A Padaria Espiritual (26/5/12)

Uma heroica agremiação de homens de letras viu a luz no longínquo dia 28 de maio de 1892. Foi em Fortaleza e a Padaria Espiritual, movimento literário que animou essa capital na última década do século, integrou o Ceará ao cenário das letras nacionais. Não era um cenáculo de estudiosos, artistas renomados, personagens da elite local banhada bissextamente de cultura nas Europas. A Padaria Espiritual tinha uma peculiaridade que talvez até empreste maior poesia à sua história. Ela era composta, em sua maioria, por moços do comércio. Estes rapazes também estiveram na origem de uma instituição que durante décadas teve presença importante no cenário da capital cearense: a Fênix Caixeiral, espécie de associação cultural dos comerciários.

O programa de instalação da Padaria preconizava que seu fim era "fornecer pão de espírito aos sócios em particular e ao povo em geral" e, como o de toda organização de jovens, registrava propósitos maiores do que a barriga. Dentro do espírito da época o regulamento proibia o uso de expressões estranhas ao vernáculo e vetava as peças literárias que fizessem referência a animais ou plantas estranhos à flora e à fauna brasileira. Atenta às coisas da terra de origem, a Padaria se comprometia a produzir um cancioneiro popular "genuinamente cearense" e um livro contando as aventuras do "extraordinário" Padre Verdeixa. Apesar de, pelo regulamento, padres, alfaiates e a polícia, serem considerados inimigos naturais dos Padeiros, alertava-se que seria registrado o "facto de apparecer algum padeiro com collarinho de nitidez e alvura contestáveis".

A Padaria também se propunha a intervir no problema da educação no Ceará prevendo, em seu regulamento, a nomeação de comissões para averiguar as condições dos estabelecimentos de instrução pública e particular de Fortaleza. Dentro do mesmo espírito, a Padaria manifestava o desejo de "criar aulas noturnas para a infância desvalida". Conscientes da dificuldade da empreitada, os padeiros se comprometiam, no entanto, a lutar por tornar obrigatória a instrução pública primária. Também pretendiam influir no sentido de tornar Fortaleza mais formosa, mais civilizada. Por isso os padeiros elegem como a mais útil e civilizadora das instituições a Avenida Caio Prado; se comprometem a pugnar pelo aformoseamento do Parque da Liberdade; pela boa conservação da cidade em geral e para compelir "o Mané Coco a terminar o serviço da Avenida Ferreira". O Mané Coco era o dono do Café Java, onde a Padaria Espiritual fez a sua estreia. O Café Java ficava a um dos quatro cantos da Praça do Ferreira, bem no coração de Fortaleza.

Eram 20 os rapazes que fundaram a Padaria. Destes alguns emigraram para o Rio logo, outros fizeram carreira na política, outros simplesmente mergulharam em radical anonimato. Da primeira safra, a da fase irreverente e irresponsável, que vai de 1892 a 1894, destacam-se Antônio Sales e Adolfo Caminha. Temperamentos avessos, Antônio Sales foi, assim uma espécie de "public relations" das letras cearenses e das próprias, estabelecendo uma teia de relações no sul do país. Viveu no Rio, entre 1897 e 1920, escrevendo para os jornais, exercitando a veia humorística, grande atrativo da imprensa do tempo. Adolfo Caminha, ao contrário, tinha uma natureza intempestiva, apaixonada, de uma impetuosidade febril. Também radicado no Rio, onde morreu, prematuramente em 1897, Adolfo Caminha faz lembrar Raul Pompéia, na forma com que investe contra os figurões das letras e os preconceitos do tempo. Não podiam se dar e não se davam. Por Antônio Sales não, que era do time das relações polidas, na linha de Coelho Neto e Olavo Bilac. Mas por Caminha, o briguento, o criador de caso, seguidor de Emile Zola, sempre a por o dedo na ferida.

A boa aceitação que a Padaria teve pelos literatos do Sul estimulou a sua sobrevida. E, na segunda fase, que vai de 1894 a 1898, o destaque é para o homem de ciências e de letras, Rodolfo Teófilo. O sanitarista caboclo, farmacêutico ilustrado que enfrentou a oligarquia Acioli promovendo por conta própria a campanha da vacinação contra a varíola no Ceará. É na agradável casa de Rodolfo Teófilo, em reuniões regadas a refresco de cajá que se reúne pelas últimas vezes a Padaria Espiritual. Durante os seis anos de sua existência, a Padaria produziu 36 exemplares d´O Pão, seu jornal. Na fase aventureira, o jornal sai espaçadamente, quatro vezes. Mas na fase institucional ele mantém sua periodicidade e recebe artigos de colaboradores ilustres do cenário das letras nacionais.

