Em defesa do Brasil (30/6/12)

No próximo dia 5 de julho, às 18 horas, a Associação Brasileira de Imprensa e o Centro de Memória Osny Duarte Pereira, promovem no Rio de Janeiro solenidade comemorativa do centenário do grande brasileiro que foi Osny Duarte Pereira. A iniciativa coordenada pelo presidente da ABI, Mauricio Azedo e pela viúva de Osny, sua segunda mulher, Kátia do Prado Valladares, certamente reunirá amigos, admiradores e familiares na merecida homenagem a esse homem que dedicou a vida a defender o Brasil.

Tive o privilégio de conviver com ele, pois fui casada com seu filho Cesar Duarte Pereira, pai do Chico Bento. Ao longo daqueles anos, Osny foi um amigo, um protetor e um interlocutor admirável. Ao lado de dona Edy, sua primeira e adorável mulher, cercado por filhos e netos, nos tantos encontros familiares, sua personalidade inteligente, divertida, sua conversa pontuada por uma ironia benfazeja, criavam momentos encantadores que ficarão sempre na minha memória como únicos e especiais.

Alguns anos depois da morte de dona Edy, a entrada em sua vida da bela filha de Clarival do Prado Valladares, (tão bela que chegou a ser Miss Elegante Bangu, em 1958), trouxe ânimo novo para a continuação dos trabalhos a que dedicou a vida. Juntos, Kátia e Osny organizaram os arquivos que, depois de sua partida, deram origem ao Centro ODP. Kátia trouxe também o charme de quem vinha do mundo das artes, sem nunca ter deixado de lado os idéias da jovem militante de organizações de esquerda dos anos 1960. Seu aniversário de 50 anos foi comemorado, ao lado de Osny, em uma festa maravilhosa no sitio de Burle Marx, a quem Kátia chamava de tio Roberto, pois fora o melhor amigo do seu pai.

Presto aqui minha homenagem a Osny Duarte Pereira, reproduzindo artigo que publiquei no Jornal do Brasil, quando de seu desaparecimento em 23 de outubro de 2000.

Osny Duarte Pereira começou a morrer quando a vista lhe faltou. Vista de olhos míopes que brilhavam vivos, inteligentes e pequeninos, por trás das lentes grossas dos óculos de grau. Vista de míope que, junto com a asma, o acompanhava desde a primeira mocidade e, com o apoio da qual, construíra sua obra de cientista político e homem das leis. Desde o primeiro jornal escrito no grupo escolar onde passou a infância modesta na pequena Itajaí, no interior de Santa Catarina, o menino de remota origem judaica, já se exercitava nas grandes questões sociais. Tema que o preocuparia por toda a vida. Da experiência seguinte, em Florianópolis, onde estudou num colégio de jesuítas, Osny, avesso às coisas da religião, pois desde muito cedo abraçou o materialismo dialético, manteve a obediência à disciplina, o respeito às leis e o grande talento para a argumentação.

Teve sempre a paixão pela análise de um tema em suas minúcias, em seus múltiplos aspectos: dos problemas mais graves do país, à menor questão pessoal, ele tinha enorme prazer em produzir em sua letra miúda e correta, que se manteve até o final firme e limpa, o arrazoado, o parecer. Usava a lógica mesmo nas situações mais ilógicas. É uma peça jurídica maravilhosa o seu recurso pedindo promoção por antiguidade ao cargo de desembargador, em pleno mês de setembro de 1968, às vésperas do AI-5, apesar de ser o número 21 da lista dos cassados pelo golpe de 1964 e se encontrar em disponibilidade. Invocava a lei mesmo quando a lei se esgarçava, quando a lei era apenas um simulacro de lei. Era um grande advogado e a gente, vendo com o olhar de hoje, não pode deixar de rir, da esperteza com que esgrimia, na sua implacável argumentação, os mesmos instrumentos que o regime da exceção tinha criado, para defender a causa de um dos inimigos daquele mesmo regime. E isto é também uma amostra de seu enorme talento para a ironia.

