Tive o privilégio de conviver com ele, pois fui casada com seu filho Cesar Duarte Pereira, pai do Chico Bento. Ao longo daqueles anos, Osny foi um amigo, um protetor e um interlocutor admirável. Ao lado de dona Edy, sua primeira e adorável mulher, cercado por filhos e netos, nos tantos encontros familiares, sua personalidade inteligente, divertida, sua conversa pontuada por uma ironia benfazeja, criavam momentos encantadores que ficarão sempre na minha memória como únicos e especiais.
Alguns anos depois da morte de dona Edy, a entrada em sua vida da bela filha de Clarival do Prado Valladares, (tão bela que chegou a ser Miss Elegante Bangu, em 1958), trouxe ânimo novo para a continuação dos trabalhos a que dedicou a vida. Juntos, Kátia e Osny organizaram os arquivos que, depois de sua partida, deram origem ao Centro ODP. Kátia trouxe também o charme de quem vinha do mundo das artes, sem nunca ter deixado de lado os idéias da jovem militante de organizações de esquerda dos anos 1960. Seu aniversário de 50 anos foi comemorado, ao lado de Osny, em uma festa maravilhosa no sitio de Burle Marx, a quem Kátia chamava de tio Roberto, pois fora o melhor amigo do seu pai.
Presto aqui minha homenagem a Osny Duarte Pereira, reproduzindo artigo que publiquei no Jornal do Brasil, quando de seu desaparecimento em 23 de outubro de 2000.
Osny Duarte Pereira começou a morrer quando a vista lhe faltou. Vista de olhos míopes que brilhavam vivos, inteligentes e pequeninos, por trás das lentes grossas dos óculos de grau. Vista de míope que, junto com a asma, o acompanhava desde a primeira mocidade e, com o apoio da qual, construíra sua obra de cientista político e homem das leis. Desde o primeiro jornal escrito no grupo escolar onde passou a infância modesta na pequena Itajaí, no interior de Santa Catarina, o menino de remota origem judaica, já se exercitava nas grandes questões sociais. Tema que o preocuparia por toda a vida. Da experiência seguinte, em Florianópolis, onde estudou num colégio de jesuítas, Osny, avesso às coisas da religião, pois desde muito cedo abraçou o materialismo dialético, manteve a obediência à disciplina, o respeito às leis e o grande talento para a argumentação.
Teve sempre a paixão pela análise de um tema em suas minúcias, em seus múltiplos aspectos: dos problemas mais graves do país, à menor questão pessoal, ele tinha enorme prazer em produzir em sua letra miúda e correta, que se manteve até o final firme e limpa, o arrazoado, o parecer. Usava a lógica mesmo nas situações mais ilógicas. É uma peça jurídica maravilhosa o seu recurso pedindo promoção por antiguidade ao cargo de desembargador, em pleno mês de setembro de 1968, às vésperas do AI-5, apesar de ser o número 21 da lista dos cassados pelo golpe de 1964 e se encontrar em disponibilidade. Invocava a lei mesmo quando a lei se esgarçava, quando a lei era apenas um simulacro de lei. Era um grande advogado e a gente, vendo com o olhar de hoje, não pode deixar de rir, da esperteza com que esgrimia, na sua implacável argumentação, os mesmos instrumentos que o regime da exceção tinha criado, para defender a causa de um dos inimigos daquele mesmo regime. E isto é também uma amostra de seu enorme talento para a ironia.
A inteligência aguda, o raciocínio lógico, preciso, usou-os sempre em favor do Brasil. Era um daqueles que, ao abraçar uma causa não cresce com ela, e acaba por fazer-lhe sombra, ao contrário, preferia atuar nos bastidores. Assim foi sua ação assessorando as subcomissões na Constituinte de 1988. Durante a homenagem que lhe prestou o Congresso Nacional, em julho de 1989, Lysâneas Maciel disse que Osny Duarte Pereira tinha sido um dos mais prolíficos e competentes constituintes. Constituinte ad hoc, pois, segundo levantamento do INESC, mais de cem das emendas subscritas por deputadas da bancada nacionalista, foram literalmente proposta por Osny. Seu discurso de agradecimento é ainda uma profissão de fé aos ideais por que sempre lutou.
"O imperialismo impede a análise da dívida externa, apodera-se do resto dos serviços bancários, impõe o pagamento pontual dos juros de uma dívida ilegítima, contraída em clima de cumplicidade. Raspa os cofres públicos, impondo, pela inflação, a proletarização definitiva da classe média e leva multidões ao desemprego e à miséria. Desmantela o ensino, os hospitais, a previdência e em contraste com salários altíssimos para os setores de direção e lucros fabulosos dos bancos e dos cartéis. O imperialismo favorece a guerrilha urbana dos desesperados e das vítimas dos aproveitadores do narcotráfico, com o derrame do ouro para enxugar o dinheiro das fortunas ilícitas."
A coerência é a marca de toda a sua vida. A vasta obra impressa que deixou, desde o Direito Florestal Brasileiro, em 1951, passando pela sua contribuição ao ISEB, e pelos livros publicados sob pseudônimo durante o regime militar, apresenta como uma constante o compromisso permanente com a defesa dos interesses e das riquezas do seu país. Ao longo dos 88 anos em que viveu, Osny Duarte Pereira teve um único partido. Como ele mesmo disse uma vez, o seu partido era o de Tiradentes, era o partido do Brasil.