Havia muito de cópia, de imitação tanto nas maneiras, quanto na produção literária da Padaria. Tentavam os moços integrar o Ceará da seca, da pobreza, no contexto da civilização. Esforçavam-se os intelectuais da província por serem reconhecidos na Rua do Ouvidor. Sonhavam em frequentar as confeitarias Pascoal e Colombo, encontrar com naturalidade a Artur Azevedo, José do Patrocínio, Olavo Bilac, Coelho Neto. Ressentiam-se do meio acanhado em que viviam e, como sói acontecer, imaginavam-se milhões de vezes mais talentosos do que eram. Não eram fantasias diversas das dos literatos da Capital Federal, sempre com os olhos voltados para Paris.

A maior parte deles fracassou, vítima da pobreza ou do meio. Talentos que ficaram esquecidos atrás de um bureau de repartição pública, de um balcão de farmácia, ou que se afogaram no álcool, perdidos nas mesas de bar da cidade provinciana, sem cacife para partir rumo ao Sul e provar a si e ao mundo o seu gênio. Casos piores houve, dos que partiram e, derrotados pela competição na grande cidade ou confrontados com a realidade das limitações do próprio, retornaram, amargando o sabor do fracasso e das "ilusões perdidas".

Novos e velhos desafios (19/5/12)

Diz a música que "quando a gente está contente, tanto faz o quente tanto faz o frio". E, de fato, quando a gente está bem consigo, com o lugar em que vive, com as pessoas que nos cercam, com o trabalho que faz, qualquer coisa é boa. Pode ser o botequim mais vagabundo, a sala de trabalho mas sem graça, o apartamento mais modesto: não importa. A gente está tão contente que tanto faz. O resto é só o resto. O essencial está bem preenchido

Mas quando a gente não está contente? Quando a gente está se sentindo mal dentro da própria pele, quando a gente tem um mal-estar geral? Quando a gente se sente inadequada? Aí é justamente o contrário: tudo fica meio sem graça e sem sentido. Tudo o que você faz e sente fica meio misturado com aquele saber amargo que está na vida e está em você. Dá um desanimo danado e a tendência a perder a fé no próprio valor é grande.

É interessante olhar a vida dessa perspectiva, de vez em quando. Não ser aceito, não ser querido, não ser desejado são situações difíceis de suportar, especialmente se você é jovem. Mas também não são um passeio quando você já passou dos 50 e está em ambiente estranho em que não te conhecem, não sabem quem você é, não sabem o que você fez e se o que você fez tem algum interesse. O que fazer? A melhor coisa a fazer, me parece, é tentar se segurar nas suas referências. Nas coisas que você sabe que faz bem e que, em outras circunstâncias, te ajudaram a viver, a conquistar seu lugar no mundo.

Quando me sinto assim, penso nas pessoas que foram submetidas a situações limite. Nas pessoas que tiveram que se submeter a chefes autoritários por falta de alternativa pois só havia aquele emprego e dele dependia a subsistência de sua família. Nas pessoas que estiveram sob o domínio de alguém: mulheres de maridos tirânicos que não tinham meios de lhes opor resistência; prisioneiros em situações de injustiça, sob o domínio de guardas sádicos; pessoas que estão sequestradas e submetidas a criminosos cruéis; os presos e torturados da ditadura. Nessas situações limite, até onde a gente vai? Como a natureza da gente faz para não ser destroçada? Como sobreviver inteiro e sem sequelas a experiências assim?

Claro que nada tem a ver com o pequeno mal estar de viver no estrangeiro temporariamente, sendo um total desconhecido e tendo que lidar com questões práticas totalmente inéditas na sua vida. Claro que a sensação de desamparo nem se aproxima da que viveram as pessoas que enfrentaram experiências como as que citei acima.