A inteligência aguda, o raciocínio lógico, preciso, usou-os sempre em favor do Brasil. Era um daqueles que, ao abraçar uma causa não cresce com ela, e acaba por fazer-lhe sombra, ao contrário, preferia atuar nos bastidores. Assim foi sua ação assessorando as subcomissões na Constituinte de 1988. Durante a homenagem que lhe prestou o Congresso Nacional, em julho de 1989, Lysâneas Maciel disse que Osny Duarte Pereira tinha sido um dos mais prolíficos e competentes constituintes. Constituinte ad hoc, pois, segundo levantamento do INESC, mais de cem das emendas subscritas por deputadas da bancada nacionalista, foram literalmente proposta por Osny. Seu discurso de agradecimento é ainda uma profissão de fé aos ideais por que sempre lutou.

"O imperialismo impede a análise da dívida externa, apodera-se do resto dos serviços bancários, impõe o pagamento pontual dos juros de uma dívida ilegítima, contraída em clima de cumplicidade. Raspa os cofres públicos, impondo, pela inflação, a proletarização definitiva da classe média e leva multidões ao desemprego e à miséria. Desmantela o ensino, os hospitais, a previdência e em contraste com salários altíssimos para os setores de direção e lucros fabulosos dos bancos e dos cartéis. O imperialismo favorece a guerrilha urbana dos desesperados e das vítimas dos aproveitadores do narcotráfico, com o derrame do ouro para enxugar o dinheiro das fortunas ilícitas."

A coerência é a marca de toda a sua vida. A vasta obra impressa que deixou, desde o Direito Florestal Brasileiro, em 1951, passando pela sua contribuição ao ISEB, e pelos livros publicados sob pseudônimo durante o regime militar, apresenta como uma constante o compromisso permanente com a defesa dos interesses e das riquezas do seu país. Ao longo dos 88 anos em que viveu, Osny Duarte Pereira teve um único partido. Como ele mesmo disse uma vez, o seu partido era o de Tiradentes, era o partido do Brasil.

A culpa é sua (23/6/12)

A vida é difícil. Mais difícil para uns, mais fácil para outros. As respostas que você dá a esses desafios da vida é que definem o seu destino. A capacidade que você tem de aprender com essas provas, com seus erros e acertos diante das dificuldades é que garantirão seu sucesso ou seu insucesso.
 
Mas tem gente que atribui tudo o que deu errado na sua vida a causas externas. O ex-marido opressor, a ex-mulher preguiçosa, os pais ignorantes, o governo injusto, os amigos desleais, a falta de oportunidades, etc. Etc. Etc. 

Conheci muita gente assim. Um amigo brilhante, cuja carreira acadêmica estacionou em determinado momento atribuía todos os seus azares à ex-mulher da qual estava separando há anos. Segundo ele, ela era preguiçosa e não cuidava bem dos filhos, por isso ele tinha que sacrificar parte do tempo que deveria dedicar aos seus trabalhos à educação e ao lazer das crianças. No começo, a gente acredita, consola o amigo por essa infelicidade para só depois ir vendo que ele, na verdade, por insegurança ou por algum tipo de mecanismo de auto-sabotagem não conseguia mesmo terminar seus trabalhos. Os textos que escrevia eram feitos e refeitos inúmeras vezes, quase sempre inviabilizando a publicação pois ele nunca os considerava terminados. As revistas e livros em que deveriam figurar acabavam saindo sem seus artigos que lhes dariam mais qualidade mas que não puderam ser incluído porque o autor, no último momento, pegou o texto de volta para novas modificações.

Era uma pessoa generosa e realmente agradável mas seus queixumes com relação às injustiças da vida, a maneira como x ou y o tinham desconsiderado em retribuição às tantas atenções que ele lhes tributara, acabavam por cansar os amigos. Suas mágoas profundas por coisas banais eram uma forma de imaturidade desconcertante pois faziam contraste com uma inteligência privilegiada. Conhecendo-o passei a acreditar no que chamam de inteligência emocional. Quer dizer a pessoa pode ser um sábio, um pensador sofisticado mas, no quotidiano, na relações pessoais, é carente, imaturo e acrítico.

