios em particular e ao povo em geral" e, como o de toda organização de jovens, registrava propósitos maiores do que a barriga. Dentro do espírito da época o regulamento proibia o uso de expressões estranhas ao vernáculo e vetava as peças literárias que fizessem referência a animais ou plantas estranhos à flora e à fauna brasileira. Atenta às coisas da terra de origem, a Padaria se comprometia a produzir um cancioneiro popular "genuinamente cearense" e um livro contando as aventuras do "extraordinário" Padre Verdeixa. Apesar de, pelo regulamento, padres, alfaiates e a polícia, serem considerados inimigos naturais dos Padeiros, alertava-se que seria registrado o "facto de apparecer algum padeiro com collarinho de nitidez e alvura contestáveis".
A Padaria também se propunha a intervir no problema da educação no Ceará prevendo, em seu regulamento, a nomeação de comissões para averiguar as condições dos estabelecimentos de instrução pública e particular de Fortaleza. Dentro do mesmo espírito, a Padaria manifestava o desejo de "criar aulas noturnas para a infância desvalida". Conscientes da dificuldade da empreitada, os padeiros se comprometiam, no entanto, a lutar por tornar obrigatória a instrução pública primária. Também pretendiam influir no sentido de tornar Fortaleza mais formosa, mais civilizada. Por isso os padeiros elegem como a mais útil e civilizadora das instituições a Avenida Caio Prado; se comprometem a pugnar pelo aformoseamento do Parque da Liberdade; pela boa conservação da cidade em geral e para compelir "o Mané Coco a terminar o serviço da Avenida Ferreira". O Mané Coco era o dono do Café Java, onde a Padaria Espiritual fez a sua estreia. O Café Java ficava a um dos quatro cantos da Praça do Ferreira, bem no coração de Fortaleza.
Eram 20 os rapazes que fundaram a Padaria. Destes alguns emigraram para o Rio logo, outros fizeram carreira na política, outros simplesmente mergulharam em radical anonimato. Da primeira safra, a da fase irreverente e irresponsável, que vai de 1892 a 1894, destacam-se Antônio Sales e Adolfo Caminha. Temperamentos avessos, Antônio Sales foi, assim uma espécie de "public relations" das letras cearenses e das próprias, estabelecendo uma teia de relações no sul do país. Viveu no Rio, entre 1897 e 1920, escrevendo para os jornais, exercitando a veia humorística, grande atrativo da imprensa do tempo. Adolfo Caminha, ao contrário, tinha uma natureza intempestiva, apaixonada, de uma impetuosidade febril. Também radicado no Rio, onde morreu, prematuramente em 1897, Adolfo Caminha faz lembrar Raul Pompéia, na forma com que investe contra os figurões das letras e os preconceitos do tempo. Não podiam se dar e não se davam. Por Antônio Sales não, que era do time das relações polidas, na linha de Coelho Neto e Olavo Bilac. Mas por Caminha, o briguento, o criador de caso, seguidor de Emile Zola, sempre a por o dedo na ferida.
A boa aceitação que a Padaria teve pelos literatos do Sul estimulou a sua sobrevida. E, na segunda fase, que vai de 1894 a 1898, o destaque é para o homem de ciências e de letras, Rodolfo Teófilo. O sanitarista caboclo, farmacêutico ilustrado que enfrentou a oligarquia Acioli promovendo por conta própria a campanha da vacinação contra a varíola no Ceará. É na agradável casa de Rodolfo Teófilo, em reuniões regadas a refresco de cajá que se reúne pelas últimas vezes a Padaria Espiritual. Durante os seis anos de sua existência, a Padaria produziu 36 exemplares d´O Pão, seu jornal. Na fase aventureira, o jornal sai espaçadamente, quatro vezes. Mas na fase institucional ele mantém sua periodicidade e recebe artigos de colaboradores ilustres do cenário das letras nacionais.
Havia muito de cópia, de imitação tanto nas maneiras, quanto na produção literária da Padaria. Tentavam os moços integrar o Ceará da seca, da pobreza, no contexto da civilização. Esforçavam-se os intelectuais da província por serem reconhecidos na Rua do Ouvidor. Sonhavam em frequentar as confeitarias Pascoal e Colombo, encontrar com naturalidade a Artur Azevedo, José do Patrocínio, Olavo Bilac, Coelho Neto. Ressentiam-se do meio acanhado em que viviam e, como sói acontecer, imaginavam-se milhões de vezes mais talentosos do que eram. Não eram fantasias diversas das dos literatos da Capital Federal, sempre com os olhos voltados para Paris.
A maior parte deles fracassou, vítima da pobreza ou do meio. Talentos que ficaram esquecidos atrás de um bureau de repartição pública, de um balcão de farmácia, ou que se afogaram no álcool, perdidos nas mesas de bar da cidade provinciana, sem cacife para partir rumo ao Sul e provar a si e ao mundo o seu gênio. Casos piores houve, dos que partiram e, derrotados pela competição na grande cidade ou confrontados com a realidade das limitações do próprio, retornaram, amargando o sabor do fracasso e das "ilusões perdidas".