Mas quando a gente vive há alguns anos na zona de conforto, quando a gente passa muito tempo sendo bem tratada pela vida, pode ser pego no contra-pé diante de uma situação menos acolhedora, menos receptiva, menos amigável. Aí é preciso lembrar do choque que foi viver isto no primeiro emprego. No momento em que você chegou sozinha ao lugar onde ia trabalhar e sentiu a hostilidade à sua volta. No tanto que aquela rejeição fez você sofrer e no tanto que você aprendeu com ela. Faz tanto tempo, não é mesmo? O mundo ainda não era esse lugar tão fácil de se mover, onde em cada esquina a gente encontra um conhecido. Onde você passou a fazer parte de uma pequena comunidade que tem entrada em quase todo lugar.

Outro dia vi um filme antigo sobre a vida do Émile Zola. Não era grande coisa e o Paul Muni estava bastante caricato no papel do Zola. O filme era ingênuo e até mesmo a situação que vou relatar aqui tem um quê de ingenuidade. O Zola, que tinha começado a carreira literária publicando títulos chocantes, romances denúncia sobre a realidade das mulheres da rua, dos operários, dos pobres em geral havia, no final da vida, se tornado uma celebridade. Estava a ponto de entrar para a Académie Française. Gordo, rico e bem situado na vida, Zola não queria mais saber de confusão. Queria gozar as conquistas que suas lutas anteriores tinham lhe proporcionado.

Foi então que a mulher do Dreyfus foi procurá-lo, demonstrando, através de documentos, a enorme injustiça que estava sendo cometida contra seu marido. O Zola não queria nem saber, disse que agora queria era sossego, que não ia se meter naquela batalha já perdida naquele momento de sua vida. Decepcionada, a mulher do Dreyfus foi embora e o Zola retomou a leitura da carta da Academia anunciando que ele seria aceito, creio que também em virtude de seu comportamento tão de acordo com o que recomendava a boa sociedade.

Foi aí que ele resolveu chutar o balde, como se diz. Pegou os papéis do Dreyfus, concluiu que realmente ele estava condenado à prisão perpétua na Ilha do Diabo, na Guiana Francesa, por conta de uma injustiça clamorosa, um verdadeiro crime cometido pelas altas patentes do exército francês. E o Zola publicou no jornal L´Aurore o seu artigo "J´accuse...!".

E comprou sarna para se coçar pois como o caso Dreyfus estava encerrado, ele é que foi a julgamento por ofensa às forças armadas. A campanha que esta fez, através da grande imprensa contra o Zola, acusando-o de inimigo da Pátria, foi tão bem sucedida que seus livros foram queimados em praça pública, que ele foi condenado e teve que fugir para Londres. Mesmo assim, os depoimentos das testemunhas de seu julgamento demonstraram as falhas do processo contra Dreyfus e deram o pretexto para que ele fosse novamente julgado. Enfim, a história tem muitos aspectos bem conhecidos, no filme, o Zola faz um belo discurso no final do julgamento, no qual prova por a+b a verdade dos fatos. O Dreyfus foi reabilitado e o episódio ficou para sempre na história da França.

Mas o aspecto para o qual eu quis chamar a atenção aqui foi sobre a escolha do Zola. Ele estava acomodado, ele resistiu a entrar na briga pelo Dreyfus, mas, depois, pensou bem e viu que a vida precisa de desafios, que a gente pode perfeitamente ficar bem lá no seu canto, fruindo as glórias que já alcançou mas que é muito mais digno e muito mais gratificante, estando no jogo, enfrentar novos desafios, arriscar tudo em uma outra causa que, sendo justa e honrada, só contribuirá para tornar o mundo melhor. E também, para que, mesmo que, em um primeiro momento, tudo pareça estar contra você, fazer com que você reconquiste, ainda com mais direito, o seu lugar.

Naturalmente que nem todos os desafios da vida envolvem uma causa da dimensão do caso Dreyfus. Mas, a gente se prova também, quando, saindo de nossa zona de conforto, daquele espaço que a gente pensa em que vai viver até o final dos dias, decide enfrentar um novo desafio, contando apenas com as armas que a natureza e a experiência de vida lhe deram. De vez em quando é preciso sair na chuva e se molhar: ajuda a estar em contato com o que você foi e com o que você sempre será. Com a sua essência.

Efemérides do dia 13 de Maio (12/5/12)

Hoje é véspera do 13 de maio e, quando penso no 13 de Maio, não penso logo na Abolição. Penso, primeiro, naquela música que a gente cantava na escola, na igreja e em casa, e que dizia assim: "A 13 de Maio na Cova da Iria, no céu aparece a virgem Maria". Depois do refrão bisado, "Ave, ave, ave Maria", vinha a história dos três pastorinhos: "Aos três pastorinhos, cercados de luz, visita Maria, a mãe de Jesus".
 

