Outro dia me pediram para falar da Princesa Isabel em um programa de TV. Isabel não é muito a minha especialidade. As princesas que mais conheço são sua avó, Leopoldina, sua bisavó, Carlota e por decorrência de meus estudos sobre D. Pedro I, sua tia, a rainha de Portugal, d. Maria II. É que nos estudos sobre d. Pedro e sobre sua campanha pela retomada da coroa portuguesa para a filha mais velha, Maria da Glória, coroada como Maria II, encontrei alguns elementos para entender um pouco o que foi a infância dessa rainha que, desde pequena, tinha tendência à obesidade.
Mas conhecia o suficiente sobre Isabel, filha de d. Pedro II e de d. Tereza Cristina, pois estudara uma valiosa coleção de documentos pertencentes a Luciano Cavalcanti de Albuquerque, descendente da Condessa de Belmonte que foi aia de D. Pedro II e cuja família permaneceu estreitamente ligada à família do Imperador. Suas netas forma as amigas de infância de Isabel e da irmã dela, Leopoldina e existem muitas cartas da Princesa Isabel naquele acervo. Também li sobre sua atividade no processo que levou à Abolição, da qual ela saiu glorificada como redentora dos escravos. Já nas vésperas da Proclamação da República, nos momentos que antecederam o embarque da família real para o exílio, as referências a ela são relativas à mãe angustiada, temendo que não houvesse tempo para que os filhos que estavam em Petrópolis pudessem embarcar e para a filha dedicada, como sempre, cercando os velhos pais de atenção e cuidados.
Mas, no geral, a imagem que guardei de Isabel foi a da mulher sem brilho, pouco cultivada, conservadora, muito religiosa e extremamente apegada ao marido. Isabel nascera para ser filha, mãe e esposa, o poder seria para ela um fardo e, nas vezes em que foi Regente ela se ateve ao que lhe prescrevia o ministério. Só saiu fora da linha na última Regência, em 1888 quando agiu ativamente pela Abolição, rompendo com o ministério conservador e pondo em seu lugar os liberais que produziram a Lei Áurea. Mas, mesmo neste momento histórico de grande importância, quem agia mais era a mulher católica, ferrenha defensora da Igreja que, em um pronunciamento público juraria fidelidade ao Papa Leão XIII. Papa que, aliás, a condecorara com a Rosa de Ouro justamente por considerar que, assinando a Lei Áurea, Isabel atendia às orientações da Sé Apostólica.
No ótimo dossiê sobre a Princesa, que a Revista de História da Biblioteca Nacional lançou em maio de 2012 (ano 7, n. 80), artigos de Roderick Barman, Robert Daibert Junior, Pedro Correia do Lago e Augusto de Matos dão conta de aspectos que confirmam essas impressões. Barman chama a atenção para o fato de que a vida de Isabel se moldaria a partir de suas ligações com o pai e o marido, aos quais seria sempre obedientes. Apesar de não ser burra, diz Barman, a princesa não era uma intelectual e não recebera em sua educação qualquer conteúdo que a preparasse para um dia exercer o poder. Conservadora, Isabel considerava essas coisas como pertencentes ao universo masculino.
O conservadorismo da princesa se patenteiam em algumas das cartas dirigidas ao pai em que ela censurará justamente o comportamento excessivamente liberal do monarca. Os exemplos são do livro de Robert Daibert Junior, “Isabel, a Redentora dos escravos”, (EDUSC/FAPESP, 2004) que chama a atenção para carta em que a princesa questiona o pai por ter assistido a uma sessão do Parlamento Italiano, tomando a atitude de D. Pedro II como partidária dos inimigos do Papa. Na mesma missiva, a Princesa também ironiza a visita do pai a uma sinagoga: “Duas coisas não aprovo de sua viagem: esta ida ao Parlamento italiano e o seguir rezas na sinagoga que nem se fosse um judeu!”. Em outra carta, a princesa censurará ainda mais duramente a d. Pedro II pelo fato de ter visitado na Europa a escritora George Sand, “uma mulher de muito talento é verdade, mas também tão imoral!”.
Segundo Daibert, a princesa colocava a obediência à Igreja como prioridade sobre o juramento feito à Constituição. Em defesa da Igreja ela será mesmo capaz de questionar a absoluta liberdade de imprensa que foi uma marca do reinado de Pedro II. No ambiente tensionado que se formou entre a Igreja e a imprensa, antes e depois da Questão Religiosa (1872), ela tomaria claramente a defesa dos bispos contra a Maçonaria e questionaria a liberdade com que um jornal como “O mosquito” satirizava o Papa, os bispos e a Igreja católica de um modo geral. “A constituição também não diz que a imprensa é livre uma vez que não venha a abalar as instituições, a moral e a religião. O que eu estou vendo é que a religião do Brasil vai sendo a maçonaria.”
No final da entrevista, me perguntaram o que eu de fato achava da princesa. Não cedi à tentação de produzir um elogio do personagem. Pois na verdade, quanto mais se conhece Isabel, mais se concorda que, se tivesse reinado não teria sido tão liberal e progressista quanto fora seu pai. Ao contrário, tanto nos costumes quanto na política, sua tendência era muito mais conservadora, e seu excessivo apego à Igreja Católica certamente teria conseqüências políticas. Daí, talvez, também a falta de apoio ao seu reinado tanto do lado conservador, insatisfeito com a Abolição, quanto do lado liberal que via nela a mulher de mente acanhada e conservadora cujo poder na verdade seria exercido pelo marido, o Conde D’Eu.