Acrítico no sentido de não fazer uma auto-crítica, não ser capaz de aprender com a experiência. De estar sempre repetindo os mesmos erros. Atitude de quem não se conhece, de quem não é capaz de rever suas ações de uma perspectiva histórica.
De fato, o “conhece-te a ti mesmo” é um esforço que mesmo quem está antenado no que diz respeito a seus atos e pensamentos tem dificuldade de realizar. Só muito tarde a gente é capaz de avaliar o quanto era um jovem arrogante, petulante e pouco generoso. Só muito tarde a gente pode perceber o quanto magoou ou feriu pessoas que não o mereciam. Só muito mais tarde a gente é capaz de avaliar uma situação em que esteve envolvido e da qual se considerava vítima para se dar conta que não era tão vítima assim. Que o que recebia era na verdade o troco pelas suas atitudes de algoz do outro em matérias em que aquele não tinha a sua força. Mas acho que para a maior parte das pessoas essa luzinha nunca pisca.

Se para os arrogantes é assim, para os que têm complexo de vitima não é diferente. Pessoas que foram mesmo vitimas de maus-tratos na infância e que se comprazem em relatar esses maus-tratos como uma forma de conquistar a simpatia ou a piedade dos outros acabam vendo nesses relatos formas de também justificar seus erros. Mulheres que vivem casamentos tumultuados que alugam o ouvido das amigas para falar durante horas do marido e do quanto estão decididas a se separarem e que nunca se separam. Pois na verdade não sabem o que é que faz com que elas tenham uma dependência doentia daquele tipo de relação. 
 
Na verdade isto é mesmo um tipo de loucura. Um subterfúgio que a mente inventa para permitir que se continue no mesmo lugar, repetindo os mesmos movimentos. Soube de um rapaz que, já formado, tinha começado uma carreira no exterior quando foi diagnosticado como um caso que nem aquele do filme “Uma mente brilhante”. Ele vive hoje nas ruas com uma placa em que explica estar pedindo esmolas porque é uma vitima das políticas econômicas dos governos passados. Todo o mundo que o conhece sabe que os governos passados que fizeram de fato mal a muita gente, não tem responsabilidade, pelo menos direta, no caso dele. 

Outro conhecido nosso, um músico, quando encontra velhos amigos se queixa da dificuldade de arrumar trabalho. Na verdade ele está chegando aos 60 anos sem nunca ter trabalhado nem como músico nem como nada. Vive às custas da família que, há muito tempo, o vê como um caso perdido. Mas ele não, ele que nunca entrou em uma banda sem se desentender com os demais, que conseguiu estragar apresentações fundamentais porque, em pleno palco, resolvia discutir bobagens, constrangendo os colegas diante do público, ele acha que está no flagelo por causas externas a ele. E desenvolveu até uma forma de dividir a humanidade entre os bacanas, talentosos mas que estão ferrados por conta de dificuldades alheias às suas vontades, e os outros, os que fizeram alguma armação para se dar bem e se deram, mas que não têm o mesmo talento.

O tempo vai castigando a alma dessas pessoas e a amargura com as frustrações é um componente que passa a fazer parte de sua natureza. Um tipo de revolta, irritação e desgosto que se traduzem em um afastamento do mundo, na falta de vontade de encontrar quem teve destino melhor, no esforço para não ver na trajetória diversa da sua, o reflexo de seus equívocos. Ainda mais quando o saldo em termos de vida já é muito inferior ao que se teve de crédito. Não dá nem para dizer que vale à pena o sujeito se tocar que a culpa foi, em grande parte, dele. Pode ser que seja apenas a ilusão do contrário que os ajude a continuar vivendo. 

