Vão fazer um filme sobre d. Pedro e o galã escolhido para representá-lo é Cauã Raymond. Acho boa a escolha. Já vi o artista atuando em alguns filmes e ele demonstrou ser bem mais versátil do que lhe permitem as novelas da televisão. A idade e o tipo físico também ajudam. Como d. Pedro começou a reinar muito jovem, com 22 anos e morreu muito cedo com 36, me parece que o Cauã pode facilmente aparentar uma ou outra idade. Vai ser preciso fazer um emagrecimento radical para representar o imperador em seus últimos dias. D. Pedro começou a perder peso já em 1832, nos primeiros meses de sua participação efetiva na guerra contra o irmão, d. Miguel, possivelmente por conta da doença (tuberculosa, agravada pela sífilis, suponho) mas também pela dificuldades que enfrentou no Porto. Mas no geral, d. Pedro manteve sempre boa forma física – apesar da tendência a engordar que herdara do pai – a constante atividade em que vivia e o gosto pela vida militar e pelas cavalgadas garantiram que, quando ele desembarcou na Europa em junho de 1831 fosse descrito como “un fort bel homme”.
Dos retratos que chegaram a nós de nosso primeiro imperador os que, certamente, melhor dão conta da realidade de suas feições são os que foram feitos em Paris. Nas gravuras em que aparece sozinho ou com a filha, d. Maria II e a ex-imperatriz, d. Amélia, o que se vê é um sujeito moreno, de feições um pouco brutas, lábios carnudos e bochechas salientes onde se identificam algumas marcas de varíola. Aliás, a parte debaixo da fisionomia lembra um pouco a de outro galã brasileiro que já o representou: Marcos Palmeira. O mais importante, no entanto é que, ao lado da aparência, o ator consiga captar a personalidade contraditória do imperador. Seu estilo popular, a facilidade com que interagia com o povo das ruas, chegando até a uma certa vulgaridade, o gosto pela anedota, a sensualidade exaltada. Tudo isto associado a uma hiperatividade, a um temperamento autoritário, muitas vezes, irascível, chegando até à violência.
Quem for fazer o filme não vai haver dificuldade para encontrar entre tantas uma bela atriz que corresponda à jovem imperatriz, Amélia, mocinha de 17 anos e de reconhecida beleza. Nem acho que vá ser muito difícil achar alguém para compor a corruptíssima Marquesa de Santos que, apesar de descrita como muito gorda por alguns viajantes estrangeiros, tinha fama de charmosa, sedutora e interessante. A gordura aliás era, no Brasil do começo do século XIX considerada elemento positivo. Dizia-se: dai-me gordura e te darei formosura. Não o era, no entanto, na Europa, especialmente na Áustria, onde d. Leopoldina era muito criticada por sua tendência a engordar. O assunto era sério e da gordura da arquiduquesa até Metternich se ocupava. Daí o alivio de d. Leopoldina quando viu que por aqui a gordura não era mal vista e ela nunca mais se importou com esse assunto. Seu problema é que ao engordar acentuavam-se características negativas de sua fisionomia: o pescoço largo, a papada, os ombros, as bochechas e os lábios grossos. Traços que o mau retratista Debret deixou fixados em um perfil francamente desfavorável à imperatriz.
Mas Leopoldina é mais complexa do que isto. Ela era inteligente, sensível e sofisticada. Tinha uma alma gentil e caridosa e fora educada no ambiente privilegiado do romantismo alemão, convivendo com Goethe e Schubert. Sua ação decisiva em momentos importantes do processo de nossa Independência tanto nos dias que antecederam ao Fico (9 de janeiro de 1822) quanto nos dias em que governou o Brasil como Regente, ocasião em que d. Pedro, estando em São Paulo proclamou a Independência, revelam uma mulher capaz de entender a grandeza e a complexidade do momento que o país vivia e qual o papel que lhe estava destinado naquele contexto.
O que veio depois, a ascensão da mediocridade e do anti-patriotismo representados pela marquesa e seus amigos, em detrimento de Leopoldina e José Bonifácio, provocaram o quase apagamento da imperatriz da cena pública. Circunstância que foi agravada, no plano intimo, pelos sofrimentos, humilhações e agressões físicas de que foi uma vitima quase silenciosa, por estrito sentimento do que considerava como um dever inerente às suas funções como imperatriz e, de certa forma, como representante dos interesses da Áustria no Brasil. Que jovem atriz – pois Leopoldina morreu com 29 anos - seria capaz de ajustar a suposta feiúra, atribuída por alguns, à essa princesa, à delicadeza de seu espírito e à superioridade natural que emanava de sua pessoa?
Mesmo que a maioria não a descrevam como bonita há quem a visto como bela e imponente. A beleza dos seus olhos foi exaltada por outros tantos e seus retratos de juventude, feitos ainda na Áustria a apresentam como uma loira e rosada menina, de aspecto muito agradável. A meu ver a atriz que mais se aproximaria do tipo, por conta dos olhos, dos cabelos e do tom da pele, se não fosse tão magrinha e tão pequena, seria Camila Morgado. Também acho que essa excelente atriz seria capaz de captar o espírito da personagem. Quem sabe se ela não topa engordar uns quilinhos para entrar na pele de Leopoldina?
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