A devoção a Nossa Senhora de Fátima era tão forte lá em casa que a intenção de meus pais era dar aos três filhos que queriam ter os nomes de Francisco, Lúcia e Jacinta. Mas depois da Lúcia, vieram Alberto, Parsifal, Elcias (o que morreu pequeno e cujo nome foi herdado pelo outro, que nasceu depois), Paulo e, só depois dessa sucessão de rapazes, veio uma menina. Mas aí a linhagem já tinha sido quebrada e eles prefiram chamá-la de Maria do Socorro. Nós, os irmãos mais novos só a chamávamos de Dadal. Eu a chamo assim até hoje.
 

A história dos três pastorinhos não era algo muito claro para mim na infância. Tinha aquela imagem em gesso das criancinhas ajoelhadas diante de Nossa Senhora, sob um céu de um azul celeste excessivamente azul. Eu pensava que era algo que tinha acontecido num passado imemorial, algo tão antigo quanto a própria vida de Cristo. Na verdade, no meu imaginário todas as coisas ligadas à religião pareciam ter acontecidos no mesmo período. Por isso me parecia tão estranho aquele retratinho de São Domingos Sávio, com seu terninho e sua gravata borboleta, que até hoje está na parede da casa da mamãe. Aquela roupa não combinava com o tempo em que eu situava os santos.
 

Descobrir depois que os três pastorinhos não só eram do mesmo século que eu e que a irmã mais velha, Lucia, ainda estava viva lá em Portugal foi uma grande decepção. Viva e bem velhinha com uma figura que, pelas fotos, não tinha nada a ver com aquela menininha de gesso com quem eu me acostumara. Lúcia parecia com qualquer uma daquelas freirinhas do Colégio das Dorotéias com as quais eu encontrava todos os dias. E isto tirava toda a magia da história.
 

Eu preferia ficar com a memória dos três pastorinhos cercados de luz e mesmo com a versão irreverente que se cantava lá em casa. Dizia assim: "Flora Monte, você que é mais alta, mais alta que eu, olhai qual o bicho, o bicho que deu". Em seguida vinha o refrão: "Ave, ave, ave-estruz\ave, ave, ave-estruz".
 

Flora Monte era uma velha amiga dos meus pais, solteirona como então se dizia, que sempre nos visitava. Ela usava o cabelo, de um branco amarelo arrumado em duas grossas tranças que eram presas em torno da cabeça. E hoje pensando nisto me dou conta que D. Flora Monte devia ter cabelos bem compridos. Era muito magra e alta e não suportava que espirrassem perto dela. Medo de pegar gripe.
 

Hoje, o 13 de maio é para mim e creio, que para todos os brasileiros que conhecem a história, a data da Abolição da Escravatura. Foi um momento de grandes festas em muitas cidades brasileiras, verdadeira apoteose de um movimento que congregou homens como José do Patrocínio, Joaquim Nabuco, André Rebouças, Luis Gama, Rui Barbosa e muitos outros. A assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel, no último ano da Monarquia no Brasil, foi um gesto que talvez tenha consolado D. Pedro II, nos dois anos em que sobreviveu ao exílio. Afinal, deixara o trono sem deixar atrás de si a escravidão contra a qual ele e sua filha foram, durante quase todo o seu reinado, forças vencidas em um sistema onde a política e a economia eram dominadas pelos escravocratas, os grandes produtores de café.
 

O 13 de maio é também o dia do aniversário de D. João VI. No primeiro aniversário que passou no Brasil, ele mandou publicar uma série de decretos pela Impressão Régia que tinha acabado de ser inaugurada a partir da gráfica que vieram nos porões do navio Medusa. Foi na rua das Marrecas, na casa do Conde da Barca, que a tinha trazido, que ficou funcionando a primeira gráfica brasileira. Dela sairiam os primeiros livros publicados no Brasil e o primeiro jornal a circular entre nós: a "Gazeta do Rio de Janeiro", lançada em setembro de 1808.
 