Trabalho de encomenda (16/6/12)

Não sei quem me contou. Mas sei que não foi Fausto Nilo. A história de que ele e Alceu Valença conversavam em um bar do Baixo Leblon em meados dos anos 1970s. Alceu falava de quanto não gostava de trabalhar por encomenda, que o trabalho por encomenda sempre resultava medíocre, que não era nunca a expressão verdadeira da alma do artista. Fausto, que discordava daquela maneira de pensar, teria então indagado: "Ô, Alceu, você já foi na Capela Sixtina? Viu aquelas pinturas do teto? Achou bacana? Pois bem, aquilo tudo foi feito por encomenda".

Adoro repetir essa história pois ela combina bem com a minha visão do trabalho. Um trabalho feito por encomenda pode começar bem aborrecido, pode começar sem muita paixão, mas se for algo de acordo com a sua competência e com os seus talentos pode resultar em algo realmente bom e bem realizado. Eu já fiz muito trabalho por encomenda. E, de quase todos eles, me orgulho. O trabalho de pesquisa tem esse aspecto da descoberta que faz com que você vá se envolvendo a cada nova revelação, que vá aprendendo na medida em que o desenvolve. Na verdade, um trabalho assim é bem mais estimulante do que quando me pedem para escrever sobre algum assunto sobre o qual já escrevi muito. Aí é duro achar um gancho para tirar dali algo novo e interessante - para mim - e que me dê a sensação de estar produzindo e não me repetindo.

Muita gente boa, aliás, começou trabalhando por encomenda. Começou escrevendo para atender a uma demanda do jornal. Como naquele filme com o Montgomery Clift, "Miss Corações Solitários", em que ele é obrigado a escrever uma coluna sob esse título, respondendo a cartas de leitoras e leitores solitários ou, de alguma forma, desfavorecidos. Ele acaba se envolvendo tanto com aquele trabalho que passa a sofrer o sofrimento dos seus missivistas e começa ali sua carreira jornalística.

Dizem que o Borges começou fazendo textos para publicidade e que isto foi um grande estímulo para a sua criatividade. Norman Rockwell fez sua carreira inteira desenhando as capas da Saturday Evening Post, e, certamente muitas das coisas geniais que desenhou foram sugeridas pelos editores.

Ser provocado é bom. Ser obrigado a enfrentar uma tarefa que você não imaginava fazer, acaba sendo estimulante e revelando a você qualidades que nem imaginou que tinha. É como quem nunca coordenou um trabalho de equipe e, tendo que fazê-lo, se descobre com a maior capacidade para gerenciar, para ordenar e para inspirar o trabalhos dos seus liderados.

Muitas carreiras são na verdade fruto de acasos assim. Seu sonho era trabalhar com psicologia, mas apareceu uma oportunidade na área de administração. O que você faz? Deixa passar e diz que está esperando uma colocação na sua área ou pega e faz uma tentativa? Oportunidades são como os cavalos encilhados da frase do Getúlio Vargas: "sou um homem das oportunidades. Se um cavalo passar encilhado na minha frente, eu monto". Ou seja, não é toda hora que passa um cavalo encilhado na nossa frente e é preciso estar atento para não deixá-lo passar e ficar na beira do caminho esperando o resto da vida pelo próximo.

Na verdade, essas escolhas tão minuciosas só podem ser feitas por uns poucos privilegiados. Aqueles bem nascidos que sempre tiveram quem pagasse suas contas. Aqueles que podem se dar ao luxo de ver passar tudo o mais na sua frente pois não têm que correr atrás de recursos para a própria subsistência, aqueles que podem adiar eternamente a entrada no mundo dos adultos. Aí o sujeito começa um curso universitário e, logo nos primeiros dias, acha que não tem nada a ver. Muda para outro mas descobre que também não tem graça nenhuma. Vai para um terceiro e, talvez, só aí se dê conta de que a universidade, na verdade, não tem graça nenhuma, é a continuação da escola com a desvantagem de que agora não tem ninguém para te cobrar nada. Tem as calouradas, chopadas e o movimento estudantil mas o dia a dia na sala de aula é monótono e repetitivo. Como será monótono e repetitivo o dia a dia em qualquer emprego que você tiver. Mesmo os mais criativos.

