Efemérides do dia 13 de Maio (12/5/12)

Hoje é véspera do 13 de maio e, quando penso no 13 de Maio, não penso logo na Abolição. Penso, primeiro, naquela música que a gente cantava na escola, na igreja e em casa, e que dizia assim: "A 13 de Maio na Cova da Iria, no céu aparece a virgem Maria". Depois do refrão bisado, "Ave, ave, ave Maria", vinha a história dos três pastorinhos: "Aos três pastorinhos, cercados de luz, visita Maria, a mãe de Jesus".
 

A devoção a Nossa Senhora de Fátima era tão forte lá em casa que a intenção de meus pais era dar aos três filhos que queriam ter os nomes de Francisco, Lúcia e Jacinta. Mas depois da Lúcia, vieram Alberto, Parsifal, Elcias (o que morreu pequeno e cujo nome foi herdado pelo outro, que nasceu depois), Paulo e, só depois dessa sucessão de rapazes, veio uma menina. Mas aí a linhagem já tinha sido quebrada e eles prefiram chamá-la de Maria do Socorro. Nós, os irmãos mais novos só a chamávamos de Dadal. Eu a chamo assim até hoje.
 

A história dos três pastorinhos não era algo muito claro para mim na infância. Tinha aquela imagem em gesso das criancinhas ajoelhadas diante de Nossa Senhora, sob um céu de um azul celeste excessivamente azul. Eu pensava que era algo que tinha acontecido num passado imemorial, algo tão antigo quanto a própria vida de Cristo. Na verdade, no meu imaginário todas as coisas ligadas à religião pareciam ter acontecidos no mesmo período. Por isso me parecia tão estranho aquele retratinho de São Domingos Sávio, com seu terninho e sua gravata borboleta, que até hoje está na parede da casa da mamãe. Aquela roupa não combinava com o tempo em que eu situava os santos.
 

Descobrir depois que os três pastorinhos não só eram do mesmo século que eu e que a irmã mais velha, Lucia, ainda estava viva lá em Portugal foi uma grande decepção. Viva e bem velhinha com uma figura que, pelas fotos, não tinha nada a ver com aquela menininha de gesso com quem eu me acostumara. Lúcia parecia com qualquer uma daquelas freirinhas do Colégio das Dorotéias com as quais eu encontrava todos os dias. E isto tirava toda a magia da história.
 

Eu preferia ficar com a memória dos três pastorinhos cercados de luz e mesmo com a versão irreverente que se cantava lá em casa. Dizia assim: "Flora Monte, você que é mais alta, mais alta que eu, olhai qual o bicho, o bicho que deu". Em seguida vinha o refrão: "Ave, ave, ave-estruz\ave, ave, ave-estruz".
 

Flora Monte era uma velha amiga dos meus pais, solteirona como então se dizia, que sempre nos visitava. Ela usava o cabelo, de um branco amarelo arrumado em duas grossas tranças que eram presas em torno da cabeça. E hoje pensando nisto me dou conta que D. Flora Monte devia ter cabelos bem compridos. Era muito magra e alta e não suportava que espirrassem perto dela. Medo de pegar gripe.
 

Hoje, o 13 de maio é para mim e creio, que para todos os brasileiros que conhecem a história, a data da Abolição da Escravatura. Foi um momento de grandes festas em muitas cidades brasileiras, verdadeira apoteose de um movimento que congregou homens como José do Patrocínio, Joaquim Nabuco, André Rebouças, Luis Gama, Rui Barbosa e muitos outros. A assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel, no último ano da Monarquia no Brasil, foi um gesto que talvez tenha consolado D. Pedro II, nos dois anos em que sobreviveu ao exílio. Afinal, deixara o trono sem deixar atrás de si a escravidão contra a qual ele e sua filha foram, durante quase todo o seu reinado, forças vencidas em um sistema onde a política e a economia eram dominadas pelos escravocratas, os grandes produtores de café.
 

O 13 de maio é também o dia do aniversário de D. João VI. No primeiro aniversário que passou no Brasil, ele mandou publicar uma série de decretos pela Impressão Régia que tinha acabado de ser inaugurada a partir da gráfica que vieram nos porões do navio Medusa. Foi na rua das Marrecas, na casa do Conde da Barca, que a tinha trazido, que ficou funcionando a primeira gráfica brasileira. Dela sairiam os primeiros livros publicados no Brasil e o primeiro jornal a circular entre nós: a "Gazeta do Rio de Janeiro", lançada em setembro de 1808.
 

E porque era o aniversário de D. João, seu sogro, é que D. Leopoldina, coitada, talvez até prevendo o que o futuro lhe traria, teve que casar no dia 13 de maio de 1817. Foi em Viena e o casamento, feito por procuração como eram os casamentos reais, teve muita pompa e circunstância. O Marquês de Marialva, encarregado de acertar o negócio, distribuía pedras preciosas como quem distribui biscoitos. E tudo por ordem Del Rei D. João, manhoso como ele só, que queria dar aos austríacos a impressão de que no Brasil, era assim, a pessoa tropeçava nas ruas em diamantes, esmeraldas e rubis.
 

Pobre princesa que não pensava nas pedras pelo seu valor de revenda mas apenas, com seus olhos azul-violeta, procurava-lhes o nome científico, pois tinha a vocação da ciência, da mineralogia em particular. Enganada por Marialva que lhe garantiu que o príncipe, cuja bela figura já a deslumbrava no retrato, era rapaz fino e educado. Para cúmulo de sua felicidade quando indagado se o príncipe gostava de mineralogia, ouviu da boca do Marques: "Adora". Ah, esses diplomatas...
 

Bem que ela não queria casar no dia 13. Quando chegou no Brasil, encontrou um príncipe realmente belo, mas sem modos nenhum e que, se a amou no começo, mesmo traindo-a com o que visse pela frente, acabou por maltratá-la e desprezá-la da forma mais terrível que uma mulher apaixonada pode ser maltratada e desprezada. Pobre princesa. Bem que ela não queria casar no dia 13 de maio.

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