E porque era o aniversário de D. João, seu sogro, é que D. Leopoldina, coitada, talvez até prevendo o que o futuro lhe traria, teve que casar no dia 13 de maio de 1817. Foi em Viena e o casamento, feito por procuração como eram os casamentos reais, teve muita pompa e circunstância. O Marquês de Marialva, encarregado de acertar o negócio, distribuía pedras preciosas como quem distribui biscoitos. E tudo por ordem Del Rei D. João, manhoso como ele só, que queria dar aos austríacos a impressão de que no Brasil, era assim, a pessoa tropeçava nas ruas em diamantes, esmeraldas e rubis.
 

Pobre princesa que não pensava nas pedras pelo seu valor de revenda mas apenas, com seus olhos azul-violeta, procurava-lhes o nome científico, pois tinha a vocação da ciência, da mineralogia em particular. Enganada por Marialva que lhe garantiu que o príncipe, cuja bela figura já a deslumbrava no retrato, era rapaz fino e educado. Para cúmulo de sua felicidade quando indagado se o príncipe gostava de mineralogia, ouviu da boca do Marques: "Adora". Ah, esses diplomatas...
 

Bem que ela não queria casar no dia 13. Quando chegou no Brasil, encontrou um príncipe realmente belo, mas sem modos nenhum e que, se a amou no começo, mesmo traindo-a com o que visse pela frente, acabou por maltratá-la e desprezá-la da forma mais terrível que uma mulher apaixonada pode ser maltratada e desprezada. Pobre princesa. Bem que ela não queria casar no dia 13 de maio.

Carência e cobrança (5/5/12)

Uma das coisas que mais me chamou atenção, quando, há alguns anos, li toda a correspondência de D. Pedro II com a condessa de Barral, foi a imensa carência afetiva do Imperador. Em suas cartas são frequentes os queixumes. Ele se queixa que ela não o escreve, que não gosta dele, que esqueceu dele. Assim também, ainda que de forma atenuada, são suas cartas para uma cantora lírica de sua afeição, que li alguns anos depois.

O imperador tinha seus motivos para ser um carente. Ele teve a infância triste de menino órfão. Sua mãe morreu quando ele acabara de completar um ano de idade e seu pai partira para o exílio quando ele tinha cinco anos. D. Pedro II foi criado sem a presença protetora dos pais por pessoas estranhas que, mesmo lhe querendo bem, misturavam interesses com esse afeto e que, certamente, o manipulavam no sentido de tê-lo como protetor no futuro.

Rapaz triste, sem namoradas, sem amigos, sem confidentes, desconfiado de tudo e de todos, cercado por um pesado esquema de vigilância dos que cuidavam de sua educação para que ele não se parecesse nem um pouco com o doidivanas do pai, D. Pedro II viu com alegria a perspectiva do casamento com uma princesa italiana.

Magra e bela no retrato, no entanto, D. Tereza Cristina, quando desembarcou no Rio quase fez o noivo desmaiar como seu pai quase desmaiara diante da beleza de D. Amélia. Só que o mal-estar do filho nada tinha ver com deslumbramento e sim com decepção: gorda e manca era a princesa que lhe tinham arrumado seus representantes na Europa.

Com 17 anos, o rapaz foi chorar nos braços da condessa de Belmonte que lhe fazia as vezes de mãe de criação. Esta lhe recomendou que ele cumprisse com o seu dever. Demorou um pouco, mas o casal acabou se entendendo e, algum tempo depois, vieram os filhos.

No diário do Imperador, a melancólica morte da Imperatriz, na cidade do Porto, em dezembro de 1889, depois do trauma do forçado embarque da família imperial que se seguiu à Proclamação da República, é chorada com uma dor profunda e sincera.

Fora sua companheira leal, solidária e silenciosa. Uma outra mãe a substituir o afeto que lhe dera na infância a condessa de Belmonte. Mas não fora nunca uma paixão, um enamoramento.

Este, D. Pedro II experimentou apenas, pelo menos suas cartas o evidenciam, pela condessa de Barral. Mas essa verdadeira "femme du monde" que viveu toda a vida em Paris, frequentando os círculos da alta nobreza, ao que parece, jogava com a evidente carência do apaixonado. Usava-o como o tinham usado os seus educadores e amas na infância.

A profusão de cartas de D. Pedro II para a Condessa de Barral faz contraste com a economia de mensagens dela. (É bem verdade que ele queimava as dela, como D. Pedro I fazia com as poucas que a amante semianalfabeta lhe escreveu). A Barral, às vezes, se contentava em fazer meras anotações nas margens das cartas do Imperador apaixonado. Ele a sufocava com sua carência que nenhum amor correspondido seria capaz de preencher. E ela apenas o tolerava, benevolente e indiferente.