Tive um amigo músico que fazia uma carreira relativamente bem sucedida como baixista, acompanhando os cantores mais famosos e que, um belo dia, largou tudo para estudar informática e conseguir um emprego fixo. Quando lhe questionaram, ele disse que o cotidiano do músico era tão ou mais fatigante e repetitivo que qualquer outra atividade. Com a desvantagem que não tinha nenhuma das garantias trabalhistas.

Naturalmente que esse meu amigo era ainda relativamente jovem e podia recomeçar. Às vezes uma vida inteira passada em trabalhos irregulares inviabiliza a entrada em um trabalho regular. Aos cinquenta anos, sem nunca ter passado um dia em uma sala diante do computador trabalhando, vai ser muito difícil conseguir suportar começar. Tudo o que pareceu penoso aos vinte anos na universidade, ou aos trinta no emprego da Petrobras e que você jogou para o alto, será infinitamente mais penoso quando você tiver vivido uma vida de trabalhos alternativos.

Vendo tantas trajetórias assim, a gente teme pela dos nossos filhos. Filhos cada vez mais mimados, filhos aos quais nada pode faltar: carro, celular, internet, telefone, dinheiro para o lazer... Filhos que não tem que prestar conta de nada e para os quais os genitores são apenas uns maçantes e intrometidos que só merecem alguma atenção quando a grana acabou e eles precisam de um suplemento.

Aí é preciso coragem para dar um sacode na relação, estabelecer limites, lembrar que quem paga a conta é você e que você tem todo o direito de exigir uma contrapartida. Um trabalho de encomenda. Seja um mestrado ou um concurso público. Um trabalho monótono, exaustivo e tedioso mas que, ao final vai resultar em algo do qual seu filho acabará por também se orgulhar.

Mundo véio sem porteira (2/6/12)

Diz o dito popular que "homem ou muito lido ou muito corrido". Quer dizer, ou dono de vasta cultura e muito viajado. Evidentemente que a frase de um tempo em que só os homens liam e viajavam vale hoje também para as mulheres.

Viajar é bom, conhecer novos lugares, outras culturas, outros costumes. Sem dúvida se aprende muito. Eu tenho viajado. Não tanto como minha irmã, Clélia que já foi até à China e que todos os anos percorre o sertão do Ceará com seus alunos em um ônibus da UFC. Faz parte das atividades do curso de Geografia que ela ministra lá. E eu sempre sonho que um dia vou também. Pois não conheço nada do Ceará, além de Fortaleza e de seus arredores. Depois que nasci só visitei Sobral duas vezes e muito rapidamente.

Fui uma vez a Juazeiro e, na infância, ia sempre ao Canindé. Uma vez, ainda na infância fomos a Cajazeiras visitar o meu avô, Piano, pai da mamãe. No final da adolescência estive em Madalena, pequena vila de Quixeramobim, lugar seco que só mas que no entardecer tinha uma beleza singela e melancólica. Como aliás, o entardecer no Camará, sitiozinho modesto, perto do Euzébio em que passamos os finais de semana da infância.

É muito pouco. É quase nada. Ainda mais para quem ama a cultura sertaneja, quem é fã dos livros do Leonardo Mota e da literatura regionalista, das histórias contadas por Rachel de Queirós. Quem leu os livros do Lustosa da Costa sobre sua infância e adolescência em Sobral e, por ser muito próxima, pensou até que tivesse vivido aquilo tudo também.

Quem leu no primeiro ano da faculdade "Os sertões", de Euclides da Cunha. Quem foi impregnado pela estética sertaneja que nos alimentou a alma nos anos 1960-70 através do Cinema Novo e do teatro do Oprimido. Quem viu "centas" vezes a montagem de "Morte e vida Severina" no teatro da Emcetur. Então esse Ceará sertanejo meu é pura imaginação. É uma peça literária com alguns elementos de realidade pinçados aqui e ali.