Era uma paixão de mão única. Até porque que apaixonado cacete era o imperador. Merecia ouvir o que o pierrô apaixonado da música de Noel ouviu: "pierrô cacete, vai tomar sorvete com o arlequim".

Porque não tem nada mais chato do que um namorado carente. Aquele que passa o tempo todo cobrando amor, cobrando reciprocidade, cobrando respostas, cobrando atenções.

O namorado mais bonito, mais charmoso e mais inteligente se torna opressivo quando adota essa linha de ação. E quando o faz através de longos telefonemas em que sua atenção tem que ser exclusivamente voltada para ele, sai de baixo. Que tédio!

Não há amor que resista há um telefonema de duas horas. E se este se repete a cada dia, a gente vai repensando a relação. Não há amor que resista a um namorado que está na nossa vida em tempo integral, sem nos deixar um segundo sentir saudade dele.

Naturalmente que esse não é um problema exclusivamente masculino. Ao contrário. Mas alguns homens juntam essa carência a uma atitude autoritária, impositiva que torna a relação ainda mais sufocante. Tive um namorado que, jantando comigo em um restaurante, se eu tirava, por alguns instantes, os olhos dele para olhar em volta, perguntava: "tem algo muito interessante aí atrás de mim?".

Quando a gente está carente, fragilizado, solitário, tende a se tornar chato, mesmo sem querer. E essa chatice aumenta ainda mais quando a gente sente que o outro lado está se afastando de nós, justamente por causa disso. É quase como uma forma de sabotagem interna que faz com que aquela tristeza ponha na nossa voz um tom chorado, no nosso olhar um ar de súplica e na própria postura corporal algo de previamente derrotado que, ao invés de atrair, faz com que o objeto de nossa afeição tenha vontade de fugir para bem longe.

Amar é um jogo complicado. Parece até que quando você ama, quando você cai nas teias do amor, o amor do outro lado arrefece. Daí que tanta gente resiste, teme, foge do amor. Daí que na juventude o amor é tão fugaz.

Por isso é preciso saber dosar suas porções, fazer dos encontros coisas especiais; fazer das conversas momentos bonitos, delicados; fazer das datas importantes da história dos dois, ocasiões a serem comemoradas com um tempo maior juntos, um final de semana em um lugar bacana.

É um tremendo lugar comum mas, para ser amado, é preciso estar bem abastecido de amor próprio. É preciso ter uma certa altivez, um certo desprendimento. É preciso ter a capacidade de abrir mão da companhia da pessoa que se ama para vê-la crescer. Não é desinteresse, não é desamor, é amizade.

E, como disse o Caetano quando comparou amizade com amor: "e quem há de negar que esta lhe é superior?".

Lágrimas (28/4/12)

Li todos os livrinhos do "Petit Nicolas", de René Goscinny, autor sempre feliz em todas as coisas que fez. O brilho de sua inteligência formidável, a gente percebe quando contrasta os volumes do "Asterix", em que ele foi autor do roteiro e do texto, com os outros feitos apenas por seu parceiro, Albert Urdezo.

Os livrinhos do Petit Nicolas, que comecei a ler para melhorar meu francês, podem também ser contrastados com o filme que tanto sucesso fez. O que tem de bom no filme está nos livrinhos, o que tem de ruim é criação nova. Assim é que aquela cena, inspirada no Asterix, dos garotos tomando a poção mágica ou contratando um bandido para sequestrar alguém, ou ainda aquele final relativo ao sexo da irmãzinha do garoto, não sairia jamais da pena de Goscinny. Sua sutileza reside justamente na capacidade que ele tem de representar o mundo, realmente, com o olhar de curiosidade e surpresa de uma criança comum. Um menino de classe média cuja vida que se desenrola quase toda em um único quarteirão, entre a casa e a escola, com um elenco pequeno de personagens. É um mundo absolutamente banal, sem qualquer coisa de inusitado, cuja graça reside toda no talento do narrador.

Engraçado contrastar as tantas sensações da infância do garoto delicado, sensível e carente criado por Marcel Proust, a partir de suas próprias lembranças, com esse tão comum e simpático Petit Nicolas. Tem algo de muito efeminado - e desculpem a expressão politicamente incorreta, mas acho que é a mais adequada - naquela fixação do garoto na mãe, na descrição minuciosa de suas sensações enquanto aguarda ansiosamente o beijo materno. É verdade que a genialidade de Proust está, a meu ver, justamente na tradução dessa hipersensibilidade em uma obra literária única e nunca superada.

A infância do Petit Nicolas também é repleta de sensações mas essas são mais terrestres, mais parecidas com as de um menino criado em contato com a rua. Uma coisa que adoro é quando ele se revolta contra o pai ou a mãe e diz, com seus botões, que vai fugir de casa e só então eles logo vão sentir o que perderam, ficarão arrependidíssimos de não o terem deixado ir ao cinema ou de o terem obrigado a fazer o dever de matemática.

Quando eu era criança e me recusavam alguma coisa ou me punham de castigo, eu também ficava como o Petit Nicolas. Só que eu era mais dramática e imagina como seria bom se seu morresse. Imaginava, entre lágrimas, meus pais e toda a família chorando, culpados de me terem tratado daquele jeito. Aí eles iriam se arrepender do que fizeram. Iam ficar pensado como tudo teria sido diferente se eles não tivessem me contrariado. Não me lembro se eu pensava em me matar ou simplesmente morrer de desgosto. O fato é que imaginar o sofrimento que minha morte causaria me provocava um prazer verdadeiramente voluptuoso. Eu acabava por dormir totalmente pacificada.

Hoje me ocorreu contrastar essa sensação com a que tenho agora, quando penso em meu pai morto. O sentimento que me vem é de arrependimento por não ter sido uma filha mais legal, por não ter aproveitado mais de sua companhia e de seus ensinamentos, por conta de nossos atritos durante minha adolescência. Arrependimento de ter tratado meu pai tão mal, pois eu o via como um opressor que tentava impedir minha felicidade. E esta estava na vida boêmia na companhia de meus amigos, nas noitadas no Anísio, nas viagens malucas com a turma do Pereira.

Do ponto em que me encontro hoje na vida, talvez com a mesma idade que ele tinha naquela época, vejo claro, como na música do The Who. Que opressor que nada! Quanto de sofrimento não lhe deve ter causado o medo que sua filha se perdesse numa vida corrompida e desregrada, sem respeito, sem estudo, sem trabalho e sem família. A sensação de impotência e de fraqueza que meu pai não deve ter experimentado diante da minha arrogância juvenil. Aquela prepotência de quem foi mimada, tendo os estudos e as despesas pagas por um pai assalariado e que nem imaginava quanto devia custar a ele manter equilibrado o orçamento doméstico. Como compreendo hoje sua angústia, o esforço que devia ter que fazer para aparentar ser um pai rigoroso, ele, cuja natureza era sempre afável, prazenteira, amigável, o quanto deve ter lhe custado se afastar para não acompanhar algo que ele temia que ia acabar mal, para sua filha caçula.

Tive sorte, não foi assim. Por uma série de circunstâncias, o destino me sorriu. Em algum ponto do caminho, talvez por conta do apoio permanente da minha mãe, talvez por conta dos valores que, desde a infância, me foram inculcados, eu me achei, tomei o prumo da minha vida e venci.

As lágrimas que eu imaginava que seriam choradas por meus pais na infância se eu morresse de repente, choro-as hoje por meu pai morto. E me vejo como ele, temendo pelo futuro do meu filho, tendo que usar de um rigor que não usara nunca antes, tendo que vencer minha natureza. As lágrimas que choro hoje por meu pai, serão as que meu filho chorará um dia por mim. Mas de que adianta, não é mesmo? Melhor seria se eu tivesse tido tempo e oportunidade para dizer-lhe dito que hoje compreendo suas razões

Para quem não acredita, como eu (a não ser literariamente), que os mortos estão nos espiando lá, de algum lugar do além, não há aquele sentimento de compensação que me ajudava a dormir na infância. E que pena não acreditar nisto. Fico com essa consciência de que meu pai não tira nenhuma proveito das lágrimas que derramo hoje por ele e por mim. Hoje, eu entendo o que não entendia na infância e adolescência: não são os pais que choram de culpa por terem feito o seu dever de pais. Somos nós que choramos depois, bem mais tarde, quando já não podemos agradecer por aquela prova de amor tão dolorosamente concedida.