Mas essa falta de estrada pelo sertão se estende também pelo mundo. Pois eu viajei pouco e quando viajo me detenho num único lugar, numa única esquina, sem ânimo para ver tudo que deveria ver e que vão me perguntar se eu vi e que quando eu disser que não vi verei a expressão de pena e decepção no rosto de quem perguntou.

Fazer o que. Questão de temperamento e de falta de companhia. Pois o meu parceiro não é estradeiro. Não tem tanto interesse assim em correr mundo, correr perigo, como diz a música. Por isto, tenho, algumas vezes viajado sozinha, aproveitando a ida a algum congresso para conhecer o lugar. Foi assim que conheci na Guatemala, um lago lindíssimo junto de uma vila em que a população toda ela indígena vendia seus bordados. Foi muito bom ter ido.

As imagens do lugar e, especialmente das mulheres com suas roupas típicas e que são mesmo as que elas usam no dia a dia, compõem uma paisagem inesquecível.

Também viajei só a Madrid, aproveitando uma escala em vôo para Lisboa. Fiquei o final de semana, visitei o maravilhoso Museu do Prado, onde pude estar cara a cara com uns tantos quadros de Bosch e conheci a linda cidade de Toledo. Foi assim também que emendei uma semana de férias em NY após um congresso em Atlanta. Em hotel modesto mas no coração do Greenwich Village. Foi bom? Foi bom. Era uma oportunidade pois a passagem estava paga e eu aproveitei para participar de uma conferencia junto com minha amiga Kirsten Schultz. Como disse acima, viagens ilustram, fazem parte da formação e um dia de visita ao Metropolitan corresponde a um bom curso de história da arte.

Mas das viagens fazem parte as noites que costuma ser bem pouco divertidas quando se viaja sozinha. Nessas ocasiões penso em todos aqueles contos ingleses, do Sormesett Maughan, da Agatha Christie, do Grahan Greene em que a protagonista é uma solteirona inglesa viajando sozinha.

Não dá para entrar na mente de uma criatura tão exótica e tão diferente da gente como um personagem assim mas dá para se indagar como é que elas se sentem diante dessa experiência: Não experimentariam uma certa melancolia? A vontade de conversar com alguém sobre o que estão vendo ou fazendo? O medo de sofrer alguma coisa em um lugar estranho e sem nenhum compatriota por perto?

Talvez não. Vivendo em Paris há alguns meses me dei conta de que as mulheres européias de meia idade estão sozinhas nos seus pequenos apartamentos sem qualquer chance de sair dessa solidão. Faz parte da cultura do lugar não se interessar, nem se meter na vida dos outros. Os vizinhos mal se cumprimentam e os colegas de trabalho, só depois de muitos anos de convívio podem, eventualmente te convidar para um almoço ou jantar. E não fale dos seus problemas no trabalho, no casamento, com os seus filhos ou dos seus achaques se os tiver, pelo amor de Deus, que isto é muito deselegante.

A gente que não esta acostumada, estranha. Acha que é algo contra você. Que seu francês não é suficientemente bom, que cometeu alguma impropriedade, que o pessoal não gosta de brasileiro em geral. Foi o que falei para a minha professora de francês, Enza Palamara, uma italiana de Régio Calábria radicada na França desde os doze anos. Ela me tranqüilizou. Disse que ensinou durante muitos anos em uma universidade e saiu de lá sem um amigo próximo. Não por falta de simpatia ou iniciativa dela que é a pessoa mais amável do mundo.

Mas que, mesmo no prédio em que mora há nove anos, a vizinha de porta nem sequer lhe dava bom dia, tal é o medo das pessoas de estabelecer qualquer relação de familiaridade. Essa coisa tão comum entre nós e tão necessária. Daí talvez, em ambientes assim, ir e vir sozinho seja até uma necessidade pois se você não for sozinho acaba não indo de jeito nenhum. Dizem que, com o tempo a pessoa se acostuma e começa a achar os nossos hábitos muito invasivos. Pode ser. Eu duvido.